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Desconhecido

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

 

Desconhecido

Tudo o que está preso há de um dia se livrar.
O poema é sempre mais livre que o próprio ar.
Vejam as vozes de madeira encarceradas
em manequins sombrios nos fundos de um depósito
ou mesmo nas feéricas vitrinas onde a treva manietada
cospe iodo.
Vejam como essas vozes de madeira se esforçam
para se safar
para caminhar nos passos de qualquer passante
que lá se vai adiante sem nada
nada notar.
Vejam a enfermeira arrancando da cama lençóis de lodo
depois que levaram o corpo para o último banho
e o quarto se trancou em escamas obsessivas.
Vejam o esforço da aurora para romper esses muros mofados
os olhos trancafiados na sombra até o fim dos abismos.
Vejam que a própria manhã e seus inflamados
leopardos
arrasta uma corrente de repetida exaustão
por essas chamas e esses ruídos de língua nova ou de latim
de asfixiada saudade
fúria de ouro a sangrar sem idade.
Tudo o que está preso há de um dia se livrar.
O poema é sonho mais livre que o próprio sonhar.


Afonso Henriques Neto.
Reproduzido da Antologia "Deste Planalto Central: Poetas de Brasília", de Salomão Sousa.

 

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