Um grande sujeito

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Um grande sujeito
Por Conceição Freitas

O admirável Lucio Costa volta e meia me surpreende. Ao contrário de boa parte das surpresas do gênero, as que me são ofertadas pelo arquiteto têm sido positivas, propositivas, inspiradoras e revelam, em escala monumental, a grandeza humana do inventor da cidade. Daí que volto à entrevista concedida ao Jornal do Brasil, em novembro de 1984, em sua primeira visita à cidade depois de 10 anos de ausência.

A cidade que ele reencontra não é a mesma que ele criou, é uma outra, reformulada pelos brasileiros que a ocuparam. Lucio Costa descobre que os setores de Diversões Sul e Norte (Rodoviária/Conjunto/Conic) não são o centro requintado que projetou inspirado no Champs Elysées, em Paris, e no Picadilly Circus, em Londres – “uma coisa meio cosmopolita”. São um centro popular, cruzamento de trabalhadores em trânsito para casa ou para o trabalho, confluência de diversidades. “Eles (os brasilienses) tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha.” Em urbanismo, ele diz, “só há essa realidade, a de que as coisas nunca ocorrem da forma como foram projetadas. A força da vida é mais forte. As coisas sempre se realizam de uma forma diferente”.

Lucio Costa, na entrevista ao repórter Omar Abbud, conta que ficou “apavorado” quando veio a Brasília pela primeira vez. Veio ver as duas picadas abertas para definir o cruzamento dos eixos Monumental e Rodoviário. Ao se dar conta, do ponto mais alto da cidade, da extensão do sítio onde seu projeto de Plano Piloto seria desdobrado, o urbanista ficou em pânico. “O projeto já tinha sido aprovado, mas essa foi a primeira vez que tive contato com o ambiente. Aí foi que senti a escala desmedida. Pareceu-me uma coisa em outra escala, diferente daquela em que eu tinha concebido a cidade, que mentalmente era mais compacta.”

O ano era 1957. Por volta de abril ou maio. Topógrafos e tratoristas já haviam aberto os dois eixos, feridas vermelhas cortando o Cerrado em cruz. “Dali  (da Praça do Cruzeiros) eram vários quilômetros até onde seria a Praça dos Três Poderes. Aquele deserto, aquele cerrado. Fiquei apavorado: ‘Meu Deus, que loucura, onde fui me meter!’.

O reservado Lucio Costa, mais uma vez, se revela inteiramente humano e despojado dos tolos orgulhos que estamos tão acostumados a ver. O urbanista teve medo de que o seu projeto fosse pequeno para a imensidão do Planalto Central, que o traçado se perdesse na grandiosidade do terreno. Foi um pânico em vão. As escalas que projetou para a nova capital ajustaram-se perfeitamente às dimensões do lugar.

O arquiteto desmonta as versões daquela época, até hoje disseminadas, de que as cidades-satélites são favelões rodeando os Três Poderes. Visitou algumas e viu, já àquela época, que elas se resolviam bem, como uma cidade do interior.

A visita a Brasília, 25 anos atrás, revelou a Lucio Costa que, algumas soluções adotadas pela cidade foram opostas às que ele havia pensado (o arquiteto não revelou quais). “Eu estava errado. A solução realizada é que está certa.”

É ou não é um grande sujeito esse Lucio Costa?

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense, de 8/9/2011.

 


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