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Testemunhos de fé

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Testemunhos de fé
Por Conceição Freitas

 
Cento e trinta homens, um pouco mais, um pouco menos, ocuparam o silêncio, feriram o cerrado e abriram a clareira onde Brasília começaria a surgir. Muitos deles eram goianos das redondezas, homens que viviam em estado de isolamento amazônico. Alguns não tinham registro de nascimento. Tudo o que sabiam de si mesmos era o apelido e o prenome da mãe. Foram alojados em lonas do Exército, num clarão aberto na Candangolândia, entre outubro e dezembro de 1956.
O homem que faria o pagamento do salário desses primeiros bravos candangos saiu do Rio de Janeiro em 1º. de dezembro de 1956 à frente de um comboio de dez caminhões da Fábrica Nacional de Motores (FNM), a lendária Fenemê. A caravana conduzia a estrutura metálica do primeiro galpão que abrigaria a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. Viagem de 10 dias, por estradas pedregosas que agravaram a colite e maltrataram tanto a coluna cervical do baiano Lauro França Duarte D’Oliveira que ele teve ímpetos de abandonar a tarefa no meio do caminho e voltar para o Rio de Janeiro.
Tinha 24 anos o novo auxiliar administrativo da Novacap, o primeiro encarregado da folha de pagamento dos bravos candangos. Dez dias depois de deixar a beira do mar, Lauro chegou a Goiânia, onde um Bernardo Sayão impaciente o esperava. “Podem ir pra Brasília, podem ir!”, ordenou à exausta caravana de homens e máquinas. Na mesma toada, seguiram até Luziânia, onde a pensão do Juca da Ponte os esperava, e de lá desceram para o que já havia de Brasília: mais ou menos 130 barracas de lona, um pequeno galpão da Novacap e um outro para o restaurante do Saps (Serviço de Alimentação da Previdência Social), ao qual estava anexado um cômodo que servia de consultório e moradia do médico Edson Porto, o primeiro a chegar.
 
Avenida lunar
 
O engenheiro Bernardo Sayão e quatro funcionários da Novacap administravam o inicio das obras da nova capital. Pudesse ser visto do céu, parecia o acampamento de uma expedição a um deserto verde. Era tão vasto o horizonte e tão largo o silêncio que Lauro França jamais se esqueceu do que viu nas primeiras noites na futura capital. Do galpão onde dormia, ele podia admirar ao longe as luzes semoventes de uma avenida lunar. Eram os caminhões trabalhando na terraplenagem da pista do aeroporto. Os faróis acesos, trafegando em linha reta de um lado e de outro, davam a impressão de uma espetacular pista aberta pouco abaixo do céu, muito acima do chão.
Quando começou a fazer as folhas de pagamento dos operários, Lauro França passou por dois apuros. Um deles, o de muitos goianos não terem documentos pessoais, e o outro, o de ter de lidar com a falta de vocação burocrática de Bernardo Sayão. Logo após a liberação de um dos primeiros salários, ele reclamou: “Mas, Lauro, estou com 60 homens trabalhando em Saia Velha (a usina) e eles ainda não receberam o pagamento!”. Ao que o funcionário respondeu: “Mas, doutor Sayão, eu não sabia desses operários”. Foi quando caiu a ficha: “Ih, me esqueci de te avisar. Passe lá em casa amanhã às seis da manhã pra tomar café comigo e de lá a gente vai na usina resolver isso”.
Aquele foi só o primeiro café com Bernardo Sayão. Pouco tempo depois, Lauro França conseguiu uma carona com o engenheiro na sua viagem de inspeção às obras da rodovia Belém-Brasília. França tem parentes em Belém do Pará e pretendia visitá-los. O DC-3 que os levava fazia o percurso em baixa altitude, para que Sayão pudesse acompanhar o avanço de uma das duas frentes de trabalho, a que saiu de Anápolis. “A gente passava tão rente às arvores e a mata era tão embrenhada que eu pensava: se o avião pifar, não vai sobra nem alma”. No caminho, França foi entendendo como os homens estavam enfrentando a selva amazônica. As frentes de trabalho abriam as picadas, e, a cada trecho, uma clareira, onde acampavam e para onde o helicóptero jogava mantimentos e remédios.
 
Boa-fé
 
Admirador torrencial de Bernardo Sayão, Lauro França diz que ele tinha fé no ser humano. Conta, por exemplo, que se ele precisasse mandar um bilhete para alguém, numa época em que o telefone celular era equipamento de ficção cientifica, pedia licença a quem estivesse a seu lado e usava as costas do cidadão para escrever um bilhete em folha de papel de cigarro, se recurso melhor não houvesse. E pedia para um mensageiro levar a correspondência ao destinatário.
Sayão acreditava na boa-fé dos homens, mas não era exatamente bonzinho. França se lembra de ter visto o engenheiro receber cartas de recomendação de políticos em geral e de vê-las ir para a lata do lixo tão logo o interessado se afastava. Tinha muito pouca paciência com o tráfico de influência. Quando começaram a chegar os muitos pedidos de emprego na Rodobrás, a empresa que construiu a Belém-Brasília, Bernardo Sayão sugeriu que se espalhasse o boato de que os índios estavam atacando e comendo os funcionários da empresa nos escritórios próximos às obras. Sugeria isso e ria.
(…)
 
Transcrito do Correio Braziliense, 23 de janeiro de 2010.

 

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Bernardo Sayão, herói-pioneiro

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Em plena selva amazônica, esmagado pela árvore que ajudara a derrubar, morreu o engenheiro Bernardo Sayão Carvalho Araújo. Teve a morte que pediu a Deus, lutando para abrir na floresta virgem a grande rodovia Brasília-Belém do Pará, sonho que o empolgava todas as horas do dia, convertendo-se, por último, na razão de ser de sua vida.

Sayão era uma espécie de visionário prático, com o ardor dos pioneiros. Seduzia-o a conquista do novo e do desconhecido, bem como a dominação dos obstáculos, mais que a realização do objetivo. Entretanto, como excelente engenheiro que era, escondido na modéstia de seus hábitos e atitudes, tinha sempre os olhos pregados no objetivo, sabia como planejar as etapas e atingir os fins, sempre grandiosos, a que se propunha. Mas Sayão, antes de tudo, acreditava no Brasil. Sua morte foi um ato de fé nos destinos deste país, um edificante exemplo a ser lançado em rosto aos derrotistas, que procuram em vão retardar a marcha da história, vendo no Brasil uma reserva colonial das nações superindustrializadas do Ocidente.

Cai o incansável lutador no momento preciso em que se unem as duas pontas da estrada por ele ideada; cai em plena batalha com a "jungle" no ponto em que se levantará dentro em pouco, o monumental aos que fizeram a rodovia por onde se comunicarão o Extremo Norte e o Extremo Sul do país. Esse monumento recordará o triunfo e a queda do novo bandeirante, ou seja a morte na hora exata em que, como Fernão Dias, tinha diante dos olhos a visão da vitória.

No dia em que se deu início à construção de Brasília quando lá chegava o primeiro comboio de caminhões com operários e material, encontramos Sayão no aeroporto de Goiânia, trepidante de entusiasmo, alegre como uma criança, apressando-se em dar-nos a notícia pois cruzara com os transportes nas cercanias de Luziânia. À tarde, quando baixamos de teço-teco na pista por ele construída, lá estava Sayão no seu jipe, para levar-nos à Fazenda do Gama. Contou-nos em pormenores as ocorrências do dia que ele considerava "um dos mais felizes de sua vida" porque se dera começo à construção da futura capital, causa por que ele se havia tenazmente batido.Logo que viu iniciada e em boa marcha os trabalhos da capital, Sayão passou a sonhar com a Brasília-Belém e não descansou senão quando, com os recursos da Valorização da Amazônia, pôs mãos à obra ciclópica, sempre amparado e encorajado na realização de seu sonho pelo presidente Juscelino Kubitschek. Graças a este nada lhe faltou para que se pudesse dedicar integralmente à obra. Sayão ajudava a abrir picadas, a pregar piquetes, a desatolar e desenguiçar os veículos e tratores. De sorte que contagiava com o seu entusiasmo engenheiros e operários, dos quais se tornara um verdadeiro ídolo, impondo-lhes, pela camaradagem e pelo exemplo, os maiores sacrifícios.

Este homem que acaba de tombar na batalha pelo desenvolvimento nacional, o herói modesto e desinteressado, cujo nome se deve ensinar às crianças das escolas para que aprendam a amar e servir com paixão ao seu país.

(Diário Carioca, 17.1.1959. Inscrito nos Anais da Câmara dos Deputados a pedido do Deputado Berbert de Castro).

 

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EVOCAÇÃO

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EVOCAÇÃO

(Aqui retoma palavra
         a evocação de um amigo
bem vazada em prosa honesta,
         esta que em verso gravamos
pra melhor timbrar a gesta.)
 
 
 
– "Inigual era Bernardo,
         Bernardo Sayão, vos digo:
o que em contínuas andanças
         pelo interior do Brasil,
– tão grato a seu coração, -
           obras sem par realizou
prodigando gestos dignos.
 
 
Até que a floresta irada
            ante os golpes de machado
do lenhador implacável
            findou por ceifar-lhe a vida.
 
 
Interrompeu dessa forma
            a intrépida trajetória
do grande desbravador.
Não conseguindo, contudo,
            destruir o maravilhoso
legado que nos deixou
            sua insólita figura,
de conquista memorável."
 
 
 
                          (Bernardo Sayão. Pra sempre.
 
                           O da vida quase fábula.
 
                           O do perfil quase lenda.)



Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Transcrito do livro "Saga do Planalto"

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17 de janeiro de 1959

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(foto)

Sayão é sepultado

Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão.
À beira do túmulo, JK faz discurso comovente:
"É o Brasil que está de luto. Perde-se um líder carismático, símbolo de força e coragem. Um ídolo da peonada, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades, estradas, sonhos…"

"Ele que dissera uma vez que o clima de Brasília era tão bom que precisavam um morto emprestado para inaugurar o cemitério, iria inaugurá-lo"

Frase da filha de Bernardo Sayão, Léa Araújo de Pina

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SONETO

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SONETO

(Ante o túmulo de Bernardo Sayão)

 
Cismo e sonho, absorto, ante a lápide singela…
E o teu nome repito… Aos poucos, lento, brando,
ante a imaginação, se vai delineando
o teu perfil de bravo; e a tua vida bela,
 
entre rasgos de audácia, heróica, se revela…
Na hora imprecisa e vaga em que o sol se põe, quando
assim teu nome invoco, eis que, no azul brilhando
– num símbolo por certo, – aparece uma estrela.
 
Descansa na Cidade entressonhada um dia.
Repousa, Bandeirante, que teu rincão amado,
(sob o vasto céu, entre árvores de Cerrado).
 
que eu, ao ler o teu nome em a lápide fria,
a glória te adivinho ao calor da emoção:
– Ó Sertanista audaz, ó Bernardo Sayão!


Geraldo Costa Alves, poeta natural de Alegre, Espírito Santo.
Transcrito da antologia "Poetas de Brasília", de Joanyr de Oliveira (1962)

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17 de janeiro de 1959

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Foto: Arquivo Público do DF


Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão.

À beira do túmulo, JK faz discurso comovente:
"É o Brasil que está de luto. Perde-se um líder carismático, símbolo de força e coragem. Um ídolo da peonada, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades, estradas, sonhos…"

"Ele que dissera uma vez que o clima de Brasília era tão bom que precisavam um morto emprestado para inaugurar o cemitério, iria inaugurá-lo"
Frase da filha de Bernardo Sayão, Léa Araújo de Pina

Discurso do Presidente da República
"Aqui vim dizer adeus a Bernardo Sayão morto no campo de honra, morto na batalha em favor do novo Brasil. Mas a glória começa exatamente na hora em que ele deixa este mundo. Até então nós todos que com ele lidávamos, sabíamos que era um trabalhador excepcional, homem de fé e de energia fora do comum; sabíamos que não media sacrifícios para tornar maior e mais forte este pais. Hoje, seu nome se inscreve na legenda; é um dos heróis da nacionalidade. Só nos consola de sua perda essa glória que começa a iluminar, agora, o vulto que acaba de consumar o seu sacrifício até a mais trágica conseqüência.
Pode-se dizer que Bernardo Sayão fez a oferenda de sua própria vida ao seu ideal.
Era o comandante da batalha que desencantará a Amazônia de sua prisão, que virá retirar da pré-história tão grande, tão obscura e tão importante zona de nossa Pátria. Morre de pé, no meio das últimas resistências da floresta imensa, quando o termo dos seus árduos trabalhos estava à vista. Quem o feriu foi justamente uma dessa numerosas árvores que ele teve que abater para que o Brasil abrisse o seu mais difícil caminho.
"No dia em que a estrada Belém-Brasília estiver concluída, posso partir para sempre. Terei dado o meu melhor esforço pela nossa causa", disse-me ele mais de uma vez. Caiu num golpe fatal, vibrado por toda a selva, através de um dos seus gigantes vegetais. Foi uma vingança da natureza na pessoa desse bandeirante moderno, desse desbravador incomparável.
Dentro de quinze dias, os tratores que marcham conduzidos pelas turmas de soldados do progresso que partiram de Belém e de Brasília se encontrarão para consagrar o fim da epopéia. O grande, o generoso, o bom comandante estará então presente como nunca, embora invisível.
Ele não faltará ao encontro marcado. Nós também não lhe faltaremos. A estrada, uma das vias de libertação e da grandeza de nossa nacionalidade, terá o seu nome. Todos o amavam, todos os seguiam, todos estão dolorosamente surpreendidos e tomados de consternação neste momento.
Mas Bernardo Sayão não deve ser chorado. Um homem deste porte, morto como foi, de forma tão cruel e ao mesmo tempo tão bela, deve ser exaltado.
Quando um homem assim encontra o seu prêmio, morrendo em plena peleja, na véspera da vitória, o que se impõe é segui-lo além do tempo, redobrar os esforços, ser fiel ao que ele desejava, à sua aspiração, ao seu martírio.
Nunca terei sido intérprete mais exato da alma brasileira do que ao inclinar-me diante dos despojos deste herói, vencedor da marcha mais áspera em que se empenha a tenacidade obstinada do nosso povo, no seu desejo de penetrar a solidão ínvia.
A todos os que aqui se acham e a todos os que me ouvem neste instante, quero anunciar que, dentro de duas semanas, a missão que custou a vida a Bernardo Sayão estará integralmente cumprida. E que outras missões serão levadas a cabo.
É que o espírito deste destemido patrício que a terra de Brasília acolhe agora para um justo repouso, nos servirá de flâmula, de iniciamento e de  fonte de ânimo criador.
Que Deus guarde em sua paz este homem, semente da Pátria de amanhã, que ele ajudou a erguer, (Inscrito nos Anais da Câmara dos Deputados, a pedido do Deputado Gustavo Capanema. 21/1/1959)
(Transcrito da revista "Brasília", da Novacap, edição de janeiro de 1959, número 25)

 

 

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Pau-de-Arara

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Pau-de-Arara 
Por Clemente Luz

Uma das histórias de Sayão, que mais diz de sua personalidade vigorosa e estranha, é esta, que me foi contada há anos e que agora me vem à memória, de repente.
Deixando a selva, onde rasgava a Brasília-Belém, Sayão sobrevoou o imenso mar verde do arvoredo. Lá pelas tantas, seu piloto, que residia em Goiânia, pediu-lhe licença para visitar a família. A licença foi mais do que concedida. Sayão mandou que o avião descesse em certo ponto, entre Goiânia e Anápolis, e ali ficou à espera de uma carona terrestre para Brasília.
Depois de algumas horas de espera, passou um  "pau-de-arara" lotado. Tomou-o, como qualquer nordestino, sem declinar o nome ou a qualidade de diretor da Novacap.
Naquele tempo, quando a chegada dos nordestinos constituia  sério problema, pois não havia demanda suficiente de mão-de-obra, a Polícia vigiava as entradas da cidade em construção. Havia dificuldades no abastecimento e número reduzido de alojamentos. As levas de imigrantes só eram permitidas, dentro das fronteiras de Brasília, mediante documentos do INIC ou da Novacap.
Ao aproximar-se o caminhão da entrada da cidade, os cansados viajantes começaram a inquietar-se. Será que poderiam entrar e descansar, depois da penosa viagem? A expectativa era enorme e dolorosa. Os homens, curtidos pelo tempo e pelos sofrimentos, entreolhavam-se, temerosos. O silêncio foi descendo, pesado e triste, ao interior do caminhão.
Bernardo Sayão, tranqüilo e gigante, assistia às cenas, sem nada dizer.
À entrada da cidade, lá estava a Polícia, toda-poderosa, erguendo intransponível barreira para as duas dezenas de seres humanos desesperados.
– Aqui só entra quem tiver cartão do INIC ou cartão de emprego da Novacap. Ordem é ordem!
O guarda, todo-poderoso, deixou cair, como sentença fria, as palavras de condenação. Houve apelos, oferecimentos de "propina", lágrimas e gritos de raiva, aos pés do guarda impassível…
Foi quando Bernardo Sayão, que nada dissera até então, destacou-se do grupo, trazendo o paletó amassado sob o braço.
Disse ao guarda:
– Seu guarda, este povo viajou não sei quantos dias, para vir construir Brasília. Será que não pode entrar?
– Não – foi a resposta seca do guarda.
Sayão tentou mais uma vez, sem nada conseguir.
Por fim, meteu a mão no bolso da camisa e tirou o seu cartão de identidade. Apresentou-o ao guarda, dizendo:
– Pode deixar esta gente passar. Todo mundo está empregado por mim, para trabalhar na Novacap e na rodovia.
O guarda arregalou os olhos, pediu milhões de desculpas e, por fim, sem outra saída, disse:
– Mas, doutor Sayão! O senhor tem cada uma!… Pra que fazer todo esse mistério! Podia ter falado logo…
Sayão bateu-lhe levemente no ombro, subiu ao caminhão e rumou para Brasília, com a nova turma de candangos.

Extraído do livro "Invenção da cidade", de Clemente Luz.

 

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Morte na Mata

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Entranhas da mata amazônica, Pará, a trinta quilômetros da fronteira com o Maranhão, por volta de uma hora da tarde de 15 de janeiro de 1959. Ronco de tratores de esteira, estrondo de raízes grossas e profundas brutalmente arrancadas, gritos de trabalhadores, estalos de madeira rachando e quebrando. Força bruta. Cheiro de mato e de morte.
O ritmo de trabalho é alucinante. Onze construtoras e mais de três mil homens. Faltam apenas quinze dias para o encontro das frentes de desbravamento norte e sul, fechando a sonhada ligação da pista de Brasília a Belém, braço superior do cruzeiro rodoviário nacional. Kubitschek vai chegar em 1º. de fevereiro de 1959. Vem  com a família, ministros e outras autoridades. Vai ter missa campal e também grande churrasco em plena selva. Máquinas já trabalham na construção de tosca pista de pouso. Aceleração máxima: o ronco dos tratores é agora ensurdecedor. A árvore gigante finalmente cambaleia, enverga e tomba. Enorme galho das grimpas se desprende e despenca exatamente sobre a barraca em que está o legendário engenheiro Bernardo Sayão, de 57 anos, comandante da frente sul de desbravamento. Destino? Acaso? No dia anterior, ele tinha mandado mudar a barraca da margem do córrego para aquele local, mais próximo das turmas de serviço.
Crânio quebrado, fratura exposta na perna esquerda, braço esquerdo esmagado, tronco machucado pelos galhos e ramos. Esvai-se em sangue, arrasado pela fatalidade e pelo sofrimento. Mas não se entrega nem se descontrola. Não há ali nenhum socorro médico. Apenas analgésicos, impotentes contra a dor imensa. Susto, comoção, medo e pesada tristeza dos trabalhadores. Algumas horas depois, cerca de três da tarde, o piloto de um avião Cessna que atirava víveres na clareira próxima ao acampamento percebe cruz improvisada com dois enormes troncos de madeira estendidos no chão. está coberta com camisas dos trabalhadores para chamar-lhe a atenção. Conclui que algo estranho está acontecendo. Mas não tem onde pousar. Reduz a altura e nota os acenos desesperados de dezenas de homens. Vê o corpulento Sayão estirado sobre uma rede, inerte, a roupa encharcada de sangue. Compreende e parte em busco de socorro. Espera, tensão, medo, ansiedade. Angústia, muita angústia. Horas depois chega um helicóptero. Embarcam Sayão cuidadosamente. Vai deitado, a cabeça sobre o colo do companheiro Kelé, que viaja sentado no chão. em coma, não resiste. Morre a bordo, por volta de sete da noite, sobre o leito da tão sonhada estrada, pouco antes do pouso em Açailândia, no
oeste do Maranhão, povoado mais próximo. Hemorragia sem fim. Aí é velado toda a noite. No dia seguinte, 16 de janeiro de 1959, conseguem comunicação por rádio com Belém e Brasília. O corpo é levado de avião para Belém e depois para Brasília, onde vai ser sepultado. A notícia se propaga e comove o país.
O presidente Kubitschek, que estava no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, deixa tudo e voa para Brasília.Às oito da noite do dia 16 de janeiro de 1959, sexta-feira, o caixão chega ao aeroporto e é recebido por autoridades e multidão de trabalhadores. O presidente acompanha todos os passos, emociona-se, chora, reza. O velório é na capela Dom Bosco. Depois celebra-se missa de corpo presente no Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Todos querem ver o ídolo, despedir-se. Mas a família não permite a abertura do caixão. Muitos candangos concluem que o corpo não está ali. Tem é um tronco dentro ou então pedras. Estão escondendo a verdade para não assustar as pessoas: Sayão foi devorado por onça. Ou então capturado por índios. Alguns dão até o motivo: por seu tamanho, aparência e força, foi levado para ser reprodutor, cruzar com as índias. Outros falam em vingança da floresta. Das árvores. O mito nasce ali mesmo e cresce depressa. Da imortal Raquel de Queiroz:
 
"Fazia poucos dias que morrera Bernardo Sayão. O menino exigia histórias, a imaginação estava fraca, e então contamos para ele a vida do belo gigante que tinha o gosto de abrir estradas e criar cidades, que atravessara a nado um rio enorme, e saía no seu trator por dentro da mata, sem medo de onça, sem medo de índio, sem medo de nada, derrubando árvores, subindo serras."

Para Kubitschek, a amizade com Sayão tinha significado superior. Superava em muito as relações afetivas comuns, rotineiras. Ele via uma transcendência, um sentido mágico nesse relacionamento, assim sintetizado pelo jornalista e escritor Antonio Callado:

"Olhe-se como se olhar o plano de Brasília, é inegável que o encontro de Juscelino Kubitschek e Bernardo Sayão foi histórico para este país."

Callado e os também escritores Hernane Tavares de Sá e John Dos Passos, este norte-americano, tinham contribuído, anos antes, para projetar Sayão, divulgando seus feitos na implantação da Colônia
Agrícola Nacional, no Vale do São Patrício – hoje Ceres, Goiás -, na imprensa nacional e no exterior. Passos visitou as obras de Brasília em julho de 1958.
Eis como Kubitschek descreve a entrada de Sayão na peleja da estrada:

"Sayão estava pronto. Levou o trailer, em que habitualmente morava, para as imediações de Porangatu e o abrigou sob um majestoso pé de pequi. Armou o fogão ao ar livre. Semeou uns caixotes em torno, à guisa de sala de visitas. Ele mesmo, porém, ali pouco parava. Quem se aproximasse da mata, que começava perto, logo o via: alto; forte como uma árvore; rosto de linhas harmoniosas, como se fosse esculpido; olhos perscrutadores; trajando calça de brim cáqui e camisa branca, aberta ao peito. Estava ali na sua indumentária "de guerra", preparando-se para a grande arrancada."

Sábado, 17 de janeiro de 1959. Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão. É o primeiro do cemitério da cidade, mais tarde batizado Campo da Esperança. Ele mesmo o demarcara havia menos de dois anos. Cerrado virgem. Máquinas trabalharam a noite toda abrindo estrada de acesso. À beira do túmulo, Juscelino faz discurso comovente. Sabe que se vai muito mais que um grande amigo. "É o Brasil que está de luto. Perdeu um líder carismático, símbolo de força e aventura, coragem, trabalho e determinação. Um ídolo da peonada, homem-coragem, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades e sonhos."
Há um segundo enterro no mesmo dia. O do motorista Benedito Segundo, velho companheiro de andanças e aventuras de Sayão, morto por ataque cardíaco ao receber a notícia. É colocado ao lado do chefe.
Outra fatalidade: na semana seguinte, morre num choque de veículos, também em plena selva, o engenheiro Rui de Almeida, líder da frente de desbravamento vinda de Belém.
Em 31 de janeiro de 1959, dezesseis dias após a morte de Sayão, as frentes norte e sul finalmente se encontram, arrematando a trajetória de 2.240 quilômetros e uma epopéia verde-amarela pontilhada de perigos e dificuldades. Está pronta a tão esperada ligação. O nome oficial da estrada, inicialmente parte da Transbrasiliana – ligação de Santana do Livramento (RS) a Belém do Pará -, depois BR-14, foi alterado para Rodovia Bernardo Sayão. No exato local do acidente, os mateiros fincaram enorme e tosca cruz feita com a madeira do galho que o matou. Alguns anos depois, ela foi retirada. Ninguém sabe quem nem por quê.
Curioso: carioca da gema, nascido na Tijuca, em 18 de junho de 1901, remador do Botafogo de Futebol e Regatas, assíduo e admirado petequeiro no Posto 2 da praia de Copacabana, o engenheiro-agronônomo Bernardo Sayão Araújo Carvalho, graduado em Belo Horizonte, Minas, morreu goiano no imaginário popular. Talvez por ter aí comandado arrojado projeto de colonização do governo Vargas (origem da atual Ceres, Goiás), comprado fazenda e, em 1954, sido eleito vice-governador. Governou o estado de janeiro a março de 1955. Talvez já fosse mesmo também goiano. Talvez ainda seja. Agrônomo, plantou Ceres, ajudou a plantar Brasília, a estrada Brasília-Goiânia, a Belém-Brasília, plantou fé no Brasil. Ele não era apenas dinâmico e arrojado desbravador e tocador de obras. Sabia pensar grande e tinha preocupações políticas e sociais. Sonhava com reforma agrária e colonização. Com um mar de assentamentos agrícolas ao longo da Belém-Brasília, que o futuro presidente Jânio Quadros chamava de "caminho das onças". Para Sayão, a estrada era parte essencial da coluna vertebral do sistema viário do país. Tolerava os burocratas, porque inevitáveis. Mas tinha horror à burocracia, principalmente quando lenta ou excessiva. Não aceitava ter a vida presa a gabinetes, tediosas rotinas, horários rígidos, segurança de emprego, pequenas mordomias, qüinqüênios, averbações, licenças-prêmio, abonos, letras, previdência. Formalidades, cipoais legais, carreirismo, papelada. Às vezes desmanchava o maço de cigarros e no verso redigia requisição de materiais, datava e assinava. Se um operador de qualquer equipamento não entendia as ordens, vacilava ou demonstrava medo, subia na máquina, assumia o comando, mostrava o que e como queria e, muitas vezes, completava a tarefa. Uma coragem bruta, quase inconseqüente. Coisas como derrubar árvore grande em local perigoso, de grande risco. Perto de abismos e pântanos, em ribanceiras muito inclinadas, em beiradas de barranco de rio grande. Adorava desafios. Brincava com a sorte, confiava em si mesmo. Sabia que sabia operar sem erro. Uma força da natureza. Sim, grande Rosa, viver é perigoso. Muito!
Como Sayão via Juscelino? Lia Sayão de Sá, filha que levou adolescente para Brasília, em novembro de 1956, conta:
 
"Pelo que a gente tem conhecimento e sabe, via como um homem empreendedor, trabalhador. E também como quem conseguiu tornar possível o sonho do meu pai, que era fazer a Belém-Brasília. Foi o único que deu mesmo força, respaldo e suficiente verba para construir a estrada, concretizar o sonho dele. Meu pai enfrentou muitos problemas. Ninguém queria fazer a estrada, porque diziam que era o caminho da onças. Foi muito difícil conseguir verbas e tudo o mais. De vez em quando ele vinha a Brasília de teço-teco, porque a gente continuou morando aqui. No final, como tinha prometido fazer logo a ligação da estrada, ele estava trabalhando demais lá. Então ficava mais tempo lá. Era uma confusão, ele fazia tudo. Não sei como ele achava tempo para fazer tanta coisa! [risos]"
 
Transcrito do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

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Cruzeiro de estradas

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Brasília, Catetinho, por volta de sete horas da manhã, final de abril de 1957. O instinto kubitschekiano dispara de novo. Madrugador, o presidente se prepara para despachar alguns papéis, quando alguém avisa que Bernardo Sayão, diretor da Novacap, acaba de chegar. Na mão, o inseparável chapelão de feltro. Coincidência. Juscelino conta que Sayão não saía de sua cabeça nos últimos dias. Naquele início de manhã mesmo, já se lembrara dele várias vezes. Explica: o sonho de fazer a estrada Belém-Brasília pegara fogo na sua mente. Martelava sem parar, irresistivelmente. Mais de dois mil quilômetros, dos quais seiscentos em plena mata virgem e fechada. Um caminho estratégico para o desenvolvimento e para a integração nacional. Selva misteriosa e cheia de insídia. Expedições havia desaparecido. Experientes furadores de mato habituados ao perigo tinham sido tragados. JK sabe que o homem capaz de comandar a arrancada rumo à Amazônia é exatamente Bernardo Sayão, a quem considera o Fernão Dias do século XX. Porque é um bandeirante moderno, que usa avião – um teço-teco – em vez de botas. Tem audácia, coragem, determinação e, sob a capa de desbravador sem medo, oculta um coração de criança. Reúne bravura e bondade, virtudes que nem sempre coexistem na mesma pessoa. Mais: sabe que é o maior sonho de Sayão e que ele, já em 1949, quando dirigia a Colônia Agrícola de Ceres, em Goiás, tinha preparado um primeiro traçado ligando Belém a Anápolis.

Juscelino despeja entusiasmo sobre o projeto. Percebe que Sayão devora cada palavra, o olhar fixo, a fisionomia alterada, emocionada. "Você será capaz de rasgar esta estrada, Sayão?"

Coração disparado, o valente dá um salto. Juscelino: "Via-o diante de mim, imponente na sua estatura gigante, mas constrangido em sua inata modéstia pela honra que, de súbito, lhe fora conferida." "Sempre sonhei com essa estrada, presidente. Posso dizer que este é o momento mais feliz da minha vida. Quando deseja que eu dê início à construção?" "Imediatamente." Sayão corre para o seu teço-teco e voa para Goiânia. Está resolvido. A decisão tomada por dois bandeirantes, cada um a seu modo, ambos apaixonados por grandes desafios. Não havia projeto, não havia recursos definidos, não havia quase nada. Apenas uma avaliação subjetiva, um oceano de desinformação e muita floresta espessa, desconhecida, desafiadora. Belém-Brasília, glória e túmulo de Bernardo Sayão, vai ser feita. Centenas de quilômetros de mistério que Sayão descreveu assim:

"A selva é tão fechada e alta, que ninguém sabe o que está sob ela; e, se cair um avião, por maior que seja, ela abre o seio, recebe-o e torna a fechar-se, fazendo-o desaparecer para sempre."
(…)

Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

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O Mito

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O Mito
Por Clemente Luz
 
Contam-se muitas histórias dos primeiros dias de Brasília.
Dizem que, quando foi o tempo da formação do Núcleo Bandeirante, depois de demarcado o traçado da primeira avenida, surgiu o problema sério: os homens tinham que comer. Não naquele dia apenas, mas nos dias seguintes, até o final da construção de Brasília.
Dizem que Sayão, com o seu porte de líder, estendeu o braço, chamou o motorista e entregou-lhe uma lista de nomes, dizendo-lhe:
– Vá a Ceres e traga esse povo. Diga que mandei chamar. Que venham todos com a tralha e a família.
E hoje a gente encontra essa gente de Ceres, que Sayão mandou buscar.
O Vovô, por exemplo, que plantou barraca inicialmente perto da ponte da antiga estrada de Planaltina, e que tinha o Bar Vera Cruz, ao lado do Cinema Bandeirantes, gosta de contar como foi a marcha de Ceres a Brasília.
Abre uma cerveja muito gelada, explicando antes:
– Na minha casa nunca falta cerveja bem gelada, porque não deixo ninguém meter a mão na geladeira. Quando vou pegar uma garrafa, já levo outra pra pôr no lugar…
Depois, curva-se sobre o balcão:
– Eu tava muito bem do meu em Ceres, cuidando de minha vida, quando chegou o caminhão e parou na minha porta. O motorista entrou, mostrou o papel e disse:
– Vovô, o dotô Sayão mandou le chamá pra fazer Brasília.
E o bonachão e próspero dono de bar, com os cabelos grisalhos, cercado por uma dezena de filhos, diz:
– Nem discutimos. Com o dotô a gente não discutia…
Veio, e aqui já encontrou o lote demarcado, e a tarefa que deveria cumprir.
– Eu tinha de montar pensão pra fornecer pros trabalhadores. Outros tinham de fazer pão, de cortar boi, de vender arroz e feijão.
Se alguém indaga por que veio, assim, atendendo apenas a um recado, ele diz:
– Se vosmicê conhecesse o dotô Sayão, não fazia a pergunta!
E, de história em história, nós, que chegamos depois, fomos sentindo que um personagem se transformava em lenda, se transfigurava, à medida que Brasília tomava contornos de cidade. Era Bernardo Sayão, cuja história é a própria história da conquista do planalto e cuja estatura máscula mais parecia uma coluna sustentando os blocos de cimento e ferro do primeiro edifício da cidade.
 
Clemente Luz,
Reproduzido do livro "Invenção da Cidade".

 

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SEGUNDO FRANCISCO MANOEL BRANDÃO

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SEGUNDO FRANCISCO
MANOEL BRANDÃO

"Despediu-se dizendo:
- Em breve irei enfrentar as
florestas da sua terra.
E o advertimos, também
gracejando-o:
- Cuidado com o Curupira!…"

                          Francisco Manoel Brandão

Certa vez nós dois estávamos
                   recolhendo no Planalto
o flagrante fotográfico
                  daquela árvore imensa:
galhos secos levantados
                  pro céu como quem morreu
implorando por socorro,
                  ali perdida no fogo
devastador das queimadas.
 
Sayão chegou-se e me disse:
                   – Pensar que eu a conheci
há três anos, dando sombra
                   ao gado, com flores roxas
enfeitando esta paisagem.
                   Entre nós dois – ninguém ouça –
nas vezes que sou forçado
                   a pôr árvores abaixo
para abertura de estradas
                   o "trem" que vai aqui dentro
bem que desanda e então reajo.
 
                                   (Falava do coração.)
 
Este poema é versificação de um trecho em prosa de Francisco Manoel Brandão
(In Meu Pai, Bernardo Sayão, de Léa de Araújo Pina)
Extraído do livro "Saga do Planalto"

 

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Ombro a ombro, sonho a sonho

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Ombro a ombro, sonho a sonho
 
– Bernardo Sayão, confessa:
                 que luz essa a que vislumbra
teu passo de ritmo cego?
 
– Bernardo Sayão, me escuta:
                 que música tom de cântico
na tua ousadia surda?
 
– Bernardo Sayão de andantes:
                que força rege teus gestos
que apontam, convocam, mandam?
 
– Bernardo Sayão das gestas:
                 que pretendes, Bandeirante
deste século vigésimo?
 
                 – Rasgar nossa estrada, homens.
                                     Da Brasília sonho novo
                 a Belém de novo sonho.
 
                 Tirar a estrada da luta.
 
                 Da terra. Do suor. Do sangue.
                 Dos dias de sol. Da lama.
                 Ombro a ombro. Sonho a sonho.
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Sem pista para aterrisar…

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Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1956. Juscelino quer conhecer logo a área. Vê-la, senti-la, caminhar sobre ela. Marca viagem para quinze dias depois, 2 de outubro de 1956. Uma aventura. Não há vias de acesso. E a Presidência da República não dispõe de helicóptero. Tem de ser de avião, mas não existe pista de pouso adequada. A solução é mesmo o veterano Douglas DC-3. Lento, barulhento, desconfortável, mas com capacidade para dezenas de passageiros, econômico e seguro. Um grande jipe alado. O mais recomendável é seguir via Goiânia, de teço-teco até Planaltina, pegar um jipe e seguir trilha aberta no cerrado até o destino. Mas JK resolve ir direto, aterrisar numa fita de terra desbastada no cerrado bruto pelo engenheiro Bernardo Sayão, na época vice-governador de Goiás. Uma pista com formigueiros e precariamente nivelada. O DC-3 decola do aeroporto Santos Dumont às 7:45 do dia 2 de outubro de 1956. Além do presidente, leva o general Teixeira Lott, ministro da Guerra; o almirante Lúcio Martins Meira, ministro da Viação e Obras Públicas; o governador Antonio Balbino, da Bahia; o general Nelson de Melo, chefe da Casa Militar; o brigadeiro Araripe Machado; Israel Pinheiro da Silva, presidente da Novacap; Oscar Niemeyer; Régis Bittencourt, direto do DNER; o coronel Dilermando Silva, o doutor Ernesto Silva, Octávio Dias Carneiro, técnicos do Conselho de Desenvolvimento – responsável pelo planejamento e metas do governo. Há um quê de moderna entrada ou bandeira no ar. Um sentimento bandeirante. Quatro horas de vôo.
Na chegada, Juscelino avalia o cenário. Conclui que é chato e amplo. Um descampado sem fim, com suaves ondulações, que não ultrapassam duzentos metros. Ele vê a cruz fincada pelo marechal José Pessoa no ponto mais alto e, pouco depois, a fita de terra vermelha improvisada por Bernardo Sayão (onde está hoje a Estação Rodoferroviária). Octávio Dias Carneiro, preocupado, pergunta ao presidente se é mesmo ali que vão pousar. Denso silêncio. O avião se posiciona, dá uma guinada e inicia os procedimentos de descida. Pancada dos pneus batendo no chão áspero, muita poeira, incontáveis solavancos, muitos corações disparados, parada, taxiamento e pronto. Alguns trêmulos, mas todos salvos, JK sorridente e entusiasmado. Descem e vêem pendurada num pau fincado ao lado da pista precária tabuleta em que algum brincalhão ou exagerado escreveu: "Aeroporto Vera Cruz". São 11:40 e o sol bate forte, fortíssimo. Calor de estalar mamona e luminosidade de apertar os olhos. O céu é indescritivelmente lindo.
O governador goiano José Ludovico de Almeida; Bernardo Sayão, diretor da Novacap; Altamiro Pacheco e outras autoridades levam a comitiva para um toldo de lona. Numa rústica mesa de madeira, o presidente assina o primeiro ato oficial de Brasília. A nomeação do novo ministro da Agricultura, Mário Meneghetti.
 
Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

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