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Leonardo Almeida Filho

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Leonardo Almeida Filho imagina “O rio fantasma”, a que oferece o poema. Um rio, a um só tempo, a correr no Planalto, eliminando a “a tua saudade de mar” e a “(…) transportar, para outras terras, teu soluço”. O fácil trocadilho presente no título de “O lago paira no ar” ameaça mas não chega a comprometer o poema, que declara: “o mar aqui não é mar/o mar são as pessoas”. Traz à lembrança – não intencionalmente, admita-se – os versos contundentes de Castro Alves sobre as águas que em multidão se personificam: [“que este mar de almas e peitos/com as vagas de seus direitos/virá partir-vos a lei.”] Mas, declara Leonardo Almeida: “(…) minha mensagem não tem destino CLARO”. O que o envolve são “As solidões, fiéis companheiras:/(…), a (…) carta (…) de Van Gogh/para Théo e para Deus”. A conclusão é: “Estou perdido/e o mar de gente ameaça a plantação/tão duramente cultivada/nessa fértil ilha-eu”. A pátria do poeta (em “Cidade Satélite”), “pátria/sem porta”, “nossa casa”, “pátria e casa” é “fútil e fértil cilada”. É sempre sombria e desconfortável, conquanto objeto do amor do homem do povo que o poeta veio interpretar: cova rasa, vala sem parede, sem bandeira…Em “Cosmogonia” (dedicada a Eudoro de Souza), está a “Brasilírica, brasilúdica”, onde somos luzes e ventania, palco em que “…nos cabe/Acordar”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.


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Mesma mineira em Brasília

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Mesma mineira em Brasília
 
No cimento duro, de aço e de cimento,
Brasília, enxertou-se, e guarda vivo,
esse poroso quase carnal da alvenaria
da casa de fazenda do Brasil antigo.
Com os palácios daqui (casas-grandes)
por isso a presença dela assim combina:
dela, que guarda no corpo o receptivo
e o absorvimento de alpendre de Minas.
 
                                 *
 
Aqui, as horizontais descampinadas
farão o que os alpendres remansos,
alargando espaçoso o tempo do homem
de tempo atravancado e sem quandos.
Mas ela já veio com a calma que virá
ao homem daqui, hoje ainda apurado:
em seu tempo amplo de tempo, de Minas,
onde os alpendres espaçosos, de largo.
 
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, natural de Recife.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Plano piloto

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Plano piloto

Sim, Brasília.
admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
                           Paulo Leminski

 
No principio, era apenas
a intocada solidão
do Planalto Central.
Com o decreto de mudança da capital,
chegaram os homens
em fluxo errante dos brasis
apartados.
 
E do mandamento dos projetos
esticados  sobre as mesas,
olhos e dedos pressurosos
indicavam uma direção
sobre a planura sem fim:
 
surgia a homilia da esperança
tutelando o tempo e
a geografia,
ferida aberta no cerrado
                       imensidão depravada
                       pelo arsenal de tapumes.
 
Diferente dos diademas
que conformam o céu
sobre as Montanhas de Minas,
altar em que se debruçam os olhares da História,
o desconforto agreste
da poeira dos primeiros tempos
pairou sobre corpos suados
e máquinas infatigáveis
no altiplano violado
pelo concreto.
 
A retidão do horizonte
quebra o rigor da densa couraça
da flora retorcida
transforma cada alvorada
num feixe de brasas
prenhe de amanhãs.
 
Essa fosforescência
insiste em se proclamar
indiferente às mazelas e fetiches
da urbe administrativa
instaura a eterna marcha para o Oeste
 
Já não és, Brasília,
esse tempo de esquadrias
ou outro tempo de esquadrões,
nem a solitária hora de habitar uma maquete
nem a gente desconfiada num lugar inacabado
nem a incomunicável aridez de suas vias
nem o cansaço dos acampamentos
 
livre dos coturnos
que a batizaram ainda na antemanhã
a cidade sem esquinas
não se esquiva
nem se fatiga
              dos traços do arquiteto
 
seus botecos suas noites
sua música seus automóveis
seus escândalos suas feridas
seu festim de esgotos no Paranoá
 
tudo é vida tudo é morte
nesse canteiro de repartições
nesse plantio de autarquias
nessa febre de ângulos retos
 
Capital que se espreguiça
e viaja no Grande Circular
para chegar cedo à Esplanada
e azeitar
as engrenagens do poder.
 
Museu do futuro
seus blocos como legos
sobrevivem como casulos
onde habitam políticos sem rosto e sem memória
 
Mas a fuselagem supersônica pilotada por homens
verdadeiros
desconhece os riscos da prancheta
e dá vida ao que era sonho
conduzindo almas além das superquadras,
eixos e “tesourinhas”
decola sobre a geométrica metrópole
                      abre suas asas de Norte a Sul
no rumo de embrionária utopia.
 
A cidade (im)plantada
               – cicatriz no mapa do Brasil.
 
Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, natural de Cataguases.
Poema transcrito do livro “O Sol nas feridas”, Dobra Literatura

 

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Maturidade

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Maturidade

Enquanto os últimos raios de sangue
Tingem o cerrado  
Brasília bamboleia suas curvas generosas
Entre canteiros multicores.
Afugenta os fogachos,

No lago pintado de garças e sol.
Nas noites insones,
Reaviva as memórias,
Sacode a poeira dos guardados das gentes
Que dormem e sonham sob suas asas abertas…
Nas prévias primaveras dos ipês amarelos,
Alimenta sem pudores seus desejos ressequidos.
Sem temores, incita cigarras alvissareiras,
A denunciar a passagem do tempo.
Tempo.

Post Regina Melo, poetisa mineira

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A SOLIDÃO DIVIDIDA EM BLOCOS

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A SOLIDÃO DIVIDIDA EM BLOCOS
Poucas cidades no país produziram uma juventude tão crítica e irônica em relação ao cotidiano – e isso é saudável
Por Sérgio de Sá
 
Há cinqüenta anos, a cidade artificial procura encontrar uma identidade que lhe seja natural. "Nós queremos ação! Acabar com o tédio de Brasília, essa jovem cidade morta! Agitar é a palavra do dia, da hora, do mês!", gritava Renato Russo, com todas as exclamações possíveis, no fim dos anos 70, quando era voz e baixo da banda punk Aborto Elétrico. Em meio à burocracia oficial, o rock ocupou o espaço urbano, os parques, as superquadras de Lúcio Costa, cresceu e apareceu. Foi a primeira manifestação cultural coletiva a dizer ao país que a cidade existia fora da Praça dos Três Poderes e que, além disso, estava viva.

Na década de 80, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Detrito Federal e outros grupos, de nomes antes esquisitos e hoje nacionalmente sonoros, bagunçaram o coreto de um lugar exageradamente controlado, recém-desembarcado de uma ditadura militar próxima demais no tempo e no espaço. Depois de vinte anos de sufoco, no período pós-1964, e já com a chegada da anistia, Brasília respirou aliviada e seus filhos – poucos de sangue, muitos adotivos – puderam afirmar sem medo, mas com ironia e autocritica: "Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, Geração Coca-Cola", também nas palavras do onipresente Renato Russo.

O atormentado líder da Legião Urbana, nascido em 1960 como Brasília – mas na Velhacap, o Rio -, inventou outro mundo para animar a adolescência brasiliense. Transformou o cotidiano aborrecido em poesia. Algo diferente do que, no Rio de Janeiro, fizeram João Gilberto, Tom e Vinicius com a bossa nova, no fim dos anos 50, retrato musical do prazer de viver à beira-mar, trilha sonora do bem-estar.

O movimento candango, no grito e em acordes também dissonantes, resumiu a vontade que cerca a história da cultura na capital federal: apagar traços da ocupação militar, escapar da comodidade das repartições públicas, amenizar a pecha de lugar de corrupção e bandalheira, de endereços sem alma, formado por letras e números. Numa versão nunca gravada de Tédio (com um T Bem Grande pra Você), Renato Russo escreveu: "Tudo numerado é legal mas enche o saco".

"SQS ou SOS", eis a questão resumida pelo poeta Nicolas Behr, representante brasiliense da chamada turma do mimeógrafo, de bar em bar vendendo seus livrinhos. Se Leo e Bia, o casal criado por Oswaldo Montenegro em 1973, viviam no centro de um planalto vazio, "como se fosse em qualquer lugar", Eduardo e Mônica descobriram outro roteiro, menos etéreo, mais real. Como os personagens da música da Legião Urbana, a cidade se encontra no Parque da Cidade, anda de camelo, toma conhaque, faz magia e meditação. Esbarra, assim, num cotidiano aparentemente igual ao das outras cidades. Mas talvez apenas esbarre, porque a vida em Brasília é realmente diferente, inclassificável.

"Brasília não é um lugar qualquer", resume o ator Adriano Siri, da Cia. de Comédia Os Melhores do  Mundo, sucesso de bilheteria em todo o país. "Tem esse propósito inicial de abrigar poderes, autoridades, embaixadas, mas, ao mesmo tempo, traz algo nas características urbanas que nos diferencia. A cultura, naturalmente, deixou-se marcar por isso." Ele lembra que Brasília, como nenhuma outra cidade brasileira, concentrou gende vinda de todos os lugares e que uma tradição ainda está por se constituir – a cidade é jovem demais para contar uma história. "Em nossos espetáculos, conseguimos fazer humor com as realidades regionais sem forçar a barra", afirma Siri. Cinqüenta anos, em qualquer cronologia urbana é muito pouco tempo.

Caipirice. Não se pode dizer que Brasília, aos 50, seja apenas a cidade de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. "Não podemos esquecer da tradição e da vida anterior ao concreto, do sertão e sua cultura", afirma o violeiro mineiro-brasiliense Roberto Corrêa. Brasília, portanto, alia a saudável caipirice de origem (não confundir com a breguice sertaneja que a cidade abarcou, em especial nos doze anos de governo Joaquim Roriz) ao cosmopolitismo que nasce do casamento do modernismo arquitetônico com uma população de alto poder aquisitivo, viajada.

Em Renato Russo: o Filho da Revolução (Agir), o jornalista Carlos Marcelo mostra como o líder da Legião Urbana e as turmas que gravitavam na esfera do rock foram os primeiros adolescentes a poder assumir sem medo a identidade da cidade em construção, com todas as suas inquietações e imperfeições. "Nas composições iniciais, no fim dos anos 70, Renato Russo utilizou a estética e sonoridade punk, que tinham acabado de surgir na Inglaterra e nos Estados Unidos, para amplificar o impacto das letras que escrevia sobre a situação política do Brasil e do que observava no cotidiano da capital", afirma Marcelo. "Essa mistura em iguais proporções de ingredientes cosmopolitas e nacionais é bem característica da juventude brasiliense daquela época."

Para o jornalista, a angústia resumida nas letras do roqueiro é a tradução das dores de parto e do crescimento da cidade. "Elas captaram a atmosfera daquele tempo, entre o fim do regime militar e a democratização, como se fossem polaroides", diz. Para Carlos Marcelo, "Renato foi o primeiro a cantar, com todas as letras, a angústia de morar numa cidade sufocada, de estar cheio de se sentir vazio", completa, numa referência a trecho da letra da canção Baader-Meinhof Blues, uma das tantas que misturavam estado de espirito com o desenho urbano.

O mundo, naqueles dias dos anos 70 e 80, andava mesmo complicado. Para levantar a poeira da inércia bem acomodada na tranquilidade planejada das superquadras, a arte do rock encontrou Brasília, ao mesmo tempo em que, inevitavelmente, estabelecia uma mirada estrábica: um olho nos pilotis e nos cobogós, outro nas informações que circulavam mundo afora. Com baixo, guitarra, bateria e um plugue na tomada de Londres ou Nova York, partiu para a ação debaixo dos blocos, como são chamados os edificios residenciais no Plano Piloto de Lucio Costa.

Dos gramados abertos brasilienses às salas esfumaçadas do Rio ou de São Paulo, foi um pulo, ou melhor, um mosh, como os punks definem o salto do músico aos braços da platéia, num movimento de euforia, mas arriscado. As bandas desembarcavam com um poderoso cartão de visita: "somos de Brasília", como quem dizia "somos de Manchester", o que significava som de qualidade, pulsante, novo – e muito barulho. O reconhecimento colou inclusive na geração posterior, a de Raimundos, Maskavo e Natiruts, já nos anos 90.

Faroeste caboclo. Brasília, descobriu-se, tinha carne e osso – e se tinha ambos é porque também tinha alma, embora quese sempre fosse melancólica. "A superquadra nada mais é/do que a solidão dividida em blocos", lugar em que "burocratas de verdade só fazem amor/em almofadas de carimbo", escreveu o poeta Behr. Outras vezes, além de triste, foi raivosa. Havia uma saída, e ela não era o aeroporto, como manda um chavão ainda hoje insistentemente repetido. "Meu Deus, mas que cidade linda!", gritavam e gritam os brasilienses em coro e com orgulho no verso de Faroeste Caboclo, a enorme e irônica narrativa da Legião, prestes a se transformar em filme. "E num ônibus entrou no Planalto Central/Ele ficou bestificado com a cidade/Saindo da rodoviária viu as luzes de Natal/ – Meu Deus, mas que cidade linda."

"Ainda não há um modus operandi para lidar com Brasília, mas ela sempre mostrou disposição de olhar para fora", diz o cineasta José Eduardo Belmonte, diretor de Se Nada Mais Der Certo, vencedor do Festival do Rio em 2008. "Esse diálogo existencial com o mundo é uma característica bem brasiliense." Paulista de nascimento, Belmonte passou a adolescência na capital federal. "Meu último filme foi eleito em São Paulo, mas é tão brasiliense quanto os outros. Capta um espaço abstrato, irreal, em que a cidade aparece de modo difuso, quase apenas um conceito."

Normalidade inexistente. Talvez seja a mesma Brasília da canção homônima dos Paralamas do Sucesso, trio que confunde sua origem entre o Rio e o Distrito Federal, porque Herbert Vianna e Bi Ribeiro começaram a tocar por lá. Na letra de Herbert, tudo é igual e estranho, mas os monumentos, os palácios, as avenidas, os eixos não são nomeados. "Quartos de hotel são iguais/Dias são iguais/Os aviões são iguais." A cidade, na canção, não existe. Na capital política, dar nomes é sempre um risco. Pode comprometer.

Entre o concreto e o abstrato, Brasília continua a buscar uma normalidade inexistente. Mas "ainda é cedo", diz o refrão de Renato Russo. Para a cinqüentona Brasília, paradoxalmente adolescente, há muito a aprender. Ela não tem os 444 anos do Rio de Janeiro, tampouco os 455 de São Paulo. A música urbana foi – e continua sendo – uma forma de fugir da frieza da cidade recém-nascida.

Há exatos 25 anos, quando a Legião Urbana lançou seu primeiro disco (Legião Urbana), ela também tornou nacionalmente visível a impossibilidade que o artista brasiliense tem de fugir da maquete, mesmo quando há ímpetos de destruí-la. No encarte do velho vinil, a cidade aparece nos traços do baterista Marcelo Bonfá. Os quatros integrantes da banda são como gigantes que deixam rastros para sempre marcados no solo seco do cerrado, no rabisco de Lucio Costa ocupado pelas obras de Niemeyer. Eram desenhos aparentemente ingênuos, mas ajudavam a mostrar o que a juventude brasiliense pensava de si mesmo, e sua relação com o traçado urbano. Brasília ainda não sabia o que era e talvez ainda não saiba – mas é certo que já produziu uma cultura só dela, saudavelmente critica e nada indulgente.
 
Sérgio de Sá , jornalista e professor da Universidade Católica de Brasília, é neto de Bernardo Sayão, pioneiro de Brasília.
Texto transcrito da Revista Veja (2138), Edição Especial "Brasília 50 anos", novembro de 2009.

 

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Será o tombo do tombo?

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Será o tombo do tombo?
Por Alfredo Gastal

Brasília vai fazer 51 anos. Esse tempo corresponde a apenas alguns dias de vida de uma criança mas, no caso brasileiro, onde as coisas correm e ocorrem às vezes numa rapidez descontrolada, eu me permito imaginar que este neném já apresenta alguns sinais de adolescência.

Nasceu muito bonitinha, meio perneta, só tinha a Asa Sul, mas era muito simpática. Tinha políticos, muitos cassados; professores da UnB, também cassados, mas apesar disso não era triste. Era, sobretudo, terna, exatamente à imagem e semelhança de Lucio Costa; bucólica, arborizada, com quadras recheadas de arquitetura de boa qualidade. Afinal, tratava-se do grande e único experimento do movimento moderno de arquitetura em que a rigidez dos princípios da lógica e da setorialização urbana era amenizada pelas escalas de seu criador.

O impacto nacional e internacional do Plano Piloto como cidade única no mundo levou à garantia de sua preservação por decreto distrital, em 1987, e em 1992, pelo Iphan. A arquitetura da cidade, entretanto, por uma questão de tradição brasileira, não foi bafejada por essa sorte. Neste país, tombam-se as reminiscência do poder clerical, colonial, imperial. O poder republicano de verdade foi muito tênue. Assim, Brasília é uma exceção à regra.

O tombamento aqui é volumétrico, ou seja, pode-se demolir um edifício e colocar outro com o mesmo volume no mesmo lugar. Considerando outro hábito nacional, a fobia por espaços vazios de nossa cultura, Lucio criou o conceito de projeção: os edifícios da cidade não possuem direito de uso do andar térreo, que passou a ser público, exceto nas áreas das prumadas. Mas então surgiram os salões de festas, e…

Chegamos ao século 21: cidade protegida, crescendo, ocupando o que pode e o que não pode. A arquitetura, principalmente na Asa Sul, de inicio era muito boa e tradicional, no sentido de ser fiel ao dito modernismo. Acho que até por uma questão de respeito ao urbanismo de Lucio, tendeu a ser quase sempre discreta, mimetizando-se com o arvoredo.

Mas os anos passaram e eu, hoje septuagenário, visitando um amigo numa SQS outro dia, fui atacado por uma trombeta visual. Num prédio daqueles que estava acostumado a ver sereno, quiçá conservador, berravam um vermelho-abóbora cercado por um verde que me recordava os tempos em que corria pelos campos do sul e acabava pisando no que não devia; figuras herméticas no mesmo tom flutuavam sobre um bege sujo. Meus olhos desorbitaram. Na casa de meu amigo, um pacifista, ele comentou: estamos ultrapassados; é a nova geração. É o pós-pós-pós-modernismo. Suspirei e, reacionariamente, comentei com meus botões: é mediocridade, é o começo do fim da arquitetura. Talvez nesta cidade, onde a burguesia ainda vive em paz, em seus recantos acolhedores, este seja o prenúncio de uma merecida invasão de bárbaros. Quero minhas cinzas adubando as raízes de um pau-Brasil.

Alfredo Gastal, Ph.D, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Texto transcrito do Correio Braziliense, Caderno Cidades, 17/04/2011

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O CONCRETO JÁ RACHOU

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O CONCRETO JÁ RACHOU
Por Dino Black

Minha consciência mira os passos do tempo
A canção ao fundo traz de volta bons momentos
Álbum de fotografia lembranças antigas
Na arquitetura das ruas apertadas de Brasília

Gente espremida em bares e lanchonetes
Carros estacionados estrugindo a urbanidade do rap
Lojas de conveniência, postos de gasolina, trabalhadores no comércio
Pedintes nos sinais, nas esquinas escravas do sexo

Tipinhos tatuados de camisetas e bonés virados
Um pé atrás do outro pra cima e pra baixo
Contando suas moedas num balé cotidiano
Gritos na multidão letreiros objetos estranhos


foto de José Varella/CB

Não sou doutor nem tão pouco professor
Ironia do camelô na escadaria da Rodô
Um migrante que traz na mala costumes do sertão
Enquanto a garrafa de pinga passa de mão em mão

De pai pra filho de Lampião ao Rei do Baião
Planaltos e guetos nos traços de um avião
As placas velhas deram lugar a outras
Cidade-satélite ganhando caras e bocas

A escravidão só mudou de nome pra assalariado
Com um padeiro na mão rima um cantor de xaxado
A exclusão é o mais amargo fruto do sistema
Galinhas velhas ciscando em torno dos problemas

Milhares de andrajosos agonizam nas esquinas
A violência temperada e carnificina
Os monumentos são estranhos santuários de pombos
Já não podemos situar nos espaços urbanos

O devaneio de São Dom Bosco a construção da capital
Em homenagem aos candangos barracos de pau
Simbolizando no estandarte a flecha pra lembrar os nossos índios
Geir Campos compôs o nosso hino fundado por Juscelino
Circular retangular como seria Brasília

Entre vários arquitetos e urbanistas
Havia apenas uma cidade Planaltina de Goiás
Fantasmas vivos de nossos pesadelos reais
Lucio Costa fez os traços inspirados no sinal da cruz
Ao vasto horizonte Oscar Niemeyer visualizava uma luz

Avenidas no cruzamento dos dois eixos
Planejada para ser a sede do governo
Vendo raiar outrora alvorada em sua história
Quando o Distrito Federal se fez maior a sua glória
Inclinados rostos inclinados sobre o mapa

Em meio à terra virgem desbravada
Cercado de escolas igrejas e residências
Pelos tons berrantes de outdoors destrói as referências
Não dá pra acreditar que este aqui é o lugar

Estas algemas que me prendem podem se soltar
Conhecendo de perto o que assola o Brasil
Vizinhos do Planalto que pra uns nunca existiu
Patrimônio cultural entre outras mil

Enxurradas de multas enriquecendo as hienas no covil
Quem ficou cego de um olho com a venda de 600 lotes
O fotógrafo registra aos olhos do repórter
Motorista desatento e o trânsito perigoso
Ônibus quebrado e a passagem mais cara sai do nosso bolso

Cartão-postal da cidade terceira ponte JK
Novidade pra elites e nada pra cá
Daqui pra lá só asfalto daqui pra cá só buracos
As margens da Estrutural sem ensinamento básico

Promessas que valorizam a memória curta
O povo novamente vai às urnas
A falta de um enfermeiro uma receita mal lida
Pão com manteiga café pra começar a rotina

Nesta muralha que me cerca de imensos prédios
O contato direto com o mundo real faz controlar meu tédio
Preto pobre analisando o lado bom e ruim
Mas crescendo no rap Deus teve pena de mim

A cultura do prazer abraçada pela mídia
A loira sorridente que nem conheço tá na capa da revista
Nossa!!! Etc. e etc. sensações, imagens, sons e delírios
Ali ninguém pode parar ao encontrar um amigo

Números e nomes palavras à cara das pessoas
Pra espantar o sono chego em casa tiro a roupa
Tomo um banho penso em tudo apertando um tubo de creme
Aos 33 estou perdendo a paciência e alguns dentes

Sem pé nem cabeça mais um pai nosso em caso de aperto
Bem diferente de acender um incenso e falar mal do Edir Macedo
Filosofias políticas religiões lutas distintas
Receita pra começar o dia, vou usar a velha peita do Corinthians

Catando guimba de cigarro me escondendo atrás da fumaça
Pensamentos são alimentados um copo de cachaça
Depressão ansiedade me coloca à frente
Vendo meus sonhos indo embora de repente

Roteiro que daria o script de um filme
Descobrindo a dor no calcanhar de Aquiles
Desequilibrado na corda bamba, que nem conta a letra do samba
Minha escola minha rua meus companheiros de infância

Casas geminadas, isoladas simples ou luxuosa
O sol se põe deixando o céu de Brasília cor-de-rosa
Deixando de ser a capital do rock
Ao som da periferia nos versos do hip hop

Filho de nordestino de história escrita a calo
Independentemente do tempo que moro neste bairro
Aglomerei tantos sonhos que até fiquei sufocado
Ouvindo os discos raros de Roberto Carlos

Dino Black, um dos rappers mais importantes do DF, filho de candangos que vieram do Nordeste em busca de oportunidades. Nascido na Ceilândia e criado na Candangolândia, é espécie de poeta da periferia, conhecido como Preto Furioso das Rimas.

Em 2007, lançou o primeiro disco solo, “Mais fácil amar a rosa do que seus espinhos”, que foi elogiado pela crítica especializada.

Poema transcrito de “4+8: Doze Visões de Brasília”, Correio Braziliense, 21 de abril de 2008.

 

 

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Hermenegildo Bastos

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Hermenegildo Bastos retrata, em “O código do herói opaco”, aquele cuja bravura sem loas, sem glórias, sem celebrações, sem reconhecimento, no seu quotidiano transita no “fundo do tempo”. O medo, paradoxalmente, depara-se com o “rejuvenescer da cidade”. As chuvas, que “desabam sobre as máquinas”, prevalecem sobre “o grande medo”, no exercício de seu singular oficio. “Ficou um denso mais verde”. No Planalto Central, o poeta contribui com seu inquestionável testemunho e com sua visão surrealista, e é, ao mesmo tempo, parte do cenário: “eu medito o centro/dentro e fora.//As mãos independem/não sou apenas/o que faço”. O vate extravasa, sente e sente-se Píndaro no estádio e na ode imaginários; trá-lo da Grécia, do seio das Égidas, para estar como partícipe da contemplação, como também da plena integração. Meros josés e joões, com o poeta, participam (“amontoados, separados”) no inevitável amor à cidade, a quem, com toda a sinceridade, se declara: “eu só te quero/porque não posso/não te querer”. E adiciona: “danação./as tuas carências/penetramos”. O conflito do adventício – que não apenas veio, mas aqui está para inserir-se, cabalmente, no processo de simbiose e também metamórfico – tem toda sua aceitação, nestes versos que são mais que metáfora: (…) não é a lagarta/mais bela nem menos/que a borboleta”. E há esta conclusão: “estrangeiros em nós próprios./cresce o fora, o dentro míngua/com alegria oferecemo-nos”.

Com “Em Brasília há uma lei que proíbe buzinar” temos o engajado. A luta, cuja vitória acabou adiada (e traída) pelo oportunismo da maioria dos políticos, é por ele lembrada: “(…) mais do que/passeata na cidade./Quando ouvi os carros,/desumanos,/buzinarem/o diretas-já da mudança.//Escutei as máquinas/ressoarem/marcha inédita.//e foi como/se àquela hora, em cada buzina/tocasse a mão do operário/que a produz/e afina”.

Hermenegildo Bastos, em “A cidade e as plantas”, fala que “Sementes precipitam-se”. Mas logo nos apercebemos de que não se trata de flora, das árvores tão cantadas pelos poetas. As palavras “cartografia”, “atlas”, “fronteira”, lançam suficiente luz sobre o quadro. E não é só isso. A câmera gira para todos os lados; ela desce do “Tecido azul”, aquele que se “estende/Lá por cima/A se perder de vista”, e prossegue: “Curva dos céus/Toca-se com as pontas dos dedos”. E revela: “Tudo aqui tem um jeito franco/De sobrenatural/Comércio do invisível”; E diz mais: “Prévia cartografia/Cabe tudo no Atlas/Os que aqui nascem/Não carecem descortinar/Os pontos cardeais”.

O índio incendiado pelos diabólicos meninos – lídimos representantes de uma sociedade cruel, preconceituosa, em que ter é sinônimo de poder e a impunidade impera – mereceu a atenção e a exaltação do poeta, quando enfatiza: “Você Galdino/queimado por desporto/inteiro morreu em cada parte/morte tríplice/três vezes qualificada”, e denuncia: “Um Galdino/é só o que vales//não chegas a João/Francisco, Tales”.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Vivendo no vazio

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Vivendo no vazio
Por Conceição Freitas

Me contaram que, bem no começo, Brasília adoecia de solidão. Chorava doidamente a falta da família, dos endereços, das ruas, das esquinas e a multidão de vazios. A cidade era tão oca de volumes e coisas e objetos, tão distante das imperfeições e feiúras que deixava órfãos de referencia do sentido de cidade todos os que aqui chegavam. Parecia que todos ali estavam construindo uma imensa cidade ideal feita nos moldes da eternidade.

Com o tempo, Brasília foi se sujando de cidade, perdendo a perfeição e se transformando em abrigo de humanos e, portanto, abrigo de imperfeitos e imprevisíveis. Os imensuráveis tapetes vermelhos foram ficando verdes de grama. Mais adiante, os pedestres foram marcando o lugar de passagem no verde da grama. Cada grama roída de sapatos indicava que a nova capital estava sendo verdadeiramente ocupada pelos homens.

Nada, porém, que vença o vazio de Brasília. A cidade se estende ao infinito – mesmo com 2,6 milhões de habitantes, ela ainda é um deserto recortado de vias e rodovias. Por mais cheia, a invenção de dr. Lúcio é vazia. Mas, ao mesmo tempo em que é uma cidade cheia de espaços desprovidos de sentido, ela é uma cidade de sentidos à flor da pele. Cada traçado, cada obra de arquitetura é plena de significados. Tudo, até o vazio, tem uma razão de ser. As áreas despovoadas e não construídas fazem reverencia ao horizonte, ao céu e à arquitetura. Na escala do corpo humano, porém, os vazios são um deserto a ser vencido ou temido.

Quando vim pela primeira vez a Brasília, adolescente, saí de Taguatinga para o Plano Piloto. Foi uma viagem cercada de eucaliptos num dos lados. Percorri o vazio em busca da nova capital. Foi tanto o tempo que o vazio foi se alojando dentro de mim, silenciando minha ansiedade e me fazendo esquecer aonde eu estava indo e de onde eu estava vindo.

Daí que eu acredito que o brasiliense trouxe o vazio para dentro de si. Quem veio para cá e nunca mais saiu foi sedimentando um gosto pelo silêncio, pela organização espacial, foi se transformando num habitante de cidade do interior. Foi se desacostumando da idéia de cidade grande.

O brasiliense do Plano Piloto e das demais áreas nobres perdeu o jogo de cintura que é preciso ter para se enfrentar uma metrópole como todas as do planeta. O vazio nos tirou um pouco do jeito de lidar com os imprevistos, as diferenças, desorganização, o barulho, o auê de uma grande cidade. Os vazios de Brasília e os cheios muito organizados nos afastaram do mundo real. E isso não é nada bom.

Crônica de Conceição Freitas transcrita do Correio Braziliense,
Caderno de Cidades, “Crônica da Cidade”, 11 de fevereiro de 2010

 

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Dizeres

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Dizeres

Antes que o corpo,
porque existiu,
não saiba,

e o homem
se torne prisioneiro
de um tempo

onde só os papéis
timbrados
sejam levados em conta,

e o espírito
seja apenas
um burocrata

servil à máquina,
tanto quanto
o funcionário assina o ponto,

surge um basta
com os dizeres
“respeitem o dia”!

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.

 

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Engarrafada aos 50

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Engarrafada aos 50
 
Andando e cantando
Eu vou avistando
Os carros parando
Meu pé vai freando
 
Andando e parando
O tempo passando
O carro esquentando
Parei de cantar
 
Andando e parando
O tempo passando
O sol escaldando
Eu vou cozinhar
 
Andando e parando
O tempo passando
Motor barulhando
Só falta quebrar
 
Andando e parando
O tempo passando
O som estourando
No carro de lá
 
Andando e parando
O tempo passando
O chefe esperando
Eu ir trabalhar
 
Andando e parando
O tempo passando
As motos passando
Eu quero passar
 
Andando e parando
O tempo passando
A fila aumentando
Só falta andar
 
Andando e parando
O tempo passando
Polícia multando
Em todo lugar
 
Andando e parando
O tempo passando
Criança chorando
Também vou chorar
 
Andando e parando
O tempo passando
O mundo girando
Só eu que não ando.
 
Marcelo Corado, poeta brasiliense.

 

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A arquitetura da pedra

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A arquitetura da pedra
 
I
 
Entre desvãos de avenidas,
como o fio dentro da agulha,
num curto espaço de tempo
dá-se a uma cidade ruas;
 
às ruas dão-se calçadas
e às calçadas, cada uma,
dá-se o retalho da pedra
nos pés descalços da chuva,
 
entrelaçando-se em muitos
curto-circuitos de curvas,
que a meia altura parecem
quadrados de hipotenusas.
 
II
 
Cidade contemporânea,
simples, linear, compacta:
milhões de metros quadrados
em quatro quartos de quadras.
 
Com ruas que mais parecem
corredores de entressalas,
habitando o espaço livre
e horizontal das fachadas,
 
onde, a cada dia, a gente
faz-se mais acostumada
ao tempo manso que adia
as tardes entediadas.
 
 
Nunes de Castro
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”

 

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Ninguém

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Ninguém
                  
para Donaldo Mello
 
Não há princípio nem fim
na eterna diáspora
dos astros
tresloucados
deslocando-se
aos confins
do universo
em expansão.
 
O tempo não existe
para as estrelas
mas elas fenecem
e, de vê-las, fico triste.
 
Sem sombra e destino, também vagarei.
 
Hei de seguir o mesmo curso de ninguém.
 
Antonio Miranda, poeta maranhense, criado no Rio de Janeiro.
Transcrito da antologia “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”, de Salomão Sousa.

 

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BRASÍLIA, 1960

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BRASÍLIA, 1960
A Oscar Niemeyer

 
Os cones de pó vermelho
soprados na face nova.
Nos cones, sacis antigos
girando no pensamento.
Ah! cones de pó vermelho,
os guris não trazem sustos
às tuas carnes de vento?
 
Da torre o verde engatinha
na tarde que asfixia:
os cones de pó vermelho
bebem patas de cavalos
pastando desabalados
os agres cachos do tempo:
os cones e seus cavalos
pisando nas mãos do vento.
 
Os giros vêm do invisível
trazendo mensagem lívida.
 
Os cones de pó vermelho
tangendo as cores do dia,
sopram os mais raros mistérios
sobre os olhos e cabelos
Há fluidas mitologias
hauridas desse momento.
 
Cavalos desesperados
sobre pasmos e desvelos
pastam passos e lamentos,
ruminam campos do outrora
pisando nas mãos do vento
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Transcrito do livro “Tempo de Ceifar”, 2002.

 

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As Moças da Asa Norte

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As Moças da Asa Norte
 
Nunca vi moças bonitas
a caminho da Asa Sul,
embora venham de ônibus,
dos blocos da Asa Norte.
Mas sei que elas existem,
aos bandos, como andorinhas,
circulando sua beleza
de moças se abrindo em flores
nos blocos da Asa Norte.
 
              São moças vindas de longe,
              que trazem o cheiro de terras
              dos quatro pontos da Pátria,
              de terras velhas e novas,
              que acompanharam, com espanto,
              ao milagre de Brasília.
              São moças vindas de longe
              para enfeitar olhos tristes
              de corações solitários,
              como os meus e como os teus,
              que olham sem poder ver
              os olhos lindos das moças
              dos blocos da Asa Norte.
 
Falta leite, falta pão,
o mercado é insuficiente,
a poeira sobe as escadas
de apartamentos tranqüilos,
crianças brincam na poeira,
lambretas retardatárias,
acordam os que dormem cedo
e que cedo se levantam,
nos blocos da Asa Norte.
Apitos intermitentes,
noite adentro dão avisos
de vigilância e cuidado.
E na hora vinte e duas,
quando o amor ensaia gestos
de braços, lábios e corpos,
sob as colunas dos blocos,
apitos soam e refreiam
os ímpetos amorosos
de moças de outras terras,
que plantaram em Brasília
residência e coração
e vivem na Asa Norte.
 
              As moças que aqui chegaram,
              com cheiro de outras terras,
              acham esquisita a ausência
              das esquinas e das praças
              que viram, quando meninas,
              na cidade da infância.
              Das esquinas onde o beijo
              mais dado do que roubado,
              pousava de lábio a lábio.
              Das praças com pistas curvas
              e com bancos sob as árvores,
              onde os olhos se buscavam
              na promessa de namoro.
 
A minha Brasília que amo
não tem praças, nem esquinas,
nem telefones que cheguem
para as mensagens de amor,
principalmente das moças
das belas moças ilhadas
nos blocos da Asa Norte.
Mas tudo, amiga, é Novo
até o jeito de amar,
nesta Brasília que amo.
Com tempo a gente recria
aquelas coisas pequenas
que perdemos no caminho.
As esquinas e as praças e
o telefone também
são instrumentos apenas,
são cenários provisórios
para as promessas de amor.
As amplas áreas dos blocos,
hoje vermelhas de terra,
serão verdes, e terão sombras
de árvores, com o tempo.
 
            Com o tempo sem dimensão,
            que se criou em Brasília,
            em pouco mais de três anos,
            teremos sombra e ternura,
            nas amplas áreas dos blocos
            que, devagar, se povoam
            de lindas moças, amiga,
            de moças de voz suave,
            que vieram de outras terras,
              trazendo o cheiro de flores
              o cheiro de corpos jovens
              para alegrar os canteiros
              e os corações solitários
              nos blocos da Asa Norte.
 
Clemente Luz, escritor e poeta mineiro, natural de Delfim Moreira.
Transcrito do livro “Invenção da Cidade”

 

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A profecia de Toscanelli

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A profecia de Toscanelli
Por Carlos Xavier de Azevedo
 
A profetisa Hirrhéa havia dito: mãos invisíveis criarão aqui uma cidade de homens fortes e formosas deidades.

A ampulheta do tempo já muito se escoara quando, não longe das praias desertas de Àtica, – conta a velha lenda – a Maga Iléa parou na enorme savana, proferiu algumas palavras cabalísticas e deixou cair de suas mãos ao solo um punhado de doiradas sementes.

E as copas ondeantes, pejadas de odorosos pomos, as plantas, toucadas de flores de ricos matizes, os regatos murmúrios, que rolavam entre pedrouços, povoaram tão logo o solo, antes vazio e tristonho. Ao centro desse encantado paraíso, um palácio de grandes minaretes foi erguido pelas mãos invisíveis. Fontes belas atiravam ao ar punhados de águas claras, que voltavam à terra como chuva de estrelas.

O próprio ocaso, ali, lembrava uma camponesa envolta em gazes róridas indo depor no cadáver ensangüentado do sol braçadas de flores luminosas.

E nessa encantada região era regida por homens fortes e a eleita das mulheres que pareciam estátuas vivas de escultores divinizados.

As mãos dos homens foram erguendo em torno o casario novo, desde as colinas graciosas à praia de Ática.

E Atenas nasceu, assim, nas mãos milagrosas de Iléa.

Longe daqui, no ocaso de 1464, quando Paulo del Pozzo Toscanelli adotou como discípulo o genial Leonardo da Vinci, o discípulo viu o mestre físico e astrônomo terminar uma planta, feita em papel quadriculado, que serviria aos arrojados navegadores daquele gloriosa época.

Quase ao centro da planta, lia-se a palavra “Brazilae”, com o implicante ditongo latino a enfeiar o nome Brasília.

O Brasil, então, aguardava também que a ampulheta do tempo escoasse mais trinta e seis anos para receber o batismo dos primeiros audazes que andariam “por mares nunca dantes navegados”.

Que profética intuição teria feito o inspirador sábio escrever esse nome? A América, guardadora de um sol em brasa, andaria pela mente do sábio precursor dos gnomos modernos e teria inspirado ao grande mestre esse vocábulo tão querido.

O fato é que lá estava o nome Brasília.

E o Tempo, esse lento e incansável viandante, marchou sem parar quatrocentos e noventa e cinco anos.

E um dia, um mágico oriundo talvez das terras de Egeu, onde o Minotauro foi vencido e o labirinto desencantado, parou um instante nas savanas formosas do planalto goiano.

E Juscelino Kubitschek deixou cair de suas mãos as sementes àvaramente guardadas para a mágica sementeira.

Aquele solo espanco, onde o urutu lançava à tarde o som magoado de um hino triste, foi ao toque mágico sendo povoado.

O fumo das oficinas galgava o espaço anunciando o novo labor.

Como cantara o poeta baiano, “entre a orquestra da serra e do malho brota a vida, a cidade, o amor”.

A profecia de Toscanelli fez-se realidade.

E ali, naquele ermo, as mãos do mago foram plasmando a cidade, a cujo centro, como um sonho, o Palácio da Alvorada derrama em torno o encantamento de seu perfil, a influência luminosa de seu mágico nascimento.

O homem criatura fez-se um dia criador e Brasília nasceu, assim, das mãos mágicas de Juscelino Kubitschek.

Transcrito da revista “Brasília”, edição de julho de 1959, número 31.

 

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A Marcha para o Oeste e Outras Marchas

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A Marcha para o Oeste e Outras Marchas
Por Cassiano Nunes

 
Ainda há pouco tempo, em discurso memorável no Senado, Darcy Ribeiro, com a autoridade que ninguém lhe nega, se perguntava por que o Brasil, possuindo reais privilégios, terra e povo admiráveis, foi um país que não deu certo. Há razões, no meu entender, para isto, e especialmente uma razão fundamental: no Brasil, o Governo nunca foi do povo nem para o povo. Aqui, o povo foi sempre cuspido, vomitado, expulso da terra. Dominado pelos donos da terra. Mas há uma outra razão que se relaciona com a que foi exposta: o povo brasileiro nunca chegou a tomar posse integral de seu vasto território. No segundo século da nossa História, já Frei Vicente do Salvador denunciava os portugueses por só quererem permanecer nas costas do País “como caranguejos…”

A História do Brasil é uma história no litoral. Toda ela realizada à beira d’água, transatlântica, com muitos estudantes…em Coimbra, com muitas farras em Paris. Na Belle Época, as famílias brasileiras importantes mantinham vivendas na Suíça, em Portugal, na França. D.Olívia Guedes Penteado, uma das patrocinadoras do modernismo, quando começava a gostar do que via nas vitrinas da Mappin Stores ou da Casa Alemã, em São Paulo, refletia preocupada: “Estou precisando ir logo para Paris”. Qual o grupo de intelectuais brasileiros mais influentes, mais espirituosos? É o que chamo “o grupo de Ipanema…” Perguntei a um de seus componentes o que achava de uma “marcha para o Oeste”. Perturbado, respondeu-me com uma piada… A audiência riu e eu ainda passei por bobo. Na Segunda Grande Guerra, Carlos Drummond, num poema famoso, já denunciava a alienação dos “inocentes do Leblon”.
Mesmo em Brasília, a juventude é conformista e cosmopolita, ou ianquizada da pior maneira.

Há anos, numa revista de jovens da Capital Federal, “Há vagas”, defendi a idéia de uma “entrada” moderna nas nossas terras virgens… os jovens não conseguiram me entender, porque o seu espírito está longe…
Brasília possui 400 grupos de rock enquanto o japonês é o herói verdadeiro que faz florescer o cerrado… Os bandeirantes pararam no fim do Século XVIII. Forças republicanas trucidaram os jagunços de Canudos porque defendiam um Brasil autêntico do interior, do sertão. A FEB foi defender a democracia… na Itália. Monteiro Lobato defendeu um capitalismo brasileiro e acabou indo parar na cadeia. Em vez de nossas populações irem para o interior plantar milho e feijão, dá-se o inverso neste País que parece teatro do absurdo: são os camponeses que deixam suas terras e vão para as desmesuradas metrópoles, construir favelas, participar dos bandos de malfeitores e procurar o apoio dos bicheiros e traficantes de drogas.
A fundação de Brasília foi um marco importante na penetração do Brasil, mas foi feito à moda da casa: de modo majestoso, com a ostentação de pobres tolos que somos. Resultado: o Brasil verdadeiro se vingou. Desde a frontaria da Rodoviária, monumental e degradada, até a Torre, se estende uma legítima feira de Caruaru. A branca e aerodinâmica Brasília é invadida por gente encardida e raquítica, marcada dolorosamente pela doença da indigência, que veio de Jequié, de Cabrobó, de Canhotinho… Será preciso ainda defender a inversão do processo vigente? Mas, de qualquer maneira, o dinamismo histórico, a dialética, tem muita força. E, por esta razão, o interior do Brasil tem progredido apesar de tudo. Quer dizer, apesar do nosso bovarismo, da nossa inautenticidade, do nosso horror à verdade e à justiça social. A luta dos sem-terra comprova essa mutação histórica. E há mais: a construção de rodovias, o planejamento de ferrovias, a criação de comunidades, de cooperativas, de empresas, de instituições, de escolas. Apesar da crise terrível que nos afeta, sabemos que o interior do Brasil fervilha. Nem tudo é positivo, naturalmente.

Nossas populações indígenas, por exemplo, estão sendo dizimadas pela cupidez de patrícios desalmados.

Defendo um documentário cinematográfico honesto, verdadeiro, que reproduza a amarga esperança do povo brasileiro. Devemos registrar este momento culminante de nossa História. A nós, que durante décadas, louvamos o americano, compete agora o dever patriótico de conservar, para a História, o capítulo emocionante do presente: a epopéia do faroeste brasileiro que agora se desenrola.

Dois filmes brasileiros importantes já tocaram no assunto com sucesso: BYE, BYE BRASIL, de Carlos Diegues, e IRACEMA, de Jorge Bodanski. Os dois filmes de Vladimir Carvalho sobre Brasília, CONTERRANEOS VELHOS DE GUERRA e PAISAGEM NATURAL, são inegavelmente duas obras primas. Mas o registro de nossa marcha para o Oeste e outras marchas não estão sendo feitos. Vamos ver sempre o País ignaro, imprevidente, desmemorizado, perdulário? Hoje em dia, Rondônia, Roraima e Amapá deixaram de ser meros nomes geográficos. Palpitam, tem vida.

Glauber, o inesquecível vidente, previu certo: o sertão vai virar mar.

(…)

Brasília, projetada desde os primórdios da Pátria pelos melhores filhos dela – os de espírito mais penetrante e que, por conseguinte, pareciam videntes e profetas – surgiu justamente para dar consistência a um país geograficamente frouxo, descosturado, incompleto, fragmentado e também para vencer a alienação e a dinamização do interior. Brasília teve, por missão, dar, ao Brasil, o seu remate, as suas feições definitivas, em suma, o seu acabamento. Ainda hoje o Brasil é uma nação inacabada como a célebre sinfonia de Schubert. Deixamos de fazer o que os americanos fizeram com pleno sucesso: assumir a posse total do seu território. E mais que isto: ir do leste ao oeste – atingir o Pacífico. Ao contrário, o Brasil, passada a febre do bandeirismo, acocorou-se junto das costas, esperando as notícias influenciadoras que vinham da Europa, hoje substituída pelos Estados Unidos. A Marcha para o Oeste, realização criteriosa de Getúlio e João Alberto, foi logo dissolvida. O Projeto Rondon – cancelado. Nos Estados Unidos, foi importante o “American Dream”, o “Sonho Americano”. No Brasil, nunca houve o Sonho Brasileiro, uma ânsia de trabalho construtor, uma aspiração ampla, nacional. Limitamo-nos a sonhos individuais, medíocres, mesquinhos, alimentados pelo jogo do bicho e pelas raspadinhas… Nossas migrações marcham na direção contrária do progresso. Em vez do nosso caboclo se arraigar na sua terra, ou… terras novas, vem para as metrópoles mendigar ou, o que é pior, engrossar as hostes do banditismo.

Muito poeta, no sentido nobre etimológico da palavra (o que cria, o que faz) Kubitschek, a quem atribuem sangue cigano, deu o sinal da caminhada certa, racional, lógica. Contra a maledicência dos épicos do imobilismo, dos defensores da estagnação, o sonhador de Diamantina determinou a impetuosa arrancada e deixou evidente que as utopias deixam de ser utopias quando o homem decide criar, construir, dinamizar.

Realizada Brasília, de maneira majestosa e vitoriosa, desde os seus primórdios foi fácil notar que teve que enfrentar a frieza dos impotentes e a inveja dos paralíticos. A impressionante capital ainda não conquistou o assentimento da mentalidade costeira, transoceânica, alienada, que predomina no Brasil. Esses adversários do progresso não querem perceber que o Brasil é um país de costas voltadas para o seu interior. Aceitam – e defendem o subdesenvolvimento, ou antes o antidesenvolvimento.

Contudo, a Canaã bíblica, a “terra de leite e mel”, existe, e espera pacientemente que os brasileiros, entusiastas do “rock”, da Disneylândia e de tudo o que as multinacionais nos impigem, se apercebam dela. Ainda, há poucos dias, presenciei, maravilhado, o progresso, a riqueza, o desenvolvimento cultural, numa região do Brasil, que tem muito a nos oferecer!

Refiro-me a Mato Grosso do Sul, e, de maneira mais geral, ao Centro-Oeste. Com estes olhos que a terra há de comer, vi Dourados, cidade vital, bela, limpa, farta! Senti que esse triunfo do Centro-Oeste – ainda muito no seu começo, pois suas possibilidades, sua potencialidade, são enormes – tem muito a ver com a construção de Brasília.

O sentido de Brasília, que é o pioneirismo e o da afirmação da identidade do Brasil, precisa de ter uma divulgação no país inteiro, para o próprio bem do nosso povo. A salvação do Brasil está na colonização, na abertura de novas regiões para a produção, no aumento das lavouras e da criação das riquezas, e não nas lutas e cambalachos políticos, que não geram coisa nenhuma. A mesma esterilidade encontramos nos planos dos economistas, que terminam todos em fracasso, pois não resultam no aumento de bens para o povo. Que esperar de uma grande nação como a nossa que importa até arroz e o feijão? Dourados ri-se desses políticos e economistas e nos oferece fartamente gado, arroz, milho e soja. Lá fica a famosa fazenda Itamarati, a maior plantação de soja do mundo!

A epopéia de Brasília não feita das armas, foi criação dos candangos nordestinos ou mineiros que Vladimir Carvalho evocou nos filmes fabulosos “Brasília – a última utopia” e “Conterrâneos Velhos de Guerra”.

(…)

Transcrito de “Vinte Vezes Cassiano”
Thesaurus Editora/Livraria Presença. Brasília.1993

 

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CANTO DE ESPERA

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CANTO DE ESPERA
(A matéria do tempo é transfeita em memória.)

Na cinza do cerrado, o frêmito discreto
do alvor de lua, a urdir a magia ilusória
de um vago mundo irreal, mais íntimo e secreto.
 
Os vôos de tucano, à luz do céu inquieto.
Na bandeja de verde, o marco feito História.
Em gestos fraternais –  a dádiva do afeto.
O lourejo da acácia, a esplender sua glória.
 
É coroa de espinho a catedral acesa,
ou, se ao cimento fere um sonho de beleza,
nave estranha, a luzir, presa ao cais de outra Era.
 
Os pássaros da noite. O gramado. Os meninos.
E os buritis da várzea abrindo os dedos finos
onde o silêncio antigo era um canto de espera.
 
Waldemar Lopes

 

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Brasília, Brasis

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No princípio era o barro, o cerrado, a esperança. Até que o velho Fenemê cheirando a graxa com sua pintura cor de terra, estacionou ao deus-dará do Planalto Central e ali descarregou a primeira legião de trabalhadores anônimos. Sim, era o homem. “Vinham de longe através de muitas solidões”, escreveu Vinícius de Moraes. As forças vivas da Nação foram convocadas a erguer “num tempo, o novo tempo”.

Estava dada a largada para uma das mais espetaculares epopéias de um povo no século XX. Uma verdadeira maratona da civilização moderna. “Será que é imaginação? Será que vamos conseguir vencer?” Os versos de Renato Russo refletem a perplexidade da chegada. Josés, Raimundos, Severinos e Franciscos perdiam a identidade. Coletivamente, eram candangos – palavra originária do quimbundo/angolano kandungu, pessoa ruim, vilão.

Nos canteiros de obras passavam a ser chamados de Bahia, Piauí, Mineiro, Pará, Gaúcho ou Goiano. Toda conquista envolve riscos. Quantos ficaram pelos caminhos, perderam-se pela poeira das construções? A notoriedade cosmopolita de Brasília na Idade Mídia da Razão foi construída por hordas de brasis. O vidro fume dos prédios inteligentes, o transitar veloz dos Mitsubishis, o telefone celular e o lap-top que pluga o político e o executivo com qualquer praça do planeta. Nada disso existiria sem os milhões de brasis. Brasília tem hoje o sotaque dos brasis, o jeito dos brasis, a cara dos brasis. Brasília, a melhor e mais viva síntese de um povo. Brasília, capital Brasis.

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A cidade

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Antes do tempo, esteve
submersa esta paisagem. Mar
era a atmosfera, e lentos
como peixes os pássaros. Chovia
sempre, e sempre a se derramar
a água formou rios. Sonolentos.
A terra, eterna, se deteve.
Mas ainda no tempo diluvia.
E uma cidade surge, feita
de nuvens, como as nuvens, no ar.
Uma cidade a se continuar -
e em si, diversas. Sem substância.
Para quem vê, à distância,
a cidade, perfeita
na sua construção, surgir
do nada, ainda enevoada:
parece o mar fugir.
Mas ainda no tempo diluvia.
E uma cidade surge, feita
de nuvens, como as nuvens, no ar.
Uma cidade a se continuar -
e em si, diversas. Sem substância.
Para quem vê, à distância,
a cidade, perfeita
na sua construção, surgir
do nada, ainda enevoada:
parece o mar fugir.
E desde que se retirou
daqui, o mar, submersa, sob
as nuvens, e sobrevoada
apenas – úmida, apesar
da luz – por pássaros sombrios,
jaz a paisagem. E à distância,
longe, onde o atirou
deus, o horizonte. Sempre soube
a terra, que em sua substância
havia altura, e eram frios
os céus incólumes. Pesar
dos pássaros, o azul. Tristeza
a solidão, e nostalgia
a vida. Com certeza
nesta paisagem (pois
submersa, o mar a protegia)
viveram seres sobrenaturais.
Porque foi mar. Depois
de tanto tempo, os litorais
ainda estão onde estiveram.
E é insular esta cidade.
Com ruas que se detiveram;
e nas casas, lugar
para a paisagem. Devagar
a erguemos, com capacidade
para conter o dia.
surge a cidade, feita
de luz, onde se escondia.
E antes de ser, já é: perfeita.

Octavio Mora, poeta natural do Rio de Janeiro.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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