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Leonardo Almeida Filho

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Leonardo Almeida Filho imagina “O rio fantasma”, a que oferece o poema. Um rio, a um só tempo, a correr no Planalto, eliminando a “a tua saudade de mar” e a “(…) transportar, para outras terras, teu soluço”. O fácil trocadilho presente no título de “O lago paira no ar” ameaça mas não chega a comprometer o poema, que declara: “o mar aqui não é mar/o mar são as pessoas”. Traz à lembrança – não intencionalmente, admita-se – os versos contundentes de Castro Alves sobre as águas que em multidão se personificam: [“que este mar de almas e peitos/com as vagas de seus direitos/virá partir-vos a lei.”] Mas, declara Leonardo Almeida: “(…) minha mensagem não tem destino CLARO”. O que o envolve são “As solidões, fiéis companheiras:/(…), a (…) carta (…) de Van Gogh/para Théo e para Deus”. A conclusão é: “Estou perdido/e o mar de gente ameaça a plantação/tão duramente cultivada/nessa fértil ilha-eu”. A pátria do poeta (em “Cidade Satélite”), “pátria/sem porta”, “nossa casa”, “pátria e casa” é “fútil e fértil cilada”. É sempre sombria e desconfortável, conquanto objeto do amor do homem do povo que o poeta veio interpretar: cova rasa, vala sem parede, sem bandeira…Em “Cosmogonia” (dedicada a Eudoro de Souza), está a “Brasilírica, brasilúdica”, onde somos luzes e ventania, palco em que “…nos cabe/Acordar”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.


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BRASÍLIA

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BRASÍLIA

A letra trêmula
na carta da mãe
marca outro mês
neste calendário estóico.
A cidade continua,
ilustríssima desconhecida,
como todas as cidades são.
Em maior ou menor
grau de integridade,.
Mas é diferente:
aqui desaprendi a chorar.
A sensação de não ter casa
faz a gente criar casulo dentro de si.
Ver beija-flor onde só tem solidão.
Beija-flor lembra a mãe
A mãe é a tradução da saudade.
Antes de dormir,
penso em voltar mais uma vez.
Avalio perdas e danos.
Fico.
Com ambos.

Post poetisa Paola Daniella da Fonseca Rodrigues
Poema transcrito da coletânea “Concurso Nacional de Poesias”

 

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APONTAMENTOS PARA UMA POÉTICA CANDANGA

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APONTAMENTOS PARA UMA POÉTICA CANDANGA

Esqueça o adjetivo brasiliense.
É algo mais inventado que a própria cidade.
Não considere nada que seja mais
artificial que Brasília. É parte do inexistente.

O céu em Brasília: o Corcovado no Rio.
O concreto de Brasília: o ferro de Itabira.

O avião não decola em seu próprio céu.
Tesourinhas: uma ideia, uma estética
apoética.

Bebe Behr. Planta Marx. Pensa nos ladrilhos de Bulcão,
somente então, rima. O apostolado de Athos.
Niemeyer não morreu.

(entrequadras nas entrelinhas)

Brasília só é possível de óculos escuros.
O branco ofuscante, o fogo invernal.

Há de se tomar cuidado com o nome
Brasília. É traiçoeiro: Sugere
coisas demais, a rima tosca, a ilha,
a agudeza de um acento, o feminino de um país.
Brasília é um homem que trocou de sexo.
Sem gênero, sui generis.

Post poeta Matheus Gregório Vinhal e Silva
Poema transcrito da coletânea “Concurso Nacional de Poesias”

 

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Os amantes do Eixo Rodoviário

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Os amantes do Eixo Rodoviário

O homem atravessou as seis pistas do Eixão, correndo em ziguezague no
meio do trânsito enfurecido, mas a mulher empacou, paralisada pelo
medo. A separação já dura cinco dias: ele do lado de cá, ela do lado
de lá, e os automóveis voando-zunindo entre um e outro. E se ninguém
avisou que existe passagem subterrânea pra pedestre nem foi por
maldade: é que dá gosto ver aqueles dois, ela desenhando corações no
ar, ele mandando carta em aviõezinhos de papel. Acho que nunca se
amaram tanto.

José Rezende Jr., poeta mineiro, natural de Aimorés.
Texto transcrito do livro “50 anos em Seis: Brasília, prosa e poesia”

 

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Brasília e a Bienal

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Brasília e a Bienal

Brasília, a capital,
é outra, após a Bienal.
De certo e com razão,
depois de tanta emoção,
não seria normal
que ficasse tudo igual.
 É que muitos poetas
te olharam e pensaram
e, em teu céu, projetaram
amor, sonho e paixão.
Em teu aniversário,
dois anos do cinquentário,
ressurge, no imaginário,
viva, nova e transfigurada.
Sim, tu foste abraçada,
beijada e amada,
e em trova entoada.
Sim, estás transformada.
Pois, senão em nossa cabeça,
onde mais existirá?
Oh, Brasília, não se esqueça:
seu povo sempre te amará!

Post Jorge de Campos Carneiro Hage.

 

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

As conchas dos olhos
recolhem a cidade recém-vinda
das réguas, das pranchetas.
Em cantos translúcidos,
o sangue inaugural de suas ruas.
 
O olhar se inebria no mistério
que encanta luas
habitadas  por feras e Anhangüeras,
abrindo-se em vôos
aos astros mais remotos e esquecidos.
 
O útero azul desta comuna
concebida em cios seculares
armados por duendes.
O útero azul desta comuna
que num átimo se forma
das carnes das auroras.
(Ah, urbe alada, há bem pouco
matéria de miragens
geradas entre insânias e insônias.)
 
As mãos dos pioneiros desabrocham
esplanadas e verdes
por entre calos duros e selvagens.
Despojadas de plumas,
as palmas – espetadas por bichos e pequis -,
a trotar sobre praça imaginária.
Nos cumes de pirâmides de vento.
Nos eixos com seus trevos
a girar no invisível.
 
As mãos indóceis estrangulam noites,
a acender miríades de sóis
pelos andaimes,
triunfantes sobre o escuro.
 
As mãos, armadas
da aspereza dos cactos e dos mares,
rasgam sangram os nervos do cerrado,
esmagam os troncos retorcidos,
que choram o diluído predomínio,
o augusto império
sobre a nação do Oeste.
 
Plantas de ferro (indômitos calcâneos)
dos pés adventícios
marcham nas madrugadas planaltinas.
As marchas, que promanam
dos quadrantes das praias,
das garras litorâneas,
das engrenagens das ruas e dos óxidos,
desaguam um ritmo de guerra
contra o sono do Oeste.
 
Candangos pés, em binário compasso,
nos campos do silencio
desvirginam veredas
a enfatizar sua cor – candente e rubra.
Tecem pautas de luz
hasteadas nos píncaros do tempo
e em estuários de contos e de lendas.
 
Cidade submersa na memória,
nos sonhos, mas concreta
no útero de luz que a acaricia.
Eu canto as suas linhas irmanadas
em arcanos de pedra,
de ouro e prata
(mares de sol, lunares oceanos),
onde efusões do ser colho e equilibro.
 
Navegam no ar as mãos pesadas e ósseas
a florir superquadras
e o perfeito embalar de seus meandros.
(Estas mãos de cartola
informes, tecidas pelos ventos,
haurindo de metáforas
palácios e luas e esplanadas.)
 
Canto os trevos. E neles canto o verde
dos burocratas exatos,
deferidos,
cronômetros nos punhos e nas frontes,
essas férreas formigas quotidianas.
 
As águas, as águas dos milênios,
no lago de finos tributários,
de peixes, de magias,
de rios natais sorvidos (sequestrados)
para as doces vertigens
do altiplano.
 
Sim, claros domicílios
do silêncio – esta urbe, esta ave –
onde alforriados de mares e fuligens,
de salsugens e becos,
em voejos difusos, coloridos,
desintegram raízes de veneno.
 
Amoldado à aridez da atmosfera,
eu canto esta comuna
em seu milagre, em seu murmúrios.
Por mais que a concha azul e luminosa
me complete em loucuras.
Por mais que a secura da aragem
em suas cordas me sangre.
Por mais que as vibrações
indecifráveis do azul
dardejem-me a garganta.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “Casulos do Silêncio”, 1988.

 

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José Santiago Naud

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José Santiago Naud está entre os poetas que, em seus versos, alcançam a cidade em sua antevéspera, no ainda por ser, mera promessa, bem antes de sua construção. “O azul era seu domínio/e as chuvas caiam sobre suas escamas/como coisa difícil…”, diz o compositor do “Hino a Brasília”. Enumera sóis, bichos, luas, “o vazio dos conceitos” e passa ao quadro seguinte, quando “…outra forma aceitou/e eis seu destino”. E ocorre a interação, o milagre, quando as mãos humanas amoldam as formas e lhes trazem a essência reclamada pelos milênios, e o agente é também beneficiário desse fiat impregnado de mistérios: “construo-me ao teu contato”. “Eras de pedra/até o momento de nossa ausência”, sim, mas uma argila a doer na solidão, à espera das mãos que, à guisa do Criador, lhe soprariam alma, vida, movimento, multiplicando-a e emprestando-lhe sentido utilitário e também aptidão para a colheita do majestoso e do belo. A harmonia, a recíproca assimilação cidade/homem é uma constante nesse poema. A energia em potencial se desata, se liberta (e “ao trabalho” a somamos): “Arco ou nave/irradiante/é quando levantas,/mariposa dourada,/no meio das sombras/e iluminas o tempo”. Em “Iniciação da cidade”, poema agora composto, José Santiago Naud principia e conclui ligado à nave que aqui está, “na aparência ancorada”, a qual, dada a sua intrínseca leveza, (…) “pode subir”. O vate, com a sutileza e o mistério que sempre o acompanham em sua invenção, colhe “a voz/de quem saltou com a História/e ficou/entre poder e fazer/criando/a cruz acesa das ânimas”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Viagem ao Sertão do campo aberto

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Viagem ao Sertão do campo aberto
Por Ana Miranda
 
Irás a pé, ou a cavalo, a redescobrir a Cidade Perdida dos Pirineus. Cruzarás a vasta distância de Porangatu, pousarás na serra do Estrondo e de manhã rezarás na igreja fechada e cheia de mofo. Irás ao Campo de Fora contemplar as bailarinas de Paraúna na serra da Galera, a um encontro com o capitão Urbano do Couto, já morto, seguirás o mapa mágico de Francisco de Bulhões no roteiro de enganações do Goiás verdadeiro. E te banharás na água tépida do rio Pilões do Calhamaro, então te levarão os sinos à velha vila de Jaraguá cheia de assombrações. Passarás pela pedra do Bisnau, pela serra da Mesa Digital onde as vacas comem margaridas no capim, rodearás as margens da lagoa encantada de Santa Brígida e chegarás à serra do Tucunzal. Voarás sobre São Félix de Cantalício coberto de pós de ouro espalhados pela velha fundição para enfeitar teus silêncios, depois, Pirenópolis, Corumbá, Vila Boa dos Goyá, romarias do sertão.

Na estação de águas bojudas serás encantado pelos tilintares de índias goianas, então te sentirás solto no mundo, na serra do Acaba-Vida, em Guacorumbá a mastigar segredos dos mortos, e chegarás a Goiânia, deitarás no colchão de palha no rio dos Macacos, e te tornarás indecente. Perderás a inocência debruçado à janela sobre o lago de Brasília, serás como um buriti solitário, entre os segredos das montanhas de pedra e os tesouros de Altamiro, verás o ouro no porão de Cora Coralina, e em Serra Dourada, branca e verde cidade cravejada de colinas, verás um casal de amantes aos beijos.

O rio é de sangue e a menina é da rua do Fogo. Janeiros, fevereiros, e irás procurar as cigarras da W-3, onde estão? Quem pedirá pelas chuvas? Irás ao Gama perguntar: que flor há no Gama, que arrepia, entontece e desama? Caminharás entre os velhos lobos do Planalto, na esfinge chamada Brasília, pois viver em Brasília é viver em lugar nenhum. Mas inundarás Brasília de amores, e libertarás Brasília ainda que tarde, e sairás pela antiga Asa Morta, rodearás fogueiras e brasas no fogão e beijarás mulheres excitadas com doce de goiaba e tocarás nos ásperos tecidos dos teares, voltarás a ser o menino com os olhos limpos de agudezas, a ver dinossauros nos cerrados, onde findam os lugares e todos andejam à volta do estorvo de Tatarana sem saber o lugar exato, se a grota, se o paredão, se cachoeira, se abrolhos…Farás o impossível desvio do ribeirão de Orontes, ficarás velho na foz do rio Brumado com o ribeirão do Inferno, mas amarás, no lugar dos Crixás, treze índias novas e gostosas, e morrerás de saudades daquela índia que te chupou nos densos sertões do Piriripau. Estarás pasmado no rio dos Pasmados, rolarás nas águas do Matamata, casarás, na capela do rio do Peixe, com Tutuca flor de jambo, cor de cuia e de maracujá, libertarás os negros do arraial do córrego do Jaraguá, Pontes Vedras, serra Juratenses. Dirás adeus ao cisne da cristaleira de uma avó, encontrarás Maria Camarga encarnada numa negra, corça de cabelos anelados pelas costelas nuas, e em Santa Luzia das Marmeladas entrarás numa velha casa fria sem luzes e janelas oclusas e almas de penumbras, comerás o rendilhado verde dos pequis, e em Arraias verás Sinh’Ana capetuda, viverás as dimensões eróticas, apaixonado pela musa do Paranã, pela deusa africada de canela fina e peitos pontudos, pela mulher que quebra um copo na cozinha, por Maria Rosa vadia na sua dança cigana, pela Senhora dos Pequenos Pés. Amarás como os índios se amavam na caatinga, o amor das senzalas, o amor dos quintais.

E no sertão das Terras Novas viverás livre na solidão de calunga. No final do teu caminho verás a lua desfeita em quartos, como ladra de estradas, e na fazenda do Assombrado ouvirás os latidos dos sapos-cães, que fugirão para o lago Paranoá. As vacas berram, o incêndio vira ouro na chapada, no Couto do Linhares tudo se cala, cala-se o pilão d’água, pois sentarás à varanda a tomar um café com Bernardão Élis, a conversar sobre a tal seleção eletiva, e que não existem nem mais ninfas nem Oréades no cerrado, nem Náiades a se aninhar nos musgos, e só restará a cada ano fazer roça, fazer roça, e coitadinho de São Bento das Cobras, todo mundo te esqueceu…

Chega outubro com outro vinho, outras flores, outras neblinas, o sertão vai morrer, e chove, ó chove, a estação dos bálsamos abre sua fechaduras e não morrerás nunca, porque nesse mundo de poesia os rios correm morro acima. Teu guia, pelo livro de poemas do Paulo Bertran, o encontrador de nomes, será a mão de uma Graça, pelas entranhas de uma Brasília incorpórea, Brasília-do-céu, Brasil-de-anil.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 15 de janeiro de 2012

 

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O BOM MENINO BEM COMPORTADO NA CORTE DOS TECNOCRATAS

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O BOM MENINO BEM COMPORTADO
NA CORTE DOS TECNOCRATAS

 
às quinze horas
não mais que às três em ponto desta tarde
estarei fechado entre quatro paredes
ouvirei engenheirês e economês
explicarão que é comigo o português
beberei café
aspirarei a fumaça do cigarro alheio
encherei os pulmões de ar viciado
estragarei o cérebro com palavrório
sentirei sono tédio vontade de ir embora
mas ganharei meu pão muito calado
não prejudicarei ninguém
não serei indelicado
tudo farei pelos melhores resultados
minha família pode ficar em paz
porque me mostrarei um bom menino
 
enquanto isso
às três em ponto desta tarde
há mulheres enroscadas nos amantes
há secreções em mistura
vaginas casam-se com pênis
há jatos de esperma contra diafragmas
há sêmen contido em camisas de vênus
há corpos que se contraem e relaxam
há um sujeito solitário tomando chope escuro e comendo salada
                                                                               de batata no bar luís
às três em ponto da tarde
não envergonharei minha família
 
às três em ponto da tarde
haverá uma pedra incorruptível no meu peito
 
Reynaldo Valinho Alvarez, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “O Sol Nas Entranhas”, Editora Três.

 

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A REDESCOBERTA DO BRASIL

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A REDESCOBERTA DO BRASIL
Por Fábio Altman


Em oposição ao bandeirante predador, Juscelino Kubitschek cultivou a imagem do pioneiro, o desbravador que tiraria o país do litoral para levá-lo ao centro. Foi o nascimento de uma nação
 
Em 1960, um imenso painel da campanha do marechal Henrique Teixeira Lott à Presidência da República mostrava o candidato da situação de farda ao lado de Juscelino Kubitschek, que terminava seu mandato. JK aparecia como “o grande bandeirante do século”, com as vestes e a postura de um Borba Gato, o céu do cerrado como moldura. A uni-los – Lott e JK -, os traços de Brasília recém-inaugurada a partir dos desenhos e dos projetos de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Lott perderia as eleições para Jânio Quadros, mas seu cabo eleitoral, o presidente bossa-nova, faria história ancorado na cidade que ergueu no meio do nada. Faria história por seu empenho, razoavelmente bem sucedido, de introduzir no Brasil uma nova família de desbravadores, afeitos a abandonar o litoral a caminho do Centro-Oeste. Homens e mulheres que deixaram para trás uma civilização de quatro séculos, banhada pelo Oceano Atlântico, com pessoas “arranhando ao longo do mar como caranguejos”, na metáfora do frei Vicente do Salvador (1564-c.1635). A densidade populacional à beira-mar chegava, em algumas cidades, a cinqüenta habitantes por quilometro quadrado. No Centro-Oeste, a menos de um – hoje, ali, são sete habitantes por quilômetro quadrado.

O presidente pé de valsa, o Nonô de Diamantina, o desenvolvimentista – mas também o capitão do inicio do descontrole inflacionário -, morreu em 1976, em um acidente de carro na Via Dutra, com o legado de campeão da democracia. JK foi o chefe de estado que pôs o Brasil na modernidade a bordo de um Fusca ao som de João Gilberto. Mas ele se vangloriava, mais do que tudo, no fim da vida, de ter induzido, por meio de Brasília, o renascimento do país. Até a aventura no Planalto Central, havia um muro entre a escassez do interior e a abundância do litoral, sem estradas a ligar os dois pontos. As diferenças entre as regiões ainda existem, são muitas e intransponíveis, mas JK deflagrou um processo que, nas palavras do atual governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, representou “o redescobrimento do Brasil”. Para redescobri-lo era preciso matar o passado, era preciso criar um movimento colado à imagem com a qual JK aparecia no cartaz da campanha, de botas e chapelão em mãos. Tratava-se, enfim, de criar uma nova modalidade de ocupação.

O próprio JK, no livro de memórias “Por que construí Brasília”, anotou o que pensava da conquista de um pedaço quase virgem de Brasil. Em um parágrafo de 150 palavras, escreveu: “Há quem confunda pioneiro com bandeirante, já que ambos fazem do desbravamento sua atividade habitual. Entretanto, uma diferença enorme os distancia. O bandeirante descobre e passa à frente. Sua sina é avançar. Finca um marco. Poda uma árvore. Faz um monte de pedras. É tudo que deixa, como sinal de sua passagem. Trata-se de uma imagem fugidia. Brilha, e desaparece. Já o pioneiro é influenciado pela atração da terra. Descobre e fica. É um símbolo do que se projeta através do ânimo de permanência. A jornada pode ser longa, mas a parada – quando ocorre – é quase sempre mais longa ainda. Planta e espera pela colheita. Não deixa sinal de sua passagem, porque ele próprio se detém. E do seu rastro, que por algum tempo foi efêmero, brotam valores duradouros: povoados, que se transformam em vilas; vilas que se convertem em cidades; e cidades que armam a estrutura de uma civilização”.

Brasília, cidade artificial, criada no papel antes de ter gente, apresenta todos os problemas do Brasil real – inclusive os da corrupção debaixo das duas cúpulas, a côncava e a convexa, da Praça dos Três Poderes. Mas é inegável que a cidade costurou algum tipo de civilização a que se refere JK. Segundo o historiador Luís Carlos Lopes, autor de “Brasília – O Enigma da Esfinge”, JK considerava “necessário curar o brasileiro de seu ancestral desamor pelo trabalho e do seu espírito lúdico contumaz”. E mais: “Era preciso discipliná-lo e organizá-lo a partir desta base, para aproximá-lo do pioneiro norte-americano; dar a Macunaíma a firmeza de caráter e a capacidade de empreender as mudanças de propostas e de interesses de seus amos; queria-se fazer com que o capitalismo vencesse e transfigurasse as origens escravistas do país. O bandeirante tinha que metamorfosear-se no pioneiro”.

Ao perceber, já na campanha eleitoral que o levaria ao Palácio do Catete e nos primeiros meses de governo no Rio, que qualquer espirro de crise provocava uma pneumonia e que uma solução política seria ficar distante da encantadora mas turbulenta Velhacap, JK pôs para andar a máquina mudancista. Tomou emprestada, como cimento ideológico a mover seus passos, a tese de Clodomir Vianna Moog (1906-1988), ensaísta gaúcho autor de um clássico da sociologia brasileira, “Bandeirantes e Pioneiros – Paralelo entre Duas Culturas” (1954). Nessa obra, o escritor, ao comparar as sociedades americana e brasileira, conclui que houve “um sentido inicialmente espiritual, orgânico e construtivo na formação dos Estados Unidos” e “um sentido predatório, extrativista e quase só secundariamente religioso na formação brasileira”. Nos Estados Unidos, deu-se tudo pelas mãos dos pioneiros. No Brasil, dos bandeirantes. JK, portanto, ao beber de Vianna Moog, pensador de relevância internacional, propunha o despertar de um novo bandeirante.

Só ele, parente do pioneiro americano, seria capaz de pôr em marcha a interiorização do Brasil como engrenagem de riqueza. A escolha do local onde seria plantada a nova capital foi feita com o objetivo de corrigir uma distorção natural, a inexistência de rotas geográficas que favorecessem, rumo ao oeste, o uso de todo o potencial do território brasileiro. Para Vianna Moog, o Brasil é cortado de norte a sul pelo rio que deveria ser o da integração nacional, o São Francisco – que ainda assim corre muito perto da costa. A Serra do Mar também se agiganta paralela ao litoral, funcionando como mais uma barreira à integração. Fosse sua orientação de leste a oeste, ela seria um corredor. A explicação geográfica foi encampada por JK e posta a funcionar com a sagacidade de nomes como Ernesto Silva, hoje aos 95 anos, “o pioneiro do antes”, o pediatra por formação e desbravador por natureza, que recebeu JK no cerrado, em outubro de 1956, com um mapa da região debaixo do braço e conduziu o primeiro comboio.

O mapa de Ernesto era o resultado do trabalho de dois grandes grupos de investigação cientifica e geográfica: a Comissão Exploradora do Planalto Central (1892-1893), liderada pelo astrônomo belga radicado no Rio de Janeiro Luiz Cruls, nascido Louis Ferdinand Cruls em Diest, amigo do imperador Pedro II, com quem conversava sobre estrelas e cometas; e a Comissão de Localização da Nova Capital (1954), comandada pelo marechal José Pessoa, indicado pelo presidente Café Filho. Ambas escrutaram o mesmo chão, a 1 100 quilômetros do Rio e 1 000 quilômetros de São Paulo, originalmente conhecido como Quadrilátero Cruls, naco de terra de 160 por 90 quilômetros. Desde o fim do século XIX até a eleição de JK, todos os governos tangenciaram a mudança da capital para aquele ponto do país, tal qual um Eldorado. Era uma idéia à procura de quem a realizasse. Nascera com José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que sugerira o nome de Petrópolis ou Brasília, ainda na Constituinte de 1823, para a nova capital. Crescera um pouco mais tarde, por meio do diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagem, para quem a transferência civilizaria o sertão. Muito tempo antes de Lucio Costa vencer o concurso, Brasília já aparecera em esboços, diversas vezes com as avenidas monumentais, típicas do modernismo na arquitetura, que a tornariam conhecida.

JK tomou posse dessa linha histórica, fez-se herdeiro dela e criou uma cidade. Mais de uma vez, depois dos três anos de construção, o presidente disse que a existência de Brasília sempre fora “aspiração geral do país”. O professor de sociologia Márcio de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, autor de uma detalhada dissertação de mestrado sobre as origens de Brasília, faz a indagação incômoda mas necessária: “Se Brasília já era uma aspiração geral do país e JK estava convencido do fato, como explicar sua ausência no plano de metas original?”. Brasília só viria a se tornar a meta de número 31, a meta-síntese, depois do primeiro comício da vitoriosa campanha de 1955. Uma resposta possível à demora é que a idéia simplesmente ainda não existia: JK a alimentou por necessidade política: “Depois, ele recontou a historia do Brasil, por meio de livros escritos por colaboradores e revistas ligadas à empreitada brasiliense, para dar a impressão de que seu governo não fazia mais que realizar um destino, a interiorização do Brasil”, afirma Oliveira.

Houve, na formação do mito, falsificações. Nos relatos de Brasília, conta-se com paixão o sonho do padre italiano Giovanni Bosco, que em meados do século XIX fizera referência a um “leito muito largo, que partia de um ponto onde se formava um lago, situado entre os paralelos 15 e 20 graus de latitude sul”. Dormindo, Bosco deparou com a imagem de uma “terra prometida, donde correrá leite e mel”. Brasília, pois. Tudo muito adequado não fosse o sumiço, nas versões oficiais alimentadas por JK, de um trecho em que Bosco dissera ter avistado uma cordilheira e, entre colchetes, a Bolívia. Com um detalhe: Bosco nunca pôs os pés no Planalto Central.

Um meio para muitos fins. Tendo ou não cultivado retroativamente a história, tendo ou não trabalhado com mitos, JK fez de Brasília uma cidade de sucesso desigual como país que a cerca. Enquanto o PIB brasileiro cresceu em média 4,8% ao ano de 1961 a 2000, o do Distrito Federal teve expansão de 57,8%. Brasília, numa definição já consagrada, foi “um meio para muitos fins”. Serviu para inventar uma nova economia que fugisse da tradicional cabotagem na franja litorânea. Ao país descontínuo até o inicio dos anos 60, sem ligações terrestres, ofereceu estradas como a Belém-Brasília. Ao isolado sertão cantado por Euclides da Cunha, ofereceu a chance de integrar-se ao Brasil. E por fim, como corolário da aventura, representou o nascimento de uma idéia de nação num país continental. O 21 de abril de 1960 é um instante fundador como foram o 7 de setembro de 1822 e o 15 de novembro de 1889.

Texto transcrito da Edição Especial  da Revista Veja “Brasília: 50 anos”

 

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Premonição cravada na terra

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Premonição cravada na terra
Por Conceição Freitas

Corre vagarosa, miúda e longamente entre os antigos moradores de Planaltina, Brazlândia e Sobradinho a crença de que encostado no Distrito Federal há ouro à espera de garimpo. Ouro de verdade, o minério dourado que enlouquece os homens. A lenda nasceu de um texto escrito por um bandeirante do século 18 em que ele descreve um mapa de uma mina aurífera nas proximidades de Planaltina de Goiás, a 80 km da Rodoviária.

Quem estuda a pré-história de Brasília e quem vive neste quadrante desde tempos remotos conhece o Roteiro do Urbano. Dos antigos aos novos historiadores, todos passaram os olhos por esse documento e se deixaram envolver pela possibilidade de que, em algum lugar entre chapadões, córregos e lagoas, exista a pedra resplandescente.

A lenda do ouro do Urbano é apenas a ponta curiosa de um longo fio que conduz a história de Brasília. A vinda de Juscelino Kubitschek e os demais para o sertão goiano, em 1956, é o trecho mais vistoso desse novelo e por isso mesmo obscurece narrativas de um tempo duzentas vezes maior que os 51 anos de Brasília. Registros de arte rupestre em Formosa e de artefatos feitos pelo homem em Taguatinga e no Parque Nacional de Brasília indicam que a capital do Brasil moderno é habitada há mais de dez mil anos. O brasiliense pré-histórico deixou cravadas na pedra e enterradas no chão as marcas de sua existência.

O território onde há meio século se ergue a capital do país vem sendo percorrido, visitado, estudado e tem sido habitado por grupos humanos diversos – índios, escravos, bandeirantes, sertanejos, desbravadores estrangeiros e brasileiros, tropeiros, roceiros, fazendeiros, mistura que resultou numa gente que o historiador Paulo Bertran chamou de “cerratense”.

Tanta diversidade histórica acabou soterrada pelo furacão modernista que aqui se instalou a partir de 1956, desde que Juscelino estufou o peito e decretou que “deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais…”. Estava decidida a versão predominante da história, a de que neste naco de Goiás havia tão-somente “solidão”.

Para dissolver o tufão e desvelar a história goiana aqui sedimentada ao longo dos séculos, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento têm se dedicado a resgatar e reconstituir a ocupação do Planalto Central. Na Universidade de Brasília (UnB), historiadores, arquitetos e cartógrafos  vão  em busca de estradas do período colonial que cortavam o hoje DF ao norte; há mais de 30 anos, arqueólogos de Brasília e Goiânia furam o chão em busca de rastros da presença do brasiliense pré-histórico. O superintendente do Arquivo Público do Distrito Federal, Gustavo Chauvet, decidiu mudar o roteiro até agora estabelecido para a proteção da memória de Brasília. “Todos falam das idéias mudancistas, a idéia, a idéia…, mas há uma outra vertente, que é a história da ocupação do território. O que vamos fazer é integrar as duas histórias”, diz Chauvet. A história da idéia vem de fora; a da ocupação vem de dentro.

Autor de extenso estudo sobre a ocupação remota da região, Chauvet pôs na capa do livro o mapa que mostra a formação territorial do DF que, para surgir, tirou terras de Formosa, Planaltina e Luziânia. Outra imagem que registra fortemente a existência de um povo sertanejo habitando essas paragens é um mapa feito pela Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, composta por goianos em febril campanha pela interiorização do poder. Assinado pelo engenheiro Joffre Mozart Parada, pelo jornalista Zoroastro Artiaga e pelo médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco, o mapa mostra que havia 96 fazendas no DF – número que marca a origem de todo o caos fundiário do quadradinho.

“Vastíssimo vale”

Desde sua morte, em 2005, o historiador Paulo Bertran tem se transformado numa espécie de referência mítica de um modo de contar a história de Brasília – a partir da história goiana, da dos índios e dos cerratenses, da ocupação da terra desde muito antes de o avião de asfalto e concreto aterrissar num majestoso vale rodeado por um anel de chapadas. Majestoso, aliás, é o adjetivo que Auguste Glaziou, botânico e paisagista francês, integrante da Missão Cruls, usou para descrever o que viu quando aqui aportou: “…cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale”.

O botânico referia-se ao domo que acolhe todo o Plano Piloto, de uma asa a outra, da Praça dos Três Poderes aos fundos da antiga Rodoferroviária. Domo, no vocabulário geológico, é uma elevação do solo com a forma acentuada de uma meia esfera. No dizer do professor Antonio Carlos Carpinteiro, da arquitetura da UnB, o Plano Piloto está deitado “no estufado de uma bacia”. A imagem figurativa é a de uma vasilha de formato circular, oval, de bordas altas, tal qual o utensílio doméstico. Com uma diferença, porém. A bacia onde se estende o projeto de Lucio Costa tem o fundo proeminente, “como se alguém a tivesse chutado por baixo”, descreve Carpinteiro.

Quando acompanhou Cruls, em 1892, Auguste Glaziou estava com 60 anos e já havia projetado e reformado diversos jardins imponentes no Rio de Janeiro. Não se deixou desanimar diante da vastidão do Cerrado. Depois que a expedição montou barracas nas proximidades do hoje chamado Córrego Acampamento (dentro do Parque Nacional de Brasília), o francês saiu a campo: “…quase que diariamente percorri, herborizando cá e lá, ora uma parte, ora outra, desse calmo território e dessas excursões voltava sempre encantado; cem vezes as repeti, quase sempre a pé para facilidade das observações, em todos os sentidos e sem a menor fadiga, tão benéfica é aí a amenidade atmosférica”. Desses passeios, Glaziou concluiu que ali era o lugar perfeito para erguer uma cidade. “Nesse sítio, ainda, a extrema suavidade dos acidentes naturais do terreno não requer trabalho algum preparatório, nenhum para o arruamento ou delineação dos bulevares, nem para a edificação, numa ou noutra direção.”

A vasta planície mantinha-se esquecida. Todo o movimento entre Luziânia, Formosa e Planaltina, cidades preexistentes, fazia-se ao redor da área hoje ocupada pelo Plano Piloto. Sozinha, esperava por Brasília. Mais de 50 anos depois da passagem de Glaziou, técnicos norte-americanos da Donald J. Belcher & Associates aterrissaram, em 1954, no quadrilátero demarcado pela Missão Cruls para esmiuçar a geologia e a topografia da região onde, quem sabe um dia, seria construída a nova capital. Definiram cinco áreas para que fosse escolhida aquela que abrigaria Brasília.

A descrição do Sítio Castanho, o escolhido, supera de longe a descrição dos demais. “A fisiologia deste sitio, a 25 quilômetros a sudoeste de Planaltina, é inteiramente diferente da dos outros quatro…” – assim começa a descrição quase lírica dos técnicos americanos. “A extensa planície, de suave declividade para os rios limítrofes, presta-se ao desenvolvimento de uma grande cidade de qualquer tipo possível, sem a obrigação de interromper acidentes topográficos”.

E mais adiante, quase numa revelação premonitória: “Os vales em si poderiam ser desenvolvidos para edifícios públicos e a sede do governo”. A equipe de Belcher parecia torcer vivamente para que Brasília fosse construída no Sítio Castanho. Na descrição do Sítio Verde, há uma demonstração dessa suspeita: “Este sítio tem uma característica de grandeza somente compartilhada pelo Sítio Castanho”. Grandioso, majestoso – foram os adjetivos usados pela Missão Cruls e pelo Relatório Belcher, os dois documentos científicos mais importantes da pré-história de Brasília.

Não é majestático apenas por sua topografia estufada e em suave declive. Parece ter sido desenhado a dedo por um anjo da guarda de Lucio Costa. O sítio era demarcado por dois córregos, o Bananal e o Riacho Fundo, com a afluência do Vicente Pires, do Torto, do Vicente Pires, do Guará e dos demais fios de água que descem em direção a uma garganta borbulhante, a Cachoeira do Rio Paranoá. Se o chão onde existe o Plano Piloto parecia ter sido desenhado a dedo pela geologia para receber uma cidade, a leste do terreno havia uma depressão que, do mesmo modo, havia sido esculpida para receber um lago artificial, sem necessidade de nenhuma obra de engenharia, exceto uma barragem.

Assim percebeu o botânico francês, em suas andanças encantadas, em 1892, vale repetir: “Fechando essa brecha com uma obra de arte (…) forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobre uma largura de 16 a 18. Além da utilidade de navegação, a abundância de peixes, que não é de somenos importância, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes havia de dar à nova capital despertariam certamente a admiração de todas as nações.”

O Plano Piloto era uma premonição cravada na Terra.
Texto transcrito do Correio Braziliense, 21 de maio de 2011.

 

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Cortina

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Cortina

Uma cortina de cânhamo:
entre o poente da planície e o funcionário.
No fim do expediente o escriturário
descobre o que foram as ss/tardes:
             o pó da cortina de cânhamo,
             a poeira dos processos,
             a secura da cidade.
No fim do dia o homem não programado
descobre os seus sensores remotos.
Lhe dizem: seu tempo foi inútil.
Foi um tempo inteiriço
como a cantiga do grilo,
um tempo
não dividido em estações,
mais vivido em papel do que na rua.
Tudo agora é mais simples:
o homem
o escriturário
descobre a igualdade dos meses.
 
H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.
Poema transcrito da antologia “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”
Organização Salomão Sousa, Thesaurus Editora

 

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Menino presidenciável

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Menino presidenciável
(Fragmento)

 
Disseram-me: Homem não chora.
E eu, que queria ser herói, doutor, um grande aviador,
um famosíssimo escritor ou simples presidente,
perdi meu coração na aurora.
 
Eu ia ser presidente do Brasil
reeleito dez vezes
(depois, com a barba igual à do imperador
ia ser professor catedrático do colégio Pedro II
e ia construir uma catedral submersa
na Baía de Guanabara
onde só tocaria música de Bach, Haydn e Haendel
e uma estrada direta do Rio e Ubajara
só não sonhei Brasília, minha última namorada
e seus argentinos eucaliptos
e seus donos argentários
e seus espaços planetários
e suas sebes de ciprestes
separando esteticamente
os proprietários dos outros).
 
E como ainda seria pequeno
teria um carrinho do parque de diversões
como limusine presidencial
e em vez de moto, dois cavalos normandos
adestrados para trotar em ritmo de valsa
com penachos sobre as crinas
e uma baliza na frente, pernas de fora
fazendo acrobacias
pompa e elegância adequadas
a meu terno branco de primeira comunhão
com calças curtas e tênis de lona
alvejados com giz
(acho que, como presidente,
poderia comprar sapatos de verniz).
(…)
 
Esmerino Magalhães Jr, poeta natural do Rio de Janeiro
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Homero Homem

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Homero Homem compôs um dos mais antigos poemas de exaltação à nova Capital (em 1956), quando ainda anunciada nas pranchetas. Depõe em carta que nos remeteu: “Brasília, DF (…) foi escrita como um anúncio, uma antevisão…Vários amigos meus, aqui no Rio, trabalhavam no escritório de Oscar Niemeyer; entre eles Flávio de Aquino  (a quem o poema é dedicado) e o pintor Raymundo Nogueira…Eu freqüentava o escritório deles na sobreloja do edifício do MEC e via Brasília sob a forma de desenho…” Tratava-se da cidade sonhada pelos construtores, ideal sob todos os aspectos, ante-sala do paraíso…Do que o projeto prometia preservaram-se algumas características: “aérea”, “clara”, de “pilotis”, “róseo de cimento”, a crescer “a superfície”, “vidro plano…”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Henriqueta Lisboa

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Henriqueta Lisboa homenageia a cidade a falar do sol, da lua, da galáxia de Brasília. É que, embora radicada em Minas, teve a oportunidade de vê-la “à hora do nascer do sol”, transmudada de chofre em “bloco de topázio em prismas/alçado pelo azul do céu”, e à noite, “aquário escuro” sob uma lua de muitas originalidades: “Nenhuma lua vi maior/nem mais límpida em longitude/nem mais redonda em corola”. Também a Via Láctea? Sim, porque “Foi numa noite de mistério”. “Os astros formavam códigos/senhas algarismos e siglas”. Henriqueta Lisboa testifica porque viu “…a galáxia de Brasília/pairando sobre a flor de pedra”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

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O DIA SEGUINTE

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O DIA SEGUINTE
Por Cecília Pinto Coelho
 
Brasília fez-se Brasília, ou ao menos a Brasília do poder, no dia seguinte ao cortar de fita. Começou com um feriadão – sexta-feira, 22; sábado, 23; e domingo, 24 -, porque ninguém é de ferro e os deputados e senadores tinham mais que fazer no Rio com promessa de sol. Nem bem começara a vida da nova capital e já brotara a “campanha do retorno”. Um grupo de dezenove senadores da oposição liderada pela UDN de Carlos Lacerda reabriu simbolicamente o Palácio Monroe, na Cidade Maravilhosa.

Em Brasília, só voltariam à labuta no fim de maio. Na segunda-feira, 25 de abril, primeira jornada útil, a Câmara dos Deputados não teve quórum para sessão e um dos ministros do Supremo Tribunal Federal foi à imprensa para explicar por que se recusara a permanecer no cerrado. A revista Time americana relatou a reprimenda de JK ao ministro da Saúde, Mário Pinotti, que retornou ao Rio. “Se o senhor não voltar, melhor renunciar.” Pinotti deu o pinote, e logo estava em Brasília.

Depois da festa – ao fim do Grande Prêmio Juscelino Kubitschek de automobilismo nas avenidas e do Campeonato Brasileiro de Barcos no Paranoá -, e como o cotidiano se anunciasse árido, houve debandada geral. Pelo menos 500 000 pessoas acompanharam as festas no 21 de abril de 1960. Muitas chegaram antes, gradativamente, hospedando-se nas cidades-satélite, em casas de família, ou mesmo em lugares distantes. O 22 de abril foi o caos, porque quem chegara de avião queria retornar do mesmo modo, e rápido, mas não havia espaço para todos. O Ministério da Aeronáutica teve de instalar uma força-tarefa. Convém lembrar que a ponte aérea Brasília-Rio só valeria a partir de 26 de abril.

Casa cor. Nem tudo eram andaimes. Deu-se prioridade à Praça dos Três Poderes e à Esplanada dos Ministérios, embora o anexo central do Congresso (o prédio em forma de “H”) e os edifícios dos ministérios não pudessem funcionar plenamente. Nos setores residenciais, apostou-se na Asa Sul – mas ali também, na inauguração, apenas 11,8% de um total de noventa superquadras planejadas estava terminado. Havia um jeitão de Casa Cor: desde 1959, quando fora inaugurado o primeiro edifício de seis andares, a Novacap mobiliou um dos apartamentos para mostrar o estilo de vida que Brasília reservava ao futuro, um futuro que a rigor só chegou em 1970, já durante o governo Médice.

Um passeio pelos jornais daqueles dias – os de oposição, claro – dá o tom do vazio criado depois da euforia. Correio da Manhã de 21 de abril: “Brasília é um pandemônio”. Diário Carioca do mesmo dia: “Brasília se inaugura sem depósito de lixo: o que havia virou favela”. Tribuna da Imprensa: “Senadores pedirão a volta do Congresso: Brasília é um caos”. As reportagens eram unânimes – e nesse caso mesmo entre os órgãos favoráveis a JK – em destacar a poeira que sobrara depois de a poeira baixar e o lixo que se acumulara. O Jornal do Brasil resumiu o ambiente: “Deputados sem ter onde morar começam hoje mesmo a voltar ao Rio”.

Quem ficou, para não perder o costume, ou para inaugurá-lo, tentou emplacar uma CPI. No ano da inauguração, nove comissões foram registradas no Diário do Congresso Nacional. Uma delas, publicada no periódico em 25 de agosto daquele ano, foi criada para investigar as condições da construção de Brasília, da organização e regulamentação de seus serviços públicos. A comissão, de autoria do deputado Seixas Dória, udenista de Sergipe, estava prevista para funcionar por noventa dias, mas não chegou a nenhuma conclusão. Fracassou também a tentativa de alcançar o governo de JK com a CPI do Vidro Plano, montada em 1959 para descobrir como o casamento dos imensos janelões do modernismo na arquitetura com os interesses dos empreiteiros encarecera a construção. Não avançou, e ficou por isso mesmo.

Com plenários vazios, e à falta de restaurantes para freqüentar, ia-se ao cinema. No Cine Brasília, desenhado por Oscar Niemeyer no Plano Piloto, com 1 200 lugares, os destaques da primeira semana foram Anáguas a Bordo, com Cary Grant e Tony Curtis; O Discípulo do Diabo, com Kirk Douglas e Burt Lancaster; a Canoa Furou, com Jerry Lewis. Na Cidade Livre – o atual Núcleo Bandeirante – roíam-se unhas com o faroeste A Lei do Mais Valente e a aventura Tempestade em Sangolândia. Difícil, quase impossível, era conseguir ingresso. “Brasília não era uma capital, nem mesmo uma cidade, à época de sua inauguração”, afirma Márcio de Oliveira, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, estudioso daqueles dias de corajoso pioneirismo.

Texto transcrito da Edição Especial (VEJA 2138), “Brasília: 50 anos” – novembro de 2009.

 

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HASTA SIEMPRE!

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HASTA SIEMPRE!

Ontem Luis Turiba surtou de nós,
Diz um amigo íntimo; levou todos os poemas
Cuíca, óculos e até um samba da ARUC.
 
Diz, não fui eu quem disse:
Luis Turiba anda falando alto,
Diz que o Rio é a Capital do Planalto.
 
Na rodoviária acabou o pastel, caldo de cana e até jornal.
Diz, não fui eu quem disse:
Luis Turiba passou por lá feito ventania,
Passos apressados, sorriso largo
Com olhar de labareda.
 
Diz, não fui eu quem disse:
Estava com um livro de Nicolas Behr
E na companhia do Ivan, o tal da Presença.
 
O noticiário não deu conhecimento,
A menina do Beirute não chorou,
O telefone do Renato Matos não tocou.
 
Será que ele foi embora?
Voltou de onde veio,
Retornou ao princípio.
 
Diz, não fui quem disse:
Chegou a hora de mudar de estilo
Querer o outro, terra mãe,
Zoar por aí.
 
Agora, eu digo:
Luis Turiba destilou sabedoria;
"Descobriu que é preciso aprender
a nascer todo dia."
 
Poema de Jorge Ferreira, em homenagem ao poeta Luis Turiba, declamado no Café Martinica, em 11 de março de 2011.

 

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H. Dobal

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H. Dobal residiu em Brasília por vários anos. Veio do Rio, a capital destronada, como vários outros escritores que, em razão de suas atividades no serviço público, no magistério, na magistratura, ao longo destes anos vêm aderindo à “marcha para o Oeste”. É autor de uma série de poemas sobre a cidade. Selecionamos três para este livro: “Paisagem”, “Asas” e “A tarde”. A geografia brasiliense, a arquitetura singular, a atmosfera, foram habilmente colhidas por H. Dobal.  Senão, vejamos: “Os blocos de concreto/contemplam a secura dos gramados” (“Paisagem”); “As asas/pedindo ao seu vôo/a certeza da tarde” (“as Asas”); “uma canção de cigarra/persegue o verão” (“A Tarde”). H. Dobal, que, com tanta maestria, já havia cantado cidades do Piauí e do Maranhão, destaca-se entre os que mais se impregnaram da poesia desta cidade.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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