Viagem ao Sertão do campo aberto

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Viagem ao Sertão do campo aberto
Por Ana Miranda
 
Irás a pé, ou a cavalo, a redescobrir a Cidade Perdida dos Pirineus. Cruzarás a vasta distância de Porangatu, pousarás na serra do Estrondo e de manhã rezarás na igreja fechada e cheia de mofo. Irás ao Campo de Fora contemplar as bailarinas de Paraúna na serra da Galera, a um encontro com o capitão Urbano do Couto, já morto, seguirás o mapa mágico de Francisco de Bulhões no roteiro de enganações do Goiás verdadeiro. E te banharás na água tépida do rio Pilões do Calhamaro, então te levarão os sinos à velha vila de Jaraguá cheia de assombrações. Passarás pela pedra do Bisnau, pela serra da Mesa Digital onde as vacas comem margaridas no capim, rodearás as margens da lagoa encantada de Santa Brígida e chegarás à serra do Tucunzal. Voarás sobre São Félix de Cantalício coberto de pós de ouro espalhados pela velha fundição para enfeitar teus silêncios, depois, Pirenópolis, Corumbá, Vila Boa dos Goyá, romarias do sertão.

Na estação de águas bojudas serás encantado pelos tilintares de índias goianas, então te sentirás solto no mundo, na serra do Acaba-Vida, em Guacorumbá a mastigar segredos dos mortos, e chegarás a Goiânia, deitarás no colchão de palha no rio dos Macacos, e te tornarás indecente. Perderás a inocência debruçado à janela sobre o lago de Brasília, serás como um buriti solitário, entre os segredos das montanhas de pedra e os tesouros de Altamiro, verás o ouro no porão de Cora Coralina, e em Serra Dourada, branca e verde cidade cravejada de colinas, verás um casal de amantes aos beijos.

O rio é de sangue e a menina é da rua do Fogo. Janeiros, fevereiros, e irás procurar as cigarras da W-3, onde estão? Quem pedirá pelas chuvas? Irás ao Gama perguntar: que flor há no Gama, que arrepia, entontece e desama? Caminharás entre os velhos lobos do Planalto, na esfinge chamada Brasília, pois viver em Brasília é viver em lugar nenhum. Mas inundarás Brasília de amores, e libertarás Brasília ainda que tarde, e sairás pela antiga Asa Morta, rodearás fogueiras e brasas no fogão e beijarás mulheres excitadas com doce de goiaba e tocarás nos ásperos tecidos dos teares, voltarás a ser o menino com os olhos limpos de agudezas, a ver dinossauros nos cerrados, onde findam os lugares e todos andejam à volta do estorvo de Tatarana sem saber o lugar exato, se a grota, se o paredão, se cachoeira, se abrolhos…Farás o impossível desvio do ribeirão de Orontes, ficarás velho na foz do rio Brumado com o ribeirão do Inferno, mas amarás, no lugar dos Crixás, treze índias novas e gostosas, e morrerás de saudades daquela índia que te chupou nos densos sertões do Piriripau. Estarás pasmado no rio dos Pasmados, rolarás nas águas do Matamata, casarás, na capela do rio do Peixe, com Tutuca flor de jambo, cor de cuia e de maracujá, libertarás os negros do arraial do córrego do Jaraguá, Pontes Vedras, serra Juratenses. Dirás adeus ao cisne da cristaleira de uma avó, encontrarás Maria Camarga encarnada numa negra, corça de cabelos anelados pelas costelas nuas, e em Santa Luzia das Marmeladas entrarás numa velha casa fria sem luzes e janelas oclusas e almas de penumbras, comerás o rendilhado verde dos pequis, e em Arraias verás Sinh’Ana capetuda, viverás as dimensões eróticas, apaixonado pela musa do Paranã, pela deusa africada de canela fina e peitos pontudos, pela mulher que quebra um copo na cozinha, por Maria Rosa vadia na sua dança cigana, pela Senhora dos Pequenos Pés. Amarás como os índios se amavam na caatinga, o amor das senzalas, o amor dos quintais.

E no sertão das Terras Novas viverás livre na solidão de calunga. No final do teu caminho verás a lua desfeita em quartos, como ladra de estradas, e na fazenda do Assombrado ouvirás os latidos dos sapos-cães, que fugirão para o lago Paranoá. As vacas berram, o incêndio vira ouro na chapada, no Couto do Linhares tudo se cala, cala-se o pilão d’água, pois sentarás à varanda a tomar um café com Bernardão Élis, a conversar sobre a tal seleção eletiva, e que não existem nem mais ninfas nem Oréades no cerrado, nem Náiades a se aninhar nos musgos, e só restará a cada ano fazer roça, fazer roça, e coitadinho de São Bento das Cobras, todo mundo te esqueceu…

Chega outubro com outro vinho, outras flores, outras neblinas, o sertão vai morrer, e chove, ó chove, a estação dos bálsamos abre sua fechaduras e não morrerás nunca, porque nesse mundo de poesia os rios correm morro acima. Teu guia, pelo livro de poemas do Paulo Bertran, o encontrador de nomes, será a mão de uma Graça, pelas entranhas de uma Brasília incorpórea, Brasília-do-céu, Brasil-de-anil.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 15 de janeiro de 2012

 


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