Um aeroporto vermelho

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”

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