URBE RARA

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URBE RARA

Na Capital da Esperança
tange-me a face
o vento adolescente do
Planalto Central.
 
Além da visão de Dom Bosco,
diviso espectros dissonantes
no caleidoscópio de sonhos
de cada candango esquecido.
 
Presa aos vértices da cidade,
a mentira da carne
e os desvarios do poder
implodem o que há de negro
e obscuro
n’alguns homens enviesados,
que deambulam entre
catedrais de ausência
e templos de solidão.
 
Os estômagos do poder,
vísceras psicopáticas
de império e lama,
diluem-se no ácido de seus donos,

enquanto estes afundam-se, soberbos,
em suas histórias insondáveis,
guardadas nos mármores profanos
de imunes castelos.
 
A Brasília de todos os santos
expele o miasma
da carnificina moral
que o parlamento,
        entre estertores e manobras,
esculpe no cotidiano
de desvios.
 
        Brasa, ilha,
        rasa milha,
        fruto de outros sonhos e quimeras,
 
experiência de ruptura e vanguarda,
lispectoriana projeção
de solidão e deslimites,
 
fora dos eixos, ao la(r)go,
no Paranoá violado,
na 109 Sul ou nos guetos do Conic,
 
mais que o risco na prancheta,
cosmoplanáutica invenção,
 
que criou alma, ganhou asas
para angariar cosmos inauditos
além do vôo dos que se sonharam Ícaro,
mas se perderam em Samambaia
ou em mutiladas latitudes.
 
Brasília,
síntese das heterogeneidades
de um país retaliado,
resumo das áfricas
das tribos e minorias,
da ancestralidade inconclusa,
dos atalhos e migrações,
 
        malgrado o estigma
               dos pulhas
 
ainda és fluxo de enigmas
e vertente da voluptuosa marcha dos que,
em aguerrido bandeirantismo,
buscam colher estrelas
e escrever poemas,
                                   resiste, insiste e persiste.
 
contra o tempo e seus estigmas,
inventando estrelas
na semeadura insone dos candangos.
 
Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, natural de Cataguases .
Poema transcrito do livro “Brasília: vida em poesia”

 


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