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Brasília contra o tempo

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Em recente artigo ressaltei a impressão que colhera da minha primeira visita a Brasília. Fixara na memória a paisagem desértica dos arredores, interrompida pela implantação de um formidável canteiro de trabalho, organizado, disposto, ativo para empreitada gigantesca do erguimento de uma cidade moderna no planalto central. Fixara o contraste com a natureza, no pitoresco de seus quadros em gradações, suaves e tranqüilas, com a afoiteza abrupta das concepções do arquiteto modernista.
Contraste que choca às vezes, ou quase sempre, mas que no final se há de esbater, quando o gosto tradicional capitular sob o peso de novas impressões estéticas, impostas pelo grandioso e arrebatado das edificações em acabamento.
Confesso que é bem difícil conceber-se, numa visita só a Brasília, a projeção final da cidade que, no papel, parece tão harmoniosa quanto funcional. Estão ainda nos primeiros delineamentos as avenidas. As edificações, que são muitas, perdem-se na imensidade do sítio escolhido. Até o Palácio da Alvorada brota da terra, magnífico, isolado, como perdido à procura de uma condigna moldura que ainda não encontrou. Mais além, o Grande Hotel surge, imponente, na tortura do isolamento temporário.
A vista dos edifícios sobranceiros deve pois ser tomada pelo visitante ao "background" ideal da cidade já construída, de acordo com os planos inteligentemente lançados. Imagine-se a massa líquida do lago contornando a urbe. Imagine-se o bloco majestoso dos edifícios da praça amplíssima dos três poderes. Fantasia-se a longa via das embaixadas, os blocos comerciais esparsos, aproximados pela edificações residenciais que enchem os claros, e então se terá, paisagem distante do planalto, a projeção grandiosa do que, no papel, já agora nos parece harmônico, mas que, no campo, por ora, resulta ainda desencontrado e monótono.
Por largo tempo Brasília, na realidade, deixará de colher os aplausos que Brasília, na concepção urbanística dos seus projetadores, no papel, no desenho, vem com justiça merecendo dos críticos de todo o mundo.
Uma cidade inteiramente planejada não pode surgir já se prevendo demolições, nem se podem traçar ruas com as proporções do tráfego de hoje, nem mesmo do decênio mais próximo.
A grande avenida, entretanto, que vai ligar a margem do lago, onde está o palácio, com a praça dos três poderes, passando perto do Grande Hotel, imprimirá o sentido de continuidade espacial da cidade.
Posso avaliar as dificuldades que hão de surgir a um obstinado cumprimento da delineação da grande capital. As lutas que os dirigentes da Novacap hão de travar para não se arredarem um milímetro do que foi projetado. Quando à iniciativa privada apetecer a ocupação dos claros das grandes distâncias não edificadas, serão ingentes e titânicas as resistências a opor. Nem excluo a hipótese das arremetidas partirem mesmo de órgãos e instituições públicas ou semipúblicas. A impaciência no esperar o desenvolvimento pode originar pressões de opinião difíceis de controlar.
Arrimando-me a esta série de raciocínio, teimo em dizer – a grande batalha que Brasília tem a vencer não será somente a do preço das edificações, das obras de saneamento, dos trabalhos de urbanização. Em meio destes fatores, há que considerar sempre e em primeira linha o fato tempo. Este é que deve ser vencido a todo o custo. E é o que se observa já no começo do surgimento da cidade. Pareceria impossível, por exemplo, que em pouco menos de um ano se tivesse removido terra para a feitura das avenidas, aplainamento das praças, recorte das barreiras, em volume uma vez e meia o do desmonte do morro de Santo Antonio, eternizado e incômodo. E ali é o que se faz, conforme anuncia o presidente da Novacap, o engenheiro Israel Pinheiro.
Só de estradas e ruas, foram rasgados, em 11 meses, e em parte já pavimentada, oitocentos quilômetros, duas vezes a distância Rio-São Paulo. Rede de esgotos, adutora de água, edificações na cidade provisória, surgem com velocidade incrível.
A área de construção na cidade provisória representa perto de 100 mil metros quadrados. Na capital, serão inaugurados, em maio, edifícios com quase outro tanto de área. E entre eles dos dois principais e de mais difícil construção, o palácio e o hotel. Mais de mil apartamentos estão com alicerces lançados. Nunca vi juntas tantas máquinas de terraplenagem, escavação e pavimentação.
Diz-se que este arsenal destinado à mais pacífica das conquistas está orçado em um bilhão e cento e vinte milhões de cruzeiros. Esforço tremendo em dinheiro, mas, ao meu ver, esforço maior em atividade acelerada. Brasília tem que surgir dentro destes três anos que ainda faltam para a data marcada para a transferência da capital.
E tem que surgir não-somente com os prédios públicos, indispensáveis, mas também com as linhas mestras da urbe de tal modo impressas no conjunto, que ninguém se atreva a distorcê-las ao sabor dos interesses fugazes dos impacientes.
É contra o tempo que Brasília luta e vai ganhando vitória. Volto então afirmar, de mim para mim, o que é preciso é aplicar o mesmo entusiasmo e a mesma celeridade nas obras que se fazem pelo País afora. O "match" Brasília contra o tempo está no tablado. Muitos brasileiros acompanham e torcem pela vitória do dinamismo dos compatriotas. Coloco-me entre os torcedores. Oxalá se acostume a opinião pública com o ritmo de trabalho que se está imprimindo em Brasília e reclame o mesmo para todas as atividades públicas de que se espere algum benefício.
 
Apolônio Sales
Transcrito da revista "Brasília", da Novacap, edição de janeiro de 1958, número 13.

 

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Crônica de uma cidade quando nasce

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Crônica de uma cidade quando nasce
        Para Oscar Niemeyer

I – A gênese

1

No princípio era o verde
e uma amplidão de esperas
no desejo secular de ser-se vida.

Era o verde só
                    e a cruz lá em cima,
até que o verde se vincou na cruz da
terra
e os raros pássaros nos galhos se
indagaram se já seria hora do cantar
e da alvorada.

E quando isto se deu
escassos eram os olhos
e poucos os braços.
As pedras não entenderam e se
calaram
em sua saliva de pó e de calcário.

2
Mas houve equações no gesto e dúvidas no esquadro,
e os giros do compasso eram agonia
de quem nasce em círculos de bronze
                                                           e tradição.
 
Na folha branca o traço verde
                                               era a esperança,
e a lâmina afiada sobre o mapa
era o talho e o atalho vital no corpo inerte
e inerme, embora a tração das máquinas.
 
 
3
Como ela veio não se sabe
nem como viria se soube.
A mulher fundada em planos
altos e anúncios. O rio:
como ele veio não se sabe,
mas ele veio e está deitado
oferecendo-se nas curvas.
 
Como ela surge ninguém sabe.
Sua gênese noturna, sua forma aguda
e modos de sair do chão redonda
e fina em gomos de erosão,
marmórea, límpida, onírica,
sua forma bem lavada
em barras de suor
e aço em combustão.
 
Mas se ela nasce assim madura, sabei-o:
é o tempo! O paridor de estrelas,
cubos, alvoradas e cristais;
é o tempo – que da estrutura dos metais
criou as linhas do viver.
 
E esta cidade está no tempo
incrustada como a ostra
e a espera na semente.
Está no tempo a descoberto
para o orvalho e o raio,
em lírios, coqueirais e mil redomas.
E hoje quando surge
é como se surgisse
                              – autônoma de nós,
é como se explodisse
                              – em glóbulos nas artérias,
com suas tesouras fechadas sobre a terra,
por onde o homem correrá tranqüilo
em rodas e pedais de esquecimento.
Mas, onde há gás néon, havia cobras.
e nos cofres e armários, grilos e sapos
construíram com os índios
os maracás sonoros para as noites de luar.
 
Affonso Romano de Sant’Anna, poeta mineiro, nasceu em Belo Horizonte.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Luziânia revisitada

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Luziânia revisitada

Cavalos forasteiros no asfalto
me conduzem ao tempo do chão batido
aos velhos becos de poças e estrume
trinta anos atrás. Onde estão eles?
O som do sino some estrangulado
pelo rugido de rodas e motores.
Cores e toques turísticos nas casas
mascaram a bexiga do granizo.
Procuro a imensa sombra redonda
do tamboril reinando na praça
a verde e colossal galinha choca
cujas asas aninhavam meus filhos.
Tropeço na lenha do seu esqueleto.
A igreja, caolha sem uma torre,
fraturou a paisagem da memória.
Só as jabuticabeiras, olhos plurais
Desorbitados por braços e troncos,
espiam na solidão dos quintais
os transeuntes curiosos vasculhando
relíquias da colônia, comprando
as seculares caixetas de marmelada
de remanescente quilombo.
A sorte é que ainda me lembro,
ainda me lembro de como era antes.


Astrid Cabral, poetisa amazonense, nasceu em Manaus.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília

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Brasília
 
(final)
 
III
 
desde o princípio cumpria que rompesses
com tempo passado e as coisas presentes.
tão crua                   não te suspeitávamos
da novidade
em claro, forma, espaço,
a para mais adiante projetada, para além,
tomavas posse da terra,
norte acima, selva atr
avessada, ex-cedida até Belém,
primeira espinha dorsal do Brasil.
(caminho das onças, eles insultavam).
nós trabalhávamos
e eles conspiravam
desarticular-te,
eles conspiravam parar mudanças,
novas maiores enormes transformações,
parar a enorme energia sem peias a romper de ti.
mas reverdecias o que temos de não
conforme, não satisfeito, não pré
enchido em lacunas e grandeza e azul.
nascíamos novos
impulsos de continuar
a abrir fronteiras.
 
Aricy Curvello, poeta mineiro, nasceu em Uberlândia.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Paisagem

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Paisagem
 
Esta a paisagem. O infinito
com horizontes próprios, prende
as nuvens. E se reconhece
um mar em cada vale, e amanhece –
da própria treva se desprende
o dia, aqui, onde o granito
esquece a sua forma
dura, e a luz fosforescente
que a treva, úmida, liberta –
sombra por sombra se transforma
em cal. Virgem, entreaberta
apenas, aqui está a nascente
da própria água: eterna.
E a terra jaz: definitiva.
Sob o rios, e a eternidade
de sua própria perspectiva.
A terra jaz. Materna
jaz, sob o tempo, e a origem
dos rios, úmida no fundo,
a terra. O tempo, aqui profundo,
e a água, para onde se dirigem?
Se até os rios, lentos,
buscam o mar, eternamente
aqui: sob os céus violentos
desta paisagem, e somente
os deuses podem, contra
o tempo e sua eternidade,
estar. Imóvel, no lugar
onde foi mar ainda se encontra
a espuma. Íntima da cal,
viva, mas pétrea. E que local
melhor do que este, para
a construção de uma cidade?
Somente nos espera
aqui, do céu, a imensidão
da terra. Mas aos poucos surge
uma cidade. Por isso, urge
reconstruir, onde já estive
o mar, líquida, a solidão.
Repovoar a luz, que teve
aprisionada em si o mar,
antes do tempo. As ilhas, ilha
por ilha – todas. E chamar
essa cidade, de maneira
que fique prisioneira
da terra. Sim: Brasília.
 
Octavio Mora, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Ode à cidade

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Ode à cidade
 
Abraço azul de céu tão baixo
em grossas nuvens cintilantes
abraça e solta abrasa e sopra.
Silvo de terras sem quiçás
alimentando teu presente
e deixando o passado atrás.
 
Nossa alma leve de perdiz
nessa rítmica simetria
sobre cimento fincará
espalhando nova raiz
ode-cidade cor de homem
onde homem tem novo matiz.
 
Tranqüilo até para sofrer
estende-se além do cerrado
o tempo despido em paisagem
paisagem despida de sal
que no lábio longo do lago
em paz descansa elemental.
 
Despejando passos e posses
enquanto cresce o teu afã
amadurecendo precoces
humildemente deslizamos
exaustos de êxtases de orvalho
no embalo de cada manhã.
 
Se uma pomba municipal
girar viva ou morta girar
– cifrando motores e cal –
vão alcançá-la ou bem ou mal
porque sem tempo para sofrer
domingo se pode morrer.
Entre buritis empinados
clamando do céu despojado
o marco azul de tua história
a cada amor a cada pranto
um anjo mantém no planalto
a vermelha cor da vitória.
 
Yolanda Jordão, poetisa natural de São Paulo.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira

 

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Mesma mineira em Brasília

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Mesma mineira em Brasília
 
No cimento duro, de aço e de cimento,
Brasília, enxertou-se, e guarda vivo,
esse poroso quase carnal da alvenaria
da casa de fazenda do Brasil antigo.
Com os palácios daqui (casas-grandes)
por isso a presença dela assim combina:
dela, que guarda no corpo o receptivo
e o absorvimento de alpendre de Minas.
 
                          *
 
Aqui, as horizontais descampinadas
farão o que os alpendres remansos,
alargando espaçoso o tempo do homem
de tempo atravancado e sem quandos.
Mas ela já veio com a calma que virá
ao homem daqui, hoje ainda apurado:
em seu tempo amplo de tempo, de Minas,
onde os alpendres espaçosos, de largo.
 
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Planalto

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Planalto
 
O mar é um grande pulso que lateja.
O planalto é um mar de vagas imobilizadas na diástole,
e o pulso anula-se na tensão áspera da pele.
 
Gritos mineralizados. O tempo
lapida os cristais fendidos do silêncio.
E das fissuras mana (imperceptível)
uma saudade marinha.
 
Esmagado espanto vegetal. Pássaros
nadam entre as algas. Seres
estranhos
deslizam no fundo. Restos.
 
O Homem, navegador crispado,
vem sulcar estas águas
coaguladas. Decifra na face
do planalto (memória
de mar petrificada)
seu arcano, e semeia-lhe
arquipélagos.
 
Sobre as vagas imóveis
um vivo mar agita-se.
 
Anderson Braga Horta, poeta mineiro, nasceu em Carangola.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Dizeres

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Dizeres

Antes que o corpo
porque existiu
não saiba

e o homem
se torne prisioneiro
de um tempo

onde só os papéis
timbrados
sejam levados em conta

e o espírito
seja apenas
um burocrata

servil à máquina
tanto quanto
o funcionário assina o ponto

surge um basta
com os dizeres:
respeitem o dia

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano, nasceu em Salvador.
Extraído do livro "A Matemática do Poema".

 

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CIDADE LIVRE (o homem e a construção)

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CIDADE LIVRE
(o homem e a construção)
 
Os braços erguidos
sob pedra e argamassa.
Exército insone,
flutuante em seu verde
imemorial.
Os braços secos:
oceanos de cactos?
Temperado em flagelos,
resistente o corpo
na estrada da insônia.
Os açudes da memória,
os extintos rios,
se engravidam e sabem
trêmulos e límpidos.
No útero das noites
nascituras casas.
Líquida disciplina,
troca simetria
reflorindo nos lábios.
O candango se afina
em cimentos e caibros.
 
Caminham os olhares
Retirantes
pelas réguas e prumos
e os desequilíbrios
de seus passos longos
se proclamam livres
dos roteiros do ontem.
 
Contraditória no nome
a Cidade Livre:
bandeirantes esquálidos
firme retempera
e aprisiona os braços
para novos meandros
novos labirintos
enganosas vozes
enganosos hinos
nas algemas do tempo.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, nasceu em Aimorés.
Reproduzido do livro "Tempo de Ceifar"

 

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Paisagem

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Paisagem

Esta a paisagem. O infinito
com horizontes próprios, prende
as nuvens. E se reconhece
um mar em cada vale, e amanhece –
da própria treva se desprende
o dia, aqui, onde o granito
esquece a sua forma
dura, e a luz fosforescente
que a treva, úmida, liberta –
sombra por sombra se transforma
em cal. Virgem, entreaberta
apenas, aqui está a nascente
da própria água: eterna.
E a terra jaz: definitiva.
Sob os rios, e a eternidade
de sua própria perspectiva.
A terra jaz. Materna
jaz, sob o tempo, e a origem
dos rios, úmida no fundo,
a terra. O tempo, aqui profundo,
e a água, para onde se dirigem?
Se até os rios, lentos,
buscam o mar, eternamente
aqui: sob os céus violentos
desta paisagem, e somente
os deuses podem, contra
o tempo e sua eternidade,
estar. Imóvel, no lugar
onde foi mar ainda se encontra
a espuma. Íntima da cal,
viva, mas pétrea. E que local
melhor do que este, para
a construção de uma cidade?
Somente nos espera
aqui, do céu, a imensidão
da terra. Mas aos poucos surge
uma cidade. Por isso, urge
reconstruir, onde já estive
o mar, líquida, a solidão.
Repovoar a luz, que teve
aprisionada em si o mar,
antes do tempo. As ilhas, ilha
por ilha – todas. E chamar
essa cidade, de maneira
que fique prisioneira
da terra. Sim: Brasília

Octavio Mora, poeta natural do Rio de Janeiro
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Planalto

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Planalto
 
O mar é um grande pulso que lateja.
O planalto é um mar de vagas imobilizadas na diástole,
e o pulso anula-se na tensão áspera da pele.
 
Gritos mineralizados. O tempo
lapida os cristais fendidos do silêncio.
E das fissuras mana (imperceptível)
uma saudade marinha.
 
Esmagado espanto vegetal. Pássaros
nadam entre as algas. Seres
estranhos
deslizam no fundo. Restos.
 
O Homem, navegador crispado,
vem sulcar estas águas
coaguladas. Decifra na face
do planalto (memória
de mar petrificada)
seu arcano, e semeia-lhe
arquipélagos.
 
Sobre as vagas imóveis
um vivo mar agita-se.
 
Anderson Braga Horta, poeta mineiro, natural de Carangola.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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29 de julho de 1957

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O senador Apolônio Sales, especialmente convidado pela Comissão Organizadora do V Congresso Nacional de Arquitetos, realiza, no salão nobre da Faculdade de Direito do Recife, uma conferência subordinada ao tema: "Brasília e os Arquitetos’.

Em sua conferência, diz o senador Apolônio Sales:

"Para se compreender o arrojo do empreendimento é preciso que não nos apeguemos às idéias vinculadas às condições de antanho. Hoje, um dia vale um ano. Um ano vale um centenário, se compararmos a velocidade com que as idéias e os estímulos da vontade humana podem e devem se traduzir em fatos. Afinal, nos séculos passados, na época das carruagens e dos mensageiros, das liteiras e das berlindas, as nações tinham tempo para esperar, pior que isso, tinham tempo para desanimar-se da realização dos seus sonhos. Hoje, quando os antípodas se aproximam, e as distâncias no espaço se vencem pelo encurtamento do tempo com que se transpõem as intérminas caminhadas de outrora, hoje já não é mais façanha a que não possam aspirar homens dinâmicos, num país de litoral tão extenso como o Brasil e de hinterland tão vasto por conquistar e possuir, alargar a faixa de civilização confinada à orla marítima."

Concluindo, o conferencista conclama os arquitetos a volverem as suas atenções para Brasília, onde está sendo construído um marco de fé inquebrantável nos destinos do Brasil.

(Diário de Brasília)

 

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Mesma mineira em Brasília

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Mesma mineira em Brasília
 
 
No cimento duro, de aço e de cimento,
Brasília, enxertou-se, e guarda vivo,
esse poroso quase carnal da alvenaria
da casa de fazenda do Brasil antigo.
Com os palácios daqui (casas-grandes)
por isso a presença dela assim combina:
dela, que guarda no corpo o receptivo
e o absorvimento de alpendre de Minas.
 
 
                           *
 
 
Aqui, as horizontais descampinadas
farão o que os alpendres remansos,
alargando espaçoso o tempo do homem
de tempo atravancado e sem quandos.
Mas ela já veio com a calma que virá
ao homem daqui, hoje ainda apurado:
em seu tempo amplo de tempo, de Minas,
onde os alpendres espaçosos, de largo.
 
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, nasceu no Recife.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Código do herói opaco

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Código do herói opaco
 
(…)
as chuvas desabam sobre as máquinas.
Brasília.
e do fundo do tempo um santo pavor.
e o poema, incapaz de culto: sob as máquinas.
 
 
ó grande medo, mais que a chuva,
tua cidade rejuvenesce.
 
 
ficou um denso mais verde,
o chão.
um teto maior o azul
desabado e recomposto.
uma força mais cor
os homens.
um sentido as máquinas.
o poema, um rito
 
*
 
minha cidade, filha e mãe,
à luz primitiva,
meu fazer
– danação.
 
 
cidade, és criança, incesto, dor
de te nascer do sexo do mundo:
 
 
as crianças criando a criação.
 
*
 
do planalto central
eu medito o centro
dentro e fora.
porque as mãos independem.
não sou apenas
o que faço.
 
*
 
e busco o centro
que religue gente mil,
cada qual uma nação.
 
 
Milhões de flores, não de pessoas,
as cabeças perdidas
                  belamente,
milhões de vozes, uma:
um olho pulula no globo que gira.
 
Eu (me) recordo Píndaro,
porém cerebral,
a ode imagino
que o estádio grita.
 
Píndaro, sagrado.
Eu (me) lembro. (eu) me sinto.
 
*
 
os homens a jogarão no lixo,
amanhã, depois de.
ela,
por quem morremos.
 
*
 
cidade,
já não te culpo a separação.
já não exijo a totalidade.
Um grande mundo estreito
trazes.
 
Agora não somos
e existimos
pouco:
josé, joão,
amontoados,
separados.
 
*
 
eu só te quero
porque não posso
não te querer
 
*
 
danação.
as tuas carências
penetramos.
 
Somente os olhos afeitos
à mata, à mulher, ao mar,
vêem mágicas invisíveis.
 
é quando (grávida)
a mulher
nasce a si própria.
 
Porém não é lagarta
mais bela nem menos
que a borboleta.
 
Necessário
(e urgente)
é que não haja a lagarta
no tempo de borboleta.
 
*
 
a fonte não se invade,
pois não tem preamar:
inteiro, o seu corpo, fundo.
e nós?
 
Não a fonte,
mas os dedos, homens
que a fazem vibrar.
Nunca a irmã
porque sempre a estranha.
 
*
 
invadimos.
agora que é a viagem
por dentro de nós,
quem percorre a quem?
 
estrangeiros em nós próprios.
cresce o fora, o dentro míngua.
com alegria oferecemo-nos.
ao dentro-fora,
                       para o abismo.
 
Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Paisagem

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Paisagem
 
Esta a paisagem. O infinito
com horizontes próprios, prende
as nuvens. E se reconhece
um mar em cada vale, e amanhece –
da própria treva se desprende
o dia, aqui, onde o granito
esquece a sua forma
dura, e a luz fosforescente
que a treva, úmida, liberta –
sombra por sombra se transforma
em cal. Virgem, entreaberta
apenas, aqui está a nascente
da própria água: eterna.
E a terra jaz: definitiva.
Sob os rios, e a eternidade
de sua própria perspectiva.
A terra jaz. Materna
jaz, sob o tempo, e a origem
dos rios, úmida no fundo,
a terra. O tempo, aqui profundo,
e a água, para onde se dirigem?
Se até os rios, lentos,
buscam o mar, eternamente
aqui: sob os céus violentos
desta paisagem, e somente
os deuses podem, contra
o tempo e sua eternidade,
estar. Imóvel, no lugar
onde foi mar ainda se encontra
a espuma. Ìntima da cal,
viva, mas pétrea. E que local
melhor do que este, para
a construção de uma cidade?
Somente nos espera
aqui, do céu, a imensidão
da terra. Mas aos poucos surge
uma cidade. Por isso, urge
reconstruir, onde já estive
o mar, líquida, a solidão.
Repovoar a luz, que teve
aprisionada em si o mar,
antes do tempo. As ilhas, ilha
por ilha – todas. E chamar
essa cidade, de maneira
que fique prisioneira
da terra. Sim: Brasília.
 
Octavio Mora, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília’, de Joanyr de Oliveira

 

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