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Paisagem

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Paisagem

3h30 da manhã. No escuro, olham as luzes da
cidade. Calados.
Ela o abraça, acaricia seus cabelos. Tentativa
débil de explodir a bolha de sonho e abstração em
que estão inseridos:
– Aquela reta iluminada, que será?
Ele, olhos fixos na paisagem:
– Não sei… Talvez o Eixão.
Depois, tudo volta a ser silêncio. Submersos,
os dois, em escuridão e incertezas.
 
Maiesse Gramacho, poetisa brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense.

 

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Os Pecados do Velho Bispo

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Os Pecados do Velho Bispo
Por Clemente Luz

No ar da manhã, a voz de Inezita e os versos de Catulo acordam a paisagem. “Não há, ó gente, ó não!…” A melodia vem do rádio, flutua, ondulante, sobre as casas, entra pelas janelas dos edifícios em fase final de construção e se perde nas águas do lago, que alcançam, devagar, a cota mil…

Velho Catulo, grande Inezita, vocês dois, reunidos no mesmo sentimento largo da canção, com o mesmo manto da melodia e do poema, a cidade que nasce e os homens que marcham, através dos quadrantes, para o grande encontro.

E, para o encontro prometido e projetado, no coração do mapa e da terra, os veículos nacionais transportam homens do povo, governadores de Estado, senadores e deputados, chefes de empresas, padres e bispos…

Velho Catulo, grande Inezita, irmanados na mesma cera do disco, nós, com humildade, ouvimos, no ar da manhã ou no ar rarefeito da tarde, na cidade ou na floresta recém-aberta em estrada, a beleza da mensagem:

“Não há, ó gente,
ó, não!
luar como este
do sertão…”

Melodia e luar, que quebram protocolo, vencem obstáculos e fazem o coração do velho bispo pulsar com o ímpeto da juventude…

Comovente mesmo, na marcha das Colunas de Integração, foi a coragem do Bispo de Guamá, velhinho de cabelos totalmente brancos, que não teve medo de enfrentar a viagem, a mais longa e mais difícil: a da Brasília-Belém, estrada recém-aberta, ainda não concluída e sujeita a todos os perigos e tropeços.

O velho bispo, tomado de entusiasmo jovem, jogou para um lado, como inútil, o peso dos anos, e abandonou, por alguns dias, por desnecessária e impraticável, toda uma série de hábitos e ordens, para praticar, sem peias e sem constrangimento, todos os atos permissíveis a um bispo e a um velho, em tais circunstâncias…

Assim é que, enfrentando o frio da mata, vestido com o moderno “short” que lhe foi emprestado por um jornalista, participou, todas as tardes, do banho coletivo nas águas dos rios por onde passou a caravana norte.

A sabedoria e a idade lhe deram aos lábios um permanente sorriso, cheio de benevolência e de paciência.

Quando, no banho coletivo, os companheiros amenizavam o frio das águas e do meio ambiente com boas talagadas de aguardente ou uísque, o velhinho se esquivava dos copos, enquanto o corpo agüentava. Por fim, pedindo perdão pelo pecado enorme, aceitava meio cálice da preciosa bebida escocesa ou da nossa popular “pinga”… Sorridente e rejuvenescido, imergia, em seguida, o corpo velho e cansado nas águas renovadas e recém-conquistadas da floresta milenar.

Quando jornalistas, homens de empresa ou políticos, reunidos pelo espírito de irreverência, aproveitavam os últimos raios de sol para contar piadas, alguns picantes, o velhinho espetava o dedo no ar e dizia, entre um sorriso e a aparência de zanga, como que concordando, sem concordar de todo:

– Meus filhos, isso é pecado…

A verdade é que, após os primeiros dias da viagem, a oração, antes solitária, do Bispo de Guamá, era acompanhada, com devoção, por uns, com compreensão, por outros, e com respeito absoluto, por todos.

O velho Príncipe da Igreja, de coração jovem, era um companheiro impressionante, sábio e imprevisto.

Foi, talvez, a grande figura da extensa e desconfortável marcha.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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Reinvenção

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Reinvenção

Resisto ao inimigo feroz que me assedia
e me reconstruo
em metáforas de sonho.
Em bandeiras escarlates
continuo a desfraldar minhas manhãs
e quando a noite-feiticeira chega
mimetizo-me.

Teço-me no meu sangue delirante
e recosturo as minhas entranhas.

Chamo à luta em campo aberto os inimigos da minha carne.
Resisto-me, refaço-me, reinvento-me
em metáforas de sonho.


Antonio Carlos Osório, poeta gaúcho, nasceu em Quarai.
Reproduzido da Antologia "Deste Planalto Central: Poetas de Brasília", de Salomão Sousa.

 

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Pequena oferenda matinal

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Pequena oferenda matinal
 
Brasília esplende de luz, na manhã.
Abre tua janela para o novo dia.
Saúda o Irmão Dia.
Saúda os Irmãos Pássaros na sua doce algazarra
pelas árvores e beirais.
Brasília, céu de clara porcelana azul.
 
Cada dia é um prêmio e um mistério.
Cada dia é uma luz nas tuas retinas.
Agradece ao Senhor essa luz de Brasília.
 
E afugenta de ti
o halo da Sombria.
Celebra a vida
na claridade da manhã de porcelana azul.
Cada manhã é sem volta.
Cada segundo é sem volta.
Louvado seja o Senhor!
 
Danilo Gomes, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Haicais

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Haicais
 
Pétalas que caem
sobre pétalas, em beijos.
Vejo a borboleta.
 
O verde estrelado
perfuma esta manhã. Uma
velha laranjeira.
 
O menino solta
seu tonto barquinho: sonho
que nunca mais volta.
 
Carneirinho vem,
carneirinho vai. Eu sei
que meu sonho é nuvem.
 
Partiste. Parti
também para o exílio, sem
me esquecer de ti.
 
Na noite de luar,
o vento soprando lento.
Canção de ninar.
 
Napoleão Valadares, poeta mineiro, nasceu em Arinos.
"Poesia de Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Floramarela

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Floramarela
 
Das fulô que vi no mundo
num posso aqui lhe dizer
pois foram tantas e tantas
mas vou tentar descrever
se num falar de todas elas
é que hoje de manhã cedo
as outras eu pude esquecer
apois das fulo mais bunita
que já vi com esses óio
foi as fulo do ipê
 
Vi fulô de girassol
de lírio e algodão
cravo isaac e crisântemo
begônia e cravo leão
a gérbera e a celósia
hibisco inté açafrão
nessas fulô tudim
amarelo eu pude ver
mas as cor nem se parece
cum as fulo do ipê
 
Vi fulo de gameleira
e também de jatobá
de caju, de laranjeira
de algodão, maracujá
Maria Preta, cajazeira
algaroba, pequizeiro e juá
vi as fulô do mamulengo
as fulô do muçambê
e nenhuma é mais mimosa
que as fulô do ipê
 
As fulô do mandacaru
é buniteza de esperança
da chuva que vem chegano
dum povo que nunca cansa
os flamboyant em florada
é espanhola em dança
e as jardineira tem o cheiro
dos dia que vai chover
mas nenhuma me tocou
que nem as fulo do ipê
 
Vi fulô de onze e meia
ingazeira, babaçu
vi o milharal em florada
os bacuri, os cupuaçu
murici, andiroba, açaí
as fulô do mulungu
angico, cedro e barriguda
e de tantas que vi florescer
os meus oio se encantô mermo
foi pelas fulô do ipê
 
Lília Diniz
Reproduzido do livro "Miolo de Pote da Cacimba de Beber"

 

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02 de agosto de 1957

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O Presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado da senhora Sarah Kubitschek e de suas filhas, visita, pela manhã, no pátio do Palácio das Laranjeiras, a primeira Unidade do Hospital Volante das "Pioneiras Sociais" destinada a Brasília. O chefe do governo examina, demoradamente, todo o aparelhamento de fabricação alemã, inteirando-se, assim, da excelência do material empregado na mencionada Unidade.

(Diário de Brasília)

 

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Sopro vital

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Sopro vital
 
Estranhamente sorrio hoje fácil,
pareço feliz na manhã fria do mês de julho
em Brasília. Estamos no inverno
e as coisas não andam bem.
 
O amor rarefeito não contenta o coração,
meus sentimentos anseiam fortes âncoras,
um tédio profissional, um tédio de tudo,
o mundo vive um período recessivo
e estou entranhado nele à minha maneira.
 
As coisas realmente não estão bem,
mas me sinto agora absurdamente feliz,
em aleatório rasgo de felicidade,
remando contra a maré da tribo,
contra a maré das minhas águas de sempre.
 
É que a vida acendeu em mim hoje
o seu misterioso sopro vital,
que gera fatos, faz os dias, move as pessoas
no início das manhãs, resistentes,
e me incendiou fachos de esperanças.
 
Valdir de Aquino Ximenes, poeta cearense, natural de Fortaleza.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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O Orvalho

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O Orvalho
 
Mas ontem a manhã
Vai e cabe
Se arde
E se debate de cantar romã
Ainda verde
Se ala amargosa
Entretanto
O orvalho se tanto
Entre
Alarde
No sol
No árduo
No de muito docimã.
 
Stela Maris Rezende, poetisa mineira, natural de Dores do Indaiá.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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