Posts com a Tag ‘utopia’

Brasília bêbada

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Brasília bêbada
Por Conceição Freitas
 
Depois que a utopia se acomodou na realidade, passado o dia 21 de abril, o que terá acontecido? Quando os desfiles acabaram, o cheiro de pólvora dos fogos se diluiu no ar, os aviões fizeram fila para decolar levando uma gente engravatada e empoada de vermelho, como será que começou a rotina da nova capital?

Foi um deus-nos-acuda, pelo que dá para apreender das matérias, notinhas, desabafos e comentários publicados no Correio dos dias seguintes à inauguração. Senadores e jornalistas reclamaram das acomodações no Congresso e, por conseqüência, da arquitetura de Niemeyer. A área destinada à imprensa era precária. O plenário do Senado ecoava longamente o discurso dos parlamentares. Um jornalista ironizou: “Está resolvido o problema do quorum no Senado. O senador vota uma vez sim ou não e o secretário conta sete”. Naquele tempo, o voto não era eletrônico, não custa lembrar.

Deputados disputavam unha a unha apartamento e mobília. Houve um, bastante robusto, que ficou preso do lado de dentro de sua nova moradia e teve de se espremer entre os brise-soleirs da fachada do bloco para alcançar o apartamento vizinho e conseguir se liberar da inesperada prisão modernista.

Nos dias imediatamente após a inauguração, a cidade nova em folha era um tapete de lixo da festança. Descobriu-se então que havia apenas 20 garis para cuidar da limpeza de Brasília. Na falta de estabelecimentos comerciais, os camelôs invadiram a maquete de concreto armado.Muitos deles eram vendedores de quentinhas (as marmitas daquele tempo), aquecidas em trempes sustentadas em tijolos sobre o chão de poeira.

Nos poucos restaurantes da W3 Sul uma refeição completa custava 130 cruzeiros (o que já revela o período inflacionário que o país começava a percorrer). Por esse valor, o freguês tinha direito a macarronada, pão, uma cerveja, uma porção de goiabada e um cafezinho.

Era incipiente o abastecimento de água e luz nos primeiros dias da nova capital. Telefones, pouquíssimos. Serviço postal pífio. Quem quisesse mandar um telegrama tinha de declará-lo diante de todos para o telegrafista. Privacidade zero.

Toda Brasília estava “embriagada” pelas pistas extensas e largas e muito bem pavimentadas, como relatava matéria publicada no Correio de 22 de abril de 1960. “A falta de flechas indicadoras e a desconcertante topografia fazem com que os veículos percorram longos caminhos para objetivos bem próximos.” Quem se arrisca “à aventura dos trevos poderá encaminhar-se para Belo Horizonte ou São Paulo sem dar pelo engano”. O belo texto de um cronista anônimo termina assim: “Esta cidade, tumultuária e excessivamente lógica no seu traçado urbanístico, parece tonta na véspera de ser o centro político do país”.

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, edição do Correio Braziliense de 6/7/2010.

 

Continue lendo

BRASÍLIA: Capital da Utopia

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

A idéia da construção da Nova Capital do Brasil é contemporânea de nossos colonizadores, transformou-se em ideal inconfidente, em símbolo para o Patriarca de nossa Independência, serviu como bandeira de luta para os nacionalistas e virou, por acaso, a meta-síntese da pregação desenvolvimentista do Presidente JK.

Uma Utopia.

Brasília estava no subconsciente da nacionalidade como o Graal, o Macchu Picchu, Atenas, o Sangri-Lá ou como Jerusalém ou a Meca antecipatórias.
As capitais anteriores – Salvador e Rio de Janeiro – serviram às estratégias mercantilistas da metrópole ultramarina. Brasília seria o verdadeiro inicio de uma nova era, de um avançar sobre a geografia para tomar posse definitiva de suas riquezas e redimir o seu povo, para fecundar a terra com os valores da ideologia prática da integração nacional.

Brasil-capital-Brasília como afirmação – tautológica mas teleológica – de um Brasil brasileiro. Um recomeçar do centro para o litoral, de dentro para fora, em busca de uma unidade ameaçada e preservada por milagre, por teimosia, por casualidade. Como conservar unidos esses “brasis” tão díspares, tão dissímeis, tão múltiplos mas nunca antagônicos e conflitivos? Que nos une na diversidade e na adversidade?
Brasília seria, então, uma catedral votiva a essa unidade. Mais: uma escalada no processo de fusão, uma sentinela avançada na força catártica e miscigenatória de raças, valores, energias criativas. Nunca um monumento pétreo e fossilizado. Antes, o campus avançado da intelligentsia brasileira, o laboratório de teste dessa pretensa convergência ou confluência de talentos, de iniciativas, de programas redentores.
A Utopia brasiliense foi embalada por imaginações conseqüentes. Inseminada de idealizações premonitórias. Eivada de crenças adventícias. Postulada por raciocínios redentoristas. Formulada por criadores platônicos, buscando o eidos, sua forma original e própria, ditada pela tradição de nossa brasilidade, irremediavelmente moderna.
Uma brasilidade que é compreendida por todos mas é indefinida: que é, mas não se mostra; que é sensível mas não é inteligível porque está em formação; tem mil faces, tem mil arestas despistadoras mas subjace, sublinha, delineia nossa forma, nosso jeito, nossa existência.
A literatura sobre essa Utopia perde-se no tempo de nossa História. Uma história curta, recente, em parte tomada emprestada mas que nos amolda e estabelece e nos serve de espelho e fonte de inspiração.
Uma espécie de Oráculo ao qual acudimos mais com a intuição e a sensibilidade do que com o raciocínio e a Razão. Todos os caminhos de nossa História pareceriam conduzir-nos a Brasília.
Dom Bosco previu a construção de Brasília no ensejo de uma generosa profecia. O profeta tem a capacidade de antever acontecimentos, de projetar-se sobre o inexistente e o desconhecido. Ele cria o insumo básico que alimenta a esperança do homem, que delineia o seu sonho e dimensiona a sua expectativa humana.
Malraux foi um visionário em outro sentido: ele entendeu o significado da utopia brasiliense no que ela contribuía para a reavaliação da condição cultural do homem moderno diante dos desafios do progresso, da manutenção da paz, da liderança da inteligência criativa e redentora.
Em tal contexto, Brasília figurou-se-lhe como uma esperança em vias de realização, isto é, como uma força coletiva liderada pela utopia.
Juscelino foi a vanguarda do progresso, a liderança catalizadora do pensamento utópico de vastos segmentos da sociedade brasileira.
Meta-síntese, ou meta das metas, Brasília significava a culminação de uma revolução redentorista, propulsada pelo desenvolvimentismo obstinado do ex-Presidente. Residia naquela determinação a essência da Utopia: a materialização de um desejo inteligível e com partilhável ao nível dos indivíduos que dela participavam.
Toda profecia vai além da vontade humana para vislumbrar as conseqüências últimas de seu destino maior. A utopia é sempre uma proposta de realização concreta, que pode ser, à medida que o indivíduo se empenhe, fervorosamente, em sua concretização.

Os jovens franceses que tomaram Paris de assalto, na madrugada da Revolução de Maio (1968), foram movidos pela utopia, pela crença de que eram realistas e acreditavam no impossível. Faltou-lhes a estratégia, a organização necessária, a liderança efetiva para atingir os objetivos.

A idéia de Brasília foi alimentada, durante séculos, como um sonho e uma aspiração vaga de afirmação da unidade e da confluência de forças da integração nacional. O sonho, porém, apenas sublinha o espírito mas não o move, necessariamente. Sua elevação à categoria de pensamento utópico é que transformou Brasília em uma bandeira de luta, em um estandarte para a grande caminhada, uma palavra de ordem para a batalha maior.

Seria a Nova Atenas platônica, redimida dos vícios e crimes da cidade litorânea e pregressa, exposta aquela às influências nefastas dos costumes estrangeiros. Construir-se-ia uma espécie de oásis onde se pudesse cultivar o espírito democrático e racional, fugir do hedonismo desagregador, da corrupção reacionária, do comodismo prevaricador e entreguista.

A cidade da perfeição, do ultraismo, onde a inteligência e a sabedoria imperassem sobre o egoísmo e o oportunismo dos homens no poder, harmonizando as forças dos Três Poderes que regem os destinos da cidadania.

Brasília, para as aspirações nacionais do juscelinismo, converteu-se em Capital da Utopia, em promontório a ser conquistado, em ponto de irradiação de novos valores. Ela não se esgotaria em si mesma. Ao contrário, Brasília seria o símbolo, o lugar de conjunção de forças, o zênite de um processo multiplicador e emancipatório.

(…)
A Utopia de Brasília é desse tipo de imanência e evidência que levita em todo escrito sobre a Nova Capital, embora uns escritores fiquem na imediaticidade dos fatos correntes ou mesmo passados e outros escapem pelas metáforas ou rimas modernistas.
(…)

Antonio Miranda
Texto extraído do Prefácio do livro “Brasília: Capital da Utopia”, de Antonio Miranda.

Continue lendo


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …