Posts com a Tag ‘Lúcio Costa’

Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Desenhada por Lucio Costa, Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecumênica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas

Brasília despojada e lunar como a alma de
um poeta muito jovem
Nítida como Babilônia
Esquia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitetura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

No centro do reino de Artemis
– Deusa da natureza inviolada –
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergue sua cidade, ordenada e clara
como um pensamento
E há anos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

Sofhia Mello Breyner Andresen, poetisa portuguesa.

Como nascem os palácios

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Por Conceição Freitas

Quando Lucio Costa escreveu que o projeto do Plano Piloto surgiu praticamente pronto, deu a entender que o santo baixou e ele, num lampejo, criou a capital. Do mesmo modo, há a sensação de que Oscar Niemeyer, incorporado por uma entidade arquitetônica, projetou os palácios de Brasília num átimo de tempo criativo. Muito longe disso. Tanto o arquiteto quanto o urbanista gastaram muita ponta de lápis para transformar o vazio do papel em genial invenção. O próprio Niemeyer, ao descrever o processo de criação das obras da nova capital, não revela o quanto ele ralou, foi e voltou, voltou e foi, para criar alguns dos mais belos palácios da história da arquitetura moderna.

Para descobrir, afinal, quanta pestana o arquiteto queimou até chegar aos projetos finais dos quatro primeiros palácios de Brasília – o do Alvorada, o do Planalto, o do Supremo Tribunal Federal e o do Congresso Nacional – o também arquiteto Elcio Gomes da Silva produziu e defendeu, em abril passado, na Universidade de Brasília (UnB), uma tese de doutorado de 1.200 páginas. “Os palácios originais de Brasília” percorre as pegadas de Niemeyer, do engenheiro Joaquim Cardozo, das construtoras, dos fornecedores de material de construção, dos mestres de obra dos quatro palácios para reconstituir o ato mesmo da criação. Investiga também as mudanças ocorridas nas edificações desde então.

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MAQUETE

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

MAQUETE

Foi amor à primeira vista, os dois se gostando à distância, no Espaço Lúcio Costa, diante da maquete do Plano Piloto: ele no final da Asa Sul, ela no fim da Asa Norte. Mas era domingo e não tinha ônibus…

José Rezende Jr, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Texto transcrito do livro “50 anos em seis: Brasília, prosa e poesia”
Teixeira Gráfica e Editora

 

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Um grande sujeito

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Um grande sujeito
Por Conceição Freitas

O admirável Lucio Costa volta e meia me surpreende. Ao contrário de boa parte das surpresas do gênero, as que me são ofertadas pelo arquiteto têm sido positivas, propositivas, inspiradoras e revelam, em escala monumental, a grandeza humana do inventor da cidade. Daí que volto à entrevista concedida ao Jornal do Brasil, em novembro de 1984, em sua primeira visita à cidade depois de 10 anos de ausência.

A cidade que ele reencontra não é a mesma que ele criou, é uma outra, reformulada pelos brasileiros que a ocuparam. Lucio Costa descobre que os setores de Diversões Sul e Norte (Rodoviária/Conjunto/Conic) não são o centro requintado que projetou inspirado no Champs Elysées, em Paris, e no Picadilly Circus, em Londres – “uma coisa meio cosmopolita”. São um centro popular, cruzamento de trabalhadores em trânsito para casa ou para o trabalho, confluência de diversidades. “Eles (os brasilienses) tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha.” Em urbanismo, ele diz, “só há essa realidade, a de que as coisas nunca ocorrem da forma como foram projetadas. A força da vida é mais forte. As coisas sempre se realizam de uma forma diferente”.

Lucio Costa, na entrevista ao repórter Omar Abbud, conta que ficou “apavorado” quando veio a Brasília pela primeira vez. Veio ver as duas picadas abertas para definir o cruzamento dos eixos Monumental e Rodoviário. Ao se dar conta, do ponto mais alto da cidade, da extensão do sítio onde seu projeto de Plano Piloto seria desdobrado, o urbanista ficou em pânico. “O projeto já tinha sido aprovado, mas essa foi a primeira vez que tive contato com o ambiente. Aí foi que senti a escala desmedida. Pareceu-me uma coisa em outra escala, diferente daquela em que eu tinha concebido a cidade, que mentalmente era mais compacta.”

O ano era 1957. Por volta de abril ou maio. Topógrafos e tratoristas já haviam aberto os dois eixos, feridas vermelhas cortando o Cerrado em cruz. “Dali  (da Praça do Cruzeiros) eram vários quilômetros até onde seria a Praça dos Três Poderes. Aquele deserto, aquele cerrado. Fiquei apavorado: ‘Meu Deus, que loucura, onde fui me meter!’.

O reservado Lucio Costa, mais uma vez, se revela inteiramente humano e despojado dos tolos orgulhos que estamos tão acostumados a ver. O urbanista teve medo de que o seu projeto fosse pequeno para a imensidão do Planalto Central, que o traçado se perdesse na grandiosidade do terreno. Foi um pânico em vão. As escalas que projetou para a nova capital ajustaram-se perfeitamente às dimensões do lugar.

O arquiteto desmonta as versões daquela época, até hoje disseminadas, de que as cidades-satélites são favelões rodeando os Três Poderes. Visitou algumas e viu, já àquela época, que elas se resolviam bem, como uma cidade do interior.

A visita a Brasília, 25 anos atrás, revelou a Lucio Costa que, algumas soluções adotadas pela cidade foram opostas às que ele havia pensado (o arquiteto não revelou quais). “Eu estava errado. A solução realizada é que está certa.”

É ou não é um grande sujeito esse Lucio Costa?

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense, de 8/9/2011.

 

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criador (homenagem a Lucio Costa)

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criador (homenagem a Lucio Costa)

não
nem
no
"non aedificandi"

sim
mas quando?
nunca

logo hoje
que Lucio morreu
outros setores
sentirão o traçado

andem índios
cabeludos
eterna lua
redonda
movam
quantas vozes
puderem
quantas vezes
quiserem

as escalas virão
gregária
bucólica
monumental
nelas as cidades
nelas onde e quando
circular
morar
e amar
um de alma
irrequieta,
linda alma.

Marcelo Baiocchi Villa-Verde, poeta goiano, natural de Goiânia.
Poema transcrito do livro "6 títulos, um poema" Thesaurus Editora


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Um luxo, um privilégio

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Quem mora numa superquadra do Plano Piloto tem de acordar todo dia, abrir a cortina e agradecer ao nosso senhor Lúcio Costa por lhe ter lhe concedido, generosamente, o privilégio de morar num lugar inventado como um presente de natureza e humanidade para seus moradores. As superquadras são o prato principal do banquete que doutor Lúcio preparou para quem escolhesse viver em Brasília.   

Ele queria uma cidade que tivesse a envergadura de uma capital – por isso a Esplanada, os Três Poderes, a monumentalidade das áreas destinadas a abrigar a burocracia do Estado. Mas queria também uma cidade acolhedora, bucólica, docemente interiorana, porém, intensamente pensada e planejada para o bem-estar de quem nela vivesse.

Primeiramente, doutor Lúcio traçou o Eixo Monumental. "Mas para a cidade funcionar tem que ter habitantes, os burocratas, eles têm que morar. Então achei claro criar um outro eixo ortogonal – perpendicular ao primeiro – que seria meio curvo para adaptar-se aos limites da área, da topografia do terreno", contou ele em entrevista à pesquisadora Ana Rosa de Oliveira, em 1992. Estavam traçados o Eixão e o Eixinhos. "Aí surgiu um problema: como conciliar a escala residencial, ao longo deste eixo, com a escala monumental do eixo principal? Pergunta fundadora, que teve como resposta aquela que é considerada a melhor invenção de Lúcio Costa, as superquadras.

Acompanhe o raciocínio do doutor Lucio: "Então me ocorreu a idéia de construir quadras grandes, que eu chamei superquadras – pois as quadras normais têm de 150 a 200 metros quadrados, formando assim uma cadeia, seqüência onde eu preservei vinte metros de toda periferia das quadras quadriláteras, para plantar dois renques de árvores, que com o tempo, formariam uma verdadeira muralha verde, definindo a quadra".

E veja que descrição mais lírica das fileiras de árvores que hoje cumprem o destino desenhado por doutor Lúcio. "Era diferente da muralha medieval de pedra, era uma muralha verde que se mexia com o vento, uma muralha viva, você vendo através dos troncos."

O sonho-superquadra de Lúcio Costa ia mais longe do que a realidade pôde dar conta: "Cada quatro quadras constituíam uma área de vizinhança, quer dizer, com as facilidades de comércio local: igreja, cinema, colégio secundário, escola primária estariam dentro de cada quadra". A área de vizinhança só existe nas 108/109, 308/309 Sul.

Foi preciso sonhar com arrojo e ousadia para que a realidade, na sua inevitável aterrissagem, pudesse concretizar pelo menos parcialmente a utopia do doutor Lúcio.

As superquadras, com os pilotis que são ao mesmo tempo o quintal das crianças, o ponto de encontro dos adultos e a calçada pública dos pedestres, são a solução de moradia onde o sentido de coletividade sopra aos quatro ventos. Onde não há muralhas segregadoras e sufocantes.

Onde as árvores e os passarinhos invadem a janela, onde quem quiser que escolha seu próprio percurso de pedestre, porque o chão está (ou deveria estar) desprovido de obstáculo, onde o comércio é logo ali, onde a vida é muito mais humana. É ou não é um privilégio?
 
Reproduzido do Correio Braziliense, 10/06/2007
"Crônica da Cidade"

 

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Brasília

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                                                          "…E te ergueram do vermelho nada 
                                                                         do planalto…"

 
Brasília
 
              A Maria Lúcia do Nascimento Pereira
 
Contam que Lúcio Costa, há tempo,
riscou duas linhas no guardanapo enquanto bebia
                                                                    [sua cerveja.
Agora, dizem alguns que tens a forma de uma cruz.
Talvez sejam religiosos e precisam de ti para apoiar sua fé.
A maioria te assemelha a um avião.
Talvez porque de crianças sonhavam ter asas.
Outros sobem à torre de televisão antes de proferir
                                                                    [qualquer julgamento.
São os amadores de afirmações infalíveis.
Muitos nada vêem além de tuas casas cômodas.
São os mais tristes, os faltos de imaginação.
 
 
Os candangos nem se interessaram pelo símbolo.
Pensavam somente que com aquele guardanapo
                                      [poderiam ganhar a dura vida.
E te ergueram do vermelho nada do planalto.
 
Rúmen Stoyanov, poeta búlgaro, natural de Draganovo.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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AOS DE 30, 40, 50

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AOS DE
30, 40, 50

 
Se você já tem 50 anos (tudo isso??), ou já passou dos 40, ou tem 30 e pouquinho e já se sente um velhinho ou uma velhinha cansada de guerra, vou contar, de novo e traveis, a história de três homens, grandes homens, que fizeram sua melhor obra depois dos 50. A história todo mundo conhece, o que talvez passe ao largo é a faixa etária dos três homens quando inventaram de inventar uma cidade.
O primeiro deles se chama Oscar Niemeyer. Tinha 50 anos quando trocou o Rio pelo cerrado bruto, o escritório com ar-condicionado por um barracão de madeira, o uísque 12 anos por qualquer coisa que estalasse na garganta, a vida cultural agitadíssima do Rio nos anos 50 pelas serestas solitárias e saudosas nas casas da W-3. E como ele fez o concreto voar, mas ele mesmo não voa, vinha de carro, mais de mil quilômetros de estradas inexistentes até chegar ao reinício do mundo.
O segundo, e não pela ordem de importância, se chamava Lucio Costa. Tinha 54 anos quando desenhou uma cidade em forma de borboleta, de avião, de vagalume ou de arco-e-flecha como couber na imaginação de cada um. Foi sua grande obra, seu ponto culminante. Lucio Costa, todos devem saber, não veio para Brasília, não porque não quisesse se aventurar na ranhadura das árvores do cerrado, mas por seu temperamento recluso.
Juscelino é o terceiro dos grandes homens da grande obra. Tinha também 54 anos quando decidiu construir Brasília e deixá-la inaugurada. Dava expediente durante o dia no Catete, pegava o Viscount à noite e singrava os céus do país até alcançar a ferida vermelha ao centro-sul de Goiás. Dormia um pouco no avião e ia visitar as obras. Dizem que durante o período áureo da construção, Juscelino dormia só esse tantinho, mais um outro tanto ainda menor, dentro do carro presidencial.
Para todos eles, Brasília era um grande risco. O presidente tinha de enfrentar a ferocidade da oposição e os obstáculos da obra em si mesma. Se fracassasse, era o fracasso de sua carreira política – e político é bicho fundamentalmente ambicioso e vaidoso.
Niemeyer já tinha feito a Pampulha, já era um grande cara na arquitetura moderna. Brasília era terreno virgem e o Estado totalmente disposto a construir todas as obras que ele projetasse – sonho dos sonhos dos arquitetos. Mas se a cidade se transformasse em ruína, como muitos esperavam?
Lucio Costa já tinha nome feito, seja pela arquitetura que havia construído, pelos ensaios de arquitetura que havia produzido, pela defesa do patrimônio histórico. Dos três, suspeito que ele fosse o que menos se importaria com o fracasso. E, dada a ousadia da empreitada, o fracasso era um fantasma onipresente.
Não confio nem um pouco em conselhos, boas intenções e auto-ajuda, mas o que esses três cinqüentões fizeram serve de empuxo para as horas de desalento.
 
Conceição Freitas
"Crônica da Cidade", Correio Braziliense – 26/02/2008

 

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Criador

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Criador
 
não
nem
no
"non aedificandi"
 
sim
mas quando ?
nunca
 
logo hoje
que Lucio morreu
outros setores
sentirão o traçado
 
andem índios
cabeludos
eterna lua
redonda
movam
quantas vozes
puderem
quantas vezes
quiserem
 
as escalas virão
gregária
bucólica
monumental
nelas as cidades
nelas onde e quando
circular
morar
e amar
um de alma
irrequieta,
linda alma.
 
Marcelo Baiocchi Villa-Verde, poeta goiano, nasceu em Goiânia.
"6 títulos, um poema"
(homenagem a Lucio Costa)


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Miragem Brasília

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MIRAGEM BRASÍLIA
 
"Brasília pediu licença ao céu para sob ele, entremeada nele, se instalar"
 
Do texto Brasília Revisitada, que Lucio Costa apresentou ao governador José Aparecido 20 anos atrás, salta uma frase poética, mas uma das muitas entoadas pelo urbanista para descrever a cidade que ele inventou. "Brasília é, no caso, uma simples miragem", escreveu doutor Lucio.
A capital é uma miragem em contraponto com as cidades que a rodeiam. É uma obra de arte, um sonho, uma radiação luminosa, uma aparição sinuosa. A cidade-miragem existe no centro de um grande conjunto de cidades, áreas rurais e núcleos industriais.
O segundo mais importante texto de Lucio Costa sobre Brasília (o primeiro, evidentemente, é o Projeto do Plano Piloto) é um manual para se entender um pouco mais a cidade e uma escritura que decifra mais nitidamente os princípios fundamentais de sua invenção.
Sobre a espantosa idéia de colocar uma via de alta velocidade cortando as asas da cidade de ponta a ponta, Lucio Costa esclarece: "O plano de Brasília teve a expressa intenção de trazer até o centro urbano a fluência de tráfego própria, até então, das rodovias; quem conheceu o Rio de Janeiro, por exemplo, na época, entenderá talvez melhor a vontade de desafogo viário, a idéia de se poder atravessar a cidade de ponta a ponta livre de engarrafamentos." (Com o "na época", o arquiteto deve se referir ao final da década de 1950).
Em seguida, o urbanista manifesta seu assombro com a falta de um sistema de transporte urbano que permita ao brasiliense transitar facilmente pela cidade de malha viária tão ágil e célere. "O que permanece incompreensível é até hoje não existir – pelo menos na área urbana – um serviço de ônibus municipal impecável, que se beneficie das facilidades existentes (…). Bem como não se ter ainda introduzido o sistema de "transferência" que se impôs para que o passageiro não seja onerado indevidamente."
Tem também o céu, geografia definidora da nova capital. "Da proposta do Plano Piloto resultou a incorporação à cidade do imenso céu do planalto, como parte integrante e onipresente da própria concepção urbana – os "vazios" são por ele preenchidos; a cidade é deliberadamente aberta aos 360 graus do horizonte que a circunda". Brasília pediu licença ao céu para sob ele, entremeada nele, se instalar".
Foi no Brasília Revisitada que doutor Lucio definiu com cuidado o que são as quatro escalas da cidade – a monumental, a residencial, a gregária e a bucólica. (Nesse caso, escala é a relação entre as dimensões dos prédios, das áreas verdes, das vias de Brasília). A monumental, "marca inelutável da efetiva capital do país". A residencial representada pelas superquadras. A gregária, o centro da cidade. E a bucólica, as áreas livres "a serem densamente arborizadas".
Às vésperas de se comemorar os 20 anos de Brasília patrimônio da humanidade, é fundamental ouvir o doutor Lucio. E é assim que ele termina o Brasília Revisitada. "Brasília é a expressão de um determinado conceito urbanístico, tem filiação certa, não uma cidade bastarda. O seu facies urbano é o de uma cidade inventada que se assumiu na sua singularidade e adquiriu personalidade própria graças à arquitetura de Oscar Niemeyer e à sua gente."
 
Conceição Freitas
"Crônica da Cidade", Correio Braziliense – 8 de novembro de 2007

 

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Brasília nasceu no mar

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Brasília nasceu no mar

 


Foto retirada do livro: Abstrata Brasília Concreta

Documentos revelam que Brasília nasceu no mar. No final de 1956, Lúcio Costa (1902-1998) viajara para Nova Iorque para participar de um evento. Foi na volta, a bordo do navio argentino Rio Jachal, que Lúcio fez o que é considerado o primeiro esboço do Plano Piloto. Sim, pensou a cidade no mar. No dia 11 de março de 2007 fez 50 anos que o urbanista e arquiteto entregou o trabalho à comissão julgadora que avaliaria os projetos apresentados. Ele venceu o concurso do plano urbano de Brasília, "com um trabalho de feição amadora, sem um único cálculo." Para muitos, "nascia ali o maior mito do urbanismo brasileiro".

"A pergunta óbvia, que desafia explicadores há 50 anos, é: como um plano despretensioso na sua aparência mudou a história do urbanismo?", indaga Mario César Carvalho. "Em Brasília, Lúcio acabou com duas das tradições mais caras das cidades brasileiras: a rua como espaço de convívio (a socialização em Brasília ocorre nas superquadras) e as esquinas "existem" na entrada dos conjuntos de quadras, e nas quadras comerciais onde estão os bares e restaurantes.

Em verdade quem vive na Brasília "real" sabe que o convívio existe na entrada de cada quadra, nas bancas, e também em botecos das superquadras, nos pilotis dos blocos. Falo do Plano Piloto. Eu pessoalmente desisti de explicar aos "outros", aos que não vivem aqui: no "inconsciente coletivo", e trabalhado pela grande mídia, na TV e nos jornais, a cidade é só o lugar dos podres poderes, das tenebrosas transações, das falcatruas, da corrupção, capital que vampiriza o resto do Brasil. Sim, isso existe, mas na Brasília "oficial", nos três poderes. Precisarei ser mais explícito, falando das boates luxuosas, das entranhas palacianas, congressuais, judiciais e ministeriais? Mas a cidade real é outra, dos verdes, das mangueiras, do céu límpido, sem mediação, das flores retorcidas e belas do cerrado. É a urbe onde nasceram Clarice, minha filha, e o Lucas, filho do coração, dos meus caros e honrados amigos. Mesmo que a gente diga que a maioria dos velhacos, patifes, corruptos veio de fora, não adianta.

Eu sei, aqui também tem. Alguns deterioraram de maneira irreversível o padrão de vida da cidade, maculando o projeto humanista dos doutores Lúcio e Oscar, com seu populismo desenfreado, com sua prática de dar lotes, com seu desamor à cidade, gerando pólos de violência, trazendo a escória de regiões do Brasil, impondo uma crueldade que banalizou o mal, e que não havia aqui quando cheguei aqui há 30 anos. É a cidade real que eu amo. Por tais razões, optei viver nesta cidade de linhas retas (ótimas para se caminhar e andar de bicicleta). Falem com as pessoas nascidas aqui.

Se viajamos por um período que se torna longo – mesmo que seja para cidades amadas – sentimos o comichão de voltar. Dialoguem com as pessoas reais. Por amor de Deus, não só entrevistem figuras que entristecem o Brasil que só conhecem o Congresso, ministérios, tribunais superiores, restaurantes de luxo ou moças de vida atirada, donas de "barrigas de aluguel" e que praticam a prostituição de luxo. E que só sabem o caminho do aeroporto. Não conhecem uma padaria de quadra, um sapateiro, um chaveiro, um marceneiro…

E o mar? Bate saudade? Bate. O mar me aproxima de Deus. Quando posso, vou para a Bahia sagrada do meu coração, e para a nossa Ilha Santa Catarina (mais longe). Só escrevo o que sinto. Para fazer que alguém creia em mim, é preciso que eu creia primeiro. Isso é Bachelard. Mas "sinto" que não conseguirei convencer "afetivamente" muitas pessoas. Mas amo essa cidade, na qual iria ficar só dois anos. No começo, era muito ruim. Tudo parecia igual, sentia uma agonia misturada com tédio. Agora não. Para escrever, não há cidade melhor. Mas, é claro, é preciso estar bem internamente, saber conviver consigo mesmo. Sem precisar, compulsoriamente, da presença alheia, de festinhas, de badalações, de multidões, de visitinhas de compadre ou de bares. Como alguém já disse, envelhecer não é para frouxos. Conviver bem consigo mesmo também não. Brasília: amo teus verdes, teus espaços (lógico, não a juventude que mata índios, mas a desgraça da violência é nacional), a luz que emana de ti, os candangos e os "fundadores da utopia". Houve um sonho expurgado pelo Golpe de 64. E gosto muito da arquitetura branca e "escultural" do Dr. Oscar. Creio que a Praça dos Três Poderes é uma das 10 mais belas do mundo. Lógico, a de São Marcos, em Veneza, está em primeiro lugar. Dando os trâmites por findos, lembro do final de um belo poema de Mário Quintana: "Cidade de meu andar/(Deste já tão longo andar!)/ e talvez de meu repouso…"

Emanuel Medeiros Vieira, escritor.
"Hoje em Dia", Caderno Brasília, 9 a 15/09/2007.

 

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Lucio Costa reluta em participar. Entrega a proposta em cima da hora e ganha o concurso para o Plano Piloto.

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Dez minutos antes do prazo final para inscrição do concurso para o Plano Piloto de Brasília, Lúcio Costa entra apressado no prédio do Ministério da Educação, no centro do Rio de Janeiro, e protocola sua proposta.

"Era um rabisco e pulsava"
frase do poeta Carlos Drummond de Andrade, sobre o projeto de Lucio Costa

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Brasília (A Lucio Costa)

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"Brasília
 
A Lúcio Costa

Amorosa e clara,
a cidade
 
            voa
 
                 com as próprias
                 asas.
 
Alegorias em pluma,
estátuas no rosto das águas.
Arcos, trevos, o verde.
Eixos geram esperança
na fronte do homem.
 
O lago ama com os braços,
abarcando o equilíbrio.
 
A terra afina os tímpanos
e as perfeitas retinas:
canta nas noites a fonte.
Artérias humanas e urbanas
em suas vigílias:áureas
dádivas: o branco, as superquadras.
 
(O pretérito nos mausoléus,
longe de nossos cânticos.)
 
Amorosa e clara,
a cidade
 
            voa
 
                 com as próprias
                 asas."
 
Poeta Joanyr de Oliveira.
Antologia "Poemas para Brasília"

 

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A cidade

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"A cidade

Antes do tempo, esteve
submersa esta paisagem. Mar
era a atmosfera, e lentos
como peixes os pássaros. Chovia
sempre, e sempre a se derramar
a água formou rios. Sonolentos.
A terra, eterna, se deteve.
Mas ainda no tempo diluvia.
E uma cidade surge, feita
de nuvens, como as nuvens, no ar.
Uma cidade a se continuar -
e em si, diversas. Sem substância.
Para quem vê, à distância,
a cidade, perfeita
na sua construção, surgir
do nada, ainda enevoada;
parece o mar fugir.
E desde que se retirou
daqui, o mar, submersa, sob
as nuvens, e sobrevoada
apenas – ùmida, apesar
da luz – por pássaros sombrios,
jaz a paisagem. E à distância,
longe, onde o atirou
deus, o horizonte. Sempre soube
a terra, que em sua substância
havia altura, e eram frios
os céus incólumes. Pesar
dos pássaros, o azul. Tristeza
a solidão, e nostalgia
a vida. Com certeza
nesta paisagem (pois
submersa, o mar a protegia)
viveram seres sobrenaturais.
Porque foi mar. Depois
de tanto tempo, os litorais
ainda estão onde estiveram.
E é insular esta cidade.
Com ruas que se detiveram;
e nas casas, lugar
para a paisagem. Devagar
a erguemos, com capacidade
para conter o dia.
Surge a cidade, feita
de luz, onde se escondia.
E antes de ser, já é: perfeita".

Octávio Mora, poeta nascido no
Rio de Janeiro.
Antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.


Brasília "nascendo" na prancheta de Lúcio Costa. Arquivo Público do DF


Brasília "nascendo" na prancheta de Lúcio Costa. Arquivo Público do DF

 

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Era um rabisco e pulsava

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"Era um rabisco e pulsava"

Frase  do poeta Carlos Drummond de Andrade sobre o projeto de Lucio Costa para o Concurso do Plano Piloto de Brasília, na época em que trabalhavam lado a lado no SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 


Brasília "nascendo" na prancheta de Lucio Costa.

Fotos: Arquivo Público do DF

 

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