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Brasília, 300 anos

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Por Paloma Oliveto
 

Naqueles tempos, eixo se referia à peça que ligava as rodas do carro de boi. Tesourinhas havia às centenas, mas essas voavam pelo céu do cerrado. Plano era cenário pelo qual passaram tantos escravos, bandeirantes, garimpeiros e tropeiros, para quem Norte, Sul, Sudoeste e Noroeste significavam apenas pontos cardeais apontados pela bússola. Brasília, porém, já estava ali.

Que ninguém se deixe enganar pelas linhas arquitetônicas modernas e os prédios de concreto da cidade. O Brasil colonial está entranhado no DF e no seu entorno. Seja nos pilares do altar da Igreja de São Sebastião, em Planaltina, seja na cicatriz deixada pelo garimpo em um morro da região de Saia Velha, a 35 km da Esplanada dos Ministérios, por toda parte, existem marcas de um passado com quase 300 anos, há muito tempo sufocado pelo sonho da capital futurista.
Essa Brasília da qual poucos se lembram corria o risco de ficar engavetada no Rio de Janeiro. No Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), há centenas de fotografias tiradas entre as décadas de 1940 e 1970 por arquitetos do órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Não se sabe por que os técnicos visitaram a região e fizeram registros fotográficos das edificações, mas é certo que o trabalho realizado, mais de meio século atrás, constitui um rico acervo, agora disponível no Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF).

Em maio, os historiadores Wilson Vieira Júnior e Elias Manoel viajaram para o Rio de Janeiro com a missão de digitalizar o conjunto de fotos que contém imagens inéditas, como as da antiga Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia, prédio do século 18 colocado ao chão na época da construção de Brasília. Até agora, só eram conhecidas fotografias da lateral do presídio colonial, erguido por volta de 1750, no então Arraial de Santa Luzia. Os pesquisadores resgataram, inclusive, a planta baixa do edifício de dois andares, que não tinha porta para evitar a fuga de presos: vereadores e detentos entravam por um alçapão, construído no teto, ao qual se tinha acesso por uma escada móvel.

Relíquias

A pista de que havia imagens raras do Planalto Central no Rio veio do diretor do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC) da PUC-Goiás, Antonio Cesar Caldas Pinheiro. Ele encontrou em um livro do Iphan a foto de uma parte do altar da igreja de Traíras, povoado que foi o centro da mineração goiana na primeira metade do século 18, mas, que, hoje, só restaram ruínas. “Fui ao Rio, e, no Iphan, disseram-me que tinha essa foto e outras imagens importantes de Goiás”, conta Pinheiro. Como costuma fazer parcerias de trabalho com a equipe de arquivistas e historiadores do DF, ele repassou a informação a Wilson, que entrou em contato com o Iphan. “Eles me mandaram uma listagem, e já vi que tinha muita coisa interessante”, relata Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF.

Em uma semana, os pesquisadores digitalizaram e trouxeram o farto material para Brasília. Há imagens referentes desde os três municípios que cederam território para a construção da capital – Luziânia, Formosa e Planaltina -, a localidades mais distantes, como Porangatú e Vila Bela da Santíssima Trindade, essa última localizada em Mato Grosso, mas com historia colonial interligada à da região onde hoje fica o DF. “Muitas cidades desconhecem essas fotos, que são relíquias de um tempo que não existe mais. Elas foram tiradas em uma época anterior a essa modernidade contagiante que marcou a época da construção de Brasília”, avalia Elias Manoel, gerente de Núcleo de Documentação Cartográfica e Iconográfica do Arquivo Público. Nas lentes dos arquitetos do Iphan, conservou-se uma cidade, que, nas décadas de 1950 e 1960, não interessava mais a população local, encantada pelo surto futurista da nova capital.

Importantes casarões e prédios públicos que existiam em vilas e fazendas desapropriadas para a construção de Brasília vieram abaixo no período da construção. Não por exigência da planta da nova cidade, mas porque prefeitos e moradores dos municípios vizinhos assim quiseram. Oficialmente, a Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia virou pó para a abertura de uma estrada que conectaria a cidade goiana à BR-040, dando acesso ao DF. Contudo, Wilson tem outro palpite: “Acho que as cidades ao redor procuraram se adequar ao ideal de modernidade da capital e começaram a derrubar tudo”, diz. Elias Manoel concorda: “A população via aquilo como um processo natural: abandonar o arcaico para se associar ao moderno”.

Resgate histórico

As fotografias resgatadas pelo Arquivo Público do DF integram o projeto Documentos  Goyaz, iniciado há dois anos: “A proposta é dialogar a construção da capital com o passado de Goiás, tendo como foco documentos de Formosa, Luziânia e Planaltina”, explica Wilson Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF. “Nós buscamos toda documentação do século 18, 19 e até meados do século 20 de forma a fomentar a pesquisa e facilitar o acesso de pessoas interessadas”. Entre os mais de 100 mil tesouros resgatados pelos funcionários do ArPDF, há diários, registros paroquiais e de terra, inventários; mapas raros, como o da Capitania de Goyaz, de 1750, recortes de jornais e a Ata da Expedição Cruls.

O manuscrito, colocado dentro de uma cápsula de vidro e enterrado pelos desbravadores, foi encontrado no Rio de Janeiro. A equipe do ArPDF também localizou no Museu do Ipiranga, em São Paulo, documentação a respeito da pedra fundamental, inaugurada em Planaltina, em 7 de setembro de 1922.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 1 de setembro de 2013.

Apaixonados por Brasília

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Apaixonados por Brasília
Por Leilane Menezes
 
 
As 36 horas de viagem do Rio de Janeiro a Brasília não foram suficientes para acabar com a empolgação dos 150 policiais militares que desembarcaram na então nova capital em 15 de fevereiro de 1966. Eles foram os primeiros PMs da cidade. Chegaram para formar a 1ª Companhia Independente de Brasília, a substituta da Guarda Especial de Brasília (GEB), responsável pela segurança pública no DF desde a inauguração da cidade. Na terça-feira passada, completaram-se 45 anos dessa história.
Os homens vieram em três ônibus velhos. Os veículos quebraram no meio do caminho diversas vezes. Sob o comando de Abenante de Mello e Souza (coronel da reserva remunerada já falecido), o grupo deixou, às 9h30, a rua Clarimundo de Melo, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro, rumo ao Planalto Central. Os termômetros marcavam 38º C. Na bagagem, os jovens policiais trouxeram somente o essencial: poucas mudas de roupa, escovas de dente, água e alguma comida. As famílias ficaram para trás.
Esses policiais foram transferidos para Brasília por meio do Decreto-Lei número 4.242, de 17 de julho de 1963, de autoria do senador Santiago Dantas. A medida ficou conhecida como Lei da Opção.
Houve concorrência para mudar-se para a capital. Mais de 3 mil homens ofereceram-se. Desses, a principio, somente 150 foram selecionados. Meses depois, outras centenas vieram. Eles ficaram conhecidos como “optantes”.
 
A chegada
 
Entre os primeiros escolhidos, estavam o capitão Jorge Mendes Maciel Eunack, hoje, aos 75 anos, aposentado. “A viagem foi difícil, acidentada, quebrou o para-brisa de um dos ônibus. Na maioria das paradas que fazíamos durante o trajeto éramos bem recebidos”, disse o capitão. Ao chegarem a Brasília, em uma terça-feira, desembarcaram em frente ao prédio feito especialmente para acolhe-los, o Forte Apache, onde hoje fica o Setor Militar Urbano. O local ganhou esse nome por se tratar de um barracão de madeira.
O primeiro a sentir o solo candango sob os pés  foi o comandante Abenante. “Ele, emocionado, comandou: “Atenção guarnição, desembarcar! Em forma! Por três!”, lembra Eunack. No sábado seguinte, os homens iniciaram o serviço. Brasília era uma cidade calma. “Tinha pouca ocorrência. Era mais policiamento de trânsito, essas coisas.
Saudades do tempo em que a cidade estava se fazendo ainda.”
As famílias dos oficiais não tinham onde ficar em Brasília. Somente alojamentos estavam disponíveis. Mesmo assim, a mulher e a filha de Eunack vieram, de surpresa, do Rio de Janeiro. “Quando eu ouvi a voz da minha filha chamando ‘papai’, me emocionei. As pessoas ao redor bateram palmas”, conta. Meses depois, a PMDF comprou um ônibus para levá-los e buscá-los no Rio de Janeiro, durante as férias.
A visão de Brasília, uma cidade recém-inaugurada à época, ficou gravada na memória de Eunack.
“Eu via mato em todo lugar e muita máquina trabalhando. Eu me apaixonei por essa cidade de um jeito difícil de explicar. Nunca mais fui embora”, disse. Capitão Gilson de Oliveira, 74 anos, outro policial pioneiro, viveu a mesma sensação. “Brasília tem um feitiço. Nunca olhei para trás pensando em ir embora”, resume.
 
Diversão
 
A polícia também trouxe sua arte. Manoel Nascimento Paixão, 74 anos, conhecido como Tenente Paixão, veio para fazer parte da já planejada Banda Marcial da Polícia Militar: “Eles escolheram dos músicos mais habilidosos. Daí fundamos a banda, em Taguatinga. Fazíamos espetáculos muito bonitos”, relata Paixão, que é maestro. Os colegas de longa data sentem orgulho de ter contribuído para a história da PM de Brasília.
Eunack é o criador do brasão da corporação, usado até hoje. É também um grande incentivador de programas sociais e educativos dentro da instituição policial, como a prática de escotismo. “Eu sempre preguei a ação preventiva. “Contra a violência, apenas a criatividade e a inteligência” – esse é meu bordão. Procuro motivar, ainda hoje, a ida da PM às escolas, levando educação, por exemplo, por meio do teatro de bonecos”, conta Eunack, que é escoteiro de alta graduação na ativa ainda hoje.
Os policiais fundaram até um bloco de carnaval, chamado Embalo do OPs (por conta da Lei da Opção), com uma marchinha cuja letra dizia: “Adeus, adeus, estado da Guanabara/Vou ficar em Brasília que é a capital jóia rara/Tudo aqui é resplendor, tudo aqui inspira amor/Por isso eu digo a vocês, em Brasília eu vou ficar”. Gilson e Eunack são cariocas. Paixão é pernambucano, mas foi criado no Rio. “Tenho uma cobertura na beira da praia. Estou aposentado. Mas não consigo ir embora daqui”, reforça Paixão, sobre o apego que a maioria deles desenvolveu por Brasília.
 
Encenação
 
Mas aquele distante 15 de fevereiro de 1966 não foi a data da primeira vinda a Brasília de Eunack e de outros colegas. O capitão relata uma história curiosa de 21 de abril de 1960. O então presidente Juscelino Kubitschek queria policiais treinados para reforçar a segurança da festa de inauguração. Mandou trazê-los do Rio de Janeiro. Para não causar alarde, pediu que viessem disfarçados.
Houve um espetáculo chamado Alegoria das três capitais, apresentado no evento, para celebrar o começo da nova cidade. Alguns atores estavam fantasiados de freis franciscanos. Em lugar das tradicionais sandálias usadas pelos religiosos dessa ordem, porém, eles usavam coturnos marrons.
A explicação para isso deixaria surpresa muita gente que participou da festa. Eles eram policiais escondidos, para não chamar a atenção, e atuaram como figurantes. Por baixo das roupas teatrais, todos estavam fardados, prontos para agir em caso de qualquer emergência. Capitão Eunack se encontrava entre eles. Orgulha-se de ter participado do momento histórico. Logo depois, os policiais retornaram ao Rio de Janeiro. Seis anos se passaram e muitos deles retornaram a Brasília para ficar.
Dessa vez, com outra fantasia: a de começar uma vida nova na capital, que começava a se formar.
 
Transcrito do Correio Braziliense, 19 de fevereiro de 2011, Cidades, pág. 42.

 

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Brasília

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Brasília

Nas águas de março do Rio de Janeiro aprendi a nadar
Nunca imaginei soletrar Brasília
Uma ilha rodeada de Brasil por todos os lados
Cidade asa
Em Brasília aprendi a voar
 
Brasília
Mergulhei nas asas de um avião
Tomei banho de cachoeira e lavei meu coração
Vislumbrei meu futuro ao longo dos eixos
 
Quando olhei pela primeira vez
Parecia um deserto,
uma Brasília amarela empalidecida pelo barro
Fiz do barro matéria bruta misturada ao meu sangue e suor
Aprendi a criar a minha Brasília
Um mar de gente começou a vir pra cá
Gente de todo Estado, de todo lugar
 
O mar se abriu no coração do país
 
Brasília!
Tu me destes um novo aniversário
Na cidade mítica e mística
Desabrochei atriz
 
Brasília!
Namorei nas suas árvores
Paquerei nas tesourinhas
Experimentei diversão e protesto na Esplanada
Eu até casei debaixo do teu céu!
 
Brasília, meu avião…
Continuo correndo na frente
Sempre a contemplar seu horizonte infinito
Aonde mais tu queres  me levar?

Cristiane Sobral, poetisa carioca, natural de Coqueiros, zona oeste do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “Não vou mais lavar os pratos”,  Coleção Oi Poema, 2010.

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22 de outubro de 1957

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"Na inauguração de Brasília irei de automóvel. Até lá, a ligação rodoviária da Nova Capital com o Rio de Janeiro e São Paulo estará concluída e todo o trecho pavimentado", diz o Presidente da República em entrevista aos jornalistas no Palácio do Catete.
"Com relação a Brasília", acrescenta ainda o Presidente, "os estudos procedidos pelo DASP concluíram pela necessidade de apenas trinta e cinco mil funcionários civis e militares na futura Capital, isto é, apenas 10 por cento dos funcionários do Rio de Janeiro".
Isenção – O Presidente Juscelino Kubitschek, por decreto, torna extensiva à Novacap a isenção de impostos federais de que goza a Petrobrás.
 
(Diário de Brasília)

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10 de maio de 1957

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O Ministério da Agricultura e a Novacap assinam no Rio de Janeiro um convênio para o desenvolvimento de atividades agrícolas em Brasília, visando-se à criação de um cinturão verde que, futuramente, assegure á nova Capital o abastecimento de produtos hortícolas de pomar. Os trabalhos serão atacados imediatamente (Diário de Brasília);

 

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PARÊNTESE

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PARÊNTESE

 
(Mistérios maiores resplandecem algures,
  insondáveis, mas as estrelas, augures,
  permanecem soltas no céu,
   milhares de anos luz,
   soberanas incandescentes…)
 
Gisele Lemper, poetisa carioca, natural do Rio de Janeiro.
"Duo", Marcos Pacheco e Gisele Lemper

 

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DE BRASILIAE CAPITE

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"O meu governo, como sabeis, tem as vistas voltadas para o interior e se empenha devotadamente em que o país procure o seu natural centro de gravidade, valorizando as grandes áreas do ‘hinterland’. Brasília é o corolário desse movimento para dentro: é, ao mesmo tempo, meta e ponto de partida, porque a marcha para o interior se frustrará, sem aquela base de apoio."
Palavras do Presidente Juscelino Kubitschek, em 28/04/1957, no Rio de Janeiro.

 
 

DE BRASILIAE CAPITE *

 
        Oh! urbs,
                   serva tempõris
                            et caelõum…
 
        Ubi est laetitia
            populi tui!?…
 
      
        Oh! íncola
                    templi marmoris,
                    – cor tuum
                          ubi est!?…
 
 
* Poesia em latim
Hélio Soares Pereira, "Onde o horizonte vem esconder-se"

 

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28 de abril de 1957

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Falando no Rio de Janeiro, na sessão inaugural do IV Congresso de Municípios, o Presidente Juscelino Kubitschek assim se refere a Brasília:
"O meu Governo, como sabeis, tem as vistas voltadas para o interior e se empenha devotadamente em que o país procure o seu natural centro de gravidade, valorizando as grandes áreas do hinterland. Brasília é o corolário desse movimento para dentro; é, ao mesmo tempo, meta e ponto de partida, porque a marcha para o interior se frustrará, sem aquela base de apoio."

 

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Missão Cruls

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Missão Cruls
 
Em maio de 1892, o governo Floriano Peixoto criou a Comissão Exploradora do Planalto Central e entregou a chefia a Louis Ferdinand Cruls – ou Luiz Cruls -, astrônomo e geógrafo belga radicado no Rio de Janeiro desde 1874, que dirigia o Observatório Imperial. Objetivo: conforme disposto na Constituição, proceder à exploração do Planalto Central da República e à conseqüente demarcação da área a ser ocupada pela futura capital. O grupo, de vinte pessoas, sai do Rio em 9 de junho de 1892 e chega a Pirenópolis, Goiás, no dia 1º de agosto. Do Rio até Uberaba, no Triângulo Mineiro, de trem. Daí em diante, a cavalo. O relatório final é apresentado em 1894. Fragmento:
 
"Em resumo, a zona demarcada goza, em sua maior extensão, de um clima extremamente salubre, em que o emigrante europeu não precisa da aclimação, pois encontrará aí condições climatéricas análogas às que oferecem as regiões as mais salubres da zona temperada européia. (…) Entretanto, como demonstra a exploração à qual procedeu esta Comissão, existe no interior do Brasil uma zona gozando de excelente clima, com riquezas naturais, que só pedem braços para serem exploradas."
 
A única objeção à mudança da capital que o relatório considerou merecedora de resposta foi a da distância. Mas a conclusão é que ela carece de fundamento, porque o centro do quadrilátero de 14.400 quilômetros quadrados demarcado dista aproximadamente 970 quilômetros do Rio de Janeiro e será sempre possível construir-se estrada de ferro cujo traçado não excederá 1.200 quilômetros, distância esta que poderia ser facilmente vencida em vinte horas. Cruls posicionou seu quadrilátero no triângulo formado pelas lagoas Formosa, Feia e Mestre D’Armas. O mesmo local indicado por Varnhagen em 1877. Está definida a área que vai ser a principal base dos estudos futuros.
Em tempo. Astrônomo, Cruls se encanta com o céu da área:
 
"O estudo do nosso céu e a limpidez atmosférica ferem a atenção. (…) A pureza atmosférica vai ao ponto de, muito superior à do Rio, permitir com instrumentos menos poderosos ver os astros que lá exigem melhores condições para se mostrar (…) O nosso céu, de uma beleza notável, carrega-se pela manhã de nuvens a leste, passando elas pelo zênite nas proximidades do meio-dia para, à tarde, acumularem-se pelo lado oeste e, afinal, desaparecerem quase totalmente, descendo a nebulosidade às vezes quase a zero; parecem fazer cortejo ao sol."
 
Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

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Hipólito José da Costa

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Hipólito José da Costa

O jornalista Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774-1823) é outra referência da idéia da capital no interior. Ele fundou em Londres, em 1808, o Correio Braziliense ou Armazém Literário, considerado o primeiro periódico brasileiro. Formato tablóide, capa dura, impresso na Inglaterra, redigido em português, circulou mensalmente durante mais de treze anos – de 1808 a 1822 – e 175 números. Hipólito da Costa considerava o Rio de Janeiro inadequado para sediar o governo, conforme mostra o seguinte trecho de artigo que publicou em 1813:
"Basta lembrar que está a um canto do território do Brasil, que as suas comunicações com o Pará e outros pontos daquele Estado são de imensa dificuldade e que, sendo um porto de mar, está o governo ali sempre sujeito a uma invasão inimiga de qualquer potência marítima."
Queria a capital junto às cabeceiras de um dos grandes rios e defendia a construção de nova cidade, interligada por novas estradas aos portos de mar. Em artigo de 1818, ele volta a considerar o Rio de Janeiro impróprio para a residência da Corte e, alegando manifesto interesse de ter a capital no centro da monarquia, observa que muitos lugares nas campinas do rio Doce e nas vertentes do rio São Francisco "oferecem as mais belas situações para se estabelecer a Corte".

Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

 

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10 de novembro de 1956

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Foto: Arquivo Público do DF

JK chega à Brasília e inaugura o Catetinho – A luz elétrica, tênue e com limitado poder de irradiação, "brilhou" pela primeira no Planalto Central. Juscelino estava ali para inaugurar o Catetinho,  a residência provisória do Presidente da República. A cidade começou a surgir naquele momento, algo como duas dezenas de dias após a chegada dos primeiros operários e dos primeiros caminhões com material de construção vindos do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte.
Graças ao gerador de 2,5 hp, também já funcionava um radioamador que estabeleceu conexão com o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Anápolis, Goiânia, Araxá e Belo Horizonte. "Milagre…" gritavam os construtores pioneiros. O Planalto deixava de ser mudo.
Após o jantar, serenata ao som de "Peixe vivo" e o "Canto da Nova Capital", música de Dilermando Reis com letra de Bastos Tigre. Uma festa.
Um carioca foi o primeiro candango a chegar em Brasília: Agripino Pereira Lins, na época com 42 anos, era natural de Vila Isabel. Encarregado de abastecer o avião que JK utilizou durante a campanha para a presidência, ele partiu do Rio de Janeiro com o primeiro caminhão de material para a construção da cidade;

 

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02 de novembro de 1956

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O nome Catetinho, diminuitivo de Catete, Palácio Presidencial do Rio de Janeiro, foi idéia de Dilermando Reis, violinista e compositor paulista, amigo de JK. Autor das valsas "Noite de Lua" e "Alma nortista", do choro "Magoado" e do bolero "Penumbra", grandes sucessos. O nome inicialmente sugerido foi Palácio da Alvorada, vetado por JK, que preferiu guardá-lo para a futura residência presidencial em Brasília;

 

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Brasília, 24 de março de 1960

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Homenagem ao Presidente Juscelino Kubitschek – No Rio de Janeiro, o Presidente Juscelino Kubitschek é homenageado com um banquete pela Sociedade Americana e a Câmara de Comércio Americana. Saudando o homenageado, o Senhor John Moors Cabot, Embaixador dos Estados Unidos da América, assim se refere a Brasília:

“Com a inauguração de Brasília, o monte de escombros da muralha de silêncio será nivelado pelos ‘bulldozers’ para os alicerces sobre os quais o novo Brasil se constrói. Brasília juntar-se-á a Washington nas manchetes mundiais. E como a fundação de Washington  simbolizou os Estados Unidos, Brasília simbolizará esta nação, que tem papel tão importante a desempenhar nos assuntos mundiais.”

Comunicações burocráticas – O Presidente Juscelino Kubitschek, pelo decreto 47.958, desta data, dispõe sobre as comunicações burocráticas entre o Rio de Janeiro e Brasília.

Gabinete Militar e Civil – O Presidente Juscelino assina decretos mandando servir em Brasília, o General de Exército Nelson de Melo e o diplomata José Sette Câmara, chefes, respectivamente, dos Gabinetes Militar e Civil da Presidência da República.

Imprensa Nacional – O Ministro da Justiça e Negócios Interiores assina ato designando o Sr. Alberto Sá Souza Brito Pereira para ter exercício em Brasília. A propósito dessa designação, disse em despacho, o titular da pasta: “A mudança do Departamento de Imprensa Nacional, já iniciada, é um imperativo da mudança da Capital da República. Ao seu diretor-geral, enquanto não efetivada a transferência total do órgão, continuará cabendo, na forma da legislação em vigor, a administração do Departamento em Brasília e no Rio de Janeiro, valendo-se da distribuição que se fizer conveniente dos elementos administrativos de que dispõe.”

Brasília, 3 de fevereiro de 1960

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Rede Ferroviária Federal – A partir da mudança da Capital Federal para o Planalto Central, a Rede Ferroviária Federal S/A manterá permanentemente em Brasília elementos da Diretoria Jurídica e Financeira, a fim de acompanharem os processos de interesse da empresa.
A medida decorre de proposta do diretor jurídico que, à vista da próxima mudança do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Recursos, aponta a necessidade de se organizar um escritório em Brasília com o encargo de representar a Rede.
Em agosto de 1959, a RFF iniciou entendimentos com a Novacap para a escolha do local destinado ao edifício em que irá funcionar em Brasília.

Sistema Escolar – Em portaria, o Ministro da Educação determina época especial para o corrente ano letivo nas escolas mantidas pelo Ministério da Educação e Cultura na cidade de Brasília, futura Capital brasileira. Pela citada portaria o ano letivo de 1960 será de 16 de maio a 23 de dezembro, com o período de 28 de agosto a 11 de setembro para as férias escolares. As provas parciais serão realizadas entre 22 e 27 de agosto e 12 e 23 de dezembro.

Rodovia Belo Horizonte-Brasília – A imprensa brasileira assinala que a grande rodovia que ligará o Rio de Janeiro a Brasília, num percurso de 1.200 quilômetros, já está com a sua pavimentação quase concluída e, consequentemente, oferecendo perfeitas condições de tráfego entre o Rio de Janeiro e o Planalto goiano.
Essa obra constituiu um dos pontos que mais despertaram a atenção dos integrantes da Coluna Leste da Caravana de Integração Nacional, que, juntamente com as Colunas Norte, proveniente de Belém do Pará; Oeste, oriunda de Cuiabá; e Coluna Sul, cujo trajeto teve inicio em Porto Alegre, participou ativamente dos festejos comemorativos do 4º aniversário da administração do Presidente Juscelino Kubitschek.
Durante os pernoites e, mesmo, nas rápidas paradas, os componentes da Coluna Leste da Caravana de Integração Nacional tiveram oportunidade de ouvir a opinião de vários prefeitos e de grande número de pessoas interessadas na vida e no progresso das comunidades, e todos tiveram palavras do mais franco elogio para o grande empreendimento.
Os prefeitos e habitantes das cidades de João Pinheiro, Felixlândia, Sete Lagoas, Lafaiete, Santos Dumont, Juiz de Fora, Barbacena, Três Marias e outros municípios de Minas e de Cristalina e Luziânia, em Goiás, foram unânimes em exaltar a obra e chegaram mesmo a considerá-la como um novo ponto de partida para a redenção econômica das respectivas comunas.
Dirigindo palavras de saudação aos caravaneiros, os prefeitos de Cristalina e Luziânia declaram ver na rodovia Belo Horizonte-Brasília um dos motivos de maior significação e importância para o barateamento do custo de vida.

Ministério da Saúde – A Agência Nacional divulga uma entrevista com o Doutor Mário Pinotti, Ministro da Saúde, a propósito da significação histórica de Brasília e sobre as providências de sua pasta no setor da assistência sanitária à futura Capital.

Colonização da Rodovia Belém-Brasília – Em Brasília, o Presidente Juscelino Kubitschek preside a uma reunião de Governadores dos Estados e Territórios da Bacia Amazônica, no Palácio da Alvorada, a fim de tratar da colonização das terras marginais da rodovia Bernardo Sayão.
A conferência, que conta com a presença dos Governadores do Amazonas, Maranhão, Rondônia, Rio Branco, Acre, do Superintendente do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, do Arcebispo de Goiânia e de assessores presidenciais, tem como objetivo a obra de humanização e colonização das terras marginais do grande eixo rodoviário, agora aberto ao desenvolvimento do país. Em nome de todos os Bispos e prelados da região cortada pela rodovia, os sacerdotes presentes expressam seu desejo de colaboração e fazem apelo ao Presidente da República no sentido de serem adotada providencias imediatas para evitar a ocupação desordenada das terras devolutas e matas virgens. Em rápidas palavras, o Arcebispo de Goiânia informa o presidente sobre a luta titânica que o Bispo de Porto Nacional, Dom Alano, vem travando contra certos concessionários de terras devolutas, os quais, de posse de documentação falha, tentam espoliar os desbravadores das selvas e construtores da estrada, que ali estão se fixando. Apela Dom Fernando para a criação de um Grupo de Trabalho, a exemplo do que ocorre com a execução das tarefas resultantes dos históricos encontros de Campina Grande e de Natal. Desse grupo deverão participar representantes dos Governos da região, do Exército Nacional, do INIC, da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, do Serviço Social Rural, do Departamento Nacional da Produção Vegetal, da Legião Brasileira de Assistência e de outros órgãos cuja cooperação vier a ser considerada necessária para a execução dos planos traçados. Os Governadores presentes apóiam a sugestão de Dom Fernando, tendo o Presidente Juscelino Kubitschek recebido a iniciativa com o maior entusiasmo e ordenado as primeiras providências no sentido da concretização da mesma, de sorte a não retardar o início dos trabalhos práticos um só instante, a fim de que o mesmo se efetive antes mesmo da mudança da Capital federal para Brasília. O Presidente Juscelino Kubitschek dá ordem para que se providencie a reunião, nos próximos dias, no Palácio do Catete, dos Bispos da região ao longo do eixo rodoviário Belém-Brasília, bem como de representantes dos Governos dos Estados interessados, além dos demais órgãos citados, para coordenação dos esforços que vão ser exigidos pelo trabalho a ser apresentado com a maior brevidade.

Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional – Partem de Brasília para o Rio de Janeiro os integrantes da Coluna, que na primeira etapa atingem João Pinheiro, em Minas Gerais, onde pernoitam.


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