Vivendo no vazio

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Vivendo no vazio
Por Conceição Freitas

Me contaram que, bem no começo, Brasília adoecia de solidão. Chorava doidamente a falta da família, dos endereços, das ruas, das esquinas e a multidão de vazios. A cidade era tão oca de volumes e coisas e objetos, tão distante das imperfeições e feiúras que deixava órfãos de referencia do sentido de cidade todos os que aqui chegavam. Parecia que todos ali estavam construindo uma imensa cidade ideal feita nos moldes da eternidade.

Com o tempo, Brasília foi se sujando de cidade, perdendo a perfeição e se transformando em abrigo de humanos e, portanto, abrigo de imperfeitos e imprevisíveis. Os imensuráveis tapetes vermelhos foram ficando verdes de grama. Mais adiante, os pedestres foram marcando o lugar de passagem no verde da grama. Cada grama roída de sapatos indicava que a nova capital estava sendo verdadeiramente ocupada pelos homens.

Nada, porém, que vença o vazio de Brasília. A cidade se estende ao infinito – mesmo com 2,6 milhões de habitantes, ela ainda é um deserto recortado de vias e rodovias. Por mais cheia, a invenção de dr. Lúcio é vazia. Mas, ao mesmo tempo em que é uma cidade cheia de espaços desprovidos de sentido, ela é uma cidade de sentidos à flor da pele. Cada traçado, cada obra de arquitetura é plena de significados. Tudo, até o vazio, tem uma razão de ser. As áreas despovoadas e não construídas fazem reverencia ao horizonte, ao céu e à arquitetura. Na escala do corpo humano, porém, os vazios são um deserto a ser vencido ou temido.

Quando vim pela primeira vez a Brasília, adolescente, saí de Taguatinga para o Plano Piloto. Foi uma viagem cercada de eucaliptos num dos lados. Percorri o vazio em busca da nova capital. Foi tanto o tempo que o vazio foi se alojando dentro de mim, silenciando minha ansiedade e me fazendo esquecer aonde eu estava indo e de onde eu estava vindo.

Daí que eu acredito que o brasiliense trouxe o vazio para dentro de si. Quem veio para cá e nunca mais saiu foi sedimentando um gosto pelo silêncio, pela organização espacial, foi se transformando num habitante de cidade do interior. Foi se desacostumando da idéia de cidade grande.

O brasiliense do Plano Piloto e das demais áreas nobres perdeu o jogo de cintura que é preciso ter para se enfrentar uma metrópole como todas as do planeta. O vazio nos tirou um pouco do jeito de lidar com os imprevistos, as diferenças, desorganização, o barulho, o auê de uma grande cidade. Os vazios de Brasília e os cheios muito organizados nos afastaram do mundo real. E isso não é nada bom.

Crônica de Conceição Freitas transcrita do Correio Braziliense,
Caderno de Cidades, “Crônica da Cidade”, 11 de fevereiro de 2010

 


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