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Cortina

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Cortina

Uma cortina de cânhamo:
entre o poente da planície e o funcionário.
No fim do expediente o escriturário
descobre o que foram as ss/tardes:
             o pó da cortina de cânhamo,
             a poeira dos processos,
             a secura da cidade.
No fim do dia o homem não programado
descobre os seus sensores remotos.
Lhe dizem: seu tempo foi inútil.
Foi um tempo inteiriço
como a cantiga do grilo,
um tempo
não dividido em estações,
mais vivido em papel do que na rua.
Tudo agora é mais simples:
o homem
o escriturário
descobre a igualdade dos meses.
 
H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.
Poema transcrito da antologia “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”, organizada por Salomão Sousa. 


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A Torre

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A Torre

A torre espia
as pontas dos vôos.
Desde os túneis do sono
ao império das luzes;
da mudez matutina
aos compassos da sombra.
A torre equilibra
as retinas da insônia,
as mímicas, os corpos,
os palácios e as ruas.

No norte da asa
os claros doloridos.
(A torre silencia: o ofício
da torre não vai longe.)
Na outra margem do mundo
apinham-se os corpos
em afagos, em lutas,
em soluços, em sonhos.
Sim, a torre espia
do mais puro silêncio.
(Seu oficio é o segredo.)

Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Apaixonados por Brasília

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Apaixonados por Brasília
Por Leilane Menezes
 
 
As 36 horas de viagem do Rio de Janeiro a Brasília não foram suficientes para acabar com a empolgação dos 150 policiais militares que desembarcaram na então nova capital em 15 de fevereiro de 1966. Eles foram os primeiros PMs da cidade. Chegaram para formar a 1ª Companhia Independente de Brasília, a substituta da Guarda Especial de Brasília (GEB), responsável pela segurança pública no DF desde a inauguração da cidade. Na terça-feira passada, completaram-se 45 anos dessa história.
Os homens vieram em três ônibus velhos. Os veículos quebraram no meio do caminho diversas vezes. Sob o comando de Abenante de Mello e Souza (coronel da reserva remunerada já falecido), o grupo deixou, às 9h30, a rua Clarimundo de Melo, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro, rumo ao Planalto Central. Os termômetros marcavam 38º C. Na bagagem, os jovens policiais trouxeram somente o essencial: poucas mudas de roupa, escovas de dente, água e alguma comida. As famílias ficaram para trás.
Esses policiais foram transferidos para Brasília por meio do Decreto-Lei número 4.242, de 17 de julho de 1963, de autoria do senador Santiago Dantas. A medida ficou conhecida como Lei da Opção.
Houve concorrência para mudar-se para a capital. Mais de 3 mil homens ofereceram-se. Desses, a principio, somente 150 foram selecionados. Meses depois, outras centenas vieram. Eles ficaram conhecidos como “optantes”.
 
A chegada
 
Entre os primeiros escolhidos, estavam o capitão Jorge Mendes Maciel Eunack, hoje, aos 75 anos, aposentado. “A viagem foi difícil, acidentada, quebrou o para-brisa de um dos ônibus. Na maioria das paradas que fazíamos durante o trajeto éramos bem recebidos”, disse o capitão. Ao chegarem a Brasília, em uma terça-feira, desembarcaram em frente ao prédio feito especialmente para acolhe-los, o Forte Apache, onde hoje fica o Setor Militar Urbano. O local ganhou esse nome por se tratar de um barracão de madeira.
O primeiro a sentir o solo candango sob os pés  foi o comandante Abenante. “Ele, emocionado, comandou: “Atenção guarnição, desembarcar! Em forma! Por três!”, lembra Eunack. No sábado seguinte, os homens iniciaram o serviço. Brasília era uma cidade calma. “Tinha pouca ocorrência. Era mais policiamento de trânsito, essas coisas.
Saudades do tempo em que a cidade estava se fazendo ainda.”
As famílias dos oficiais não tinham onde ficar em Brasília. Somente alojamentos estavam disponíveis. Mesmo assim, a mulher e a filha de Eunack vieram, de surpresa, do Rio de Janeiro. “Quando eu ouvi a voz da minha filha chamando ‘papai’, me emocionei. As pessoas ao redor bateram palmas”, conta. Meses depois, a PMDF comprou um ônibus para levá-los e buscá-los no Rio de Janeiro, durante as férias.
A visão de Brasília, uma cidade recém-inaugurada à época, ficou gravada na memória de Eunack.
“Eu via mato em todo lugar e muita máquina trabalhando. Eu me apaixonei por essa cidade de um jeito difícil de explicar. Nunca mais fui embora”, disse. Capitão Gilson de Oliveira, 74 anos, outro policial pioneiro, viveu a mesma sensação. “Brasília tem um feitiço. Nunca olhei para trás pensando em ir embora”, resume.
 
Diversão
 
A polícia também trouxe sua arte. Manoel Nascimento Paixão, 74 anos, conhecido como Tenente Paixão, veio para fazer parte da já planejada Banda Marcial da Polícia Militar: “Eles escolheram dos músicos mais habilidosos. Daí fundamos a banda, em Taguatinga. Fazíamos espetáculos muito bonitos”, relata Paixão, que é maestro. Os colegas de longa data sentem orgulho de ter contribuído para a história da PM de Brasília.
Eunack é o criador do brasão da corporação, usado até hoje. É também um grande incentivador de programas sociais e educativos dentro da instituição policial, como a prática de escotismo. “Eu sempre preguei a ação preventiva. “Contra a violência, apenas a criatividade e a inteligência” – esse é meu bordão. Procuro motivar, ainda hoje, a ida da PM às escolas, levando educação, por exemplo, por meio do teatro de bonecos”, conta Eunack, que é escoteiro de alta graduação na ativa ainda hoje.
Os policiais fundaram até um bloco de carnaval, chamado Embalo do OPs (por conta da Lei da Opção), com uma marchinha cuja letra dizia: “Adeus, adeus, estado da Guanabara/Vou ficar em Brasília que é a capital jóia rara/Tudo aqui é resplendor, tudo aqui inspira amor/Por isso eu digo a vocês, em Brasília eu vou ficar”. Gilson e Eunack são cariocas. Paixão é pernambucano, mas foi criado no Rio. “Tenho uma cobertura na beira da praia. Estou aposentado. Mas não consigo ir embora daqui”, reforça Paixão, sobre o apego que a maioria deles desenvolveu por Brasília.
 
Encenação
 
Mas aquele distante 15 de fevereiro de 1966 não foi a data da primeira vinda a Brasília de Eunack e de outros colegas. O capitão relata uma história curiosa de 21 de abril de 1960. O então presidente Juscelino Kubitschek queria policiais treinados para reforçar a segurança da festa de inauguração. Mandou trazê-los do Rio de Janeiro. Para não causar alarde, pediu que viessem disfarçados.
Houve um espetáculo chamado Alegoria das três capitais, apresentado no evento, para celebrar o começo da nova cidade. Alguns atores estavam fantasiados de freis franciscanos. Em lugar das tradicionais sandálias usadas pelos religiosos dessa ordem, porém, eles usavam coturnos marrons.
A explicação para isso deixaria surpresa muita gente que participou da festa. Eles eram policiais escondidos, para não chamar a atenção, e atuaram como figurantes. Por baixo das roupas teatrais, todos estavam fardados, prontos para agir em caso de qualquer emergência. Capitão Eunack se encontrava entre eles. Orgulha-se de ter participado do momento histórico. Logo depois, os policiais retornaram ao Rio de Janeiro. Seis anos se passaram e muitos deles retornaram a Brasília para ficar.
Dessa vez, com outra fantasia: a de começar uma vida nova na capital, que começava a se formar.
 
Transcrito do Correio Braziliense, 19 de fevereiro de 2011, Cidades, pág. 42.

 

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POEMA DA MATURIDADE

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POEMA DA MATURIDADE
(No cinquentenário da Capital)
 
Brasília abre as asas

sob o céu,
na imensidão do espaço
sobre nós.
 
Brasília tece uma canção
de amor,
na gradação do azul
de nossa voz.
 
Há nessa geometria
de acalantos
pequenos sons e arpejos
simultâneos…
 
Há vida após a vida
em cada traço,
no refazer do sonho
que sonhamos.

Post de João Carlos Taveira, poeta mineiro, natural de Caratinga
(Este poema foi musicado pelo maestro Jorge Antunes e faz parte da Sinfonia dos dez mil, composta por ele.)

 

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Brasília

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Brasília

Nas águas de março do Rio de Janeiro aprendi a nadar
Nunca imaginei soletrar Brasília
Uma ilha rodeada de Brasil por todos os lados
Cidade asa
Em Brasília aprendi a voar
 
Brasília
Mergulhei nas asas de um avião
Tomei banho de cachoeira e lavei meu coração
Vislumbrei meu futuro ao longo dos eixos
 
Quando olhei pela primeira vez
Parecia um deserto,
uma Brasília amarela empalidecida pelo barro
Fiz do barro matéria bruta misturada ao meu sangue e suor
Aprendi a criar a minha Brasília
Um mar de gente começou a vir pra cá
Gente de todo Estado, de todo lugar
 
O mar se abriu no coração do país
 
Brasília!
Tu me destes um novo aniversário
Na cidade mítica e mística
Desabrochei atriz
 
Brasília!
Namorei nas suas árvores
Paquerei nas tesourinhas
Experimentei diversão e protesto na Esplanada
Eu até casei debaixo do teu céu!
 
Brasília, meu avião…
Continuo correndo na frente
Sempre a contemplar seu horizonte infinito
Aonde mais tu queres  me levar?

Cristiane Sobral, poetisa carioca, natural de Coqueiros, zona oeste do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “Não vou mais lavar os pratos”,  Coleção Oi Poema, 2010.

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Mufunfa de Candango

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Mufunfa de Candango
Por Conceição Freitas

Quando a Caixa abriu sua primeira agência em Brasília, em setembro de 1957, teve um problemão pra resolver. A maioria dos clientes era analfabeta e a lei exigia que o correntista soubesse, pelo menos, assinar o nome. Como fazer? Decidiu-se permitir que os iletrados assinassem a caderneta com a impressão digital. Era preciso alguém para conferir a autenticidade das linhas do dedo polegar embebido em tinta de carimbo. A agência então passou a recorrer aos serviços de peritos em datiloscopia para assessorar o atendimento bancário.
Houve mais um problema: o peão de obra não tinha tempo de deixar a obra para ir à agência bancária. A Caixa criou então uma agência volante, um cofre forte num caminhão. No dia do pagamento, os candangos interrompiam o sobe e desce da girica para receber a mufunfa, em envelope de papel, e depositar uma parte no banco. O caminhão aproveitava a hora do almoço para atrair o operário com a promessa de que seu tesouro estaria muito bem guardado.
O candango não entendia muito bem a razão de entregar seu dinheiro a um cofre forte em troca de um pedaço de cartolina onde estavam anotados seu nome, a construtora onde trabalhava e a quantia depositada. E num cantinho do papel, em tinta azul, a impressão das nervuras da ponta do polegar. O peão de chapéu, botina e coragem desconfiava da boa vontade banqueira. Até hoje há deles que acreditam ter pago ao banco para que seu dinheiro fosse guardado. Mas, se a Caixa fazia a gentileza de ir buscar o dinheiro no bolso do candango, quando quisesse sua fortuna de volta o operário teria de ir à agência.
O candango não tinha muita saída: ou levava sua fortuna para o alojamento, imensos quartos coletivos, no qual ele só tinha direito a uma cama; ou guardava no banco. Mas aí ele trocava o medo de ser roubado por um constrangimento: não poucos tinham vergonha de tirar o seu dinheiro do banco. Quando precisava sacar alguma quantia, chegava ao gerente, meio sem jeito, e dizia: “Seu doutor, vou precisar de uns trocados, mas o senhor não fica chateado não, é porque estou precisando mesmo”.
Quem não entregava seu dindim pro caminhão corria mais um sério risco: o de ver seus caraminguás serem engolidos pelo fogo nos corriqueiros incêndios nas casas de madeira da Cidade Livre. A Caixa gostava de contar a história de um candango, de nome João Gonçalves de Brito, que guardava sua poupança numa lata de açúcar, na cozinha. Quando o barraco pegou fogo, João conseguiu recuperar a lata carbonizada e dentro dela cédulas fumegantes. Salvou pedaços de cédulas e, desconsolado, procurou a Caixa para ver se ela trocava os restos de papel queimado pela quantia correspondente. O caso foi levado para o Conselho Administrativo do banco, que decidiu fazer a troca para o candango. Em contrapartida, os pedaços de cédula se transformaram em material publicitário para convencer os peões a depositar seu rico dinheirinho na caderneta da Caixa.
No mês em que Brasília foi inaugurada, a Caixa contava com 17 mil cadernetas de operários que construíram a cidade.

Transcrito da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense, 7/72010.

 

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Os Loucos do Planalto

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Os Loucos do Planalto
Por John dos Passos

– É um doido, – resmungou Israel Pinheiro carinhosamente, quando lhe fiz a primeira pergunta a respeito de seu amigo, o construtor de estradas. Estávamos no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, na manhã de um domingo de agosto em 1958, à espera do avião que nos levaria a Brasília. – Sem dúvida alguma, não regula bem.

O Dr. Israel, como todo o mundo lhe chama, é um esquisito homem esguio e grisalho, com um rosto comprido e rude, e um queixo forte sob o bigode grisalho aparado. A sua maneira azeda costuma ser atenuada pela expressão do rosto e pelo jeito súbito de mostrar os dentes compridos num sorriso meio amarelo para acentuar uma pilhéria.

– Eu também sou maluco. E Kubitschek não é menos, – disse ele, procurando rir. – É por isso que nos entendemos tão bem. Só loucos poderiam levar a cabo um projeto desses.

Embarcamos e o Beechcraft levantou vôo, sobrevoando os compactos blocos de edifícios de apartamentos, os espessos parques, os jardins cheios de gente com renques de palmeiras imperiais e a bacia cinzenta repleta de navios fechada na moldura fantástica do Rio, feita de montanhas cônicas e praias alvas debruadas de espuma.

Acima das abruptas serras ameadas que parecem estar sempre empurrando a febricitante cidade para o mar, o piloto toma o rumo do noroeste. Depois das multidões, do tráfego confuso, da voz estridente dos alto-falantes e da densa umidade da cidade marítima, é uma delicia respirar o ar frio e acerado a 1.800 metros de altura. O tabuleiro de xadrez que se vê abaixo é a cidade de veraneio de Petrópolis, onde a gente de dinheiro do Rio vai passar os fins de semana, por entre as brisas da serra. Surge adiante a profunda garganta do Paraíba, um rio entrecortado de corredeiras. Vêem-se fábricas de tecidos, núcleos de cidades industriais nas planícies além das montanhas. Volta Redonda, onde fica a grande usina siderúrgica, perde-se à esquerda sob um montão de nuvens. À direita, vejo num relance Juiz de Fora, centro da indústria de tecidos, onde passei uma noite há anos, e mais fábricas, mais pátios ferroviários… O avião entra numa espessa formação de nuvens.

Ao fim de uma hora, o Beechcraft emerge de novo ao sol, sobrevoando uma imensa região vazia. Riozinhos barrentos serpenteiam por entre morros comidos pela erosão. O Dr. Israel explica-me que os trechos verdes não são pastos, mas uma relva selvagem de pouco valor alimentício para o gado, pois é também criador aquele construtor de cidades.

– Mas para oeste, o capim é melhor.

Os retângulos bem verdes que se vêem depois são plantações de cana.

– Veja, não há uma só casa. Temos lugar de sobra para desenvolvimento, – grita ele, com um riso crepitante.

– O Presidente Kubitschek disse que há meio habitante por quilometro quadrado. Não estou vendo nem metade de uma pessoa.

– Espere só até acabarmos Brasília, – exclama ele ao meu ouvido. – Cada metade se multiplicará por dez.

E jogou-me no colo uma pilha de vistosos folhetos de propaganda da nova capital do Brasil em quatro línguas.

Desde o inicio da sua existência independente, o Brasil viveu à procura de uma capital. Os precursores da Independência em fins do século XVIII sonhavam já com uma cidade federal no interior.

Na convenção que confirmou a criação de uma monarquia constitucional em 1823, houve quem sugerisse o nome de Brasília para a futura capital. Em 1891, a assembléia que aprovou a constituição de uma república federal de acordo com o modelo dos Estados Unidos ao norte, reservou uma área de 440 léguas quadradas no planalto central, bem longe das quentes planícies do litoral para ser a eventual sede do governo da União brasileira. A constituição de 1946 estabeleceu a maneira pela qual deveria ser executada a mudança de capital. Quando Juscelino Kubitschek foi eleito presidente dez anos depois, resolveu tornar realidade a capital há tanto  projetada.

Kubitschek  era filho de um imigrante da Europa Central e de mãe brasileira. Como o Dr. Israel, era de Minas Gerais.  Nascera  na remota cidadezinha de Diamantina, que, algumas gerações antes, tinha sido o centro de uma grande indústria de mineração de diamantes. Durante a infância de Kubitschek, o lugar  era isolado e abandonado, encolhido num montão de velhos prédios coloniais arruinados, por entre morros calcinados. O jovem Juscelino não tinha dinheiro, mas conseguiu, como um moço trabalhador e dinâmico, entrar para a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, a nova capital do seu Estado.

Belo Horizonte – os brasileiros gostam de nomes retóricos – foi a primeira cidade brasileira importante construída de acordo com as plantas dos engenheiros. No começo do século, os mineiros chegaram à conclusão de que precisavam de uma nova capital para o seu Estado. A sua capital, Ouro Preto,  era, como Diamantina, um velho burgo colonial onde as antigas famílias vegetavam entre os esplendores caducos de conventos, palácios e igrejas construídos nos tempos em que a exploração das grandes jazidas de ouro e pedras preciosas levava a riqueza àquelas tórridas montanhas. Tudo isso estava passado. Havia, porém, perspectivas de nova prosperidade na criação do gado zebu, nas plantações de milho, cana e arroz, nas fábricas e na montanha de ferro de Itabira. Em vez de ouro e diamantes, os mineiros estavam começando a sonhar com as terras virgens do oeste.

O ‘belo horizonte’ para que olhava a cidade era o Oeste brasileiro: os férteis vales dos rios que corriam rumo ao norte para o Amazonas e, rumo ao sul, para o Paraná e o Paraguai, e mais o planalto de Goiás e as brenhas de Mato Grosso.

A fundação de Belo Horizonte foi recebida com clamores zombeteiros no resto do país. Os críticos achavam que não era possível; ninguém podia tirar uma cidade de uma prancheta de desenho e dar-lhe vida. Os críticos estavam errados; o empreendimento foi bem sucedido. Foi no tempo em que Kubitschek era estudante que a cidade começou realmente a tomar ímpeto. As indústrias se desenvolveram e a população cresceu. Já em 1958, Belo Horizonte tinha mais de um milhão de habitantes, estava cheia de arranha-céus e de luzentes edifícios de apartamentos, sendo considerada a cidade brasileira onde era mais agradável viver.

Nestas condições, a idéia de que uma cidade podia ser criada numa prancheta de desenho não era novidade para o Dr. Kubitschek, que crescera com Belo Horizonte. Depois de alguns estudos em Paris e de uma vitoriosa carreira como um dos principais urologistas de Belo Horizonte, foi nomeado prefeito no tempo de Getulio Vargas. De prefeito da capital do Estado a governador o passo não foi muito grande.

Os mineiros manejam uma das máquinas políticas mais bem lubrificadas do Brasil. São um povo obstinado e partidário, sempre atento às oportunidades: é preciso lutar duramente pela vida naquelas ásperas montanhas. No período de confusão e recriminações que se seguiu ao suicídio melodramático de Getulio Vargas, o Parido Social Democrático de Minas levantou a candidatura do Dr. Kubitschek à presidência do Brasil. Era um homem novo, um técnico progressista voltado para o Oeste, um doutor em Medicina livre de compromissos políticos. Foi eleito por genuína maioria. Brasília foi um dos pontos da sua plataforma.

 

“Já vimos o êxito da nova capital e de nosso Estado” – diziam Kubitschek e os seus amigos. “Esta é a nossa oportunidade de construir uma nova capital que uma toda a nação”. Sem dúvida, a noção de que o seu Estado ficava no centro das linhas de comunicação entre Brasília e o mar aumentou o entusiasmo dos mineiros pelo projeto. Kubitschek se tornou para eles um homem com uma missão. Passaria à História como o presidente que realizara afinal a velha ambição de uma nova capital para o Brasil.

Dois anos antes da posse de Kubitschek como Presidente, o Congresso brasileiro designara uma comissão para escolher o melhor local no retângulo do novo Distrito Federal. Essa comissão contratou a firma Donald J. Belcher, de Ithaca, Estado de Nova York, para fazer um levantamento topográfico. Um grupo de engenheiros e geólogos americanos, na sua maioria da Universidade de Cornell, propôs cinco locais possíveis que apresentavam as condições de clima, abastecimento de  água, drenagem e subsolo necessárias para a fundação de uma grande cidade. Os brasileiros escolheram a localização atual de Brasília como a melhor.

Quando surgiu o problema do urbanismo e da arquitetura, o Presidente Kubitschek não podia deixar de pensar em Niemeyer. O seu nome vinha sendo há anos ligado ao de Kubitschek. Foram as plantas de Oscar Niemeyer para o subúrbio de veraneio da Pampulha, de iniciativa de Kubitschek quando era prefeito de Belo Horizonte, que o tornaram o mais conhecido dos jovens arquitetos brasileiros.

O estilo moderno dos edifícios causou enorme agitação. Kubitschek ficou ao lado do seu arquiteto e obstinadamente convidou-o para fazer o projeto de um teatro municipal. Nem o fato de Niemeyer dizer-se comunista ao passo que as opiniões de Kubitschek estão em direção inteiramente contrária perturbou a sua colaboração. Quando Kubitschek ofereceu a Niemeyer o lugar de supervisor da construção de Brasília com um salário equivalente a apenas algumas centenas de dólares por mês Niemeyer, segundo se afirma, abandonou alguns contratos regiamente pagos com particulares para aceitar o cargo. “Niemeyer”, dizem os brasileiros, “é a alma de Kubitschek”.

Os políticos brasileiros são de acesso reconhecidamente fácil. Naquele tempo, não era muito difícil a um americano conseguir uma entrevista com o Presidente Kubitschek, principalmente se o americano era jornalista e o assunto da entrevista era Brasília.

 

Levaram-me para vê-lo às oito horas da manhã no Palácio das Laranjeiras, no Rio. Lá fora, uma chuva forte caía de um céu cinzento e baixo e fazia frio: o Rio estava tendo um dos seus raros toques de inverno. O palácio, que Kubitschek escolheu para sua residência oficial, foi construído no principio do século por uma família que possuiu docas em Santos durante a grande época do café.

Arquitetos e decoradores parisienses revestiram-no de toda a pompa que podiam imaginar como cenário para o patriarcal capitalismo brasileiro daquele tempo. Havia colunas de mármore e cortinas cor de salmão. Cupidos dourados repousavam em torno de espelhos. Havia  falsas lareiras, sofás de pelúcia e tapetes orientais. Um piano de cauda dourado estava plantado no chão de parquete sob o lustre. A luz cinzenta raiada pela chuva se derramava pelas altas janelas, rebrilhava nos lustres e fazia o grande salão parecer incrivelmente vazio.

Quando o Presidente Kubitscheck chegou com o seu andar curto e ágil em compasso com o do seu chefe do protocolo, parecia quase tão descolado entre aqueles esplendores afrancesados quanto os que o visitavam. Havia na maneira pela qual ele se vestia um certo ar de cidade pequena que não deixava de ser simpático para um americano. A sua atitude era firme. Mostrava-se mais alto do que eu julgara. Era um homem de rosto pálido e aspecto jovem, com  grandes olhos proeminentes. Antes mesmo de sentarmo-nos no sofá, entrou diretamente no assunto.

– Vai a Brasília?

Pronunciava o nome com uma espécie de fervor especial. Tratou sem demora de explicar-me que Brasília não era um luxo, mas uma necessidade. Se o Brasil continuasse a progredir no mesmo ritmo dos dez anos anteriores, o centro da nação teria de mover-se para oeste e para o norte. A nação precisava de uma encruzilhada.

O Presidente falava com clareza e ardor. De vez em quando, parava para deixar que o amigo que me havia acompanhado traduzisse para o inglês uma frase difícil. Enquanto falava, traçou um mapa do Brasil com tanta clareza que eu quase podia vê-lo na parede por trás do piano dourado. Sessenta e cinco milhões de habitantes. Vinte Estados e quatro Territórios. Quase  a metade da superfície da América do Sul e na sua maior parte vazio. Disse como os sistemas hidrográficos da bacia amazônica limitavam o Brasil ao norte e carregavam mais água através das florestas equatoriais do que todos os outros rios do mundo juntos, sendo navegáveis por navios de alto mar numa extensão de milhares de quilômetros. Entretanto, as únicas comunicações práticas entre Belém, a velha cidade portuguesa que era o porto de entrada da região amazônica, e o resto do país eram por avião.

– A construção de Brasília já nos está forçando a construir estradas, – disse ele. A ligação com São Paulo e o sul já estava feita. A estrada do Rio estava prestes a ser concluída. A estrada Belém-Brasília em construção atravessava regiões que nem constavam dos mapas. Já se estavam atingindo florestas onde as arvores tinham quarenta metros de altura. Os seus gestos sugeriram a lenta queda de uma dessas árvores enormes. Disse-lhe que havia conhecido Sayão dez anos antes. Foi grande o seu entusiasmo ao ouvir isso.

Continuou dizendo que aquela estrada seria ligada por estradas subsidiárias à costa do Atlântico. Traçou com o indicador uma linha em torno da fieira de cidades litorâneas isoladas que se estendiam para sudeste, de Natal e Fortaleza para a Bahia, o Rio e São Paulo até chegar às regiões temperadas do Rio Grande do Sul que se limitam com o Uruguai e a Argentina.

Explicou que no litoral a densidade média de população do país era de vinte e cinco habitantes por quilometro quadrado. Social e economicamente, o Brasil continuava a ser apenas uma longa faixa estreita ao longo da costa, como o Chile.

– No interior,  temos apenas meio habitante por quilometro – disse ele com um sorriso contrafeito.

Voltou-se para olhar-me bem de frente e continuou:

– No tempo dos pioneiros, vocês, norte-americanos, sempre tiveram o Oceano Pacifico a atraí-los com uma meta através das montanhas. Foi por isso que conseguiram povoar tão depressa a sua parte do continente. O nosso caminho para o oeste é barrado por florestas impenetráveis e pelos Andes. Brasília será uma meta, um ponto de atração no planalto. A construção de Brasília significa estradas. Já se iniciou um movimento em direção às terras férteis do interior. Logo que tomei posse, dei ordem para que se iniciasse a construção. Brasília é a grande meta do meu governo.

O Presidente estava resvalando para um discurso político. Não me era difícil imaginar o salão repleto, os cabos eleitorais comandando os aplausos da multidão, os flashes das máquinas fotográficas, os repórteres tomando notas apressadamente.

Caiu em si de repente e pleiteou a minha compreensão com um gesto de encerramento. Houve uma pausa. O diretor de protocolo tossiu de leve. Estava na hora de sair. Levantamo-nos para as formalidades de despedida.

 

O Dr. Israel completou a história. A construção começou em meados de 1956, quando o Presidente o nomeou diretor da Novacap, a autarquia mais ou menos nos moldes da TVA (Administração do Vale do Tennessee) criada pelo Congresso para executar a obra.

Segundo me disse o seu secretário, o Dr. Israel foi escolhido porque administrara excelentemente a Estrada de Ferro do Rio Doce depois que o governo brasileiro a comprara dos ingleses durante a guerra. O Dr. Israel era de uma família ilustre e conceituada do noroeste de Minas. O pai dele fora governador do Estado. Tendo-se formado pela Escola de Minas de Ouro Preto, o Dr. Israel estivera ligado aos projetos de Kubitschek em Belo Horizonte.

Era famoso como orador pelas suas divertidas histórias. Naquele verão de 1958, vivia uma semana no seu escritório do Rio e a semana seguinte na sua sede de construção no planalto.

Assim, naquela enevoada manhã de agosto, era o Beecheraft da Novacap que estava levando minha esposa e a mim, o Dr. Israel e sua esposa, D. Cora, numa excursão aos trabalhos de construção da nova capital.

 

Um Churrasco com os Candangos

 

Já havíamos passado por Belo Horizonte. Algum tempo antes, o co-piloto nos havia apontado o leve traço de fumaça que tisnava o horizonte para o lado do norte acima dos amontoados edifícios da cidade. O Dr. Israel virou-se para mim e bateu na vidraça com o dedo espetado.

 

– A estrada, a estrada, – gritou-me ele, para ser ouvido, apesar do ronco dos dois motores.

 

De fato, um talho vermelho rasgava a paisagem de horizonte a horizonte. Tive a impressão de ver pequenas lagartas brancas que não eram senão as pontes de cimento armado já concluídas.

– A estrada de Belo Horizonte a Brasília, – gritou ele, exultante. – A artéria vital de Brasília.

O avião ronca sobrevoando montanhas mais altas e mais secas onde os caminhos são raros e esmaecidos. Os rios se mostram verde-claros e o céu é de um límpido azul acima de novelos de nuvens algodoadas. A terra é muito vermelha, vagamente tingida de um verde azinhavrado nos lugares onde há água corrente.

O avião começa a descer. Na paisagem que volteia vêem-se algumas vagas praças, ruas, casas de telha, campos cercados. É a cidade de João Pinheiro, assim chamada em honra do pai do Dr. Israel. O piloto circula sobre um terreno que parece um campo lavrado. Quando pousa, a pista se revela tão acidentada quanto parecia do ar.

Grupos de habitantes morenos aparecem para cumprimentar o Dr. Israel. São políticos do interior, candangos, jovens engenheiros de camisa branca e calças de cáqui. Todos  tem a pele curtida pelo seco sol da montanha. Mas os sorrisos são fáceis e as vozes calmas e cordiais. Apertam-se as mãos com um pouco de timidez. Passamos todos em fila por uma borboleta plantada numa cerca viva de plantas espinhosas e de flores vermelhas, a qual impede o gado de pastar na pista.

Dr. Israel assume o comando. Distribui-nos a todos por jipes e camionetas que seguem em procissão pela nova estrada. Ainda não está pavimentada. É difícil vê-la dentro da compacta poeira vermelha na  qual viajamos quilômetros e mais quilômetros. Não há pontes naquele trecho, mas um motorista disposto pode, segundo me dizem, ir perfeitamente de Belo Horizonte a Brasília.

– Uma estrada quer dizer vida, – exclama o Dr. Israel.

Somos levados para um prédio simples e elegante à beira de uma ravina seca, que os engenheiros da estrada transformaram numa espécie de centro social. Aparecem cálices de cachaça nas bandejas. Está na hora das felicitações. Felicidades. Brindes. O Dr. Israel faz um breve discurso.

Na ravina, abaixo do centro, estenderam-se mesas feitas de tábuas sob um telheiro de zinco através do qual o vento circulava livremente. Ali vai haver um churrasco. Há um cheiro de carne assada no ar. Em torno de uma trincheira rasa cheia de tições ardentes, grandes pedaços de carne são assados em compridos espetos de ferro. Numa extremidade, um leitão no espeto gira lentamente acima das brasas.

Nas beiras do telheiro, formando um corredor sorridente pelo qual passam os convidados, estão os rostos amontoados dos candangos, bronzeados, cor de mostarda, cor de folha de fumo, queimados ou vermelhos, que estão gravemente esperando a sua vez. Estão com os seus melhores chapéus de palha e as suas mais limpas camisas domingueiras. Os olhos castanhos se apertam sob a luz ofuscante do sol para observar o que está acontecendo na sombra, sob o telheiro.

O Dr. Israel anda por toda a parte com ares de entendido, fazendo cortes de prova com sua faca de bolso na carne que está assando. Queixa-se de que alguns pedaços estão muito duros.

Dá de ombros e abrange num gesto quase de desculpas toda a população que se amontoa em torno às mesas.

– Política, – diz-me ele ao ouvido. – Como é que se diz nos Estados Unidos? Political fences? – pergunta com o seu riso chiado.

Empertiga-se e fica de repente muito sério. O que há de grande em tudo aquilo é a estrada, diz ele aos candangos. Os  políticos vem e vão, mas a estrada permanecerá.

Curva-se para cortar algumas fatias do leitão assado e as oferece com um sorriso cordial aos seus convidados.

– Diga nos Estados Unidos o que uma estrada representa para o Brasil.

Um homem atencioso traz-nos pratos servidos cheios. O ar da montanha abre o apetite. Logo que a multidão começa a afastar-se das mesas devastadas, o Dr. Israel nos leva de volta ao campo de aviação. Explica-nos que quer mostrar-nos Paracatu, a cidade da família de sua esposa, D. Cora.

O campo de Paracatu é pequeno demais até para o Beecheraft. Um pequeno avião monomotor já está à nossa espera para levar-nos até lá. Minha mulher e eu começamos a conversar baixinho logo que nos acomodamos nos bancos do aviãozinho. Achávamos ambos  muito graça nas semelhanças políticas daquele churrasco com o que teria acontecido num almoço político no canto da Virgínia de onde éramos naturais. A língua, os trajes, a cor da pele são diferentes, mas o aspecto geral, as manobras para conseguir posições, o prestígio da família, a complacência com os preconceitos locais, tudo era tão igual que provocava o riso. É essa a espécie de política do interior que temos na nossa terra. Abaixo de todas as diferenças há muitas semelhanças entre a forma de democracia do Brasil e a dos Estados Unidos. Procurei dizer ao Dr. Israel que devíamos entender-nos porque temos muitos defeitos em comum, mas nem o inglês dele nem o meu português foram suficientes para comunicar o sentido da minha afirmação. De qualquer maneira, o piloto ligou o motor e aí é que não foi mais possível entender coisa alguma. Sorrimos, fazemos caretas um para o outro e estamos voando de novo.

O aparelho segue a faixa vermelha da estrada, que se esconde sob a poeira nos trechos onde as escavadeiras estão em ação. De novo o vazio das montanhas pardacentas tomadas pela erosão. Em breve, o avião circula sobre um campo verde. Vê-se um rio. O Dr. Israel  mostra quebradas no barro vermelho onde, anos atrás, se bateava ouro no leito dos rios. Bambuais, bananeiras, algumas mangueiras e mamoeiros entre telhados estreitos enegrecidos pelo tempo. Não há o menor sinal de lavoura. Dá-nos vontade de perguntar: “De que é que se vive em Paracatu ?”

Um velho Chevrolet desconjuntado está à nossa espera. O Dr. Israel nos faz embarcar nele. As ruas calçadas de pedras irregulares da cidadezinha não foram feitas para automóveis. São ladeirentas e estreitas. Cavalos batidos de sol estão amarrados à porta de todas as casas comerciais. Homens morenos passam montados com enormes chapéus à cabeça. Uma junta de quatro bois brancos avança numa lentidão majestosa dentro de uma nuvem de poeira.

O lugar tem um aspecto de cintos apertados, pobreza e privações. Há moscas em quantidade. O Dr. Israel explica que assim é que toda a região era antes da estrada.

Há muitos anos, tinham ouro. Depois, tiveram fome. Agora, tem a estrada.

Com um estremecimento e um suspiro, o Chevrolet pára chocalhantemente na praça central, defronte da igreja.  Os  franciscanos tem uma escola ali. Conversamos ràpidamente com o diretor, um jovem holandês sério que fala um pouco de inglês. Enquanto isso, D.Cora partiu em busca de antiguidades. Também admiramos como ela a elegância simples e a feitura sólida dos móveis coloniais que ainda podem ser conseguidos naquelas bandas, “quase de graça”.

Acompanhamos o Dr. Israel enquanto ele fazia uma visita a um homem louro de aspecto sonhador que era evidentemente o chefe local dos social-democratas. Sentamo-nos na sua sala tomando cafezinhos e escutando polidamente enquanto ele e o Dr. Israel falavam pressurosamente sobre política em palavras sibilantes e meio sussurradas.

Garotinhos desgrenhados olhavam-nos com os seus graves olhos cinzentos por trás da grande janela gradeada que deixava entrar a luz da praça. Eram um verdadeiro rebanho. Tinham  todos cabelos claros como o pai. Mas o homem que nos hospedava parecia moço demais para já ter tantos. Meu Deus, quantos filhos se tinham nessa terra. “Como conseguem sustentá-los?” dava-nos vontade de perguntar.

Os dois brasileiros lembraram-se dos hóspedes e nos incluíram na conversa. Disseram que a estrada passará perto de Paracatu. Isso significará prosperidade, valorização das terras e de todas as casas da cidade. Haverá ônibus, caminhões para o transporte dos produtos da lavoura, lojas para comprar coisas, talvez um banco.

Os olhos do chefe político se enevoam de emoção quando aponta para os filhos cujos rostos se amontoam na janela.

– Estes terão uma vida melhor do que a minha.

Transcrito do livro “O Brasil Desperta”, de John dos Passos, jornalista norte-americano.

 

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Sou de Santos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Sou de Santos
(Depois de ler "Where a Poet’s From", de
Archibald McLeish.)

Nasci perto do mar
como Ribeiro Couto
 
Como ele, cantei
o cais de Paquetá,
cheio de marinheiros,
             estrangeiros,
             aventureiros.
 
Apitos roucos de navios
me atraíram para outras terras,
propostas sedutoras.
 
Corri mundo.
Vim parar no Planalto Central
onde, solitário, entre livros,
contemplo os últimos anos.
 
Às vezes, à noite,
me encaminho para o lado do Eixo
e me detenho ante os terrenos baldios
(amplidão!) da Asa Sul.
 
Ao longe,
os guindastes das construções
sugerem um cenário de cais.
E o vento me traz com o cheiro do sal
o inútil apelo do mar.
 
Cassiano Nunes, poeta natural de Santos (SP).
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Começo de mundo

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Começo de mundo
Por Beth Cataldo
 
A cena teve como endereço um escritório em Nova York, naqueles ambientes elegantes e impessoais em que se entabulam negócios de marca época. A crise econômica de proporções históricas que eclodiu em setembro de 2008, na esteira da derrocada do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, ainda não havia mostrado sua face mais sombria. A sala transpirava curiosidade e expectativa.

De um lado da mesa, um grupo de chineses engravatados e contidos. Do outro, investidores do calibre de William Rhodes, executivo do Citibank – um nome familiar no Brasil que quebrava e recorria ao Fundo Monetário Internacional (FMI), não necessariamente nessa ordem, em décadas passadas. O plano em foco: construir 200 novas cidades na China, cada uma com três milhões de habitantes, até 2030.
 
Meticulosos, os enviados do governo chinês mencionaram projetos arquitetônicos, valores a serem investidos, oportunidades vitais naqueles canteiros de obras que brotariam múltiplos e urgentes, no compasso da grande potência emergente. Os chineses evitaram pronunciar a meta de arrebatar o posto de maior nação industrial do planeta, que justiçava o esforço de erguer os novos núcleos urbanos. Mas nem era preciso, todos ali sabiam dessa ambição.
 
A cada cidade estaria reservado um papel na cadeia produtiva da fábrica do mundo, como a China já foi chamada, assim como se delegou a prestação de serviços à Índia e reservou-se ao Brasil o título de fazenda global.

Especializar comunidades na produção de bens não é nada muito novo para um país que tem municípios inteiros dedicados apenas à confecção de gravatas, outros concentrados em inventar brinquedos e um terceiro, mais adiante, que cuida somente de bolsas e malas.
 
No tempo em que a China incendiava imaginações com a revolução comunista liderada por Mão Tsé-tung, também se discutia, do outro lado do mundo, a construção de uma nova cidade – a capital – no coração de um vasto e longínquo território. Era o momento em que se idealizava Brasília, o engenho destinado ao duplo oficio de encarnar o centro político-administrativo do país e gestar um pólo de desenvolvimento regional.
 
As contradições da marca de nascença ditariam o destino brasiliense em seus primeiros 50 anos de vida, um começo de história atribulado e imprevisível. Os recursos para sua construção, avisou logo o idealizador, Juscelino Kubitschek, seriam subtraídos das fontes possíveis e imagináveis. Valia recorrer aos cofres dos institutos de previdência daquele final dos anos 1950, tornando-os tutores da edificação de quadras residenciais inteiras. Também valiam empréstimos externos, financiamentos para equipamentos, recursos do orçamento…
 
Por fim, quando tudo o mais se esgotara, fazer funcionar a guitarra, ou seja, a emissão pura e simples de moeda, aquilo mesmo que é amaldiçoado pelos rigorosos manuais de economia. Naquele começo de mundo no Planalto Central, foram gastos pelo menos US$ 130 bilhões para construir Brasília, calcula o ex-ministro Ronaldo Costa Couto, que atualizou estimativas apresentadas na época da inauguração da cidade. Pelo menos, porque cálculos precisos nunca se tornaram conhecidos.

A cidade monumental que Juscelino imaginou para inaugurar uma nova era no Brasil seria também estigmatizada como a mãe de todos os processos inflacionários que o país suportaria estoicamente nos anos vindouros. Ou como parente em primeiro grau de um Estado perdulário e fantasioso, ilhado em meio a privilégios, dono de um olhar indiferente e arrogante para o resto do país, visto de longe. A maioria dos brasileiros estaria representada na capital apenas pelos impostos que sustentam as transferências da União destinadas a custear a hospedagem cara e luxuosa dos donos do poder. O que sobrou de um sonho febril parece, muitas vezes, pouco mais do que uma miragem.

O insuspeito economista Raul Velloso, crítico implacável dos gastos públicos excessivos, acredita que os investimentos destinados à construção de Brasília frutificaram, tiveram um efeito catalisador sobre processos que teriam sido deixados à própria sorte e ao passo lento da história. Velloso não concorda que a cidade seja responsável por deformações execráveis. Não fosse a Ilha da Fantasia no cerrado, existiriam “subilhas da fantasia”, como ele chama, encravadas no território do Rio de Janeiro ou do Recife, onde quer que estivesse a capital do país.

A concentração de órgãos públicos e de uma burocracia especializada se encarregaria de gerar um lugar onde os servidores federais teriam maior poder de barganha e influência, com uma visão de país condicionada pela realidade próxima de seu cotidiano. A atração de profissionais comodamente instalados em outros locais também seria feita à custa de vantagens oferecidas em seus primórdios. O resto ficaria por conta dos vícios típicos do setor público brasileiro, como em quase todas as versões estaduais e municipais pelo país afora.

O Estado brasileiro que foi forjado a partir da existência de Brasília, na palavra do especialista, não foi muito diferente do que teria sido em qualquer outro lugar do Brasil. Talvez, sem Brasília, tivesse sido um pouco pior, ele arrisca. Os militares que tomaram a cidade quatro anos depois de sua fundação, e a consolidaram, teriam buscado da mesma maneira um processo de profissionalização da burocracia pública. Os sindicalistas que protagonizam atualmente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ditam os costumes políticos de sua administração não agiriam de modo muito diverso se a capital estivesse no ABC paulista.

O que distingue a experiência da capital inventada por JK e os pioneiros que o acompanharam é a absoluta gravitação da atividade econômica em torno do Estado e de suas ramificações. A cidade pulsa ao ritmo do governo de plantão no Palácio do Planalto, com seus eventuais acertos e suas freqüentes deformações. Encolhe quando os tempos são de vacas magras no orçamento público e se expande quando vicejam reajustes salariais e novas contratações na máquina federal, como acontece no período petista. Ou se queda aterrorizada quando um inesperado Fernando Collor atira sem rumo contra marajás e apartamentos funcionais.

As bancas de jornais forradas de apostilas para concursos públicos não deixam dúvida sobre as forças que movimentam a economia local, nem os cursos especializados que parecem dispostos a arrombar as portas cerradas do Banco Central e da Polícia Federal para instalar lá dentro os candidatos a cargos estáveis. As faixas que adornam a Esplanada dos Ministérios remetem a planos salariais e carreiras públicas, reclassificação de funções e reposição de perdas, compondo uma moldura exclusiva e monocórdia. Os amigos que se reúnem em bares e restaurantes costumam dividir a mesma repartição pública, as mesmas aspirações e os mesmos cobiçados DAS.

No meio do ordenamento rígido das quadras residenciais e da grandiloqüência dos monumentos dedicados às atividades de Estado, os sinais da iniciativa privada parecem intrusos que se imiscuíram no salão sem convite dos donos da casa. Nas áreas que abrigam o comércio agitado da cidade, como o popular Setor de Indústria e Abastecimento, o SAI, reinam fachadas de cores berrantes e desencontradas. Os corredores comerciais dos condomínios que se espalharam pelos arredores de Brasília ostentam uma galeria improvisada e pouco harmoniosa de lojas de material de construção, pet shops de sotaque americano e drogarias.

A população ávida por consumo e qualidade de vida inspira uma atmosfera dinâmica e instigante nessas áreas. Há também o reino afortunado dos shopping centers e das grifes de todos os cantos que vieram em busca dos consumidores de alta renda da cidade, ainda às voltas com escassez de bens de consumo sofisticados. Os barcos e as lanchas que atravessam o Lago Paranoá no final de semana ancoraram Brasília como um dos maiores mercados de produtos náuticos do país. A frota de veículos que aos poucos vai conseguindo ocupar os largos espaços da capital é a que mais cresce no Brasil, para citar alguns dos muitos indícios de prosperidade.

A combinação de estabilidade no emprego e renda média elevada dos funcionários públicos favorece a concessão de financiamentos e a formação de um mercado sólido na região. Os que construíram fortuna à margem de atividades estatais costumam, no entanto, dividir uma reputação pouco recomendável, como se a iniciativa privada fosse sempre sinônimo de falcatrua e os empreendedores nunca passassem de ardilosos contraventores. Mas é essa mistura efervescente e polêmica que molda o perfil da cidade.

No debate sobre a capital posta no Planalto Central, são recorrentes os argumentos que remetem ao que teria se tornado o Rio de Janeiro, ou mesmo o eixo Rio-São Paulo, sem que o fluxo migratório interno fosse parcialmente desviado para o centro do país. Algo irrespirável, responde Ronaldo Costa Couto, estudioso dedicado e perspicaz do assunto, valendo-se das lembranças de um Juscelino Kubitschek que queria “desesperadamente” deixar o Rio. O mineiro que inventou Brasília achava que a então capital não favorecia o que hoje costuma se chamar de governabilidade.

JK assistira ao desenrolar do cerco político a que fora submetido Getúlio Vargas e acreditava que a capital à beira do litoral – como de resto a ocupação do território brasileiro, que foi “arranhando a areia das praias, como caranguejos” – alimentava a crônica instabilidade política do país. Mais tarde, veria que a geografia não pouparia o Brasil de um fulminante golpe militar, e ele, da perseguição do regime dos generais.

Havia também argumentos econômicos e estratégicos para justificar a mudança da cabeça do Estado, muitos dos quais tinham em sua origem o próprio Vargas dos anos 1940 e o movimento da Marcha para o Oeste, que o caudilho gaúcho vislumbrou em seu projeto de país expansionista e poderoso. No seu turno, Juscelino tornou realidade um vasto entroncamento viário em função da nova capital, que significava “uma verdadeira costura do Brasil por dentro”, como definiu no livro “Por que construí Brasília”.

Antes, à frente do governo de Minas, JK havia usado a imagem de que o Estado era um virtual arquipélago e que lhe caberia unir as ilhas desconexas por meio de estradas. Ecoavam em sua memória as viagens que duravam meses do interior para a cidade grande, a desolação do isolamento. Nos vazios do Brasil Central e da Amazônia, a missão que ele e os entusiastas da época se atribuíram era a de estabelecer um novo centro de gravidade do país. Ali mesmo, no cerrado, Juscelino anteviu “o maior deserto fértil do mundo”.

O retrato de hoje mostra que, à força de pesquisas da Embrapa e de desbravadores de todos os lados, a região se tornou um dos principais centros de produção agropecuária do mundo. De fato, o eixo rodoviário que ostenta fez a ligação entre o Norte e o Sul do país, atesta a professora Marília Steinberg, da Universidade de Brasília (UnB), especialista no tema. Ela faz questão de ressaltar, entretanto, que não enxerga um processo de desenvolvimento orgânico e articulado nas regiões cortadas pelas estradas que desbravaram a região.

As condições logísticas e estruturais da nova capital influenciaram fortemente, de qualquer maneira, uma extensa área que abrange desde as chapadas do Piauí até os campos de Mato Grosso, passando pelo Noroeste da Bahia ou o ainda recente Tocantins, completa o executivo Benjamin Sicsú, vice-presidente de uma multinacional da área de tecnologia de ponta. É possível encontrar reflexos da presença de Brasília também no Pará, que está numa das pontas dos fios que costuraram o Brasil por dentro, ou no Sudoeste do Maranhão. O perímetro de influência estende-se ainda ao Triângulo Mineiro e à paulista Ribeirão Preto. Mais próximas, as cidades de Paracatu e João Pinheiro viraram rotas de investimento.

A profecia de que Brasília promoveria a interiorização do desenvolvimento brasileiro, como tantas vezes se reiterou na época de sua fundação, cumpriu-se. Outros acreditam que o agronegócio teria se expandido de qualquer modo, até pela demanda irresistível do mercado internacional por commodities agrícolas que o Brasil pode produzir em abundancia. Mas em que velocidade esse trem teria chegado à estação? E as intempéries que cruzariam o caminho pelo interior de uma nação ausente de dois terços de seu território?

Sicsú tem algumas dessas respostas. A começar pela estimativa de que sem Brasília, as regiões mencionadas teriam levado pelo menos 40 anos a mais para atingir o estágio em que se encontram atualmente. As áreas que se tornaram pólos de plantio de soja e milho, e também passaram a abrigar grandes rebanhos bovinos, respondem agora por cerca de 15% a 20% da economia brasileira, pelos seus cálculos. Antes da construção da capital, mal alcançavam 1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Um novo mapa econômico e político do país foi desenhado a partir da explosão da atividade agropecuária no cerrado.

O que JK e os pioneiros que o acompanhavam não profetizaram é que o mapa restrito da Brasília inaugural, planejada para ter 500 mil habitantes na altura do ano 2000, seria expandido rapidamente e chegaria, apenas dez anos adiante, a abranger 2,6 milhões de pessoas em todo o Distrito Federal.

Adicionados os moradores das 22 cidades de Goiás e Minas que formam a Rede Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE), pode-se contar com pelo menos mais de 1,1 milhão de habitantes – uma soma de quase quatro milhões de almas. Alongaram-se os braços das primeiras cidades-satélites, o fluxo intenso de imigrantes adensou a população de Brasília e suas cercanias. Em 2030, somente o Distrito Federal deverá abrigar cerca de 3,1 milhões de habitantes.

Levante-se o olhar um pouco mais ao longe e se poderá ver Brasília solidamente instalada pelo IBGE na condição de terceira metrópole nacional, apenas um passo atrás das quinhentistas São Paulo e Rio quando se trata de avaliar a importância e influência no restante do país. São critérios técnicos variados, desde a gestão empresarial e presença de órgãos públicos federais, até a oferta de serviços financeiros, a existência de instituições de ensino, acesso à internet, conexões aéreas, serviços de saúde, presença de rede de televisão e jornais. Brasília irradia mais diretamente sua influência por uma área de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, inferior apenas à capital paulista, a grande metrópole nacional.

De cima, quando os aviões começam a descer para pousar no movimentado Aeroporto JK, é possível visualizar essa ocupação que se estende pela paisagem plana, quase sem ondulações: os campos cultivados geometricamente, as habitações que vão pontilhando cada vez mais o espaço na medida em que se aproxima a cidade, desenhada, em sua origem, no meio do nada. Também se pode observar, do alto, a seqüência dos retângulos de águas azuis das piscinas que enfeitam as residências abastadas da região do Lago Sul, próxima ao aeroporto. Mais adiante, sob os reflexos da luminosidade ofuscante do cerrado, despontam os novos arranha-céus. Antes tão escassos, marcaram agora um território próprio, espetados na moldura horizontal e espaçosa da capital.

Ajuste-se o foco e será possível enxergar os pormenores dessa mancha urbana em acelerada e desigual expansão. A metade da população é dali mesmo, precisamente 48,92% nasceram no Distrito Federal – no Plano ou fora dele, mas ainda dentro do recorte de terras extraídas de Goiás. Plano é a expressão abreviada de se referir ao Plano Piloto, a alcunha tecnocrata que ficou como herança dos tempos em que a cidade era projetada nas pranchetas. Ali estão os símbolos maiores da capital: o Congresso, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o poder central.

Fora dali, é o universo das cidades-satélites, que muitos preferem designar hoje como bairros de uma mesma metrópole. Ou cidades, com vida e identidade próprias. No jargão burocrático, são meras regiões administrativas. Ainda pouco afeitos a essa linguagem codificada, os forasteiros, que eram ampla maioria nos idos de 1960 e 1970, continuam a chegar. Agora, menos instalados pelas benesses populistas do ex-governador Joaquim Roriz e mais pelos motivos de sempre, para lutar por emprego e melhores condições de vida.

O retrato dessa população que emerge dos dados oficiais é impressionante. A renda média mensal é de R$ 2.117,00, mais do que o dobro da nacional, de acordo com os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. Pelo critério de renda per capita, o mesmo instituto aponta Brasília no patamar de R$ 34.510,00, enquanto a média brasileira não passa de R$ 8.380,00. Escolha-se qualquer outro parâmetro de prosperidade ou bem-estar e a capital também estará no topo.

Os brasilienses ocupam o primeiro lugar no ranking de residências com computadores (48,8%), com acesso à internet (29,7%), com telefone (94,1%) ou celulares (135/100). Nada menos do que 99,8% das residências são providas de energia elétrica e 96% contam com saneamento básico.

Transforme-se Brasília em país e o seu nível de 0,936 de IDH, ou seja, Índice de Desenvolvimento Humano, medido pelas Nações Unidas, estará ombreado com o da Alemanha e superior ao de Portugal.

Essa exuberância estatística, no entanto, perde o brilho quando se observa o Distrito Federal sob a ótica da distribuição de renda. O dado mais confiável para se avaliar esse desequilíbrio é o chamado coeficiente de Gini, que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, mais profundo será o quadro de desigualdade. Brasília aparece, por essa medição, com um índice de 0,62, muito pior do que o indicador válido para todo o Brasil, que é de 0,53, de acordo com dados de 2008.

Os economistas gostam de contar, como se fosse a última novidade, uma piada velha e desgastada sobre o significado dos índices montados para calcular médias. A receita é colocar alguém com a cabeça dentro do forno e as pernas na geladeira para se obter, em média, um indivíduo com temperatura normal. Numa ponta de Brasília, encontram-se os rendimentos mais altos, os empregos públicos bem remunerados, as moradias confortáveis. Na outra, em áreas ainda abrangidas pelo Distrito Federal, os aglomerados urbanos mal cuidados e populosos. Em volta, sinais de completa indigência.

 

No topo desta pirâmide, a renda média mensal dos moradores do Lago Sul alcançava 10,4 salários mínimos, em 2004, de acordo com a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílio (PDAD). Na base, os habitantes das áreas mais pobres, como Estrutural e Itapoã, não conseguiam atingir sequer o menor salário vigente no país – o valor apurado para a renda média mensal equivalia a 0,4 salário mínimo. Se pudesse voltar na altura do cinqüentenário da cidade que fundou, Juscelino Kubitschek se espantaria, assegura Ronaldo Costa Couto, com o cinturão de pobreza formado em torno da capital.

É verdade que se formou também um sólido grupo de renda intermediária nas cidades-satélites mais bem estruturadas e tradicionais, e no próprio Plano. Assim como um movimento febril de assentamento de condomínios de classe média, muitos situados de forma ilegal em terrenos públicos, cuidou de acomodar os que seriam expulsos para regiões mais distantes do centro da capital. Nem todos resistiram. Nada menos do que 30% dos habitantes de áreas periféricas do Distrito Federal já moraram no núcleo central de Brasília, aquele que abrange as Asas Sul e Norte, o Setor Militar Urbano – mais um dos códigos exóticos da capital – e três vilas tradicionais.

Os mapas demográficos, sociais e econômicos do Distrito Federal estão esquadrinhados de forma criteriosa e confiável nas publicações técnicas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Sim, é a sigla que batiza a CPI sobre o desvio de recursos públicos no governo local em favor de empresas privadas e lideranças políticas. A Codeplan foi tomada de assalto por dirigentes obscuros, nomeados com o propósito deliberado de usar o órgão como balcão de negócios. Mas bem poderia simbolizar os setores governamentais de excelência técnica que existem em abundância na capital da República – pouco percebidos e valorizados, em meio às incessantes marés de denúncias de irregularidades que varrem os gabinetes oficiais.

No laboratório da cidade planejada, marcada pelo preconceito e pela rejeição de boa parte dos brasileiros, alguma coisa está ainda mais fora da ordem: faltam empregos e moradias para acomodar a ascensão meteórica de sua população. Os índices de desemprego nas áreas menos favorecidas do Distrito Federal chegam a atingir 19% da População Economicamente Ativa (PEA). No Plano, onde estão os grupos de renda mais elevada, não passam de 7,5% e chegaram a cair em pleno furacão da crise econômica histórica do final de 2008, que subtraiu vagas no mercado de trabalho do restante do país. As áreas de Brasília preservadas das marchas e contramarchas dos ciclos da iniciativa privada ficaram a salvo da intempérie.

É inegável que os imigrantes atraídos pelas luzes da capital, os símbolos que aparecem no noticiário dos telejornais, os serviços médicos estruturados ou o acesso à educação de qualidade encontraram no Planalto Central do Brasil melhores condições do que tinham na terra natal. A tarefa urgente é gerar mais empregos, preocupa-se o economista Jandir de Moraes Feitosa Júnior, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pois se aproxima o tempo da colheita ainda mais abundante de populações marginalizadas e imersas no ambiente de violência e degradação, sinais que já pontuam o cenário de maquete da capital.

Mais do que apenas empregos públicos, ele alerta, é crucial apostar também em postos de trabalho na iniciativa privada, estimular o ânimo de empreendedores capazes de dotar a região do dinamismo necessário para construir um futuro de oportunidades semelhantes às que sedimentaram o seu passado. Restam poucas dúvidas de que o período mais expressivo de expansão do setor público em Brasília, que resultou da ampliação de gastos e de novas contratações de pessoal, pode estar próximo do esgotamento – ou pelo menos refluir seu ritmo de forma significativa em cenário próximo. Na virada dos 50 anos, a cidade precisará girar outras engrenagens para manter a higidez econômica e social.

Do ponto de vista técnico, existem caminhos para que isso aconteça. Afinal, Brasília lidera o ranking nacional que mede as condições favoráveis à realização de negócios, elaborado com base em dados do Banco Mundial.

A classificação leva em conta o tempo e o custo de abertura de empresas, o registro de propriedades e garantias, o nível da carga tributária local e os procedimentos para o recolhimento de tributos. O Governo do Distrito Federal contabiliza hoje cerca de 170 mil empresas na região, que ainda tem uma clara predominância da administração pública, responsável por 54,80% do PIB local, estimado em R$ 100 bilhões.

Para uma cidade concebida com o objetivo declarado de manter a distância as indústrias que poluiriam seus ares e águas, e que também poderiam transportar para o ambiente asséptico dos gabinetes governamentais legiões de operários indesejados e vociferantes, a atividade industrial dá poucos sinais de vitalidade. Em 2007, a indústria não representava mais do que 6,55% do seu PIB, um nível que vem se mantendo com poucas oscilações nos últimos anos. A denominação de “metrópole terciária” cai como uma luva em Brasília.

É preciso muito mais do que isso para alicerçar o desenvolvimento e garantir a geração de novos empregos. Jandir de Moraes critica a interdição que ainda hoje afasta da cidade indústrias consideradas poluentes.

Para abrigá-las, emenda Benjamin Sicsú, bastaria impor-lhes o tratamento adequado aos rejeitos e processos produtivos. Sem a diversificação de um parque industrial mais completo, a economia local ainda depende muito do segmento da construção civil, cuja trajetória está entrelaçada à história da capital, embora continue movida maciçamente por produtos importados de outras regiões do país.

O cenário da construção em Brasília mostra uma busca sôfrega por áreas habitacionais. Elas costumam surgir no compasso de uma indústria imobiliária azeitada e bilionária, que teve seu principal representante comodamente instalado no Executivo: o ex-vice-governador Paulo Octávio, que controla boa parte dos terrenos disponíveis para novas edificações na capital. Ele ocupou por muito tempo posição estratégica e decisiva no governo de uma cidade em que as regras de ocupação do solo são estritamente definidas pelo poder público. Ou seja, um claro conflito ético, para dizer o mínimo. Os interesses onipresentes de seu grupo empresarial em áreas diversas como hotelaria, comunicação, concessionárias de veículos e centros comerciais o tornaram um vice-rei na capital do país, em pleno século 21.

Os meses a fio em que os porões da corrupção no Distrito Federal desfilaram diante da sociedade comprovaram, de forma eloqüente, que o ambiente de negócios da cidade está contaminado de forma profunda e dramática por práticas ilegais de toda ordem. Obras de infraestrutura foram direcionadas para beneficiar empreendimentos privados, restrições ambientais acabaram derrubadas a golpes de propina na Câmara Legislativa, licitações terminaram solenemente burladas. O planejamento urbano do Distrito Federal, como ficou nítido nessa coreografia de sombras, florescia muito mais nos escritórios particulares das incorporadoras de imóveis do que nas pranchetas de especialistas do setor público – prática disseminada, aliás, em muitos pontos do país.

As ondas que o mercado imobiliário consegue criar, com seu arsenal de recursos, podem ser surfadas por poucos quando se trata das áreas nobres do Plano Piloto, inflacionadas pela demanda que não para de crescer. Já esteve do lado Sudoeste e mais recentemente atinge o Setor Noroeste, que é alvo de propagandas idílicas para atrair compradores, com a promessa sonora de que se trata do “primeiro bairro ecológico do Brasil”. A contradição é apontada pelo geógrafo Aldo Paviani, um respeitado estudioso da realidade local, que lamenta o modelo de urbanização que vai dilapidar nichos preciosos de cerrado nativo e sufocar três nascentes. “Quando se tira a vegetação acaba a água”, ensina.

O futuro sustentável dessa potência econômica que foi semeada no Planalto Central passa por um debate que comporta angústia e inquietações, mas que também desperta sonhos e ainda pode inspirar otimismo. Nesse caminho, os olhos dos administradores locais terão que estar voltados muito menos para a Esplanada dos Ministérios e mais para as áreas distantes do Plano Piloto. São os locais que abrigam grandes contingentes de mão de obra excedente, ansiosa por oportunidades que o antigo Eldorado costumava oferecer em profusão.

Para seguir em frente, a cidade dificilmente poderá prescindir de uma gestão pública que estimule a integração das diversas áreas do Distrito Federal e torne efetiva a articulação com municípios vizinhos de Goiás e Minas, esboçada apenas no papel. Será necessário também depurar a capital e suas ramificações das influências nocivas que subordinam projetos públicos de interesses privados escusos. Assim como parece crucial vencer a resistência que a cultura forjada nas entranhas do Estado nutre contra a iniciativa privada, justamente para agregá-la ao esforço de gerar renda e emprego.

Idéias existem, dentro e fora do governo, como a construção da chamada cidade digital, que pretende colocar de pé um centro tecnológico destinado a criar empregos qualificados e transformar a capital em rota de produção de alta tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma vocação que parece natural para o grande centro de decisões do país, que se consolidou ao longo de 50 anos. Os serviços de informação já respondem por 3,9% do PIB do Distrito Federal e nada menos do que seis entre as dez principais empresas brasileiras desse setor estão instaladas em Brasília.

Outra vertente é a cidade aeroportuária, ainda embrionária nas pranchetas oficiais, mas que poderia estabelecer conexões no transporte de cargas de valor agregado para a região geoeconômica do Brasil Central, aprimorando uma vocação de entroncamento viário e logístico que remonta aos ideais dos fundadores da capital. Nesse projeto, Brasília tem condições de se valer da posição privilegiada que ocupa entre os centros dinâmicos do agronegócio brasileiro, cujo destino foi gestado em boa parte por sua própria existência.

Mesmo nos circuitos tradicionais do poder é possível vislumbrar perspectivas para alicerçar o futuro da cidade e de seus habitantes. A grande consultoria de 300 mil funcionários públicos, lançando-se mão da definição curiosa de Sicsú para nomear o conjunto de tomadores de decisão do governo, envolve gente especializada e ligações com o país e o mundo. É um dínamo que fomenta também escritórios de representação, alimenta a rede de hotelaria, infla o pólo de gastronomia, que já é o terceiro do Brasil, e multiplica novas rotas de transporte.

Os exercícios que tratam dos horizontes da capital combinam com sua natureza aberta e personalidade múltipla, receptiva e arroubos de imaginação e a ventos inovadores. As características desse perfil mutante podem ser valiosas para enfrentar as complexas adversidades que se insinuam em sua curta história. A usina se move e guarda promessas e desafios.

Transcrito do livro “Brasília aos 50 anos: que cidade é essa?”

 

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De novo caminharei pelo eixo rodoviário

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

De novo caminharei pelo Eixo Rodoviário
contra a brisa do altiplano,
lá, onde o céu teve de alongar-se para tocar a terra.
O pulso está firme, ritmado. O corpo venceu a morte.
Por quantos dias, anos, só as Parcas
sabem e a ninguém o dizem.
Quisera voltar desoprimido, leve,
afastar meus espectros,
sem eximir-me,
pensão do homem,
a trabalhos, dores.
Alegria, minério raro!
Mas sei que logo me erguerei contra mim
serei meu pior inimigo
recriminatório, batendo os punhos no peito, carregado de
                                                                       /culpas,
atormentado de não ser o que desejara.
 
Ó alma, tanta vez imaginariamente atribulada,
pudesses ao menos fruir com sabedoria a dilação que te ou-
                                                                         /torgaram!
 
 
Cyro dos Anjos, poeta mineiro, natural de Montes Claros.
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Cyro dos Anjos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Cyro dos Anjos, já na maturidade, romancista consagrado, escreveu os primeiros versos após deparar-se com o que metaforicamente (eufemisticamente) chamou de Anjo (da Morte…). Sobre seus Poemas coronários, em correspondência de 17 de maio de 1967 dirigida ao escritor mineiro Edison Moreira, o autor de Abdias e O amanuense Belmiro depõe: “Como lhe disse, aquilo foi mais um testemunho, uma despedida de quem pensou que ia fazer a viagem que não tem volta. Não pretendi, nem poderia pretender incursionar no campo da poesia, desarmado, que me achava, de qualquer experiência artesanal. Muito me alegrou, porém, você ter encontrado merecimento naquela tentativa de comunicação por via poética”. Entre a doze partes do livro de Cyro dos Anjos há uma, a nona, intitulada “De novo caminharei pelo Eixo Rodoviário”. Ele anuncia que o fará “…contra a brisa do altiplano,/lá, onde o céu teve de alongar-se para tocar a terra”. E comunica o seu regozijo: “O pulso está firme, ritmado. O corpo venceu a morte!” E exclama: “Alegria, minério raro!”, a constatar e festejar o triunfo.

Manuel Bandeira consagrou o rótulo sob o qual haveria de estar o autor pouco freqüente no labor poético, na “luta com a palavra” como diria Drummond. “Bissexto”… “Em suma, bissexto é todo poeta que só entra em estado de graça de raro em raro”. [2ª. Ed., Rio de Janeiro]. Ele chegou a reunir 39 deles nessa coletânea que a Simões editou em 1964. A primeira edição é de 1946.] À falta de melhor denominação, seja Cyro dos Anjos considerado poeta daquela categoria em que estão nomes quase conhecidos apenas como prosadores, ou de outras áreas de nossa cultura. P. ex: Aníbal Machado, Gilberto Freyre, Joel Silveira, Pedro Dantas, Sérgio Buarque de Holanda, Pedro Nava, Raimundo Magalhães Jr, Rubem Braga, Guimarães Rosa. Cyro dos Anjos aqui representa os ilustres bissextos do Brasil.
 
Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília – Março de 1960

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

 

BRASÍLIA – MARÇO DE 1960

 

 

 

 

02
 
Clima – A imprensa comenta que o Serviço de Meteorologia do Ministério da Agricultura já conta com um Observatório Meteorológico em Brasília, cuja construção está praticamente terminada, devendo-se proceder em breve à instalação do instrumental já adquirido.
No observatório da futura capital serão realizadas rádiossondagens com aparelhos eletrônicos, fazendo-se também emprego do radar, a fim de se pode medir, diariamente, até grandes altitudes (cerca de 30 km), as variações da pressão, temperatura, umidade relativa e ventos, dados esses de absoluta necessidade, não só para aperfeiçoar a previsão do tempo, mas ainda para orientar com maior segurança os pilotos da aviação comercial cujos vôos a jato se realizam em torno dos 13 mil metros de altitude.
Além desse equipamento, o observatório utilizará outro tipo de radar para determinar as áreas em que estiverem ocorrendo chuvas até uma distância de 200 a 300 km em torno. A imagem das cartas sinóticas, organizadas diariamente no Rio, será transmitida para Brasília, pelo sistema fac-smile (via-rádio).
O clima de Brasília, ameno e saudável, apresenta as características dos climas tropicais de altitude (1.000 metros), isto é, embora se eleve durante o dia, a temperatura cai à noite, descendo sempre abaixo de 20ºC, o que torna as noites agradáveis e repousantes. As chuvas caem nos meses de verão (novembro a março), atingindo cerca de 1.750 milímetros (valor médio anual), contrastando com os meses de inverno que são inteiramente secos. Durante a época chuvosa, predominam os ventos do Norte, ao passo que durante o inverno são mais freqüentes os ventos de Este e Sueste. A umidade relativa alcança no verão a média de 85%, mas cai no inverno a 60%, o que torna seco o ar no inverno.
De acordo com o programa aprovado pelo Ministério da Agricultura, será instalado em Brasília um Instituto dotado do mais moderno aparelhamento, para o fim de proceder ao estudo aprofundado do clima do Planalto Central e de suas bacias hidrográficas, naquilo em que estas envolvem aspectos meteorológicos. O estudo far-se-á sob todos os aspectos: macroclima, mesoclima, microclima, climatologia, sinótica, etc.
O Instituto também cuidará de maneira especial dos climas tropicais e de sua influência sobre a formação dos solos e o comportamento das culturas, para fins ecológicos. Estudará ainda, a par do problema das chuvas artificiais, as condições oferecidas pela região do ponto de vista bioclimático e da climatologia médica. Deverá denominar-se Instituto de Pesquisas Meteorológicas e Hidrológicas.
 
03
I.S.E.B. – A imprensa anuncia a realização, por iniciativa e sob o patrocínio do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, de oito conferências sobre a interiorização da Capital e a mudança para Brasília.
 
Governador Juraci Magalhães – Em entrevista à Rádio Nacional de Brasília, o governador da Bahia manifesta-se entusiasmado com Brasília, declarando:
 
“Estou cheio de satisfação pelo que vi e só lamento não estar mais moço para ver a projeção de Brasília no futuro. Esta será uma terra que entusiasmará os brasileiros que a viram nascer. Queria ser mais jovem para crescer com Brasília”
 
Estas palavras foram proferidas durante a entrevista concedida à emissora local, tendo dito ainda o Sr. Juraci Magalhães, em tom de blague, que apostou uma gravata com o Presidente da República em como a mudança para a nova Capital não se faria na data aprazada, mas que perdera a aposta, e, por isso, no próximo dia 21 de abril procurará pessoalmente o Presidente Juscelino Kubitschek, para lhe entregar o objeto da aposta.
 
04
Declaração presidencial – A respeito de notícias divulgadas na imprensa carioca de que o Governo estaria interessado em movimentos que tem como objetivo o adiamento da data da mudança da capital para Brasília, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República distribui as seguintes declarações do Presidente Juscelino Kubitschek:
 
“Essas notícias representam os últimos estertores de uma campanha que visa impedir a mudança da capital.
 
Anuladas todas as manobras, superados todos os pretextos, os adversários de Brasília lançam agora mão desse recurso descabido, que põe em dúvida o inflexível propósito do Governo de promover, em obediência à lei, a efetivação da mudança.
 
Brasília, contudo, traduz um movimento de tão profundo sentido nacional, que contra ele não podem prevalecer os desígnios de uma minoria que pretende contrariar uma aspiração de todo o povo brasileiro.
 
Nada impedirá que a 21 de abril, Brasília seja a Capital do país. No Planalto Central iniciaremos, então, uma nova etapa da nossa luta pelo desenvolvimento e por um Brasil maior.”


Foto: Arquivo Público do DF

Fundação Educacional Brasília – Na pasta da Educação e Cultura, o Presidente Juscelino Kubitschek assina decreto de instituição da Fundação Educacional Brasília, que terá a finalidade de organizar e manter, na nova Capital, estabelecimentos de ensino de grau médio.

Fundação Brasil Central – O Presidente Juscelino Kubitschek assina decreto fixando novas atribuições à Fundação Brasil Central e transferindo sua sede para Brasília, a fim de que possa mais efetivamente cooperar no desbravamento, colonização e aproveitamento econômico da região da qual a nova Capital é o centro.

05
Cardeal Cerejeira – A propósito de sua designação para representar, como Legado Pontifício, o Santo Padre João XXIII, nas festas da inauguração de Brasília, Sua Eminência Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca de Lisboa, dirige o seguinte telegrama ao Presidente Juscelino Kubitschek:

“Ao receber a altíssima missão de Legado Pontifício à inauguração de Brasília, peço licença para saudar em Vossa Excelência o prestigioso chefe da grande Nação brasileira e criador da nova Capital do Brasil do futuro”

Discurso presidencial – Recebendo, em Belo Horizonte, o título de Professor Honorário da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, o Presidente Juscelino Kubitschek assim se refere ao plano educacional de Brasília:

“A construção de Brasília, em cujas linhas urbanísticas e arquitetônicas domina o sentido da modernidade, levou-nos a empreender, obedecendo a rigoroso planejamento, a construção de uma rede escolar primária e média, à altura da nova Capital brasileira. E posso afirmar-vos que em abril estará funcionando ali, simultaneamente a outras iniciativas de ensino, o grande centro de educação média, compreendo quatro ramos e funcionando lado a lado, numa experiência pedagógica nova em nosso meio e com uma capacidade para três mil e quinhentos alunos.”
Concluindo seu discurso, diz o Presidente Juscelino Kubitschek:

“Todo o vasto Plano de Metas em que concentrei minha atuação à frente dos destinos nacionais se resume no porfiado empenho de melhorar as condições de vida deste grande povo.

Não se pode compreender que esteja no âmbito de nossas fronteiras o maior deserto da terra. Nem é concebível que a Nação se divida em regiões de progresso e de subdesenvolvimento, como se todos não tivessem iguais direitos e oportunidades debaixo da mesma bandeira.

Por isso, convocamos o Brasil para o maior esforço coletivo de toda a sua História. E erguemos Brasília. Mas não para deixá-la adormecida no Planalto como uma ruína imponente e sim, como já tive oportunidade de acentuar, para que ali vibre o cérebro das altas decisões nacionais, na mais bela cidade do mundo construída no mais curto prazo da História. E rasgamos as estradas quase inconcebíveis no recesso das matas nunca pisadas pelo homem.
Mas não para que a mata volte a fechar-se nos caminhos èpicamente abertos com o sangue, o suor e as vidas dos nossos patrícios. E construímos Furnas. E realizamos Três Marias. Em suma: sacudimos o gigante, para vê-lo de pé.

Tudo quanto fizemos e ainda estamos realizando tem o sentido pleno da redenção nacional. Em lugar de pensar no homem brasileiro, de forma vaga e indefinida, como simples especulação filosófica, este Governo pensou em sessenta milhões de brasileiros, que em breve serão cem milhões, numa Pátria engrandecida com os seus próprios recursos e que hoje dá ao mundo, com o arrojo de suas iniciativas ciclópicas, a prova de que sabe ser digna da vastidão do seu território, base física da nacionalidade sobre a qual erguemos agora o Brasil de amanhã.”

07

Museu da República – O Presidente Juscelino Kubitschek assina decreto na pasta da Educação de inclusão no Museu Histórico Nacional de diversos órgãos, entre os quais a Divisão de História da República, com sede no Palácio do Catete, devendo seu funcionamento iniciar-se a partir de 22 de abril de 1960.

Nunciatura Apostólica – No Gabinete do Ministro das Relações Exteriores, no Palácio do Itamarati, Rio de Janeiro, realiza-se a cerimônia da assinatura das escrituras de doação, à Santa Sé, do terreno destinado à construção do edifício da Nunciatura Apostólica em Brasília. Do ato participam o Ministro Horácio Lafer, o Núncio Dom Armando Lombardi e o Presidente da Novacap.
O lote doado é o de no. 1, localizado, como o de todas as representações diplomáticas, em Brasília, na avenida que corre ao longo do grande lago em formação com o represamento das águas do rio Paranoá.
O representante da Santa Sé, Monsenhor Lombardi, palestrando com os presentes, manifesta o maior entusiasmo pela construção de Brasília, considerando essa obra grandiosa, de afirmação do gênio criador, da capacidade técnica e do patriotismo do povo brasileiro, a realização da maravilhosa visão de S. João Bosco, que profetizou uma grande civilização no Planalto Central do Brasil, justamente no lugar onde se formava um lago.
Pouco antes da solenidade os presentes tiveram o ensejo de apreciar a planta do edifício a ser construído. Trata-se de trabalho do Sr. Contardo Bonicelli, professor de Arquitetura e Urbanismo da Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil.
O autor, palestrando com as autoridades e jornalistas presentes, explica que teve em mente, ao projetar o edifício, dar-lhe um aspecto de simplicidade mas com a majestade de um verdadeiro Palácio-Jardim, pois conterá nada menos de nove pátios internos ajardinados, alguns cobertos com pérgolas, contornados por grandes galerias, de sorte a imprimir ao conjunto não só um aspecto artístico moderno, em perfeita consonância com as linhas clássicas, como formar um ambiente propício à meditação. Dominando o edifício, colocou o autor uma grande cruz, a ser revestida de painéis de cerâmica a fogo, com todas as passagens da vida de Jesus. A área coberta terá 3.100 metros quadrados de construção. O custo estimado do edifício da Embaixada da Santa Sé em Brasília vai ser enviado ao Vaticano, a fim de receber a critica das autoridades competentes, podendo receber ou não modificações. Logo que for aprovado o projeto definitivo, terão inicio as obras em Brasília.

I.A.P.C. – O Grupo de Trabalho de Brasília recebe do Instituto dos Comerciários mais 432 apartamentos construídos em Brasília. Na oportunidade, durante a cerimônia realizada no Rio de Janeiro, na sede do DASP, o Presidente do Instituto revela que a obra, a menos dispendiosa já realizada na América Latina, teve seu custo por metro quadrado inferior a nove mil e quinhentos cruzeiros.


Foto: Arquivo Público do DF

Telecomunicações  – O Presidente Juscelino Kubitschek autoriza, despachando exposição de motivos do Ministro da Viação, a aquisição de equipamentos necessários à rede de telecomunicações entre o Rio de Janeiro e Brasília.

Instituto Superior de Estudos Brasileiros – Inaugurando a série de conferências promovida pelo I.S.E.B. sobre “Brasília e o Desenvolvimento Nacional”, o senhor João Guilherme Aragão, Diretor Geral do DASP, profere no Rio de Janeiro uma conferência sobre as atividades do Grupo de Trabalho em Brasília.

09

Preparativos para a inauguração – De Brasília, a Agência Nacional recebe o seguinte comunicado, que distribui à imprensa:

“Os canteiros estão sendo cobertos de plantas e flores e o trabalho de asfaltamento de grandes áreas nesta cidade prossegue em ritmo acelerado, visando dar aos brasileiros e estrangeiros que aqui vierem a vinte e um de abril uma visão panorâmica da ‘cidade do século’. Já estão limpas todas as áreas que circundam as super-quadras dos edifícios de apartamentos do Eixo Rodoviário no Plano Piloto. O plantio de grama já ganha novo ímpeto, o mesmo acontecendo com a parte de iluminação pública que deverá estar funcionando em todo o plano até o fim do mês um curso. As ruas estão com seu aspecto de vias de acesso de uma cidade que já vive muito. Os observadores acreditam que a cidade se constituirá na maior surpresa mesmo para os mais céticos e pessimistas na data de sua inauguração, comprovando a capacidade realizadora do povo brasileiro.”

Palácio do Planalto – A imprensa divulga que os visitantes de Brasília já podem ler, em uma das paredes do Palácio do Planalto, situado na Praça dos Três Poderes, a seguinte inscrição histórica:

“1789 – Os Inconfidentes mineiros incluem em suas reivindicações a idéia de interiorização da capital do país, reivindicação igualmente expressa nas Constituições de 1822, 1891, 1934 e 1946. Em 1955, Juscelino Kubitschek de Oliveira é eleito, a 3 de outubro, Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil. Em 1956, o Presidente Juscelino Kubitschek, em abril, remete ao Congresso Nacional mensagem em que solicita a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, Novacap. A 19 de setembro sanciona a lei aprovada pelo Poder Legislativo e nomeia seu presidente Israel Pinheiro da Silva. Em 1960, convicto da grandeza do empreendimento e lutando decididamente contra todas as dificuldades, o Presidente Juscelino Kubitschek concretiza sua promessa de candidato, entregando ao povo brasileiro a nova capital – Brasília”

10 

Missão Polonesa – Visitando Brasília, o Chefe da Missão Comercial Polonesa, Senhor Fraciszek Morsewsky, declara-se entusiasmado com tudo o que vê, afirmando que o espírito de trabalho na área da futura Capital é dos mais afanosos e excede tudo quanto se pode esperar.

Inauguração – O Senhor Carlos Alberto Quadros, Direto do Departamento de Relações Públicas da Novacap, informa à imprensa que serão expedidos mil e oitocentos convites especiais a todos os países amigos, para as cerimônias que serão realizadas no próximo dia 21 de abril.
Para a acomodação destes visitantes ilustres, a direção da Novacap já está tomando as devidas providências, estando no esquema a ocupação de todas as dependências do Brasília Pálace Hotel.

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Exposição de Móveis – Inaugura-se, no Rio de Janeiro, no edifício do Ministério da Educação e Cultura, a Exposição de Móveis para Residências em Brasília, iniciativa do Grupo de Trabalho de Brasília.

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I.A.P.B. – Sete blocos residenciais do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários já estão quase concluídos na sua super-quadra. Um deles foi utilizado durante a visita do Presidente Eisenhower, tendo hospedado quase duzentos jornalistas. Além desta parte, o IAPB ainda está construindo, em fase bastante adiantada, no Setor de Habitações Populares, nas quadras 35 e 38, um conjunto de cento e cinqüenta e duas casas, que deverão estar prontas no fim do mês de abril vindouro. O processo de construção destas casas é inédito, pois nos painéis do teto, as vigas de cobertura e as esquadrias são pré-fabricadas.
No caso dos painéis ainda há mais de uma curiosidade: saem pintados da carpintaria. A parte do Setor de Habitação Popular terá residências de conforto, com aluguéis previstos para a média de quatro mil cruzeiros.


Foto: Arquivo Público do DF

Aquisição de glebas – Noticia-se que prosseguem normalmente os trabalhos relativos às aquisições de terras no novo Distrito Federal pelo Governo de Goiás, em colaboração com o Governo Federal. Os trabalhos desta comissão correm em ritmo acelerado tendo em vista propiciar elementos bastantes para sua conclusão o quanto antes. A comissão em questão tem feito reuniões diárias.

Empréstimos  – O Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República envia aos Ministros de Estado a seguinte circular:

“O Excelentíssimo Senhor Presidente da República incumbiu-me de recomendar a Vossa Excelência que, na concessão de empréstimos simples por esse órgão, sejam observadas as seguintes normas:

I – Ficam excetuadas do disposto na Circular no 14, de 1958, desta Secretaria, os empréstimos simples até valor inclusive de Cr$ 50.000 (cinqüenta mil cruzeiros).

II – A execução da presente circular não importará na reabertura dos órgãos cujas operações hajam sido temporariamente suspensas.

III – Tendo prioridade nas concessões de empréstimos os servidores que forem servir em Brasília, condição essa a ser comprovada mediante atestado expedido pelo Grupo de Trabalho, criado pelo Decreto no. 43.285, de 25 de fevereiro de 1958.”

Arquidiocese de Brasília – O Presidente Juscelino Kubitschek envia a Dom José Newton de Almeida Batista, por motivo de sua designação para Arcebispo de Brasília, a seguinte mensagem telegráfica:

“Foi com a mais viva satisfação e sincero júbilo que recebi a noticia da designação do Excelentíssimo e Reverendíssimo amigo para Arcebispo de Brasília. Estou certo de que na nova Capital Federal sua admirável ação apostólica se fará sentir com o mesmo devotamento e profundidade que a tem caracterizado em minha cidade natal. Admirador que sou de suas altas virtudes apostólicas, que tanto o distinguem como figura das mais brilhantes do episcopado brasileiro, apraz-me, na oportunidade, congratular-me com o excelentíssimo e reverendíssimo amigo e apresentar-lhe atenciosos cumprimentos”

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Ministérios – Antes do fim de março, os prédios dos Ministérios serão entregues ao Grupo de Trabalho do DASP encarregado de organizar a mudança da capital – informa o engenheiro Aloísio Ribeiro de Sousa, chefe da Quarta Divisão de Obras do Departamento de Edificações da Novacap. Já estão prontos, de acordo com as informações recebidas pela reportagem, os seguintes edifícios: Tribunais de Recursos, Eleitoral e Justiça Local; do Tribunal de Contas e DASP; da Agricultura, do Trabalho e da Fazenda.
Todos esses blocos já tem as instalações fundamentais: luz, força, esgoto, água, elevadores e telefone.

Colonos estrangeiros –  Levantamentos feitos em Brasília informam que setecentos imigrantes, enviados ao nosso país pelo Comitê Intergovernamental das Migrações Européias – CIME, – estão trabalhando em diversos setores das obras da nova capital. Três pontos são obedecidos quando qualquer imigrante chega: 1) conseguir trabalho sob orientação do pessoal do CIME; 2) obtenção de meios de adaptação e instalação de sua família; 3) imediato aproveitamento em sua especialidade. A adaptação da maioria está sendo rapidamente feita e seus filhos estão sendo matriculados em escolas ali em funcionamento, tanto no nível elementar quanto no médio.

SAPS – Em convênio com a Novacap, o SAPS cria um restaurante na cidade satélite de Taguatinga, devendo entrar em funcionamento antes de 21 de abril próximo, de acordo com informações do sr. Amauri Nogueira, que superintende os trabalhos desta autarquia em Brasília. Até o momento, o número de refeições diárias que vem sendo servidas é de cinco mil, segundo estatísticas feitas pelos funcionários do SAPS.

Educação elementar – A imprensa divulga que a educação elementar será facultada em Brasília em Centros de Educação Elementar, cada um dos quais constituirá um conjunto integrado por 4 jardins de infância, 4 escolas-classes e uma escola-parque, servindo a 4 quadras, e assim discriminados em suas finalidades: Jardins de Infância, destinados à educação de crianças das idades de 4 a 6 anos; Escolas-classes, para educação intelectual sistemática de menores nas idades de 7 a 12 anos, em curso completo de seis anos ou séries escolares; Escolas-parque, destinadas a completar a tarefa das escolas-classes, mediante o desenvolvimento artístico, físico e social da criança e sua iniciação no trabalho.
Como a futura capital será formada de quadras e cada quadra abrigará população variável de 2.500 a 3.000 habitantes, foi calculada a população escolarizável para o nível elementar – 6% relativos às idades de 4 a 6 anos, ou sejam 180 crianças destinadas a jardins de infância, e 16% correspondentes às idades de 7 a 12 anos, ou sejam 480 crianças, ficando, pois, estabelecido: Para cada quadra: 1 jardim de infância, com 4 salas, para, em 2 turnos, atender a 160 crianças ou com 8 salas, para funcionamento em regime de tempo integral; 1 escola-classe, com 8 salas, para, em 2 turnos, atender a 480 alunos (16 turmas de 30 alunos).
Uma escola-parque suficiente para atender, em 2 turnos, cerca de 1.900 alunos das 4 escolas-classe, em atividades de iniciação no trabalho, para crianças de 10 a 12 anos, em pequenas oficinas de ‘artes industriais’, (tecelagem, tapeçaria, encadernação, cerâmica, cestaria, cartonagem, costura, bordados e trabalhos em couro, lã, madeira, metal, etc) e também, as de 7 a 12 anos em atividades artísticas, sociais, culturais e de recreação (pintura, biblioteca, exposições, grêmios, música, jogos, natação).
Os alunos freqüentarão, diariamente, a escola-parque em regime de revezamento com o horário das escolas-classe, isto é, permanecerão 4 horas nas classes de educação intelectual e 4 horas nas atividades da escola-parque, com intervalo para o almoço.

Pasteurização de leite – O Presidente Juscelino Kubitschek autoriza o Ministério da Agricultura a ceder o equipamento adquirido na Dinamarca destinado à montagem de uma usina de pasteurização de leite, com a capacidade de 3.000 litros por hora, para ser instalada em Brasília.

Reunião no Catete – Realiza-se no Palácio do Catete, sob a presidência do Ministro da Justiça, uma reunião de vários Ministros de Estado e altas autoridades, durante a qual são tratados vários aspectos do programa de mudança da Capital e seu escalonamento, bem como problemas relacionados com alojamento, saúde, educação e abastecimento.

Presidência da República – O Diário Oficial publica a portaria do Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, de designação dos membros do Gabinete Civil que servirão em Brasília.

15
Mensagem ao Congresso Nacional – Em sua Mensagem anual ao Congresso Nacional, o Presidente Juscelino Kubitschek assim se refere à mudança da Capital Federal para Brasília, no passo final da Introdução:

“Pouco mais de um mês nos separa do momento histórico em que a sede do Governo se há de transferir para Brasília – no coração do País – deixando esta bela e nobre cidade do Rio de Janeiro, que lhe deu abrigo pelo espaço de dois séculos. A 21 de abril próximo, a nova Capital estará apta a receber os três Poderes da República e a proporcionar-lhes os requisitos básicos para as suas atividades normais, não só no que se refere à instalação dos serviços públicos, como também no que concerne ao alojamento condigno dos servidores.

Mesmo os retrógrados e pessimistas já não podem opor-se à realidade que surge, esplendente, no Planalto Central do Brasil. Graças à bravura e à decisão do nosso povo, ao espírito criador de nossos artistas e à dedicação de chefes e operários, onde, faz três anos, havia apenas deserto e silêncio, existe, hoje, uma cidade de linhas monumentais, destinada a testemunhar, agora e sempre, a memorável arrancada para o Oeste.

Cumpriu-se, enfim, o preceito constitucional em que a Nação reiteradamente ordenava esse passo decisivo para a ocupação efetiva do nosso interior. Brasília não é apenas uma cidade nova, surgida milagrosamente na solidão do altiplano; não é apenas técnica e arte, pioneirismo e arrojo.
É antes de tudo a revolução, porventura a mais fecunda do nosso tempo: a mudança na rota de um País empenhado em transpor a barreira do subdesenvolvimento e ocupar, entre os povos do Mundo, o lugar que lhe cabe pela sua extensão, pelas suas riquezas, pelo valor dos seus filhos.

Antes mesmo de se tornar o centro de decisões nacionais, a novel metrópole já vai libertando a nossa hinterlândia do cativeiro da pobreza e do abandono. Extensos troncos rodoviários a ela fazem convergir do Norte e do Sul, da orla marítima e do extremo Oeste, multidões que se congregam por um ideal, gente enérgica, desejosa de um Brasil novo e orgulhosa de poder construí-lo.

Brasília não é um artifício, mas criação de rico impulso vital, imperativo da unidade da Pátria, fervoroso e antigo anelo que se converteu em ato – vitória enfim, dessa intrepidez e pertinácia capazes, tanto de fazer surgir do ermo uma cidade que maravilha os povos, como dessa epopéia de rasgar a Transbrasiliana no mundo primitivo da selva amazônica.

Com a expansão harmônica do País e o aproveitamento de poderosas energias latentes, como o transplante, para os remotos rincões do interior, da civilização que floresce à costa do Atlântico, há de vir, querendo Deus, um tempo de abundância e de genuína fraternidade que permita indistintamente a todos os brasileiros a fruição dos bens da cultura e do progresso.”

Conferência – No auditório do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, o senhor Augusto Guimarães Filho, arquiteto e Chefe da Divisão de Urbanismo da Novacap, profere uma conferência sobre Arquitetura e Urbanismo em Brasília.

Ligações rodoviárias – O Presidente Juscelino Kubitschek sanciona a Lei do Congresso Nacional, que toma o no. 3.735, e pela qual se autoriza o Poder Executivo a abrir pelo Ministério da Viação e Obras Públicas o crédito especial de Cr$ 2 bilhões para a conclusão das ligações rodoviárias de Brasília com os Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Mato Grosso e Goiás.

17
Fundação de Assistência aos Garimpeiros – O Presidente da Fundação declara à imprensa que está providenciando a instalação de sua sede em Brasília, já tendo criado as delegacias de Diamantina, Minas Gerais e Goiânia, Goiás.
No Planalto Central, a Fundação continuará intensificando a assistência aos garimpeiros, inclusive mediante publicações especializadas.

Banco da Lavoura de Minas Gerais – Um representante dessa entidade trata da instalação, em Brasília, da sua agência metropolitana. O Banco da Lavoura foi o pioneiro do Núcleo Bandeirante e instalar-se-á na quadra 306 do Plano Piloto, providenciando inclusive residência para seus funcionários.

Armazenagem – Prevê-se para os próximos dias o inicio dos trabalhos de construção de um conjunto de armazém e silo em Brasília, com capacidade para guardar de 7.200 toneladas de gêneros. Já se iniciaram as obras de terraplenagem para o Centro de Abastecimento respectivo.

Heckel Tavares – No Rio de Janeiro, o Presidente Juscelino Kubitschek recebe, no Palácio da Laranjeiras, a visita do compositor brasileiro  Heckel Tavares, autor de uma peça musical denominada “Três Poderes”, composta especialmente para louvar e homenagear a construção de Brasília e também exaltar a perfeita harmonia existente entre os Poderes da República.
Durante a execução da referida peça, o Presidente Juscelino grava, para figurar como parte da mesma, um trecho do seu discurso proferido na futura Capital do país, quando da inauguração do Palácio da Alvorada, ocasião em que pronunciou algumas frases de exaltação cívica que se encontram gravadas à entrada da residência presidencial no planalto goiano.
O compositor Heckel Tavares declara, na ocasião de sua visita ao Presidente da República, que a sua música fora inspirada naquele trecho da fala presidencial.

Conferência – No auditório do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, o senhor Ernesto Silva, Diretor da Novacap, profere uma conferência, no ciclo organizado pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros, sobre aspectos educacionais, médico-hospitalares e assistenciais em Brasília.

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Ensino primário – A imprensa assinala que estão funcionando na área de Brasília as seguintes escolas ou cursos primários particulares: Escola das Irmãs Dominicanas, 150 alunos; Instituto Educacional de Brasília (Batista), 275 alunos; Escola Medodista, 135 alunos; Escola Evangélica de Brasília, 64 alunos; Escola da Igreja Evangélica ‘Simonton’, 70 alunos; Curso Primário do Ginásio de Brasília, 412 alunos; Curso Primário do Ginásio Dom Bosco, 560 alunos e Escola Paroquial Nossa Senhora de Fátima, 330 alunos.

 
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Mudança da Capital – De ordem do Presidente Juscelino Kubitschek, o Chefe da Casa Civil da Presidência da República expede a todos os Ministérios e órgãos diretamente subordinados à Presidência da República a seguinte circular:

“Tendo em vista o acúmulo de serviços da Presidência da República, decorrente dos preparativos de mudança para Brasília, solicito, de ordem do Senhor Presidente da República, providências de Vossa Excelência, a fim de que, a partir desta data, somente sejam remetidos a esta Secretaria os expedientes considerados urgentes e de solução inadiável.”

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Banco do Desenvolvimento do Oeste – O Almirante Lúcio Meira, Presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, declara em Brasília que o estabelecimento que dirige participará, como acionista, do Banco do Desenvolvimento do Oeste, cujo projeto de criação acaba de ser aprovado pelo Presidente Juscelino Kubitschek.

Bacia Paraná-Uruguai – Em Brasília, no anfiteatro do Palácio da Alvorada, o Presidente Juscelino Kubitschek participa dos trabalhos da reunião de encerramento da Conferência dos Estados da bacia dos rios Paraná-Uruguai, proferindo discurso em que assinala a importância de Brasília para os problemas sociais e econômicos daquela região brasileira.

Entrevista presidencial – Em Brasília, o Presidente Juscelino Kubitschek concede aos jornalistas uma entrevista coletiva, em que afirma que, após terminar seu mandato, passará a dedicar-se às atividades agropecuárias no Planalto Central. Outros tópicos:

a)      a rodovia Brasília-Acre será a última ‘grande meta’ do Governo e talvez possa ser inaugurada em 10 de dezembro de 1960;
b)      a mudança do Governo para Brasília é ‘questão certa e será a 21 de abril’;
c)      Brasília estará totalmente paga até o fim de 1960, graças a colocação à venda dos lotes da chamada Zona Norte do Plano Piloto;
d)      a 21 de abril deverão vir a Brasília mais de cem mil brasileiros;
e)      para as festas de 21 de abril, não haverá convite a Chefes de Estados estrangeiros; confirma-se apenas a vinda do Legado Papal, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira;
f)        no momento da Missa Solene, o Papa João XXIII deverá dar sua benção à cidade e ao povo brasileiro.

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Imprensa Nacional – Com a presença do Presidente Juscelino Kubitschek, realiza-se em Brasília a primeira experiência da rotativa Marinoni do Departamento de Imprensa Nacional, em sua nova sede. O Diário Oficial é impresso com a data de hoje, o nome da cidade e a primeira página somente com o registro do fato. Mais de mil pessoas, entre elas a maioria dos operários que constroem o grande prédio desta repartição federal, jornalistas, deputados e o Vice-governador Porfírio da Paz, estavam presentes a esta inauguração. O prédio da Imprensa Nacional, segundo informações do seu Diretor Geral, sr. Brito Pereira, terá duzentos metros de frente, tendo área total de quarenta mil metros quadrados. Mais duas máquinas de grande porte já se acham na nova capital para serem montadas até 21 de abril próximo vindouro.
“Até lá, explica o Sr. Brito Pereira, teremos todos os meios para editar o Diário Oficial e o Diário do Congresso”.
Foi grande o número de pessoas que conseguiu um exemplar do primeiro Diário Oficial saído da ‘Marinoni’, tendo a maioria solicitado ao Presidente Juscelino Kubitschek que o autografasse.

Inaugurações – Partindo, de helicóptero, do local da sede da Imprensa Nacional, o Presidente Juscelino Kubitschek se dirige aos conjuntos residenciais das diversas autarquias, inaugurando vários prédios dos mesmos. Entre os setores visitados estão os do IPASE, IAPI, IAPETC, IAPB E CAPFESP, onde o Presidente é recebido pelos Presidentes das autarquias. A maioria hoje terminada, que tem dois quartos e sala, com quarto de empregada, está situada em prédios de seis pavimentos, com dois elevadores. Nas proximidades dos mesmos, já estão funcionando confeitarias, farmácias e lojas de artigos variados, em edificações que obedecem aos projetos e especificações da Novacap.


Foto: Arquivo Público do DF

Comunicações – O Presidente Juscelino Kubitschek, pelo Decreto no. 47.953, desta data, atribui à Novacap a construção, manutenção e operação dos serviços de comunicações radiotelegráficas entre Brasília e várias cidades.

Conselho de Saúde em Brasília – Pelo Decreto número 47.952, desta data, o Presidente Juscelino Kubitschek institui o Conselho de Saúde em Brasília.

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Programa da Mudança – O Presidente Juscelino Kubitschek envia mensagem ao Congresso Nacional acompanhada de projeto de lei que autoriza o Poder Executivo a abrir, pelo Ministério da Justiça, o crédito de 150 milhões de cruzeiros para atender a despesas de qualquer natureza, inclusive de material e pessoal, decorrentes da execução do programa organizado pela Comissão de Planejamento e Execução das Solenidades de Instalação do Governo Federal na Nova Capital do País.

Televisão – O Presidente Juscelino Kubitschek assina decreto de outorga de concessão à Rádio Rio Limitada para estabelecer, a titulo precário, na cidade de Brasília, sem direito de exclusividade, uma estação de radiotelevisão.

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Calendário da Mudança – No salão de exposições do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, o Diretor Geral do DASP presta à imprensa informações sobre as providências tomadas na reunião do Grupo de Trabalho de Brasília sobre a próxima mudança da Capital.
A mudança obedecerá a um calendário já aprovado e que prevê, não só na parte funcional, bem como na material, a transferência do mínimo considerado essencial ao funcionamento dos 3 Poderes na nova Capital, tendo sido estudado, em todos os seus detalhes, o plano de necessidade dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
No próximo dia 25, partirá o primeiro comboio para Brasília, que transportará cerca de mil volumes com materiais de natureza imprescindível ao funcionamento normal dos serviços que serão instalados na nova capital.
Estão sendo ultimados os trabalhos para inauguração, no próximo dia 21 de abril, de um restaurante com capacidade para 500 pessoas, e que funcionará sob a administração direta do Grupo de Trabalho de Brasília. Disporá de acomodações amplas, instalações higiênicas as mais modernas, além de pessoal habilitado para copa, cosinha e salão. Refeições sadias serão fornecidas a preços populares, sem imediata visão de lucros.
Divulga-se ainda que, na reunião do Grupo de Trabalho, ficaram assentadas as questões relacionadas com a montagem dos Postos de Controle de Trânsito na rodovia Belo Horizonte-Brasília.
Os referidos Postos ficarão situados ao longo da estrada. Localizados nos seguintes pontos: P.C.T. 1 (Posto de Controle de Trânsito) – Paraibuna, Km 160 – limites Estado do Rio-Minas Gerais; P.C.T. 3 – Três Marias – Km 761 – Estado de Minas Gerais; P.C.T. 4 – João Pinheiro – Km 892 – Estado de Minas Gerais; P.C.T.5 – Paracatu – Km 998 – Estado de Minas Gerais e P.C.T. – Cristalina – Km 1.096 – Estado de Goiás.

O Posto inicial de Controle está localizado na Avenida Brasil 380, ficando o Posto terminal instalado no Depósito do Parque de Material, em Brasília, subordinado ao Grupo de Recepção de Mudança.
O Controle de Trânsito tem por finalidade a coordenação e fiscalização do movimento de viaturas utilizadas na mudança de equipamentos das repartições e bagagens dos servidores para Brasília tendo em mira a perfeita execução da mudança.

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Homenagem ao Presidente Juscelino Kubitschek – No Rio de Janeiro, o Presidente Juscelino Kubitschek é homenageado com um banquete pela Sociedade Americana e a Câmara de Comércio Americana. Saudando o homenageado, o Senhor John Moors Cabot, Embaixador dos Estados Unidos da América, assim se refere a Brasília:

“Com a inauguração de Brasília, o monte de escombros da muralha de silêncio será nivelado pelos ‘bulldozers’ para os alicerces sobre os quais o novo Brasil se constrói. Brasília juntar-se-á a Washington nas manchetes mundiais. E como a fundação de Washington  simbolizou os Estados Unidos, Brasília simbolizará esta nação, que tem papel tão importante a desempenhar nos assuntos mundiais.”

Comunicações burocráticas – O Presidente Juscelino Kubitschek, pelo decreto 47.958, desta data, dispõe sobre as comunicações burocráticas entre o Rio de Janeiro e Brasília.

Gabinete Militar e Civil – O Presidente Juscelino assina decretos mandando servir em Brasília, o General de Exército Nelson de Melo e o diplomata José Sette Câmara, chefes, respectivamente, dos Gabinetes Militar e Civil da Presidência da República.

Imprensa Nacional – O Ministro da Justiça e Negócios Interiores assina ato designando o Sr. Alberto Sá Souza Brito Pereira para ter exercício em Brasília. A propósito dessa designação, disse em despacho, o titular da pasta: “A mudança do Departamento de Imprensa Nacional, já iniciada, é um imperativo da mudança da Capital da República. Ao seu diretor-geral, enquanto não efetivada a transferência total do órgão, continuará cabendo, na forma da legislação em vigor, a administração do Departamento em Brasília e no Rio de Janeiro, valendo-se da distribuição que se fizer conveniente dos elementos administrativos de que dispõe.”

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Inicio da Mudança – Inicia-se a mudança da sede do Governo para Brasília, com a saída do primeiro comboio conduzindo material da Presidência da República, acondicionado em três carretas e dois caminhões de grande tonelagem.
A partida da caravana, da praça fronteira ao Palácio do Catete, efetua-se às 18 horas, cercada de grande interesse popular. Cabe ao Chefe do Gabinete Civil, representar, no ato o Presidente da República.
Depois de esclarecer que o Presidente Juscelino Kubitschek não pudera comparecer, em virtude de estar absorvido na adoção de providências relacionadas com o fragelo das cheias no Ceará, inclusive mantendo contacto permanente com autoridades, naquele Estado, o Ministro Sette Câmara formula votos de boa viagem ao comboio, acrescentando que dentro em pouco todos se encontrariam em Brasília.
Na oportunidade, o Chefe do Gabinete Civil entrega ao motorista do primeiro caminhão todos os documentos relacionados com o transporte do material da Presidência da República e o roteiro de viagem, inclusive os pontos de pousada. O comboio deverá chegar a Brasília na próxima terça-feira, ao anoitecer.
Todo o material embarcado pertence ao Gabinete Civil da Presidência, compreendendo arquivos, documentos e máquinas da Diretoria de Expediente, Assessoria Parlamentar, Biblioteca, 1ª, 2ª, 3ª. e 4ª Subchefias.

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Operação Alvorada – Um contingente de 100 fuzileiros navais e 20 marinheiros voluntários da Esquadra, sob o comando do Capitão-de-Corveta fuzileiro naval Clinton Cavalcanti de Queiroz Barros, parte às 9,45 do Rio de Janeiro, a pé, rumo a Brasília, na marcha que toma o nome de Operação Alvorada. Essa força, constituída na maior parte de soldados e oficiais paraquedistas e integrantes da Companhia de Reconhecimento C.F.N. e da Esquadra, chegará à futura Capital brasileira no dia 20 de abril a fim de tomar parte nas solenidades que ali terão lugar no dia 21.

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Rodovia Brasília-Acre – A propósito da nova rodovia Brasília-Acre, que deverá ser aberta ao tráfego até dezembro de 1960, o engenheiro Regis Bittencourt, diretor geral do Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, declara à imprensa que essa grande realização do Governo do Presidente Juscelino Kubitschek terá uma influência jamais alcançada por qualquer outra das estradas que interligam os diversos rincões do país.

Além de beneficiar mais de 1 milhão e 200 mil quilômetros quadrados do território nacional – diz, – a Brasília-Acre possibilitará também a ligação do sistema rodoviário brasileiro à Rodovia Pan-Americana, o que diz bem de sua importância como via de penetração de uma das mais vastas e promissoras regiões do país e como instrumento de aproximação com as demais nações do continente.
O engenheiro Regis Bittencourt faz essas declarações a propósito do relatório que lhe é apresentado pelos engenheiros Carlos Pires de Sá e Philuvio de Cerqueira Rodrigues. Diretores, respectivamente, da Divisão de Construção e da Divisão de Estudos de Projetos daquele Departamento, os quais acompanharam o Coronel Lino Teixeira, Subchefe da Casa Militar da Presidência da República, numa viagem de inspeção às obras de construção da Brasília-Acre.

– O relatório – prossegue o sr. Régis Bittencourt – apresenta fatos alentadores, que nos permitem propiciar o incremento das obras para que cheguem a seu término na data prevista.
Depois de esclarecer que a rodovia terá uma extensão total de 3.335 quilômetros, informa o Diretor Geral do DNER que seu traçado obedece à direção Leste-Oeste, iniciando-se em Brasília, numa altitude de 1.050 metros, para seguir o divisor de águas entre a bacia hidrográfica do Paraná-Paraguai e as do Tocantins e Amazonas.
Atingirá Porto Velho numa altitude de 90 metros e daí descerá acompanhando o rio Madeira até Abunã, de onde avançará até o marco final em Rio Branco, capital do Território do Acre.

Referindo-se ao andamento dos trabalhos, informa o engenheiro Regis Bittencourt que cerca de 5 mil toneladas de matérias diversificados de construção rodoviária já seguiram do Rio de Janeiro para Porto Velho, a bordo do navio ‘Rio Tubarão’. Tendo deixado o Rio no dia 22 de março corrente, aquela embarcação deverá levar trinta dias para vencer o percurso até a capital do Território de Rondônia, percorrendo na viagem, além do longo trecho costeiro, grande parte dos rios Amazonas e Madeira. A chegada a Porto Velho será em época oportuna, quando o nível mais elevado dos rios permita navegação e atracação mais fáceis às embarcações de maior calado.

Até o momento o DNER já entregou ao tráfego o trecho Brasília-Goiânia e mais 60 quilômetros na direção de Jataí. De Jataí até Ponte de Pedra, no rio Verde, passando por Cuiabá, já existe um trecho completo de 1.205 quilômetros, dos quais 430 construídos pelo Exército. O traçado prossegue daí até Porto Velho, numa extensão de 1.090 quilômetros cobertos em sua quase totalidade por matas virgens, que precisam ser desbravadas, como aconteceu com a construção da Brasília-Belém. Uma comparação dá bem uma idéia do vulto da obra: o trecho a desmatar corresponde ao percurso Rio-São Paulo, nos dois sentidos. A partir de Porto Velho e até a capital acreana os trabalhos se desdobrarão por mais 550 quilômetros.

Comenta então o Diretor-Geral do DNER que, devendo ser concluídos até dezembro 1.672 quilômetros da nova rodovia, os engenheiros e operários de seu Departamento terão que entregar uma média diária de estrada superior a 6 quilômetros.
Quanto ao custo das obras informa que as previsões orçamentárias são da ordem de 2 bilhões de cruzeiros.
Os trabalhos de construção são superintendidos por uma comissão especial chefiada pelo engenheiro Valdemar Uchoa de Oliveira.

Na última parte de sua entrevista esclarece o sr. Regis Bittencourt que a Brasília-Acre estenderá sua influência por diversos Estados, na seguinte ordem: Goiás, 200 mil km2; Rondônia, 243 mil km2 e Território do Acre, 153 mil km2, áreas estas destinadas a grande futuro, graças à comunicação direta com a futura Capital.

Concluindo, diz que, com a nova estrada para o Acre e com as demais que a ligarão diretamente a Belém, Fortaleza, Belo Horizonte, São Paulo e outros pontos do território nacional, Brasília tornar-se-á o verdadeiro centro rodoviário do país, uma Capital no mais alto sentido, pois, em comunicação com toda a Nação, difundirá o sentimento de integração  e conquista pacífica de nosso próprio território.

Arquidiocese de Brasília – A propósito da criação pela Santa Sé da Arquidiocese de Brasília, Dom José Newton de Almeida Batista, novo Arcebispo da futura Capital, concede à Agencia Nacional importante entrevista a respeito de suas futuras atividades pastorais em Brasília.

Curso de Tratoristas – O Presidente Juscelino Kubitschek aprova a exposição de motivos do Ministério da Agricultura referente à instalação de uma oficina mecânica para prestar serviços aos Cursos Rápidos de Tratoristas, na circunvizinhança de Brasília.

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Calendário da Mudança – O Presidente Juscelino Kubitschek aprova a exposição de motivos em que o DASP submete à sua consideração o calendário da mudança do Governo para Brasília e propõe a transferência, até 21 de abril de 1960, dos órgãos pertencentes aos três Poderes da República, prosseguindo, além dessa data, o processo de transferência.

Confederação Nacional do Comércio – No Rio de Janeiro reúne-se, pela última vez, a diretoria da Confederação Nacional do Comércio, cuja sede, por determinação legal, terá de ser, a partir de 21 de abril, em Brasília, novo Distrito Federal. Durante a reunião é marcada a data de 25 de abril para o próximo encontro dos diretores da entidade máxima do Comércio, já na nova Capital do país.
Naquele dia, após a reunião, os diretores, incorporados, farão uma visita de cortesia ao Presidente da República no Palácio dos Despachos.

Hospital Distrital – Anuncia-se que se encontram em via de conclusão as obras do primeiro Hospital Distrital de Brasília. Divulga-se, também, que o Ministério da Saúde
decidiu dar ao novo Hospital o nome oficial de Hospital Márcia Kubitschek.

Escola Agrícola – O presidente Juscelino Kubitschek autoriza a instalação, em Brasília, de um estabelecimento de ensino agrícola, de grau médio.

Crédito especial – O presidente Juscelino Kubitschek sanciona lei do Congresso Nacional abrindo, ao Poder Legislativo, o crédito especial de 800 milhões de cruzeiros, sendo 500 milhões para a Câmara e 300 milhões ao Senado, para atender despesas de qualquer natureza com a sua transferência e remoção do respectivo pessoal para a nova Capital.
Pela mesma lei, fica também aberto ao Poder Legislativo o crédito especial de 150 milhões de cruzeiros para atender, no presente exercício, às despesas com a instalação e custeio do Serviço de Radiodifusão dos Trabalhos do Congresso Nacional.

Medalhas comemorativas – O Presidente Juscelino Kubitschek assina decreto considerando de valor histórico as medalhas comemorativas da inauguração de Brasília.
As medalhas serão cunhadas em estabelecimentos de renome internacional e deverão conter, a maior, com 36 milímetros de diâmetro, 15 gramas de ouro de 22/24 quilates e, a menor, com 26 milímetros de diâmetro, 7 e meia gramas de ouro do mesmo teor.

E.F.de Goiás.– Com a intensificação das obras de Brasília, tornou-se a E.F. Goiás o escoadouro natural de toda a produção procedente de São Paulo, pela Mogiana, e de Minas, pela RMV, que se destina à nova Capital.
Registrou-se extraordinário crescimento nos seus transportes, que saltaram de 49 milhões e 243 mil t. km, líquidas remuneradas, em 1958, para um volume de 109 milhões e 135 mil em 1959.
Para alcançar esse volume, a Goiás acelerou a reforma de suas linhas e colocou em tráfego 12 modernas locomotivas Diesel-elétricas recebidas da Rede Ferroviária Federal.

31

I.A.P.I. – No Rio de Janeiro, o Presidente do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários entrega ao Grupo de Trabalho incumbido de realizar a transferência da administração federal para Brasília os primeiros 180 apartamentos ali construídos pela autarquia, para alugar aos parlamentares e altas autoridades.
Os apartamentos entregues ficam localizados em cinco blocos da Super-Quadra 105 e cada residência dispõe de grande ‘living’, 3 quartos, 2 banheiros sociais, ampla cozinha e dependências de serviço.
O Instituto dos Industriários está terminando em Brasília, além disso, a construção de mais 240 apartamentos.


Foto: Arquivo Público do DF

Centro Acadêmico XI de Agosto – Em São Paulo, o Ministro Horácio Lafer lê perante o Centro Acadêmico XI de Agosto o discurso do Presidente Juscelino Kubitschek sobre problemas da atualidade nacional, em que há as seguintes palavras sobre Brasília:

“Acusam-me de haver construído, em pleno deserto do nosso Brasil, uma cidade-modelo, admiração dos homens mais eminentes do mundo – honra e glória da energia, da coragem e da capacidade de trabalho da engenharia e do gênio arquitetônico do nosso povo.
Sei bem que a mudança da capital, neste momento, ou em outro qualquer, representa um sacrifício, mas Brasília é a semente de uma grande árvore nova, o Brasil do futuro, um ato fecundo. Confesso aqui diante da mocidade, que, realmente, no caso da mudança da capital, inspirou-me o amor autêntico ao dia de amanhã. Pensei mais em vós e na vossa descendência, pensei mais na necessidade de praticarmos uma operação redentora do interior brasileiro do que em mim próprio. Contemplei o horizonte distante, antevi o futuro e previ as conseqüências que vão resultar da cidade a ser inaugurada dentro de alguns dias. Para pessoa alguma, para nenhum brasileiro houve sacrifício maior do que o meu para a criação de Brasília. Disputo humildemente a qualquer um o tamanho do sacrifício nesta obra que será fundamental para a nossa posteridade.
Peço-vos que me acompanheis na arrancada da esperança. Somos um país que se movimenta, que age, que está conquistando um grande destino. Orgulhai-vos de nossa pátria, repeli o desespero dos que não se sentem ligados, enraizados, integrados neste país, que não é para eles uma autentica pátria, terra dos pais e dos descendentes mas um simples pouso, um acampamento provisório.
Vossa idade é a idade da compreensão e do amor pelas coisas altas; é a idade em que não podem vingar os sentimentos mesquinhos; o desejo de destruir e de amesquinhar é o contrário do vosso impulso e aspiração que se volta naturalmente para a criação e o bem. Este país necessita vencer os seus obstáculos e os vencerá pelo espírito da juventude, pela alma, pela crença e pela esperança.”

Veículos nacionais – O Presidente Juscelino Kubitschek recebe, no Rio de Janeiro, no Palácio das Laranjeiras, um plano de venda de automóveis, camionetas e demais veículos necessários ao transporte dos Deputados em Brasília. O Plano prevê prioridades nas entregas sem quaisquer outros privilégios. O Presidente da República, na ocasião, diz que o transporte de parlamentares em Brasília constituía um problema de interesse da sua administração, daí a simpatia com que recebe a apresentação do caso.

Adlai Stevenson – Em entrevista coletiva na Associação Brasileira de Imprensa, o político norte-americano Adlai Stevenson fala sobre Brasília da seguinte forma:

“É a cidade do futuro. Gostei do que vi e penso que ela será a cidade mais falada do mundo durante muito tempo e que, com o crescimento natural do Brasil, ela será o centro de gravidade dos negócios mundiais quando o vosso país tomar o lugar que lhe compete. Vossos arquitetos estão fazendo uma grande obra.”

Fonte: Diário de Brasília, Coleção Brasília – 1960. Serviço de Documentação da Presidência da República

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Meu amigo Joaquim Cardozo

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Meu amigo Joaquim Cardozo
Por Oscar Niemeyer
 
É velho retrato já amarelado pelo tempo. Estamos sentados num banco do Jardim Público de Belo Horizonte e Cardozo olha a máquina com um ar distante e constrangido. Está magro. Os ossos à flor da pele.
Quantos anos andamos juntos neste velho planeta? Quantas viagens juntos fizemos, pelo Brasil afora? Quantas coisas conversarmos, quanta amargura levantamos diante deste mundo absurdo. As vezes, do terraço do nosso escritório, Cardozo, olhando o céu, insistia: “Precisamos ir ao observatório!” E ficávamos a falar das estrelas, dos espaços infinitos, das nebulosas distantes, deste universo esplêndido que tentamos decifrar. E nos sentíamos pequenos demais, diante de tanta grandeza. Outras vezes, surgia a literatura e Cardozo se entusiasmava, citando Goethe, lembrando as traduções que fizera, ou cantarolando o seu Coronel de Macambira.
 
Mas a conversa mais freqüente se relacionava com o nosso trabalho, as ligações da arquitetura com a engenharia e o equívoco lamentável dos que pretendiam exprimir o concreto armado dentro do racionalismo estreito em que caminhava a arquitetura contemporânea. Rindo, Cardozo prometia fazer a base das colunas de ferro maciço e finas, finíssimas, como eu as preferia.
E ficávamos a lembrar os primeiros tempos. A obra de Pampulha se iniciando e Juscelino acompanhando-a com entusiasmo: “Oscar, vai ficar uma beleza!” E nós a segui-lo confiantes na sua determinação, apesar dos problemas de tempo e dinheiro que o envolviam. Depois, tudo concluído. O Cassino a funcionar, a burguesia da época a se exibir pelas rampas, e aquele ambiente de luxo, de mármores e ônix que Belo Horizonte desconhecia. A sorrir, recordávamos a igreja recusada durante vários anos, apesar de tão singela, apesar de tão enriquecida pelas pinturas, azulejos e baixos relevos de Portinari, Ceschiatti e Paulo Werneck; a Casa do Baile cheia de gente, com as mesas sob a marquise à beira da lagoa…O clube debruçado sobre a água, ainda com seus locais de estar e conversa responsáveis pela própria silhueta.
E as obras que realizamos em Belo Horizonte eram também lembradas: JK governador…O teatro, a biblioteca, o Colégio Estadual, a Escola Julia Kubitschek…As viagens repetidas que fazíamos juntos, pelas estradas enlameadas ou a balançar sonolentos, nos velhos trens da Central!
E Brasília voltava à nossa memória com sua poeira impalpável, com sua chuva de granizo a bater no telhado de zinco do Catetinho e os prédios a subirem naquela terra vazia, dentro dos espaços criados pelo seu urbanista. Cardozo lembrava então como lhe custara calcular o Congresso Nacional e como estava eufórico ao me telefonar, um dia: “Oscar, consegui a tangente que vai fazer a cúpula da Câmara solta como você queria.” Velhos tempos…Tudo parecia um sonho. O sonho predileto de JK.
Não falávamos no acidente das Mangabeiras, tão sórdido que dispensava comentários, mas, calados, olhando um para o outro, ficávamos a lembrá-lo com íntima revolta. Quanta miséria, meu Deus!
Há mais de um ano meu amigo se foi. Magoado com a vida e com os homens. Magro, quase de vidro.
Lembro-me quando, doente e ofendido, ele me telefonou do Recife: “Oscar, manda alguém me buscar!” Atendi-o, hospedando-o no Hotel Miramar, perto do escritório, onde todas as manhãs o apanhava. E Cardozo passava o dia inteiro entre nós, com a memória mais fraca, mas ainda sorrindo; contando histórias do Recife, do Bar Gambrino, do velho meretrício, onde gostava de passear, explicando: “Só para ver o colorido…”
À noite, eu o levava de volta e muitas vezes jantava com ele, no quarto do hotel, pesaroso de deixá-lo sozinho.
Era um homem sensível e solitário que a mim se apegou como quem encontra e não quer perder o seu derradeiro amigo. Sentado na sala de desenho, Cardozo acompanhava o movimento do escritório, e se alguém insistia a conversar comigo, ele não se continha, e, como fez com Júlio Niskier, levava-o pelo braço dizendo: “Já conversou muito. Agora, deixa o Oscar trabalhar.”
Mas a doença seguia seu curso inexorável e, como sua permanência no hotel se tornasse impossível, levei-o para a Casa de Saúde Eiras, no setor de cirurgia, do meu irmão Paulo.
Era um quarto grande, com três janelas abrindo sobre o jardim. A princípio, Cardozo parecia se adaptar naquele ambiente tranqüilo e confortante. Comentava a beleza do parque, as mangueiras carregadas, os passarinhos que cantavam à volta da janela, o Dr. Metre que com ele conversava diariamente. Mas as condições de saúde se agravavam, os doentes do quarto vizinho e até os que eventualmente o procuravam, começaram a irritá-lo. E a volta para a Casa de Saúde se tornou cada vez mais difícil. Lembro-me da noite em que se deitou no chão, recusando-se a entrar. Vieram os médicos e Cardozo dizia: “Vou me afogar”. Delicado, um dos médicos ponderou: “Dr. Cardozo, aqui não tem água”. E Cardozo, que não perdia ocasião de esclarecer um problema técnico, esqueceu a briga, comentando: “Cava que encontra”. Dois meses depois, a direção da Casa de Saúde, como ocorrera no Hotel Miramar, insistia para que eu o internasse na seção de psiquiatria.
Triste mundo…Onde estavam os amigos, devedores de tanto apoio e atenção? Junto dele, acompanhando-o nos seus desesperos, éramos cinco ou seis no máximo.
Fretei um avião e Cardozo, acompanhado de seu médico, seguiu para o Recife. Onde, pouco depois, faleceu num hospital da cidade.
Consolava-me a certeza de o ter sempre atendido de coração aberto, e o diálogo que tive certa vez em Brasília com o Prefeito Paulo de Tarso assumiu para mim outra dimensão.
“Dr. Niemeyer, vou nomear uma comissão de alto nível para examinar o cálculo do Joaquim Cardozo para o Tribunal de Contas.” E a minha resposta: “Cardozo é um velho amigo. Se o Sr. fizer isso, saio da Prefeitura agora.”

Transcrito do Jornal do Brasil, 12-07-1981

 

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EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA
 
Em Brasília na rodoviária
Encosto-me à lanchonete sob a chuva tropical
Os homens e as mulheres
Ocupam lugares no ônibus
Cinzentos
Violáceos
E
Amarelos
E recuperam nos seus rostos cansados
A cor do seu transporte colectivo
 
Por entre ônibus putas e travestis
Movem-se como pássaros de aviário
Protegidos do dilúvio pelo viaduto dos eixinhos
Trespassado por velocíssimos automóveis
 
Há relâmpagos vindos de todas as direcções
Que se sobrepõem aos dos olhares dos transeuntes
Reflectidos nas imensas poças
Construídas com a água
Empurrada pelo vento
E pelos esgotos entupidos
Da via Monumental.
Todos aqueles caminhos levam a qualquer lugar
A tantos e todos os lugares que o sonho se torna
Desprezivelmente desnecessário
Ao meu lado uma mulher jovem bebe um guaraná
E um policial militar devora literalmente um
Bolinho de bacalhau junto ao ponto para Taguatinga
Abrandou a tempestade
A chuva cai agora lenta e oblíqua
Atravesso a Esplanada dos Ministérios
Vergado ao peso do silêncio
 
Acolho-me ao espaço anterior
À terra vermelha
Niemeyer cavalga um Pégaso
Ao longe sobre o lago
 
Ardem-me os olhos o braço tenso segura o estandarte
A terra move-se
Milhares de candangos avançam em malha
Compacta pela W3
Colocando nas palavras a estrutura da esperança
 
Inesperadamente uma superquadra nasce
No extremo da Asa Norte na direcção contrária
À chuva
Foi quando Lucio Costa
Encostado ao semáforo experimental
Do Parque da Cidade
Decidiu não haver nascido.
 
Rui Rasquilho
Poema transcrito do livro “25 Poemas brasileiros & Uma saga lusitana”
Editora Thesaurus, 1997

 

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BRASÍLIA – FEVEREIRO DE 1960

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

 

BRASÍLIA – FEVEREIRO DE 1960

 

 

 

 

 

01
Discurso presidencial – No despacho coletivo com o Ministério, às 7 horas da manhã, no Palácio do Catete, o Presidente Juscelino Kubitschek assim se refere a Brasília em seu discurso:
 “Posso dizer, sem hipérbole, que a decisão relativa a Brasília constituiu para mim um esforço bem mais considerável do que toda a solicitude em acompanhar a parte executiva dessa obra, em verdade imensa e que temos de atribuir, não só à proteção de Deus, que não nos faltou, como à capacidade de trabalho de nossa gente, à dedicação inexcedível dos chefes e dos operários. Naquela ocasião, medi os prós e os contras, avaliei as dificuldades de toda a ordem: as materiais, com todo o cortejo de repercussões econômicas e problemas técnicos; mas, sobretudo, o significado de resolução e a gravidade decisiva do ato. O imperativo constitucional fora repetidamente ignorado e seria fácil permitir que continuasse letra morta. Mas a criação de Brasília, a interiorização do Governo, esse ato dramático e irretratável de ocupação efetiva do nosso vazio territorial, essa demonstração inequívoca de fé na capacidade realizadora dos brasileiros, esse triunfo do espírito pioneiro, essa prova de confiança na grandeza deste país, essa ruptura completa com a rotina e o conformismo, eu a sentia em intima e perfeita correspondência com a aspiração máxima do povo brasileiro: a revolução do desenvolvimento nacional. Brasília foi o primeiro ato dessa revolução, fecundo em conseqüências, a meta número um, a meta-síntese de um Brasil renovado.
Brasília significa, não apenas a mudança da sede de um Governo, mas de todo o rumo de uma grande nação. Sei como são fortes as resistências e os antagonismos, porque sei até onde essa mudança tem um aspecto revolucionário, porque estou bastante lúcido quanto à serie de transtornos e de modificações que ela vai ocasionar. Não fugirá a ninguém o aspecto heróico da empresa, nem os sacrifícios requeridos; mas o dia de amanhã explicará melhor do que qualquer discurso – que Brasília obedeceu a uma imperiosa necessidade. Mas dia, menos dia, seria necessário colocar o Brasil no seu centro, conquistar essa parte importante do seu território, integrar o país em si mesmo.
Eu me dou por feliz pelo privilégio de construir Brasília, de realizar essa aspiração, que pareceu inatingível a muitas gerações de brasileiros, em tempo recorde, mostrando ao mundo que somos capazes de fazer o que queremos, e fazer como melhor não o fariam outros povos, que marcham na vanguarda da técnica e da civilização.”

Caravana de Integração Nacional – Em Goiânia, todas as colunas da Caravana se concentram, entre homenagens populares, para a última parte da jornada, a efetuar-se de 1º a 2 de fevereiro, até Brasília.
Chegando a Brasília, os integrantes da Caravana concentrar-se-ão no parque Dom Bosco.

Remoção de pessoal – O Presidente Juscelino Kubitschek, em despacho proferido em exposição de motivos do D.A.S.P., aprova minuta do convênio a ser estabelecido com o Grupo de Trabalho, bem como o respectivo Plano de Aplicação, da importância de 580 milhões de cruzeiros, destinada a despesas de quaisquer natureza, com a remoção do pessoal para Brasília, inclusive aluguel e arrendamento de imóveis.

Rodovia Belém do Pará-Brasília – Tendo visitado a Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional no “Estreito” do Tocantins, o senhor Mattos Carvalho, Governador do Maranhão, viaja por via aérea até Goiânia, a fim de ali esperar a Caravana, com a qual chegará a Brasília.
Falando à imprensa da cidade, o governador Mattos Carvalho externa seu grande entusiasmo pelo que lhe foi dado observar da rodovia Bernardo Sayão, ressaltando a significação da estrada para o desenvolvimento do país: 
“A estrada Belém-Brasília – diz – é um símbolo de progresso e dignifica um governo porque representa o enriquecimento de uma nação.” 
Continua declarando que Brasília dá aos brasileiros a certeza de que está surgindo uma pátria nova, merecendo, por isso, todos os sacrifícios e não sendo admissível a protelação da mudança da sede do Governo para a nascente cidade. 
Concluindo, afirma o Governador que seu Estado, o Maranhão, já sente os efeitos benéficos de Brasília e da rodovia, visto ser maranhense o mais próximo porto marítimo e estarem todas as cidades do sul maranhense, especialmente a região de Imperatriz, ligadas à futura capital federal pela rodovia de integração nacional. 
Fazenda Nacional – O senhor Raymundo Brígido Borba, Diretor-geral da Fazenda Nacional, constitui seu Gabinete definitivo, que deverá embarcar para Brasília antes da transferência da Capital. 
Ranieri Mazzilli – O Presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, dirige ao Presidente Juscelino Kubitschek o seguinte telegrama: 
“Peço ao eminente Presidente e amigo receber minhas congratulações efusivas pela partida da Coluna motorizada que participa da Caravana de Integração Nacional, simbolizando o sonho que seu dinâmico idealismo transformou em realidade brasileira”. 
Declaração presidencial – Na inauguração do Mercado Livre do Produtor no 2, no Rio de Janeiro, o Presidente Juscelino Kubitschek, falando de improviso, assim se refere ao encontro, em Brasília, no dia 2 de fevereiro, da Caravana de Integração Nacional: 
“Dentro de poucos minutos, vou transpor os céus deste País e, em algumas horas, descer no Planalto Central, onde, amanhã, assistiremos a uma solenidade singela, porém tocante e de profunda significação nacional: o encontro das Caravanas de Integração Nacional. Sabem o que significa esse movimento? Saíram de Belém, no Estado do Pará, às margens do Rio Amazonas, 65 automóveis, conduzindo 250 pessoas, para uma viagem até Brasília. Outros tantos automóveis saíram de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, ao encontro dessa caravana em Brasília. São quase 5 mil quilômetros de território brasileiro que estão sendo atravessados, de Norte a Sul, pela primeira vez na história do Brasil. E com uma particularidade: todas as caravanas transportadas por automóveis brasileiros, utilizando petróleo brasileiro e rodando em estradas pavimentadas com asfalto brasileiro.
É o Brasil que se levanta nos seus próprios pés para dominar as dificuldades e começar uma nova marcha, que nos dará a emancipação e a liberdade econômica. Daqui partiu outra caravana, que chegará amanhã a Brasília; de Cuiabá, no longínquo Mato Grosso, saiu outra caravana, que amanhã também como a daqui se encontrará em Brasília, formando uma verdadeira cruz de travessia do Brasil, em todas as suas direç cruz de travessia do Brasil, em todas as suas direções.
Os senhores devem ter ouvido falar no que foi o drama para romper esta estrada através da floresta virgem e impenetrável da região amazônica. Nós a atravessamos com o maior esforço, devassamos os mistérios mais impenetráveis do território brasileiro, e hoje esta Nação já pode ser circulada de Norte a Sul e de Leste a Oeste.
Os descrentes, os negativistas não acreditavam fossem possíveis empreendimentos de tal envergadura. Havia no País uma mentalidade ainda negativa, uma mentalidade que apelava sempre para a beira do abismo. Nós a estamos vencendo, nós a estamos dominando, e no fim deste Governo a Nação terá os instrumentos básicos indispensáveis para caminhar sozinha, independente e livre, na rota do seu destino.
Eu sabia que dificuldades inúmeras teria que enfrentar nesta jornada. Sabia que teria que exigir sacrifícios do povo brasileiro, mas pergunto: qual a maneira de uma nação progredir? Viver à custa de auxílios estrangeiros, colonizar-se, humilhar-se diante dos mais poderosos, para realizar o seu desenvolvimento, ou lutar com as próprias forças e vencendo as dificuldades, orgulhosamente proclamar que tem bravura e energia para forjar o seu próprio destino?
Estamos, nesta hora, assistindo a uma nova marcha do Brasil. Estamos subindo o Planalto Central, para conquistar dois terços desta Nação, ainda completamente desertos.”

02
Caravana de Integração Nacional – Em Brasília, celebra-se a cerimônia da chegada das quatro Colunas da Caravana de Integração Nacional. Já considerável massa popular se acumulava na Praça dos Três Poderes, na manhã de hoje, presentes numerosas autoridades, quando o Presidente Juscelino Kubitschek ali chegou, em helicóptero da FAB, para a recepção às Caravanas de Integração Nacional. Estas deram então entrada na praça, à frente a Coluna Sul, seguida pelas Colunas Leste, Norte e Oeste.
O Chefe do Governo, em pessoa, apresenta as boas-vindas aos integrantes das colunas, cumprimentando-os e trocando rápidas palavras com vários deles. Nessa ocasião, o entusiasmo popular chega ao auge, observando-se que a Coluna Norte merecia especial atenção de parte da multidão.
Depois de percorrer todo o trajeto em que estacionavam os números veículos, o Presidente Kubitschek deixa o local, ainda no helicóptero da FAB, acenando para o povo com a Bandeira Brasileira que, trazida de Belém, lhe fora ofertada pela Coluna Norte.
De grande solenidade se reveste a Missa de Ação de Graças que, como parte do programa de recepção, é celebrada pelo padre Teixeira, pároco de Brasília, no local em que se erguerá a Catedral de Brasília. Assistem ao ato o Presidente da República, D. Sarah Kubitschek, governadores de Estado, o Prefeito do Distrito Federal, parlamentares, demais autoridades em visita à cidade, todos os membros da Caravana de Integração Nacional e a quase totalidade da população de Brasília. Aviões da FAB, em vôos rasantes, deixam cair uma chuva de papel picado, antes da cerimônia religiosa.
Momentos antes da Missa, o Arcebispo de Goiânia pediu à comissão que até ali trouxera a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira de Belém, que a colocasse no altar, ao lado de Nossa Senhora Aparecida, padroeira de Brasília.
O sermão pronunciado por D. Fernando Gomes é todo ele alusivo à marcha realizada pela Caravana de Integração Nacional e à sua significação para o futuro do país. Encerrando-a, diz o Arcebispo de Goiânia:
“A marcha começou, para o triunfo do futuro do Brasil”.
Às 14h, realiza-se o churrasco, que reúne todas as autoridades que se encontram em Brasília, bem como operários que estão edificando a futura Capital federal. O primeiro orador é o senhor Celso Lisboa, presidente da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, que fala em nome desta e do povo de sua cidade. Segue-se com a palavra o Governador de Goiás, senhor José Feliciano Ferreira, falando em nome dos demais governadores presentes: o senhor José Adjunto Filho, prefeito de Unaí; um homem do povo, de nacionalidade norte-americana, há muito radicado em Goiás; o deputado por Goiás, Rezende Monteiro, em nome do vice-presidente da República, João Goulart.
O sexto orador da reunião é o senhor Lúcio Meira, presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico. O Brasil – diz – estava vivendo uma hora auspiciosa, uma hora histórica. Com sua inflexível determinação, o Presidente Juscelino Kubitschek faz de Brasília o marco da conquista do Oeste e da Amazônia, para que o país deixe de ser o antigo arquipélago econômico e social. 
Graças ao espírito audaz do Chefe do Governo, o Brasil afinal se encontra consigo mesmo, vê trafegar por belas estradas, pavimentadas com asfalto brasileiro, veículos brasileiros, queimando gasolina brasileira.
“Neste instante – acentua – a indústria automobilística nacional pode dizer: presente”.
E mais adiante:
“Aí estão os veículos brasileiros, prontos para o cumprimento de sua missão”.
Encerra sua oração transmitindo ao Presidente Kubitschek “a palavra de fé nos destinos da pátria, neste momento em que as caravanas chegam e o Brasil parte no rumo do futuro”.
Usa da palavra também, o Bispo D. José Pedro, traduzindo o júbilo de todo o povo brasileiro ante a concretização das metas governamentais.
“Precisamos acreditar num Brasil que se unisse em torno de empreendimentos como este – Brasília -, sonho que se tornou realidade. Aqui estou, para bendizer a pessoa de Vossa Excelência”.
E, a certa altura de sua oração:
“As injustiças, as calúnias e as incompreensões foram a moldura de todos os grandes homens que, no passado, trabalharam pela grandeza dos povos. Deus está com o Brasil, através de Vossa Excelência”.
Várias outras personalidades fazem uso da palavra, entre as quais o coronel Paulo René de Andrade, representando a cidade natal do Presidente da República, Diamantina; e o senhor Marcílio Viana.
O orador seguinte é o Governador do Amazonas, senhor Gilberto Mestrinho. Em tom entusiástico, ressalta as realizações do atual Governo, mencionando dentre elas Furnas e Três Marias. Os derrotistas e caluniadores – diz – fazem acusações ao Governo, mas este tem respondido a todas as calúnias com empreendimentos concretos: indústria automobilística, estradas que cortam o país de Norte a Sul, petróleo, conquistas de toda a sorte. Encerra suas palavras apresentando ao Presidente, pelo muito que tem sido realizado, os agradecimentos da Amazônia e do Estado do Amazonas.
Um operário, procedente da Paraíba, embora não estivesse inscrito entre os oradores, toma a palavra e, com expressões do mais alto entusiasmo, em nome de seus companheiros, saúda o Presidente Kubitschek.
Apesar da chuva que caia sobre Brasília, o povo não faltou com o seu aplauso ao desfile das colunas da Caravana de Integração Nacional, pelas principais ruas da cidade.
O presidente Juscelino Kubitschek num gesto que calou fundo no espírito de quantos integravam a grande parada cívica, compareceu em um minúsculo veículo “Romi-Isetta”, para mais uma vez cumprimentar os caravaneiros.
Encerrando a solenidade, fala o Presidente Juscelino Kubitschek.
Após seu discurso, o Presidente Juscelino Kubitschek diz algumas palavras, agradecendo as manifestações de todos os oradores e a colaboração que vem recebendo para a consecução das metas, por mais difíceis e exaustivas.
Em seguida, assina dois atos de significação nacional: um decreto conferindo condições de funcionamento, como porto livre, a Manaus, e outro conferindo o nome de Bernardo Sayão à rodovia Belém-Brasília.
O último a falar, antes do discurso de encerramento do Presidente Juscelino Kubitschek, é o senhor Antonio Carlos Cantão, em nome do Centro Acadêmico 11 de Agosto, de São Paulo; faz ele entrega ao Presidente Juscelino Kubitschek da seguinte mensagem em pergaminho, de autoria do poeta Guilherme de Almeida:
“Sobre o imenso mapa do Brasil desenha-se, neste instante, uma imensa cruz. Partindo, simultânea, dos quatro pontos-cardeais, quatro pontas de aço riscam a terra, atravessam lavras, selvas, praias, montes, vales, desertos e cidades, mirando um ponto de convergência. Aqui chegados, juntos, os quatro traços formam a desmedida cruz. É esta…como a do Cruzeiro do Sul, a das velas do Descobrimento e a do lenho da Primeira Missa, que, no céu, no mar e na terra, vem presidindo os destinos do Brasil, também esta será a benção. E porque é traçada pelas quatro colunas motomecanizadas da Caravana de Integração Nacional, será de Redenção.
Provindas – Norte, Sul, Leste e Oeste – avançaram, firmes, as quatro pontas de aço. É o Brasil que tem encontro marcado consigo mesmo em Brasília pelo Sinal da Santa Cruz”.
A imprensa noticia que o sucesso da marcha empreendida de Belém a Brasília foi de tal ordem que se animaram os seus comandantes a prosseguir viagem até o Rio, dando-a por encerrada na praça fronteira ao Palácio do Catete.

Bacia Amazônica – Durante sua estada em Brasília, o Presidente Juscelino Kubitschek recebe os governadores dos Estados e Territórios Federais da Bacia Amazônica. Nessa audiência, reúnem-se com o Presidente da República os governadores José de Mattos Carvalho, do Maranhão; José Feliciano Ferreira, de Goiás; Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, do Amazonas, e que representa o Governador do Pará; José Ponce de Arruda, de Mato Grosso; Paulo Nunes Leal, de Rondônia; Helio Araújo, do Rio Branco; e Manoel Fontenelle de Castro, do Acre.
Os governadores da Amazônia externam ao Presidente da República o seu desejo de ver executado um vasto plano administrativo e econômico para promover o rápido desenvolvimento de toda a região com o aproveitamento de seus incalculáveis recursos, elevando, ao mesmo tempo, o nível de vida de seus habitantes.
Na ocasião, os governadores apresentam a seguinte moção ao Presidente da República:
“Os governadores dos Estados e Territórios que compõem a Região Amazônica, no momento que reúne, na futura Capital da República, os participantes da Caravana de Integração Nacional, expressam a sua mais viva solidariedade ao dinamismo da administração do senhor Waldir Bouhid, o qual, à frente da Superintendência do Plano de Valorização da Amazônia, corresponde à confiança que lhe depositou o Senhor Presidente Juscelino Kubitschek ao lhe colocar sobre os ombros a pesada tarefa de encaminhar o enriquecimento de tão importante faixa do território pátrio.
Ao assumir essa posição, propugna a Amazônia por um esquema administrativo que assegure a continuidade da obra iniciada pelo senhor Waldir Bouhid no sentido de impedir qualquer colapso no ritmo que se imprimiu ao desenvolvimento da região, cujo abandono vinha ganhando características de verdadeira calamidade nacional.”
Recebe essa moção as assinaturas de todos os governadores acima.
O Presidente Juscelino Kubitschek assegura aos Governadores que teria todo o empenho em ver executado o plano sugerido pelos Governadores da Amazônia, solicitando-lhes que apresentassem um conjunto de medidas concretas e as estudassem com o senhor Waldir Bouhid, superintendente do Plano de Valorização da Amazônia. Os Governadores externaram sua satisfação pela receptividade dispensada pelo Presidente da República às suas mais importantes reivindicações. Fica assentado que os Governadores irão brevemente ao Rio para levar ao exame do Presidente Juscelino Kubitschek as medidas mais importantes e mais urgentes para acelerar o progresso daquela vasta região brasileira.

03
Rede Ferroviária Federal – A partir da mudança da Capital Federal para o Planalto Central, a Rede Ferroviária Federal S/A manterá permanentemente em Brasília elementos da Diretoria Jurídica e Financeira, a fim de acompanharem os processos de interesse da empresa.
A medida decorre de proposta do diretor jurídico que, à vista da próxima mudança do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Recursos, aponta a necessidade de se organizar um escritório em Brasília com o encargo de representar a Rede.
Em agosto de 1959, a RFF iniciou entendimentos com a Novacap para a escolha do local destinado ao edifício em que irá funcionar em Brasília.
Sistema Escolar – Em portaria, o Ministro da Educação determina época especial para o corrente ano letivo nas escolas mantidas pelo Ministério da Educação e Cultura na cidade de Brasília, futura Capital brasileira. Pela citada portaria o ano letivo de 1960 será de 16 de maio a 23 de dezembro, com o período de 28 de agosto a 11 de setembro para as férias escolares. As provas parciais serão realizadas entre 22 e 27 de agosto e 12 e 23 de dezembro.
Rodovia Belo Horizonte-Brasília – A imprensa brasileira assinala que a grande rodovia que ligará o Rio de Janeiro a Brasília, num percurso de 1.200 quilômetros, já está com a sua pavimentação quase concluída e, consequentemente, oferecendo perfeitas condições de tráfego entre o Rio de Janeiro e o Planalto goiano.
Essa obra constituiu um dos pontos que mais despertaram a atenção dos integrantes da Coluna Leste da Caravana de Integração Nacional, que, juntamente com as Colunas Norte, proveniente de Belém do Pará; Oeste, oriunda de Cuiabá; e Coluna Sul, cujo trajeto teve inicio em Porto Alegre, participou ativamente dos festejos comemorativos do 4º aniversário da administração do Presidente Juscelino Kubitschek.
Durante os pernoites e, mesmo, nas rápidas paradas, os componentes da Coluna Leste da Caravana de Integração Nacional tiveram oportunidade de ouvir a opinião de vários prefeitos e de grande número de pessoas interessadas na vida e no progresso das comunidades, e todos tiveram palavras do mais franco elogio para o grande empreendimento.
Os prefeitos e habitantes das cidades de João Pinheiro, Felixlândia, Sete Lagoas, Lafaiete, Santos Dumont, Juiz de Fora, Barbacena, Três Marias e outros municípios de Minas e de Cristalina e Luziânia, em Goiás, foram unânimes em exaltar a obra e chegaram mesmo a considerá-la como um novo ponto de partida para a redenção econômica das respectivas comunas.
Dirigindo palavras de saudação aos caravaneiros, os prefeitos de Cristalina e Luziânia declaram ver na rodovia Belo Horizonte-Brasília um dos motivos de maior significação e importância para o barateamento do custo de vida.
Ministério da Saúde – A Agência Nacional divulga uma entrevista com o Doutor Mário Pinotti, Ministro da Saúde, a propósito da significação histórica de Brasília e sobre as providências de sua pasta no setor da assistência sanitária à futura Capital.
Colonização da Rodovia Belém-Brasília – Em Brasília, o Presidente Juscelino Kubitschek preside a uma reunião de Governadores dos Estados e Territórios da Bacia Amazônica, no Palácio da Alvorada, a fim de tratar da colonização das terras marginais da rodovia Bernardo Sayão.
A conferência, que conta com a presença dos Governadores do Amazonas, Maranhão, Rondônia, Rio Branco, Acre, do Superintendente do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, do Arcebispo de Goiânia e de assessores presidenciais, tem como objetivo a obra de humanização e colonização das terras marginais do grande eixo rodoviário, agora aberto ao desenvolvimento do país. Em nome de todos os Bispos e prelados da região cortada pela rodovia, os sacerdotes presentes expressam seu desejo de colaboração e fazem apelo ao Presidente da República no sentido de serem adotada providencias imediatas para evitar a ocupação desordenada das terras devolutas e matas virgens. Em rápidas palavras, o Arcebispo de Goiânia informa o presidente sobre a luta titânica que o Bispo de Porto Nacional, Dom Alano, vem travando contra certos concessionários de terras devolutas, os quais, de posse de documentação falha, tentam espoliar os desbravadores das selvas e construtores da estrada, que ali estão se fixando. Apela Dom Fernando para a criação de um Grupo de Trabalho, a exemplo do que ocorre com a execução das tarefas resultantes dos históricos encontros de Campina Grande e de Natal. Desse grupo deverão participar representantes dos Governos da região, do Exército Nacional, do INIC, da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, do Serviço Social Rural, do Departamento Nacional da Produção Vegetal, da Legião Brasileira de Assistência e de outros órgãos cuja cooperação vier a ser considerada necessária para a execução dos planos traçados. Os Governadores presentes apóiam a sugestão de Dom Fernando, tendo o Presidente Juscelino Kubitschek recebido a iniciativa com o maior entusiasmo e ordenado as primeiras providências no sentido da concretização da mesma, de sorte a não retardar o início dos trabalhos práticos um só instante, a fim de que o mesmo se efetive antes mesmo da mudança da Capital federal para Brasília. O Presidente Juscelino Kubitschek dá ordem para que se providencie a reunião, nos próximos dias, no Palácio do Catete, dos Bispos da região ao longo do eixo rodoviário Belém-Brasília, bem como de representantes dos Governos dos Estados interessados, além dos demais órgãos citados, para coordenação dos esforços que vão ser exigidos pelo trabalho a ser apresentado com a maior brevidade.
Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional – Partem de Brasília para o Rio de Janeiro os integrantes da Coluna, que na primeira etapa atingem João Pinheiro, em Minas Gerais, onde pernoitam.

04
Deputado Emival Caiado – O deputado Emival Caiado, presidente do Bloco Parlamentar Mudancista, concede entrevista à Agencia Nacional, afirmando:
 – A construção da nova Capital e a transferência dos Poderes da República são fatos consumados e não cabe, a esta altura, discutir se a mudança se fará, mas tratar-se de efetivá-la, uma vez que já existem condições para isso. Meu projeto de fixação da data decorreu, não de deliberação precipitada, mas de exame acurado e planificação minuciosa.
O que a Novacap, visando a alcançar as condições mínimas imprescindíveis para a mudança, estará realizado, sem dúvida alguma, a 21 de abril.
 Esclarece o deputado Emival Caiado, ainda, que promoveu uma reunião do Bloco Parlamentar Mudancista para o estudo de questões ligadas à transferência, tendo o grupo, depois de amplos debates, deliberado oferecer total apoio às medidas assentadas pela mesa da Câmara para a mudança desta, procurando mesmo estimulá-la na intensificação dos trabalhos até 21 de abril.
 – Com essa finalidade – acrescenta – a presidência do Bloco Parlamentar Mudancista pensa em acompanhar de perto as atividades dos diferentes setores encarregados da mudança, tendo sempre presente a necessidade de se dar a tal orientação um tratamento político de alto teor, condizente com o espírito patriótico da empresa.
Finaliza sua entrevista o deputado Emival Caiado declarando que, “para dissipar qualquer dúvida na opinião pública”, o Bloco Parlamentar Mudancista resolveu proclamar ao País que serão inúteis todas as impatrióticas tentativas de adiamento de transferência da Capital Federal para o Planalto Central.
Caravana de Integração Nacional – Em entrevista de imprensa, o Major Edson Perpétuo, coordenador da Caravana, manifesta sua satisfação pela precisão cronométrica com que foram executados os planos, lembrando que a Coluna Leste se atrasou em sua chegada à Brasília apensa sete minutos: prevista para às 12 h do dia 1º de fevereiro, sua entrada na nova Capital ocorreu às 12 h e 7 m.
Revela também que, por toda a parte recebeu a Coluna Leste homenagens, não só de autoridades como de pessoas do povo. Em Cristalândia, pequena cidade do interior de Goiás, por exemplo, a população, tendo à frente o prefeito, abriu as portas de suas residências aos integrantes da Caravana. Ali, lhe foi feita uma intimação, pelo prefeito: este desejava receber, oficialmente um relatório de toda a jornada, para ser incluído na história da localidade.
Revela finalmente o Major Edson Perpétuo que vai reunir esforços, novamente, desta feita para organizar a Caravana de Integração do Nordeste. Esta, constituída por uma coluna-monstro, deverá partir de Fortaleza e atingir Brasília.
Interessante depoimento é feito, também, pelo Coronel Aviador Lino Teixeira, que comandou a Coluna Norte, à qual coube realizar o percurso Belém-Brasília, através da Rodovia Bernardo Sayão. A viagem dessa coluna durou sete dias, incluindo a estada em Goiânia, onde foram prestadas grandes homenagens à caravana. O deslocamento se fez igualmente com absoluto êxito.
– Para que se avalie a excelente condição da Rodovia Bernardo Sayão – declara aquele militar – basta dizer-se que, durante toda a viagem, não ocorreu um só acidente com veículo. Nem mesmo um pneumático furado, o que é digno de nota. Um eloqüente atestado de ação governamental nestes quatro anos e um magnífico teste para a nossa indústria automobilística.
Encerrando seu depoimento, diz o Coronel Lino Teixeira que no domingo, dia 24 de janeiro, a meio percurso da Coluna Norte, foi celebrada Missa, pelo Bispo de Bragança, no local em que perdeu a vida o engenheiro Bernardo Sayão, um dos pioneiros da abertura da rodovia Belém-Brasília.
Abastecimento – Anuncia-se que, a fim de fazer face ao aumento de população que se verificará em Brasília com a transferência da Capital, estão sendo intensificados os trabalhos agrícolas que vem sendo levados a efeito pelo Ministério da Agricultura e pela Novacap, através de convênios, na área do futuro Distrito Federal, superior a 5 mil quilômetros quadrados.
Em sua recente visita a Brasília, o Ministro Mário Meneguetti examinou vários problemas e assentou providências para a sua solução, trocando idéias com o Sr. Israel Pinheiro e com os representantes do seu Ministério.
Desde logo, ficou decidida a imediata ampliação dos convênios, de forma a se emprestar maior vulto à produção vegetal e animal. Deverá ser construído pelo Ministério da Agricultura um conjunto de armazéns e silos no grande Centro de Abastecimento, onde vem a Novacap de autorizar a construção de um moinho de trigo, com a capacidade diária de 100 toneladas.
Dos entendimentos havidos, ficou assentada ainda a vinda de outros técnicos do Ministério da Agricultura para pesquisas agronômicas, e se acordou a entrega ao Ministério de uma área rural de 12 mil hectares para instalação de serviços técnicos.
Será em breve inaugurado o primeiro supermercado construído pela Novacap, enquanto se iniciam as obras do segundo e as de uma usina de pasteurização.
Fazenda-Escola – Uma Fazenda-Escola, cuja base é constituída pelo antigo Posto de Criação e Monta, que há mais de cinco anos é mantido pela Inspetoria de Fomento Animal de Goiânia, está em organização por técnicos do Ministério da Agricultura, para desenvolvimento da pecuária nesta região. A Fazenda-Escola ocupa uma área de 430 ha
a ser ampliada para 1.660 hectares e dista 26 quilômetros do perímetro urbano de Brasília, cabendo-lhe estimular as atividades até então a cargo do Posto, cuja eficiência deixava a desejar diante da falta de recursos, de pessoal e equipamento com que lutava.
Com a construção de Brasília, foi reconhecida a necessidade de desenvolver aqueles trabalhos pioneiros e, para esse fim, estabeleceu-se o Projeto 44 firmado pelo Ministério da Agricultura, Novacap e o ETA, cujo programa teve inicio em agosto de 1958. Mais de 23 milhões de cruzeiros e 12.500 dólares foram aplicados nos trabalhos de campo, de construções e de assistência aos criadores locais. A Fazenda-Escola possui 315 hectares preparados (destocados), dos quais 290 plantados. Conta com nove veículos, 5 tratores, e 13 reprodutores machos de raças européias e deverá receber brevemente 50 vacas para revenda. Dez prédios modestos foram construídos, inclusive um laboratório veterinário para inseminação artificial, inaugurado há dias. Um apiário, com 15 núcleos iniciais, está sendo formado. Também funcionará ali um Posto de Demonstração Avícola, mediante contrato com o Projeto ETA-42.
A Fazenda está preparada para atender a todos os pedidos de mudas e sementes de forrageiras para a formação de pastagens. O seu campo experimental possui mais de 100 variedades de forrageiras, oriundas das mais diferentes regiões do País. No ano passado forneceu aos interessados 120 mil mudas de capim Guatemala, 40 mil de aipim e 20 mil estacas de cana forrageiras, além de algumas dezenas de sacos de semente de capim gordura e de outras forrageiras, inclusive leguminosas, para multiplicação em granjas da Novacap e particulares. A sua patrulha mecanizada começou a funcionar em dezembro de já preparou mais de 100 hectares para formação de pastagens em propriedades de criadores locais. Pretende utilizar em larga escala a inseminação artificial e 30 filhos de reprodutores da Fazenda vem sendo criados em diversas propriedades para melhoramento dos rebanhos.
Coluna Norte da Caravana de Integração – A Coluna, no rumo do Rio de Janeiro, chega à capital mineira.

 

05
O.E.A – Acha-se em estudos, na Organização dos Estados Americanos, em Washington, o projeto para a construção, em Brasília, da sede de seus serviços no Brasil, sede ora situada no Rio de Janeiro.
Presidência da República – O Presidente Juscelino Kubitschek autoriza o levantamento do pessoal dos Gabinetes Militar e Civil para funcionamento na nova Capital, tendo em vista a próxima mudança da Secretaria da Presidência da República para Brasília.
Comunicações – O Presidente Juscelino Kubitschek assina decreto declarando de utilidade pública, para fins de desapropriação em caráter urgente, pelo Departamento de Correios e Telégrafos, de um terreno em Paulo de Frontin, Estado do Rio, com a área de 2.400 m2 para a instalação de uma das subestações do sistema de micro-onda entre o Rio de Janeiro e Brasília.
Governador Carvalho Pinto – O Presidente Juscelino Kubitschek recebe do Governador de São Paulo o seguinte telegrama:
“Lamentando a absoluta impossibilidade de comparecer, venho agradecer ao eminente Chefe da Nação o honroso convite com que me distinguiu para participar em Brasília da concentração promovida pela indústria automobilística nacional, ao ensejo do 4º aniversário do seu Governo. Já tive oportunidade, na passagem por São Paulo, da Caravana Sul, de dar-lhe o testemunho de meu apreço e caloroso apoio.
Venho agora congratular-me com Vossa Excelência e com a indústria automobilística pelo notável feito, exemplo da alta capacidade técnica dos veículos de fabricação nacional assim a serviço da causa da integração do vasto “hinterland” brasileiro, que notadamente caracteriza os patrióticos esforços do governo de Vossa Excelência, na luta contra o subdesenvolvimento”.

Ministério da Agricultura – O Ministro Mário Meneguetti reúne, em seu Gabinete, os diretores de Serviço e principais auxiliares para expor o seu plano de instalação, em Brasília, no menor tempo possível, do Ministério da Agricultura.
Inicialmente, o titular da pasta da produção mandara executar, pela Diretoria de Obras, o projeto da construção de armazéns e silos com capacidade para 12.000 toneladas, com um centro regulador dos produtos dos municípios satélites de Brasília.
 Outra medida tomada é o fornecimento de pescado, que será distribuído de maneira que não falte esse alimento à população da nova Capital.
O Ministro da Agricultura terá, em Brasília, duas sedes: uma burocrática, outra rural, ou seja, “Ministério fora do asfalto, na zona rural”. Para esta sede já existe uma área estabelecida de 11.700 hectares de terra.
 Núcleo Colonial do INIC – Localizado na região de Guariroba, dentro do Território Federal de Brasília, o Núcleo Colonial organizado pelo Instituto Nacional de Imigração e Colonização está em condições de tornar-se em futuro próximo um grande centro de abastecimento de gêneros de toda espécie à futura capital do país. Suas terras se estendem por 20 mil hectares, numa altitude média de 1.100 metros e, graças ao seu clima temperado-seco e ameno, e às condições naturais de irrigação, com mananciais permanentes, entre os quais sobressai o Rio das Pedras, poderão receber as mais variadas culturas e propiciar a formação de pastagens para a criação de gado.
Nada diz melhor da riqueza do solo do Núcleo Colonial de Brasília do que sua produção atual, variada e relativamente volumosa, abrangendo cereais, produtos horti-granjeiros, leite e frutas. Os principais produtos fornecidos pelo Núcleo à nova Capital são: café, fumo, cana de açúcar, arroz, milho, feijão, mandioca, batata, frutas diversas, leite e carne.
Esta produção tende a intensificar-se, pois o INIC já tem projetada a distribuição de novos lotes a colonos que desejarem lá se fixar. O projeto de distribuição compreende 20 mil hectares, assim divididos: 550 lotes rurais de 30 hectares, cada um e 500 lotes urbanos de 1.000m2. O INIC reservará uma área de 350 hectares para parques, jardins, campos de demonstração, etc e, para escoamento da produção, construirá estradas num total de 125 quilômetros.
Outros informes sobre o núcleo: temperatura média 19º; topografia ondulada. É servido por rodovias e aviões, estando distante do Rio de Janeiro 1.828 quilômetros via São Paulo e 1.868 quilômetros via Belo Horizonte. Por via aérea, o percurso é coberto em 3h e 20 m em aviões tipo “DC-3” e em 2h e 50m em “Convair”.
Caravana de Integração Nacional – A Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional que partiu de Belém do Pará para juntar-se às Colunas Sul, Leste e Oeste e que no dia 2 do corrente participaram das festividades comemorativas do 4º aniversário da administração do Presidente Juscelino Kubitschek, chega ao Rio precisamente às 16h e 30m, depois de realizar excelente viagem e sem que fosse registrado qualquer acidente.
A Coluna, conduzindo quase 200 pessoas, percorreu 3.400 quilômetros, sendo que 2.200 no trecho Belém-Brasília, rompendo a selva amazônica através da rodovia Bernardo Sayão. O restante do percurso, ou seja, de Brasília ao Rio de Janeiro, foi realizado através de estradas quase completamente pavimentadas e construídas em obediência aos princípios da mais moderna técnica rodoviária.
Precedida de um esquadrão dos Dragões da Independência e de batedores da Inspetoria de Trânsito, a Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional chega ao Palácio do Catete às 16 h e 35 m.
Da sacada do Palácio, o Presidente Juscelino Kubitschek, na ocasião, também acompanhado de suas duas filhas, aplaude e recepciona entusiàsticamente os integrantes da Coluna, que totaliza 65 veículos.
Após a parada da Coluna, com os veículos estacionados em fila dupla, usa da palavra o Coronel-Aviador Lino Teixeira, que rapidamente focaliza os principais aspectos da jornada. No decorrer de sua oração, o Senhor Waldir Bouhid enaltece a obra do Presidente Juscelino Kubitschek, exaltando o seu grande trabalho no sentido da completa união nacional, através da construção de estradas ligando todos os pontos do país, e finaliza seu discurso exaltando a memória de Bernardo Sayão, o pioneiro da grande obra, e de Ruy Almeida, ambos falecidos na luta pelo engrandecimento do Brasil.
A esse orador, segue-se com a palavra Dom Elizeu Carolli, Bispo de Bragança, Estado do Pará, que também participou ativamente da Coluna, realizando o trabalho de um verdadeiro guia espiritual. As palavras do Bispo de Bragança são constantemente interrompidas. Falando em nome do Presidente da República, e exaltando o grande feito, discursa Dom José Pedro, Bispo de Caetité, Bahia, que em Brasília, durante o grande churrasco, também saudara os componentes das quatro Colunas da Caravana de Integração Nacional. Durante o discurso, Dom José Pedro da Costa refere-se, com palavras repassadas de entusiasmo, à obra que o Presidente Juscelino Kubitschek está realizando, principalmente no que diz respeito à luta contra o subdesenvolvimento.
Grande manifestação de aplauso e simpatia recebe a Coluna durante sua passagem pela Avenida Rio Branco, quando o povo, postado à beira das calçadas, tributa ao caravaneiros as maiores manifestações de carinho, enquanto que das janelas e sacadas dos edifícios são atiradas sobre a Coluna verdadeiras chuvas de confetes, papéis picotados, flores e serpentinas. O mesmo entusiasmo popular é notado em frente ao Palácio do Governo e na Rua Silveira Martins.
Exposição presidencial – Através de uma cadeia de radioemisssoras e canais de televisão, o Presidente Juscelino Kubitschek, durante mais de duas horas e meia, realiza uma exposição sobre seu Governo, referindo-se também a Brasília, que chama de meta-síntese de sua administração.
Afirma que, se não fosse o fato em si da mudança da capital, algo de extraordinário deveria haver nesta obra para provocar as atenções gerais. Declara que Brasília contém um profundo sentido de cristalização filosófica do desenvolvimento; ela quer dizer que estamos saindo do litoral depois de 400 anos de lutas. Ela afirma que o gigante está voltado agora para o interior. Descrevendo aspectos urbanísticos da nova Capital, alude às opiniões de numerosas autoridades estrangeiras que nos visitaram, inclusive à do Ministro da Cultura de França, André Malraux, que classificou Brasília como a capital da esperança, dizendo:
 “Se renascer a velha paixão das inscrições nos monumentos, gravar-se-á sobre os que aqui vão nascer: Audácia. Energia, Confiança. Não se trata de vossa divisa oficial, mas talvez da que vos dará a posteridade”.
 Declara o Presidente ser profundamente doloroso que o Brasil em 1960 tenha dois terço de sua superfície como um deserto, mas que Brasília, o marco número um do desenvolvimento do Brasil, vai fazer a integração nacional como já o comprovaram as caravanas que acabam de realizar a ligação Norte-Sul, Leste-Oeste do país. Explica ainda que, dentro em breve, em lugar de vinte teremos vinte e uma estrelas, com o Estado da Guanabara em nossa bandeira.
O Presidente, em seguida, diz de sua satisfação de poder cumprir com a construção de Brasília um dos sonhos dos Inconfidentes mineiros até agora não realizado: o da interiorização da capital do Brasil.

06
Convênio Florestal – Um acordo de florestamento entre o Ministério da Agricultura e a Novacap está funcionando desde o segundo semestre de 1957, em um programa de trabalho amplo, destinado a promover estudos e efetivar serviços de florestamento, reflorestamento e demais atividades relacionadas com as silvicultura, na área do futuro Distrito Federal. Recursos são fornecidos por ambas as partes contratantes do convênio, sendo que a sede dos trabalhos é a antiga Fazenda do Bananal.
Foram distribuídas até agora para Brasília e cidade satélite de Taguatinga e Planaltina cerca de 10.000 mudas de essências florestais, entre elas casuarinas, flamboyant, pinus eliottii, pinus excelsa, cássias, araucárias, guapuruvu, tamboril, etc. O convênio dispõe atualmente de 600.000 mudas, sendo grande parte já embaladas.
No tocante à ornamentação, foi desenvolvida tarefa considerável, havendo, presentemente, cinco milhões de mudas de plantas ornamentais, como orquidáceas, bromeliáceas, gesneceáceas philodendrons, etc. Neste setor, além da ornamentação da cidade, tem cooperado na formação de jardins particulares.
Já foram distribuídas mais de 200.000 mudas ornamentais, estando semeadas mais de um milhão de sementes de essências florestais e ornamentais.

Rodovia Bernardo Sayão – Pelo Decreto no. 47.763, o Presidente Juscelino Kubitschek dá o nome de Bernardo Sayão à rodovia Belém-Brasília.
08
Palmeiras imperiais – Para plantio na Praça dos Três Poderes, vão ser adquiridas mais 500 mudas de Palmeiras Imperiais, procedentes da cidade mineira de Mar de Espanha.
Logo que terminarem os ajardinamentos de outros locais, serão atacados os serviços naquela praça.
Embaixada do Japão – Encontram-se em Brasília membros da Embaixada do Japão, com a finalidade de tomar as primeiras providências para a instalação da representação de seu país na quadra a esse fim reservada. Os diplomatas visitantes são os Srs. Hisajiro Fujita, Conselheiro da Embaixada; Akaioshi Otaki, adido; e Tadashi Iwase, encarregado dos assuntos brasileiros no Ministério das Relações Exteriores do Japão.
 Cinema – Antes de 21 de abril estará terminada a construção do Cine Unidade de Vizinhança, que se localiza entre os blocos de apartamentos do IAPI e do IAPETC e que começou a ser erguido em novembro do ano passado.
Com uma tela de 15 metros por 7, uma fachada de 54 metros e tendo 60 metros da entrada à tela, o primeiro cinema de Brasília terá capacidade para 1.500 espectadores, e disporá de ar refrigerado.
 Nova pista do Aeroporto – Construída segundo os mais modernos requisitos técnicos, a nova pista do Aeroporto desta cidade terá uma extensão de 3.800 metros, permitindo o pouso dos grandes aviões a jacto, e seu custo está orçado em 600 milhões de cruzeiros.
 IAPB – O Presidente da comissão encarregada da construção de edifícios para o Instituto dos Bancários revela que os segurados desse Instituto e os funcionários que para aqui vieram transferidos terão à sua disposição, por aluguéis módicos, 152 casas. Declarou ainda que, do total de 456 apartamentos de construção a cargo do IAPB, já foram entregues, até o momento, 321, sendo que os restantes estarão em mãos do Grupo de Trabalho até 21 de abril. Disse, por fim, que os imóveis construídos até agora não serão vendidos.
Ministério da Viação – Anuncia a imprensa que estiveram em visita à futura Capital os servidores do Ministério da Viação que constituem o primeiro escalão daquela Secretaria de Estado que terão exercício em Brasília.
Em demorada visita de fim de semana às acomodações familiares e demais dependências do Ministério da nova Capital, os servidores em causa regressam satisfeitos e entusiasmados com o que puderam ali observar.

09
Jornalistas internacionais – Visita Brasília uma caravana composta de mais de 80 jornalistas internacionais, entre eles o Sr. William Randolph Hearst Jr., proprietário de famosa cadeia de jornais norte-americanos.
Palácio dos Despachos – Acha-se em fase de acabamento, recebendo retoques finais, o Palácio dos Despachos, com entrega prevista para os próximos dias. Nesse Palácio já foi realizado o grande banquete de recepção aos integrantes da Caravana de Integração Nacional, que recentemente se reuniu em Brasília procedendo de todos os extremos do país.
Rodovia Bernardo Sayão – O senhor Alair Barros, Chefe de serviço da Rodobrás, diz à imprensa, em entrevista, que, sem o apoio da Aeronáutica, teria sido praticamente impossível a abertura da rodovia Belém-Brasília dentro do curto prazo em que se realizou a obra, acentuando:
“Foi, com efeito, notável o trabalho realizado pelos oficiais e funcionários do Ministério da Aeronáutica destacados para apoiar as frentes de serviço dos trabalhadores da Rodobrás. Abrindo campos de pouso na selva equatorial, transportando técnicos e trabalhadores mortos e feridos, gêneros alimentícios, medicamentos, levando e trazendo notícias, as aeronaves transformaram-s, durante todo o tempo da derrubada das matas e da abertura do traçado, no único elo de ligação entre a civilização e os que construíam a estrada.”
Com a criação do Departamento de Base Aérea de Brasília, em maio de 1958, foi possível organizar-se o plano de cobertura dos aviões da FAB aos trabalhadores encarregados do desmatamento. Naquela ocasião, chegava à futura Capital Federal o primeiro C-47, com cerca de vinte homens a bordo para manutenção e guarda das aeronaves que seriam colocadas á disposição do Destacamento. Não havia em Brasília acomodações apropriadas para o pessoal.
Militares e civis comiam precariamente, pois ainda não existia rancho. As primeiras clareiras na mata foram abertas sob a orientação do Ministério da Aeronáutica. A de Guamá, às margens do rio com idêntico nome e distante 140 quilômetros de Belém, serviu como ponto de referencia ás demais, que passaram a denominar-se Quilômetro 14, Quilômetro 163, Quilômetro 305, Quilômetro 402, etc., de Guamá.
À medida que as frentes de serviço penetravam na selva, as aeronaves da FAB despejavam os alimentos em pacotes ou em sacos, na clareira mais próxima. “Paulistinhas”, “Beechcrafts” e  “Douglas” efetuavam arriscados vôos rasantes e a velocidade reduzida para cumprir essas missões. Raros foram os casos de perda de material, por erro de cálculo, apesar de os pilotos efetuarem as manobras “medindo as árvores de 60 metros”. Encerrada a fase de desmatamento e com o avanço das máquinas encarregadas de nivelar o terreno e de abrir o traçado, muitas das clareiras puderam ser transformadas em pista de pouso, sob a orientação ainda dos técnicos da Aeronáutica. Hoje contam-se 18 pistas de pouso ao longo da Rodovia Belém-Brasília, com uma extensão que varia de 800 a 1.300 metros cada
Para continuar apoiando a construção da BR-14, o Destacamento de Base Aérea de Brasília dispõe agora de 3 aviões C-47. 2 helicópteros e alguns aviões de pequeno porte.”
Mais 4 aviões de treinamento a jacto, do tipo T-33 chegarão ao nosso país brevemente e serão destinados ao Curso de Caça, que funciona em Fortaleza. Esses aparelhos serão transportados para o Brasil em vôo.

10
Catedral – Divulga-se que a iniciativa privada, representada pela maioria das empresas construtora que trabalham em Brasília, colaborará para o erguimento da catedral planejada por Oscar Niemeyer. A catedral, que ficará localizada na Praça dos Três Poderes, já tem sua construção iniciada, com o anel de base concluído, em formato circular.
Agora, as colunas começam a surgir e toda a população verifica que mais esta gigantesca obra, que abrigará os católicos da nova capital em suas maiores festas, terá sua construção finalizada em breve. Até agora foram reunidos para o levantamento do templo quatorze milhões e seiscentos mil cruzeiros, como colaboração de cerca de cinqüenta empresas construtoras e bancárias que operam aqui.
Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional – Às 9 horas, parte do Rio de Janeiro, com destino a Porto Alegre, a Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional. Batedores da Guarda Civil escoltam a caravana até à barreira da Rodovia Presidente Dutra.
Compõem a caravana trinta e sete veículos de fabricação nacional e mais de duzentas pessoas, entre autoridades civis e militares, jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos. Na cidade de São José dos Campos, a ela se incorporarão mais cinco carros, também de fabricação nacional.
A Coluna Norte percorrerá todas as cidades que margeiam a rodovia Rio-São Paulo. De São Paulo rumará a Registro-Curitiba, Rio Negro-Lajes-Vacaria-Caxias do Sul, e finalmente, Porto Alegre, aonde deverá chegar na próxima segunda-feira.
Visita do Presidente Eisenhower – O Departamento de Estado dos Estados Unidos da América cede ao Governo brasileiro, por empréstimo, o equipamento de transmissão radiotelefônico que colocará Brasília em comunicação com o resto do mundo durante a próxima visita do Presidente Eisenhower.
O equipamento destina-se a 18 canais de radiotransmissão e pesa, ao todo, 25 mil libras, ou seja, de 10 toneladas, devendo seguir para Brasília logo após seu desembarque.
Com essa iniciativa do Itamarati os correspondentes estrangeiros que acompanharam o Chefe da Nação americana à futura Capital do Brasil terão sua missão facilitada.
Organização Judiciária – O Presidente Juscelino Kubitschek envia ao Congresso Nacional, acompanhado de mensagem, o projeto de lei que dispõe sobre a Organização Judiciária do Distrito Federal de Brasília.
Lei Orgânica de Brasília – O Presidente Juscelino Kubitschek envia ao Congresso Nacional, acompanhado de mensagem, o projeto de Lei Orgânica do Distrito Federal de Brasília.
Hospital de Brasília – O Presidente Juscelino Kubitschek aprova o plano de aplicação proposto pelo Ministério da Saúde, referente à dotação de duzentos milhões de cruzeiros, para prosseguimento das obras do Hospital Distrital de Brasília.

11
Ministério da Agricultura – Em entrevista de imprensa, o senhor José Vieira, Chefe do Serviço de Informação Agrícola do Ministério da Agricultura afirma que os setores afetos ao Ministério da Agricultura, na área da futura Capital Federal, vem sendo cuidados com a atenção exigida pela sua importância em face do crescente desenvolvimento demográfico da região. O empenho com que estão sendo realizados os serviços de fomento da produção vegetal e animal, bem como os trabalhos florestais, são de molde a assegurar perspectivas as mais animadoras, quanto a esse ãngulo, para aqueles que se vão radicar em Brasília.
– Tais serviços de fomento – acrescenta o sr. José Vieira – estão entregues a técnicos competentes e vem tendo todo apoio do Ministro Meneguetti. Realizados em regime de convênios com a Novacap, estão obtendo bons resultados, a despeito das dificuldades encontradas. Em minha visita a Brasília, pude apreciar os trabalhos diretos que a Novacap está levando a cabo no setor agrícola e que representam uma apreciável colaboração em beneficio da cidade.
Prossegue o diretor do S.I.A. informando que o convênio firmado entre o Ministério, a Novacap e o E.T.A. (Projeto 34), posto em execução em 1957, propiciou a inversão de cerca de trinta e dois milhões de cruzeiros e a aquisição de equipamentos no exterior, interessando sua aplicação a uma área de 1,892 hectares. Nessa área, que já dispõe de 43 quilômetros de estradas internas, estão sendo usados recursos para restauração e conservação do solo, bem como para terraceamento. Possui ela, agora, 300 hectares cultivados, nos quais foi aplicado o método de cultura seca e produção de cobertura vegetal, cujas finalidades são diminuir a evaporação e adubar a terra.
Passando a aludir às possibilidades agrícolas da região da futura Capital, revela o Sr. José Vieira:
– Aplicada a técnica agronômica em 4.200 m2 daquela área do Ministério da Agricultura, foi obtido no ano passado, com a plantação de 19 variedades hortícolas, um lucro de quase 160 mil cruzeiros. Ali se obteve também milho, feijão, melancia, mandioca, amendoim, bem como se conseguiu excelente resultado com a criação de aves. Existem ali duas represas em funcionamento, 5.230 matrizes frutícolas, 35 mil pés de abacaxis em produção e grande plantio de batata-doce.
Por sua vez, o Projeto-44, que reúne atividade do Ministério, do ETA e da Novacap, está alcançando bons resultados no que diz respeito á produção animal.
Numa fazenda de 1.660 hectares, estão sendo executados trabalhos proveitosos, desde 1958. Nessa fazenda, que se situa a 26 quilômetros de Brasília, foram preparados 315 hectares, dos quais 290 já se acham plantados. Mais de 100 variedades de forrageiras são cultivados em seu campo experimental, tendo sido distribuídas aos criadores locais, até hoje, mais de 120 mil mudas de capim guatemala, 40 mil de aipim, 20 mil estacas de cana forrageira, dezenas de sacos de sementes de capim gordura e outros. Este ano, poderão ser atendidos todos os pedidos das granjas oficiais e particulares de Brasília, para a formação de pastagens.
Com relação aos trabalhos florestais, estão se processando segundo os planos. Para esse fim, através de acordo com a Novacap, dispõem os responsáveis por sua execução de 600 mil mudas de árvores e 5 milhões de unidades para ajardinamento. Mais de 10 mil mudas de essências florestais e mais de 200 mil mudas ornamentais foram entregues à Novacap para arborização da cidade.
Rodovia Bernardo Sayão – Entre os serviços que a rodovia Bernardo Sayão prestará à economia do Planalto Central, a partir de pouco tempo, está o do transporte do sal, que terá o percurso de chegada a Brasília diminuído de dois mil quinhentos e vinte e oito quilômetros, bastando para tanto que seja efetivado o entrosamento desta grande estrada com a rede rodoviária nordestina. Esta afirmação está contida em um estudo escrito pelo presidente do Instituto Brasileiro do Sal, senhor Dioclécio Duarte, e enviado ao Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, agora encampado pela Sudene. O que se torna necessário – afirma aquela autoridade federal, na tese – é que se encontre uma fórmula de intercâmbio comercial que garanta uma troca constante, de modo a assegurar equilíbrio econômico para as empresas que se dispuserem a transportar o sal para o Planalto.
O comércio de sal para o Centro do País,com a volta dos veículos transportando, por exemplo, o charque goiano, que é de ótima qualidade, seria um dos meios concretos para a solução do problema.
Estas considerações de ordem econômica foram dadas ao CODENO tendo em vista a proximidade da transferência da capital para Brasília e a necessidade de cuidar-se de assunto de grande importância, dada a necessidade do sal para o consumo de uma grande população que se fixará no Planalto Central, bem como para os rebanhos que ali se encontram e diversos tipos de indústrias que se estabelecerão na mesma região, precisando de grandes quantidades do produto.
A mudança da sede do Governo para o centro geográfico do país motivou novos estudos por parte da direção do Instituto Brasileiro de Sal, através de seu presidente e de seus vários técnicos. A diminuição do percurso de mais de dois mil e quinhentos quilômetros, significará possibilidades de barateamento do produto, tendo em vista os fretes menores. As ligações terrestres para a rodovia Belém-Brasília estabelecerão os novos rumos para os transportes de sal nesta região brasileira que agora se lança como sede do desenvolvimento do Brasil.
Hospedagem de visitantes – A cidade de Goiânia, Capital do Estado de Goiás, já iniciou os preparativos para recepcionar ilustres visitantes que para ali acorrerão em virtude da transferência da capital no próximo mês de abril.
Sua administração municipal, chefiada pelo prefeito Jayme Câmara, realizará um original programa de hospedagem das personalidades, principalmente mestres estrangeiros e autoridades de vários Estados, nas vésperas da mudança. Nesse sentido, uma comissão especial, denominada de “cooperação”, com cinco membros, já está articulando seus primeiros movimentos, de modo a ter um completo levantamento das possibilidades de hospedagem destes visitantes em residências de família da capital goiana. O começo da atividade está se mostrando dos mais promissores, dada a tradicional cortesia da gente da Goiânia e seu espírito de colaboração a todas as iniciativas que visem o bem comum e a propiciar aos que desejam ver Brasília momentos de satisfação em contato com o povo do Planalto Central, através de seus costumes.
Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional – Em sua marcha para Porto Alegre, a Coluna alcança a cidade de São Paulo.

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Confederação Nacional do Comércio – O senhor Charles Edgard Moritz, Presidente da Confederação Nacional do Comércio, determina a constituição, nessa entidade, de um grupo de ligação com Brasília, para prestar informações ao comércio sobre os assuntos de seu interesse relacionados com a Nova Capital. Entre vários problemas que preocupam o comércio, incluem-se a questão dos tributos que incidirão sobre as casas comerciais de Brasília, procedimento para obter alvará de localização, prescrições estabelecidas para a instalação de cada tipo de casa comercial, distribuição do comércio por zonas específicas, regime de propriedade dos bens imóveis, etc. Esse grupo de ligação será o núcleo da CNC e entrará em estreito contato com a administração do Município Federal para com ela colaborar no que respeita a assuntos de interesse do comercio em Brasília. Coordenará, ainda, a transferência do funcionalismo da CNC para a nova Capital, providenciando o necessário para a instalação dos servidores.

Instituto Brasileiro do Sal – Entre as sugestões apresentadas pelo senhor Dioclécio Duarte, Presidente do Instituto Brasileiro do Sal, ao Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, com relação ao aproveitamento da madeiras da Amazônia para o fabrico de celulose, produto que hoje constitui assunto de interesse econômico em todo o mundo, figura a parte relacionada com a utilização do sal no Planalto Central.
Em sua tese. O Sr. Dioclécio Duarte afirma que existe uma verdadeira fome de celulose, agora, quando várias fontes demonstram nítidos sintomas de exaustão. Como exemplo de produtividade das nossas madeiras, cita o presidente do IBS o caso do nosso pinheiro, que ultrapassa o diâmetro de quarenta centímetros em apenas oito anos, enquanto árvores do mesmo produto, na Rússia, levam quarenta anos para chegar ao diâmetro de trinta centímetros.
É lógico que o Brasil deverá preparar-se para ingressar, dentro de pouco tempo, no mercado internacional da celulose. Neste ponto é que surge o interesse do Instituto Brasileiro do Sal, dado que cada tonelada de celulose exige seiscentos e sessenta quilos de sal, que serão fornecidos pela nossa indústria, propiciando-lhe um novo horizonte no terreno financeiro, de modo a oferecer-lhe perspectivas novas quanto ao aprimoramento das técnicas científicas até agora aplicadas na obtenção do produto. Esta inovação viria trazer um novo elemento que já é motivo de estudo para os nossos técnicos: o preço, que baixará na certa com o aumento da produtividade à base de salinas mecanizadas e do uso de novos tipos de transportes, principalmente o rodoviário, surgindo como ponto capital a rodovia Belém-Brasília. Somente esta estrada será capaz, com seu itinerário, de diminuir o tempo e a distância do transporte do sal em mais de dois mil e quinhentos quilômetros, possibilitando às empresas a cobrança de tarifas menores.
Ajardinamento de Brasília – A imprensa assinala que Brasília será como que um grande jardim em abril vindouro, pouco antes da mudança da sede do Governo Federal, graças ao andamento das obras neste sentido encetadas pelo Departamento Geral de Agricultura da Novacap. Os trabalhos estão sendo intensificados de modo a colocar todos os trevos, passagens de nível e viadutos completamente arborizados, o mesmo sucedendo nas encostas dos aterros das pistas já asfaltadas de várias vias de comunicação da nova Capital brasileira. Um verdadeiro batalhão de trabalhadores especializados nas tarefas de ajardinamento se ocupa, nos últimos dias, nesta tarefa que dará a esta cidade um aspecto mais interessante ainda, graças à simplicidade do traçado e à originalidade da arquitetura de Niemeyer. Para a feitura deste trabalho um ponto curioso deve ser assinalado: os técnicos estão procurando aproveitar ao máximo as árvores e plantas típicas de Planalto para o adorno da cidade.
Todas as árvores de conformação exótica, que possam constituir, a partir da mudança da Capital, atrativos turísticos, serão conservadas e terão indicações especiais. Troncos grossos assemelhando-se na forma a animais e galhos retorcidos ficarão intatos, de acordo com o estabelecido no trabalho de ajardinamento da cidade.

Caravana de Integração Nacional – A coluna Norte, em sua rota para Porto Alegre, atinge a cidade de Capão Bonito, onde pernoita.

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Testemunhos de fé

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Testemunhos de fé
Por Conceição Freitas

 
Cento e trinta homens, um pouco mais, um pouco menos, ocuparam o silêncio, feriram o cerrado e abriram a clareira onde Brasília começaria a surgir. Muitos deles eram goianos das redondezas, homens que viviam em estado de isolamento amazônico. Alguns não tinham registro de nascimento. Tudo o que sabiam de si mesmos era o apelido e o prenome da mãe. Foram alojados em lonas do Exército, num clarão aberto na Candangolândia, entre outubro e dezembro de 1956.
O homem que faria o pagamento do salário desses primeiros bravos candangos saiu do Rio de Janeiro em 1º. de dezembro de 1956 à frente de um comboio de dez caminhões da Fábrica Nacional de Motores (FNM), a lendária Fenemê. A caravana conduzia a estrutura metálica do primeiro galpão que abrigaria a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. Viagem de 10 dias, por estradas pedregosas que agravaram a colite e maltrataram tanto a coluna cervical do baiano Lauro França Duarte D’Oliveira que ele teve ímpetos de abandonar a tarefa no meio do caminho e voltar para o Rio de Janeiro.
Tinha 24 anos o novo auxiliar administrativo da Novacap, o primeiro encarregado da folha de pagamento dos bravos candangos. Dez dias depois de deixar a beira do mar, Lauro chegou a Goiânia, onde um Bernardo Sayão impaciente o esperava. “Podem ir pra Brasília, podem ir!”, ordenou à exausta caravana de homens e máquinas. Na mesma toada, seguiram até Luziânia, onde a pensão do Juca da Ponte os esperava, e de lá desceram para o que já havia de Brasília: mais ou menos 130 barracas de lona, um pequeno galpão da Novacap e um outro para o restaurante do Saps (Serviço de Alimentação da Previdência Social), ao qual estava anexado um cômodo que servia de consultório e moradia do médico Edson Porto, o primeiro a chegar.
 
Avenida lunar
 
O engenheiro Bernardo Sayão e quatro funcionários da Novacap administravam o inicio das obras da nova capital. Pudesse ser visto do céu, parecia o acampamento de uma expedição a um deserto verde. Era tão vasto o horizonte e tão largo o silêncio que Lauro França jamais se esqueceu do que viu nas primeiras noites na futura capital. Do galpão onde dormia, ele podia admirar ao longe as luzes semoventes de uma avenida lunar. Eram os caminhões trabalhando na terraplenagem da pista do aeroporto. Os faróis acesos, trafegando em linha reta de um lado e de outro, davam a impressão de uma espetacular pista aberta pouco abaixo do céu, muito acima do chão.
Quando começou a fazer as folhas de pagamento dos operários, Lauro França passou por dois apuros. Um deles, o de muitos goianos não terem documentos pessoais, e o outro, o de ter de lidar com a falta de vocação burocrática de Bernardo Sayão. Logo após a liberação de um dos primeiros salários, ele reclamou: “Mas, Lauro, estou com 60 homens trabalhando em Saia Velha (a usina) e eles ainda não receberam o pagamento!”. Ao que o funcionário respondeu: “Mas, doutor Sayão, eu não sabia desses operários”. Foi quando caiu a ficha: “Ih, me esqueci de te avisar. Passe lá em casa amanhã às seis da manhã pra tomar café comigo e de lá a gente vai na usina resolver isso”.
Aquele foi só o primeiro café com Bernardo Sayão. Pouco tempo depois, Lauro França conseguiu uma carona com o engenheiro na sua viagem de inspeção às obras da rodovia Belém-Brasília. França tem parentes em Belém do Pará e pretendia visitá-los. O DC-3 que os levava fazia o percurso em baixa altitude, para que Sayão pudesse acompanhar o avanço de uma das duas frentes de trabalho, a que saiu de Anápolis. “A gente passava tão rente às arvores e a mata era tão embrenhada que eu pensava: se o avião pifar, não vai sobra nem alma”. No caminho, França foi entendendo como os homens estavam enfrentando a selva amazônica. As frentes de trabalho abriam as picadas, e, a cada trecho, uma clareira, onde acampavam e para onde o helicóptero jogava mantimentos e remédios.
 
Boa-fé
 
Admirador torrencial de Bernardo Sayão, Lauro França diz que ele tinha fé no ser humano. Conta, por exemplo, que se ele precisasse mandar um bilhete para alguém, numa época em que o telefone celular era equipamento de ficção cientifica, pedia licença a quem estivesse a seu lado e usava as costas do cidadão para escrever um bilhete em folha de papel de cigarro, se recurso melhor não houvesse. E pedia para um mensageiro levar a correspondência ao destinatário.
Sayão acreditava na boa-fé dos homens, mas não era exatamente bonzinho. França se lembra de ter visto o engenheiro receber cartas de recomendação de políticos em geral e de vê-las ir para a lata do lixo tão logo o interessado se afastava. Tinha muito pouca paciência com o tráfico de influência. Quando começaram a chegar os muitos pedidos de emprego na Rodobrás, a empresa que construiu a Belém-Brasília, Bernardo Sayão sugeriu que se espalhasse o boato de que os índios estavam atacando e comendo os funcionários da empresa nos escritórios próximos às obras. Sugeria isso e ria.
(…)
 
Transcrito do Correio Braziliense, 23 de janeiro de 2010.

 

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Brasília – Janeiro de 1960

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

 

BRASÍLIA – JANEIRO DE 1960

 

 

 

 

 

02
Caravana de ônibus – A Comissão Brasileira de Turismo anuncia a organização de uma caravana de cinco ônibus de turismo para Brasília, para a primeira semana de março de 1960. O itinerário a ser seguido pela caravana compreenderá ida por São Paulo, caracterizando-se a volta por Minas Gerais, passando os participantes da viagem por Belo Horizonte e pelas cidades mineiras do século XVIII.

Esta caravana pioneira terá um objetivo: estudar o itinerário e verificar os pontos de maior interesse para visita, durante as viagens que serão realizadas, partindo do Rio, na semana da inauguração na nova Capital.

 

04
Sinfonia de Brasília – O Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação e Cultura anuncia a próxima divulgação das condições do concurso “Sinfonia de Brasília”, com prêmio de Cr$ 500.000,00 ao compositor colocado em primeiro lugar. A comissão julgadora será composta de três membros, sendo seu presidente o Diretor do Serviço de Radiodifusão Educativa. Os outros dois membros são vultos conhecidos nos meios musicais brasileiros, pois são homens que labutam no terreno da crítica musical há muito tempo. São eles os críticos musicais Otávio Beviláqua, do vespertino O Globo; e o Professor Andrade Muricy, do Jornal do Comércio.

Turismo – A Comissão Brasileira de Turismo discute, em reunião, a possibilidade de instalação de um Bureau de Turismo em Brasília, para funcionamento por ocasião e depois da transferência da Capital.

Discurso presidencial – Em Brasília, nas festas comemorativas ao aniversário do Senhor Israel Pinheiro, presidente da Novacap, o ministro José Sette Câmara, Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, lê um discurso do Presidente Juscelino Kubitschek, impedido de comparecer por motivos de saúde.

Prefeito do Distrito Federal – A convite do Presidente Juscelino Kubitschek, visita Brasília o Senhor J.J. de Sá Freire Alvim, Prefeito do Distrito Federal.

 

05
Caravana de Integração Nacional – A imprensa divulga que dois grupos de reconhecimento, tendo à frente, cada um deles, um Oficial do Exército e um engenheiro do Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, já iniciaram os trabalhos de que foram incumbidos tendo em vista a posterior execução dos deslocamentos das Colunas Sul e Leste que se encontrarão, em Brasília, no próximo dia 1º. de fevereiro, com as que procederão do Norte e do Oeste do país.

Constituirão essas colunas a Caravana de Integração Nacional, integrada por Governadores de Estado, pelo Prefeito do Distrito Federal, dirigentes da indústria automobilística e autoridades ligadas a esses setores das metas governamentais, que o Presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado do Ministério, receberá em Brasília, sendo esse acontecimento parte das comemorações do programa do quarto aniversário do Governo. A finalidade da Caravana de Integração Nacional é demonstrar praticamente que estão prontas e em condições normais de utilização as ligações rodoviárias das diferentes regiões do país com a futura Capital.

As colunas de reconhecimento partiram dia 3 de janeiro, do Rio, deslocando-se a primeira delas para São Paulo, de onde seguirá para Matão, Prata, Goiânia, Brasília, retornarão da futura Capital por Paracatu, Três Marias, Belo Horizonte, Juiz de Fora e, finalmente, Rio. A outra, depois de São Paulo, demandará Capão Bonito, Curitiba, Lajes e Porto Alegre. Essas colunas, além de verificar o estado das rodovias, entrarão em entendimentos com as autoridades das localidades por onde passarem, tendo em vista o plano e a finalidade da caravana, data de sua passagem e outras providências relativas ao empreendimento.

 

06
Supremo Tribunal Federal – Uma comissão constituída dos Ministros Nelson Hungria, Cândido Mota Filho e Antonio Villas Boas, e que contará com a assistência de um engenheiro arquiteto, é designada para estudar in loco o problema da transferência do Supremo Tribunal Federal para Brasília na data fixada em lei.

Caberá à comissão examinar não só os problemas de mudança dos diversos setores do Tribunal naquela data, mas, também, dos Ministros e funcionários, com suas respectivas famílias. Será, por isso, dada atenção especial ao problema da moradia e também das próprias condições de funcionamento do Tribunal.

Participam da reunião todos os Ministros do Supremo, tendo sido eleita a comissão de acordo com a Lei no. 3.273, de 1957, pela qual incumbe ao Tribunal adotar as providências necessárias para a efetivação da medida.

12
Embaixador da Alemanha – Na Câmara Teuto-Brasileira do Comércio, no Rio de Janeiro, o Senhor Herbert Dittmann, Embaixador da Alemanha, faz uma análise das relações entre seu país e o Brasil, assim se manifestando sobre Brasília, a propósito de uma excursão recente pelo interior:

“O que vi nessa viagem em plano criadores, iniciativa, espírito de pioneirismo, em generosos projetos de infra-estrutura, construção de estradas em escalas surpreendentes, represas, usinas, postos de abastecimento de gasolina em regiões praticamente desabitadas até agora, o que eu vi, finalmente, em Brasília, com os meus próprios olhos, isso me obriga a ser otimista. Depois dessa viagem não tenho mais dúvidas de que aqui no Brasil se realiza atualmente o plano de desenvolvimento mais vasto e mais corajoso de que o mundo livre tem conhecimento. Brasília é uma realidade – disso não se pode mais duvidar.”

Sempre com o mesmo entusiasmo, prossegue o chefe da representação diplomática alemã dizendo que, embora surjam dificuldades no futuro, não se pode mais apagar uma cidade como Brasília, com 14 mil modernas habitações prontas, onze Ministérios de nove andares, edifícios imponentes como o Supremo Tribunal, o Parlamento num arranha-céu de 26 andares, escolas, igrejas, hospitais, rede de trânsito sem nenhum cruzamento em nível plano, em suma, todas as realizações que lá estão e que lá ficarão. Focaliza da mesma forma o progresso que se nota nas regiões intermediárias, “onde a vida começa a brotar”.

“Uma brisa fresca, diz, passa pelo altiplano de Goiás, mas ela não toca somente a terra; ela penetra também nas cabeças dos jovens engenheiros, arquitetos e artistas de Brasília e das estradas convergentes. Auto-confiança, decisão e uma profunda fé no futuro do país, eis a impressão que obtive nas conversações com inúmeros jovens especialistas brasileiros. Lá encontrei uma geração disposta a acabar com preconceitos enraizados e a preparar o caminho de um futuro de progresso para seu país.”

 

13
Censo – Distribui-se na reunião da Comissão Censitária Nacional, realizada na Secretaria do Conselho Nacional de Estatística (IBGE), uma publicação com os resultados gerais e definitivos do Censo Experimental realizado há alguns meses em Brasília.

 

14
Escola de Música – O Ministério da Educação e Cultura revela estar sendo estudada a proposta apresentada pelo Senhor Edson Magalhães de Mello de criação em Brasília de um órgão de coordenação e incremento das atividades musicais e artísticas. Dentre as idéias lançadas, uma é de grande profundidade, pois trata da criação de uma Escola de Música em Brasília e da formação de núcleos e ramificações em todos os Estados. Estas entidades ficariam ligadas ao órgão central sugerido. A organização de concertos e recitais, cursos de aperfeiçoamento com a participação de mestres renomados e festivais de música nas capitais de Estados, pelo menos uma vez por ano, acompanhadas de concursos de música com distribuição de bolsas também foram aventados.

 

15
Fundação Casa Popular – A imprensa divulga que se encontram em andamento as obras de construção, pela Fundação da Casa Popular, de mais de um conjunto residencial em Brasília, constituído de 180 apartamentos de sala, três quartos e demais dependências.

Trata-se da quarta etapa de obras da Fundação Casa Popular na futura Capital, pois as etapas anteriores consistiram na construção de um conjunto de 500 casas, já habitadas há quase um ano e meio, e de um grupo de 840 apartamentos (28 blocos de três pavimentos), inaugurado em dezembro último pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Com o novo núcleo, ascenderá a 1.520 moradias o total de edificações da Fundação da Casa Popular em Brasília.

Represa do Paranoá – O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro entrega à Novacap as primeiras seções das comportas para a represa do rio Paranoá, em Brasília. O Arsenal construiu as comportas e agora as está enviando, por seções, para remontagem no local da instalação definitiva. Esse serviço será executado sob a supervisão de engenheiros navais pertencentes aos quadros do Arsenal. Ainda para Brasília, o Arsenal ultima, em sua Divisão Técnica, os planos para uma embarcação destinada a navegar no lago que está sendo formado pelo represamento das águas do rio Paranoá.

 

16
Caravana de Integração Nacional – Os jornais comentam a organização da Caravana de Integração Nacional constituída de quatro colunas procedentes dos quatro pontos cardeais do território nacional, formada por automóveis e caminhões fabricados no Brasil, onde a receberá o Presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de todo o Ministério no dia 2 de fevereiro.

Selos comemorativos – No empossamento da Comissão Filatélica, o Ministro da Viação declara que a primeira tarefa da nova entidade será a emissão dos selos referentes à inauguração de Brasília, a serem lançados em 21 de abril.

18
Solenidades de instalação – O presidente Juscelino Kubitschek assina decreto, designando componentes da Comissão de Planejamento e Execução das Solenidades da Instalação do Governo na Nova Capital da República – representante do Senado Federal, Evandro Mendes Viana; representante da Câmara dos Deputados, Luiz Guimarães; representante do Ministério da Viação, Ministro Henrique Rodrigues Vale; representante do Ministério da Guerra, Coronel Carlos Luiz Guedes; e, representante do Ministério da Marinha, Capitão de Fragata Alfredo Álvaro Canongia Barbosa. A coordenação geral dos trabalhos caberá ao Senhor Oswaldo Penido, Sub-chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Rodovia Belo Horizonte-Brasília – O Ministério da Viação divulga que já estão concluídos 99,3% dos serviços de terraplenagem da rodovia Belo Horizonte-Brasília, da extensão total de 568 km. Outros dados sobre serviços concluídos: 92% da sub-base, 80,1% da base, 67,4% da pavimentação, 35 obras de arte (100%). As obras de arte da Belo Horizonte-Brasília, em números de 35, medem um comprimento total de 3.177 m. De terraplenagem há, concluídos, 564,3 km, 522,7 de sub-base, 445 km de base e 383,1 km de pavimentação.

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Entrevista do Ministro Nelson Hungria – Durante sua visita a Brasília, em comissão do Supremo Tribunal Federal, o ministro Nelson Hungria transmite à reportagem suas impressões:

“Minha impressão de Brasília, onde estive há seis meses – diz de inicio – é realmente de surpresa. O que se conseguiu realizar, de então para cá, é qualquer coisa de admirável, de espantoso. Diria, mesmo, que o que se fez tem algo de milagre. Quando aqui estive anteriormente, tudo ainda era esqueleto – e hoje venho encontrar substância.

Encontro uma série de monumentos, e blocos residenciais.

A visão de Brasília nos convence de sua realidade – hoje não se pode negar Brasília, não se pode deixar de ter fé no empreendimento. E vejo que este milagre de realização se deve, em grande parte, à gente laboriosa que aqui está, a essa gente que trabalha, naturalmente, 18 horas por dia, porque sem isso não seria possível obter-se tal prodígio de realização, este prodígio que é Brasília.”

A seguir, refere-se o Ministro Nelson Hungria à questão da mudança do Supremo Tribunal Federal para a nova Capital, declarando considerar exageradas as notícias que dão tal providência como pouco viável, em 21 de abril.

“O que existe no Supremo Tribunal é descrença em torno de Brasília, porque as notícias que nos chegam são as mais desencontradas e contraditórias. Há notícias desanimadoras, quanto à questão da habitação em Brasília. Dizem que aqui não é possível viver-se sob todos seus aspectos, dizem que aqui falta tudo. Mas isso é, fora de dúvida, um grande exagero. Brasília poderá não ter as acomodações suficientes de uma grande cidade, pode não oferecer o conforto de uma grande cidade do litoral, mas já tem elementos suficientes para enquadrar uma capital.”

Perguntado sobre se a visita dos membros do Supremo Tribunal Federal a Brasília, na sua opinião, teria como resultado a remoção de possíveis dificuldades quanto à transferência daquela corte na data prevista, declara o entrevistado:

“É possível. Por enquanto nós nos limitamos a uma visita panorâmica, não conhecemos os detalhes. Agora é que vamos conhecer as minúcias. Vamos visitar o edifício do Supremo e em seguida visitaremos os locais onde se instalarão os tribunais. Depois visitaremos também os blocos residenciais que estão destinados à moradia dos funcionários, pois só os do Supremo Tribunal atingem o número de 120.

Acreditamos que pelo menos cerca de 300 famílias serão instaladas, em principio, famílias essas dos funcionários dos três Tribunais, ou sejam o Tribunal Superior Eleitoral, o Tribunal Federal de Recursos e o Supremo Tribunal. Temos que verificar como ficarão instalados não só os ministros como também esses funcionários, sem os quais os primeiros não podem trabalhar, não podem funcionar.”

A propósito das residências reservadas para os Ministros, diz o Senhor Nelson Hungria:

“Nas plantas, já as conhecemos. Até em croquis colorido, e nos deram uma impressão de casas tão agradáveis que nelas nós moraríamos até no deserto. Mas essas casas não estão sequer iniciadas. Entretanto, nos foram reservados apartamentos muito bons, como residências provisórias, apartamentos esses que hoje iremos conhecer. As informações dizem que são apartamentos suficientes, capazes de alojar não só uma família média como também de comportar os nossos livros, pois cada um de nós tem, em média, de 5 a 7 mil livros. Digamos que não se transfiram todos para cá, mas pelo menos uns dois mil livros. Faz-se necessário uma dependência só para eles, ou, digamos para a nossa biblioteca.”

Outro assunto abordado pelo entrevistado, ante uma pergunta, foi a possibilidade de o Supremo Tribunal Federal negar-se à sua transferência no dia 21 de abril:

“Tal não poderia ocorrer – diz o Ministro Nelson Hungria – desde o momento em que o Governo oferece a sede para a instalação do Tribunal e acomodações para seus Ministros e os seus funcionários, nós não poderíamos nos negar. Estaríamos cumprindo a lei. Se assim não fosse, assumiríamos uma atitude de rebeldia. Ainda mesmo que o Tribunal não possa funcionar, por isso ou por aquilo, poderíamos fazer um recesso aqui, não lá. Nós só poderemos funcionar no Distrito Federal, na Capital da República. Ora, se o Rio de Janeiro deixa automaticamente de ser a Capital Federal, para ser o Estado da Guanabara, nós não poderemos permanecer no Rio. Seríamos, lá, um ajuntamento ilícito.

Nós temos que vir para Brasília, embora aqui haja dificuldades tais que o Tribunal não possa funcionar. Mas creio que isso será qualquer coisa de muito passageiro. Haverá um momento de confusão inicial, confusão natural de qualquer mudança, mas tudo irá se acomodando e se ajustando, de modo que, no máximo após o recesso de um mês, tudo estará bem. Mas esse recesso nós teremos que fazer aqui, não podemos é funcionar lá. Quero aproveitar a oportunidade para desejar que Brasília continue na sua arrancada, levando, realizando o ideal do Presidente Juscelino Kubitschek que, ainda outro dia, nos dizia que o Brasil em apenas um terço do seu território povoado, que ainda resta povoar dois terços. Faço votos para que Brasília consiga levar a cultura e a civilização a esses dois terços restantes”.

 

20
Presidente do México – Em entrevista coletiva, o Senhor Adolfo Lopez Mateos, Presidente do México, afirma aos jornalistas, na Associação Brasileira de Imprensa, que a instalação da nova Capital do Brasil no interior de seu território, nas condições em que está sendo realizada, representa sem dúvida um passo de grande significação no caminho do progresso brasileiro. O surgimento de novos núcleos populacionais, de novas fontes de trabalho, de centros de riqueza, o estabelecimento demográfico com todas as suas consequências benéficas à economia do país, serão os resultados previsíveis e imediatos.

 

21
Presidente do México – A convite do Presidente Juscelino Kubitschek, visita Brasília o senhor Adolfo López Mateos, Presidente dos Estados Unidos Mexicanos.

Viajando no avião presidencial, em companhia do Presidente Juscelino Kubitschek e senhora e autoridades civis e militares, o Chefe do Governo mexicano e esposa chegam a Brasília pouco depois das 12 horas.

Após a troca de cumprimentos, das apresentações de praxe e das honras militares, prestadas por um destacamento da Aeronáutica, o Presidente mexicano, juntamente com o Chefe do Governo brasileiro, dirige-se ao local em que brevemente será construída a sede da representação diplomática do seu país. Ai, ao som dos Hinos Nacionais do Brasil e do México, é então inaugurada uma placa comemorativa da visita.

Saudando o Presidente mexicano, nessa oportunidade, o Senhor Israel Pinheiro pronuncia um discurso em que, ao lado de um breve histórico sobre a construção da cidade focaliza os seus problemas de urbanismo. Ainda nessa ocasião uma aluna do grupo escolar local, ao término da fala do Presidente da Novacap, dirige uma saudação ao Presidente López Mateos.

Finda esta parte, realiza-se a visita às obras de construção da cidade, notadamente a Praça dos Três Poderes, local em que estão sendo construídos os Ministérios, a Plataforma Rodoviária e outras obras de vulto.

No Palácio da Alvorada, o Presidente Juscelino Kubitschek e senhora, oferecem um almoço aos visitantes, de que participam várias autoridades. Findo o almoço, o Presidente da República convida o Presidente López Mateos e senhora, para, em helicóptero, sobrevoar a cidade e a represa do rio Paranoá, fornecedor do grande lago que circundará Brasília e cujas águas já estão sendo acumuladas.

No decorrer da visita ao Palácio da Alvorada, o Senhor Luiz Gonzáles Aparício, presidente da Associação de Arquitetos Mexicanos e do Colégio Nacional de Arquitetos do México, entrega a Oscar Niemeyer um pergaminho. Essa homenagem, frisa, representa um testemunho eloqüente da admiração e da simpatia dos arquitetos mexicanos pela obra do artista brasileiro, cuja fama há muito transpôs as fronteiras do continente.

O Presidente Juscelino Kubitschek, a esse ensejo, em breve improviso, além de associar-se às homenagens prestadas a Niemeyer, refere-se à cultura dos profissionais mexicanos e lembra a necessidade de um maior intercâmbio cultural e artístico entre o Brasil e o México. Dirigindo-se ao Presidente López Mateos, o Chefe do Governo brasileiro diz que a sua visita a nosso país simbolizava também o desejo de maior aproximação entre os dois grandes povos irmãos.

Agradecendo o oferecimento do Governo brasileiro, traduzido na cessão do terreno em Brasília para a construção da Embaixada do seu país, o Presidente López Mateos diz que para os estudiosos da geografia em seu país sempre causara admiração o fato de a maioria da população brasileira estar contida no litoral e que tão belas regiões do nosso imenso território aparecessem sempre como pontos inexplorados. Pensávamos que isso constituía um repto ao gênio criador dos brasileiros. Agora, porém, vemos o povo empenhado em conduzir seu país à conquista desse grande território, orgulhoso de receber a tarefa de construir essa magnífica cidade que trouxe ao interior o trabalho do litoral. Dirigindo-s aos trabalhadores, frisa o Senhor López Mateos:

“Magníficos são vocês, trabalhadores brasileiros, que com as suas mãos e com o seu valioso trabalho levantaram essa cidade. É meu grande desejo que aqui se inicie um novo ciclo para o Brasil, o ciclo maravilhoso em que, a par do desenvolvimento cultural e espiritual, encontre nessa soberba terra assuntos definitivos e perduráveis, pois este é o ponto de partida do grande ciclo de ouro do Brasil.”

Depois de referir-se à inteligência, à bravura e ao espírito de sacrifício do trabalhador brasileiro, o Presidente Lopes Mateos encerra seu breve discurso congratulando-se com o Presidente Juscelino Kubitschek e com o país pela gigantesca obra que, diz, pode ser qualificada como a obra do século, porque a construção de Brasília representa um passo glorioso de sua vida, tão glorioso como a conquista da sua própria independência.

Os dois Presidentes regressam ao Rio de Janeiro no mesmo dia.


Presidente do México visita Brasília
Foto: Arquivo Público do DF

Igreja Episcopal – A Novacap doa à Igreja Episcopal Brasileira, ramo da Comunhão Religiosa Anglicana que funciona em nosso país desde 1880, um terreno onde será construído na nova Capital um templo nacional dessa comunidade protestante. A escritura de doação do terreno é lavrada no cartório Hugo Ramos, tendo assinado pela entidade doadora o Sr. Israel Pinheiro, presidente da Novacap, e pela Igreja Episcopal Brasileira, o Reverendo D. Edmundo K. Sherrill. Após a lavratura e assinatura do termo de doação, usa da palavra o Reverendo Dr. Octacílio M. Costa, que agradece à Novacap a oportunidade concedida à sua organização evangélica para construção de um templo à altura da nova Capital do Brasil e conclui congratulando-se com o Presidente Juscelino Kubitschek pela idealização e concretização de Brasília.

Inter-American Visitors Association – Divulga-se que cem professores norte-americanos, dentre os quais integrantes de departamentos de escolas superiores nos campos de Engenharia, Arquitetura, Desenho e Belas Artes, além de urbanistas e industriais de diversos ramos, visitarão o Brasil no próximo mês de abril a fim de assistir o ato que os agentes internacionais de turismo já denomimaram de a “solenidade do século”, ou seja, a transferência da Capital do país para Brasília. Nos Estados Unidos, a divulgação em torno da nova capital brasileira é das maiores, nos setores de agências de viagem e de turismo, bem como nos escritórios de nossas empresas de aviação que para ali fazem linhas regulares. O patrocínio desta caravana será da Inter-American Visitors Association, entidade especializada em organizar viagens para aqueles que integram seus quadros. Entre os industriais que a ela pertencem estão homens que dirigem fábricas de aviões, de elevadores, de produtos eletrônicos, proprietários de cadeias de hotéis e restaurantes, além de cerca de vinte outras profissões.

22
Caravana de Integração Nacional – A imprensa noticia que, no próximo dia 2 de fevereiro, o Presidente Juscelino Kubitschek assistirá, acompanhado de seu Ministério, do Palácio do Planalto, a entrada, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, da Caravana de Integração Nacional, constituída pelas colunas Norte, Sul, Leste e Oeste, tendo à frente dos Governadores dos Estados a serem pelas mesmas percorridos.

A Caravana, partindo, com sua diferentes colunass, de Belém, Porto Alegre, Rio e Cuiabá, convergindo sobre a nova Capital da República, oferecerá ao povo brasileiro uma visão maciça do desenvolvimento alcançado pela indústria automobilística nacional e ao mesmo tempo revelará que o sistema rodoviário brasileiro atingiu o importante objetivo de ligar umas às outras as diferentes regiões do país, integrando-as num bloco único.

A Caravana de Integração Nacional é uma idéia que partiu da indústria automobilística brasileira, com o objetivo de prestar uma homenagem ao Presidente Juscelino Kubitschek pela passagem do 4º. aniversário de seu Governo. A organização da Caravana ficou a cargo da própria Presidência da República, sendo supervisor da mesma o Coronel Aviador Lino Teixeira, Sub-chefe do Gabinete Militar, e coordenador o Major Edson Perpétuo, Ajudante de Ordens do Presidente da República. O empreendimento será realizado sem nenhum ônus para os cofres públicos, de vez que as indústrias automobilísticas contribuirão com os veículos, pessoal e demais encargos. Cada coluna será constituída por 50 viaturas, num total, portanto, de duzentas, estando compreendidos nesse número todos os tipos de veículos fabricados pela indústria automobilística nacional, que percorrerão os nossos sertões, numa demonstração do progresso alcançado por esse setor da indústria brasileira.

As Colunas da Caravana de Integração Nacional tem seus pontos de partida em Belém, Porto Alegre, Rio e Cuiabá, isto é, procederão do Norte, Sul, Leste e Oeste, concentrando-se em Brasília. Os itinerários a serem seguidos pelas mesmas serão, também, uma amostra do trabalho levado a efeito pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem e pela Rodobrás, que construiu em tempo recorde muitos dos trechos a serem agora entregues ao povo brasileiro.

A Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional, sob o comando do Coronel Lino Teixeira, deixará a 23 a cidade de Belém, no Estado do Pará, a fim de cobrir o seguinte itinerário: Belém Guamá, Açailândia, Estreito (onde atravessará o rio Tocantins), Guará, Gurupi, Porangatu, Ceres, Anápolis e Brasília. A estrada, numa extensão de cerca de 2.250 quilômetros, é de terra, estando asfaltados os trechos de Belém a Guamá e de Anápolis a Brasília.

Comandada pelo Major Leopoldo Freire dos Santos, do Estado Maior do Exército, a Coluna Sul é a primeira a partir, deixando, hoje, Porto Alegre, pela manhã, atingindo à tarde a cidade de Vacaria. Daí prosseguirá viagem, passando por Rio Negro, Curitiba, onde se subdividirá em duas, seguindo uma para Capão Bonito, pela estrada da Serra, e a outra para Registro, pela estrada nova do Litoral, atingindo, as duas, São Paulo. Nessa Capital, a Coluna destacará seis veículos que se deslocarão para a BR-55, estrada “Fernão Dias”, a fim de se encontrarem em Belo Horizonte com a Coluna Leste. O grosso das viaturas da Coluna Sul prosseguirá de São Paulo para Limeira, Jaboticabal, Prata, Goiânia, Anápolis e Brasília. O itinerário a ser coberto pela Coluna Sul será de 2.300 quilômetros, dos quais 1.100 já totalmente asfaltados. A ligação de São Paulo a Belo Horizonte, pela BR-55, cobre 570 quilômetros, dos quais 400 estão pavimentados.

A Coluna Leste, comandada pelo Major Edson Perpétuo, partirá do Rio na manhã do dia 28 de janeiro corrente, da praça fronteira ao Palácio do Catete, para cobrir perto de 1.200 quilômetros com o seguinte itinerário: Juiz de Fora, Belo Horizonte, Três Marias, Cristalina e Brasília.

Desse percurso, 1.100 quilômetros já estão asfaltados, estando apenas por pavimentar cerca de cem quilômetros não consecutivos.

A partida da Coluna Leste, no próximo dia 28, do Rio, será revestida de solenidade, na praça fronteira ao Palácio do Catete. Uma banda de música executará, então, o Hino Nacional, seguindo-se uma revoada de pombos da Diretoria de Comunicações do Exército.

A Coluna Oeste, organizada pelo Governador do Estado de Mato Grosso, Sr. Ponce de Arruda, partirá de Cuiabá, no próximo dia 25, passando por Rondonópolis, Alto Araguaia, Mineiros, Jataí, Rio Verde, Goiânia, Anápolis e Brasília, num percurso de 1.300 quilômetros.

A Diretoria de Comunicações do Exército manterá ligação constante entre as diversas colunas, juntamente com a rede de rádio do DNER, da SPVEA e dos rádios-amadores do país, acompanhando-as sempre e proporcionando a todos os brasileiros informações sobre a marcha da Caravana de Integração Nacional, em seus quatro movimentos. Essas informações serão distribuídas às emissoras, aos jornais e transmitidas diariamente pela “Voz do Brasil”.

Chegando as diversas Colunas a Anápolis, no dia 1º. de fevereiro, na manhã do dia 2 chegarão a Brasília.

O Presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de seu Ministério e de altas autoridades, assistirá, do Palácio do Planalto, à entrada, na Praça dos Três Poderes, das Colunas da Caravana de Integração Nacional, trazendo os Governadores dos Estados. Em seguida, haverá missa em Ação de Graças, após o que será realizado um almoço de que participarão o Presidente da República, os Ministros de Estado e outras autoridades.

 

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Telecomunicações – O Presidente Juscelino Kubitschek autoriza a Comissão Executiva do Plano Postal Telegráfico a empregar a importância de 550 milhões de cruzeiros, constante do Orçamento em vigor, para atender a diversos serviços, inclusive o estabelecimento de telecomunicações com Brasília.

Caravana de Integração Nacional – A Caravana já se encontra em pleno movimento.

Assim é que, ontem, dia 22, a Coluna Sul deixou Porto Alegre para pernoitar em Vacaria, vencendo um percurso de 230 quilômetros. Nesta data, pela manhã, essa mesma coluna parte de Vacaria, no Rio Grande do Sul, com destino a Rio Negro, no Paraná, numa etapa de 364 quilômetros.

Amanhã, pela manhã, a Coluna Sul se deslocará de Rio Negro, com destino a Curitiba, onde pernoitará.

Por sua vez, a Coluna Norte inicia nesta data sua marcha, deixando Belém às 8 horas da manhã, para alcançar São Miguel do Guamá, às 10,50 horas, prosseguindo dessa cidade até o quilômetro 163, término do trecho até agora asfaltado, no Norte, e onde pernoitará.

Lambretistas de Belém fizeram a escolta da primeira camioneta que conduzia os dirigentes da coluna (Valdir Bouhid e Coronel Lino Teixeira) e a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré, Padroeira de Belém e da Amazônia, até a saída da Cidade. Todos os carros, numerados, saíram da porta da Catedral, após a missa de despedida e a benção dada a cada veículo pelo Vigário Geral de Belém.

Em seguida à Rural Willys número um seguiram os jipes conduzindo os 35 jornalistas convidados pela Rodobrás; em ônibus, caminhões e caçambas da Mercedes-Benz, DKW-Vemag, Volkswagen, General Motors, seguiram os convidados e representantes das indústrias automobilísticas e as autoridades e técnicos da SPVEA e Rodobrás.

Dois Governadores (Hélio Araújo, do Rio Branco, e o Coronel Paulo Nunes Leal, de Rondônia), os Cônsules dos Estados Unidos e do Japão e o Bispo da Prelazia de Guamá, D. Elizeu, acompanharam desde o inicio a caravana.

Sobre o rio Guamá está em construção uma ponte de 80 metros de comprimento, sendo essa e a ponte de Estreito as duas principais obras de arte do extenso traçado de cerca de 2.200 quilômetros entre Belém e Brasília.

À margem esquerda do Guamá é que está colocada a estaca zero da rodovia que se desenvolve, desse ponto em diante, sobre terreno que há dois anos ainda era coberto de mata virgem.

Do Guamá ao Campo 163 a estrada oferece as melhores condições de tráfego, bastando dizer, para ressaltar esse fato, que os veículos da Caravana – todos de fabricação nacional – puderam chegar a seu destino apesar de violentíssimo temporal que assolava a região.

 

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Caravana de Integração Nacional – A Coluna Norte, procedente de Belém, com 50 carros, chega a Açailândia, onde, precisamente há um ano, o Presidente Juscelino Kubitschek assistira à solenidade do encontro dos tratores das patrulhas de desmatamento. Açailândia, que há um ano e meio ainda era floresta virgem, hoje constitui centro em que já se aglomera uma população pioneira na tarefa de implantar a civilização numa região antes completamente desabitada e desconhecida.

Este povoado, servido por excelente campo de aviação, dista 72 quilômetros de Imperatriz, cidade centenária, à margem direita do rio Tocantins, marcando o limite meridional da Hiléia Amazônica e o inicio do chapadão goiano.

Antes de deixar o campo 163, a Caravana assiste Missa campal, celebrada pelo Padre Vitaliane Vare, secretário do Bispo de Guamá, Dom Eliseu. O próprio Bispo serve como acólito da cerimônia, à qual compareceram todos os membros da Caravana, no total de 240 pessoas. É a Missa rezada justamente no local onde o Engenheiro Bernardo Sayão pereceu, atingido por gigantesca árvore. Uma grande cruz de madeira assinala o ponto em que se deu o infausto acontecimento.

A Caravana já se encontra em pleno território maranhense. Os motoristas das viaturas consideram satisfatórias as condições da estrada, levando em conta a época de chuva e o fato de ainda se acharem em fase final de construção vários trechos da rodovia. Todos os integrantes da Caravana estão satisfeitos por haverem cumprido a primeira etapa da jornada sem o menor acidente.

A Coluna Sul percorre o trecho entre Rio Negro, no Paraná, na fronteira de Santa Catarina, e Curitiba, onde chega às 12 horas.

 

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Caravana de Integração Nacional – A Coluna Norte chega, às 9,30 horas da manhã, à cidade de Imperatriz, no Maranhão, vencendo 620 quilômetros, desde Belém do Pará.

Pela primeira vez na história do Brasil, uma coluna motorizada atravessa 400 quilômetros de selva, para alcançar o Planalto Central.

Cidade centenária, Imperatriz vivia isolada à margem de um dos trechos mais difíceis do Tocantins, sofrendo todas as consequências desse isolamento. Era uma cidade que parecia fadada ao desaparecimento, onde já ninguém se fixava ou sequer construía uma residência. Mas, a partir do momento em que se iniciaram os trabalhos da rodovia de ligação Norte-Sul, a cidade de Imperatriz ganhou novo alento e passou a vibrar no ritmo novo de progresso que essa rodovia desencadeou numa região que durante tantos anos vivia no mais completo abandono. Para caracterizar esse fato, basta dizer que atualmente se constroem nada menos de três casas por dia em Imperatriz. E casas de pedra e tijolo.

De Imperatriz, a Coluna Norte segue, após meia hora de repouso, para a localidade de Cacau, onde seus integrantes almoçam. De Cacau, a Coluna segue viagem até o chamado “Estreito”, onde pernoitará, e onde se está construindo, no eixo da rodovia Belém-Brasília, a ponte sobre o rio Tocantins, com 533 metros de comprimento. A Coluna chega ao Estreito às 17 horas. A travessia do rio, em balsas, faz-se à noite.

A Coluna Sul parte pela manhã de Curitiba, dividindo-se em duas, seguindo, a primeira, pela nova estrada São Paulo-Curitiba, pelo litoral, tendo almoçado no quilômetro 100 e atingindo a localidade de Registro às 18 horas. A outra almoça em Tunas, Estado de São Paulo, e chega a Capão Bonito, no mesmo Estado, às 17 horas e 30 minutos.

O deslocamento dessa Coluna através dos Estados do Sul tem despertado grande entusiasmo popular em toda a região meridional do país, sendo festivamente recebida pelas autoridades e aclamada pelo povo.

Bispo de Pesqueira – O Presidente Juscelino Kubitschek recebe do Bispo de Pesqueira, Dom Severino Mariano, o seguinte telegrama, sobre Brasília:

“Regressando de Brasília, que visitei com todo meu clero, sinto-me feliz em apresentar a Vossa Excelência vivos cumprimentos pela maravilha da realização da nova Capital, situada no imenso Planalto Central, com irresistível convite ao recolhimento, clima indispensável ao equacionamento das metas de progresso e desenvolvimento da nossa abençoada Pátria.”

Banco de Minas Gerais – Inaugura-se em Brasília a agência do Banco de Minas Gerais.

Ferrovia Brasília-Cuiabá – O Ministério da Viação divulga planos para futura ligação ferroviária entre Brasília e Cuiabá.

Hotel de Turismo em Anápolis – O Lion’s Clube de Anápolis inicia um movimento pro-construção de um Hotel de Turismo nessa cidade, hoje ponto obrigatório da ligação rodoviária com Brasília.

26
Cerejeiras japonesas – Anuncia-se o embarque, no Japão, pelo navio “África Maru”, de cento e dez mudas de cerejeiras para plantio experimental em Brasília. A promessa do envio das mudas de cerejeiras foi feita ao Presidente Juscelino Kubitschek por Sua Alteza Imperial o Príncipe Mikasa, quando de sua visita ao Brasil, em junho de 1958.

Confederação Nacional do Comércio – Em sua primeira reunião do ano, a Diretoria da Confederação Nacional do Comércio debate, entre outros assuntos, o problema de sua transferência para Brasília, em abril próximo, obedecendo assim à determinação legal segundo a qual a entidade sindical máxima do comércio deve ter sua sede na Capital da República.

Todos os diretores, falando a respeito, encarecem a necessidade dessa mudança a 21 de abril, não só por determinação da lei mas como uma demonstração do desejo da CNC de colaborar com o Governo no importante empreendimento.

A Confederação ainda não edificou sua sede em Brasília, embora já tenha o terreno para esse fim. Os diretores são unânimes em reconhecer, porém, que não se deve esperar a construção do edifício próprio para que a CNC para ali se transfira, e deliberaram que o Senhor Charles Edgar Moritz, Presidente da Novacap, para acertar as providências indispensáveis ao funcionamento da Confederação em Brasília, a partir de 21 de abril próximo.

Caravana de Integração Nacional – A Coluna Sul, sob o comando do Major Leopoldo Freire, já atingiu a cidade de São Paulo. O Major José Edson Perpétuo, Ajudante de Ordens do Presidente da República e um dos organizadores do patriótico movimento, recebe um radiograma do Major Freire comunicando que a Coluna Sul, tendo em vista as solicitações das populações de Itapetininga e Sorocaba, decidiu desviar o itinerário, passando por aquelas duas cidades.

Depois de almoçarem na cidade de Sorocaba, os integrantes dessa Coluna partem com rumo a São Paulo e ali chegam às 14 horas de hoje. O trajeto no rumo de Itapetininga e de Sorocaba permitiu o trânsito por uma rodovia inteiramente pavimentada.

Nos limites do município de São Paulo, a coluna é recebida pelo próprio Governador do Estado, Professor Carvalho Pinto, por um representante do Cardeal- Arcebispo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta e por várias autoridades civis e militares.

Dos limites do município até o Palácio do Governo, a Coluna é precedida por batedores o Exército, da Fôrça Pública e da Guarda Civil do Estado e por onde passa é vivamente aclamada pelo povo.

As viaturas, num total de 25 e conduzindo 80 pessoas, ficam estacionadas no pátio interno do Palácio do Governo. Os integrantes da Coluna ficam hospedados no Hotel Claridge.

A Coluna Norte, que partiu de Belém do Pará, transitando pela rodovia Belém- Brasília,de 55 viaturas e 240 pessoas.

Depois de ter atravessado o Estreito, na noite de ontem, segunda- feira, passou pela localidade de Araguarina e já se encontra a caminho de Guará. Essa parte da Caravana é composta de 55 viaturas e 240 pessoas.

Em radiograma, o Coronel-Aviador Lino Teixeira informa que a viagem está transcorrendo normalmente, sendo excelente o moral e o estado de saúde do pessoal.

De Araguarina para o Sul, a Coluna Norte percorre um trecho ainda em fase inicial de construção, mas com os trabalhos em franco progresso, tendo almoçado no acampamento armado no local denominado Capivara, que em breve será também um próspero povoado, chegando finalmente a Guará.

Supremo Tribunal Federal – O Supremo Tribunal Federal divulga a seguinte nota, a propósito da transferência do Poder Judiciário para Brasília:

“Os Ministros do Supremo Tribunal Federal, reunidos hoje na sala da Presidência, ouviram a leitura das informações prestadas pelo Senhor Ministro Antonio Villas Boas, membro da Comissão enviada pelo Supremo a Brasília, e o relatório do engenheiro-arquiteto, Doutor Ademar Marinho, que acompanhou a dita Comissão. As conclusões do Ministro Villas Boas são favoráveis à possibilidade de transferência do Supremo, com seus Ministros e funcionários administrativos, para Brasília, na data legalmente determinada. Quanto ao relatório do engenheiro-arquiteto Marinho, contém várias restrições ao anunciado término das obras e condições de habitabilidade indispensáveis a essa transferência.

Na reunião, ficou decidido que se remetesse a Novacap e ao Sr. Ministro da Justiça cópias do relatório do Engenheiro Marinho, solicitando a máxima diligência no sentido das medidas reclamadas.

Também se assentou que em março irá novamente a Brasília a Comissão de Ministros, acompanhada pelo Engenheiro Marinho, para uma última inspeção.”

 

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Sistema educacional – Até o fim do próximo mês de março, o Ministério da Educação e Cultura espera ter em Brasília, adestradas de acordo com as mais modernas conquistas pedagógicas, centro e vinte mestres de curso elementar para se ocuparem da rede escolar cuja conclusão se dará nos primeiros dias de abril, mês da inauguração da capital.

Para coordenar tal trabalho, o Ministro Clóvis Salgado baixou portaria criando a CASEB que tem como membros os diretores do Departamento Nacional de Educação, dos Ensinos Secundário, Industrial e Comercial e do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, tendo como seu Diretor-Executivo, o Professor Armando Hildebrand.

Diversos trabalhos visando acelerar as obras e o preparo do pessoal para a missão de educar estão em curso, esperando as autoridades encarregadas do plano poder realizar tudo o que está previsto para o ano letivo de 1960. O primeiro elemento do MEC a seguir para Brasília foi o diretor da sua Divisão de Orçamento, Sr. Julio Furquim Sambaquy.

Caravana de Integração Nacional – A Coluna Sul deixa a Capital de São Paulo pela manhã e chega a Campinas às 12,05 horas, prosseguindo viagem até Limeira, onde pernoitará.

A Coluna Norte deixa Guará pela manhã e pernoitará em Gurupi, tendo percorrido até agora 1.550 quilômetros.

Saindo pela manhã do povoado de Guará, a Coluna atingiu Cercadinho, onde em outubro de 1958 esteve o Presidente da República acompanhado de vários embaixadores estrangeiros. Nessa época, Cercadinho era ponta do Serviço de Demarcamento e Terraplenagem. A partir de Guará para o Sul, a rodovia, praticamente concluída, já está aberta ao tráfego com o máximo de segurança e permitindo alta velocidade aos veículos. Toda a extensão da rodovia está habitada por famílias de pioneiros que estão plantando lavouras e criando gado. Assim, a partir de Guará, que há dois anos era um vazio demográfico, a Caravana encontrou laboriosos núcleos em crescimento vertiginoso, alguns batizados com as seguintes denominações: Província, Santa Luzia, São Pedro, Nacional, Serrote, Fortaleza e Crixás.

A própria cidade de Gurupi, que surgiu com a abertura da rodovia, alcançou em menos de três anos de existência uma população de cerca de 10 mil habitantes e já produz uma safra de arroz de 150 mil sacas. Em conseqüência do espantoso progresso, Gurupi foi elevada à condição de Município em janeiro do ano passado. Durante o trajeto, a Caravana recebeu também homenagens das populações de antigas cidades ribeirinhas do Tocantins e do Araguaia, as quais viviam isoladas e sujeitas aos caprichos da natureza para suas comunicações com outras cidades.

28
Seleção de professores – Dados publicados no primeiro número do boletim oficial Educação em Brasília, da Comissão de Administração do Sistema Educacional de Brasília – CASEB – do Ministério da Educação e Cultura, indicam que o trabalho de Seleção de professores de ensino elementar e médio para a rede escolar da nova Capital está atingindo o final de sua primeira etapa, qual seja a distribuição e coleta de formulários com informações sobre o “curriculum-vitae” de cada candidato e as atividades pedagógicas exercidas.

Inúmeros tem sido os mestres, de todos os pontos do país, que os solicitaram, subindo a mais de duzentos inscritos.

Para esta seleção, o estudo pormenorizado dos formulários será complementado com entrevistas e provas escritas. Visando documentar esta tarefa, a CASEB incluiu uma cópia destes formulários no seu boletim. Os mestres que forem escolhidos firmarão contratos de serviços regidos pela legislação trabalhista, recebendo passagem para si e sua família, além de ajuda de custo para sua instalação em Brasília, tendo direito a residência, mediante aluguel acessível e o ensino primário ou secundário gratuito para seus filhos.

Além do trabalho de seleção do magistério que lecionará em Brasília, a direção-executiva da CASEB está cuidando também do contato com os funcionários públicos que vão mudar-se no primeiro escalão para a nova capital e estudando a matrícula de seus filhos.

Caravana de Integração Nacional – A Coluna Leste da Caravana de Integração Nacional parte, pela manhã, do Rio de Janeiro para Brasília, saindo da praça fronteira ao Palácio do Catete, depois de despedir-se do Presidente Juscelino Kubitschek, presentes Ministros de Estado, o Arcebispo Auxiliar do Rio de Janeiro, D. Hélder Câmara, General Odílio Denys, Comandante do 1º. Exército, Prefeito do Distrito Federal e numerosas outras autoridades civis, militares e eclesiásticas, bem como grande massa popular, que aplaude entusiasticamente o acontecimento.

Com a partida das Colunas do Rio e de Cuiabá, completam-se os quatro movimentos da Caravana de Integração Nacional que, procedentes do Norte, Sul, Leste e Oeste, convergem para Brasília.

Os Dragões da Independência do Batalhão de Guardas deram realce à cerimônia, sendo executado o Hino Nacional, após a chegada do Presidente da República à sacada do Palácio. Em seguida, toda a multidão presente guardou um minuto de silêncio, em memória do Embaixador Osvaldo Aranha.

Após a alocução do Major Edson Perpétuo, o Presidente Juscelino Kubitschek pronuncia as seguintes palavras:

“Há 150 anos, o Brasil esperava esta hora, a hora do inicio das novas bandeiras para a conquista e posse do território nacional. Esta solenidade marca o inicio de uma nova marcha. Vamos subir o Planalto Central, para, dali, nos lançarmos à conquista dos seis milhões de quilômetros quadrados que ainda jazem desertos e adormecidos, esperando o passo redentor dos brasileiros. Esta bandeira sai do Rio de Janeiro em automóveis brasileiros, com pneumáticos brasileiros, e petróleo brasileiro, e vai trafegar por estradas asfaltadas com asfalto brasileiro. É a nação que desperta para a sua grande arrancada, e, felizmente, apoiada pelo calor e pelo entusiasmo do povo brasileiro. As palavras pessimistas daqueles que não acreditam no Brasil está ficando superadas. Ao povo carioca, que é um artífice extraordinário da grandeza e da prosperidade desta Nação, ao povo carioca, que veio assistir a esta partida da Bandeira da Integração Nacional, uma saudação muito afetuosa. A todos aqueles que agora saem daqui para reeditar as façanhas do Século XVIII, desejo a maior felicidade, certo de que, ao recebê-los, segunda-feira, em Brasília, estaremos plantando a semente profunda da grandeza e da prosperidade do Brasil.”

A Coluna Leste, chega a Petrópolis precisamente às 12,35 minutos. Nos limites da cidade de Petrópolis, o Governador Roberto Silveira e o Prefeito Nélson de Sá Earp recebem a Caravana e a ela se juntam até o quartel do 1º. Batalhão de Caçadores, onde o Comandante, Coronel Perry de Lima, e demais oficiais homenageiam a Caravana com um almoço. A coluna segue, após o almoço para Juiz de Fora onde pernoitará.

A Coluna Oeste deixa Cuiabá às 5 horas da manhã, viajando até Alto Araguaia, onde pernoita.

A Coluna Norte vence a etapa de Gurupi a Porangatu. A viagem continua com passagem em novos núcleos surgidos nestes últimos anos por influência da rodovia Belém-Brasília, dentre os quais Entroncamento, Formosa, Estrela do Norte, Amaro Leite e Campinorte. A caravana pernoita em acampamento no rio Passa-Três, distante um quilômetro do centro da cidade de Uruaçu, junto do local onde há seis dias desabou o aterro da ponte em virtude de enchente provocada por uma tromba d’água violenta. Essa ponte foi construída há oito anos para acesso ao centro urbano. Sua destruição não obstou a marcha da Caravana, a não ser que a obrigou a fazer a travessia em balsas rumo a Ceres, Anápolis e Goiânia.

A Coluna Sul vence a etapa Limeira-Jaboticabal.

 

29
Caravana de Integração Nacional – Continua, com pleno êxito, ao longo das estradas que do Norte, Sul, Leste e Oeste, convergem sobre Brasília, o deslocamento das quatro Colunas da Caravana de Integração Nacional.

Depois de pernoitar de 28 e 29 na cidade de Juiz de Fora, onde é alvo de grandes homenagens por parte das autoridades e do povo, a Coluna Leste parte para Belo Horizonte, passando pelas cidade de Santos Dumont e Barbacena. Em Santos Dumont, a Coluna, ao chegar aos limites do Município, é recebida pelo Prefeito Paulino Alves Guedes, outras autoridades e grande massa popular. Ao atravessar a cidade, a Coluna passa entre alas formadas por estudante e o povo, enquanto jovens da sociedade local atiravam flores sobre os carros.

Depois de hora e meia de viagem, que foi lenta, a fim de receber as manifestações prestadas pelas populações das localidades por onde passava, a Coluna chega a Barbacena, onde é entusiasticamente aplaudida pelo povo. Numa homenagem à população local, a Caravana percorre diversas ruas da cidade, recebendo calorosas manifestações do povo. Na Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica, o comandante, Brigadeiro Sinval Castro, bem como oficialidade, sargentos e praças, prestam expressiva homenagem à Coluna.

O Comandante oferece no Cassino de Oficiais um almoço aos integrantes da Coluna.

De Barbacena, a Coluna prossegue viagem para Belo Horizonte, onde pernoita.

A Coluna Sul parte pela manhã de Jaboticabal, tendo passado pela cidade de Barretos, sendo festivamente recebida pelas autoridades e a população. De Barretos, a Coluna desloca-se para a cidade de Frutal, no Triângulo Mineiro, onde pernoita.

A Coluna Norte prossegue de Uruaçu com destino a Ceres.

A Coluna Oeste efetua o percurso Alto Araguaia-Goiânia.

Instituto dos Bancários – Anuncia-se que, como parte das comemorações de mais um aniversário do Governo do Presidente Juscelino Kubitschek, o Instituto dos Bancários inaugurará mais 228 apartamentos na nova Capital, elevando-se assim a 312 o total de unidades residenciais desse tipo construídas pela referida autarquia em Brasília. Segundo declarações do engenheiro Mauro Pessoa, chefe das obras do IAPB em Brasília, todas as unidades obedecem a uma linha uniforme, possuindo três dormitórios, ampla sala de visitas, ante-sala, cozinha-copa espaçosa, pequeno depósito, área de serviço e dependências para empregada. Todos os apartamentos serão entregues mobiliados e tem vista para o lago, oferecendo, desse modo, magnífica visão panorâmica da cidade. Informa ainda o engenheiro Mauro Pessoa que será iniciada em breve a construção de um conjunto de 152 casas para bancários, todas dotadas de instalações iguais às dos apartamentos. Além deste conjunto o IAPB construirá mais cinco blocos de apartamentos para funcionários públicos e 50 novas residências de primeira categoria.


Foto: Arquivo Público do DF

Sistema Educacional – Anuncia-se que a coordenação geral das atividades do sistema educacional de Brasília, bem como a determinação de tarefas ao pessoal e a celebração de contratos especiais de prestação de serviços, nos termos da legislação trabalhista – são algumas das iniciativas que ficarão a cargo do diretor-executivo da Comissão de Administração do Sistema Escolar de Brasília, prof. Armando Hildebrand.

Outras atribuições conferidas a este técnico do Ministério da Educação e Cultura são as seguintes: 1) propor planos de trabalho e de aplicação de recursos e promover a execução de providências conforme as decisões da Comissão Deliberativa da CASEB, presidida pelo Diretor-geral do Departamento Nacional de Educação; 2) providenciar no sentido da boa administração das escolas e do incremento das atividades culturais na nova Capital; 3) movimentar os recursos à disposição da Comissão; 4) prestar contas das despesas efetuadas; 5) submeter, no inicio de cada ano, à consideração da Comissão Deliberativa da CASEB, relatório circunstanciado das atividades levadas a efeito no ano anterior.

 

30
Caravana de Integração Nacional – A Coluna Leste deixa Belo Horizonte e atinge Três Marias, onde pernoitará.

A Coluna Oeste, procedente de Cuiabá, atinge Goiânia à 1 hora da madrugada deste dia.

A Coluna Sul sai de Prata, pela manhã, para ir pernoitar em Itumbiara.

A Coluna Norte alcança Goiânia.

Rodovia Fortaleza-Brasília – O Presidente Juscelino Kubitschek autoriza o Departamento Nacional de Obras contra as Secas a empregar o crédito de Cr$ 241.139.434,00, na construção da rodovia Nordeste-Brasília, considerada de interesse nacional.

 

Fonte: “Diário de Brasília”, Coleção Brasília VII, Serviço de Documentação/Presidência da República – 1960

 

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João Coragem

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

João Coragem
Por Conceição Freitas

Fundação é uma palavra forte e João Batista Pereira dos Santos faz jus a ela. Na construção civil, fundação é a base firme sobre a qual o edifício se sustenta.

É ela que liga o prédio à terra, é a travessia da natureza à civilização.

Um dos homens que fizeram a fundação de algumas das mais importantes obras de Brasília mora, há mais de 50 anos, numa casa da Quadra 12 de Sobradinho, ao lado das serras da Chapada de Contagem.

Piauiense, 85 anos, 1,60m, 14 filhos, dos quais 13 estão vivos, o bravo candango escavou o chão vermelho de Brasília em busca da terra firme para suportar o peso de uma cidade.

A baixa estatura ajudou-o a cavar, com picareta e enxada, o solo da nova capital, mas só ela era insuficiente. Foi preciso muita coragem e um certo distanciamento do medo da morte. “A gente morre de qualquer jeito”. Sozinho, seu João roeu a terra de onde aflora a Torre de Tevê, uma das duas únicas obras arquitetônicas de Lúcio Costa em Brasília. De short, botina e uma lâmpada acoplada à testa, seu João sulcava a terra, enchia o balde, dava um puxão na corda, o operário lá de cima retirava o barro e o lá de baixo seguia afundando o solo até encontrar condições e profundidade seguras para sustentar as 370 toneladas de ferro da Torre.

“Cavei 35 metros, fiz o bolo de barro, mandei lá pra cima, o engenheiro mandou a terra para o Rio de Janeiro e voltou dizendo que era preciso afundar mais.

Cheguei a 41,60 metros. A Torre tem tudo isso de fundura”, diz seu João. Foi a empreitada mais trabalhosa, embora as outras não tenham sido nada fáceis. Seu João fez a fundação do 28 (como era conhecido o Congresso Nacional), da galeria que ele diz que existe entre o Congresso e o Palácio do Planalto, da Rodoviária, do Tribunal de Contas da União, das passagens subterrâneas do Eixão Sul.

“Cavei quase tudo o que existe do Hotel Nacional até bater no Hospital de Base”.

Seu João era funcionário da Estaca Franca, empresa responsável por muitas das obras de fundação de Brasília.

Trabalho árduo

Antes de se transformar num bravo candango, seu João havia sido um bravo garimpeiro. Trouxe do garimpo a experiência de cavar túneis de dezenas de metros de extensão para a extração de minério. “Tem vez que você entra e, quando pensa que não, uma jaracuçu está perto de você. Com uma mão, você oferece o candeeiro pra ela e com a outra você vai no escuro até pegar ela por trás. Aí você grita pelo sócio e ele vem com a marreta e mata, bota na caixona de pau e leva lá pra cima”. Seu João faz os gestos de quem, vagarosamente, encanta a cobra com a luz e ao mesmo tempo tenta dominá-la com a outra mão. Mais arguto e rápido que ela, ele venceu muitas dessas (e outras) pelejas de vida ou morte.

Depois da construção de Brasília, trabalhou mais 42 anos de carteira assinada (“me enganaram”). Foi funcionário da Novacap por 38 anos. À noite, nos fins de semana, feriados e férias. Seu João trabalhou por conta própria: fez mais de 300 fundações e lajes em Sobradinho, segundo suas contas. A mulher, dona Zilda, 75 anos, ajudou-o a construir a casa onde moram, o que só foi possível depois de 30 anos de trabalho. “Peneirei areia, carreguei massa, carreguei tábua na cabeça pra fazer o escoramento da laje”, lembra-se dona Zilda, senhorinha agitada e sorridente que até hoje cuida da casa de cinco quartos e dez camas onde, nos finais de semana, se reúnem muitos dos 13 filhos, 36 netos e 24 bisnetos.

Família que começou há 59 anos, quando João Bonitinho se engraçou por uma garota que a mãe achava meio doidinha, Zilda. Vendo a menina maltratada, ele a pediu em casamento. Ela tinha 14 anos e ele, 24. Casaram-se no religioso e tiveram três filhos até que João decidiu vir para Brasília atrás da prometida prosperidade. O operário que cavava a terra para os palácios chegou aqui em 1957 e logo se arranjou na Vila Amaury, mais tarde engolida pelo Lago Paranoá. Todo mês, mandava um pouco do salário para a mulher, menos da metade do que ganhava. Até que um dia, Zilda tomou uma decisão.

Carta estratégica

Fazia mais de mês que João Bonitinho não mandava notícias para a mulher grávida e os dois filhos que haviam ficado em Monte Alegre. Em 11 de abril de 1960, nasceu Almir. Zilda ficou mais preocupada ainda, temia que algo tivesse acontecido ao marido. Os boatos que chegaram ao sertão do Nordeste eram de que ia haver muita briga em Brasília entre os que queriam a mudança da capital e os que queriam continuar no Rio de Janeiro. “Diziam que a capital só mudaria se corresse sangue de mocotó”.

O silêncio prolongado do marido aumentou a apreensão de Zilda. Ela então mandou uma carta dizendo que estava muito doente, morre-não-morre. Mesmo assim, nenhum sinal de Bonitinho. “Ele não vem me buscar mais não”. Então decidiu: “Vou vender tudo e vou pra lá”. Foi o que fez.

Todos os dias as mulheres iam para o cruzeiro à entrada da cidade esperar a chegada dos paus-de-arara da cidade esperar a chegada dos paus-de-arara trazendo encomendas dos maridos. Num desses dias, uma delas reconheceu João Bonitinho de longe e correu para avisar Zilda que o marido estava chegando. Quando viu que a mulher já estava pronta para vir para Brasília com as três crianças, seu João reagiu: “Minha velha, você é doida. Você enlouqueceu de vez. Lá em Brasília não é lugar de mulher”. Ela não recuou: “Não quero nem saber. Você já está velho, eu sou jovem e bonita. Você não quer me levar por causa dos homens”. João estava enredado: “Então,vamos. Mas você vai se arrepender”. Zilda não teve medo: “Se eu me arrepender, não vou me queixar com ninguém, só de mim mesma”.

Casaram-se no civil e vieram. Dona Zilda não demorou a pagar a língua:

“Quando cheguei, me arrependi na hora. Era frio demais. Caía gelo. Quando a chuva vinha lá na serra, eu já estava dentro de casa. Juntava os três meninos e tremia em cima de uma cama”. O bebê estava com três meses, quando veio mais uma novidade: “Peguei bucho do primeiro pioneiro de Brasília”. Depois do Jair, viriam outros nove, todos brasilienses. Ao todo, tiveram 14 filhos: Adauto, Zenilda, Almir, José, Nilta, Paulo, Neide, Luzineide, Antonio, Jair, Mariluce, Roberto, Luciano e Luzinete, que morreu ano passado.

Quando chegou a Brasília, em 1960, Zilda foi trabalhar de empregada doméstica. Nunca havia visto um fogão a gás nem uma panela de pressão. “Um dia, a mulher mandou eu olhar a panela de pressão. Quando ela apitar, você desliga o fogo”. Quando começaram os apitos, Zilda não sabia o que fazer. Pegou o cabo de rolo e de longe com muito cuidado empurrou a panela para longe do fogo. Passou o restante da manhã, com os seus três filhos e os dois da patroa, olhando a panela de longe, temendo que algo ainda pudesse acontecer. Ela conta e ri. Zilda adora rir.

João e Zilda são dois bravos candangos que criaram 13 filhos na terra prometida. “Nunca nenhuma polícia bateu na minha porta. Todos os filhos homens tem o segundo grau. Hoje, me acho maravilhosa”, diz Zilda ao lado do velho João, hoje cansado, mas ainda vaidoso.

De chapéu, camisa de linho de manga comprida, calça de vinco e coragem que nunca acaba. “Dei um duro danado, mas pra mim foi bom”, ele diz, com uma sombra de dúvida. O bravo candango trabalhou demais para salário (e aposentadoria) de menos.

Transcrito do jornal “Correio Braziliense” 19 de dezembro de 2009.

 

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O piloto e o pássaro

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

O piloto e o pássaro
 
                                à JK

E um pássaro
imenso, imponente,
ousado,
futurista, metálico,
pousou no cerrado.
Sentiu o cheiro do
chão,
bebeu águas do rio,
humanizou-se.
Batizou-se por Dom Bosco,
deu Graças a Deus,
e permaneceu em GOIÁS.
 
E o pequeno sabiá,
o joão-de-barro,
o bem-te-vi,
todos os passarinhos
ficaram assustados,
em suas histórias
humildes e sertanejas.
 
E as borboletas
fizeram reverência,
dançando cores,
sobre paus-terras,
pequizeiros e ipês.
 
Era abril.
As paineiras
viraram
damas de honra,
em seus
vestidos
cor-de-rosa.
 
             O piloto
                sorria
                no altar
                da poesia.
                Ousou,
                decidiu,
                transformou
                asas em
                Cidade,
                e proclamou
                a liberdade.
 
Quis
                que as
                vértebras
                do gigante
                alado
                fossem
                harmonia,
                equilíbrio,
                no processo de
                decisão.
 
A cabeça
do grande pássaro
pensava a justiça
pensava as leis
para a regência
da caminhada
dos Homens.
 
              O hemisfério direito,
              comungando o céu.
              O hemisfério esquerdo,
              comungando a terra.
 
O piloto cantava
vitória
no altar da história.
              – Foi plural:
              não sonhou
              sozinho,
              não realizou
              sozinho.
 
O peito do pássaro
pulsava forte,
carregando a emoção
das pessoas
(candangos,
trabalhadores,
operários
da construção)
poetando e
conquistando rumos
para o Centro-Oeste,
poetando e
conquistando
rumos para o Brasil.
E o piloto
apostava
no teste:
trazer
o desenvolvimento
para o Centro-Oeste.
 
Choveram
versos,
em páginas brancas.
Pingaram
cores,
em telas brancas.
Caíram notas,
melodiando
o silêncio.
Ritmaram
passos,
e o palco
não ficou
vazio.
 
O mundo extasiou-se.
Correu,
virou Avenida das Nações
no Planalto Central.
 
GOIÁS abriu o peito
e acolheu
o piloto e
o pássaro.
 
GOIÁS abriu o peito
e acolheu
Minas Gerais.
 
GOIÁS abriu o peito
e acolheu o Brasil,
e o Mundo.
 
E tudo
virou um hino
               ao novo Exupéry,
               o Grande Príncipe,
               o eterno Poeta
               Juscelino.
 
Post de Sonia Ferreira, poetisa goiana.

 

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Brasília – Novembro de 1959

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

 

BRASÍLIA – NOVEMBRO DE 1959

 

 

 

 

01
Colação de grau – O Presidente Juscelino Kubitschek envia mensagem ao Congresso Nacional, acompanhada de projeto que faculta aos cursos de Arquitetura, Urbanismo e Belas Artes, somente no ano de 1960, a realização da última série em um único período letivo, com inicio a 2 de janeiro e término a 20 de abril, de modo a permitir a colação de grau no dia 21 de abril de 1960, coincidindo com a data da mudança da Capital do país.

Os estabelecimentos de ensino superior que mantenham aqueles cursos, após o pronunciamento de seus órgãos próprios, deverão fazer a devida comunicação ao Ministério da Educação. De acordo com o projeto, haverá apenas uma prova de aproveitamento ou habilitação, que será completa, constituída de exame escrito e oral, acrescido de prova prática, quando a cadeira o comportar, sendo a nota de habilitação a média aritmética dessas provas. Colarão grau os candidatos que lograrem habilitação nessa época única nos termos do Regimento de cada estabelecimento. As aulas serão ministradas em curso intensivo, exigindo-se a freqüência mínima de oitenta por cento. Os professores deverão perceber uma gratificação correspondente à metade de seus honorários. Haverá segunda época a ser fixada oportunamente pelos órgãos próprios de cada estabelecimento, desde que transcorra entre a primeira e a segunda, período não inferior a dois meses.

03
Câmara Federal – Da Tribuna da Câmara Federal, o deputado Elias Adaime profere discurso de critica à administração da Novacap e às obras de Brasília.

04
Câmara Federal – A Novacap distribui a seguinte nota, a propósito do discurso proferido na véspera, na Câmara, pelo deputado Elias Adaime:

“A propósito das acusações formuladas da tribuna da Câmara dos Deputados, em sessão especial, envolvendo a responsabilidade desta Companhia, a presidência da Novacap tem a informar que dará documentada, minuciosa e cabal resposta a todas as alegações e insinuações, de maneira a não deixar qualquer dúvida sobre a lisura e a honestidade com que vem sendo executadas as obras de construção da nova Capital do Brasil.

O senhor Israel Pinheiro, que se encontra em Brasília, prestará, logo que regresse ao Rio, todos os esclarecimentos que a opinião pública reclame para a perfeita elucidação da verdade.”

Transporte de cargas – Com base na experiência dos trens organizados pelo Grupo de Trabalho do DASP, em cooperação com a Rede Ferroviária Federal, dois itinerários – um para cargas e outro para passageiros – passaram a ser feitos regularmente para Brasília.

O transporte de cargas é efetuado via Barra Mansa e E.F.Goiás, enquanto o transporte de passageiros utiliza as linhas da Central, da Santos a Jundiaí, Companhia Paulista, Mogiana e E.F.Goiás, com baldeações em Campinas e Araguari, tendo essa viagem, até Anápolis, a duração de 51 horas.

A evolução dos transportes de cargas para Brasília, por intermédio da RMV, pode ser apreciada pelos números que se seguem: em 1957, foram utilizados 333 vagões que rebocaram 60.527 toneladas. Até junho do corrente ano, a RMV carregou naquele percurso 1.918 vagões com 47.524 toneladas. A média mensal de vagões carregados foi de 28, 217 e 274, nos anos de 1957, 1958 e 1959 (até junho), transportando, respectivamente, 664, 5.044 e 6.789 toneladas, evidenciando um crescimento constante no transporte de cargas para a nova capital, por intermédio da RMV.

Rede Mineira de Viação – Até o fim do ano de 1959 será entregue ao tráfego ferroviário (Rede Mineira de Viação) o trecho Garças-Goiandira, para o transporte, por via férrea, das mudanças dos funcionários federais e autárquicos que se transferirão para Brasília.

Objetivando reparos de emergência e melhoramentos gerais que possibilitem o transporte de 12.000 m3 de carga prevista, a Rede Ferroviária Federal S.A., apresentou ao ministro Amaral Peixoto, da pasta da Viação, o plano de serviços, que abrange substituição de trilhos e obras do alargamento do leito da via férrea.

05
Rodovia Belo Horizonte-Brasilia – O DNER acaba de construir a trigésima primeira da série de 35 obras de arte especiais da rodovia Belo Horizonte-Brasília, a ponte sobre o córrego Facão, em concreto armado, medindo 50 metros de comprimento por 10 metros de largura. Dos 3.151 metros que terão as 35 pontes, já se acham concluídos 2.640 metros.

As obras concluídas são as seguintes: Ponte sobre o Rio São Marcos (270m) na divisa Minas-Goiás; Ponte no Rio das Almas Primeiro, com 87 metros; no Córrego Leitão – 29 metros; Ribeirão Pedras (34m); Córrego Bagre (45m); Rio Peixe (80m); Rio Boi (100m); Rio Furnas (82 m); Rio Cristal (91m); Vereda Grande (50m); Riacho Fundo (26m); Rio Jacareí (55m); Rio São Bartolomeu (192 m); Rio Extremo Grande (69m); Rio Prata (190m); Córrego Taquara (60m); Rio João Fernandes (64m); Córrego Meleiros (51m); Córrego Manso (45m); Rio Abaeté (144m); Córrego Casa Branca (55m); Rio Escuro (166m); Córrego Olho Dágua (48m); Rio Santo Antonio (80m); Córrego Rio (84m); Rio Curral das Éguas (70m); Rio das Almas Segundo (91m); Rio do Sono (38m); Córrego Extreminha (70m); Rio Fecha Mão (34m).

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Biblioteca Visconde de Porto Seguro – Já se acha instalada, em Brasília, a Biblioteca Visconde de Porto Seguro, que reúne cerca de três mil volumes, dispondo, ainda de uma vasta discoteca, formada por doações de embaixadas credenciadas no Brasil, instituições culturais, ministérios, outras bibliotecas e entidades particulares, bem como de escritores e homens de ciência do país e do exterior.

A Biblioteca Visconde de Porto Seguro está localizada no Plano Piloto, na primeira casa do segundo grupo de construções da Caixa Econômica em Brasília. O estabelecimento é mantido pela Novacap. A Biblioteca Visconde de Porto Seguro vem atender às necessidades mais urgentes da evolução da nova Capital e de seus atuais moradores, dispondo de coleções pedagógicas, seções de literatura brasileira e estrangeira, livros de sociologia, arte e literatura infantil e para adolescentes.

Lin Yutang – Em telegrama ao Presidente Juscelino Kubitschek, o escritor chinês Lin Yutang, assim se manifesta sobre Brasília:

“Em particular, muito me impressionou a idéia de Brasília. Uma cidade inteiramente planejada pode fazer muitas coisas que cidades já existentes não o podem, e Brasília tem todas as vantagens de uma cidade inteiramente planejada. Não tive a oportunidade de discutir detalhes, mas estou certo de que tem planos de reflorestamento e de arborizações para as avenidas que completam tanto a beleza de uma grande capital como Paris ou Buenos Aires.”

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Gilberto Freyre – Em Brasília, entrevistado pelo repórter Alfredo Ribeiro, da Rádio Nacional de Brasília, o sociólogo Gilberto Freyre assim se manifesta sobre o que lhe é dado ver na futura Capital do Brasil:

“Foi com a maior satisfação que, depois de um primeiro contato, espécie de aperitivo, com Brasília, voltei esta semana a ver de perto esta assombrosa criação brasileira, desta vez a convite do meu eminente amigo, o Presidente Juscelino Kubitschek.

Sejam quais forem suas deficiências, neste ou naquele particular, Brasília é de certo um esforço que honra a capacidade de realização dos homens públicos, dos administradores, dos arquitetos, dos urbanistas, dos sanitaristas, dos educadores, dos técnicos e dos operários nele empenhados com um fervor que, em alguns, chega a ser um fervor místico ou religioso. Do ponto de vista artístico – Brasília é qualquer coisa de maravilhoso. Continuo a pensar que lhe faz falta a presença, entre os orientadores da sua construção, do ecologista e dos cientista sociais; e renovo daqui o meu apelo ao Presidente da República e ao Diretor Israel Pinheiro, no sentido de procurarem juntar, sem demora, esta colaboração efetiva ao esforço cada vez mais complexo que a construção de Brasília representa como um grande triunfo brasileiro no espaço tropical e no tempo moderno.

É evidente que Brasília se desenvolverá como uma cidade basicamente brasileira. Por conseguinte, com problemas comuns a outras cidades brasileiras. Por outro lado – tal é a sua modernidade, tal é a sua projeção sobre o futuro, como cidade situada no trópico, que vários dos seus problemas serão especificamente, vamos dizer, brasilianos e não apenas brasileiros.

Esses problemas, que acabo de chamar especificamente brasilianos, terão de ser considerados – e quando possível resolvidos, por administradores de visão na verdade larga, com a colaboração não só de urbanistas, arquitetos e artistas, mas – permita que insista neste ponto – de ecologistas e cientistas sociais, pois não nos esqueçamos de que Brasília não é uma criação do vácuo, mas dentro de uma ecologia – a tropical e condicionada pela situação do Brasil, pelas suas inter-relações internas (inter-relações das quais Brasília se vai tornar o centro) e pelas suas relações com o exterior: relações de uma já quase potencia, não só continental como atlântica.

Não sei se se deva dizer que Brasília vai-se desenvolver como cidade de formação cosmopolita. A meu ver, se tal sucedesse, seria não a sua grandeza, mas, talvez, a sua desgraça. Brasília, a meu ver, deve desenvolver-se combinando o que nela é brasileiro com o que lhe virá, cada vez mais, de fora, sob a forma de boas e saudáveis influencias de caráter cosmopolita.

Sou dos que acreditam de modo, posso dizer, absoluto, em que a interiorização da Capital é uma necessidade brasileira. Será um meio de tornar-se o Brasil um todo mais dinamicamente inter-regional e, por conseguinte, um todo verdadeiramente nacional.”

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Catetinho – Em Brasília, o Presidente Juscelino Kubitschek preside à cerimônia de entrega ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do primeiro Palácio Residencial Provisório de Brasília, o Catetinho. Nessa ocasião, congratulando-se com os pioneiros que, por conta própria, chegaram a Brasília e por conta própria construíram o Catetinho, o Presidente da República diz:

“Há três anos, pela primeira vez dormi nesta construção que o próprio povo denominou Catetinho, traduzindo o espírito que imperava em todos os corações: a transferência do Governo para o interior.”

Passa o Presidente a abordar aspectos dos primeiros dias de Brasília. cita o fato de um caminhão levar então cerca de vinte dias ou mais para chegar até lá por falta de estradas. As cargas eram atravessadas sobre os rios em balsas improvisadas. Ainda agora, quando marcham para Brasília os primeiros transformadores, que possibilitarão a chegada da energia elétrica de Cachoeira Dourada a Brasília, a tarefa do transporte foi entregue ao Exército e constitui uma verdadeira operação de guerra, através de mil quilômetros de distancia. Entretanto, prossegue o Presidente, o panorama hoje se transforma. De várias regiões chegamos através de boas estradas asfaltadas. E amanhã, a 21 de abril, de todos os pontos do Brasil, chegaremos a Brasília por grandes estradas, entre as quais a Brasília-Belém, a espinha dorsal do país e o maior empreendimento pioneiro do século.

Diz ainda o Presidente da República que, quando chegou a Brasília pela primeira vez, sonhando com a ligação Norte-Sul do país, chamou o engenheiro Bernardo Sayão e expôs-lhe as dificuldades, mostrou-lhe os perigos da aventura através de 600 quilometros de selva e Sayão, com os seus homens, iniciou a grande jornada, tornando-se o primeiro herói e o primeiro mártir. Dois anos depois, a estrada está aberta nos 600 quilometros de selva desconhecida, marcando para sempre a grande marcha em busca da integração de seis milhões de quilômetros quadrados de territórios até agora abandonados.

Brasília – continua o Presidente – representa um elo, uma nova fase na vida brasileira que está recuperando, em três anos, três séculos perdidos.

Reafirma o Presidente Juscelino Kubitschek que Brasília não é uma cidade. É uma trincheira avançada, que em boa hora o seu governo tomou a decisão de construir, para a grande arrancada rumo ao interior.

Termina o Presidente congratulando-se mais uma vez com o pioneiros de Brasília, que lá chegaram em caminhões que ninguém sabe por onde vieram, nem como chegaram.

E em dez dia, convidaram o Presidente a transferir a sede do Governo para o seu novo palácio. E acrescenta, textualmente:

“Nesta data, há três anos atrás, despachei pela primeira vez na pequena sala onde uma placa de bronze fixa para a posteridade o ato heróico daqueles dias.”

Finalizando, diz de sua satisfação em entregar à diretoria do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional, na pessoa de seu diretor, professor Rodrigo de Melo Franco Andrade, a primeira residência de Brasília, que assim ficará perenemente preservada para a História.


Foto: Arquivo Público do DF

Entrevista do Presidente da Novacap – No Rio de Janeiro, o Senhor Israel Pinheiro concede à imprensa uma entrevista coletiva, em que aborda, um a um, os pontos estudados, na Câmara Federal, pelo deputado Elias Adaime, em torno da construção de Brasília.

Rodovia Belo Horizonte-Brasília – O Ministério da Viação informa que, das 35 obras de arte especiais da rodovia Belo Horizonte-Brasília, 32 já se acham concluídas pelo DNER.

Informa ainda o DNER que um viaduto no quilometro zero, entre Lagoa Jacaré, sobre a rodovia estadual, ficará concluído dentro de 30 dias. A ponte do córrego Rico em dezembro próximo. Finalmente, uma ponte sobre o Rio São Francisco, a mais longa (360m) tem a sua conclusão prevista para o dia 20 de janeiro do ano vindouro, encerrando-se naquela data o serviço de construção de obras de arte na Belo Horizonte-Brasília.

Vice-governador de São Paulo – Ao Presidente Juscelino Kubitschek, o General Porfírio da Paz, vice-governador de São Paulo, dirige o seguinte telegrama:

“Diante dos injustificados ataques contra sua monumental obra de Brasília, que, com o ser imperativo constitucional é sobretudo de supremo interesse para a Pátria que lhe deve assinalados e relevantes serviços, apresso-me em enviar-lhe meus protestos de solidariedade integral não só como homem público, soldado da Pátria e seu sincero amigo e grande admirador. Sua obra de Brasília é por demais grande e tão consagrada está no Brasil e em todo o mundo que não lhe atingem ataques pessoais nem partidários partam de onde partirem. Meu ilustre Presidente e querido amigo sabe que à proporção que se aproxima a data marcada pela sua competente autoridade e alto critério que tem presidido seus atos da mudança da Capital para Brasília, vão aparecendo as vozes agoureiras daqueles que são incapazes de compreender a excelsa significação de sua obra que assombrou o mundo e encheu o coração dos brasileiros de fundadas esperanças de um amanhã melhor na certeza absoluta de um futuro de progresso, prosperidade e paz. A mudança da Capital desgosta alguns que não querem deixar essa maravilhosa Guanabara, mas alegrará a esmagadora maioria dos brasileiros da hinterlândia que serão tirados da solidão e do esquecimento em que vivem pela coragem, decisão e solidariedade do grande presidente Juscelino. Para a frente, querido amigo, e que Deus e Nossa Senhora Aparecida o ajudem.”

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Arquiteo Sérgio Bernardes – De regresso de Brasília, o arquiteto Sérgio Bernardes assim se manifesta à imprensa sobre o que viu na nova Capital:

“Confesso que, antes de ir a Brasília, não tinha uma idéia precisa sobre o que ela representa de grandioso e de promissor para o futuro do Brasil. É natural que aquela empresa ciclópica, criada do nada, em pleno planalto goiano, pela vontade férrea do Presidente Kubitschek, venha dando assunto para críticas e alarma de gente acostumada a ver o Brasil marcar passo na senda do Progresso, seguindo a orientação da bússola do espírito conservador e rotineiro.

Até o advento da presidência Kubitschek, o nosso imenso País foi governado por homens probos e ilustres que pautavam os seus atos procurando sempre não piorar o que já estava feito, mas sem cuidar de atender ao muito que ainda estava por fazer para amalgamar, para consolidar a verdadeira unidade nacional. O apego às velhas praxes administrativas, circunscritas à placidez sombria dos salões de despachos, não permitia àqueles conspícuos cidadãos uma visão panorâmica de um outro Brasil, perdido no “hinterland”, dissociado da comunhão nacional, mas estuante de possibilidades para cooperar no desenvolvimento de nossas forças econômicas. Brasília é, justamente, o marco principal de uma nova era nos métodos da governança da União e, sem ela, as metas programada pelo dinâmico e impetuoso governo do Sr. Juscelino Kubitschek não teriam finalidades práticas e decisivas para as prosperidades do nosso grande e bom povo.

O plano da Nova Capital, da lavra desse humanismo e genial Lúcio Costa, resolve, de maneira simples e harmoniosa, todos os problemas de urbanização da nossa futura Metrópole. E o poder criador de Oscar Niemeyer surge, nos principais edifícios de Brasília, como uma afirmação do adiantamento da arquitetura brasileira. É deveras lamentável que um empreendimento impar na arquitetura mundial, da projeção social e econômica de Brasília nos destinos de nossa Pátria, esteja, agora, passando pelo crivo de criticas políticas que nada podem tirar do valor e da irrecusável utilidade daquela corajosa e portentosa obra.

Fala-se muito nos gastos com a construção de Brasília, mas o que lá se gastou é uma parcela ínfima do que a Nação lucrou com esses abençoados quatro anos de paz, de ordem, de liberdade, que a figura humana do Sr. Kubitschek concedeu a todos os setores da vida nacional. Naturalmente, nada se faz sem sacrifícios, mas o que o Sr. Juscelino vem fazendo, sem poupar esforços e canseiras, para despertar a Nação do marasmo burocrático em que vivia hibernada, há muitas décadas, será reconhecido pelas gerações futuras, como a obra de um homem que porfiou, que sofreu, tocado pela ante-visão de um Brasil forte, unido e próspero.

Aí, então – conclui o arquiteto Sérgio Bernardes – Brasília será compreendida e louvada.”

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Marechal Henrique Lott – Visita Brasília o ministro da Guerra, Marechal Henrique Teixeira Lott, que é homenageado pelos operários na Praça dos Três Poderes. Agradecendo a recepção, o Ministro da Guerra declara-se vivamente entusiasmado com o andamento das obras, referindo-se ao esforço e à capacidade do trabalhador brasileiro, notadamente daqueles que, vindo dos recantos mais distantes do país, com dedicação e patriotismo, empregam o melhor dos seus esforços na concretização da grande obra, que a seu ver é de salvação nacional.

Concluindo, o Ministro da Guerra lembra as criticas e até mesmo os insultos de que foram vitimas Oswaldo Cruz e o Barão do Rio Branco, ambos hoje lembrados com veneração e respeito por todos os brasileiros, pelo muito que fizeram pela elevação da Pátria. Dessa mesma incompreensão, diz o titular da Guerra, está sendo vitima o Presidente Juscelino Kubitschek com a construção de Brasília; mas estejam certos os brasileiros que os descrentes de hoje serão os mais crentes de amanhã, porque Brasília já é, indiscutivelmente, o inicio de uma nova era de progresso para o país.


Foto: Arquivo Público do DF

Entrevista de imprensa – O senhor Ernesto Silva, diretor da Novacap, presta à imprensa, a propósito de declarações do deputado Elias Adaime, as seguintes informações:

“O Presidente Israel Pinheiro, na sua exposição, complementada com os amplos esclarecimentos que democraticamente prestou na entrevista coletiva à imprensa, já contestou todas as inverdades veiculadas pelo deputado e repeliu, com veemência, a indébita intromissão na vida particular e as injúrias que lançou contra dirigentes, chefes e altos funcionários da Novacap, que merecem, pelo rigor no cumprimento do dever, pela probidade e pela capacidade profissional, o mais alto respeito e consideração.

Quanto às acusações que me faz pessoalmente e a meus auxiliares diretos, carecem de idoneidade, porque não vieram acompanhadas de provas.

A questão da mobília para a Granja G-4, que servirá de residência para o Diretor durante a sua gestão na Novacap, não teve qualquer interferência de pessoas do meu gabinete, pois a sua aquisição foi realizada mediante tomada de preços pelo Departamento de Compras da Novacap e encomendada à firma vitoriosa na concorrência, sendo que as especificações da mesma foram feitas pelo Departamento de Arquitetura.

No que concerne à concorrência dos eucaliptos e ao contrato das oliveiras, neles não se envolveu, sob qualquer aspecto. Os processos foram originados no Departamento de Agricultura, sob a supervisão de outro diretor da Novacap, o Dr. Íris Meinberg. Seu gabinete jamais participou, direta ou indiretamente, de qualquer assunto relacionado com a agricultura, dele tomando conhecimento através das Atas do Conselho e da Diretoria.

A afirmação de que o Sr. Amaury (encarregado da instalação da Vila Amaury) e d. Dinah (que é minha assessora, porém jamais teve interferência em assuntos ligados àquela vila), tenham recebido propinas é inteiramente infundada; se algum fiscal procurou se prevalecer de suas funções para explorar os trabalhadores, o fato não mereceu aprovação de quem quer que seja, nem nele se envolveram os funcionários citados, que vivem para o seu trabalho e gozam do maior conceito na Companhia. É, aliás, inteiramente impossível que os moradores da Vila Amaury, simples assalariados e, na sua maioria, amparados pelos órgãos de assistência social em Brasília, estejam em condições de dar propinas, quando, sem o fazer, poderiam dispor gratuitamente dos lotes para as suas residências.

Quanto ao parentesco com o Sr. Duarte e a Sociedade na Copiadora, já foram assuntos desmentidos pelo Sr. Israel Pinheiro. Só podem ter sido veiculados por maldade ou engano. O Sr. Duarte é chefe da Divisão de Documentação e não é meu parente próximo ou remoto; os proprietários da Copiadora não os conheço: a referida Copiadora transferiu-se para Brasília quando para lá se transferiu o Departamento de Arquitetura e a maior parte das cópias heliográficas é destinada, como é óbvio, aos diversos departamentos intimamente ligados às construções, não subordinados diretamente à minha pessoa.”

IBC – O Presidente Juscelino Kubitschek visita, no Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna, a planta e fotografias da maquete do edifício-sede que o Instituto Brasileiro de Café erguerá em Brasília, planta de autoria do arquiteto Sérgio Bernardes.

Cachoeira Dourada – O Presidente Juscelino Kubitschek autoriza a liberação da verba de 40 milhões de cruzeiros e a assinatura do contrato a ser celebrado entre o Ministério da Agricultura e as Centrais Elétricas de Goiás S.A., para construção das linhas de transmissão do sistema da Central Hidrelétrica da Cachoeira Dourada.

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Discurso presidencial – Falando na instalação do XIV Congresso Mundial de Câmaras Junior, no Rio de Janeiro, o Presidente Juscelino Kubitschek assim se expressa a propósito de Brasília:

“O aproveitamento, em grande escala, do imenso potencial hidrelétrico do Brasil, com a construção de modernas e bem aparelhadas usinas; a exploração petrolífera em marcha ascendente; a construção de rodovias que ligam o “hinterland” com o litoral, em todos os sentidos – e outras realizações, cujos frutos serão recolhidos pelos moços – são obras que não se destinam a encher os olhos do efêmero, mas a melhorar as bases do nosso soerguimento e de nossa segurança.

Como coroamento dessas tarefas, estamos, como deveis saber, construindo uma nova Capital, no próprio coração do território pátrio – a primeira capital da nova civilização, como acentuava, há pouco, o escritor francês Malraux.

Não se trata de renegar a civilização litorânea, como se tem dito irrefletidamente, e sim de aproximar o litoral do nosso “hinterland”, onde jazem imensas riquezas, ainda inexploradas.

Sendo o Brasil, geograficamente, um dos maiores paises do mundo, situando-se, no seu interior, o coração do continente sul-americano, não se justificaria esse apego ao litoral, quando há tanta por lavrar, tantas solidões a povoar, tantas estradas por abrir, tanto tesouro a retirar do solo e do subsolo.

O deslocamento da Capital para Brasília vai permitir uma revolução econômica que tem sido o sonho de muitas gerações de brasileiros. Não mais veremos arquipélagos de difícil acesso, como na configuração econômica atual, mas um bloco uno, interligado por ferrovias e rodovias, sem os desníveis de enriquecimento que ainda há, de região para região, com tão funestas consequências para o povo brasileiro.

Já no deserto goiano, onde há três anos não se viam senão cerrados e campos, ergue-se hoje a Cidade Nova, que será o centro vital de um Brasil novo.

Mas, quero dizer-vos que a edificação de Brasília é também um ato que se enquadra nos princípios norteadores da Operação Pan-Americana, que busca valorizar e tornar úteis as áreas não desenvolvidas do Continente, a elas estendendo os benefícios do progresso técnico e levando a civilização.”

17
Georges Mathieu – O Presidente Juscelino Kubitschek acompanha o pintor Georges Mathieu na visita que o artista francês faz a Brasília. Mathieu, após a visita, diz ao Presidente da República de seu agradecimento, por ter podido assistir ao nascimento de um milagre: Brasília.

“Bem sei, diz Mathieu, que aqui elevais o milagre ao nível de instituição nacional e particular. Mas, no caso, trata-se de uma das maiores epopéias da história dos homens, talvez mesmo a maior. Eu vi Brasília de avião, de automóvel, andando a pé e de helicóptero. E fiquei fascinado.

Como disse a Niemeyer, era preciso ser Paul Valéry para falar sobre Brasília. E se esse nome me ocorreu, não foi por acaso. Se Valéry tivesse visto Brasília, talvez duvidasse da mortalidade das civilizações. Depois de sete séculos, no curso dos quais a busca da evidência nos escondeu a verdade, nosso Ocidente reencontra o caminho de sua verdadeira vocação, pela rota de Brasília. Nunca o mundo teve tantas razões de esperança como tem hoje convosco, brasileiros!”

18
Declaração presidencial – Em São Bernardo do Campo, São Paulo, o Presidente Juscelino Kubitschek, participando da inauguração oficial da fabricação em série de automóveis Wolksvagen, profere discurso de improviso, em que afirma, a respeito de Brasília:

“Só agora, neste Governo, se fez a ligação física do Brasil, através de uma estrada que sai no rio Amazonas e vai aos pampas do Rio Grande do Sul, desfazendo a posição em que nos encontrávamos, de um conjunto de ilhas humanas.

A realidade nos acostumará a estas façanhas, a estas temeridade que tornam as nações mais fortes, tornam as nações mais poderosas. Dentro de cinco meses, já estaremos subindo o altiplano de Piratininga, rumo a um mais alto ainda, situado no coração do Brasil, quando da inauguração da nova Capital do nosso País: Brasília. Brasília, que se ergue, como tenho sempre afirmado, não apenas como uma cidade, mas como um novo posto de comando, do qual dirigiremos a batalha para a conquista do território imenso abandonado. Brasília, dentro de cinco meses, como nos sonhos, como nas lendas, será uma realidade efetiva para o Brasil. Ainda há pouco, eu convidava D. Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, eminente cardeal de São Paulo, para celebrar a missa inaugural da cidade de Brasília. Ele me dizia que, a 3 de maio de 1957, há menos de 3 anos portanto, ele celebrava, no planalto ainda deserto, a primeira missa para os brasileiros que ali se reuniram. Em menos de 3 anos, S. Eminência celebrará a missa que marcará o fim desse esforço tremendo para mudança da capital da República.”

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Câmara dos Deputados – Divulga-se o parecer do deputado Abelardo Jurema, líder da maioria, a respeito do discurso proferido em 3 do corrente pelo deputado Elias Adaime, sobre a Novacap e a administração das obras de Brasília. O Parecer toma o número 20, de 1959.

Técnicos do Ponto IV – Visitam Brasília numerosos técnicos de Administração do Ponto IV dos Estados Unidos, que por intermédio do Sr. Bernholz assim manifestam sua impressão:

“Consideramos todos Brasília a maravilha do século.”

Energia elétrica – A Agencia Nacional divulga dados interessantes a respeito do abastecimento de energia elétrica a Brasília.

Duas usinas hidrelétricas garantirão o progresso da Nova Capital – a de Cachoeira Dourada e a do Paranoá. A primeira, com uma unidade já em funcionamento, com 28 mil KWA, e uma outra a ser inaugurada ainda no corrente ano. A Usina do Paranoá, com um total de 27 mil KWA, proporcionará maior abundancia de eletricidade à nova capital, quando de sua conclusão.

Para o futuro, de acordo com as necessidades regionais, Brasília será o ponto de interligação dos grandes sistemas de eletricidade nacional, com as Centrais Elétricas de Goiás. De acordo com os contratos de serviço, Brasília terá energia elétrica em abundancia até o fim do ano, quando entrará em funcionamento a Usina de Cachoeira Dourada, na sua segunda etapa.

De Cachoeira Dourada a Brasília, num total de 320 quilometros de transmissão, já estão em pleno funcionamento 150 quilometros de linha Cachoeira Dourada-Goiânia, constituindo a primeira etapa dos serviços. Da Goiânia-Brasília estão terminadas 461 torres, devendo até 30 do corrente concluírem-se todos os serviços, com os cabos esticados. Estas obras acham-se a cargo da SADE – Sul-América de Eletrificação S.A., que montou uma média de 12 torres por dia.

A linha de transmissão da Usina de Paranoá a Brasília mede 10 quilometros de extensão e será construída em cabo submerso e dutos subterrâneos. Os serviços deverão ser executados pela EBE – Empresa Brasileira de Engenharia.

A Subestação Abaixadora (220-33 KV) está sendo construída em Brasília, os serviços a cargo da CELG – Centrais Elétricas de Goiás S.A. A primeira etapa – funcionamento de 40 MVA – 130-11.5 KV, será concluída no fim do corrente mês.

A distribuição de toda a energia elétrica destinada a Brasília, necessitará do seguinte: Estações Abaixadoras de 33-3,2 KV, 4 Subestações de 60 MVA, 2 Subestações de 20 MVA, 1 Subestação de 10 MVA.

Para distribuição de 13.200 volts, uma rede subterrânea com 100 quilometros de dutos múltiplos dos quais 45 quilometros em primeira etapa. Destes, acham-se concluídos mais de 7 quilometros e uma rede de 50 quilometros, pertencendo também à primeira etapa.

Subestações Abaixadoras distribuirão 13.200-380-220 volts, sendo instalados 380 transformadores de 500 KVA e 120 de 300 KVA. A primeira etapa, que deverá estar concluída no próximo dia 30, prevê a instalação de 100 transformadores para atender o setor de administração pública, e a parte construída da Asa Sul da cidade (Fundação da Casa Popular – Institutos – etc). As obras já foram iniciadas devendo estar concluídas até o dia 30 próximo.

Distribuição de 320.220 volts. Rede Subterrânea em dutos com 80 quilometros, dos quais 40 (primeira etapa) deverão ser entregues, concluídos, até 30 de novembro.

Ainda, 100 quilometros de rede aérea que será construída de acordo com as demandas, pois se trata de distribuição para loteamentos residenciais.

As Centrais Elétricas de Goiás tiveram liberados, pelo Presidente da República, 40 milhões de cruzeiros, destinados ao custeio das obras em realização (segunda etapa) de Cachoeira Dourada.

A Usina do Paranoá, contratada com a Siemens, aproveitará o desnível da Cachoeira do Paranoá e a barragem do Lago. Os trabalhos de barragem já estão concluídos na parte essencial, ficando agora a Siemens com os serviços de instalação da Usina. Estes serviços só estarão concluídos depois da transferência da capital federal. Até lá, Brasília será abastecida de energia pela Usina de Cachoeira Dourada.

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Plataforma – Em Brasília, os alunos e professores da Escola Superior de Guerra assistem à cerimônia da inauguração, pelo Presidente Juscelino Kubitschek, da grande plataforma existente no cruzamento dos eixos Monumental e Longitudinal da futura capital brasileira, uma das maiores obras de engenharia do gênero, em todo o mundo, e em torno da qual se processará grande parte do movimento da cidade que surge no planalto goiano.

No Plano-Piloto de Brasília, a grande plataforma terá como função evitar o cruzamento de trânsito, possuindo pistas de alta velocidade e de trânsito local. Ali também será localizada a estação rodoviária de Brasília, “o estuário em que palpitará a vida de Brasília, na sua expressão de progresso, grandeza e força pioneira, a serviço do Brasil”, conforme descrição de placa comemorativa da inauguração.

Cabe ao General Hescket Hall, por deferência do Presidente Juscelino Kubitschek, descerrar a referida placa tendo, na oportunidade, diretores e engenheiros da Novacap explicado o mecanismo de funcionamento desta plataforma, que dará a Brasília uma grande flexibilidade no tráfego urbano, uma das características principais do seu planejamento.

Ginásio Dom Bosco – O Presidente Juscelino Kubitschek preside, em Brasília, à solenidade de lançamento da pedra fundamental do prédio definitivo do Ginásio Dom Bosco. Na oportunidade, em discurso, diz o Presidente da República que numa cidade onde tudo era fundamental, nada tão fundamental como lançar os alicerces de uma obra destinada à educação das novas gerações, às quais desejamos legar um país mais forte e consciente de sua grandeza.

Escola Superior de Guerra – Em visita a Brasília, um grupo de estagiários da Escola Superior de Guerra ouve uma exposição do Presidente da Novacap e uma explanação do Presidente Juscelino Kubitschek, esta precedida de um resumo do programa de metas. O Presidente da República faz um balanço das atividades de seu Governo nos diversos setores da vida nacional e que estão consubstanciadas no programa de metas econômicas. Esclarece o Presidente a necessidade deste preâmbulo, para se compreender o sentido de Brasília, que é o coroamento do arcabouço econômico que se está construindo, no país, através de indústrias de base e de infra-estrutura, que darão ao Brasil, dentro dos próximos anos, as ferramentas necessárias para romper a barreira do subdesenvolvimento.

Enumera, então, dados relativos às diversas metas, muitas das quais ultrapassadas, como é o caso do petróleo, das estradas de rodagem, da indústria de automóveis e de pavimentação asfáltica e que por isso mesmo tiveram de ser revistas, estabelecendo-se marcas mais elevadas, que estão sendo perseguidas com tenacidade. Em outras, o andamento está plenamente satisfatório, como o da indústria siderúrgica, do potencial de energia elétrica instalado, o de fertilizantes, de cimento, de marinha mercante, etc.

Tudo isso – afirma o Presidente – foi feito com o objetivo de dar ao país os instrumentos para o seu progresso. Indica a necessidade de fazê-lo, em vista do crescimento demográfico brasileiro, dos mais céleres. Se o país não estivesse aparelhado para desenvolver os seu próprios recursos, dentro de poucos anos, a pressão demográfica condenaria o Brasil a mergulhar definitivamente no subdesenvolvimento.

Sobre Brasília, afirma que traduz a ressurreição do bandeirantismo no Brasil. É a ponte de comando para a conquista do interior brasileiro, para a conquista do maior deserto do mundo, que é a Amazônia, com seis milhões de quilômetros quadrados. Em todos os países cujas capitais foram transferidas, a mudança significou uma hora solar na vida dos seus povos. Assim será também Brasília como marco no esforço para a integração nacional. Brasília é uma obra do mais puro sentimento nacionalista de nosso povo. E sempre se caracterizou por seu sentido plebiscitário. A transferência da capital era um anseio de todos os brasileiros, como pode sentir em sua campanha eleitoral. Brasileiros de todos os quadrantes pediam que se cumprisse a Constituição, no dispositivo que determinava a mudança da capital. E ele a estava cumprindo. Além do mais, só a nova capital possibilitaria empreendimentos como a Estrada Belém-Brasília e a Brasília-São Paulo, cujo traçado iria permitir a sonhada ligação física do Norte com o Sul do país, por terra. E também a Belo Horizonte-Brasília e a Fortaleza-Brasília, outras estradas de grande expressão econômica. Desse modo, quando, a 21 de abril, governadores do Norte, do Centro e do Sul do país seguirem de automóvel, para o encontro que já foi marcado na nova Capital, este encontro não será meramente simbólico, mas significará que o Brasil começa a se integrar pelos seus caminhos naturais.

Os estagiários da Escola realizam, a seguir, um debate com o Presidente da Novacap, a respeito da construção de Brasília, formulando perguntas:

A primeira é sobre a razão da construção de apartamentos em Brasília, quando havia tanta área livre no planalto.

Responde o Sr. Israel Pinheiro que a concepção do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, vencedor do concurso instituído pela Novacap, fora a de construir uma cidade concentrada. De acordo com os mais modernos conceitos, urbanismo é trazer o campo para o conforto da cidade e levar o conforto da cidade para o campo.

Se Brasília fosse uma cidade espalhada, tornaria inacessível a prestação de serviços eficientes como escola, assistência médica e hospitalar, abastecimento, diversões, etc., à população. Assim, foi idealizada a “unidade de vizinhança” que permite a concentração de moradores. Mas cumpria distinguir que os apartamentos em Brasília eram diferentes dos do Rio de Janeiro. Vão ficar localizados no centro de parques, onde não haverá, sequer, circulação de veículos. O plano urbanístico e também paisagístico de Brasília prevê que cada unidade de vizinhança seja cercada por árvores, de modo a que cada uma delas constitua verdadeiro bosque.

A uma pergunta sobre os serviços de águas e esgotos, informa o Sr. Israel Pinheiro que todos estão sendo atacados. A estação de tratamento de água terá controles eletrônicos. Os esgotos serão também tratados, para a produção de adubos, sendo que uma estação de tratamento do lixo funcionará conjugada com a de esgotos, para este fim.

Sobre a energia elétrica para o abastecimento das residências, objeto de outra pergunta, esclarece que até o momento a tarifa cobrada é a mesma de Goiânia. Com a entrada em funcionamento das novas usinas que abastecerão Brasília, serão então fixadas novas tarifas. No que se refere ao gás liquefeito, está em estudos a idéia de criação de centrais de gás, para cada uma das super-quadras. Quanto aos lotes individuais, seria naturalmente individual o abastecimento.

Um dos alunos indaga o motivo pelo qual foram importadas estruturas metálicas para a construção dos Ministérios, quando Volta Redonda também as fabrica.

Explica o Sr. Israel Pinheiro que, antes de se cogitar da importação, a Companhia Siderúrgica Nacional foi consultada, respondendo seu presidente, general Macedo Soares, pela impossibilidade de atendimento, sob pena de sacrificar o abastecimento de aço às indústrias de transformação. Em vista disso, foi adotada a solução de importação, com financiamento do Export and Import Bank.

Sobre o problema do ensino de nível superior, responde o presidente da Novacap que o assunto já está sendo estudado pelo Ministério da Educação, cogitando-se de instalar em Brasília uma universidade de cúpula, destinada ao aperfeiçoamento dos professores. O Ministro Clóvis Salgado foi incumbido de dar a solução ao problema, devendo apresentar suas conclusões dentro em breve.

Ainda em atenção a uma outra pergunta, informa o Sr. Israel Pinheiro que em Brasília não haverá grande indústria. A localização destas será nas cidades satélites que vão surgir em torno da futura capital, a 30 e 40 quilometros de distância. Em Brasília só haverá lugar para pequenas indústrias de transformação, que se localizarão nas proximidades da estação ferroviária, na ponta do eixo monumental. De um lado, as pequenas indústrias e, de outro, os armazéns e depósitos vinculados com o sistema de abastecimento de Brasília. Esclarece o Sr. Israel Pinheiro que em Brasília não haverá, por exemplo, açougues. A carne a ser consumida pela população entrará na cidade já devidamente embalada e poderá ser vendida por estabelecimentos comerciais que possuam frigoríficos. São ainda abordados os problemas de comunicação de Brasília com outros centros brasileiros, tendo o presidente da Novacap assegurado que o sistema de micro-ondas estará funcionando na data de inauguração da nova capital e que esse sistema representará um benefício para cerca de 40 outras cidades brasileiras. Fala-se também sobre a produção agrícola da região em torno de Brasília, que aumentou depois da criação da nova Capital, havendo além disso outros reflexos, como os fretes, que baratearam. Antigamente, um caminhão que conduzisse arroz para os centros de consumo não tinha frete de retorno, porque nada havia para transportar para a região, e isso naturalmente encarecia o custo do transporte. Hoje, a situação modificou-se inteiramente.

Cabe ao general Hescket Hall, comandante da Escola Superior de Guerra, agradecer, em nome do estabelecimento que comanda, a explanação do Presidente Juscelino Kubitschek, que considera clara e convincente, sobre o progresso do Brasil. Salienta estar feliz de voltar a Brasília, três anos depois de sua primeira visita e verificar a existência de uma cidade, onde antes não havia nada. Este fato, acrescido das palavras de fé no destino do país, pronunciadas pelo Presidente da República, permitia um sentimento de orgulho e de patriotismo de que partilhavam todos os presentes, alunos e professores da E.S.G. Por fim, o general Hescket Hall oferece ao Sr. Juscelino Kubitschek uma flâmula da Escola Superior de Guerra.

25
Lions Clubes – No Rio de Janeiro, o Presidente Juscelino Kubitschek é homenageado pelos Lions Clubes, sendo saudado pelo Senhor Clarence Sturn, Presidente do Lions Club International, o qual diz, em seu discurso:

“Ouço maravilhas a respeito de Brasília, lamentando não ter tido tempo de conhecer a futura capital – obra marcante do Governo de V.Excia., que causa admiração em todo o mundo. Espero visitar Brasília quando for inaugurado o Lions Club daquela cidade, e assim travar contato com essa grande obra de integração econômica e social do Brasil.

Brasília, Sr. Presidente, é a afirmação da capacidade de realização do povo brasileiro, uma obra que coloca um Governo e um povo no mais alto conceito internacional.”

Em seu discurso de agradecimento, o Presidente Juscelino Kubitschek refere-se a Brasília, para declarar que o empreendimento está obedecendo a tal ímpeto que já, nesta altura, nada poderá impedir a sua completa realização.

Tratava-se de providencia de extrema necessidade, visto como a civilização, em nosso país, está limitada a uma faixa litorânea, de cerca de 500 quilometros de penetração, enquanto no restante de nosso território a densidade demográfica não chega a ser de um habitante por quilometro quadrado. Regiões despovoadas nessa proporção são consideradas regiões desertas, e, assim, nosso deserto surge como o maior do mundo, duas vezes maior que o Saara. A construção de Brasília se impunha, portanto, como ponto de partida para a conquista da vasta área territorial abandonada, para dar os seus primeiros frutos – continua – forçando a construção de 10 mil quilômetros de novas estradas de rodagem, que constituem princípio de formação da “teia de aranha” que, convergindo para a futura Capital Federal, dela fará “a esquina de todas as atividades nacionais”. A rodovia Belém-Brasília – diz – com seus 2.200 quilometros, já está praticamente aberta e, em dois meses, ficará concluída a ponte sobre o Rio Tocantins, parte integrante da grande ligação rodoviária e a primeira ponte que se ergue sobre um afluente do Amazonas. A ligação Fortaleza-Brasília será inaugurada em abril de 1960, bem como as rodovias Belo Horizonte-Brasília, com 730 km e São Paulo-Brasília. Em breve, pela primeira vez, o homem poderá, através de boas estradas, ir do Amazonas ao extremo sul do País. São todos empreendimentos que terão como resultado final a prosperidade, a tranqüilidade e o bem-estar do povo brasileiro, e que constituem um exemplo de bravura e da determinação de um povo.

26
Fundação cultural – O Presidente Juscelino Kubitschek recebe no Palácio do Catete uma comissão constituída de personalidades representativas dos meios culturais e das classes produtoras, que sugere na ocasião ao Chefe do Governo a criação em Brasília de uma Fundação destinada a representar o pensamento das elites intelectuais do país. A Fundação, a exemplo do Fórum Roberto Simonsen, mantido pela Federação das Indústrias de São Paulo, e de entidades existentes na capital da República e em outras grandes cidades, seria um ponto de contato permanente e de reunião entre brasileiros de todos os quadrantes, estando representados no seu Conselho Diretor todas as unidades da federação pelas suas expressões de maior relevo e responsabilidade. Seria ainda um dos objetivos da Fundação, para a qual seria construída uma sede condigna, dotada de anfiteatro, promover congressos nacionais e internacionais de cunho cientifico e artístico.

A comissão recebida pelo Presidente Juscelino Kubistchek estava constituída dos Srs. Lucas Nogueira Garcez, ex-governador de São Paulo, Amador Aguiar, superintendente do Banco Brasileiro de Descontos, Antonio Devisate, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Nadir Figueiredo, vice-presidente da mesma Federação, Lídio Lunardi, presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Dante Paganasse, Diretor do Instituto de Cardiologia do Estado de São Paulo, Adolfo Araújo, médico, e senador Cunha Bueno.

O Presidente Juscelino Kubitschek palestra demoradamente com os visitantes, reconhecendo a necessidade de dotar-se a futura capital da República, logo no inicio de sua vida, de uma instituição no gênero da que então se sugeria, pois é realmente uma necessidade que a sede do Governo disponha de um local adequado para a realização de congressos e conferencias, que ali ocorrerão com freqüência.

28
Rodovia Belo Horizonte-Brasília – O Ministério da Viação e Obras Públicas divulga que a rodovia Belo Horizonte-Brasília conta, nesta data, com 302 km pavimentados.

Nas obras da estrada, a terraplenagem já atinge a 560 km, a sub-base a 501 km e a base a 393 km. Os serviços de terraplenagem aproximam-se da fase final. Tudo se faz para que a rodovia esteja pronta para a inauguração de Brasília.

Educação do Surdo – O Ministério da Educação e Cultura cria em Brasília um Centro de Coordenação da Campanha de Educação do Surdo brasileiro. A portaria baixada nesse sentido foi complementada por outra que designou o pessoal que deverá seguir para a nova capital a fim de, imediatamente, iniciar os estudos e a instalação do novo órgão, cuja finalidade é prestar assistência a todos os deficientes da audição e de fala que vivem naquela região.

30
Lei Orgânica – O Ministro da Justiça, Senhor Armando Falcão, faz entrega ao Presidente Juscelino Kubitschek do projeto de Lei Orgânica de Brasília, bem como de outro referente à organização judiciária da futura capital.

Crédito Rural – A Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de Goiás divulga já haver instalado cinco escritórios de Extensão Rural, em Ceres, Jaraguá, Inhumas, Nerópolis e Brasília, nas quais equipes treinadas de agrônomos e especialistas em economia doméstica prestam assistência técnico-educativa aos agricultores.

Ministério da Fazenda – O Senhor Sebastião Paes de Almeida, Ministro da Fazenda, constitui, junto à direção Geral da Fazenda Nacional e sob a supervisão desse órgão, uma comissão denominada “Comissão de Transferência do Ministério da Fazenda”, com atribuições de estudar e promover, não apenas no tocante à transferência do primeiro grupo de servidores para a nova Capital do país, programado para abril de 1960, como, também, as transferências posteriores dos demais grupos e, em colaboração com a Divisão de Obras, completar os estudos referentes à instalação dos órgãos que deverão funcionar nas áreas reservadas ao Ministério da Fazenda, em Brasília.

A Comissão promoverá todas as medidas indispensáveis ao transporte dos servidores e suas famílias, podendo propor, finalmente, tudo quanto julgar indispensável ao perfeito cumprimento de suas funções e da completa efetivação da transferência do Ministério, para Brasília.

Fonte: Diário de Brasília – Coleção Brasília (IV) – Serviço de Documentação da Presidência da República, Rio de Janeiro. 1960

 

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