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A tenda de Cruls

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A tenda de Cruls
Por Ana Miranda

Estive lendo dia desses a parte do Relatório Cruls que fala da demarcação da futura capital, sem entender muito bem aqueles códigos e cálculos, mas tão parecidos com a cidade, com os versos do poeta, repletos de SWs, NWs, A.B.C.Ds, vértices, latitudes e longitudes, perímetros invisíveis, escalas, graus…Cruls tinha duas possíveis escolhas: traçar pelos acidentes geográficos, ou pelos astros. Pela terra ou pelo céu. Pela geografia, achou que uma linha tortuosa correndo por morros e rios seria muito demorada, tendo as turmas de cientistas de percorrer todo o perímetro da zona, metro por metro, relatando cada situação encontrada.

Marcar pelos astros, pelos arcos de meridiano e pelos arcos de paralelos, numa operação abstrata feito um sonho, foi a sua escolha. Era um homem inspirado, e trabalhava no Observatório, com um pé na terra e os olhos no infinito.

A demarcação celeste do distrito tomava por base um quadrado esferoidal, estremado apenas pelos quatro vértices, cujas linhas, que vejo tênues e prateadas, descem das estrelas e da lua, formando uma tenda de reflexos, linhas tiradas das diferenças de altitude entre a lua e uma estrela, das passagens da lua e de uma estrela, das ocultações de estrelas pela lua, das distâncias e culminações lunares. E lá se foram as turmas da Comissão, com seus sextantes e teodolitos, barômetros, aneróides, muito elegantes, de terno e botas e chapéu, a cavalo, procurando o ponto em que apeava o vértice, talvez olhando o céu, talvez tropeçando nas pedras ou caindo nos lagos. O que sentiam? Sabiam da grandeza de seu percurso e tarefa. Aproveitavam o quanto possível as estradas e caminhos, mas vencendo matos puros, desenhando todos os dias num papel milimétrico o caminhamento percorrido. Cachoeira de Itiquira a despenhar-se num único salto, Arraial de Mestre-d’Armas, rios Periripau, Tocantinzinho, Paranã, Lagoa Formosa, Aldeia Vendinha, Pirenópolis…

Chegando à posição determinada, desceram as cargas, soltaram os cavalos, armaram seus brancos acampamentos, montaram uma estação de observação e iniciaram os cálculos. Estabelecido o vértice, escavaram uma vala de um metro por um metro e pouco de profundidade, encheram-na de pedras até um metro de altura. No interior do ajuntamento de pedras inseriram um documento assinado pelos chefes e pelos membros das turmas, onde estavam escritas as coordenadas do vértice, metido dentro de um recipiente lacrado contra chuva, umidade, insetos curiosos, bichos roedores, contra e a favor do tempo em suas acepções, da geologia, de efemérides, das gerações. E sobre elas fizeram um revestimento de leivas, que são torrões de terra com capim, de modo que a vegetação em poucos dias cobrisse o morrinho. Daquele morrinho macio eles olhavam as serras, as colinas, os edifícios, rios, cabeceiras, e por uma triangulação com os acidentes naturais sabiam o ponto exato do vértice, seria sempre possível encontrá-lo. Lá estão esses morrinhos até hoje, depois de influir nas vidas de tanta gente que foi ser brasiliense, que mora numa delicada tenda desenhada por linhas imaginárias de um coliseu transparente.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 31 de julho de 2011.

 

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Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Brasília
Minha terra tem ipês
Amarelos a brilhar
Tem um céu muito extenso
E um prédio em H

Tem ainda muita gente
Que veio bem contente
Pra essa terra morar

Minha terra é patrimônio
Pois Dom Bosco teve um sonho
E que graças a JK
Pôde se realizar

Não permita Deus que acabe
Sem mais gente cativar
Essa cidade cinqüentenária
Que sempre nos faz sonhar

Post Yuri Farrapo, poeta brasiliense

 

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Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Brasília

Jovem, muito jovem,
Nos idos da vida, no início,
Vim como sem sacrifício,
Aos jovens tal lhes convém.
Da esplanada o choque inicial.
A estrutura destas vias circulando,
Horizonte livre entorno guardando,
Ordenada arquitetura espacial.
Surge no planalto destes confins,
Onde cobre o cerrado as colinas,
Irrigada por águas cristalinas.
Uma cidade! Quem a pensaria assim?
Fluídas inigualáveis visuais,
Verdes tons que à vista contentam,
Azuis de alvoradas que encantam,
Crepúsculos assim jamais.
Aqui a vista se perde e flui
Num horizonte infinito.
Eleva a mente ao mais distante fito,
A paz ao coração retribui.
Brasília é luz! Brasília é ar puro!
Céu de estrelas em noites de lua cheia,
Há quem duvide, mas há uma sereia,
Doce canta às margens do lago escuro.
Céu puríssimo azul claro ou anil,
De paisagens bucólicas,
De tardes lindas, púrpuras, frias,
Onde Dom Bosco previu.
Mas este céu assiste e sangra inteiro,
Por homens que do país o destino,
Foi confiado e está ao desatino,
Salvo Ulisses, um guerreiro.

Post Ivaldo Roland, poeta e arquiteto cearense

 

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ANA CRISTINA CESAR

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

ANA CRISTINA CESAR

Ana Cristina Cesar nasceu carioca em 1952. Viveu muita vida nos 31 anos que decidiu viver. Viajou, escreveu, publicou, amou, lançou e se disse: "Sou uma mulher do século XIX disfarçada em século XX".
Sensível e verdadeira: "Tenho ciúmes desse cigarro que você fuma tão distraidamente".
E ao mesmo tempo, de uma modernidade visceral. Lia de Kerouac a Jane Austen e, se sua vida tivesse que ter uma trilha musical, alternaria heavy metal com Billie Holiday.
Dizia, jogando com as palavras: "Estou vivendo de hora em hora/ com muito temor./ Um dia me safarei – aos poucos me safarei /começarei um safári".
A poesia para ela era sobrevivência, tábua de salvação, alimento.
 
Seus versos diziam muito em poucas palavras. Ela conhecia o poder de ser sucinta e criava verdadeiros hai-kais:  "As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios".  Ou ainda: "A gente sempre acha que é Fernando Pessoa".  Ou ainda mais:

Entre seus livros e de tantos poemas, cartas, desenhos e escritos, encontrei estes trechos de poemas que falam de Brasília:

Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade.

*

É muito claro
amor
bateu
para ficar
nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama.

 

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Ao Oeste chegamos

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Ao Oeste chegamos
 
Ao oeste chegamos
vindos de muito além
Lá onde suspiramos:
– O oeste quando vem?
 
Do setentrião, o oeste
era o mesmo que se via
do sul; visto do agreste,
da caatinga, da fria
 
solidão das coxilhas,
das montanhas centrais,
do silêncio das ilhas,
dos pampas, dos gerais,
 
sempre era o mesmo e puro
– de pureza agressiva –
apontando o futuro
a toda a grei nativa.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
Reproduzido da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Esta cidade ainda

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Esta cidade ainda

Cidade, saudades de todo o país
te habitam,
goianas, mineiras, nordestinas
ilhas
ligas com neutro sotaque
– e como fazes sofrer
 
Fazes sofrer um bocado.
 
Teus filhos te rejeitaram
ou, quando muito, te esnobam.
Não puderam perdoar
não seres o paraíso
(são teus filhos adotivos),
esperança que a rotina
torna ironia,
dia após outro
e cinzas
– levam, todos, a nada.
 
Teus bandeirantes ingênuos
logrados querem voltar
a suas terras de origem
(algumas já não existem).
 
Acho que não tens culpa.
 
Um a um, eu os vejo abandonar
a planície calcinada.
(Deliro:
na verdade, chegam outros,
muito mais que caberia
nestas aldeias exíguas.)
Não, eles não te habitam
se consultarem o peito
e por isso tuas ruas
– anti-ruas
Semelhantes a estradas –
andam vazias:
eles pensam noutra coisa.
 
(continua amanhã)


Fernando Marques, poeta natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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EU POSSO TRANSFORMAR O MUNDO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

EU POSSO TRANSFORMAR O MUNDO
 
Tudo que está fora de mim é mais, muito mais do que eu.
Eu vi tudo, sem poder, eu vi sem alcançar seu vigor simples,
sua despojada beleza terrena.
Passaram por mim o dia, a luz, o tédio, a dignidade.
Eu estive sempre aquém de toda a beleza que cerca a vida.
Mas eu sou um homem, algo feito pelo que está aí fora
e por minha idéia e minhas mãos.
E posso transformar o mundo.
 
José Godoy Garcia, poeta goiano, nasceu em Jataí.
Reproduzido do livro "Tributo ao Poeta"
Biblioteca Nacional de Brasília

 

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Com a palavra, Bebé Prates

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Blog do Velho Ranja Sem Comentários

Com a palavra, Bebé Prates:

Velho e querido Ranja,
Já se passou algum tempo, mas ainda dá para agradecer sua gentileza em citar meu nome no belo site Brasília Poética, a próposito dos livros que lhe enviei. E é o que faço agora, ao mandar mais um precioso volume que se encontrava perdido em minhas estantes amadas, porém desorganizadas.
O exemplar surrado -nem poderia deixar de ser, a edição, muito simples, é de 1962 – e quase caseiro tem como responsável, no entanto, a Editõra Dom Bosco, o que mostra que os poetas, como sempre, estavam bem antenados com os mistérios e lendas daquela Brasília quase inaugural que habitavam lá pelo início dos anos 60. Afinal, Dom Bosco e sua profecia faziam parte do dia-a-dia de todos que toparam viver a aventura de uma nova cidade plantada no meio do nada no interior do país, sonho de um sonho de uma nova civilização. E a poesia estava presente desde o início da epopéia, e como estava.
Este volume que agora você tem em mãos reúne poetas consagrados, cuja obra permanece, e outros que ‘poetaram’ por inspiração de Brasília, da mudança em suas vidas que a vinda para cá propiciou ou pelo momento histórico que sabiam viver. Não importa, no entanto, saber os motivos, o que interessa, e nos traz beleza, é ver estes versos reunidos e conhecer uma Brasília que se perdeu há muito tempo por conta das incríveis transformações que o mundo moderno vai operando em cidades, pessoas, culturas, modos de ser e viver. Mas, diga-se a bem da verdade, o olhar poético sobre o mundo e a vida, este fica para sempre e é justamente o que nos consola e nos instiga e nos faz ter um sentimento de pertencência à nossa raça humana.
Mas, Ranja, é uma delícia saborear os versos dos Poetas de Brasília, versão 1962, e rever uma Brasília que vislumbramos quando aqui chegamos, bem depois, já nos anos 70, mas que, àquela época, ainda guardava bem nítidos os traços de sua originalidade e construção.
Veja só o que nos diz, por exemplo o grande Alphonsus de Gumaraens Filho -que por aqui vivia naquela época – sobre a Lua de Brasília:
Lua de Brasília,
lua de Goiás,
lua plena, filha
da noite que em mim faz…
 
Um outro poeta, Gaudêncio de Carvalho, faz o Perfil da Tarde de Brasília
A amplitude desapareceu  no último reflexo branco da claridade
 A mansidão surgiu no primeiro raio triste do entardecer
O pássaro preto cantava por que entardecia
Desmaio de luz na escavação dos ares
Desmaio de luz na solidez dos cerros.
Eu fiquei parado ouvindo a emoção do pássaro
ouvindo o murmúrio do córrego
quando caíam nas águas as flores do ipê… 
 
Viu só, era uma Brasília quase rural ainda que se desenhava naquele começo, um barato se compararmos com a Brasília de hoje, um abismo, também, mas, felizmente, ainda dá para ovuir os pássaros e as flores do ipê, convenhamos, estão mais lindas do que nunca.
Querido amigo, no livro ainda estão figuras sumidas mas muito queridas como Ézio Pires, Santiago Naud – que tem entre seus poemas publicados um Hino a Brasília, um belo hino, diga-se de passagem, que espero que você estampe logo no site. Bom, Ranja, acho que é isso, poderia passear ainda muito por estas poesias que falam de uma época, de uma história que ainda estamos vivendo. Por favor, faça bom uso do livrinho, ele é precioso para todos nós que vivemos e amamos Brasília.

Um grande abraço,
Bebé Prates .
Um grande abraço 

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Ao oeste chegamos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Ao oeste chegamos
 
Ao oeste chegamos
vindos de muito além.
Lá onde suspiramos:
– O oeste quando vem?
 
Do setentrião, o oeste
era o mesmo que se via
do sul; visto do agreste,
da caatinga, da fria
 
solidão das coxilhas,
das montanhas centrais,
do silêncio das ilhas,
dos pampas, dos gerais,
 
sempre era o mesmo e puro
– de pureza agressiva –
apontando o futuro
a toda a grei nativa.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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O tenebroso bloco

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

O tenebroso bloco
 
O tenebroso bloco
assustador
porém muito mais
misterioso, enigmático.
 
O medo
o respeito
o pensamento
o tenebroso bloco
odiado
perquirido
indecifrável
vivo e frio
inescrutável.
 
O aterrador
de substância ignota
impondo amor
e submissão.
 
O tenebroso bloco
Como o pêlo de veludo
negro de um cão
a cara reta imutável
escalvada
tendo no imo
um sol. O permeável
adamantino, e infinito
sol negro
atraente trágico
ante o qual os joelhos
se dobram
e se cantam hosanas
odiando-o pelo mistério
da morte.
 
O das trevas
o sem idade
o mudo
o misterioso
o tenebroso bloco.
 
Áureo Mello, poeta natural de Porto Velho.
Reproduzido do livro "Inspiração"

 

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Tudo ou nada

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Tudo ou nada
 
Era quase um nada.
Talvez um pouco do nada
Que existe em cada tudo.
Mas o muito de todo nada
Envolveu-lhe em seu sobretudo.
Passou a ser quase tudo
Do que existe em cada nada.
 
Marta Helena de Freitas, poetisa mineira, nasceu em Ituiutaba.
"Poetas de Brasília", por www.antoniomiranda.com

 

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Ao oeste chegamos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Ao oeste chegamos
 
Ao oeste chegamos
vindos de muito além.
Lá onde suspiramos:
– O oeste quando vem?
 
Do setentrião, o oeste
era o mesmo que se via
do sul; visto do agreste,
da caatinga, da fria
 
solidão das coxilhas,
das montanhas centrais,
do silêncio das ilhas,
dos pampas, dos gerais,
 
sempre era o mesmo e puro
– de pureza agressiva –
apontando o futuro
a toda a grei nativa.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, natural de Mariana.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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Terra Prometida

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

 

Rui ouvia tudo aquilo junto com os irmãos, mas parecia não assimilar direito o significado das palavras. Seu pensamento estava muito longe dali. Assim que a mãe terminou a leitura, pegou a carta com a desculpa de relê-la e copiou o endereço anotado no canto do envelope: alojamento 18, quarto 7, acampamento Tamboril, Vila Planalto, Brasília – Nova Capital.

O movimento era grande na estação. Jovens sorridentes, com roupas leves e coloridas, faziam questão de demonstrar, com a irreverência própria da idade, o desejo de aproveitar o verão longe dos bancos escolares, de preferência, à beira de uma praia. Rui conferiu novamente a data e o horário da partida. De cócoras ao pé da parede, a mulher ajeitava a matulagem

… e ralhava com os filhos, alvoroçados com a idéia de viajar. A plataforma de embarque era um corredor comprido e estreito, escavado no subsolo. Os exaustores faziam muito barulho, mas não conseguiam dissipar a poluição que saía pelo cano de descarga dos ônibus. Ninguém entendia por que os burocratas da cidade dita a mais moderna do mundo obrigavam os passageiros a ficarem ali, debaixo do chão, envenenando-se com monóxido de carbono, com tanto céu sobrando lá em cima. Rui soltou alguns botões da camisa, esbaforido pelo calor e subiu a escada em busca do ar puro do térreo. Comprou um maço de cigarros e foi até o sanitário, mais fétido e entupido de gente naquelas primeiras horas da noite, quando se concentrava o maior número de saídas.

- Será que os militares vão deixar o Tancredo tomar posse? – indagavam-se dois senhores junto dos mictórios, levantando uma dúvida de milhões de brasileiros.

Rui saiu abotoando a braguilha, preocupado com as horas. Mas o relógio pendurado no teto indicava que ainda dispunha de alguns minutos. Entrou na lanchonete e pediu uma dose de cachaça para aliviar a ansiedade. O proprietário respondeu que não vendia aquele tipo de bebida. – Então, me dá uma cerveja.

Encheu o copo, virou de costas para o balcão e começou a se lembrar do dia em que resolveu pôr o pé na estrada:

 

Sobral, Ceará, novembro de 1958. Sem muito o que fazer, Rui andava pelo quintal à procura de alguma fruta que saciasse o interminável apetite de seus quinze anos de idade, tarefa quase impossível naquele período de "b-r-o-bró", como diziam alguns moradores da cidade, referindo-se aos ressequidos três últimos meses do ano, que terminavam com a sílaba "bro".

- Mãe, chegou carta do pai! – gritou, de repente, um dos irmãos, causando intensa correria no meio da casa.

Enquanto a mãe soletrava, emocionada, as notícias do marido, os nove filhos formavam roda, de pescoços esticados, tentando antecipar alguma coisa importante nas folhas encardidas de papel. O pai abençoou cada um deles, reclamou da saudade, falou dos negócios e de como as máquinas iam, pouco a pouco, tatuando o corpo da cidade na terra vermelha do cerrado.

Rui ouvia tudo aquilo junto com os irmãos, mas parecia não assimilar direito o significado das palavras. Seu pensamento estava muito longe dali. Assim que a mãe terminou a leitura, pegou a carta com a desculpa de relê-la e copiou o endereço anotado no canto do envelope: alojamento 18, quarto 7, acampamento Tamboril, Vila Planalto, Brasília – Nova Capital.

Seu sonho era tão objetivo quanto a fome que corroia o estômago de milhares de nordestinos atraídos pela ousadia de um presidente recém-eleito: trabalhar na construção da nova capital, fazer um pé-de-meia – quem sabe, até enricar? – e logo depois retornar para o velho torrão. O pai, caixeiro-viajante, já estava por lá arriscando nos negócios.

Um mês depois daquela carta, estava em cima de um caminhão rumo ao longínquo Goiás. Amontoados na carroceria, havia sessenta e quatro retirantes. Entre eles, apenas seis mulheres, duas delas com criança de colo. Apesar dos sobrenomes diferentes, as pessoas pareciam ter o mesmo rosto, o mesmo semblante, talvez porque todos ali fossem filhos da mesma esperança.

Em um Chevrolet ano 48, de câmbio seco, daqueles em que o motorista precisava pisar duas vezes no pedal da embreagem para passar uma marcha. Uma para levar a alavanca até o ponto morto, outra para engatar. A cor do caminhão era a mais usual do modelo, cabine verde de pára-lamas pretos. A lona que cobria a carroceria já estava completamente desbotada de tanto levar sol, poeira e as chuvas das estradas do Sul. No pára-choque, estava escrito, em letras garrafais, para todo o mundo ver: Expresso Brasília.

 

Com aquele pomposo nome, o chofer não queria simplesmente confirmar o final de um itinerário que todos já sabiam. A inscrição significativa, antes de tudo, uma reafirmação de amor-próprio. Havia empregado todas as economias na aquisição do veículo. Sair pelo mundo com um caminhão cheio de gente, desde então, era seu ofício. E sentia muito orgulho em exercê-lo. Por isso, ficava bravo quando ouvia alguém chamar seu ganha-pão de "pau-de-arara".

O pejorativo, no entanto, não poderia ser mais apropriado. Os bancos eram simples tiras de tábuas, presas de uma lateral a outra da carroceria. Madeira pura, sem encosto ou qualquer beneficiamento. Os espaços entre eles, bastantes reduzidos. Ficava até difícil alguém achar um lugar para colocar os pés, por causa do entulho das bagagens. As pessoas viajavam praticamente empoleiradas. Por tudo isso, o termo pau-de-arara, pelo qual era conhecido aquele tipo de transporte, constituía apenas um sábio comparativo popular, assim como o apelido do motorista, Vagalume, inspirado em sua incrível capacidade de passar noites e noites insones, de olhos acesos, dirigindo.

Durante as primeiras horas de viagem, todos pareciam se perguntar como terminaria aquela aventura. Vagalume pisava fundo o acelerador, avisando que era tarde demais para alguém pensar numa resposta. Sobral já havia ficado muito para trás.

Um silêncio pesado abateu-se sobre todos. Apenas, vez por outra, um deles praguejava, reclamando de um sacolejo mais forte do velho Chevrolet "cara de sapo", como alguns motoristas chamavam o modelo do caminhão. Pelo fundo da carroceria, a poeira fazia degradé com a noite clara. A lua estava lá, cheia, para quem quisesse vê-la pelos buracos da lona. Mas ninguém parecia interessado na paisagem noturna, tão bela quanto extemporânea naquelas circunstâncias.

Rui era um tipo baixo, mesmo considerando a pouca idade, de rosto largo, olhos muito vivos, cabelos lisos, castanho-claros, com algumas mechas puxando para o louro. Tinha um temperamento forte, às vezes, explosivo, de não levar desaforo para casa. Outra característica marcante era a sua extrema lealdade. Talvez, por isso, amargava um grande sentimento de culpa naquele momento. Não sabia que fugir de casa doía tanto. Só agora, em cima daquela carroceria, percebia como fazia falta a bênção da mãe na despedida, o abraço dos irmãos e o adeus do melhor amigo. Com certeza, àquela altura, todos em casa já estavam sabendo de tudo, tintim por tintim, pela boca da irmã Zenith, a quem confiara o plano de fuga. Quanto mais o caminhão se distanciava, maior a dor. Esforçava-se para conter o choro e não chamar a atenção dos companheiros de viagem. Para buscar forças e não capitular, falava repetidamente consigo mesmo: agora, só volto pra casa com muito dinheiro no bolso…

Enquanto se atormentava, alguém começou a entoar as notas de uma conhecida canção nordestina. Surpresos, todos se voltaram para o mesmo lado da carroceria. Era Pintinho, que nunca largava de seu fole, seja lá para onde fosse. Com muito oportunismo, o sanfoneiro escolhia um xote de Luís Gonzaga, para espantar de vez o ar de quebranto que tomava conta da maioria deles.

Da boléia, Vagalume ouvia o sanfoneiro entretendo os companheiros, com o olho firme na estrada e evitando como podia os buracos com o facho dos faróis. Escolado pelo vaivém de tantas viagens, sabia que depois de toda aquela animação, viria o sono; já passava de meia-noite. Dito e certo. Não demorou muito para tudo ficar quieto lá atrás. Se dependesse apenas dele, seguiria em frente. Mas não quis forçar o ritmo naquele primeiro dia. Desta vez, havia crianças, incluindo duas sobrinhas que levava na cabine, há muito tempo desfalecidas pelo cansaço.

Cada um se ajeitava como podia. Feliz daquele que tivesse uma rede. Havia os ganchos da carroceria e alguns galhos de pau na beira da estrada para estirá-la. Muitos foram dormir ao relento, outros se acomodaram no próprio assoalho, no meio dos bancos e de uma montoeira de coisas: sacos, caixotes, latas de mantimentos, ferramentas e toda a sorte de apetrechos que compunham a matulagem daqueles aventureiros.

Rui fazia parte desse último grupo. Na pressa da fuga, apenas conseguira apanhar quatro peças de roupa e um saco de linhagem que usaria para dormir. Levava também um embornal com um pouco de farinha, carne-seca e rapadura. Dinheiro, nenhum. Nem o da passagem, que prometeu pagar na chegada, quando encontrasse o pai.

No segundo dia, chegaram a Feixeirinha. Nova parada. Os passageiros desceram, esticando o corpo já um tanto castigado pela viagem que mal começara. Alguns saíram desconfiados à procura de um lugar para esvaziarem a bexiga. Rui sentiu fome e ficou preocupado, pois a comida que levava não dava nem para a metade da jornada. Lembrou-se do namorado de uma das irmãs, que morava naquela cidadezinha. Não ia muito com os cornos do sujeito, mas sabia que não era hora de ficar remoendo diferenças pessoais. Precisava de uns trocados para chegar até Brasília e não importava de qual bolso sairiam. Era sua última chance. Dali pra frente, não podia contar com mais ninguém. Pediu alguns minutos ao motorista e foi atrás do que precisava, pensando em uma boa desculpa para justificar o pedido. O pretenso cunhado, nada bobo, percebeu haver algo de muito errado na história que acabava de ouvir. Mas não tinha a menor intenção de se indispor com o apressado visitante. Foi lá dentro e voltou com cento e cinqüenta mil réis na mão.

O pau-de-arara continuava sua odisséia rumo ao Planalto Central. Com o passar dos dias, todos iam formando uma família de vários sobrenomes. Devido à pouca idade, Rui recebia uma atenção especial dos viajantes, principalmente do dono do caminhão, que lhe dispensava quase o mesmo cuidado dedicado às sobrinhas. Vagalume ainda não conhecia a verdadeira história de seu passageiro. Sabia apenas que se tratava de mais um garoto corajoso indo atrás de seu destino. E que ele não era o primeiro nem seria o último a subir na carroceria de seu caminhão com o mesmo propósito.

O Chevrolet rasgava as caatingas do Piauí. A paisagem maltratada pela seca era a mesma no Alto Sertão pernambucano. As ossadas de gado marcavam as divisas da fome ao longo dos leitos secos dos rios. No início da noite, chegaram a Salgueiro. O chofer estacionou na rua central e desceu da cabine, envergando as costas molhadas de suor. Deu uma olhada em torno do veículo, conferiu a situação dos pneus e avisou, para alívio de todos:

- Vamos pernoitar aqui, minha gente.

Vagalume gostava da noite, mas sabia dosar a viagem. Conhecia os melhores pontos de parada, os atalhos, onde achar água e comida. Contudo, tinha consciência de que isso não bastava. Não que duvidasse de sua habilidade de chofer. Muito pelo contrário. Agarrado àquele volante, sentia-se o dono do mundo. No entanto, por mais que conhecesse o segredo do ofício, era impossível alguém prever tudo o que poderia acontecer em uma viagem como aquela. Eles seguiam o mesmo itinerário, carregavam as mesmas esperanças, duravam quase o mesmo tempo, mas cada uma tinha a sua história, porque os personagens nunca se repetiam.

Logo que desceu da carroceria, uma das mulheres improvisou um fogãozinho na beira da rua e cozinhou um pouco de mingau à base de goma de mandioca para o filho. Outra saiu de porta em porta, atrás de um chá de olho-de-goiabeira, para aliviar a dor de barriga do bebê, que há muito não parava de chorar. Os homens ficaram pelos arredores, em pequenas rodas, fazendo planos para a chegada. Três deles, entretanto, resolveram aventurar-se na zona de baixo meretrício, a poucas ruas dali. Vagalume, naturalmente, não gostou da idéia. Mas nada podia fazer. Sua autoridade como comandante da viagem também tinha limites. Só lhe restava torcer para que os problemas ficassem longe de seu caminhão, na alcova dos cabarés. Infelizmente, não foi bem isso o que aconteceu. Na volta, os passageiros sentaram-se na beira de uma calçada e começaram a relatar suas libidinagens com a língua solta de cachaça. O clarão da lua parecia aumentar a inspiração dos boêmios itinerantes. Atrás das janelas, os moradores ouviam tudo, entufados de indignação. Só depois de muito tempo, cansados das próprias asneiras, os três retornaram ao pau-de-arara e se estiraram folgadamente sobre os bancos, aproveitando o espaço deixado pela ausência da maioria dos companheiros. Pensavam em tirar um cochilo. Muita ingenuidade, porque aquelas sem-vergonhices de meia hora atrás ainda iam lhes causar dor de cabeça.

- Desça já daí, cambada de cornos! – gritou alguém do lado de fora, sacolejando violentamente as grades da carroceria.

Não havia ofensa maior para um homem, no vocabulário nordestino, do que ser chamado de corno. Vagalume sabia que tinha de agir rápido, para tentar contornar a situação.Enquanto procurava acalmar o pessoal da cidade e, também, alguns dos seus, mandou todo mundo subir e se arrancou de pé embaixo. Muitos ficaram para trás, causando uma onda de protestos. Mas não lhe restava outra alternativa. Um minuto a mais ali parado poderia ser fatal. Metade dos moradores da rua cercava o caminhão num coro de insultos. Bastava alguém dizer que bolacha era bom com café e a bagaceira estava feita.

Depois de muito falatório, todos se calaram. Só se ouvia o ronco do motor do caminhão. Vagalume estava em uma daquelas de suas noites. Agarrou firme o volante até o dia clarear. Rui levantou a beira da lona para ver o mundo. Algumas rochas despontavam como agulhas, quebrando a monotonia das caatingas. Serra Talhada, terra de Lampião. O chofer apertou a buzina várias vezes. Chegar a qualquer lugar tinha sempre um sabor de vitória. Aquele apito significava muito mais do que um simples sinal de alerta previsto nas leis de trânsito. E o motorista fazia questão de deixar isso bem claro.

O nervosismo dos moradores indicava a ocorrência de algum fato grave na cidade. Vagalume seguiu devagar, rangendo o motor na primeira marcha. Adiante, dezenas de pessoas revezavam-se freneticamente de lugar, formando um semicírculo contra a parede de um bar. No meio, um corpo estendido no chão, ainda quente, todo retalhado de peixeira.

Um policial saiu em direção ao caminhão, abanando as mãos nervosamente.

- Está indo para o Sul?

- Sim, senhor – respondeu Vagalume, com a cara de fora da boléia.

- Depressa! – ordena o policial, pelo visto o próprio delegado, dando sinais para dois de seus subordinados, que, no embalo, subiram na carroceria. Só então Vagalume ficaria sabendo o motivo de tanto reboliço. A vítima era gente importante, cabo eleitoral de um dos principais coronéis da região. Sem viatura à disposição, a única maneira que o delegado via para cumprir sua diligência era requisitar o primeiro veículo que passasse pela rua, mesmo que se tratasse de um caminhão cheio de retirantes.

Serra Talhada era a principal cidade do Alto Sertão pernambucano. Berço do cangaço, terra de vaqueiro e de muito curtume. Vagalume passou a mão na cabeça visivelmente contrariado. O imprevisto comprometia o seu plano de viagem. Ali era uma parada estratégica, onde muitos reabasteciam as capangas para varar o grande estado da Bahia. Não via, porém, outra coisa a fazer, a não ser acatar a ordem policial.

O assassino fugira na mesma direção. Menos mal. Do contrário, o descaminho seria ainda maior. Meia hora depois e um homem saía repentinamente do meio da caatinga, gesticulando os braços por uma carona. Era o próprio. Até então, ele tinha evitado a trilha da estrada com medo da patrulha. Nunca poderia imaginar que sua voz de prisão viria de dentro de um caminhão velho, lento e todo empoeirado como aquele.

Os policiais saltaram de arma em punho. A peixeira do infeliz ainda estava manchada de sangue. A prova do crime. O agente sorriu, esbanjando sadismo entre os dentes amarelos de fumo. O criminoso já lia a sua sentença nos olhos do chefe da milícia. Recebeu uma coronhada na cabeça e caiu. Tonto e completamente sem ação, começou a levar uma saraivada de pontapés por todo o corpo.

Vagalume não parecia nem um pouco disposto a continuar ali parado, assistindo àquela sessão gratuita de espancamento. Pior era saber que ainda teria de levar aqueles dois carniceiros de volta para a cidade, junto com o que sobrasse da vítima. Seria mais meia hora perdida para lá e outra para cá, fora os aperreios. A cada bofete, o criminoso mais se afastava do caminhão, buscando instintivamente proteção no meio das caatingas.

O motor estava funcionando um ponto morto. Vagalume sentiu a possibilidade de se livrar da incômoda situação. Mediu a distância entre a traseira do veículo e os policiais, engatou a marcha de mansinho, pisou firme o acelerador e partiu sob o aplauso de todos, deixando uma densa nuvem de poeira para trás.

Alguns passageiros estranhavam a presença do semi-árido após tantos dias de jornada.

- O sertão é como a miséria, não tem fim – comentou Pintinho, com a voz de agouro. O sanfoneiro era um tipo tímido. Apesar do ofício que exercia, ficava sempre retraído das conversas, deixando que apenas o fole falasse por ele. Mas era muito observador e, agora, sentia uma vontade danada de quebrar seu habitual silêncio:

- Um dia, ouvi um doutor de anel no dedo falar que nordestino era como ave de arribação. Vivia sempre de um canto pra outro, atrás de comida. Primeiro, foi pro Norte, morrer de maleita nos seringais da Amazônia; depois, correu pro Sul, pra se acabar de frio nas plantações de café. E, agora, aqui vamos nós de novo…

Houve um grande mal-estar. O sanfoneiro percebeu logo que seu fatalismo histórico não combinava nem um pouco com a alegria dos acordes que costumava entoar. A noite caiu aumentando as mazelas da jornada. Se era difícil suportar o calor do dia, pior ainda era fechar os olhos e não poder dormir. Os ossos pareciam sair de lugar de tanto sacolejo. Sempre havia um buraco a mais que a perícia do chofer não conseguia evitar.

Pintinho pegou novamente a oito baixos, como forma de apagar a má impressão causada pelo infeliz aparte. Era um personagem importante no contexto. Todos tinham consciência de que a jornada seria bem mais penosa sem ele. Pouco importava o peso do fole. Movido por um misto de solidariedade e prazer, sempre conseguia mais um pouco de forças para ludibriar o sofrimento dos companheiros, e também o seu. Um tipo vaidoso. Com todos os atropelos da viagem, não se descuidava da aparência. Em qualquer parada mais longa, lá estava ele com a cara toda branca de sabão, fazendo a barba. Era estrábico de um olho só, franzino como pinto molhado, o que acabou lhe valendo o apelido.

O céu começava a nublar, pois o norte de Minas, que pega uma rebarba da seca nordestina, já havia ficado para trás. Viajaram a manhã inteira, a tarde toda, e nada. Aqueles sertões pareciam não ter fim. À noite, despencou a chover. O mundo mudava repentinamente aos olhos dos retirantes. A poeira dava lugar aos atoleiros, os coriscos riscavam o céu nervosamente e o vento ameaçava virar a lona pelo avesso.

- Chuva! Chuva! Bendita e tão desejada chuva! Mas pra que tanta fúria, meu Deus? – pareciam indagar, entre alegres e amedrontados pelos estampidos dos trovões. Lá na frente, o limpador de pára-brisas arrastava-se de um canto a outro, tentando vencer a força da água. Logo o vidro ficou todo embaçado e Vagalume foi obrigado a parar.

Nono dia de viagem e de muito infortúnio. O sofrimento não tinha idade. As crianças, porém, eram as principais vítimas.Aninha, coitada, desde Salgueiro, padecia de uma intermitente diarréia. Os chás não seguravam o intestino nem os comprimidos de beira de estrada aliviavam a sua dor. O velho motor de noventa cavalos roncava incansavelmente, dando a todos um demonstração de força e paciência. Já haviam andado bem mais da metade do caminhão. Quem sabe, a qualquer dia ou a qualquer hora, ao virarem uma curva ou ao final de uma grande reta, deparariam com a terra prometida há muito tempo indicada pela luz de um profeta.

Ninguém mais ouvia a criança chorar nos braços da mãe aflita. Não adiantava sacudi-la, gritar, pedir ajdua ou padre Cícero nem a mais ninguém. O pai, desesperado, bateu fortemente no tampo da boléia, mandando o chofer parar. A viagem de Aninha terminava ali mesmo. Ela parecia um passarinho morto, tão raquítica e frágil, passando de mão em mão até a covinha na beira da estrada. Uma mulher puxou uma Ave-Maria. Se sofrimento fosse realmente instrumento de purificação, a alma daquela criaturinha deveria estar branca como as nuvens que chapiscavam o céu daquela manhã.

- Virou anjo – disse ainda uma senhora, benzendo-se várias vezes.

A cruzinha de galhos de árvore foi ficando para trás. A mãe, provavelmente, nunca mais passaria por ali outra vez, pois as estradas mudavam de lugar a todo o instante, tentando encurtar caminho para o Planalto Central. Aquele símbolo tosco de fé, agora já quase perdido na poeira, poderia ser a última lembrança da filha.

Os retirantes continuavam aos emboléus pelo sobe-e-desce das montanhas mineiras. Depois, vieram os chapadões.

O São Francisco aparecia pela segunda-vez. Rio da Prata e Paracatu. O pau-de-arara precisava chegar logo à cidade do mesmo nome, antes que o motor explodisse de tanto ferver.

Paracatu, séculos atrás, fora passagem obrigatória para os bandeirantes que cortavam os sertões por encomenda da Coroa, à procura das riquezas dos Gerais. A cidade ainda conservava, com orgulho e graça, as feições herdadas de seu apogeu colonial. A população era quase toda descendente dos escravos que perderam a vida, garimpando no córrego Rico e nos buracos do Morro do Ouro.

O município era muito conhecido pela cachaça que produzia, a boa manteiga e as morenas de olhos dóceis que caminhavam descalças pelos becos ladrilhados de pedra. O rio Paracatu ajudava a alimentar, com surubins e dourados, os primeiros habitantes da futura capital.

A corrida rumo ao eldorado de Brasília já afetava profundamente a sossegada rotina da região. Dia e noite, transitava por ali um número incontável de caravanas oriundas de todas as partes do país. Aviões cargueiros cruzavam os céus assustando os moradores, acostumados apenas com os zumbidos dos teço-tecos do pequeno aeroclube no alto da Bela Vista. Não foi preciso muito tempo para o processo de ocupação territorial, determinado pela construção da nova sede do governo, virar a pequena cidade pelo avesso.

Equivocado com as concepções modernistas de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, certo prefeito sentiu-se no dever de acabar com tudo aquilo que passou a chamar de "coisas velhas do passado". Primeiro, arrancou o calçamento de pedras assentado pelos escravos e cobriu tudo de asfalto. Prosseguiu, derrubando sobrados, chafarizes e outros monumentos seculares. Se não fosse pela difícil obrigação de respeitar a fé dos eleitores – dizia-se ateu -, talvez também tivesse jogado todas as igrejas no chão. De nada valeram os protestos.

- Atraso – era só o que respondia, torcendo o nariz com desdém.

A influência de Brasília extrapolou muito os limites urbanos da cidade fundada no século XVII pelos bandeirantes Felizberto Caldeira Brandt e José Rodrigues Froes. O ruído dos barcos a motor tangeu para longe os caboclos com suas canoas cunhadas no tronco do macio cedro. Junto com eles, foram os peixes. Veados, cobras, pacas, raposas, tatus, antas e capivaras deixavam marcas da própria extinção no asfalto traiçoeiro da rodovia.

Bateram asas os garbosos tucanos, levando, na mesma revoada, pintassilgos, bicudos, curiós, araras – estas, traídas pela própria beleza – e várias outras espécies de aves. Igual sorte teve a vegetação. Aroeiras, sucupiras, jequitibás, tudo foi dando lugar à monotonia das lavouras de soja, cultivadas mais tarde por agricultores do Sul com incentivos oficiais. Pequenos produtores, posseiros e meeiros foram empurrados para as cidades em busca de emprego.

Antes da inauguração de Brasília, a pouco mais de duzentos quilômetros dali, Paracatu parecia não fazer parte do mundo. Semanalmente e sob encomenda, o Estado de Minas chegava à Barbearia Zé Pires, na conhecida Rua Goiás, para uma meia dúzia de leitores ilustres, entre eles, o prefeito, o juiz de Direito e o gerente do Banco do Brasil. Os noticiários das emissoras de rádio não eram suficientes para deixar os habitantes a par de tudo o que acontecia além do sertão do Urucuia. Televisão parecia coisa de ficção científica, assunto só para os mais viajados.

Era uma manhã fria de abril, quando uma grande serpente surgiu ruidosamente nos céus da cidade. A população saiu pelas portas e quintais, rogando a misericórdia de Deus. Os brancos se pegavam com Nossa Senhora da Conceição, e os pretos, com São Benedito. Mas a serpente, lá em cima, não ouvia o clamor dos pobres mortais. Ao contrário, parecia cada vez mais enfurecida. Muitos até conseguiam ver o formato da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo na extremidade da cabeça. Não havia dúvidas. Era mesmo o fim do mundo.

De tempos em tempos, alguém espalhava um boato na cidade dando conta, com incrível exatidão, do dia e da hora do juízo final. Por coincidência, naquele ano, a população tinha sido novamente avisada. E pelo que tudo indicava, o mundo não ia se acabar em fogo, contrariando as escrituras, mas engolido por uma enorme serpente.

Felizmente, a criatura, movida por uma surpreendente compaixão, resolveu seguir o seu caminho pacificamente, deixando apenas um rastilho branco no céu e os mais medrosos, ainda de joelhos, aqui na Terra. Com o prosseguimento da construção da capital, soube-se mais tarde que aquela diabólica aparição nada mais era do que um simples avião a jato.

Vagalume encostou o caminhão em frente a uma oficina na Avenida Olegário Maciel. O proprietário fizera parte da leva de nordestinos que havia migrado para o Sul em busca de emprego, logo depois da Segunda Guerra Mundial. A mecânica chamava a atenção dos visitantes pela estrutura. No almoxarifado, havia ferramentas tão complexas, que alguns empregados nem sabiam usá-las direito. Quem passasse pelo escritório poderia folhear – mas dificilmente ler, por serem escritas em inglês – revistas especializadas em mecânica de automóveis com as últimas novidades do país do Tio Sam. Outra coisa que intrigava muita gente era o nome da oficina gravado em uma placa ao lado do portão: Volga.

- É o maior rio da Europa – explicava orgulhosamente o alagoano da pequenina e longínqua cidade de São Luís do Quitunde.

Um pingo de solda branca no radiador foi suficiente para continuar a viagem. No final da tarde, chegaram à beira do rio São Marcos. Goiás, tão esperado, estava do outro lado da ponte. Mas Vagalume resolveu dormir ali mesmo. Preferia perder a noite para chegar a Brasília durante o dia.

Os viajantes acordaram com um bando de sofrês cantando na copa de um arvoredo. Era o décimo-segundo dia de viagem. A jornada entrava na reta final. O êxtase provocado pela alvorada da região parecia um cartão de boas-vindas aos retirantes. O Chevrolet passava com dificuldade pelos desvios abertos à margem da rodovia ainda em construção. O trânsito ficava cada vez mais intenso à medida que se aproximavam da chegada. Jardineiras, outros paus-de-arara, caminhões de carga, motocicletas, jipes, até mesmo as Romisetas, mini-automóveis de fabricação nacional, semelhantes a uma joaninha, capazes de fazer até vinte e cinco quilômetros com um litro de gasolina, formavam a enorme fila de veículos que se movia rumo ao novo eldorado.

Em Cristalina, a estrada parecia um grande tapete crivado de lantejoulas. Assim como Paracatu, a cidade também nascera no garimpo, só que de cristal. O vaivém das máquinas no serviço de terraplanagem triturava rochas inteiras do minério, espalhando miçangas por todos os lados.

A vastidão do planalto impressionava. De tão homogêneo, o relevo lembrava um grande mar aberto. Apenas, de vez em quando, algum riacho quebrava a linha reta do cerrado com um sinuoso cordão de mata de galeria. Não era a primeira vez que aquela paisagem enchia os olhos de alguém. Já no final do século XIX, o botânico Auguste Glaziou, em carta enviada ao cientista belga Luiz Cruls, chefe da expedição que fez o reconhecimento do local onde seria erguida a nova capital, assim descrevia a região:

 

"Esta planície imensa, de superfície sinuosa, é riquíssima de cursos d’água límpida e deliciosa que manam da menor depressão do terreno. Essas fontes, como os grandes rios que regam a região, são protegidas por admiráveis capões aos quais deveria golpear a machadada do homem, senão com a maior circunspecção…"

 

O céu parecia maior do que em qualquer quadrante do mundo. Agora, faltavam apenas poucas horas de muitos buracos, poeira e lama. A paisagem continuava a mesma, silenciosa e plana. Em muitos, a sensação de estarem viajando para o infinito, monotonia que logo seria interrompida pelo surgimento de uma visão ansiosamente esperada.

- É Brasília! – gritaram os mais atentos. Foi como se alguém dissesse: "Lá está o ouro que tanto procuramos!".

Todos correram de uma só vez para um dos lados da carroceria, emocionados. E assim ficaram por alguns segundos, tentando divisar alguma coisa no meio da grande clareira que se abria no horizonte. Impossível ver o cintilar do filão daquela distância. O que se via, muito claramente, era um intenso brilho de esperança nos olhos de cada um, como se estivessem saindo do purgatório para o paraíso. A porta da salvação estava logo adiante, no final daquela longa estrada. Pintinho pegou o fole para comemorar. Os acordes soariam alegres a seus ouvidos, pois, pela primeira vez, o coração batia solto, sem nenhuma tristeza para inebriar. Logo chegariam à Cidade Livre, um misto de acampamento, feira e hospedaria. A buzina do Expresso Brasília tocava pela última vez naquela viagem.

A ânsia de recomeçar a vida superava qualquer cansaço. Enquanto alguns faziam os últimos acertos de contas com o chofer, outros ajuntavam a matulagem, despediam-se e, rapidamente, tomavam rumo. Rui ficou ao redor do caminhão, pois Vagalume prometera levá-lo ao endereço do pai. Isso não fazia parte do trabalho, mas, se já havia aberto uma exceção, trazendo um passageiro fiado, por que não fazer mais aquele favorzinho? Além do mais, era a única maneira de tentar receber seu dinheiro.

Antes, porém, precisava deixar as sobrinhas na casa do irmão, que morava ali mesmo, na Cidade Livre. Bateu a porta do veículo, pegou uma delas pela mão; Rui, a outra, e saíram caminhando com as juntas das pernas ainda entrevadas pela longa jornada. Adiante, Vagalume fez uma breve parada, para ajeitar uma das sacolas que caía pelos ombros. Foi apenas um piscar de olhos, mas tempo suficiente para uma das garotinhas se perder no lufa-lufa de gente. O chofer agarrou a que estava sob os cuidados de Rui e saiu desesperado, gritando pela outra no meio da multidão.

Rui tentou acompanhá-lo, mas, confuso com o reboliço de gente, logo o perdeu de vista. Ficou no meio da rua, com um saco nas costas e a angústia de não saber o que fazer. Só então percebeu que estava com muita fome. Viu um feirante às voltas com um novo carregamento de mercadorias e resolveu ajudá-lo, pensando num prato de comida. O comerciante agradeceu a colaboração com um copo de vitamina de trigo, muito comum na dieta dos peões. Já saiu sabendo como chegar ao endereço do pai.

A Vila Planalto era um grande ajuntamento de empreiteiras, instaladas de maneira desordenada, inerente ao espírito de aventura que impulsionava a construção da nova capital. Os acampamentos formavam um grande labirinto, por onde milhares de operários circulavam dia e noite, sem parar. Rui ficou pasmado com o movimento. Fez muitas perguntas, arriscou vários caminhos e não chegou a lugar algum. Já estava se acostumando com a idéia de passar a noite ao relento, quando avistou a placa do acampamento Tamboril.

Uma porção de coisas passou-lhe pela cabeça naquele instante. Primeiro, imaginou a reação do pai, ao vê-lo, em carne e osso, tão de repente, naquele fim de mundo. Ele mesmo quase não acreditava que isso estava prestes a acontecer. Tirou um pedaço de papel do bolso e confirmou o endereço. Não havia dúvida, era ali. Aproximou-se de um grupo de operários e perguntou pelo pai.

- Se for quem estou pensando, faz uma semana que ele voltou pro Norte – respondeu um dos peões.

Rui sentiu o mundo ruir sob os pés. Aquela aventura não merecia um desfecho tão infeliz. Deviam estar confundindo seu pai com outra pessoa. Afinal, havia tanta gente no acampamento. Quem sabe, a qualquer momento, ele apareceria no meio de mais uma leva de operários, pondo fim àquele terrível mal-entendido. Mas a realidade era mesmo aquela que acabava de sair da boca do candango com ferina naturalidade.

- Tem algum outro parente por aqui?

- Conhecido?

- Dinheiro pra voltar?

A cada pergunta, Rui apenas balançava a cabeça negativamente.

Feliciano Pereira dos Santos, mineiro de Januária, um negro corpulento, de testa larga e olhos redondos, tentou acalmá-lo, oferecendo abrigo em seu alojamento, procedimento comum entre os candangos, cientes de que todos ali estavam no mesmo barco. Rui levantou a possibilidade de ser fichado na construtora. Nada feito. Na sua idade, quinze anos incompletos, nem documento podia tirar. Começou a avaliar a situação: estava longe de casa, sozinho, sem um centavo no bolso e, como acabava de saber, de mãos atadas, sem poder trabalhar. Pensou em pegar o caminho de volta no dia seguinte. Mas havia uma questão básica, cuja resposta ela não sabia: onde arranjar o dinheiro da passagem? Chegou a se lembrar de Vagalume, de quem ainda era devedor. Mas não tinha a menor idéia de como poderia encontrá-lo. Se já foi difícil localizar um acampamento, quanto mais uma pessoa, sem endereço, naquele formigueiro de gente. Para complicar, a Cidade Livre ficava longe da Vila Planalto, onde se encontrava no momento.

Feliciano reapareceu à noitinha todo sujo de graxa – era mecânico. Começou a falar uma porção de coisas sem importância, com a clara intenção de aliviar as preocupações do jovem retirante. Quando o assunto acabou, saiu sem nada dizer, voltando algumas horas depois com um colchão enrolado debaixo do braço.

Já era quase meia-noite. O corpo parecia dormente de tanto cansaço. Mesmo assim, Rui não conseguia pregar os olhos. A cabeça estava a mil. Tudo podia ter acontecido, menos aquele desencontro com o pai. Além da preocupação, havia o barulho provocado pelo entra-e-sai de operários. O fuso horário dos candangos estava ajustado pelo 21 de abril de 1960, data da inauguração da capital. Relógio ali servia apenas para marcar o número de horas extras. Quando a noite terminava para uns, começava para outros. Havia também quem ficasse pelo meio do caminho, sem dormir.

Rui ainda gravitava em seu mundo. O tempo para ele continuava sendo contado com a mesma lassidão das tardes calorentas de Sobral. Não tinha a menor idéia de quantas horas havia dormido. Pela claridade que entrava pelas frestas das tábuas, o sol devia estar quase a pino. Levantou-se e foi até o pátio do acampamento. Dali dava para ver as pontas da estrutura metálica da futura sede do Congresso Nacional, que crescia vertiginosamente contra o céu. Queria olhar aquela coisa de perto. Para isso, bastava pegar uma das trilhas abertas pelos pioneiros no meio do cerrado. A futura Praça dos Três Poderes era a estação central de todas elas.

À medida que se aproximava, o emaranhado de ferragens aumentava de tamanho diante dos olhos. O movimento das nuvens, ao fundo, dava-lhe a impressão de que a estrutura oscilava como um gigantesco cavaleiro medieval, cambaleando em sua pesada armadura.

Ficou ali um bom tempo, de cócoras, observando os operários, que se moviam entre as vigas como aranhas. Olhou ao redor e percebeu que ainda tinha muita coisa para ver naquele poeirão. Seguiu pelos canteiros de obras como um descobridor que não sabia onde aportar a sua curiosidade. Tudo era novidade, portentoso e demasiadamente convulsivo. Parecia que Deus decidira recriar o mundo por aquele esquecido sertão, valendo-se do carisma de um seus filhos pródigos. As caterpillars furavam o chão como tatu.

- Sai fora, peão!

- Vá tomar no cu! – respondeu Rui, pulando de lado, enquanto olhava o desaforado trepado na cabine de uma escavadeira. O rosto do operário era um emplastro de poeira e suor, em que só se via direito o branco dos olhos. Apesar da imagem grotesca, Rui sentiu um pouco de inveja, pois daria tudo para estar no lugar dele, lá em cima, manobrando aquela porção de alavancas.

No dia seguinte, levantou bem cedo e saiu novamente pela Esplanada dos Ministérios. Passou o dia batendo perna pelos canteiros de obra, na esperança de encontrar algum serviço. Estava exausto. A caminhada dera-lhe fome. Foi até a cantina, fez o prato e se escondeu no quarto. Apesar da boa vontade dos companheiros, não se esquecia de sua condição de clandestino. A comida tinha gosto de esmola. Deu algumas garfadas, fazendo careta. Desta vez, o problema estava realmente na bóia, não em seu orgulho sobralense.

Jogou o resto pela janela, estirou-se sobre o colchão e ficou pensando o que fazer da vida.

- Vá já apanhar aquela porcaria que derramou no terreiro, moleque! – esbravejou alguém na porta, interrompendo a breve sesta.

Era o zelador do alojamento. Poucos sabiam seu nome verdadeiro. Chamavam-no apenas de Alagoas. Havia, entre os peões, a prática de identificar uns aos outros apenas pelo estado de origem. Assim, Rui logo ganharia seu apelido, Ceará. Apesar de aturdido com a brabeza do zelador, lembrou-se da sobra da comida que havia jogado pela janela. Sabia estar errado, nem por isso, achava-se merecedor de tal repreenda.

O mandante costumava andar com uma peixeira de cabo de chifre cheio de marcas atada à cintura. Dizia que cada uma delas correspondia a uma morte. Orgulhava-se de sua fama de mau espalhada entre os peões. Cultivava-a sempre que podia e não queria perder mais aquela oportunidade. Rui sabia que enfrentá-lo seria suicídio. Nem por isso, passava-lhe pela cabeça a idéia de submeter-se àquela humilhação. Permaneceu imóvel, calado, olhando para o inimigo como um menino malcriado.

- Vou fazer você lamber aquilo lá tudinho, seu safado! – berrou o zelador, partindo em sua direção.

- Se tentar fazer isso, eu te mato, filho d’uma égua!

O alagoano desatou a rir, debochando da audácia do garoto. Quem iria passando pelo local, parava, curioso pelo desfecho. Nenhum deles aprovava a maneira pela qual o zelador resolvia seus problemas, mas, nem por isso, alguém ali estava disposto a se meter, à exceção de Feliciano, que acompanhava tudo de perto, doido para comprar aquela briga.

- Ninguém vai apanhar comida nenhuma, não – intercedeu finalmente o mecânico, ajeitando a calça disfarçadamente, só para mostrar o cabo do trezoitão preso à virilha. O alagoano viu a situação mudar de repente. O adversário não era mais um rapazola assustado, ainda de calças curtas e que se sentia duplamente inferiorizado por estar vivendo ali de favor. Agora tinha pela frente um negro maduro, com mais de um metro e oitenta de saúde e, ainda por cima, armado. A valentia se transformou em covardia. A situação do zelador se tornou mais vexatória ainda devido à presença dos operários, que testemunhavam a cena.

- Cuidado que aquilo é ruim que nem cobra – preveniu Feliciano, passado o episódio.

Rui entendeu que o companheiro não estava brincando e se sentiu cada vez mais acuado. O mecânico tentou ameninar a situação, mudando de assunto:

- O que está achando da cidade?

Rui ficou curioso em saber o que seriam as enormes conchas, que estavam sendo moldadas sobre a plataforma do futuro Congresso Nacional, "aqueles dois cacos de cocos", como se referiu. De tudo o que havia visto até o momento, era o que mais lhe chamava a atenção.

- Dizem que é ali que os políticos vão ficar, que nem lagartixa, naquelas paredes redondas.

Rui achou a resposta engraçada, mas logo fechou a cara para a realidade.

Edson Beú
Reproduzido do livro "Expresso Brasília"

 

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