Testemunhos de fé

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Testemunhos de fé
Por Conceição Freitas

 
Cento e trinta homens, um pouco mais, um pouco menos, ocuparam o silêncio, feriram o cerrado e abriram a clareira onde Brasília começaria a surgir. Muitos deles eram goianos das redondezas, homens que viviam em estado de isolamento amazônico. Alguns não tinham registro de nascimento. Tudo o que sabiam de si mesmos era o apelido e o prenome da mãe. Foram alojados em lonas do Exército, num clarão aberto na Candangolândia, entre outubro e dezembro de 1956.
O homem que faria o pagamento do salário desses primeiros bravos candangos saiu do Rio de Janeiro em 1º. de dezembro de 1956 à frente de um comboio de dez caminhões da Fábrica Nacional de Motores (FNM), a lendária Fenemê. A caravana conduzia a estrutura metálica do primeiro galpão que abrigaria a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. Viagem de 10 dias, por estradas pedregosas que agravaram a colite e maltrataram tanto a coluna cervical do baiano Lauro França Duarte D’Oliveira que ele teve ímpetos de abandonar a tarefa no meio do caminho e voltar para o Rio de Janeiro.
Tinha 24 anos o novo auxiliar administrativo da Novacap, o primeiro encarregado da folha de pagamento dos bravos candangos. Dez dias depois de deixar a beira do mar, Lauro chegou a Goiânia, onde um Bernardo Sayão impaciente o esperava. “Podem ir pra Brasília, podem ir!”, ordenou à exausta caravana de homens e máquinas. Na mesma toada, seguiram até Luziânia, onde a pensão do Juca da Ponte os esperava, e de lá desceram para o que já havia de Brasília: mais ou menos 130 barracas de lona, um pequeno galpão da Novacap e um outro para o restaurante do Saps (Serviço de Alimentação da Previdência Social), ao qual estava anexado um cômodo que servia de consultório e moradia do médico Edson Porto, o primeiro a chegar.
 
Avenida lunar
 
O engenheiro Bernardo Sayão e quatro funcionários da Novacap administravam o inicio das obras da nova capital. Pudesse ser visto do céu, parecia o acampamento de uma expedição a um deserto verde. Era tão vasto o horizonte e tão largo o silêncio que Lauro França jamais se esqueceu do que viu nas primeiras noites na futura capital. Do galpão onde dormia, ele podia admirar ao longe as luzes semoventes de uma avenida lunar. Eram os caminhões trabalhando na terraplenagem da pista do aeroporto. Os faróis acesos, trafegando em linha reta de um lado e de outro, davam a impressão de uma espetacular pista aberta pouco abaixo do céu, muito acima do chão.
Quando começou a fazer as folhas de pagamento dos operários, Lauro França passou por dois apuros. Um deles, o de muitos goianos não terem documentos pessoais, e o outro, o de ter de lidar com a falta de vocação burocrática de Bernardo Sayão. Logo após a liberação de um dos primeiros salários, ele reclamou: “Mas, Lauro, estou com 60 homens trabalhando em Saia Velha (a usina) e eles ainda não receberam o pagamento!”. Ao que o funcionário respondeu: “Mas, doutor Sayão, eu não sabia desses operários”. Foi quando caiu a ficha: “Ih, me esqueci de te avisar. Passe lá em casa amanhã às seis da manhã pra tomar café comigo e de lá a gente vai na usina resolver isso”.
Aquele foi só o primeiro café com Bernardo Sayão. Pouco tempo depois, Lauro França conseguiu uma carona com o engenheiro na sua viagem de inspeção às obras da rodovia Belém-Brasília. França tem parentes em Belém do Pará e pretendia visitá-los. O DC-3 que os levava fazia o percurso em baixa altitude, para que Sayão pudesse acompanhar o avanço de uma das duas frentes de trabalho, a que saiu de Anápolis. “A gente passava tão rente às arvores e a mata era tão embrenhada que eu pensava: se o avião pifar, não vai sobra nem alma”. No caminho, França foi entendendo como os homens estavam enfrentando a selva amazônica. As frentes de trabalho abriam as picadas, e, a cada trecho, uma clareira, onde acampavam e para onde o helicóptero jogava mantimentos e remédios.
 
Boa-fé
 
Admirador torrencial de Bernardo Sayão, Lauro França diz que ele tinha fé no ser humano. Conta, por exemplo, que se ele precisasse mandar um bilhete para alguém, numa época em que o telefone celular era equipamento de ficção cientifica, pedia licença a quem estivesse a seu lado e usava as costas do cidadão para escrever um bilhete em folha de papel de cigarro, se recurso melhor não houvesse. E pedia para um mensageiro levar a correspondência ao destinatário.
Sayão acreditava na boa-fé dos homens, mas não era exatamente bonzinho. França se lembra de ter visto o engenheiro receber cartas de recomendação de políticos em geral e de vê-las ir para a lata do lixo tão logo o interessado se afastava. Tinha muito pouca paciência com o tráfico de influência. Quando começaram a chegar os muitos pedidos de emprego na Rodobrás, a empresa que construiu a Belém-Brasília, Bernardo Sayão sugeriu que se espalhasse o boato de que os índios estavam atacando e comendo os funcionários da empresa nos escritórios próximos às obras. Sugeria isso e ria.
(…)
 
Transcrito do Correio Braziliense, 23 de janeiro de 2010.

 


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