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Sinfonia da alvorada

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Sinfonia da alvorada
Por Ana Miranda

 
Brasília fica no lugar mais antigo da terra, gostava de dizer Tom Jobim. Talvez por isso as alvoradas em Brasília sejam tão ricas de cores que foram se multiplicando e recriando ao longo dos bilhões de anos. Riam de mim os cientistas, não me importo, falo de anos poéticos e de alvoradas sonoras.

Brasília sempre foi sinônimo de alvorada, que me perdoem os gramáticos, e me perdoem os historiadores, mas tenho certeza de que JK fundou a filosofia de Brasília na ideia de alvorada. A prova é a “Sinfonia da alvorada”, que me perdoem os lógicos e os juízes. Uns dizem que em 1958 o pianista Bené Nunes levou a Tom Jobim um convite de JK para ele compor uma sinfonia celebrando Brasília. Vinicius faria o recitativo.

Vinicius contou a história diferente, disse que em fevereiro de 1958 estava num hospital em Petrópolis, depois de um acidente, e recebeu a visita de Tom, quando conversaram pela primeira vez sobre escreverem uma sinfonia celebrando Brasília, e nesse mesmo ano Tom compôs alguns dos temas musicais constantes da futura Brasília, Sinfonia da alvorada. Quando Vinicius voltou de seu posto em Montevidéu, em junho de 1960, e Brasília já tinha sido inaugurada dois meses antes, ele recebeu uma telefonada de Brasília. Era Oscar, introduzindo Juscelino. O presidente convidou Vinicius para criar um espetáculo son et lumière para ser apresentado na Praça dos Três Poderes, como se fazia nos castelos franceses, na acrópole, nas pirâmides e em tantos monumentos.

Tom e Vinicius esboçaram o plano da obra, partiram para Brasília e foram se hospedar no Catetinho. Queriam ter contato humano com a cidade. Vinicius contou que trabalhavam na mesa onde JK tinha assinado seus primeiros atos na capital. Chegou um piano de Goiânia, e os músicos, ajudados pelo caseiro Luciano e três “capangas” o subiram no braço, mortos de medo que as escadas cedessem ao peso. Ali os músicos ficaram uns dez dias, se inspirando e compondo. Contemplavam a “silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza”, disse o poeta. De madrugada ouviam o piar das perdizes e dos jaós, entre rajadas de vento do altiplano. Caminhavam pelos capões de mato, e Vinicius ia só até o olho d’água, voltava e ficava pensando nas palavras da sinfonia. No principio era o ermo, agreste, verde triste…antigas solidões…a penúria dos caminhos…a dolência dos desertos…olhava um mapa do Brasil escolhendo nomes. Tamboril, Passo Fundo, Amargosa, Taperoá!

Enquanto isso, Tom Jobim se aprofundava na mata munido de uma espingarda para caçar passarinhos, mas Vinicius se aprazia em dizer que jamais ouviu um tiro, Tom não tinha “coragem para chumbar seus coleguinhas alados”. E quando o músico voltava da caça, sem nenhum passarinho, almoçavam mesmo o feijão com arroz da “patroa” de Luciano, o funcionário número um de Brasília. De vez em quando iam visitar amigos, bravos pioneiros, ou recebiam visitas, como as do herói da FAB, João Milton Prates, que lhes levava “licores e vitualhas”.

A sinfonia ficou pronta, e arrancou lagrimas dos olhos desses pioneiros, quando a ouviram pela primeira vez, Tom Jobim tocando e Vinicius recitando, ali mesmo no Catetinho, num piano goiano, numa noite estrelada. Ah…Ah…Ah…Diem! Ô…ô…ô…ô. O concerto de som e luz na Praça dos Três Poderes não aconteceu, por falta de verba. A peça só foi levada à Praça dos Três Poderes em 1986, regida pelo maestro Alceu Bocchino, com Radamés Gnatalli ao piano e Tom e Suzana, filha de Vinicius, que me perdoem os materialistas, acompanhava do céu, batucando numa caixinha de fósforos.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 25/03/2012.

 

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Premonição cravada na terra

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Premonição cravada na terra
Por Conceição Freitas

Corre vagarosa, miúda e longamente entre os antigos moradores de Planaltina, Brazlândia e Sobradinho a crença de que encostado no Distrito Federal há ouro à espera de garimpo. Ouro de verdade, o minério dourado que enlouquece os homens. A lenda nasceu de um texto escrito por um bandeirante do século 18 em que ele descreve um mapa de uma mina aurífera nas proximidades de Planaltina de Goiás, a 80 km da Rodoviária.

Quem estuda a pré-história de Brasília e quem vive neste quadrante desde tempos remotos conhece o Roteiro do Urbano. Dos antigos aos novos historiadores, todos passaram os olhos por esse documento e se deixaram envolver pela possibilidade de que, em algum lugar entre chapadões, córregos e lagoas, exista a pedra resplandescente.

A lenda do ouro do Urbano é apenas a ponta curiosa de um longo fio que conduz a história de Brasília. A vinda de Juscelino Kubitschek e os demais para o sertão goiano, em 1956, é o trecho mais vistoso desse novelo e por isso mesmo obscurece narrativas de um tempo duzentas vezes maior que os 51 anos de Brasília. Registros de arte rupestre em Formosa e de artefatos feitos pelo homem em Taguatinga e no Parque Nacional de Brasília indicam que a capital do Brasil moderno é habitada há mais de dez mil anos. O brasiliense pré-histórico deixou cravadas na pedra e enterradas no chão as marcas de sua existência.

O território onde há meio século se ergue a capital do país vem sendo percorrido, visitado, estudado e tem sido habitado por grupos humanos diversos – índios, escravos, bandeirantes, sertanejos, desbravadores estrangeiros e brasileiros, tropeiros, roceiros, fazendeiros, mistura que resultou numa gente que o historiador Paulo Bertran chamou de “cerratense”.

Tanta diversidade histórica acabou soterrada pelo furacão modernista que aqui se instalou a partir de 1956, desde que Juscelino estufou o peito e decretou que “deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais…”. Estava decidida a versão predominante da história, a de que neste naco de Goiás havia tão-somente “solidão”.

Para dissolver o tufão e desvelar a história goiana aqui sedimentada ao longo dos séculos, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento têm se dedicado a resgatar e reconstituir a ocupação do Planalto Central. Na Universidade de Brasília (UnB), historiadores, arquitetos e cartógrafos  vão  em busca de estradas do período colonial que cortavam o hoje DF ao norte; há mais de 30 anos, arqueólogos de Brasília e Goiânia furam o chão em busca de rastros da presença do brasiliense pré-histórico. O superintendente do Arquivo Público do Distrito Federal, Gustavo Chauvet, decidiu mudar o roteiro até agora estabelecido para a proteção da memória de Brasília. “Todos falam das idéias mudancistas, a idéia, a idéia…, mas há uma outra vertente, que é a história da ocupação do território. O que vamos fazer é integrar as duas histórias”, diz Chauvet. A história da idéia vem de fora; a da ocupação vem de dentro.

Autor de extenso estudo sobre a ocupação remota da região, Chauvet pôs na capa do livro o mapa que mostra a formação territorial do DF que, para surgir, tirou terras de Formosa, Planaltina e Luziânia. Outra imagem que registra fortemente a existência de um povo sertanejo habitando essas paragens é um mapa feito pela Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, composta por goianos em febril campanha pela interiorização do poder. Assinado pelo engenheiro Joffre Mozart Parada, pelo jornalista Zoroastro Artiaga e pelo médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco, o mapa mostra que havia 96 fazendas no DF – número que marca a origem de todo o caos fundiário do quadradinho.

“Vastíssimo vale”

Desde sua morte, em 2005, o historiador Paulo Bertran tem se transformado numa espécie de referência mítica de um modo de contar a história de Brasília – a partir da história goiana, da dos índios e dos cerratenses, da ocupação da terra desde muito antes de o avião de asfalto e concreto aterrissar num majestoso vale rodeado por um anel de chapadas. Majestoso, aliás, é o adjetivo que Auguste Glaziou, botânico e paisagista francês, integrante da Missão Cruls, usou para descrever o que viu quando aqui aportou: “…cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale”.

O botânico referia-se ao domo que acolhe todo o Plano Piloto, de uma asa a outra, da Praça dos Três Poderes aos fundos da antiga Rodoferroviária. Domo, no vocabulário geológico, é uma elevação do solo com a forma acentuada de uma meia esfera. No dizer do professor Antonio Carlos Carpinteiro, da arquitetura da UnB, o Plano Piloto está deitado “no estufado de uma bacia”. A imagem figurativa é a de uma vasilha de formato circular, oval, de bordas altas, tal qual o utensílio doméstico. Com uma diferença, porém. A bacia onde se estende o projeto de Lucio Costa tem o fundo proeminente, “como se alguém a tivesse chutado por baixo”, descreve Carpinteiro.

Quando acompanhou Cruls, em 1892, Auguste Glaziou estava com 60 anos e já havia projetado e reformado diversos jardins imponentes no Rio de Janeiro. Não se deixou desanimar diante da vastidão do Cerrado. Depois que a expedição montou barracas nas proximidades do hoje chamado Córrego Acampamento (dentro do Parque Nacional de Brasília), o francês saiu a campo: “…quase que diariamente percorri, herborizando cá e lá, ora uma parte, ora outra, desse calmo território e dessas excursões voltava sempre encantado; cem vezes as repeti, quase sempre a pé para facilidade das observações, em todos os sentidos e sem a menor fadiga, tão benéfica é aí a amenidade atmosférica”. Desses passeios, Glaziou concluiu que ali era o lugar perfeito para erguer uma cidade. “Nesse sítio, ainda, a extrema suavidade dos acidentes naturais do terreno não requer trabalho algum preparatório, nenhum para o arruamento ou delineação dos bulevares, nem para a edificação, numa ou noutra direção.”

A vasta planície mantinha-se esquecida. Todo o movimento entre Luziânia, Formosa e Planaltina, cidades preexistentes, fazia-se ao redor da área hoje ocupada pelo Plano Piloto. Sozinha, esperava por Brasília. Mais de 50 anos depois da passagem de Glaziou, técnicos norte-americanos da Donald J. Belcher & Associates aterrissaram, em 1954, no quadrilátero demarcado pela Missão Cruls para esmiuçar a geologia e a topografia da região onde, quem sabe um dia, seria construída a nova capital. Definiram cinco áreas para que fosse escolhida aquela que abrigaria Brasília.

A descrição do Sítio Castanho, o escolhido, supera de longe a descrição dos demais. “A fisiologia deste sitio, a 25 quilômetros a sudoeste de Planaltina, é inteiramente diferente da dos outros quatro…” – assim começa a descrição quase lírica dos técnicos americanos. “A extensa planície, de suave declividade para os rios limítrofes, presta-se ao desenvolvimento de uma grande cidade de qualquer tipo possível, sem a obrigação de interromper acidentes topográficos”.

E mais adiante, quase numa revelação premonitória: “Os vales em si poderiam ser desenvolvidos para edifícios públicos e a sede do governo”. A equipe de Belcher parecia torcer vivamente para que Brasília fosse construída no Sítio Castanho. Na descrição do Sítio Verde, há uma demonstração dessa suspeita: “Este sítio tem uma característica de grandeza somente compartilhada pelo Sítio Castanho”. Grandioso, majestoso – foram os adjetivos usados pela Missão Cruls e pelo Relatório Belcher, os dois documentos científicos mais importantes da pré-história de Brasília.

Não é majestático apenas por sua topografia estufada e em suave declive. Parece ter sido desenhado a dedo por um anjo da guarda de Lucio Costa. O sítio era demarcado por dois córregos, o Bananal e o Riacho Fundo, com a afluência do Vicente Pires, do Torto, do Vicente Pires, do Guará e dos demais fios de água que descem em direção a uma garganta borbulhante, a Cachoeira do Rio Paranoá. Se o chão onde existe o Plano Piloto parecia ter sido desenhado a dedo pela geologia para receber uma cidade, a leste do terreno havia uma depressão que, do mesmo modo, havia sido esculpida para receber um lago artificial, sem necessidade de nenhuma obra de engenharia, exceto uma barragem.

Assim percebeu o botânico francês, em suas andanças encantadas, em 1892, vale repetir: “Fechando essa brecha com uma obra de arte (…) forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobre uma largura de 16 a 18. Além da utilidade de navegação, a abundância de peixes, que não é de somenos importância, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes havia de dar à nova capital despertariam certamente a admiração de todas as nações.”

O Plano Piloto era uma premonição cravada na Terra.
Texto transcrito do Correio Braziliense, 21 de maio de 2011.

 

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+ mais lidas

“Em Brasília se tem o céu baixado,
reles do chão,
ou é a terra que sobe no rumo da amplidão;
claridade dela é tanto que se nega a escuridão”
“Brasília guarda um segredo,
o de ter sido possível”
“Os ossos de Brasília são feitos
de concreto armado”
“Brasília é uma Canudos do
século 20”
“(Brasília) É assim eficiente, acolhedora e íntima.
É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional”
“Como ela veio não se sabe
nem como viria se soube”
“Cubro seus vértices de rosas e as rosas
desabrocham cimento”
“Como manter meu andar
torto em ruas não-ruas tão
certas?”
“Ébrio de céus e nuvens, vi num amanhecer esses horizontes multimilionários” “Para oeste, assim como quem
de um mirante avista o reflexo
de uma cidade imaginária e, para ter,
inventa-a”
“Nem há tristeza: há somente a força do agreste, o sopro das asas e dos insetos,
silêncio de antes do mundo”
“Antes do começo, era o sertão, só e ríspido. Vegetais cheios de ódio
fitando os céus impossíveis”
“E tu, ó musa, que amas o deserto
E das caladas sombras o mistério”
“Sob os céus do meu país
a lua amola suas facas vermelhas”

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Goiás

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Goiás

Goiás é terra de rios de águas verdes
E de mulheres vestidas de amarelo e de homens
Que riem mais alto que as mais altas montanhas. (…)
Goiás é de um homem seco
E de um menino molhado de morte
E de uma estrada de caminho de cruz antiga,
Uma doida fome que é como uma arara (que é como manada de bicho, que é como uma ventania, uma boiada)
Que põe   de bocas sem dente , séculos
De pedra na face macerada, séculos
De riso aberto.
Goiás é um rio calçado de botina vermelha,
É uma roupa verde na sujeira de terra do homem.”

Poema de José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí

Post Paulo Timm,  transcrito da Coluna do Timm (26/11/2010)

 

 

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Primeira geração

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Primeira geração

a terra nova – a Terra da Promissão
eldorado que aos poucos foram-se acostumando
a ver e a compreender como um filme de faroeste
o novo oeste brasileiro se integrando
na civilização do planalto marcada por seus pés
de aço e micaxisto
 
Iam crescendo numa ordem rígida
buscando a forma ideal da cidade
(forma/modelo/estilo)
a ordem dos edifícios nas linhas puras
(eixo central da cidade)
a Praça dos Três Poderes
o Palácio da Alvorada
a Catedral
o seriado das superquadras
a paisagem de vidro sob as transparentes persianas
 
Eis Brasília – cidade nascida do cerrado
dos lençóis dágua represados
da destruição do agreste
(ossos crânios culhões divididos)
tudo à terra misturados – à doce terra-mãe
violentada por uma legião de homens-bárbaros
homens-feras de armas nuas nas mãos
mãos mais fortes que seus instrumentos de trabalho
acostumadas a rasgar o útero das rochas com as unhas
a sufocar entre os dentes as explosões das granadas
 
A cidade nascia da determinação de homens rebeldes
esticada em suas ligas de aço e cobre
(…)
 
Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
madeira ferro aço acrílico e vidro
nasceu Brasília mineral e semáfora
como uma mundana portadora de grande beleza
(objeto de assédio de homens poderosos)
rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva
 
Arrancada do agreste – não obstante – soberana
ave migratória – ave alva (branca) erva
(com gestos de heroína e mártir):
nasceu feminina em suas curvas e meneios
de flor se abrindo à luz do sol
– trevo de quatro folhas quatro estrelas –
vitórias-régias em doces giros navegando
sob o remo dos ventos
Assim nasceu Brasília
a cidade-candango
de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
em creches escolas parques de diversões
e era delas agora a cidade mais que de seus pais
que a fizeram explodir de suas mãos
com seus facões mais afiados que o vento
machados serras de dentes perfurantes
máquinas pesadas a remover entulhos:
o fogo a destruição total
até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
se entregasse como uma puta à violência dos homens
 
O corpo informe da mata jazia triturado
sob relinchos de cavalos encantados
assovios gritos uivos
a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
restou o que não restou como se jamais fora
os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
No aboio e no assovio do candango
mais do que nunca vivo e diligente
agora mais consciente de sua missão
o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
ia-se transformando em paredes de alvenaria
(em aldeias cidades-satélites)
sua comunidade crescendo diversificada e anômola
 
Não havia mais homens de matolão às costas
panela fervendo ao ar livre
homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
chapéu de palha de carnaúba à cabeça
mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
boné de pala botina de cano longo
lenço de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
vestidos de terno de linho branco e casimira
 
As trempes cederam lugar ao fogão de gás
as redes de tucum aos colchões de mola
tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
mas cuecas de náilon e poliéster
óculos raiban charuto mastigado entre os dentes
 
As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
chinelos de rosto por sapatos de salto alto
anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
integradas na sociedade compareciam às
reuniões na casa dos políticos
damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.
 
A cidade não era de quem a inventara,
                            [mas de quem a fizera crescer
como uma dor no osso uma febre no crânio
um buraco na alma
a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
lenta ao pôr-do-sol como uma oração
na noite que de repente chegava
com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
– manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende
 
A cidade nasceu do espaço de um centímetro
de um passo de ave um pulo de bicho um vôo
      ensaiado no altiplano
para o céu – um céu limitado à estatura do homem
ao seu movimento cotidiano
à distensão de seus músculos
à sua imperiosa angústia existencial
 
A cidade-metrópole – eixo do país (dínamo-automação):
a cidade de vidro e alumínio erguida
dos ossos e dos nervos de homens simples e pobres
do norte e do sul do leste e do oeste
homens (antes de tudo) sertanejos
(antes de tudo) fortes – homens
na expressão mais exata da palavra
 
Ah! Foi do ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:
a mais típica de todas as cidades
a mais socialmente política
a mais original das urbes brasileiras
que nome outro te dariam se não – Brasília?
 
Nasceu do papel vegetal
da imaginação de dois homens
da determinação de um terceiro
(a quem cabia dar as ordens)
para que a cidade fosse construída acaba habitada
um homem das Minas Gerais – governo de um grande povo
 
A cidade nasceu da ampla mancha escura do W
(convergência e conjuntura do planalto)
cerrado-agreste – território sem divisão
(inteiriço no mapa)
como um oco um grande oco no estômago da terra
nesse território agora delimitado medido em
      toda sua extensão
aqui neste território desenhou-se o espaço da cidade
mistura de muitas raças
unidas pelo ideal de fazer a cidade crescer
inesperadamente como uma estrela irrompendo da noite
uma inseminação artificial.
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.


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FLOR DE CERRADO

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FLOR DE CERRADO

TU ÉS MAJESTOSO OH CERRADO DITOSO
DE PEDRA DA TERRA DE ÁRVORE DE AVE DE ÁGUA
ÁRVORES DE BELEZA BENDITA QUE FICA NA
ALARGADA VISTA
GUARDA O CERRADO NA VISTA E RESPIRA AS FLORES QUE
ELE DÁ DE CHEIRO
GERANDO A ORIGEM REFEITA NA VENTANIA
E NA CRISTA COLORIDA DA PEDRA QUARTZITA
FAÇA O FOGO
BRUTA PEDRA PIRITA QUADRADA CÚBICA PARTIDA
SOLTA NA ESTRADINHA
ÁGUA FRIA ESCORRENDO DO RIO
ENTERRADA NA TERRA ANTIGA
DA CORUJA, DO GAMBÁ, DOS NÕMADES
COM PEIXES DOURADOS DE CIPÓS PRATEADOS
PÉS NUS E CORPOS PINTADOS NO CERRADO
QUANDO AS ESTRELAS CAÍREM
CAIRÃO TAMBÉM OS SUSPIROS
PERDIDOS DE UM SONHO PARTIDO
AS FADAS VERDES CINTILANDO PÚRPURA
RODOPIAM ATRÁS DAS FOLHAS
DESTE CERRADO SECO E ÁSPERO
DOS VEADOS, DOS FEIXES, DAS POMBAS
BRASÍLIA LAGARTA VERDE LARGADA DE CARROS
COM SEUS CAMPOS DE OBRAS CERCADOS
ESCREVE PRA REPARTIR AS PALAVRAS DA IDEIA
AS FALAS DO TEMPO EXCELENCIA
NO ATO QUE NÃO REALIZA A CONSTRUÇÃO CIVIL
ALUGA A CARA METADE
PAGAMENTO DE JUROS DOBRADOS
NÃO LIGA SEM BATERIA
BATERA A PORTA NO GATO
VEADO CORRE NO MATO DELICADO

PEIXE DESLIZA QUENTE NO RIO
PASSARINHADA NA ALGAZARRA
E AO MESMO TEMPO EM SILENCIO
HIERÁRQUICO E SOBERBO
DE TODA NATUREZA
QUE FAZ DE COISA
DE SENTIR OS SENTIDOS NA AMPLIDÃO
UMA PAZ TRANQUILAMENTE AMANSA A ALMA
CABEÇA SENTE COISA
INFINITA MENTE PLENA
PENA QUE A CABEÇA ESPANTE
E NÃO MAIS SE LEVANTE
PARA VER DA VISTA
NATUREZA INFINITA
ELA ENTORTA E BAIXA
ATRÁS DA MARDITA GASTA
INDIVISÍVEL INDIVÍDUO
IN
DIVI
DUAL
A QUALQUER PREÇO

Bic Prado (Fabiane Prado Silveira), poetisa brasiliense
Poema transcrito do livro "Poemas de um livro verde", Coleção Oi Poema, 2010

 

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Brasília

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Brasília
Minha terra tem ipês
Amarelos a brilhar
Tem um céu muito extenso
E um prédio em H

Tem ainda muita gente
Que veio bem contente
Pra essa terra morar

Minha terra é patrimônio
Pois Dom Bosco teve um sonho
E que graças a JK
Pôde se realizar

Não permita Deus que acabe
Sem mais gente cativar
Essa cidade cinqüentenária
Que sempre nos faz sonhar

Post Yuri Farrapo, poeta brasiliense

 

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De novo caminharei pelo eixo rodoviário

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De novo caminharei pelo Eixo Rodoviário
contra a brisa do altiplano,
lá, onde o céu teve de alongar-se para tocar a terra.
O pulso está firme, ritmado. O corpo venceu a morte.
Por quantos dias, anos, só as Parcas
sabem e a ninguém o dizem.
Quisera voltar desoprimido, leve,
afastar meus espectros,
sem eximir-me,
pensão do homem,
a trabalhos, dores.
Alegria, minério raro!
Mas sei que logo me erguerei contra mim
serei meu pior inimigo
recriminatório, batendo os punhos no peito, carregado de
                                                                       /culpas,
atormentado de não ser o que desejara.
 
Ó alma, tanta vez imaginariamente atribulada,
pudesses ao menos fruir com sabedoria a dilação que te ou-
                                                                         /torgaram!
 
 
Cyro dos Anjos, poeta mineiro, natural de Montes Claros.
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Cimento & devaneio

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Cimento & devaneio
 
Todos cantam sua terra
também vou cantar Brasília:
cimento que devaneia
em domingos de lascívia.
 
Os anjos da catedral,
madre erguida em praça pública.
Os vitrais incendiados
pelas centelhas da súplica.
 
Canto as asas desse pássaro,
plumagem de relva e brisa.
Seus mamilos lapidados
em domingos de lascívia.
 
O lago como um rebanho
de ovelhas pacificadas.
Pupila de um deus insone
que incendeia as madrugadas.
 
Lucio Costa, Niemeyer,
a Ermida de Dom Bosco.
Seios brotando da relva
nas tardes de vidro fosco.
 
Canto a cidade sonhada
pelo argonauta de Minas.
– Urbe que o mito preserva
dentro de nossas retinas.
 
Os candangos e a magia
das mãos que semeiam gestos,
modelam vigas que brotam
dos sonhos dos arquitetos.
O cerrado e seus crepúsculos,
os momentos de vigília.
O amor que devora os corpos
em domingos de lascívia.
 
Canto o Palácio dos Arcos,
o Parque Zoobotânico.
Os espaços que me ofuscam
com seu fausto arquitetônico.
 
Em domingos de lascívia,
de azul mais rijo e mais puro,
canto a cidade e seus olhos
voltados para o futuro.
 
Trevos que emergem das trevas,
volúpias que se bifurcam.
Alamedas de aloendros,
retas que esbarram nas curvas.
 
Bustos despontam do verde
com o despudor de uma orquídea.
Nuvens são formas de incesto
em domingos de lascívia.
 
Presságios deitam raízes
no coração da metrópole.
Outrora, ali, só se ouvia
rumor de perfuratrizes.
 
Jardim de astúcia e algarismos.
– Urbe de rubros ovários
em cujo dorso galopam
descendentes de centauros.
 
Cidade em corpo de pássaro,
longas asas de albatroz.
Em teu ser de liberdade
um pouco de todos nós.
 
Francisco Carvalho, poeta cearense, natural de São Bernardo das Éguas Russas.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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A Posse

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A Posse
Por Clemente Luz


Foto: Arquivo Público do DF

 

Dos quadrantes da Pátria, marcharam as colunas, para a posse da terra conquistada no Planalto. Através das extensões mediterrâneas de Minas e do continente confinado de Goiás, veículos e homens, na mesma luta contra o desconforto das estradas ainda em formação, ainda cobertas de barro e poeira, caminhavam para o mesmo objetivo e aqui chegaram, em horas diferentes, para o encontro de hora certa, aos pés do feixe de colunas da Catedral em obras. Colunas móveis marcharam para o encontro de colunas fixas, plantadas na terra, pela eternidade do ferro e da pedra, que o homem transformou em semente moldável e generosa.

Homens e veículos, cobertos da mesma poeira ou enlameados do mesmo barro, trouxeram, até o sítio onde se ergue a nova Cidade, o cheiro das selvas inconquistadas da Amazônia, as surpresas dos grandes descampados e o marulhar, sempre renovadas, dos rios, sobre cujos leitos se estenderam as pontes. Os pontos esparsos da Pátria, separados por rios e florestas, por montanhas e abismos, por solidão e abandono, começam a ligar-se, através dos fios das estradas, abertas na direção dos ventos. Homens e máquinas chegaram, para marcar, com outros homens e outras máquinas, aos pés simbólicos da cruz, a posse da terra, destinada a ser o cérebro e o coração da Pátria do povo.

Como pontas de um imenso leque, a grande marcha terminou com a convergência das colunas de veículos sobre a área do Park Way Dom Bosco, ponto de partida e chegada de todas as estradas que sairão de Brasília. O Posto da Petrobrás em construção, com sua forma de cogumelo azul, prenuncia a aglutinação dos postos de gasolina, que guardarão, no seio dos imensos tanques, a força do petróleo, que o subsolo brasileiro começa a oferecer à Nação…

Na manhã fria, com a neblina renitente descendo sobre a cidade, os carros e os homens recém-chegados aguardavam, como colunas guerreiras, prontas para a luta prenunciada, a última revista do comandante e a palavra de ordem final. Só que, na manhã nevoenta de janeiro, a palavra não seria propriamente de ordem de luta, mas de aplauso e de entusiasmo, pela batalha concluída com sucesso.

De manhã, sob a névoa que impedia o extravasamento alegre do sol sobre o planalto, talvez a mais singela e mais tocante cerimônia de “revista a tropas” jamais vista… Nenhum pensamento de conquistas territoriais sobre nações ou grupos de humanos. Nenhum desejo de grandeza, maior do que a própria  grandeza conquistada e consolidada pela extensa marcha… Homens e máquinas, irmanados, recebiam, com efusão, o gesto simples do homem que os saudava, em nome de todo o povo.

E, ao invés da continência militar, da posição de sentido indefectível do guerreiro, da exibição de frias armas de destruição, braços se ergueram para o céu, agitando mãos vitoriosas, que dirigiram veículos de fabricação nacional – praticamente os primeiros, através das novas estradas abertas no território antes abandonado. E, nos gestos das mãos, no sorriso dos lábios e no brilho dos olhos, a esfuziante alegria de gente vitoriosa.

Com seu sorriso de permanente esperança, de otimismo contagiante, Juscelino Kubitschek passou revista às vitoriosas Colunas de Integração Nacional, que convergiram para o Planalto, para a posse da terra conquistada.

A pequena “romiseta”, mais vidro do que ferragens, recebeu o homem, que se acomodou em seu interior, para aguardar, sob as colunas da Catedral, defendido da umidade, o ato final da grande marcha. O “Bolha d’água” – este o apelido que o povo deu ao minúsculo e extravagante veículo – rolou sobre o asfalto da Esplanada dos Ministérios e estacionou no lugar que lhe estava destinado, perto do Altar recém-montado. Através do vidro do “Bolha d’água” que o abrigava em seu bojo, JK olhava os extensos espaços vazios da Esplanada, fixando os olhos na Rodoviária quase concluída, de onde surgiram os veículos em marcha. O homem, que se abrigara da umidade, embora aparentasse calma, se remoia de impaciência e contava os segundos, em seu relógio de pulso, no próprio pulsar do coração agitado pelos acontecimentos. O menino, que se abrigava do tempo, na memória do homem, acordou de seu sono cinquentão mais uma vez, e veio roer as unhas, impaciente e inquieto, sob as colunas eternas da Catedral…

Debaixo do céu úmido da manhã de janeiro, a multidão aguardava.

As caravanas chegaram, os homens deixaram os carros e caminharam para o lugar preparado para a Missa. E quando JK deixou o interior do pequeno veículo, não teve tempo sequer para abrir os braços. Seu gesto, apenas esboçado, foi interrompido pelo braços imensos de Bauhid e pelas exclamações de entusiasmo do Coronel Lino, do Major Perpétuo, do Governador do Amazonas e de todos quantos, ainda sujos da poeira e do barro das estradas, acabam de trazer, dos quadrantes da terra, o cheiro da mata, o grito do índio, o apito das máquinas, o mugido dos bois, o choro das crianças, enfim, os próprios e misteriosos ruídos da Nacionalidade, que acordava…

Foi nesse instante que vi o pranto coletivo de homens.

Sujos de poeira e de barro, a barba de vários dias e as roupas rotas, estavam chorando de alegria. Homens do Norte e do Sul, homens do Leste e do Oeste, que convergiram sobre o Planalto, choravam de pura e incontida alegria.

Eu vi o pranto coletivo!

Eu vi o pranto coletivo dos homens, sob as colunas da Catedral, na Cidade Nova, que se preparava para o seu grande Natal de abril.

Eu vi homens chorando…

Mas nada havia de trágico ou de vergonhoso no pranto coletivo. Havia, isto sim, esperança e fé no pranto livre e franco de cada um dos milhares de homens, que ali estavam, ao lado de seu Comandante, tomando posse da terra.

E cada qual desejava, no contato rápido e quente de mãos, transmitir o calor das terras distantes: da selva recém-conquistada, dos pampas e do pantanal, das chapadas e das montanhas.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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Branca Bakaj

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Branca Bakaj remonta à “infância” longínqua, anterior à construção, quando a terra hoje metrópole pedia “para ser conquistada”. Depois dos bandeirantes, com seu espírito obcecado por ouro e pelas pedras preciosas (“…sonho de esmeralda”), chegam as máquinas. Conquistam a Terra Prometida, não a Canaã bíblica, mas a que dormia o sono profundo ao sul do Ocidente. E “…de seu ventre vermelho jorrou o leite”: a urbe moderna, a revolucionária arquitetura, os traços a fluir de mãos geniais, a consolidação da nova “marcha para o Oeste”, bem diversa daquela que navegou em sangue e estremeceu, aos brados e armas dos cowboys. Ao encontro das “…sedentas árvores, retorcidas, do cerrado comparece o pioneiro, impulsionado e retemperado na “…forte força de dar vida”. Mas o cordial e o romântico prevalecem. Tomam, por fim, o lugar do rude e áspero. E o fecho (e o ápice) do cenário (e do poema) é: “Brasília: sonho-realidade./Brasília: canto de amor”. Em seu mais recente poema – “Meninos, eu vi” -, especialmente escrito para esta antologia, Branca Bakaj traz para a poesia o enfoque do memorialista, dos cronistas (Joel Silveira e Jota Efegê, p. ex.) a recordar os seus dias de pioneira. “Vi alvoradas belíssimas (…)”, conta a mestra e servidora pública, que também foi testemunha de fatos espantosos, quando a convulsão social erguia a veemência de seus protestos. E mais: “Muita solidão eu vivi”, conta-nos a carioca que chegou para habitar praticamente entre canteiros-de-obras: “Meu marido trabalhando no edifício/do Congresso,/Dia e noite, noite e dia. (…)”. Aí a força, neste poema-crônica, do relato de uma privilegiada (e sofrida) testemunha ocular.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Belo e solitário

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Belo e solitário
Por Conceição Freitas

Dias terríveis viriam, ele sentiu pelo cheiro de terra mesclado de cheiro de óleo e de homens. Quando os tratores chegaram rugindo pressa e abrindo clareiras vermelhas no cerrado, um dos mais antigos habitantes do lugar desconfiou que dali em diante nunca mais seria a mesma coisa.

Foi um baita susto para uma população que, especulam os cientistas, habita o planeta desde o tempo das eras glaciais. Ele é parente dos lobos, dos cães e das raposas. É o maior dentre eles. Juntos eles compõem uma família – a dos mamíferos digitígrados, que tem esse nome porque andam sobre os dedos.

Tem família, mas prefere a solidão. Não gosta de turma, de bando, de multidão nem de conversê. Como os índios, necessita da imensidade da terra para caminhar, caçar, viver. Nos tempos paradisíacos, um único casal dava conta de percorrer uma área de 300 quilômetros quadrados neste cerrado infindo de meu Deus. Cercados pelos homens, pelas máquinas e pelas plantações extensivas e devoradoras de chão, abatidos pelos caçadores, atropelados nas rodovias, eles foram sendo dizimados.

Quem aqui chegou bem no começo da construção da nova cidade viu de relance o lobo-guará. Bicho arredio, dizem que muito tímido, não ataca o homem. Prefere seguir seu caminho trilhando a solitude das longas caminhadas noturnas. É monogâmico, mas não vive grudado na parceira. Os encontros acontecem somente para a procriação. São os mais belos entre os seus parentes próximos – o lobo, o cão e a raposa. Tem os pelos de cor laranja-avermelhada. Ao sol, a pelugem brilha que nem cobre ruborizado. As pernas esguias sustentam com impressionante elegância o corpo reluzente. O focinho afilado combina à perfeição com pelos e pernas, e dão a ele o garbo e a altivez próprios do lobo-guará.

Apesar da bocarra, parecida com a de um cão pastor-alemão, suas mandíbulas são suportam grandes esforços. Por isso, apesar de ser um bicho de porte considerável, o lobo-guará prefere um cardápio mais delicado: roedores, pássaros, ovos, insetos, frutas silvestres, peixes, rãs. Peixes, rãs? É o lobo-guará é um exímio nadador, ainda que aparentemente desajeitado, dadas as pernas muito finas e longas. Carne, ovos e frutas – dieta completa, a do bicho de lindos cor de quentura. Mas seu prato preferido é a lobeira, e há razões terapêuticas para a escolha. A fruta-da-loba age contra o verme-gigante-dos-rins, doença fatal para o lobo-guará.

O bicho cor-de-fogo mede até 1,45 metro de comprimento e 80 centímetros de altura e pesa não mais de 25 quilos, em média. Está na lista dos animais em risco de extinção. Ele não se reproduz facilmente em cativeiro. Pesquisadores tentam cloná-lo. Apesar de tão belo e tão único, nunca mereceu dos brasileiros a admiração dedicada, por exemplo, aos animais africanos. O lobo-guará é o animal que eu queria ser.

Transcrito do Correio Braziliense, 01/09/2009

 

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A cidade perdida

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A cidade perdida
 
Tecemos a transparente cidade
(nós, dez mil loucos benfazejos).
Meu verdor juvenil a germinou
sobre a velha sequidão do Oeste.
 
Calendários na terra amoldaram
frontispícios de casas e pessoas
onde em sombras deixei tédios
e a imensidão de minhas fugas.
 
Acolitaram-me no Oeste um sorriso
inaugural e singular de primogênito
e as navegações de outros rostos
no ventre enaltecido da amada.
 
A vida me floresceu esta cidade
e edificou descendentes e poemas.
Minhas mãos porém me diluíram
e voaram no dorso dos ventos.
 
Os filhos se evolaram a outras terras
empós do amplo fulgor do Altiplano.
Ressonâncias nas veias e nos ermos,
nas artérias este anseio de mundos.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
"Poemas para Brasília", antologia

 

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Capital federal

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Capital federal
 
 
finda a tarde em pássaros e presságios
cenário desolado de árvores retorcidas
corre a vida pela solidão dos cerrados
planalto místico rico em ritos e oráculos
 
terra nova alvo de sonhos antigos
mitos galopam pela vastidão do nada
as gralhas gritam na secura e susto
enquanto tratores revolvem a terra
expondo tesouros e cadáveres
pequenas raízes em fraturas nodosas
 
arde a noite em combustão espontânea
ilumina-se a ilha por vegetais em chama
enquanto não se cumprem
os sonhos das profecias.
 
Guido Heleno, poeta goiano, nasceu em Anápolis.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira

 

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A Iluminada

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A Iluminada
 
À noite, Brasília brilha,
colar gigante de luzes
no pescoço do horizonte.
Da terra aos céus mostra a trilha.
 
Parece um disco voador
a desvendar o cerrado.
Dos homens passa o recado
com um bit de minha dor.
 
Berecil Garay, poeta gaúcho, nasceu em Passo Fundo.
"Poesia de Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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BANZO MINEIRO

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BANZO MINEIRO
 
A saudade aumenta
quando me ausento
da terra do queijo
e do bolo de milho
(além das coisas mais)
A saudade aumenta
quando demoro
a voltar às montanhas
minerais
O ministério-prisão em Brasília
a família chama lá de Minas
e o banzo aumenta
aumenta o banzo.
 
Dilermando Rocha, poeta mineiro, natural de Raul Soares.
"Poetas Mineiros em Brasília", de Ronaldo Cagiano

 

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A conquista da cidade

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A conquista da cidade

na chegada:
eis-nos aqui outra vez,
outra vez, cansados, outra vez.

porque daqui a lua é a terra.

companheiros, a ânsia continua.

daqui fomos. Epopéia.
do mundo ao novo-mundo.
vamos. experientes jamais.

num minúsculo quarto, os mares
e os astros: percorridos.

não se parte. não partimos. Aqui
não é um lugar.

astros e mares pré-corridos:
a ilusão.

outro real nos falta.

andamos a viagem do não-caminho:

a outra-face-da-lua,
a sempre-outra…

ao novo, ó companheiros.

Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília

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Brasília
 
II
 
tu própria, apenas chão de promessas,
terra vermelha, só, e rios e o cinzento
                         sujo do cerrado
órfão.
sobre tudo, o céu mais claro do mundo
abandonado, céu sozinho, cru.
 
que te erguesses no centro da
noitidão de uma república deserta.
 
2/3 do mapa eram
"desalentadores vazios demográficos"
 
e as primeiras paredes as primeiras e
asas a primeira fumaça das chaminés
no carrascal primeiras vozes
vagas estruturas com pressa de pilares
fogos acesos nos canteiros de obras
                          de um Brasil diferente
declaravam que crescias
                          de rasos lápis e compassos
                          do papel seco surgias
líquida
no ar sobre nós,
crescias, anseio, abrangência pelo país,
Brasília dos brasileiros,
tão próxima te fazias,
                          canção de
                          construção, de todos, nacional.
 
(continua amanhã)
 
Aricy Curvello, poeta mineiro, natural de Uberlândia.
"Brasília na Poesia Brasileira", de Joanyr de Oliveira

 

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