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Como nascem os palácios

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Por Conceição Freitas

Quando Lucio Costa escreveu que o projeto do Plano Piloto surgiu praticamente pronto, deu a entender que o santo baixou e ele, num lampejo, criou a capital. Do mesmo modo, há a sensação de que Oscar Niemeyer, incorporado por uma entidade arquitetônica, projetou os palácios de Brasília num átimo de tempo criativo. Muito longe disso. Tanto o arquiteto quanto o urbanista gastaram muita ponta de lápis para transformar o vazio do papel em genial invenção. O próprio Niemeyer, ao descrever o processo de criação das obras da nova capital, não revela o quanto ele ralou, foi e voltou, voltou e foi, para criar alguns dos mais belos palácios da história da arquitetura moderna.

Para descobrir, afinal, quanta pestana o arquiteto queimou até chegar aos projetos finais dos quatro primeiros palácios de Brasília – o do Alvorada, o do Planalto, o do Supremo Tribunal Federal e o do Congresso Nacional – o também arquiteto Elcio Gomes da Silva produziu e defendeu, em abril passado, na Universidade de Brasília (UnB), uma tese de doutorado de 1.200 páginas. “Os palácios originais de Brasília” percorre as pegadas de Niemeyer, do engenheiro Joaquim Cardozo, das construtoras, dos fornecedores de material de construção, dos mestres de obra dos quatro palácios para reconstituir o ato mesmo da criação. Investiga também as mudanças ocorridas nas edificações desde então.

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Sarau Sanitário

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Salve, salve calangada do bem!
 
Para fazer jus à proposta do projeto de popularização da Poesia, aí está o livro Sarau Sanitário.com disponível para leitura. Nas páginas a seguir há poemas sobre sustentabilidade, sobre cada signo do zodíaco, sexualidade, TPM, tecnologia. Há também poemas em homenagem a ícones como Frida Khalo, Glauber Rocha, Cora Coralina, Burle Marx, Tom Zé, entre outros mestres que inspiram a minha (e nossa) poesia.
 
…Lançamento do livro: 11 de maio no Balaio Café – 201 Norte…participação do Poeta Gog e de não-poetas ilustres da cidade declamando…será algo bem interessante…aguarde. 
 
  
Para ver como ficou o livro, clique no link abaixo:
 
http://sarausanitario.com/site/2010/04/13/leia-o-livro/ (link-amigo).
 
 Boa leitura,
MM
 
 Dica:
www.marinamara.com.br e www.sarausanitario.com

 

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JK assina lei que fixa data para mudança da capital

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Ao submeter a Juscelino a minuta do projeto de lei de mudança da capital, o jurista San Tiago Dantas esclarecera que o instrumento concedia ao Presidente amplos poderes para construir a nova cidade, de tal sorte que não precisaria recorrer ao Legislativo para qualquer providência futura. Só um obstáculo não fora possível contornar: ao Congresso, por imposição constitucional, caberia fixar a data da mudança.
Por essa razão o deputado Emival Caiado, da bancada goiana, quatro dias (apenas!) após a votação pela Câmara, em 23/08/1956, do projeto de lei de interiorização da capital, encaminhou à Mesa da Casa um outro projeto, fixando a data da mudança. Sequer fora aprovada a redação final do primeiro projeto, que teria de ser submetido, ainda, ao Senado Federal; também, não se publicara o edital do Concurso do Plano Piloto, aguardando-se, naturalmente, a aprovação do projeto pelas duas Casas do Congresso.
Não havia, portanto, lei sancionada; não havia projetos escolhidos; não havia um órgão, uma empresa, uma entidade constituída para levar a cabo a missão de construir a futura capital. E até a desapropriação das terras, no Planalto, encontrava-se ainda em andamento.
Poderia parecer, assim, açodamento do deputado, querer fixar, desde logo, a data de inauguração da nova cidade e de conhecer, para a conclusão das obras, pouco mais de três anos.
Mas, na verdade, a posição do Senado, favorável ao projeto, era conhecida; o edital do concurso estava pronto; Niemeyer já fora convidado, pelo Presidente, para arquiteto da futura capital; os atos constitutivos da companhia urbanizadora (prevista no projeto de lei), estavam todos minutados, e havia, acima de tudo, consenso, nas hostes mudancistas, de que a capital só seria transferida se o fosse ainda no governo de Juscelino.
Por outro lado, a fixação da data poderia ser mais facilmente obtida do Congresso se tentada logo, quando a muitos parlamentares, contrários, aberta ou veladamente, à mudança, pudesse parecer impossível sua concretização na data aprovada por eles.
Emival Caiado um ano depois, durante a discussão do projeto em plenário (28-8-1957), explicaria que ao propor 21 de abril de 1960 tivera em mente abrir os debates sobre o problema, atendendo ao preceito imperativo da constituição, que mandava ao Congresso deliberar sobre a data tão logo a demarcação da área do futuro Distrito Federal estivesse concluída – o que já ocorrera. Esclareceu que não dispunha, ao propor aquela data, de elementos para julgar da viabilidade do prazo. Sua intenção fora a de abrir os debates. Mas ficara satisfeito por haver constatado, posteriormente, que o prazo pedido pelos engenheiros e administradores responsáveis pela construção da cidade coincidira com aquele proposto por ele.
O projeto de interiorização da capital, aprovado pelo Senado em 19/09/1956 e sancionado pelo Presidente na noite de 19, transformou-se na lei 2.874. No dia seguinte, o Diário Oficial publicou a lei. Publicou, também, o edital do concurso do Plano Piloto. Dois dias depois (22/09/1956) foi constituída a Novacap e no dia 25 Juscelino nomeou o Presidente da Empresa.
 
Reproduzido do livro "Brasília: memória da construção", de L. Fernando Tamanini.

 

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23 de julho de 1957

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O Presidente Juscelino Kubitschek promove uma reunião, no Palácio das Laranjeiras, de parlamentares, a fim de exibir-se aos membros das duas Mesas do Senado e da Câmara o projeto do novo edifício do Congresso Nacional a ser erguido em Brasília. O edifício terá 25 pavimentos e dominará toda a cidade, abrigando a Câmara e o Senado, com entradas e serviços diferentes, biblioteca, um escritório para cada membro do Congresso, plenários com capacidade para 1.000 pessoas cada um, salão com televisão para 5.000 pessoas, além de outros requisitos modernos indispensáveis. O vice-presidente do Senado, senador Apolônio Sales, e o Presidente da Câmara, deputado Ulisses Guimarães, declararam-se entusiasmados com o projeto.

(Diário de Brasília)


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Construir a futura Capital

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Construir a futura Capital dentro de um prazo certo e muito curto exigia que nada fosse esquecido ou descurado. Nenhuma providência se definia, previamente, como de importância menor. Todas, na verdade, traziam o sinete de "urgente" e constituiam um conjunto de peças que se completavam. Mas, dois problemas se situavam na área das prioridades essenciais: erguer os prédios onde os três poderes da República pudessem funcionar condignamente e construir moradias em número suficiente para atender aos funcionários públicos que demandariam Brasília como suporte das necessidades administrativas dos primeiros tempos.

O palácio-residencial do Presidente fora iniciado antes mesmo que houvesse um projeto para a cidade; antes, portanto, que se soubesse sequer como seria, como viria a ser a nova capital. O prazo era pequeno, impunha-se ganhar tempo. Um ano e meio (em 30-06-1958) o palácio era inaugurado. Mas, destinava-se a residência do Presidente e não a seu local de trabalho.

Conhecido, entretanto, o resultado do Concurso do Plano Piloto, logo se cuidou das providências que levariam à construção das Casas do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, bem como dos ministérios, a começar pelo enorme movimento de terra necessário à definição dois terraplenos, em níveis diferentes, onde se localizariam aquelas construções.

Lúcio Costa projetara o primeiro terrapleno, a que dera o nome de Praça dos Três Poderes, na forma de um triângulo eqüilátero, situando em cada ângulo um dos Poderes. Esse triângulo, como se sabe, é considerado a forma justa do equilíbrio, e assim Lúcio Costa queria simbolizar que os Três Poderes, igualmente importantes e autônomos, se interligavam harmoniosamente num relacionamento de perfeito equilíbrio.

Nos primeiros meses de 1958, iniciaram-se as obras, propriamente ditas, do Congresso Nacional e do Palácio dos Despachos. Este viria a chamar-se Palácio do Planalto.

O estaqueamento do prédio do Congresso começou em 4 de janeiro. Ao se iniciarem as obras da estrutura Juscelino e o Presidente Alfredo Stroessner, do Paraguai, que visitava Brasília, lançaram, juntos, a "pedra fundamental".

 

General Stroessner na 1ª. Estaca do Palácio da Justiça
Foto: Arquivo Público do DF

A construção, num total de 32.776m2, ficou pronta em dezembro de 1959, salvo arremates finais, atendidos o inicio de 1960.

O prédio do Congresso se completava com dois anexos, um para o Senado, outro para a Câmara, ambos com 28 pavimentos (o mais alto prédio previsto para Brasília), totalizando 29.000m2, construídos a partir de estruturas metálicas adquiridas nos EEUU, juntamente com as estruturas metálicas dos onze ministérios, dentro de um "pacote" vinculado a empréstimo de 10 milhões de dólares, contratado com o Banco de Exportação e Importação em 20 de setembro de 1957.

A Casa do Legislativo, ao ser inaugurada em 21 de abril de 1960, provocou alguns resmungos de pequenos setores da Oposição radical. Deputado da UDN chegou a apresentar projeto de lei que autorizava o Poder Executivo a abrir crédito especial destinado à construção de uma nova sede para o Congresso e a doar à Prefeitura de Brasília o edifício recém-inaugurado, por entendê-lo "infuncional".

A simples leitura da Memória que Lúcio Costa apresentara com seu Projeto, indicaria o absurdo de se pensar numa prefeitura substituindo o Congresso Nacional na Praça dos Três Poderes. E havia ainda a considerar que o projeto do edifício, da autoria de Niemeyer, fora enviado, previamente, ao Congresso, para exame e sugestões e lá permanecera por muito tempo sem que nenhum deputado ou senador oferecesse qualquer contribuição ou reparo.

O projeto de lei do deputado udenista sequer recebeu da Mesa despacho de encaminhamento às Comissões, tal o desarrazoado de sua formulação. Mas serviu para demonstrar a que ponto chegara a paixão política naqueles dias, o aturdimento da Oposição intransigente ante as manifestações consagradoras que recebia o Presidente Kubitschek, quer no país, quer do exterior, pelo sucesso do seu governo e do seu Plano de Metas, onde avultava a obra notável, por suas proporções e complexidade, da interiorização da Capital.

O Palácio do Executivo, com área de 36.000m2, teve suas obras iniciadas também no começo de 1958. Nesse ano foram executados os serviços de terraplanagem, fundações, concretagem de blocos e baldrames. No ano seguinte, concluiu-se a estrutura e iniciaram-se as obras de acabamento, finalizadas só às vésperas da inauguração da cidade, quando pode ser apresentado na plenitude de sua beleza.

O terceiro pavimento fora reservado para uso pessoal do Presidente da República. Os amplos salões, bem como os gabinetes de despacho, de audiências e de trabalho, receberam espesso carpete verde-escuro e poucos móveis, mesas de jacarandá apoiadas em armações de metal dourado, algumas poltronas e, marcando e definindo ambientes, tapetes macios de extremo bom gosto. A sobriedade era a nota dominante.

Do seu gabinete, o Presidente tinha a visão do lago, do Palácio da Alvorada e, mais adiante, a perder de vista, do planalto imenso e sem fronteiras.

Novecentos jornalistas, de rádios, jornais, revistas e televisões, do Brasil e do exterior, haviam recebido credenciais faltando ainda três dias para a inauguração da cidade e queriam conhecer por dentro o Palácio, o Congresso, o Supremo Tribunal. Não havia como atender a todos e os poucos que receberam permissão aceitaram tirar os sapatos e entrar só de meias, pois Brasília ainda era um canteiro de obras, poeira e barro por toda parte, não se podia correr riscos. Essa exigência de tirar os sapatos se fez também, democraticamente, a alguns senadores que desejavam visitar sua Casa antes da inauguração.

No outro ângulo da praça, o Palácio da Justiça, a Casa do Supremo Tribunal Federal, só pode ser iniciada em 10.07.1958. Mas, era uma obra bem menor (10.192m2), não houve dificuldade em terminá-la até dezembro de 1959, ficando, naturalmente, os arremates finais, para o início de 1960.

Ao mesmo tempo em que se desenvolviam, no terrapleno triangular, as obras de construção dos três palácios, iniciava-se no segundo terrapleno, mais alto para acompanhar a topografia local e formando uma extensa esplanada retangular, iniciava-se montagem das estruturas metálicas dos blocos dos ministérios. Eram onze, seis de um lado da esplanada, cinco do outro. Essas estruturas, adquiridas, conforme já ficou dito, nos EEUU, não se aproximavam muito do edifício do Congresso Nacional, deixando, tanto de um lado como do outro, espaço para a construção futura dos ministérios da Justiça e do Exterior, que teriam projetos próprios, diferentes dos demais ministérios, estes padronizados.

O conjunto dos onze blocos somavam uma área de construção apreciável, 210.000m2. Cada um deles afixava, no seu canteiro de obras, uma grande placa onde se podia ler a data em que começara o prédio e a data em que estaria concluído. Os visitantes olhavam, consideravam o pé em que a obra estava, faziam as contas, verificavam que o prazo era mínimo, abanavam a cabeça, saiam sorrindo. Não acreditavam. Mas, na noite de 20 de abril de 1960, lá estavam todos eles prontos, lindos, paredes de cristal, iluminados, como se havia programado.

Niemeyer descreveria suas emoções ao ver a cidade surgir do nada, "como uma flor naquela terra agreste e solitária":

"Víamos com satisfação que o Plano Piloto de Lúcio Costa era justo e certo, que se adaptava bem ao terreno, às suas conformações, e que os espaços livres e volumes previstos eram belos e equilibrados. E sentíamos que a atmosfera procurada já estava presente, uma atmosfera de digna monumentalidade, como uma capital requer, com os ministérios se sucedendo numa repetição disciplinada e a Praça dos Três Poderes rica de formas e ao mesmo tempo sóbria e monumental."

Reproduzido do livro "Brasília: memória da construção", de L. Fernando Tamanini

 

 

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12 de julho de 1957

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O jornalista Conrad Wrosz declara que organizará a edição de 1958 da publicação "Brazilian Information Handbook" com um capítulo sobre Brasília, afirmando:

"A construção de Brasília desperta profundo interesse no povo americano, que está curioso por saber como o Governo brasileiro resolverá o problema da nova Capital".

A revista norte-americana "Business Week" , de ampla circulação, especialmente no mundo dos negócios, publica uma reportagem sobre Brasília. A reportagem, de inicio, salienta:

"Graças as constantes viagens do Presidente Kubitschek pelo interior do Brasil e a recente inauguração do local onde se erguerá a nova Capital, o projeto conseguiu atrair a simpatia e a confiança do povo."

A Novacap é assim apreciada:

"A fundação dessa Companhia representou um passo significativo ao movimento em torno da transferência da Capital brasileira para o Planalto Central. Ainda há pouco, o Banco de Exportação e Importação, depois de um estudo minucioso do projeto, anunciou um empréstimo de 10 milhões de dólares à Novacap."

(Diário de Brasília)

 

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Confusão na festa dos 100 anos

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Como escreveu o vibrante e encantador Darcy Ribeiro, em "Confissões": (o projeto do Plano Piloto) "é um dos textos mais importantes do Brasil. Tão importante como a carta de Pero Vaz de Caminha, como a Carta-testamento de Getúlio Vargas."

Três escrituras de momentos fundamentais da história desse pobre país. A primeira, a de sua fundação propriamente dita. (Antes da chegada de Cabral não havia um país. Havia um território ocupado por nações indígenas que não tinham a noção geopolítica de um país único). O primeiro contato de índios e portugueses prenuncia o surgimento de um novo povo – para o bem e para o mal. É uma beleza de texto jornalístico e literário.

A segunda, a Carta-testamento de Getúlio, anuncia as dificuldades que um estadista haverá de enfrentar caso queira fazer transformações verdadeiras no país. Revela do que são capazes as forças políticas atrasadas para jamais, em tempo algum, abdicar do poder nesse lucrativo país de miseráveis.

A terceira, o texto do projeto do Plano Piloto, é uma prova da humana genialidade de um dos grandes brasileiros daquele tempo áureo. É um convite à possibilidade de melhorar o país, de dar a seu povo uma capital à altura de seu merecimento, de construir "a cidade mais prodigiosa do mundo", no dizer de Darcy.

Muito já se falou da preciosidade que é o texto do projeto do Plano Piloto. Porém, no rastro dos justos e merecidos festejos dos 100 anos de Oscar Niemeyer, um erro se repete quase na mesma intensidade: o de se confundir, fora e dentro do Brasil, mais fora do que dentro, o papel do arquiteto centenário e o de Lúcio Costa. Sobre isso, tanto Niemeyer quanto Lúcio se manifestaram. Mas não adianta. O temperamento recluso de doutor Lúcio acabou, de algum modo, obscurecendo o seu valor e os seu feitos.

Por isso não custa repetir à exaustão: o projeto do Plano Piloto de Brasília é obra única e exclusiva de Lúcio Costa. Ou seja: o desenho da borboleta, o sinal da cruz traçado no cerrado, as duas asas, a Esplanada dos Ministérios, pousando suavemente no chão, a Praça dos Três Poderes, as escalas que disciplinam graciosamente as diferentes funções de uma capital da República, as superquadras, a Torre de Tevê, tudo é obra de Lúcio Costa.

A Niemeyer coube o projeto dos palácios, do Teatro Nacional, da Catedral, dos ministérios – são mais de cem obras do arquiteto em Brasília, a maior ilha de obras modernista e de Oscar Niemeyer em todo o planeta. Coube a ele também o sacrifício (e não há como romantizar isso) de deixar o Rio de Janeiro por mais de três anos para vir morar numa nuvem de poeira.

Lúcio Costa ficou ensimesmado no Rio, em sua "toca" no Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e em seu apartamento com vista pro mar.

Ele lá e um grupo de arquitetos e engenheiros  transformando o memorial descritivo no projeto do Plano Piloto em uma cidade de verdade. A única cidade do planeta – podem anotar do lado esquerdo do peito – que tem um texto literário de fundação. Ela existe em duas dimensões: a real, a que a gente vê e vive e a dimensão da criação literária que todo brasiliense deveria ter na mesinha da sala.

 
Reproduzido do
Correio Braziliense, 22/08/2007
"Crônica da Cidade"

 

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Lúcido Lúcio

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Esse brasileiríssimo e comedido carioca Lúcio Costa nasceu em Villa Dorothée Loiuse, na cidade portuária francesa de Toulon, em 1902. De mãe amazonense e pai baiano, um engenheiro naval que participou da construção de navios para a frota brasileira na Europa.

Para Lúcio, o fato de ter vivido muito tempo fora do país o fez ainda mais brasileiro. Esclarece: além de ser nacional, tornou-se também carioca, por morar no Rio, que conheceu de verdade aos quinze anos. Duas vezes brasileiro, Rubem Braga, na crônica ‘Lúcio Costa urbanista’, de 1954, descreve-o assim:

 

  Estudante diferente que começa a ganhar tudo que concurso que aparece, apesar de ser

  um desenhista altamente sensível e aquarelar com maestria desiste da pintura pela

  arquitetura e, quando reprovado em Composição, admite tranqüilamente que a nota foi

  justa.

 

Contam que relutou em participar do concurso para o projeto de Brasília.Tinha mil coisas para fazer e viagem marcada para a Europa. Quase em cima do encerramento das inscrições, decide disputar. Certamente pesou o entusiasmo do velho amigo Oscar Niemeyer, engajado de corpo de alma no sonho de JK. Afinal, os dois têm bela história juntos e admiração recíproca. O retraído e compenetrado Lúcio logo dá asas à imaginação. Vôo largo, acelerado, contra o relógio. Parecia que tinha tudo pronto na cabeça. O Plano Piloto sai ao apagar das luzes. Tudo muito criativo e ordenado. Mas quase nenhum detalhamento. Uma planta grande, croquis e um texto elegante, preciso, claro, enxuto. Seu corpo é alado. Um avião. Ou um grande pássaro em vôo. Termina em cima da hora, no finalzinho da tarde do último dia de inscrição, 11 de março de 1957.

Lúcio entra apressado no seu Hillmann. Junto, as duas filhas, a pequena Helena e a universitária Maria Elisa. Tem de protocolar o projeto. Toca rápido para o local da entrega, Ministério da Educação, Palácio Gustavo Capanema, sobreloja, centro do Rio de Janeiro. O prazo está acabando, faltam poucos minutos. Sorte: chove, mas o trânsito está solto. Logo chega. Faltam só dez minutos. Aflito, pára o carro exatamente em frente ao prédio. As meninas sobem correndo com a papelada. Um guarda implica com a posição do carro. Lúcio explica. Tudo bem. O guichê está quase fechando. Mas o protocolo sai. Maria Elisa recebe pequeno cartão, espécie de recibo, com o número do projeto no Concurso: 22 As duas voltam vitoriosas e felizes. Há razões de sobra. Mais do que sonham. Ganharam a corrida e salvaram a Brasília de Lúcio Costa.

E do outro lado do guichê? A Comissão Julgadora já tinha verificado preliminarmente alguns projetos. Até ali, numa primeira vista, nada empolgara. Não estavam se sentindo seguros e satisfeitos com nenhum deles. Isso aumentou a curiosidade e a expectativa com relação ao de Lúcio. Assim que chegou, examinaram avidamente. Perplexidade. Ninguém entendeu absolutamente nada. O desenho do avião, a simplicidade surpreendente, a apresentação singela. Difícil de compreender imediatamente antes da existência de Brasília. Preocuparam-se. Parecia que Lúcio Costa tinha pirado. O que fazer agora? O grupo saiu para almoçar. O inglês William Holford, que lia e falava espanhol, italiano e francês, aproveita e se isola num canto. Olha tudo de novo, lê o texto três vezes. De repente, seus olhos se iluminam, abre largo sorriso. Heureca! Mata a charada, compreende tudo. É simples, é claro. É um projeto urbano, não um plano genérico. Determina toda a volumetria da cidade. Por exemplo: o Palácio do Planalto é baixo, o Supremo é baixo, o Palácio do Congresso tem duas torres altas, os prédios tais e tais vão ficar ali, os ministérios são iguais, os blocos das superquadras têm seis andares e pilotis. Tudo isso e mais está determinado no projeto número 22, o Plano Piloto idealizado por Lúcio Costa. Fundamental: no texto, ele destaca que Brasília não vai ser mera decorrência do desenvolvimento regional, mas causa dele. Instrumento de inserção do país na modernidade, inclusive internacional. Capital marcante, inovadora. Cidade com o sentido de mudança, grandeza e modernidade, tradução arquitetônica do projeto transformador de Kubitschek. Holford dirá depois ao próprio Lúcio: "Li a primeira vez e não entendi. Li a segunda e entendi. Na terceira, I enjoyed [Gostei, tive prazer]." Quando os colegas voltam, explica tudo, despeja elogios no projeto. "É uma das contribuições mais interessantes ao urbanismo do século XX." Maravilha. Lúcio atribuirá grande peso em sua vitória à compreensão e papel de Holford.

Lúcio Costa sempre defendeu uma arquitetura com identidade brasileira. Desde o início da carreira, quando já se dedica ao estudo do período colonial. Formado pela Escola Nacional de Belas-Artes em 1922, ganhou na loteria em 1926 e passou um ano na Europa com o dinheiro. É autor de numerosos projetos de obras neocoloniais. Na direção da Escola Nacional de Belas-Artes, que assume em 1931, reformula o ensino da arquitetura. Torna-se papel essencial na renovação da linguagem e do pensamento arquitetônicos do país. Influencia diversas gerações de profissionais. É pioneiro e destaque da arquitetura moderna. Tem papel de liderança no revolucionário projeto do prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, com a participação do arquiteto suíço naturalizado francês Le Corbusier, de cuja obra é estudioso e grande conhecedor. Entra para o SPHAN em 1937. Ocupa mesa vizinha à de um burocrata franzino, discreto, de fala rápida, jeito tímido, poeta, mineiro de Itabira: Carlos Drummond de Andrade. Em março de 1954, uma tragédia que o abala pessoal e profissionalmente. A perda da mulher, Julieta. Num choque do carro da família com uma árvore, em viagem de fim de semana rumo ao distrito de Correias, na serra fluminense. Muito sensível, Lúcio, que dirigia, nunca se conformou. Deprimido, culpava-se injustamente, queixava-se da maldade do destino. Dor que nunca passou.

(…)

 
Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto

 

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Programa Educativo Caminhos da Missão Cruls

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O projeto Programa Educativo Caminhos da Missão Cruls é baseado na história da expedição da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que no ano de 1892, saindo do Rio de Janeiro dirigiram-se ao Estado do Goiás com o objetivo de estudar e demarcar a área destinada a nova capital do Brasil. Uma grande aventura no final do século 19 por um país ainda desconhecido. A série completa possui 10 capítulos e vocês podem assistir o primeiro episódio no link da página www.homemdocerrado.com ou pelo endereço http://www.megavideo.com/?v=D8B3C0EB .
 
Abs,
 
Wilson Vieira Júnior

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19 de junho de 1957

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A propósito do projeto do deputado Daniel Faraco que propõe o nome de Vera Cruz para a futura capital, o relator da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados (deputado João Menezes) afirma:

"Evidentemente, não encontramos no projeto nenhuma conveniência, quer de ordem histórica, de forma ou de origem popular. Além do mais, o nome Brasília já está consagrado pelo uso e espalhado pelo mundo, refletindo esta iniciativa arrojada que vinha figurando, sem resultado prático, em nossos dispositivos constitucionais."

(Diário de Brasília)

 

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