VEIO, VIU, VENCEU

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VEIO,
VIU,
VENCEU

Por Conceição Freitas
 
Taguatinga não estava no mapa, mas ela se impôs nas pranchetas dos urbanistas pela insistência dos brasileiros que queriam aproveitar, um cadinho que fosse, da utopia que estava sendo construída. Veio, viu e venceu. Mas, para vencer, construiu uma estratégia de deixar Juscelino sem saída. Aquela que todo taguatinguense conhece: para comover o presidente da República, os sem-terra daquele tempo ocuparam uma área próxima à Cidade Livre e deram a ela o nome de Sarah Kubitschek.

Naquele 1958, os nordestinos estavam enfrentando uma das piores secas da história. Sabedores de que Juscelino estava construindo uma nova capital, eles desceram em grandes levas para o Planalto Central, mas foram barrados na porta de entrada, onde hoje é o começo do Núcleo Bandeirante (de quem vem do Plano). Israel havia mandado fechar as entradas da cidade, assustado com a chegada ininterrupta de paus de arara superlotados de nordestinos. Era pouca Brasília para tantos brasileiros.

Às pressas, Lucio Costa esboçou uma cidade-satélite – a primeira -, mas os novos candangos não sabiam esperar, não podiam esperar o planejamento do urbanista e a vontade de Israel. Cerca de três mil brasileiros recém-chegados a Brasília, que se amontoavam em barracas de saco de cimento, pedaços de madeira velha, de folhas de zinco, fizeram uma manifestação histórica, na noite de 5 de junho de 1958, no restaurante onde Juscelino iria jantar, na Cidade Livre.

JK não foi e Israel mandou Ernesto Silva enfrentar a multidão. “Subi num caixote de madeira e falei com os manifestantes”, lembra doutor Ernesto. Eram homens e mulheres agitados, cansados da peleja, da viagem, da penúria, esperando por Juscelino. “Disse a eles que a Novacap já providenciara a criação de uma cidade-satélite a 25 quilômetros do Plano Piloto.” Marcou nova reunião para o dia seguinte, um domingo. Doutor Ernesto foi e levou a planta da nova cidade – era o trunfo que tinha para acalmar aquela gente com os nervos despedaçados.

Se Juscelino tinha pressa para construir a nova capital, os brasileiros tinham mais urgência ainda para ter um lugar para viver. Aqueles migrantes, a maioria nordestinos fugindo da seca, precisavam desesperadamente de Brasília, mas até àquele 5 de junho de 1958, Brasília não havia pensado que aqueles homens não podiam esperar pelas pranchetas.

Ao longo de 51 anos, Taguatinga repetiu incontáveis vezes o gesto de resistência. Na cidade nasceram movimentos culturais de resistência e contestação – o Teatro Rolla Pedra, o Teatro da Praça, o Mamulengo Presepada, o Detrito Federal, o Bar do Careca, lugares, bandas, trupes, projetos, sonhos de gerações de taguatiguenses para quem a utopia não era exclusivamente do Plano Piloto.

Na intensa e múltipla Avenida Comercial Norte, existe uma loja de R$ 1,99 chamada Shop Jota Ka. É Taguatinga inventando um novo Juscelino, mais popular, mais engraçado, bem menos solene que Brasília. É o jeito taguatinguense de ser brasiliense.

Reproduzida da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense, 5 de junho de 2009.

 


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