Três poemas de Heitor e outros

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A Alain Robbe-Grillet
 
Eu converso
com minha
adega
com vinhos
          preciosos
Converso
com meu
guarda-roupa
cada camisa
cada calça
é um grande
          papo
Converso
com sandálias
e sapatos
e com minhas
            meias
Não gosto
de gravatas
por isso
deixo-as
escondidas
no covil
das etiquetas
Converso
com o chuveiro
e com o
vaso sanitário
A pia
sem dúvida
é a grande
estrela
do banheiro
Converso
com a estante
povoada
de grandes
      astros
Verdadeiro
universo
de deusas
e Deus
Converso
com as
frutas e
com todas
as manifestações
da natureza
Converso
com o lixo
industrial
com o maior
respeito
Enfim
converso
com tudo
que existe
As pessoas
não são tão
importantes
como pensam
com seus
         egos
monstruosos.
 

CONSISTÊNCIA

À memória de Rubem Valentim
 
Meu lirismo está repleto
de amor
Meu amor consiste em ser fiel
às varrições do mundo
Cada dia ergo uma nova ética
ao momento maior do meu coração
Meu cérebro é uma usina ardente
intransigente com leis
legislando o bloqueio dos homens
Meu código é o poema diário
que escrevo com eles
sejam eles quem forem
Meu poema é um poema vigoroso
porque está farto
de formas esquálidas.
 

PÁSSAROS

À memória de José Godoy Garcia
 
Nunca
deveríamos temer
o nunca mais
 
o desprendimento
nos faz pássaros
voando
 
eternamente
na mente
do cosmos.
 
Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.
Poemas transcritos do livro “O Cão Selvagem”, Siglaviva

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