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BRASÍLIA

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BRASÍLIA

Onde um dia dormira
um vasto planalto,
hoje acorda Brasília,
nos braços do mundo.
Acorda tão viva,
formosa e bela,
abraça as estrelas
e os ipês floridos,
os sonhos sonhados
e o azul do céu.

Esta é Brasília
de asas douradas
a pairar soberana,
quase ave, aeronave,
sob a abóbada
celeste e os
raios do sol.

A solidão do lago
em nostálgica canção
de girassóis meninos,
traz no vento a saudade
dos candangos de outrora.

Não te desejo Brasília,
a conquista do mundo,
conquiste dias felizes,
assim conquistarás
o pólen do mundo.

Lurdiana Araújo, poetisa tocantinense.
Poema transcrito do livro “Cerrado Poético e outras poéticas”
Verbis Editora

 

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José Alcides Pinto

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José Alcides Pinto é autor de "Nascimento de Brasília: a saga do planalto" constituído de poemas longos (menos um) sob os seguintes títulos: "A idéia", "Gênesis", "Primeira geração", "Canção dos pioneiros" e "O planalto enquanto cidade". O poeta, amigo do contista Samuel Rawet e do poeta Joaquim Cardozo, em companhia desses ilustres funcionários da Novacap (Cia. Urbanizadora da Nova Capital) aqui esteve, por diversas vezes, na fase inicial da construção. Em "Canção dos pioneiros", ele testemunha: "(Eu vi o candango triste/cantando sobre o planalto/a canção dos pioneiros/a canção cantava assim:)/O Palácio da Alvorada/não é castelo de mouro/nem coisa do arco-da-velha/nem morada de fidalgo". O poeta traz para o presente, que assiste à implantação da longamente sonhada urbe interiorana, figuras de nossa literatura e de nossa história (Castro Alves, Olavo Bilac, Fernão Dias Paes Leme, Frei Caneca, Tiradentes). "Primeira geração" afirma que "Brasília nasceu assim: da dor e da vertigem"/(…)"nasceu para crescer e virar história". Fala dos que iniciaram as obras e de seus descendentes: "assim como a cidade sem teto discriminação/nasceram os primeiros filhos dos pioneiros/que por seus arredores iam ficando/fazendo outros filhos que iam-se integrando na cidade/como a cal o ferro o alumínio das superquadras/iam eles seguindo o exemplo dos pais/um mundo novo arrebentando de seus pés como um diluvio". O poeta acompanha o progresso, a formação, a composição que vai ocorrendo, irreversível: "Iam crescendo numa ordem rígida/buscando a forma ideal da cidade/(forma/modelo/estilo)/a ordem dos edificios nas linhas puras/(eixo central da cidade)/a Praça dos Três Poderes/o Palácio da Alvorada/a Catedral/o seriado das superquadras/a paisagem de vidro sob as transparentes persianas". O poema homenageia Juscelino, Lúcio Costa, Niemeyer, e enfatiza que "A cidade nascia da determinação de homens rebeldes", aplaude o candango, "agora mais consciente de sua missão", lembra (evocando Euclides) que nossos operários procediam "do norte e do sul do leste e do oeste/homens (antes de tudo) sertanejos/(antes de tudo) fortes-homens/na expressâo mais exata da palavra". E mais: "Ah! Foi no ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:/a mais típica de todas as cidades/a mais socialmente política/(…) que outro nome te dariam se nâo – Brasília ?"
 
Texto transcrito de "Esses poetas, esses poemas", da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Jamil Almansur Haddad

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Jamil Almansur Haddad faz coro com Drummond e Cassiano, que o precederam na “convocação” e na decisão, jamais consumada, de tomar os rumos do Planalto. Mas, antes de apontar para a “cidade/Em que nunca haverá saudade” (C.R.) e repetir, literalmente, os termos do convite (“Vou-me embora pra Brasília”,) e de lembrar o Plano Piloto e reportar-se a um “…piloto sem plano”, ele sugere se excursione em certa cidade grega.
Trata-se de Cérigo ou Citara, ilha situada entre o Peloponeso e Creta, célebre pelo seu santuário de Afrodite Anadiomena.  É, segundo as enciclopédias, lugar privilegiado pelas suas fontes termais e cultura da vinha e da oliveira. (O título do aludido poema, cuja primeira parte se compõe, apenas, de uma quadra e um dístico, é “Partida para Citara”.) A segunda parte “prenuncia” que “Lá descobrirei uma ilha/À sombra dos pilotis”, e fala da futura catedral e da torre “Vinda de Volta Redonda”. Em “Canção egípcia” a cidade tem “grandeza faraônica”, faraônica no bom sentido, em oposição ao sarcasmo e à azeda ironia dos antimudancistas. Em “Balada das musas do Planalto”, há evocação de Marília e Gonzaga, a amada, zelosa, a “atualizar” seu endereço, não mais nas vetustas Minas Gerais, mas no moderno hotel brasiliense…E, com ela, se fazem presentes Moema, Beatriz e outras consagradas figuras: “Pelas madrugadas brancas/Vão placidamente os poetas/Contemplando as tuas ancas/Por serem meta das metas”, declara um terceiro poema (“Outra canção de amor”), a destacar, assim, a anatomia da cidade, que é feminina…Embora “criança”, ela já vive em processo de fecundação – é a urbe que se ergue, se edifica, a evidenciar que “Vai nascendo um Brasil novo”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Certidão de nascimento de Ceilândia

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Certidão de nascimento de Ceilândia
Por Antonio Garcia Muralha

Águas Emendadas

Ceilândia…lândia dos filhos das aves de arribação
Que pousaram no Planalto conscientes da missão
De plantar no Centro-Oeste do Brasil em construção
Aço e pedra, de tal forma que, pela obra da mão
Do cerrado, se fizesse construir um coração
Que palpitasse bem forte no peito desta nação
Dia e noite, noite e dia, soca paçoca pilão!

Pioneiros operários

Ceilândia…lândia dos filhos das aves de arribação
Que, já no imenso planalto, sob o sol da solidão
No mesmo dia aprenderam sua nova profissão
Areia, cimento e brita, seu novo nome peão
Das obras que eles faziam sem saber pra qual patrão
Como abelhas operárias sem rainha e sem zangão
Dia e noite, noite e dia, soca paçoca pilão! (…)


Brasília Periferia e Terceira Mensagem
Por Gog

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Emanuel Medeiros Vieira

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Emanuel Medeiros Vieira transporta ao Planalto o herói grego, rei lendário de Ítaca e filho de Laerte.  E, com ele, sua Penélope. Ele denuncia: “(…) o Planalto é sempre,/além dos burocratas conversas fatigadas”. (O espírito do artista se enfada na aridez e monotonia da repartição pública.)

A perenidade da personagem maior da Odisséia é o pólo oposto a “(…) tanta finitude”. O bolor da burocracia não se harmoniza com o sempre novo da criação, da epopéia. O poeta reflete sobre o efêmero, que é o estigma de sempre no mundo dos seres, do homem. E adverte: “Carece preparar os rituais do retorno (…)”. A morte se insinua ou se apresenta como saída possível, única, do fastidioso presente, em que “(…) o domingo, regatas, procissões (…) não pesam o bastante para contrabalançar e estabelecer o equilíbrio”. O “Planalto é para sempre” (só ele restará), reitera o poema, enquanto sobre nós paira a espada de Dâmocles e o “oblívio” – do qual, por ventura, escaparemos? Não. Ninguém escapará do esquecimento a que estamos todos nós irremediavelmente condenados.

“Planalto: aqui ficarão os ossos”. É tudo sombras, somente? O pessimismo impera soberanamente? Não: algo de transcendental, de mais alto se fará presente. Algo transcenderá; sobreviverá o fim do fim: “Deus faz que me esquece:/depois reaparece”. O segundo poema de E.M.V. por nós selecionado busca despir a cidade amada do imerecido estigma de inabitável e inóspita, pobre e árida “capital do estatuto (…)”, de mero habitat “dos maquiáveis planaltinos”, a que muitos intentam reduzi-la. Em verdade, “ela tem esquinas sim: é preciso decifrá-las”. Brasília é “real no rosto anônimo”,  tem chuvas, “mangueiras em flor”, “pássaros de outros nomes”, “belos crepúsculos”. Sim, há que decifrá-la.

Transcrito  “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Primeira geração

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Primeira geração

a terra nova – a Terra da Promissão
eldorado que aos poucos foram-se acostumando
a ver e a compreender como um filme de faroeste
o novo oeste brasileiro se integrando
na civilização do planalto marcada por seus pés
de aço e micaxisto
 
Iam crescendo numa ordem rígida
buscando a forma ideal da cidade
(forma/modelo/estilo)
a ordem dos edifícios nas linhas puras
(eixo central da cidade)
a Praça dos Três Poderes
o Palácio da Alvorada
a Catedral
o seriado das superquadras
a paisagem de vidro sob as transparentes persianas
 
Eis Brasília – cidade nascida do cerrado
dos lençóis dágua represados
da destruição do agreste
(ossos crânios culhões divididos)
tudo à terra misturados – à doce terra-mãe
violentada por uma legião de homens-bárbaros
homens-feras de armas nuas nas mãos
mãos mais fortes que seus instrumentos de trabalho
acostumadas a rasgar o útero das rochas com as unhas
a sufocar entre os dentes as explosões das granadas
 
A cidade nascia da determinação de homens rebeldes
esticada em suas ligas de aço e cobre
(…)
 
Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
madeira ferro aço acrílico e vidro
nasceu Brasília mineral e semáfora
como uma mundana portadora de grande beleza
(objeto de assédio de homens poderosos)
rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva
 
Arrancada do agreste – não obstante – soberana
ave migratória – ave alva (branca) erva
(com gestos de heroína e mártir):
nasceu feminina em suas curvas e meneios
de flor se abrindo à luz do sol
– trevo de quatro folhas quatro estrelas –
vitórias-régias em doces giros navegando
sob o remo dos ventos
Assim nasceu Brasília
a cidade-candango
de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
em creches escolas parques de diversões
e era delas agora a cidade mais que de seus pais
que a fizeram explodir de suas mãos
com seus facões mais afiados que o vento
machados serras de dentes perfurantes
máquinas pesadas a remover entulhos:
o fogo a destruição total
até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
se entregasse como uma puta à violência dos homens
 
O corpo informe da mata jazia triturado
sob relinchos de cavalos encantados
assovios gritos uivos
a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
restou o que não restou como se jamais fora
os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
No aboio e no assovio do candango
mais do que nunca vivo e diligente
agora mais consciente de sua missão
o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
ia-se transformando em paredes de alvenaria
(em aldeias cidades-satélites)
sua comunidade crescendo diversificada e anômola
 
Não havia mais homens de matolão às costas
panela fervendo ao ar livre
homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
chapéu de palha de carnaúba à cabeça
mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
boné de pala botina de cano longo
lenço de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
vestidos de terno de linho branco e casimira
 
As trempes cederam lugar ao fogão de gás
as redes de tucum aos colchões de mola
tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
mas cuecas de náilon e poliéster
óculos raiban charuto mastigado entre os dentes
 
As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
chinelos de rosto por sapatos de salto alto
anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
integradas na sociedade compareciam às
reuniões na casa dos políticos
damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.
 
A cidade não era de quem a inventara,
                            [mas de quem a fizera crescer
como uma dor no osso uma febre no crânio
um buraco na alma
a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
lenta ao pôr-do-sol como uma oração
na noite que de repente chegava
com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
– manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende
 
A cidade nasceu do espaço de um centímetro
de um passo de ave um pulo de bicho um vôo
      ensaiado no altiplano
para o céu – um céu limitado à estatura do homem
ao seu movimento cotidiano
à distensão de seus músculos
à sua imperiosa angústia existencial
 
A cidade-metrópole – eixo do país (dínamo-automação):
a cidade de vidro e alumínio erguida
dos ossos e dos nervos de homens simples e pobres
do norte e do sul do leste e do oeste
homens (antes de tudo) sertanejos
(antes de tudo) fortes – homens
na expressão mais exata da palavra
 
Ah! Foi do ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:
a mais típica de todas as cidades
a mais socialmente política
a mais original das urbes brasileiras
que nome outro te dariam se não – Brasília?
 
Nasceu do papel vegetal
da imaginação de dois homens
da determinação de um terceiro
(a quem cabia dar as ordens)
para que a cidade fosse construída acaba habitada
um homem das Minas Gerais – governo de um grande povo
 
A cidade nasceu da ampla mancha escura do W
(convergência e conjuntura do planalto)
cerrado-agreste – território sem divisão
(inteiriço no mapa)
como um oco um grande oco no estômago da terra
nesse território agora delimitado medido em
      toda sua extensão
aqui neste território desenhou-se o espaço da cidade
mistura de muitas raças
unidas pelo ideal de fazer a cidade crescer
inesperadamente como uma estrela irrompendo da noite
uma inseminação artificial.
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.


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Léo e Bia

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Léo e Bia
 
No centro de um planalto vazio
Como se fosse em qualquer lugar
Como se a vida fosse um perigo
Como se houvesse faca no ar
Como se fosse urgente e preciso
Como é preciso desabafar
Qualquer maneira de amar valia
E Léo e Bia souberam amar
Como se não fosse tão longe
Brasília de Belém do Pará
Como castelos nascem dos sonhos
Pra no real achar seu lugar
Como se faz com todo cuidado
A pipa que precisa voar
Cuidar de amor exige mestria
E Léo e Bia souberam amar
 
Letra da música “Léo e Bia”, de Oswaldo Montenegro

 

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Brasília

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Brasília

passo eixos
cruzo esplanadas
sou planalto
e sempre reto
desfaço
 
passo eixos
cruzo esplanadas
sou asfalto
e sempre cego
amasso
 
passo eixos
cruzo esplanadas
sou elipse
e sempre seta
esfumaço
 
passo eixos
e sempre
cruzo esplanadas
 
Post Gustavo Footloose, poeta brasiliense.

 

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A Posse

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A Posse
Por Clemente Luz


Foto: Arquivo Público do DF

 

Dos quadrantes da Pátria, marcharam as colunas, para a posse da terra conquistada no Planalto. Através das extensões mediterrâneas de Minas e do continente confinado de Goiás, veículos e homens, na mesma luta contra o desconforto das estradas ainda em formação, ainda cobertas de barro e poeira, caminhavam para o mesmo objetivo e aqui chegaram, em horas diferentes, para o encontro de hora certa, aos pés do feixe de colunas da Catedral em obras. Colunas móveis marcharam para o encontro de colunas fixas, plantadas na terra, pela eternidade do ferro e da pedra, que o homem transformou em semente moldável e generosa.

Homens e veículos, cobertos da mesma poeira ou enlameados do mesmo barro, trouxeram, até o sítio onde se ergue a nova Cidade, o cheiro das selvas inconquistadas da Amazônia, as surpresas dos grandes descampados e o marulhar, sempre renovadas, dos rios, sobre cujos leitos se estenderam as pontes. Os pontos esparsos da Pátria, separados por rios e florestas, por montanhas e abismos, por solidão e abandono, começam a ligar-se, através dos fios das estradas, abertas na direção dos ventos. Homens e máquinas chegaram, para marcar, com outros homens e outras máquinas, aos pés simbólicos da cruz, a posse da terra, destinada a ser o cérebro e o coração da Pátria do povo.

Como pontas de um imenso leque, a grande marcha terminou com a convergência das colunas de veículos sobre a área do Park Way Dom Bosco, ponto de partida e chegada de todas as estradas que sairão de Brasília. O Posto da Petrobrás em construção, com sua forma de cogumelo azul, prenuncia a aglutinação dos postos de gasolina, que guardarão, no seio dos imensos tanques, a força do petróleo, que o subsolo brasileiro começa a oferecer à Nação…

Na manhã fria, com a neblina renitente descendo sobre a cidade, os carros e os homens recém-chegados aguardavam, como colunas guerreiras, prontas para a luta prenunciada, a última revista do comandante e a palavra de ordem final. Só que, na manhã nevoenta de janeiro, a palavra não seria propriamente de ordem de luta, mas de aplauso e de entusiasmo, pela batalha concluída com sucesso.

De manhã, sob a névoa que impedia o extravasamento alegre do sol sobre o planalto, talvez a mais singela e mais tocante cerimônia de “revista a tropas” jamais vista… Nenhum pensamento de conquistas territoriais sobre nações ou grupos de humanos. Nenhum desejo de grandeza, maior do que a própria  grandeza conquistada e consolidada pela extensa marcha… Homens e máquinas, irmanados, recebiam, com efusão, o gesto simples do homem que os saudava, em nome de todo o povo.

E, ao invés da continência militar, da posição de sentido indefectível do guerreiro, da exibição de frias armas de destruição, braços se ergueram para o céu, agitando mãos vitoriosas, que dirigiram veículos de fabricação nacional – praticamente os primeiros, através das novas estradas abertas no território antes abandonado. E, nos gestos das mãos, no sorriso dos lábios e no brilho dos olhos, a esfuziante alegria de gente vitoriosa.

Com seu sorriso de permanente esperança, de otimismo contagiante, Juscelino Kubitschek passou revista às vitoriosas Colunas de Integração Nacional, que convergiram para o Planalto, para a posse da terra conquistada.

A pequena “romiseta”, mais vidro do que ferragens, recebeu o homem, que se acomodou em seu interior, para aguardar, sob as colunas da Catedral, defendido da umidade, o ato final da grande marcha. O “Bolha d’água” – este o apelido que o povo deu ao minúsculo e extravagante veículo – rolou sobre o asfalto da Esplanada dos Ministérios e estacionou no lugar que lhe estava destinado, perto do Altar recém-montado. Através do vidro do “Bolha d’água” que o abrigava em seu bojo, JK olhava os extensos espaços vazios da Esplanada, fixando os olhos na Rodoviária quase concluída, de onde surgiram os veículos em marcha. O homem, que se abrigara da umidade, embora aparentasse calma, se remoia de impaciência e contava os segundos, em seu relógio de pulso, no próprio pulsar do coração agitado pelos acontecimentos. O menino, que se abrigava do tempo, na memória do homem, acordou de seu sono cinquentão mais uma vez, e veio roer as unhas, impaciente e inquieto, sob as colunas eternas da Catedral…

Debaixo do céu úmido da manhã de janeiro, a multidão aguardava.

As caravanas chegaram, os homens deixaram os carros e caminharam para o lugar preparado para a Missa. E quando JK deixou o interior do pequeno veículo, não teve tempo sequer para abrir os braços. Seu gesto, apenas esboçado, foi interrompido pelo braços imensos de Bauhid e pelas exclamações de entusiasmo do Coronel Lino, do Major Perpétuo, do Governador do Amazonas e de todos quantos, ainda sujos da poeira e do barro das estradas, acabam de trazer, dos quadrantes da terra, o cheiro da mata, o grito do índio, o apito das máquinas, o mugido dos bois, o choro das crianças, enfim, os próprios e misteriosos ruídos da Nacionalidade, que acordava…

Foi nesse instante que vi o pranto coletivo de homens.

Sujos de poeira e de barro, a barba de vários dias e as roupas rotas, estavam chorando de alegria. Homens do Norte e do Sul, homens do Leste e do Oeste, que convergiram sobre o Planalto, choravam de pura e incontida alegria.

Eu vi o pranto coletivo!

Eu vi o pranto coletivo dos homens, sob as colunas da Catedral, na Cidade Nova, que se preparava para o seu grande Natal de abril.

Eu vi homens chorando…

Mas nada havia de trágico ou de vergonhoso no pranto coletivo. Havia, isto sim, esperança e fé no pranto livre e franco de cada um dos milhares de homens, que ali estavam, ao lado de seu Comandante, tomando posse da terra.

E cada qual desejava, no contato rápido e quente de mãos, transmitir o calor das terras distantes: da selva recém-conquistada, dos pampas e do pantanal, das chapadas e das montanhas.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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O rio fantasma

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O rio fantasma
Ao rio que não corre em Brasília
 
Mudaria a tua cara fosse um rio
o lago que entranha tua carne
e purifica o seco aroma do cerrado
Imaginar correr o líquido nobre no planalto
transforma tua imagem silenciosa
distorce a tua silhueta clarazulada
 
Da estática far-se-ia o movimento
do sabor de terras viajadas, sabedonde
certamente seria outra a tua cara fosse um rio
o acidente a te lamber as pernas
e transportar, para outras terras, teu soluço
e tua saudade de mar.
 
Leonardo Almeida Filho, poeta paraibano, nasceu em Campina Grande.
Transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Canção dos pioneiros

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(Eu vi o candango triste
cantando sobre o planalto
a canção dos pioneiros
a canção cantava assim:)
O Palácio da Alvorada
não é castelo de mouro
nem coisa do arco-da-velha
nem morada de fidalgo
rei de Espanha ou qualquer outro:
é um palácio de cristal
leve armadura de ventos
em doces linhas montado
ritmo de pauta emendado
ou vôo curvo de pássaros
voando entrelaçados
por entre os vãos do palácio
 
Bandeira dos pioneiros
presa a uma haste de prata
bandeira deste país
erguida sobre o planalto
(que a brisa beija e balança)
no gênio de Castro Alves
e mais heróis legendários
 
Mais brasileira essa terra
com esta bandeira-perfil
de Brasília construída
com cruz plantada no chão
linguagem e poema pátrio
(flor do Lácio inculta e bela)
no poema de Bilac

No sonho dos bandeirantes
mártires e heróis brasileiros
tamoios/confederados
(de Fernão Dias Paes Leme
 
Mororó e tantos outros
Frei Caneca e Tiradentes
que a liberdade é uma só
praeiros & inconfidentes)
 
O Palácio da Alvorada
– cisne nadando em espuma –
moça-virgem de grinalda
donzela de seio-pluma.
 
Poema “Canção dos pioneiros”
José Alcides Pinto, poeta cearense,nascido em São Franciso do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
Reproduzido da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Alvorada de Espelhos

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Alvorada de Espelhos
Por Clemente Luz

Palácio da Alvorada - Por  Ichiro Guerra/PR.

O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava um lago”, a cidade foi inventada, porque não havia tempo para ser elaborada e edificada.

Do alto, em avião que sobrevoa, ou quando a gente caminha por certas áreas desabitadas e longínquas, a cidade se entrega à visão, na sua plenitude urbanística e arquitetônica. E a visão é magnífica, é grandiosa e toca o coração dos que estão chegando. Provoca lágrimas nos que aqui chegaram nos primeiros tempos e assistiram à invenção da Cidade, no milagre da criação das formas de cimento e aço.

O imenso louva-a-deus abre as asas de luz branca, norte-sul, ligadas ao corpo de luz branco-vermelho do Eixo Monumental. O que era traço no papel foi plantado na terra. E o que é plantado na terra tem os ciclos naturais de germinação, de crescimento…

A cidade está crescendo, talvez num ritmo muito além das previsões. Nasceu como semente lançada em boa terra, cresce como arbusto e toma corpo de árvore definitivamente enraizada no solo.

O amanhecer traz, cada dia, novas certezas e novos espantos para a menina-moça, que se  surpreende mais moça do que menina, ante a alvorada dos espelhos… No chão vermelho, as edificações crescem como macega que, depois de queimada, cobre de verde o chão de cascalho do Planalto, antes mesmo das primeiras chuvas.

A Asa Sul é um belo conjunto arquitetônico, quase concluído. Falta-lhe alguma coisa, na parte técnica e muita coisa, no lado humano. Mas os fogões domésticos marcam, com o cheiro dos temperos nas panelas, a presença do corpo e o coração dentro dos lares.

1959… A Cidade é inventada e se inventa, a cada instante, ante os olhos atônitos de homens e crianças. É a jovem futura cidade que, como uma jovem futura mulher, está desabrochando para a vida.

A gente não percebe direito o corpo da mulher sob as vestes simples de menina-moça. Ela própria, como que envergonhada, procura esconder, sob vestidos mal lançados sobre o corpo, as formas preciosas e precisas, os contornos quase perfeitos que se formam, a olhos vistos!

Já vistes uma menina-moça, metade flor, metade botão, procurando, em meio à luz do dia e ante olhos curiosos, esconder o afogueado da face, a semi-ostensiva exuberância dos seios, a forma roliça de todo o corpo? Já vistes o temor no andar de quem não é mais criança, mas que ainda não é bem moça?

Para quem sabe ou consegue captar esse mágico instante da existência, a sensação é a de que está vendo o mundo nascer, formar-se e precipitar-se na vida.

Nós, de Brasília, estamos assistindo a esse milagre, não num corpo de menina, mas no disforme corpo de uma cidade que nasce. Ela está deixando as vestes de menina, os folguedos de criança, para se transformar em cidade madura e exuberante, com contornos definidos, com edifícios sólidos, plantados sobre bases indestrutíveis.

Já não ficaremos mais extasiados com o amanhecer no Planalto, com o pôr-do-sol tranqüilo e magnífico ou com as paisagens poéticas, que nos fazem parar no meio de uma estrada, para gritar sem cerimônias:

- Que beleza!

Assim como a menina-moça, o que era promessa de forma e de contornos passou a ter contorno e forma definidos, deixando os traços subjetivos do desenho e dos planos, pela realidade do concreto e do vidro. Os horizontes não são mais os mesmos nem  o pôr-do-sol tem aquele mesmo encanto selvagem. A paisagem vai-se humanizando… Onde havia apenas o galho retorcido da árvore do cerrado, projetado contra o fim da tarde, surgiu a forma arquitetônica, de rara beleza, de grandeza humana e dimensão monumental.

A mão do homem, com sua força, sua técnica e sua habilidade, modificou a paisagem, deu-lhe vida nova, deu-lhe calor humano.

E hoje, embora possa parecer ridículo, eu vos digo: no coração do Planalto, neste vasto coração do Brasil, uma cidade germina. Uma cidade germina e cresce, com o vigor das plantas novas e dos seres novos. Uma cidade humana, perfeita, germina e cresce para a sua primeira floração, para o amanhã feminino da transformação orgânica, quando o corpo, antes livre e franzino, toma forma definidas e exuberantes. E na alma, que amanhece para a vida, nasce a alegria nova da realidade da promessa, misturada com o amargo do mistério e da incerteza…

Como um corpo de menina-moça, que se descobre cada manhã frente aos espelhos, a cidade que se forma, que se inventa a cada instante, com a grandeza de seu traçado, com o mistério de suas linhas arquitetônicas, se estenderá, ao sol, para a festa de sua beleza!

Reproduzido do livro “Invenção da Cidade”, de Clemente Luz

 

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A cidade do Planalto

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Oh! a Cidade que irá surgir
bela, sobre o planalto, além dos horizontes.
A que não foi preciso descobrir,
a que o olhar divisou pela encosta dos montes. 
Cidade do porvir,
longe do mar, Cidade perto das estrelas…

Tu não terás o afago de ondas, a carícia
voluptuosa da espuma contra o cais;
nem um colar chorando luzes sobre
as águas
numa circunferência,
e ainda mais…ainda mais
a praia, a areia de ouro, a banhista,
a delícia 
da alameda que fica junto ao cais.

Mas eu te amo assim mesmo,
em teu futuro, 
amo o trabalho humano que há de levantar
sobre os teus montes, edifícios de ouro
e a igreja branca onde talvez eu vá rezar.
 
Amo a glória do teu futuro!
 
Mas quero muito mais a saudade que fica
desse arraial onde hoje dormem caravanas
de montanhas e de pobres cabanas
e tendas humildes e pequeninas.
 
Ficas longe do mar, mas ficas perto
do céu, de um claro céu que há de estar sempre aberto
às nossas mágoas e aos nossos cantos, ao vento.
 
Que o homem futuro possa ter um sentimento,
adorar as tuas paisagens belas,
e possa, pela coragem, merecê-las.
 
Cidade que fugiu das ondas e das praias
para ficar vizinha das estrelas…
 
Osvaldo Orico, poeta paraense, nasceu em Belém.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

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Canção dos pioneiros

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Canção dos pioneiros
 
(Eu vi o candango triste
cantando sobre o planalto
a canção dos pioneiros
a canção cantava assim:)
O Palácio da Alvorada
não é castelo de mouro
nem coisa do arco-da-velha
nem morada de fidalgo
rei de Espanha ou qualquer outro:
é um palácio de cristal
leve armadura de ventos
em doces linhas montado
ritmo de pausa emendado
ou vôo curvo de pássaros
voando entrelaçados
por entre os vãos do palácio
 
Bandeira dos pioneiros
presa a uma haste de prata
bandeira deste país
erguida sobre o planalto
(que a brisa beija e balança)
no gênio de Castro Alves
e mais heróis legendários
 
Mais brasileira essa terra
com esta bandeira-perfil
de Brasília contruída
com cruz plantada no chão
linguagem e poema pátrio
(flor do Lácio inculta e bela)
no poema de Bilac
 
No sonho dos bandeirantes
mártires e heróis brasileiros
tamoios/confederados
(de Fernão Dias Paes Leme
Mororó e tantos outros
Frei Caneca e Tiradentes
que a liberdade é uma só
praieiros & inconfidentes)
 
O Palácio da Alvorada
– cisne nadando em espumas –
moça-virgem de grinalda
donzela de seio-pluma.
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira

 

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O rio fantasma

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O rio fantasma
Ao rio que não corre em Brasília

Mudaria a tua cara fosse um rio
o lago que entranha tua carne
e purifica o seco aroma do cerrado
Imaginar correr o líquido nobre no planalto
transforma tua imagem silenciosa
distorce a tua silhueta clarazulada

Da estática far-se-ia o movimento
do sabor de terras viajadas, sabedonde
certamente seria outra a tua cara fosse um rio
o acidente a te lamber as pernas
e transportar, para outras terras, teu soluço
e tua saudade de mar.

Leonardo Almeida Filho, poeta paraibano, nasceu em Campina Grande.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Mirante

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Mirante
 
Nas asas do plano
o vôo do planalto
centralizado nas mãos
de quem olha e aos poucos
percebe que só vê
o mais que nada
dos três poderes
então num repente ícone
choro de pena
por saber que tantas luzes
não iluminam esta escuridão.
 
Anand Rao, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Canção dos pioneiros

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Canção dos pioneiros
 
(Eu vi o candango triste
cantando sobre o planalto
a canção dos pioneiros
a canção cantava assim:)
O Palácio da Alvorada
não é castelo de mouro
nem coisa do arco-da-velha
nem morada de fidalgo
rei de Espanha ou qualquer outro:
é um palácio de cristal
leve armadura de ventos
em doces linhas montado
ritmo de pauta emendado
ou vôo curvo de pássaros
voando entrelaçados
por entre os vãos do palácio
 
Bandeira dos pioneiros
presa a uma haste de prata
bandeira deste país
erguida sobre o planalto
(que brisa beija e balança)
no gênio de Castro Alves
e mais heróis legendários
 
Mas brasileira essa terra
com esta bandeira-perfil
de Brasília construída
com cruz plantada no chão
linguagem e poema pátrio
(flor do Lácio inculta e bela)
no poema de Bilac
 
No sonho dos bandeirantes
Mártires e heróis brasileiros
tamoios/confederados
(de Fernão Dias Paes Leme
Mororó e tantos outros
Frei Caneca e Tiradentes
que a liberdade é uma só
praieiros & inconfidentes)
 
O Palácio da Alvorada
– cisne nadando em espuma –
moça-virgem de grinalda
donzela de seio-pluma.
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira 

 

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