Vocação histórica de Brasília

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Vocação histórica de Brasília
Por J. Guilherme de Aragão

 
Já em 1948, escrevêramos a propósito da interiorização da capital federal, ao comentar o primeiro relatório da “Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil”, então sob a presidência do general Djalma Poli Coelho: “Pela sua magnitude e complexidade, a transferência da capital da República para o centro do país entra na categoria dos problemas nacionais de discussão intermitente, mas de solução cronicamente irrealizada.”

E vinha o exemplo das tentativas e sugestões históricas da mudança; a dos Inconfidentes, em 1789; a de Hipólito José da Costa, no “Correio Brasiliense”; a de José Bonifácio, na “Memória” à Assembléia-Geral Constituinte, em 1823; a de Varnhagen, perante o ministro da Agricultura, Tomaz Coelho, em 1887; a do deputado Virgilio Damásio, representante do Bahia perante o primeiro Congresso Constituinte da República, e conseqüente inscrição no art. 3º. da Constituição de 1891; finalmente, a palavra de ordem do art. 4º. do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, da Constituição vigente, segundo o qual “a capital da União será transferida para o planalto central do país.”

E de toda essa sucessão mais do que sesquicentenária de bons propósitos em favor desse empreendimento invariavelmente considerado como necessário ao progresso do país, só havia, naquele ano de 1948, o roteiro de alguns estudos técnicos e um marco menos metafísico: a pedra fundamental de Planaltina.

Agora que a metrópole interior está sendo edificada, graças ao governo empreendedor e construtivo do presidente Kubitschek, chegamos felizmente a uma histórica fronteira em que mais de século e meio de sonho e aspiração se converte na realidade de Brasília. Coincidência curiosa: mineiros tinham sido os precursores da interiorização da metrópole, no século XVIII; na fronteira, entre o século XIX e o século XX, empreendeu o Estado de Minas Gerais a transferência de sua capital de Ouro Preto para Belo Horizonte; e na segunda metade deste século, é um estadista originário de Minas Gerais que está realizando a empresa histórica da transferência da capital da República para o planalto central.

Afigura-se, então, Brasília, a esta altura, como realização profética dos dois dos maiores sonhadores do progresso do Brasil interior – Hipólito José da Costa e José Bonifácio – ao mesmo tempo que se erige como instrumento novo de vitalização e transfiguração social e econômica do país. Para Hipólito José da Costa, por exemplo, a capital interior tornaria factível lançar “os fundamentos do mais extenso, ligado, bem defendido e poderoso império que é possível que exista na superfície do globo.”

E citava o exemplo de Washington, a pretexto de profligar os derrotistas: “Quanto às dificuldades da criação de uma nova capital, estamos convencidos de que todas elas não são mais do que mornos subterfúgios.” A facilidade com que nos Estados Unidos de América Setentrional se edificam novas cidades, o plano que os americanos executaram de fundar a sua nova capital, Washington, onde não havia uma só casa, mais no centro de seu território, é um argumento tirado da experiência dos nossos tempos, que nada pode contradizer.” Se estas palavras do redator do “Correio Brasiliense” são ainda hoje válidas tanto no seu aspecto construtivo em que pretende esmaltar a significação do empreendimento da capital interior como na parte dialética de combate a seus opositores, as de José Bonifácio ressoam como súmula doutrinária atualíssima.

Começa ele na sua “Memória” à Assembléia Constituinte e Legislativa do Brasil, em 1823: “Parece muito útil, até necessário, que se edifique uma nova capital do Império no interior do Brasil para assento da Corte, da Assembléia Legislativa e dos Tribunais Superiores, que a lei determinar.” E vem agora a denominação profética da nova metrópole: “Esta capital poderá chamar-se Petrópole ou Brasília.”

Quanto às razões da transferência, menciona-as sob vários aspectos. Assim aduz quanto à defesa nacional: “sendo ela (a capital) central e interior, fica o assento do Governo e da legislatura livre de qualquer assalto ou surpresa feitos por inimigos externos.” Expende argumentos de redistribuição demográfica no interior: “Chama-se para as Províncias do Sertão o excesso da povoação sem emprego das cidades marítimas e mercantis.” Prenuncia a nova capital como centro ideal irradiador de vias de comunicação tal como está sendo orientada agora na fase prática de realização: “Como esta cidade (Petrópole ou Brasília) deve ficar, quanto possível, eqüidistante dos limites do Império, tanto em latitude como em longitude, vai-se abrir deste modo por meio das estradas que devem sair deste centro como raios para as diversas Províncias e suas cidades interiores e marítimas, uma comunicação que de certo criará, em breve, giro de comércio interno da maior magnitude, visto a extensão do Império, seus diversos climas e produções.”

Há ainda razões de ordem política da época, como a rivalidade entre cidades litorâneas decorrentes do direito de sede da Corte, deferido ao Rio de Janeiro. Finalmente, sugere o Patriarca, os meios financeiros de edificação da nova capital, consignando efusiva confiança pela concretização da magna obra: “Em suma, nunca faltam meios quando um povo rico e generoso, como o brasileiro, toma a peito empresas de honra e utilidade nacional.”

Dir-se-á que todas essas afirmações ora surgem redivivas apenas com algumas modificações estilísticas ou simples substituição de termos como “Império” por “República”, “Província” por “Estado”. Impressionante é verificar, numa análise de substância, que a edificação de Brasília responde a velhos anseios dos construtores da pátria brasileira e, projetando-os à distância, na segunda metade do século XX, abre caminho para a edificação do grande Brasil, em nossos dias.

Neste ponto de refração da História, Brasília já está impelindo o país para um plano eminente de evidência externa como para uma posição, no âmbito interno, de centro de propulsão nacional, tal como a anteviu José Bonifácio. Quanto ao primeiro aspecto, é do conhecimento geral o interesse e a admiração que em todo mundo vem despertando a façanha da construção da nova capital. Quando, em setembro de 1957, estivemos nos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, choveram as indagações sobre tão apaixonante empreendimento. Bolsistas brasileiros que chegam da Europa trazem a nova de que Brasília é assunto corrente do homem de rua.

Arquitetos e artistas de países americanos e europeus incluem Brasília entre as novas maravilhas de nosso tempo.

E para completar, um congresso de arquitetura em Leningrado acaba de encerrar-se com um voto coletivo de visita à nova capital do Brasil, depois que os participantes exaltaram Brasília e a arquitetura brasileira.

Com tamanha evidência não apenas internacional, mas ainda mundial, Brasília está conquistando para o país surpreendente atração turística, justificável, aliás, por dois motivos. Em primeiro lugar, oferece espetáculo único em todo o mundo, pois não há noticia de país algum, na face da terra, a construir e transferir, neste momento, sua capital.

O empreendimento, já por si raro e singular, constitui convite fascinante à inteligência humana. Em segundo lugar, a arquitetura da nova capital submete qualquer espírito, avançado ou mesmo retrógado, a um impacto de espanto. É o perfil arrojado e imprevisto da cidade do futuro que surge vaporosa, funcional, como um desafio à arquitetura convencional, que nos persegue em toda grande cidade de construção tradicional.

É assim que, se pela projeção externa que já alcançou, Brasília é bem o símbolo do novo Brasil, dinâmico e empreendedor; do ponto de vista interno, afirma-se como centro de propulsão para outra obra não menos grandiosa, a de acelerar o progresso econômico e social do país.

É o que veremos proximamente.

(Transcrito de “O Jornal”, 21/8/1958)

 


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