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Operação Marajó, com o Brasil Excessivo e o Lago Paranoá

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Operação Marajó, com o Brasil
Excessivo e o Lago Paranoá

 
I
 
A necessária insolvência da emoção.
Débitos e Créditos.
Grandiosa falência do futuroso barão.
Varão adunco com um rasgão no abdômen.
Meio metro de tripas – que fim tiveram?
Noites longas, o corpo a ser aberto.
A incisão exata do cirurgião goiano.
Anestesia deliciosa: prazer do corpo sem corpo.
Quem sabe se o último prazer não é o de morrer?
E seria então a alma a usar o corpo?
 
Rio Paracauarí. Soures, nome lusitano.
Planeta água.
A boca amanhecia adocicada, tudo doce e perfumado,
quase insuportavelmente.
Floresta anestesia. A companheira de mergulho diz:
– “Defesas são para usar, ou não tem porquê”.
Baía de Guajará. O ferry boat atraca na praia
do fundador de Belém do Pará.
Que faço aqui na nação almiscarada?
 
II
 
Corro voando para a capitania do meu domicílio,
ancorada no Paranoá.
O Brasil é excessivo.
 
Esse janelão dando para o Lago Norte
é o que me fascina e constrange.
Não move mais deslocar umbrais,
a completude se impõe.
 
III
 
Vale talvez deslocar espaços.
Queria te encontrar, quem sabe, na Uberabinha legítima,
quem sabe, na Santana do Parnaíba,
quem sabe Paris – onde até hoje nos parimos.
Vale, minha agente sedutora,
a anarquia da sedução estrondando sinos
e a discrição com que rebimbam no folgado
Palácio do Planalto.
Onde os sons mudados repinicam, nheim?
 
Paulo Bertran, poeta goiano
Poema transcrito do livro “Sertão do Campo Aberto”


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O coração do Lago

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O coração do Lago

Pouca gente percebe o Lago Paranoá
Passa por ele como passa um patrão
pelo empregado
Ele, ali, na sua lida costumeira de
umedecer o ar
Pouca gente ouve o Lago Paranoá
Mas seu rumorejo tem um sotaque que fica
Entre Goiás e outro qualquer lugar
Uns poucos pescadores admiram
as poucas garças
Que se admiram da pouca educação desta
tanta tente que não os vê
E, lá dentro do lago, um imenso
coração de água
Pulsa uma lembrança doce de água
De um pequeno olho de água
Onde tudo começou

Vicente Sá, poeta maranhense, natural de Pedreiras.
Poema transcrito do livro “O engenho da loucura”, Gráfica Starprint

 

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Anjo

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Anjo
Agora, devagar ou de repente,
perdida, maltrapilha ou elegante,
pra todo sempre, só por um instante,
deserta ilha, lago, incontinenti.
Fúria contida, alucinada mente,
ainda casta, corrompida amante,
real, etérea, mesmo que inconstante,
lúcida ou feia, trêfega e demente.

Do Lago Sul, à beira da piscina,
ou de um quarto alugado em Taguatinga,
ela virá em sonho ou de verdade,

para dizer que a vida ainda é menina
a brindar, com um gole azul de pinga,
um tempo que se chama liberdade.

Reynaldo Jardim, poeta natural de São Paulo.
Faleceu ontem (1/2/2011), em Brasília.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira


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LAGO DO PARANOÁ

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LAGO DO PARANOÁ
 
as águas
do Lago do Paranoá
logo
       dormem
                     solidões
sem nome
quando chegam chuvas
da lonjura –
a certeza
               das águas
é silenciosa
para descancerizar
a tristeza
da cidade
               sem
                      cais
em chão prateado –
no fundo do Lago
no fundo dos olhos
– uma ventania
                        vinda
de toda a parte
                         azul
é largo beijo
                    úmido
no rosto do cerrado –
onde restou
                   o tempo
                                o ar
embalsamou os mortos
do amor.
 
Ézio Pires, poeta carioca.
Poema transcrito do livro “Brasília: vida em poesia – 36 poetas escolhidos”
Organizado por Ronaldo Alves Mousinho, Valci Gráfica e Editora Ltda – 1996.


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a verdadeira leveza DE ser

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a verdadeira leveza DE ser
 
primeiro foi o mar
Rio…
depois cachoeira e o porto de um lago
cerrado,
cercado de água por todos os lados
 
depois o ar
o impulso
as asas
o alto habitat natural das pedras candentes-
incandescências
 
na vista definitiva do centro fumegante da terra
descubro contigo que a verdadeira leveza de ser é vulcânica
 
Sylvia Cyntrão, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Transcrito “Deste Planalto Central – Poetas de Brasília”, de Salomão Sousa.

 

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O Lago

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O Lago
Por Joanyr de Oliveira

Estas águas paradas
em pura aparência:
navegantes ocultas
do próprio ventre.

Águas de tilápias
e outros ciclídios
de boquinhas grávidas
e de dez espinhos.

Estas águas pardas
de rosto poluído
em dias de pasmo
e semblante lívido.

Água e seus braços
longos no invisível,
fugitivos mares
despojados, insípidos.

Águas fantásticas
de navios prenhes
de salinos pássaros
no mofo das lendas.

Águas deste Lago
sobre as redes do tempo
colhem prédios e faces
descarnadas e leves.

Águas e mais nada:
só os mitos perfeitos
e os sonos pesados
de edifícios e peixes.

Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Transcrito da antologia "Poemas para Brasília"

 

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As águas

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As águas 
Por Conceição Freitas

Esqueça as casas, as pontes, as lanchas, os barcos, as garças, os sargaços. Não deseje o píer, abandone as prainhas, abdique do mergulho, esqueça a linha e o anzol. Não pense que ele está sendo privatizado, que se fechou para o conjunto da população, que é privilégio de poucos. Concentre-se unicamente no espelho d’água do Lago Paranoá. Deite os olhos nele, só e exclusivamente nele.

A lâmina líquida que abraça o Plano Piloto de norte a sul tem o mistério das montanhas e a profundidade dos céus. Peço licença ao mar, o deus das águas infindas, para reverenciar a infinitude das águas candangas. São quase 500 bilhões de litros d’água, tantas canequinhas derramadas no vão do Paranoá quanto nossa imaginação não consegue alcançar. Pense numa caixa d’água de cinco mil litros. Agora, imagine um milhão delas. São as águas do Paranoá.

Tem malemolência, as águas do lago. Quando é dia de ventania, dançam em passos miudinhos, de ondas-bebês, umas sobre as outras, umas ao lado das outras, não fazem espuma nem marola. Em dias de pouco vento, elas tremulam docemente, como se lá no fundo alguém estivesse lhes fazendo cócegas. Coceguinhas. Movem-se em círculos concêntricos, nas margens, escorrem em pequenas ondas espumantes.

Há dias em que o espelho d’água do Paranoá fica em estado de descanso. Estende-se calmamente ao redor do Plano Piloto. Não treme, não ondula, não faísca, não corre. Fica em silêncio, mas não está inerte. Nunca está inerte, mesmo quando aparentemente parece não mover um músculo.

As águas do Paranoá nunca tem pressa. Pelo contrário, são indolentes, mas estagnadas, jamais. Uma gota de lago gasta 299 dias para sair do ponto mais distante até alcançar a barragem. Quase um ano nadando vagarosamente. Desconfia-se que seja o ritmo goiano, de quem com calma assunta o novo território. As águas que caem no Paranoá vem de quatro ribeirões, Torto, Gama, Riacho Fundo e Bananal. Quando chegam ao lago, viram candangas e se transformam no “mais belo monumento da escala bucólica da cidade”, frase que consta do “Olhares sobre o Lago Paranoá”, biografia ecológica e histórica das águas que nos cercam.

Elas mudam de cor de acordo com a hora do dia ou da noite, da vontade do sol e do humor da lua. As águas do Paranoá ora são azuis da cor do mar, ora esverdeadas como esmeraldas, ficam vermelhas com o pôr do sol ou amarelas com a luz da lua ou cinza com a proximidade das chuvas. São escuras perto dos brejos e emitem uma luz prateada em dias sem nenhuma nuvem.

O espelho d’água do Lago Paranoá é um oceano para meus olhos cansados. Aquelas águas me contam que mais coisa pra eu ver, descobrir e aprender nesta cidade que nunca termina, nunca se esgota, nunca é toda escrita e contada. Esta cidade não cabe em mim, vivê-la é muito maior que eu e por isso é bom de doer.

Transcrito do Correio Braziliense, de 24 de junho de 2009.

 

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Crepúsculo sobre o Lago Paranoá

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Crepúsculo sobre o Lago Paranoá
 
Repousa o lago – manso fluir de dorso espiritual,
leito azul-esverdeado na tarde de pássaros enternecidos.
Flora sombria, telhados e paredes,
superfície de meandros contornando a cidade,
alfombras, álacres tonalidades, púrpura evasão,
claridade vertendo cores nas águas.
Densidade obscura e translúcida, estremecimento de fragrâncias,
lívido céu rubro-acinzentado na calma espraiada.
Brisa gélida flui, borbulha o éter anímico,
azul trêmulo de luzir lunar: murmúrios de luz.
Repousa e passa o lago entre fulgores,
ebulição inerte da vegetação, sono dos bosques,
sagração da noite.
Perplexidade, quietude, harmonia,
suave claridade.
 
Márcio Catunda, poeta cearense, nasceu em Fortaleza.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

 

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O LAGO

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O LAGO
 
Estas águas paradas
em pura aparência:
navegantes ocultas
do próprio ventre.
 
Águas de tilápias
e outros ciclídios
de boquinhas grávidas
e de dez espinhos.
 
Estas águas pardas
de rosto poluído
em dias de pasmo
e semblante lívido.
 
Águas e seus braços
longos no invisível,
fugitivos mares
despojados, insípidos.
 
Águas fantásticas
de navios prenhes
de salinos pássaros
no mofo das lendas.
 
Águas deste Lago
sobre as redes do tempo
colhem prédios e faces
descarnadas e leves.
 
Águas e mais nada:
só os mitos perfeitos
e os sonos pesados
de edifícios e peixes.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
"Casulos do Silêncio", de 1988

 

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SERENIDADE

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SERENIDADE
 
Serenidade invade esta noite
o olhar terno de um lago solitário.
Banha-se, brilha e rebrilha,
suave desliza
em jogo humano.
 
Serenidade, partes do fogo
que um dragão te lançou.
És jogo que jogo
e, aveludada,
esta noite
cintila
sem estrelas.
 
Kori Bolívia, poetisa boliviana, natural de La Paz.
(Poema traduzido por Anderson Braga Horta)
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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O LAGO

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O LAGO
 
Estas águas paradas
em pura aparência:
navegantes ocultas
do próprio ventre.
 
Águas de tilápias
e outros ciclídios
de boquinhas grávidas
e de dez espinhos.
 
Estas águas pardas
de rosto poluído
em dias de pasmo
e semblante lívido.
 
Águas e seus braços
longos no invisível
fugitivos mares
despojados, insípidos.
 
Águas fantásticas
de navios prenhes
de salinos pássaros
no mofo das lendas.
 
Águas deste Lago
sobre as redes do tempo
colhem prédios e faces
descarnadas e leves.
 
Águas e mais nada:
só os mitos perfeitos
e os sonos pesados
de edifícios e peixes.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
"Casulos do Silêncio"
Editora Cátedra

 

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