Posts com a Tag ‘primeira’

Segredos de Papel

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Segredos de Papel
 

Em Brasília as pessoas guardam segregos
Guardamos segredos
Sabemos de tudo em primeira mão
Teia de arame cruzado
Hermetismo governamental
As pessoas fogem uma das outras
Escondem umas das outras segredos bestas,
Temos medo, entre nós nada é entrelaçado.
 
Em Brasília tudo é papel
O papel tem palácios
Passo lá à noite e vejo palácios iluminados
Cheios de papel
 
Vou a um galpão de madeira
Ver um filme em 16mm
Um dois, Um dois
Um dois, Um dois
 
Poema de Maria Coeli, 1978
Transcrito do livro “Abstrata Brasília Concreta”, de W. Hermuch

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Primeira geração

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Página Principal Sem Comentários

“Eu sei que para os inimigos de Brasília, a beleza passou a ser uma indignidade.
Diante do belo, do simplesmente belo, rosnam: “Fascismo, fascismo. E, no entanto,

o paralelepípedo mais analfabeto teria vontade de chorar lágrimas de esguicho

ante a beleza de Brasília”

Nelson Rodrigues

“Não há nada no mundo parecido. Só os braços de um Cíclope poderiam
cortar este pedaço de granito incomparável, que é Brasília”


Assis Chateaubriand

Primeira geração
Por José Alcides Pinto

Brasília assim nasceu: da dor e da vertigem
da coragem do amor do suor da insubmissão
nasceu para crescer e virar história
(história que falasse da bravura de seus homens)
de suas lutas com a terra – a violência de seus bichos
sua milenar geologia
– ouro sujo – alfabeto desconhecido
enterrado no estômago do chão
Assim como a cidade sem teto discriminação
nasceram os primeiros filhos dos pioneiros
que por seus arredores iam ficando
fazendo outros filhos que iam-se integrando na cidade
como a cal o ferro o alumínio das superquadras
iam eles seguindo o exemplo dos pais
um mundo novo arrebentando de seus pés como um dilúvio


Mufunfa de candango
Por Conceição Freitas

Brasília estranha
Por Mara Bergamaschi

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Primeira fala de Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Primeira fala de Brasília

Se indagarem, me permito
a todos pedir lhes digam
que é longe, que nos cerrados
a noite cresce e magoa.
Mas que sem temor prossigam,
que a calma dos descampados
afaga, por mais que doa.
 
Digam
que aqui fui plantada um dia
em pleno ermo e ganhei
o sumo da terra, a chama
que pacifica, que a luta
do homem, brava, alivia.
 
Nem se aflijam com as imensas
distâncias: aqui fiquei,
ficarei, a transmitir
um pouco da sertaneja
paz, da grave e funda
paz rural. Que ninguém tenha
senão plácida tristeza
a que doce é resistir.
 
Álacre eu canto
nas alvoradas mais puras,
nas frescas brisas levado.
Nem há tristeza: há somente
a força do agreste, o sopro
das asas e dos insetos,
silêncio de antes do mundo,
silêncio de antes da vida,
o sono dos vegetais.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
Extraído da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Brasília
 
Brasília!
Teus bandeirantes de outrora,
Teus bandeirantes de agora
Pelo Brasil imortal.
 
Brasília!
Uma epopéia, uma glória,
Um novo ciclo da história,
Uma jornada ideal!
 
Brasília!
Um Gigante se levanta
E dos Planaltos espanta
A seriema veloz!
Novos pássaros de aço,
Asas libertas no espaço,
O Brasil por todos nós!
Brasília!
Brasília!
 
Letra e música de Francisco Manoel Brandão
Primeira composição poética sobre Brasília, de dezembro de 1956, e cantada por ocasião da primeira Missa Oficial de Brasília.

 

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PRIMEIRA IMPRESSÃO DE BRASÍLIA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

PRIMEIRA IMPRESSÃO DE BRASÍLIA
 
Quando te conheci
Fiquei maravilhado
Era noite e parecias um pirilampo.
Tuas luzes multicores me encantaram
E lá do alto te fitei demoradamente
Imaginando o que me esperava no teu seio
Via o corolário de tua existência
Tudo desfilava diante de mim, como num filme.
Recordava os velhos mestres e suas lições
Recordava as vicissitudes e odisséias de tua origem.
Lembrei que nasceste no sonho do santo
Para ser a flor do amor e da esperança.
 
Quisera ter sido um dos teus jardineiros.
Te imagino nascendo e crescendo para o mundo
Te imagino abrigando em teu ventre a vida
Vida que será o sêmen da nova vida.
Sou apaixonado e rendido aos teus encantos
Tuas pétalas e teu néctar me seduzem.
Te adoro, minha doce menina
És a flor divina do cerrado
A flor maravilhosa do Planalto.
 
Abbas Al Mansour (Luiz Gonzaga da Rocha), poeta pernambucano, nasceu em Pesqueira.
Reproduzido do livro “Brasília: vida em poesia”, organizado por Ronaldo A. Mousinho.

 

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18 de outubro de 1957

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

Primeira escola – O Senhor Clovis Salgado, Ministro da Educação e Cultura, inaugura a primeira escola de Brasília. O novo estabelecimento, desenhado por Oscar Niemeyer, foi construído em apenas vinte dias e possui cinco salas, cozinha, refeitório, instalações sanitárias e um parque de recreação.
A escola abriga, desde já, 300 alunos em cinco classes-aulas de funcionamento normal.
(Diário de Brasília)

As primeiras aulas sob o céu de Brasília
Foto: Arquivo Público do DF

 

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Primeira geração

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Primeira geração

(final)

à distensão de seus músculos
à sua imperiosa angústia existencial

A cidade-metrópole – eixo do país (dínamo-automação):
a cidade de vidro e alumínio erguida
dos ossos e dos nervos de homens simples e pobres
do norte e do sul do leste e do oeste
homens (antes de tudo) sertanejos
(antes de tudo) fortes – homens
na expressão mais exata da palavra

Ah! Foi do ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:
a mais típica de todas as cidades
a mais socialmente política
a mais original das urbes brasileiras
que nome outro te dariam se não – Brasília?

Nasceu do papel vegetal
da imaginação de dois homens
da determinação de um terceiro
(a quem cabia dar as ordens)
para que a cidade fosse construída acabada habitada
um homem das Minas Gerais – governo de um grande povo

A cidade nasceu da ampla mancha escura do W
(convergência e conjuntura do planalto)
cerrado-agreste – território sem divisão
(inteiriço no mapa)
como um oco um grande oco no estômago da terra
nesse território agora delimitado medido em
toda sua extensão
aqui neste território desenhou-se o espaço da cidade
mistura de muitas raças
unidas pelo ideal de fazer a cidade crescer
inesperadamente como uma estrela irrompendo da noite
uma inseminação artificial.

José Alcides Pinto, poeta cearense, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana de Acaraú.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Primeira geração

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Primeira geração

(continuação)

Não havia mais homens de matolão às costas
panela fervendo ao ar livre
homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
chapéu de palha de carnaúba à cabeça
mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
boné de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
vestidos de terno de linho branco e casimira

As trempes cederam lugar ao fogão de gás
as redes de tucum aos colchões de mola
tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
mas cuecas de náilon e poliéster
óculos raiban charuto mastigado entre os dentes

As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
chinelos de rosto por sapatos de salto alto
anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
integradas na sociedade compareciam às
reuniões na casa dos políticos
damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.

A cidade não era de quem a inventara,
[mas de quem a fizera crescer
como uma dor no osso uma febre no crânio
um buraco na alma
a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
lenta ao pôr-do-sol como uma oração
na noite que de repente chegava
com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
– manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende

A cidade nasceu do espaço de um centímetro
de um passo de ave um pulo de bicho um vôo
ensaiado no altiplano
para o céu – um céu limitado à estrutura do homem
ao seu movimento cotidiano

(continua amanhã)

José Alcides Pinto, poeta cearense, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Primeira geração

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Primeira geração

(continuação)

Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
madeira ferro aço acrílico e vidro
nasceu Brasília mineral e semáfora
como uma mundana portadora de grande beleza
(objeto do assédio de homens poderosos)
rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva

Arrancada do agreste – não obstante – soberana
ave migratória – ave alva (branca) erva
(com gestos de heroína e mártir):
nasceu feminina em suas curvas e meneios
de flor se abrindo à luz do sol
– trevo de quatro folhas quatro estrelas –
vitórias-régias em doces giros navegando
sob o remo dos ventos
Assim nasceu Brasília
a cidade-candango
de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
em creches escolas parques de diversões
e era delas agora a cidade mais que de seus pais
que a fizeram explodir de suas mãos
com seus facões mais afiados que o vento
machados serras de dentes perfurantes
máquinas pesadas a remover entulhos:
o fogo a destruição total
até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
se entregasse como uma puta à violência dos homens

O corpo informe da mata jazia triturado
sob relinchos de cavalos encantados
assovios gritos uivos
a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
restou o que não restou como se jamais fora
os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
No aboio e no assovio do candango
mais do que nunca vivo e diligente
agora mais conscientes de sua missão
o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
ia-se transformando em paredes de alvenaria
(em aldeias cidades-satélites)
sua comunidade crescendo diversificada e anômala

(continua amanhã)

José Alcides Pinto, poeta cearense, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira

 

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Brasília

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Brasília

(continuação)

 
II
 
tu própria, apenas chão de promessas,
terra vermelha, só, e rios e o cinzento
                         sujo do cerrado
órfão.
sobre tudo, o céu mais claro do mundo
abandonado, céu sozinho, cru.
 
que te erguesses no centro da
noitidão de uma república deserta.
 
2/3 do mapa eram
"desalentadores vazios demográficos"
 
e as primeiras paredes as primeiras
asas a primeira fumaça das chaminés
no carrascal primeira vozes
vagas estruturas com pressa de pilares
fogos acesos nos canteiros de obras
                           de um Brasil diferente
declaravam que crescias
                           de rasos lápis e compassos
                           do papel seco surgias
líquida
no ar sobre nós,
crescias, anseio, abrangência pelo país,
Brasília dos brasileiros,
tão próxima te fazias,
                           canção de
                           construção, de todos, nacional.
 
(continua amanhã)
 
Aricy Curvello, poeta mineiro, nasceu em Uberlândia.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Primeira fala de Brasília

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Primeira fala de Brasília
 
Se indagarem, me permito
a todos pedir lhes digam
que é longe, que nos cerrados
a noite cresce e magoa.
Mas que sem temor prossigam,
que a calma dos descampados
afaga, por mais que doa.
 
Digam
que aqui fui planejada um dia
em pleno ermo e ganhei
o sumo da terra, a chama
que pacifica, que a luta
do homem, brava, alivia.
 
Nem se aflijam com as imensas
distâncias: aqui fiquei,
ficarei, a transmitir
um pouco da sertaneja
paz, da grave e funda
paz rural. Que ninguém tenha
senão plácida tristeza
a que doce é resistir.
 
Álacre eu canto
nas alvoradas mais puras,
nas frescas brisas levado.
Nem há tristeza: há somente
a força do agreste, o sopro
das asas e dos insetos,
silêncio de antes do mundo,
silêncio de antes da vida,
o sono dos vegetais.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Primeira geração

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Primeira geração
 
(final)

Nasceu do papel vegetal
da imaginação de dois homens
da determinação de um terceiro
(a quem cabia dar as ordens)
para que a cidade fosse construída acabada habitada
um homem das Minas Gerais – governo de um grande povo
 
A cidade nasceu da ampla mancha escura do W
(convergência e conjuntura do planalto)
cerrado-agreste – território sem divisão
(inteiriço no mapa)
como um oco um grande oco no estômago da terra
nesse território agora delimitado medido em
     toda sua extensão
aqui neste território desenhou-se o espaço da cidade
mistura de muitas raças
unidas pelo ideal de fazer a cidade crescer
inesperadamente como uma estrela irrompendo da noite
uma inseminação artificial.
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Primeira geração

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Primeira geração
 
(continuação)
 
A cidade nasceu do espaço de um centímetro
de um passo de ave um pulo de bicho um vôo
     ensaiado no altiplano
para o céu – um céu limitado à estatura do homem
ao seu movimento cotidiano
à distensão de seus músculos
à sua imperiosa angústia existencial
 
A cidade-metrópole – eixo do país (dínamo-automação):
a cidade de vidro e alumínio erguida
dos ossos e dos nervos de homens simples e pobres
do norte e do sul do leste e do oeste
homens (antes de tudo) sertanejos
(antes de tudo) fortes – homens
na expressão mais exata da palavra
 
Ah! Foi do ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:
a mais típica de todas as cidades
a mais socialmente política
a mais original das urbes brasileiras
que nome outro te dariam se não – Brasília?
 
(continua amanhã)
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Primeira geração

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Primeira geração
 
(continuação)
 
Não havia mais homens de matolão às costas
panela fervendo ao ar livre
homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
chapéu de palha de carnaúba à cabeça
mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
boné de pala botina de cano longo
lenço de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
vestidos de terno de linho branco e casimira
 
As trempes cederam lugar ao fogão de gás
as redes de tucum aos colchões de mola
tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
mas cuecas de náilon e poliéster
óculos raiban charuto mastigado entre os dentes
 
As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
chinelos de rosto por sapatos de salto alto
anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
integradas na sociedade compareceriam às
reuniões na casa dos políticos
damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.
 
A cidade não era de quem a inventara,
                           [mas de quem a fizera crescer
como uma dor no osso uma febre no crânio
um buraco na alma
a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
lenta ao pôr-do-sol como uma oração
na noite que de repente chegava
com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
– manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende
 
(continua amanhã)
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Primeira geração

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Primeira geração
 
(continuação)
 
Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
madeira ferro aço acrílico e vidro
nasceu Brasília mineral e semáfora
como um mundana portadora de grande beleza
(objeto do assédio de homens poderosos)
rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva
 
Arrancada do agreste – não obstante – soberana
ave migratória – ave alva (branca) erva
(com gestos de heroína e mártir):
nasceu feminina em suas curvas e meneios
de flor se abrindo à luz do sol
– trevo de quatro folhas quatro estrelas –
vitórias-régias em doces giros navegando
sob o remo dos ventos
Assim nasceu Brasília
a cidade-candango
de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
em creches escolas parques de diversões
e era delas agora a cidade mais que de seus pais
que a fizeram explodir de suas mãos
com seus facões mais afiados que o vento
machados serras de dentes perfurantes
máquinas pesadas a remover entulhos:
o fogo a destruição total
até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
se entregasse como uma puta à violência dos homens
 
O corpo informe da mata jazia triturado
sob relinchos de cavalos encantados
assovios gritos uivos
a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
restou o que não restou como se jamais fora
os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
No aboio e no assovio do candango
mais do que nunca vivo e diligente
agora mais consciente de sua missão
o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
ia-se transformando em paredes de alvenaria
(em aldeias cidades-satélites)
sua comunidade crescendo diversificada e anômala
 
(continua amanhã)
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Primeira geração

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Primeira geração

(continuação)

Iam crescendo numa ordem rígida
buscando a forma ideal da cidade
(forma/modelo/estilo)
a ordem dos edifícios nas linhas puras
(eixo central da cidade)
a Praça dos Três Poderes
o Palácio da Alvorada
a Catedral
o seriado das superquadras
a paisagem de vidro sob as transparentes persianas

Eis Brasília – cidade nascida do cerrado
dos lençóis dágua represados
da destruição do agreste
(ossos crânios culhões divididos)
tudo à terra misturados – à doce terra-mãe
violentada por uma legião de homens-bárbaros
homens-feras de armas nuas nas mãos
mãos mais fortes que seus instrumentos de trabalho
acostumadas a rasgar o útero das rochas com as unhas
a sufocar entre os dentes as explosões das granadas

A cidade nascia da determinação de homens rebeldes
esticada em suas ligas de aço e cobre
(…)

(continua amanhã)

José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

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Primeira geração

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Primeira geração
 
Brasília assim nasceu: da dor e da vertigem
da coragem do amor do suor da insubmissão
nasceu para crescer e virar história
(história que falasse da bravura de seus homens)
de suas lutas com a terra – a violência de seus bichos
sua milenar geologia
– ouro sujo – alfabeto desconhecido
enterrado no estômago do chão
Assim como a cidade sem teto discriminação
nasceram os primeiros filhos dos pioneiros
que por seus arredores iam ficando
fazendo outros filhos que iam-se integrando na cidade
como a cal o ferro o alumínio das superquadras
iam eles seguindo o exemplo dos pais
um mundo novo arrebentando de seus pés como um dilúvio
a terra nova – a Terra da Promissão
eldorado que aos poucos foram-se acostumando
a ver e a compreender como um filme de faroeste
o novo oeste brasileiro se integrando
na civilização do planalto marcada por seus pés
de aço e micaxisto
 
(continua amanhã)
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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