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SERENIDADE

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SERENIDADE
 
Serenidade invade esta noite
o olhar terno de um lago solitário.
Banha-se, brilha e rebrilha,
suave desliza
em jogo humano.
 
Serenidade, partes do fogo
que um dragão te lançou.
És jogo que jogo
e, aveludada,
esta noite
cintila
sem estrelas.
 
Kori Bolívia, poetisa boliviana, natural de La Paz.
(Poema traduzido por Anderson Braga Horta)
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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A mudança da capital

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Li, há dias, um apanhado histórico, a respeito da questão da mudança da Capital brasileira para o interior do País. Embora realmente interessante o trabalho, permite algumas retificações, como, por exemplo, quanto à marcha dessa idéia de mudança da Capital na Primeira Constituinte Republicana.

Não foi Lauro Muller o autor da emenda apresentada, nem coube a Luiz Delfino falar em nome do Distrito Federal. Pelo menos, entre os 88 constituintes que subscreveram a emenda, Lauro Muller figura em quinto lugar.

Antes dele se apresentaram dois deputados de São Paulo, o Tenente-Coronel Joaquim de Souza Mursa e Rodolpho Miranda, e dois representantes de Santa Catarina, os Deputados Felipe Schmidt e Lacerda Coutinho. Quem falou em nome da bancada carioca não foi Luiz Delfino, que era senador pelo Estado de Santa Catarina, mas seu filho Tomaz Delfino, Deputado pelo Distrito Federal.

Houve muita coisa antes da Constituinte e depois da proclamação da República. Pode-se dizer que a questão da mudança da Capital surgiu na Comissão dos Juristas, composta de Saldanha Marinho, Américo Brasiliense, Santos Werneck, Rangel Pestana e Magalhães Castro. O artigo 2 do projeto, elaborado pela Comissão dos Juristas, estava assim redigido:

 

"As antigas províncias são consideradas Estados; o Distrito Federal, outrora Município Neutro, continuará a ser a Capital da União, até que o Congresso resolva sobre a sua transferência.

Parágrafo Único – Escolhido para esse fim o território, com o assentimento do Estado ou Estados de que houver de ser desmembrado, o referido Distrito será anexado ao Estado do Rio de Janeiro ou formará novo Estado, conforme determinar o Congresso."

 

Submetido o projeto da Comissão dos Juristas ao estudo dos componentes do Governo Provisório, Rui Barbosa veio a discordar do artigo que estabeleceria a mudança da Capital. Suas emendas, porém, são mais de redação do que de substância. Não se alterou sensivelmente o parágrafo, nos dois projetos do Governo Provisório, os que foram recomendados pelos Decretos números 510 e 914-A.

A idéia da mudança da Capital continuava em foco nesses projetos, mas sob a forma de uma condicional, dependente, ainda, de decisão ulterior. "Se o Congresso resolver a mudança da Capital", era a fórmula adotada nos dois projetos, exigindo-se, também, em ambos, a concordância dos Estados de que se houvesse de desmembrar o território da futura Capital. Deixava-se de lado a alternativa da reincorporação do Distrito Federal ao Estado do Rio de Janeiro, decidindo-se que, com a mudança da Capital, o antigo Município Neutro passaria a constituir um Estado independente.

Na Comissão dos 21, na Assembléia Constituinte, esses dispositivos provocaram algumas emendas. Uma, por exemplo, de Virgílio Damásio, senador pela Bahia. Outra do Senador Lapér, do Estado do Rio. O representante fluminense pleiteava a reincorporação do Distrito Federal ao território do Estado do Rio. O Senador Virgílio Damásio tirava a mudança da Capital do domínio das condicionais, para torná-la decisão definitiva da própria Constituinte, dizendo, na sua emenda: – "Fica, porém, desde já resolvida a mudança da Capital, que chamar-se-á Cidade "Tiradentes". A Comissão dos 21 não aceitou nenhuma das duas emendas, nem a incorporação do Distrito Federal ao Estado do Rio, nem a decisão imediata da própria questão da mudança. Preferia que o assunto viesse a ser discutido por uma assembléia, que dispusesse de mais tempo para o exame detido do assunto, limitando-se a Constituinte não somente a permitir a mudança, como também a forçar o debate sobre a matéria, que passaria a ser assunto da ordem do dia dos Congressos, que se reunissem depois da Constituinte. "Se o Congresso resolver" – era o que continuava a dizer o projeto da Constituição.

Daí a apresentação, em plenário, de uma emenda, subscrita por 88 constituintes e encaminhada à Mesa da Assembléia pelo então Deputado Lauro Muller, embora a primeira assinatura da emenda fosse a do Deputado por São Paulo, o Tenente-Coronel Joaquim de Souza Mursa. Adotava-se, nessa emenda, a orientação já defendida, na Comissão dos 21, pelo Senador Virgílio Damásio. A mudança passava a ser uma decisão da Constituinte e não uma proposta para o pronunciamento ulterior dos Congressos Legislativos. Dizia a emenda: – "Fica pertencendo à União uma zona de 400 léguas quadradas, situada no planalto central da República, a qual será demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital da República". Lauro Muller declarava que deixava de fundamentar a emenda, para não tomar tempo ao Congresso, mas pedia que fosse publicada conjuntamente com o ofício que a acompanhava, dirigido pelo Visconde de Porto Seguro ao Conselheiro Tomáz José Coelho de Almeida, então Ministro da Agricultura.

Entre os 88 signatários dessa emenda figuravam representantes de todos os Estados, exceto o Pará, o Maranhão, o Rio Grande do Norte e o Distrito Federal, sendo de admitir que não houvesse nenhuma intenção nessa ausência, mas tão-somente um desencontro na obtenção das assinaturas. O grande contingente era o que vinha dos Estados do Sul. Minas Gerais dava 17 assinaturas, num total de 40 representantes; São Paulo e Rio Grande do Sul apareciam com 12 assinaturas, cada um deles. Só esses três Estados representavam quase a metade das assinaturas da emenda. Santa Catarina poderia ser considerada como o campeão da medida, a que emprestava o apoio de 6 dos sete representantes com que contava. Mesmo Goiás não ia tão longe. Outro Estado, que se mostrava entusiasta da medida, era o Piauí, com a presença, na emenda, de 5 de seus 7 representantes.

Essa emenda foi aprovada na sessão de 22 de dezembro de 1890. Pode-se dizer que a única restrição que ela encontrava dizia respeito, não propriamente à mudança da Capital, mas ao destino futuro do antigo Município Neutro, que os fluminenses pretendiam incorporar ao território do Estado do Rio.

O discurso feito pelo Deputado carioca Tomaz Delfino aceitava, de boa mente, a idéia da mudança, que lhe parecia vantajosa para todos, inclusive para a própria cidade guanabarina, cujos títulos exaltava. Lembrava ele que "o Rio de Janeiro não é grande por ser a Capital; não precisaria dos ouropéis da Corte, nem de ser a sede onde se congregam os representantes dos Estados autônomos, por ser um dos maiores empórios comerciais do mundo, uma das maiores cidades da América".

Essa foi, aliás, a voz que traduziu, na Constituinte de 1890, a opinião do Distrito Federal, em face de proposta, que parece ter reunido a unanimidade dos componentes daquela conspícua assembléia."

Alexandre Barbosa Lima Sobrinho
Reproduzido da Revista "Brasília", da Novacap
Janeiro de 1957

 

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No dia em que chegaste

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Pense nas coisas mais importantes que lhe aconteceram, você se lembra das datas inteiras? Depende de cada um, creio, mas no geral os acontecimentos excepcionais da vida de cada um ficam guardados na primeira gaveta da memória. As fortunas e os infortúnios, as glórias e as tragédias são ocorrências impressas no calendário sentimental de cada um.

É por isso que sempre que alguém rememora os inesquecíveis dias da construção de Brasília começa pelo dia em que aqui chegou – e lembra muito mais: se era dia, se noite, se chovia ou se foi engolido pelo poeirão. Aterrissava-se num inacreditável canteiro de obras e digo aterrissagem de propósito: não importa se o forasteiro chegou de avião, de ônibus, de pau-de-arara, a cavalo ou a pé, ele aterrissou na ferida vermelha aberta no chapadão. Mudança brusca de paisagem, de geografia e de estado d’alma.

Querem ver? O contador Antonio Dias Neto, em depoimento ao caderno "Pioneiros", que o Correio publicou entre meados de 2003 e meados de 2004, lembra que chegou a Brasília, vindo de Anápolis, no dia 5 de fevereiro de 1958. Dois dias de pau-de-arara. Caía um chuvaréu. A mãe de Antonio já estava aqui, fazendo pães ao ar livre. Nas primeiras noites, a família se revezava para dormir nas duas camas e na rede.

Dois dias depois, o aguaceiro continuava. Era noite quando o então topógrafo Adalberto Lassance de Albuquerque desceu da jardineira na Cidade Livre. Noite, no caso, é eufemismo. Era breu, escuridão total. Lassance conseguiu chegar ao Hotel Batatais, de madeira, claro. No que entrou, prosseguindo sua aterrissagem intergaláctica, o topógrafo encontrou um colega de ginásio, posto que o mundo é pequeno mesmo naquela circunstância tão improvável.

Léa Portugal aterrissou de avião, na plenitude de seus 17 anos, vinda do Rio de Janeiro. Portanto, não vinha de muita boa vontade. "Que desolação", foi o que disse quando viu, ainda lá do alto, o oceano de terra vermelha da capital já inaugurada. Era 1º. de setembro de 1960. O sentimento de que iria morar em terra devastada logo se transformaria numa sucessão de aprendizados. Léa foi morar na quadra dos arquitetos, a 708 Sul, convivência que, como ela disse no caderno "Pioneiros", aguçou seu senso estético.

Quando decidiu vir pra Brasília, o médico Célio Menicucci pretendia fazer uma revolução em sua vida. O começo da reviravolta deu-se a 7 de setembro de 1958, dia em que aqui chegou. Menicucci tinha 26 anos.Havia se especializado em clínica geral e reumatologia, mas fez de tudo – de partos a cirurgias. "Era uma medicina de guerra", contou ele ao "Pioneiros".

Guerra santa que resultou numa cidade singular feita do calendário de cada um daqueles primeiros donos da aventura.

Conceição Freitas
Reproduzido do Correio Braziliense, 08/02/2008.
"Crônica da Cidade"

 

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21 de junho de 1957

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O Presidente Craveiro Lopes pernoita no Palácio Provisório.

Em Brasília, na companhia do Presidente Kubitschek, o Presidente da República Portuguesa assiste, no Aeroporto Internacional, a exibições de pára-quedismo por elementos do Exército, após os quais os dois Presidentes se dirigem ao Cruzeiro, onde o General Craveiro Lopes  inaugura uma placa comemorativa de sua visita e em que se formula a futura construção de "um monumento dedicado à raça e em memória dos heróis que fundaram este país".

A seguir, o General Craveiro Lopes preside a solenidade de inauguração do Hospital, que tomou seu nome, mandado construir pelo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários para atender aos trabalhadores que estão construindo a nova Capital.

O Presidente Craveiro Lopes tem oportunidade de abraçar, na futura Capital, o mais antigo residente português em Goiás. Alípio Mendes Ferreira, que reside no Estado há 49 anos. É proprietário de vários cinemas e vai inaugurar mais um em Brasília, no próximo ano, de mil lugares. Será o Cinema Cairo.

O Presidente de Portugal, com sua comitiva, visita os pontos mais interessantes de Brasília. Os habitantes da futura Capital prestam significativas homenagens ao estadista português. Diante dos escritórios da Novacap reúne-se o pessoal da Companhia para recepcionar os visitantes. Também os alunos do Grupo Escolar formam com os seus uniformes de gala, agitando bandeirolas e cantando a música "Viva Craveiro".

O General, em seguida, visita o restaurante do SAPS onde cerca de oitenta trabalhadores tomavam refeições.

O serviço de auto-falantes do SAPS fez tocar os discos do Hino Nacional brasileiro e do Hino Nacional português.

Durante a permanência da comitiva em Brasília, três aviões, incluindo-se um Douglas da FAB, foram destinados, exclusivamente, a fazer a ligação dos dois campos de pouso: o ‘internacional’, que tem a maior pista asfaltada do Brasil, e que recebe avião de qualquer tipo, e o que fica aos fundos do "Palácio Provisório". A distância entre os dois campos de pouso, como se sabe, é de doze quilômetros.

A Novacap emprega todos os seus carros no transporte dos visitantes.

O Presidente Craveiro Lopes deixa Brasília às 13 horas e 23 minutos, chegando a Manaus às 17,30 hora local, viajando num avião "Viscount".

(Diário de Brasília)

 

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20 de junho de 1957

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Procedente de Porto Alegre, chega a Brasília, às 18,30 horas, o General Craveiro Lopes, Presidente da República Portuguesa. Após os cumprimentos, o Presidente da República Portuguesa dirige-se ao Palácio Provisório, onde já o esperava o Presidente Juscelino Kubitschek, que ali lhe oferece um jantar. Após a refeição, o Presidente Kubitschek explica ao Presidente Craveiro Lopes a evolução da idéia histórica da mudança da Capital e o plano de construção de Brasília.
(Diário de Brasília)

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Um certo doutor Israel

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Do final do século XX, Oscar Niemeyer contempla fotografia antiga de Brasília e, com saudade, recorda-se cidade e de seu construtor, Israel Pinheiro:   

"Fomos escolher o local onde deverá ficar o Alvorada. E a foto revela o nosso entusiasmo, a penetrar pelo cerrado adentro, com o capim a nos bater nos joelhos, ansiosos para iniciar a construção do Palácio e, com ela, a da Nova Capital. Israel comanda o grupo, com seu espírito otimista e dominador.

À volta, é o descampado sem fim, a terra vazia, hostil e silenciosa. Estamos longe de tudo. No fim do mundo. E fico a lembrar aquele homem admirável, que nos velhos tempos de Brasília nos deu exemplo diário de trabalho e determinação. Cedo, muito cedo, Israel já estava a correr os canteiros de serviço, a tomar as providências mais urgentes, a cuidar dos transportes e das moradias. Sem burocracia, assumia a responsabilidade de tudo, animando-nos com sua presença fraternal e comunicativa. É claro que tivemos divergências. As divergências inevitáveis que uma obra como aquela estabelece. Todas elas tendo como motivo único os prazos fixados. Israel, com boas razões, decidido a mantê-los, e eu, como arquiteto, defendendo a minha arquitetura. (…) Brasília surgiu como uma flor do deserto, dentro das áreas e escalas que seu urbanista criou, vestida com as fantasias da minha arquitetura. E o velho cerrado cobriu-se de prédios e de gente, de ruído, tristezas e alegrias.

Mineiro de Caeté, nascido em 1896, engenheiro pela Escola de Minas de Ouro Preto, Israel Pinheiro da Silva era enérgico, duro, voluntarioso e personalista, características talvez indispensáveis à construção de Brasília em apenas 42 meses. Rosto fechado, quase não sorria. Um homem dominador, direto e seco, às vezes, áspero. Mais honesto, solidário e generoso. Um chefe dinâmico, prático e objetivo. Mais de fazejamento que de planejamento. Um realizador. Tinha enorme disposição de trabalho. No tempo de Brasília, normalmente das seis da manhã às oito da noite. Ou estava no escritório da Novacap, na hoje Candangolândia, antigamente conhecida por Velhacap, ou dentro de uma rural Willys com o número 1 escrito num papel colado no pára-brisa. Otimista, não era de muita conversa, mas sabia fazer acontecer. Um episódio emblemático? No final de outubro de 1956, portanto antes até do Catetinho, a primeira construção, vai a Brasília grupo de japoneses interessados em desenvolver granjas e pomares. Homens da terra. Hospedam-se num barracão improvisado da Novacap. Acompanhados de um jornalista, saem vendo e examinando tudo, principalmente a terra. Ficam muito preocupados. Terra bruta, dura, ácida,de baixa fertilidade. O jornalista vai a Israel:

- Os japoneses acharam a terra muito ruim.

- Uai! Se fosse boa, pra que japonês?

O primeiro núcleo de imigrantes japoneses instalou-se em agosto de 1957.

Quando as coisas evoluíram e se organizaram melhor, Israel passou a viver com a família na Granja do Ipê. Era para ser Granja Israel. Já tinha até placa. Mas exatamente então, época de acirramento dos conflitos entre judeus e árabes no Oriente Médio, foi hospedar-se lá poderoso líder político árabe. Tiveram de mudar a placa. Saiu Granja Israel, entrou Granja do Ipê. I de Israel, Pê de Pinheiro. Nome tão criativo, que foi mantido. Ipê é também árvore deslumbrante do cerrado. Talvez a mais linda. Em setembro, troca as folhas por flores, vira árvore-flor. Ou amarela ou roxa ou branca. Maravilha.

Filho do estadista João Pinheiro da Silva – jornalista, professor de direito internacional, constituinte de 1890-91, deputado, senador, governador de Minas eleito em 1906 -, Israel já era dono de respeitável biografia pública ao assumir a Novacap em setembro de 1956. Engenheiro, foi um dos pioneiros da metalurgia e da siderurgia no país. Participante da Revolução de 1930, é nomeado secretário dos Negócios da Agricultura, Indústria, Viação e Obras Públicas, em dezembro de 1933, pelo interventor

Federal Benedito Valadares Ribeiro. Revela-se um inovador. Constrói escolas e prioriza a educação de interesse do setor. Fazendas-escolas, fazendas-fábricas, ensino superior, industrialização. Designado pelo presidente Getúlio Vargas, integra, em 1941, a Comissão de Acordos de Washington. Novamente indicado por Vargas, lidera, em 1942, a constituição da Companhia Vale do Rio Doce, de que se torna o primeiro presidente. Ai permanece até fevereiro de 1946. Elege-se deputado federal em 1945, 1950 e 1954. Constituinte de 1946, bate-se pela transferência da capital para o interior do país. Seu sonho é vê-la no Triângulo Mineiro. Depois de comandar a construção de Brasília, torna-se seu primeiro prefeito, governando-a até a posse do presidente Jânio Quadros, em 31 de janeiro de 1961. Em outubro de 1965, elege-se governador de Minas para o período 1966-71, cargo que o pai ocupara havia mais de sessenta anos. Enfrenta período difícil, de vacas magras no país. Mas trabalha intensamente e prepara o relançamento do desenvolvimento estadual que se seguiu.

As liturgias e as pompas do cargo não o afastam um milímetro do velho estilo. Certo dia, recebe o embaixador da Tchecoeslováquia e comitiva no Palácio da Liberdade. Na pauta, venda de equipamentos. Audiência no Salão Nobre, tradicionalmente cerimoniosa, recheada de salamaleques, não-me-toques e rapapés. Ele detestava essas chatezas. Já começou pelo atalho: "Embaixador, o senhor pode ir direto ao ponto. Sou um homem objetivo. Se o que o senhor tem me interessar, eu vou lhe dizer. Se não me interessar, vou lhe dizer também."

Exatamente nesse momento, entra Antonio Cosenza, uma estrela do jornalismo mineiro, então fotógrafo oficial. Tranqüilo, tira as fotos e vai saindo discretamente. Ia. O governador dá outra canelada no protocolo. Aponta para Cosenza e fala quase gritado: "Ô rapaz, qual é o seu nome?! Não me entre mais aqui com barba de ontem não, viu?" Falou sem raiva, mais firme e forte, apesar de fora de hora e contexto.Era assim, não deixava nada para depois.

Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto

 

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16 de junho de 1957

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A Novacap divulga que o empréstimo obtido no Eximbank será empregado da seguinte forma:
1) Construção da Usina Hidrelétrica do Paranoá;
2) Compra das estruturas metálicas destinadas aos 16 edifícios em que se localizarão os Ministérios e as demais repartições importantes do Governo em Brasília.

O dinheiro será usado, também, na aquisição do equipamento necessário a essas obras e no financiamento da usina.
O prazo de pagamento do empréstimo será de 15 anos, com juros de 5,5 por cento.
(Diário de Brasília)

Estruturas metálicas dos edifícios dos ministérios. Foto Arquivo Público do DF.

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A VÁRZEA TEM CAJAZEIRAS

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A VÁRZEA TEM CAJAZEIRAS
 
A várzea tem cajazeiras…
Cada cajazeira um ninho
Que entre o verde e o azul oscila;
Mocambo de passarinho…
 
Na baixa funda, mais funda,
Tenros que se alongam verdes:
Verdes de capim de planta;
Vista, mais vista a perder-se.
 
Maracujás enredados…
Flor da paixão, do martírio;
Entre as balsas dos remansos
Baronesas cor de lírio.
 
Nessa várzea sou planície,
Vaga dimensão dormente;
Tendida no chão conforme
Sou de mim sombra somente.
 
Rumos de céus desvelados
Onde chego e me afugento!?
– Já me escuto como em sonho
De tão longe que me ausento!
 
Em redes de ramos verdes
Me estendo com um caminho,
Me espreguiço dessa várzea,
E me embalo desse ninho.
 
Joaquim Cardozo, poeta pernambucano, natural do Recife.
"Signo Estrelado"
Antologia dos Poetas Brasileiros, de Manuel de Bandeira.

 

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Capital federal

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Capital federal
 
finda a tarde em pássaros e presságios
cenário desolado de árvores retorcidas
corre a vida pela solidão dos cerrados
planalto místico rico em ritos e oráculos
 
terra nova alvo de sonhos antigos
mitos galopam pela vastidão do nada
as gralhas gritam na secura e susto
enquanto tratores revolvem a terra
expondo tesouros e cadáveres
pequenas raízes em fraturas nodosas
 
arde a noite em combustão espontânea
ilumina-se a ilha por vegetais em chama
enquanto não se cumprem
os sonhos das profecias.
 
Guido Heleno, poeta goiano, natural de Anápolis.
"Poemas para Brasília’, de Joanyr de Oliveira

 

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Brasília

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Brasília
 
Eu vi o sol de Brasília
à hora do nascer do sol:
bloco de topázio em prismas
alçado pelo anzol do céu
ali na faixa do horizonte
à altura de minhas mãos.
O sol que sempre vai nascer
às mesmas horas da alvorada
com a mesma ardência o mesmo adejo
a mesma graça de alvorada
quando meus olhos forem cegos.
 
 
Eu vi a lua de Brasília
Flutuando no aquário escuro.
Nenhuma lua vi maior
nem mais límpida em longitude
nem mais redonda em corola.
Era um jorrar de lua a flux
em água vidros azulejos
mármores espaços à frente
relvas gramíneas buritis.
Uma lua vinda de outrora
que se perdera e se encontra
em novo giro agora fixo
para os amores que despontam.
 
Vi a galáxia de Brasília
pairando  sobre a flor de pedra
da catedral em ofertório.
Foi numa noite de mistério.
Os astros formavam códigos
senhas algarismos e siglas,
projetavam perfis
de Profeta Patriarca
Inventou Arquiteto
Construtor Operário Artista.
 
A galáxia refluía à fonte:
são os astros de humana estirpe
entressonhados noite a noite
que coroam Brasília.
 
Henriqueta Lisboa, poetisa mineira, natural de Lambari.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Juscelino Kubitschek e Brasília

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Os anos com seu passar, são implacáveis. Vão lavando os ângulos da memória e levando consigo passagens fundamentais à compreensão do presente.
A imagem de Juscelino Kubitschek como fundador de Brasília é inolvidável. Contudo, suas razões com a interiorização da capital vão lentamente se dissipando, até pelo êxito fantástico da conclusão da obra.
É tempo pois de refrescar a memória e redescobrir que Brasília não é um lugar qualquer do território nacional, mas um espaço mítico na constituição da nação.
O primeiro testemunho de Juscelino Kubitschek sobre Brasília deu-se na Constituição de 1946, no auge de uma discussão entre os senadores goianos João d’Abreu e Pedro Ludovico, que procuraram consagrar, no texto da Lei Magna, o princípio "mudancista". A história, aliás, não tem sido generosa em relação ao grande empenho dos líderes goianos como aliados decisivos da construção de Brasília.
Dez anos antes de dar início a Brasília, o senador Juscelino Kubitschek já era um entusiasta da interiorização da capital mas, contra o pensamento goiano, defende um relatório feito por Lucas Lopes que aponta o Triângulo Mineiro como o sítio mais apropriado para a transferência. Eis como Adirson Vasconcelos pontualiza aquele momento, no qual Juscelino Kubitschek ainda se inclina pela mineiridade do projeto tornado economicamente viável pela lógica fina de um dos clássicos da ortodoxia econômica do país:
 
 
  Documento para a discussão sobre a importância dos goianos na construção de Brasília, preparado para fazer uma conferência na Academia de Letras de Luziânia, a convite do amigo Dilermando Meirelles, em fins de 1997, um ano antes de seu falecimento.
 
.  As imensas regiões do interior e a força de uma decisão política que transferisse para o seu meio o centro vital da administração brasileira, passariam a constituir imediatamente um elemento novo de profunda significação econômica e social, na rota do progresso do Brasil.
 
.  O grande sonho de recuar a fronteira econômica do Brasil, levando-se para regiões que ainda hoje aguardam uma nova epopéia de bandeirantes, foi o fator decisivo que acalentou, durante gerações sucessivas, o propósito de se vitalizar o sertão brasileiro, plantando, no coração da pátria, um centro poderoso de irradiação cultural econômica e social.
 
.  Por imposição da vontade nacional, é esta a terceira vez que se reúne, no Brasil, uma Assembléia Constituinte no decurso de menos de um século e dentro dela tem vindo bater o sopro da aspiração de todos os brasileiros. Nas duas primeiras, a de 1891 e a de 1934, a questão da mudança da capital foi estudada com interesse e carinho. Todos sentiam a necessidade de se deslocar o eixo econômico do Brasil, situado num estreita faixa litorânea, com evidente desencorajamento ao progresso do imenso território que, apenas adormecido, aguarda o toque de sentido, de estímulos novos e fecundantes.
 
Com efeito, a 18 de setembro de 1946, aprovada a Constituição, estaria consagrado o princípio da construção da nova capital no interior do país, determinado ao presidente da República o prazo de 60 dias para a nomeação de uma comissão técnica para proceder ao estudo quanto à sua exata localização. Os intensos debates em torno das várias opções de localização não permitiam um consenso naquele momento quanto ao sítio adequado. Só após dois anos de trabalho da nova Comissão, nomeada pelo presidente Dutra, em 1946 – sob a supervisão do general Djalma Poli e contando com o decisivo apoio de Coimbra Bueno, um dos construtores de Goiânia -, reafirmar-se-ia solução do "Quadrilátero Cruls", delimitado em 1892, soterrando lentamente a alternativa mais econômica apresentada pela proposta mineira do Triângulo.
Durante os 21 meses de trabalho dessa comissão – entre os anos de 1946 e 1948 -, mineiros e goianos disputam acirradamente a localização de Brasília. Juscelino Kubitschek, influenciado por Lucas Lopes, e pelo parecer da Subcomissão Temática de Geografia – elaborado por Cristovam Leite de Castro -, ainda deposita esperança na alternativa do Triângulo Mineiro. O político sábio das Minas Gerais ainda não revelara o grande estadista que viria a ser.
A insistência, porém, de Coimbra Bueno, associada à uma posição dos Estados Maiores das Forças Armadas, expressa por ofício do prestigioso general Canrobert Pereira da Costa, no final de 1947, fortalece a solução goiana: "mais inclinado pela solução preconizada pela Comissão Cruls, em 1892, que aconselhara o Planalto de Goiás por motivos geopolíticos".
Não há registro da posição de Juscelino Kubitschek frente a esses documentos, mas, certamente, acompanhava atento ao debate.
Toda essa intensa controvérsia tem um grande mérito: demonstra o vivo interesse e participação nacionais na questão da construção da nova capital e o peso estratégico das razões geopolíticas, até mesmo apoiadas pelos militares, da opção pelo Planalto Goiano. Isso significa que, desde inicio, Brasília é concebida não como solução econômica em si, o que seria mais viável se tivesse sido localizada em Minas Gerais, mas como projeto nacional capaz de produzir efeitos secundários em cadeia. Esse sentido profundo seria sutilmente percebido por Lúcio Costa, em seu memorial para o concurso de projetos para a nova capital, quando afirma que "a região seria uma conseqüência da cidade".
Realmente, a 21 de julho de 1948, o parecer da Comissão Poli – Comissão de Altos Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil -, passou por apertada votação: sete votos favoráveis à solução Cruls e cinco contra, com a ressalva de dois engenheiros – Luiz da Silva Vieira e Coimbra Bueno -, que defendiam a adotação dos circuitos naturais que ampliavam o quadrilátero um pouco mais para o norte, totalizando 77 mil km2, como se depreende da Resolução Final da Comissão, datado de 12 de agosto de 1948.
De posse dessas conclusões, o então presidente Dutra vem a Corumbá, no Mato Grosso e assina Mensagem ao Congresso Nacional, defendendo a construção da nova capital no Planalto Goiano, como uma exigência dos superiores interesses da nação brasileira.
Essa "Mensagem de Corumbá" reitera a convicção de que a obra de Brasília não é apenas um empreendimento físico, mas um amplo projeto nacional de fazer desse gesto o inicio de uma caminhada rumo a criação de novos eixos econômicos no Centro-Oeste.
Eis o texto do Presidente Dutra:
 
  "A conclusão aqui encaminhada é no sentido de estabelecer a capital no Planalto Goiano, aproveitando integralmente a área proposta em 1892 pela Comissão Cruls, em zona de confluência das bacias dos rios Amazonas, Paraná e São Francisco. Não se tem em vista, unicamente, a idéia de respeitar a tradição constitucional, mas ainda, os efeitos favoráveis sobre a economia geral da nação e sobre a estruturação geopolítica do Estado, considerando este como um todo unificado e consolidado".
 
Brasília não é, pois, uma cidade qualquer, mas um projeto institucional pioneiro para a promoção do desenvolvimento regional, permitindo-se afirmar que ela estaria para o Centro-Oeste, como a Sudene para o Nordeste, ou a Suframa para a região Norte.
Nas palavras de Juscelino,
 
  "O Brasil voltado até então para o mar, teria de assumir uma atitude diametralmente inversa, isto é, voltar às costas para o Oceano e empenhar-se em tomar posse efetiva de seu território, de cuja existência só tinha conhecimento através dos mapas".
 
E conclui,
 
  "Ao contrário da função que competira a Salvador – que fora a de impor a presença da dinastia na terra despovoada e selvagem – coube a Brasília uma tarefa bem mais profunda e de muito maior alcance: a de puxar para o Oeste a massa populacional do litoral de forma a povoar o Brasil igualmente e, através desse empuxo migratório interno, realizar, quando muito no período de duas décadas, a verdadeira integração nacional".
 
Encaminhada assim a Mensagem de Corumbá, em 1948, quatro anos se passariam para que o Congresso Nacional aprovasse a lei, sancionada por Vargas, em 1953, sob o número 1.803, que, mais uma vez, determinava a realização de novos estudos para a definição mais precisa do sítio da nova capital, já definido que seria uma área de 52.000 km2 em torno do "Quadrilátero Cruls". Daí, até o dia 18 de abril de 1956, quando Juscelino Kubitschek enviou a "Mensagem de Anápolis", propondo a construção de Brasília, a resolução "mudancista" vai ganhando corpo. De comissão em comissão vai se consolidando a decisão de interiorizar a nova capital. A nova Comissão criada por Vargas, por força da Lei no. 1803/53, denominar-se-ia Comissão de Localização da Nova Capital – Decreto número 32.976, de 8 de junho de 1953 – presidida pelo general Caiado de Castro e, posteriormente, pelo marechal José Pessoa e teria papel decisivo, por iniciativa desse último, na localização de Brasília.
Esse largo interregno entre a Mensagem de Corumbá, em 1948, e a criação da nova Comissão, em 1953, foi, entretanto, rico em intensidade mudancista. No Congresso Nacional, Câmara e Senado criaram comissões específicas de trabalho sobre a nova capital e fizeram do assunto uma constante, ao longo dos anos, destacando-se como principais defensores da idéia os deputados Eunario Queiros, Israel Pinheiro, Jalles Machado e o senador Domingos Velasco, de Goiás. Juscelino Kubitschek, nessa época, assumia o governo de Minas Gerais e se retirava do debate.
Adirson Vasconcelos alinha, entre outros fatos importantes da campanha mudancista:
 
  . Teixeira de Freitas, defendendo, pela imprensa, a redivisão territorial do Brasil e justificando a mudança da Capital Federal;
  . Christóvam Leite de Castro, em conferência no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, apoiando a interiorização da Capital;
  . Carlos Maximiliano, nos seus Comentários à Constituição de 46, a favor do imperativo constitucional da transferência da capital da União para o interior;
  . Lei do estado de Goiás, ampliando a faixa territorial do estado destinada ao território da futura Capital do Brasil;
  . Jerônimo Coimbra Bueno, em mensagem ao Legislativo goiano, argumentando a conveniência da mudança da capital federal;
  . Daniel de Carvalho, ministro da Agricultura, aconselhando, na Conferência de Imigração e Colonização, o imperativo de interiorização do governo federal;
  . Membros da Conferência Nacional das Classes Produtoras, aprovando recomendação em prol da mudança da Capital do Brasil para a hinterlândia;
  . Resoluções do Conselho Nacional de Geografia e do Conselho Nacional de Estatística, do IBGE, justificando e propondo a transferência provisória da capital para o interior;
  . Projeto do deputado Dilermando Cruz, estabelecendo normas sobre a possibilidade do cumprimento do preceito constitucional;
  . Os senadores Paulo Fleury da Silva e Souza e Dario Cardoso combatendo a idéia de se construir um novo edifício, no Rio de Janeiro, para o Senado Federal, já que a mudança é assunto iminente.
Fato curioso da Lei número 1.803/53 é que, talvez por vez primeira se registra o que mais tarde passaria a ser, não só um mito, mas motivo de grandes distorções no desenvolvimento urbano de Brasília: frisa que a nova capital deveria ser planejada para abrigar 500 mil pessoas.
Esse fato condicionou não apenas o projeto Brasília, em 1956, mas a administração da ocupação do território do Distrito Federal, depois de inaugurada Brasília. Tolhidos por esse número cabalístico, sucessivos governos do Distrito Federal constrangeram voluntariamente a oferta de terras para novos assentamentos e, com isso, provocou a grande distorção que foi a elevação artificial, pelo poder público, do valor dos terrenos urbanos no Distrito Federal, e, conseqüentemente, o desequilíbrio de preços entre as terras internas e externas ao Distrito Federal, acarretando uma inevitável e precoce evasão de população para o eixo Gama, Luziânia e Brazilinha. Só em 1988, o governo Roriz, que expressa o momento de integração dos goianos ao Projeto Brasília mudaria esta tendência enrijecida durante o decênio 1978-1988.
A nova comissão criada por Vargas começou  a trabalhar já no dia 21 de junho de 1953 e teria como seu segundo presidente, a partir de outubro de 1954, José Pessoa, Coimbra Bueno como diretor técnico e o dr. Ernesto Silva como assessor, os principais vultos do inicio da epopéia. A 27 de abril de 1955, José Pessoa propõe ao então presidente Café Filho a definição do sítio, onde hoje está localizado o Plano Piloto, para imediata desapropriação, mas só o conseguiu por iniciativa do então governador de Goiás, Juca Ludovico, mediante Lei Estadual número 1.071/53, de 30 de abril de 1953. Coordena com dedicação e afinco as ações mudancistas, mesmo depois que Nereu Ramos, no exercício da Presidência da República, transforma a referida comissão em Comissão de Planejamento da Construção e Mudança da Capital. Só em 1956, em razão de divergências com Juscelino, esse verdadeiro herói da nova capital se retira do movimento mudancista, passando à história como o grande elo entre a fase dos estudos para a das ações concretas na edificação de Brasília: seu assessor, Ernesto Silva, permaneceria mais quatro meses à frente da Comissão, quando ela cede lugar à criação da Novacap, em setembro de 1956, passa a ser seu presidente e, desde então até hoje, outro de seus vultos históricos.
A grande iniciativa, porém, que permitiu sair das intenções para a construção de Brasília foi a decisão de contratar um levantamento aerofotogramétrico de todo o chamado "Retângulo do Congresso" – uma superfície de 52.000km2 – à Cruzeiro do Sul, junto com a fotointerpretação feita pela empresa Donald Belcher. Daí sairia a decisão para a escolha do sítio, onde deveria localizar-se a nova capital.
Esses estudos – concluídos no inicio de 1955 e hoje depositados na Codeplan – consideram oportuno e elogiável a reedição do Relatório Belcher, apontando cinco localidades apropriadas, a saber:
. Sítio Verde: localizado na sede do município de Planaltina e beneficiado pelas cabeceiras do rio São Bartolomeu. Cortado pela estrada Planaltina – Anápolis e situado dentro da área do chamado "Quadrilátero Cruls".
. Sítio Castanho: justaposto ao Sítio Verde e compreendendo uma área do território de Planaltina banhado pelos rios Torto, Paranoá, Bananal e Gama. Cortado pela estrada Planaltina-Anápolis e também situado dentro do retângulo demarcado por Cruls, em 1892.
. Sítio Azul: estabelecido nas proximidades e a leste da cidade de Anápolis.
. Sítio Amarelo: cortado pela estrada de ferro e situado em uma região que envolve as sedes dos municípios goianos de Leopoldo Bulhões, Silvânia e Anápolis.
. Sítio Vermelho: a oeste da cidade de Unaí, a uma distância de 65km da sede do município. Banhado pelo rio São Marcos.
Restava, ainda, uma última questão para a seleção do sítio da obra.
Acompanhada da metodologia elaborada pelo engenheiro Pena Firme, agregado à subcomissão de avaliação do Relatório Belcher, a qual daria a seguinte classificação dos sítios:
 
. 1º. lugar: Sítio Castanho, com 867 pontos;
. 2º. lugar: Sítio Verde, com 800 pontos;
. 3º. lugar:Sítio Vermelho, com 774 pontos;
. 4º. lugar:Sítio Azul, com 684 pontos;
. 5º. lugar:Sítio Amarelo, com 646 pontos.
 
Graças a esses exaustivos trabalhos, que arrancaram de Belcher a afirmação exclamada de que a iniciativa do Brasil é a "primeira na História" a basear a sua localização "em fatores econômicos e científicos", bem como nas condições de "clima e beleza" da região, a Comissão de Localização encontra-se então em condições de dar seu veredito sobre o sítio mais apropriado à nova capital, no dia 9 de maio de 1955: um território de 5.800km2, com limites de latitudes entre os paralelos 15º e 30′ e 16º e 30′ envolvendo os sítios "Castanho" e "Verde" seria o novo limite do Distrito Federal, na forma da lei.
Dada a importância do fato,  vale registrá-lo em detalhes: a questão das desapropriações.
Antes, contudo, dessa homologação, José Pessoa, preocupado com o efeitos do anúncio sobre os especuladores, leva ao presidente Café Filho proposta de desapropriação imediata e urgente da área. Era dia 27 de abril de 1955 e o país vivia dias ainda conturbados com a morte de Vargas.
Consultando Temístoles Cavalcanti, seu consultor, o presidente Café Filho desautoriza a medida.
Não se dando por vencido, José Pessoa, com o inestimável apoio de Coimbra Bueno e Ernesto Silva, desloca-se para o estado de Goiás onde a campanha mudancista sempre tivera maior fôlego e obtém do governador, a 1º de maio de 1955, o envio à Assembléia Legislativa de pedido de autorização para a desapropriação da área da futura capital, a título de utilidade pública. Esse "decreto histórico" foi assinado, também, pelos secretários Sebastião Camargo, Peixoto da Silveira, José Feliciário, Ivani Alves, Ângelo Millazzo e Jayme Câmara, todos verdadeiros heróis da epopéia brasiliense. A mensagem, aprovada apenas 26 horas depois de recebida, é um marco na história de Brasília  e expressa a decisiva determinação do governo e do povo de Goiás em um momento crucial da decisão de mudar a capital para o interior, precisamente quando a Comissão do Governo Federal, sob o comando de Café Filho, ameaçava colocar por terra o empenho dos mudancistas.
Coincidentemente, nesse momento da vida nacional, já transcorria a campanha presidencial e, enquanto Juarez Távora corria o litoral com o apoio da UDN, Juscelino Kubitschek mergulhava pelo interior de Goiás e de Minas Gerais em busca de apoio, já de posse de seu Programa de Metas. Ocasionalmente, enquanto José Pessoa, Coimbra Bueno e Ernesto Silva apressavam-se para apresentar ao presidente Dutra o relatório conclusivo da Comissão de Localização da Nova Capital, Juscelino desembarcava, no dia 4 de abril de 1955, em Jataí, estado de Goiás, para um novo comício e, como era seu costume, deixava os últimos instantes para um diálogo aberto com a população. Foi aí, que recebeu, com um pouco de espanto e embaraço, de um dos ouvintes que logo identificou-se como Antonio Carvalho Soares, ou Toniquinho, como era conhecido, a pergunta:
 
– O senhor disse que, se eleito, iria cumprir rigorosamente a Constituição. Desejo saber, então, se pretende pôr em prática o dispositivo da Carta Magna que determina, em suas disposições transitórias, a mudança da capital federal para o Planalto Central ?
 
Nesse instante mágico, estava selada definitivamente a sorte da nova capital. A princípio embaraçado, Juscelino confirma a intenção mas vai, rapidamente, assimilando a idéia de que a transferência era a alavanca que faltava para articular seu Plano de Metas. Por isso, compromete-se com a idéia que lhe era familiar desde quando a viveu nos debates da Constituinte de 1946 e a nomina meta-síntese de seu Programa. O cenário nacional cedo o convenceria de que o Planalto Goiano daria à nova capital um significado muito mais profundo do que o Triângulo. Brasília não seria uma solução econômica imediata mas o ponto de partida que daria fôlego à "marcha para o Oeste".
Não lhe faltaria, um ano depois, um jurisconsulto do porte estadista de Santiago Dantas para redigir uma mensagem com Projeto de Lei que transformasse essa promessa de campanha em ação de governo. No mesmo solo goiano, reverenciando seu povo e seus dirigentes, Juscelino assina, em Anápolis, a 18 de abril de 1956, o Edito da Construção de Brasília: propunha a criação da Novacap, a abertura de um crédito orçamentário e integrava-se ao pensamento desenvolvido durante os anos das diferentes comissões – a de "Estudos", a de "Localização" e a de "Planejamento" – para a construção da nova capital, desde 1891 até aquela data. Nascia, também, o nome Brasília para a nova sede de governo, até hoje consagrado, embora impropriamente, pelas Constituições como capital da República. Brasília, enfim, é a Região Administrativa no. 1 do Governo do Distrito Federal, mas quis a tradição que se associasse seu nome ao próprio Distrito Federal.
Aprovada a Mensagem, em setembro de 1956, já a 2 de outubro, Juscelino fazia sua primeira viagem à região, previamente preparada pelo governo de Goiás que, entre maio de 1955 e aquela data, praticamente começara o processo de desapropriação da área, construção da pista de pouso e edificação das primeiras moradias. Todas essas iniciativas se consolidam no estado de Goiás com a criação, a 5 de outubro de 1957, de uma Comissão de Cooperação para a Mudança das Capital Federal – Decreto número 1.258/55 -, sob a presidência de Altamiro de Moura Pacheco, a qual ultima a desapropriação das fazendas Bananal, Guariroba, Riacho Fundo, Tamanduá, Vicente Pires, Taguatinga e Gama, em um trabalho memorável que prosseguirá até setembro de 1958, envolvendo 177 propriedades pertencentes a 365 condomínios, tudo lavrado nos cartórios de Luziânia, de Planaltina e de Formosa, sendo prefeito da primeira Benedito Roriz de Paiva e, da segunda, Pedro Monteiro Guimarães.
Graças a esse decisivo apoio do governo de Goiás que sempre compreendeu a importância de trazer a nova capital para o seu seio, Juscelino ouvia de Altamiro de Moura Pacheco, na pista construída por Sayão, vice-governador de Goiás, o seguinte
comentário assim descrito por Adirson Vasconcelos:
 
  "As terras necessárias para tal empreendimento estão à disposição do Governo Federal…"
 
E o presidente deu a Israel Pinheiro três anos e meio para a construção física da capital. E fez, na ocasião, seu primeiro pronunciamento oficial sobre Brasília no qual enfatiza a importância da obra para a interiorização do desenvolvimento do país:
 
  "Brasília significa uma revolução política e uma revolução econômica. Estamos erguendo-a com  aquele espírito de pioneiros antigos, dos homens que desbravaram os sertões modernos em nossas almas ansiosas por fundar uma civilização no coração do
Brasil.
Do ponto de vista econômico {garantiu Juscelino], Brasília resolverá situações já esgotadas, porque vai criar um novo centro de gravidade, entre o litoral e o interior, entre o Norte e o Sul.
Politicamente [anteviu Juscelino], Brasília significa a instalação do governo federal no coração mesmo da nacionalidade, permitindo aos homens de Estado uma visão mais ampla do Brasil como um todo e a solução dos problemas nacionais com independência, serenidade e paz interior".
 
Dias mais tarde, na inauguração da cidade, Juscelino Kubitschek repetiria essa mesma expectativa de que Brasília seria um marco na montagem de um verdadeiro processo de integração nacional:
 
  "Quando aqui chegamos, havia na grande extensão deserta apenas o silêncio e o mistério da natureza inviolada. No sertão bruto, iam-se multiplicando os momentos felizes em que percebíamos tomar formas e erguer-se por fim a jovem cidade. Vós todos, aqui presentes, a estais vendo, agora, estais pisando as suas ruas, contemplando os seus belos edifícios, respirando o seu ar, sentindo o sangue da vida em suas artérias. Somente me abalancei a construí-la quando de mim se apoderou a convicção de sua exeqüibilidade por um povo amadurecido para ocupar e valorizar plenamente o território que a Providência Divina lhe reservara".
 
A própria escolha da data, que a Lei maior deixara à determinação posterior e que acabaria sendo definida também por um goiano – Emival Caiado propôs fosse o dia 21 de abril de 1960 (Lei número 3.273, de 10 de outubro de 1957) – é sintomática do caráter profundamente nacional de Brasília. Os inconfidentes tinham na interiorização da capital uma de suas bandeiras e seria, portanto, da maior importância que se fizesse coincidir o natalício de Brasília com a data do martírio de Tiradentes. Era a desforra da história contra os desatinos da tirania para transmitir à posteridade os postulados do Patriarca José Bonifácio:
. Manter a Unidade
. Construir a Nação
. Preservar a Soberania.
 
Paulo Timm, economista, ex-diretor da Codeplan
Reproduzido "Brasilianas"

 

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01 de junho de 1957

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

No Rio de Janeiro, o Padre Renato Gighiotti, Superior-Geral Salesiano, desembarcando no Galeão, afirma à imprensa que, em sonho, Dom Bosco previu a localização da nova Capital do Brasil no Planalto Central:
"Dom Bosco sonhou com o aparecimento de uma nova terra da promissão, situada entre os paralelos 15 e 20, no Brasil – diz o Padre Gighiotti. Esta posição nos paralelos equivale a dizer que Brasília é já terra abençoada e que os planos dos engenheiros dirigidos pelo ex-deputado Israel Pinheiro tem real inspiração divina.
O Padre Renato Gighiotti frisa, aos jornalistas, que Dom Bosco tinha especial predileção por tudo quanto se referisse ao Brasil. (Diário de Brasília)

 

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31 de maio de 1957

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

A respeito da próxima viagem do General Craveiro Lopes ao Brasil, o professor Paulo Cunha, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, presta as seguintes declarações ao "Diário Ilustrado", de Lisboa:
"O Presidente Craveiro Lopes manifestou o desejo de visitar Brasília, a futura capital do Brasil. Os portugueses, que fundaram a primeira capital do Brasil, na Bahia, ficam deste modo ligados à criação da nova capital brasileira.
E eu lancei a idéia, que gostaria de ver realizada, de que, na presença dos Chefes de Estado das duas Nações irmãs, fosse lançada a primeira pedra para um grande monumento à comunidade luso-brasileira, n principal praça de Brasília".
(Diário de Brasília)
 
INIC – O presidente do Instituto Nacional de Imigração e Colonização apresenta à Novacap um plano de cooperação da entidade para a solução de problemas de mão-de-obra em Brasília, mediante a instalação de mão-de-obra braçal e triagem de operários. Numa segunda etapa, o INIC organizará grupos de trabalho de colonização, com agricultores selecionados e qualificados, especialmente em produtos granjeiros, avicultura e pomicultura. (Diário de Brasília)

 

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