Posts com a Tag ‘José’

José Santiago Naud

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José Santiago Naud está entre os poetas que, em seus versos, alcançam a cidade em sua antevéspera, no ainda por ser, mera promessa, bem antes de sua construção. “O azul era seu domínio/e as chuvas caiam sobre suas escamas/como coisa difícil…”, diz o compositor do “Hino a Brasília”. Enumera sóis, bichos, luas, “o vazio dos conceitos” e passa ao quadro seguinte, quando “…outra forma aceitou/e eis seu destino”. E ocorre a interação, o milagre, quando as mãos humanas amoldam as formas e lhes trazem a essência reclamada pelos milênios, e o agente é também beneficiário desse fiat impregnado de mistérios: “construo-me ao teu contato”. “Eras de pedra/até o momento de nossa ausência”, sim, mas uma argila a doer na solidão, à espera das mãos que, à guisa do Criador, lhe soprariam alma, vida, movimento, multiplicando-a e emprestando-lhe sentido utilitário e também aptidão para a colheita do majestoso e do belo. A harmonia, a recíproca assimilação cidade/homem é uma constante nesse poema. A energia em potencial se desata, se liberta (e “ao trabalho” a somamos): “Arco ou nave/irradiante/é quando levantas,/mariposa dourada,/no meio das sombras/e iluminas o tempo”. Em “Iniciação da cidade”, poema agora composto, José Santiago Naud principia e conclui ligado à nave que aqui está, “na aparência ancorada”, a qual, dada a sua intrínseca leveza, (…) “pode subir”. O vate, com a sutileza e o mistério que sempre o acompanham em sua invenção, colhe “a voz/de quem saltou com a História/e ficou/entre poder e fazer/criando/a cruz acesa das ânimas”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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José Hélder de Souza

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José Hélder de Souza medita: “Esta cidade nova/inventada no cerrado/branco quando envelhecer…estarei morto” (“Brasílico”). Antecipa a nostalgia, a saudade de quem a acompanhou por tantos anos e, um dia, há de experimentar a separação inevitável, decretada pela morte. A “casa sem história” se diluirá mais tarde, mas o vento sudoeste se perpetuará em blandícias, ao brotar nova aurora sobre superquadra cristalina, aquáticas noites…O legado maior do poeta será o descendente, filho legítimo desta terra cujos caminhos pisamos, os demais, os já maduros, na condição de meros adventícios…”Palipalanto” “é uma planta”, explica o poeta, a socorrer o leitor que busca (sem resposta) a informação nos dicionários e enciclopédias. Ele a descreve em minúcias, ensina-nos que ela é o vegetal mais parecido “com uma estrela”, “uma estrela branca”, e é “cheia de raios”. O palipalanto é “luz nas planuras de Goiás”, nas “lonjuras goianas onde brotou Brasília”. Informa o poeta, a lamentar sua existência ameaçada: “(…) está sumindo, cortada, pisada pelos bois,/o boi-latifúndio, boi do frigorifico,/triste boi industrial”. O epílogo são lamúrias: “Palipalanto,/palipalanto não há mais,/não há mais estrelas/nos campos de Goiás”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

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José Godoy Garcia

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José Godoy Garcia, goiano, o mais telúrico dentre  todos, pioneiro, com Antonio Carlos Osorio, na advocacia na nova Capital, engajado como sempre ao lado dos mais humildes, voltado para os mais pungentes dramas do homem de nosso tempo, denuncia as distorções verificadas enquanto a cidade tomava forma. Deplora o haver-se superestimado a fria máquina, os tratores, em detrimento dos operários, dos candangos de cujas mãos brotaram as rodovias e os palácios. Tudo conspirava contra a sobrevivência (ou, a permanência, mais tarde, sob os tetos que eles estenderam pelas superquadras), a sobrevivência dos construtores; todavia, ante tudo o que chegava para soterrá-los, opunham resistência. O amor, o romantismo, nada os sufocava: “Um dia, a mulher chegou./Alguns homens, velhos e novos,/tiveram logo a noticia./Era a primeira que chegava à terra.” A seção número quatro do poema traz para a literatura o mais negro e doloroso dos episódios de que Brasília foi palco, em mais de vinte anos: o drama que se convencionou chamar de “o massacre da Pacheco Fernandes”. “Foram metralhados” (os candangos, em grande número). A madeira curtida/pelo sol/e pela chuva/foi feita em pedaços/(…)/feita em sangue”. Então, interroga o poeta: “Como se faz uma cidade?” Em “As grades, nossa confiança”, Godoy começa com o registro dos dias de insegurança em que vivemos, de violências, de temerárias mãos e, em atitudes de defesa, dos altos tapumes, das grades de ferro como pontas superagudas diante do invasor. A ingênua e sonhadora moça negra da Ceilândia está presente, com seu sonho, no poema em que luta no desfavorável mercado de trabalho. “Brasília me abraça”, revela o poeta em “O flautista e o mundo”, na “1ª Rapsódia”. O “pedaço” em que ele tanto transitou, 706, W-3, o bar são eternizados nos seus versos. E a cidade é mais uma vez objeto de destaque: “Brasília é um sonho que está na mão!/E será sonho! Será fraternidade! Na face da terra, não há mais guerra. Brasília abre seus braços!/Cidade da natureza dos povos”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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José Alcides Pinto

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José Alcides Pinto é autor de "Nascimento de Brasília: a saga do planalto" constituído de poemas longos (menos um) sob os seguintes títulos: "A idéia", "Gênesis", "Primeira geração", "Canção dos pioneiros" e "O planalto enquanto cidade". O poeta, amigo do contista Samuel Rawet e do poeta Joaquim Cardozo, em companhia desses ilustres funcionários da Novacap (Cia. Urbanizadora da Nova Capital) aqui esteve, por diversas vezes, na fase inicial da construção. Em "Canção dos pioneiros", ele testemunha: "(Eu vi o candango triste/cantando sobre o planalto/a canção dos pioneiros/a canção cantava assim:)/O Palácio da Alvorada/não é castelo de mouro/nem coisa do arco-da-velha/nem morada de fidalgo". O poeta traz para o presente, que assiste à implantação da longamente sonhada urbe interiorana, figuras de nossa literatura e de nossa história (Castro Alves, Olavo Bilac, Fernão Dias Paes Leme, Frei Caneca, Tiradentes). "Primeira geração" afirma que "Brasília nasceu assim: da dor e da vertigem"/(…)"nasceu para crescer e virar história". Fala dos que iniciaram as obras e de seus descendentes: "assim como a cidade sem teto discriminação/nasceram os primeiros filhos dos pioneiros/que por seus arredores iam ficando/fazendo outros filhos que iam-se integrando na cidade/como a cal o ferro o alumínio das superquadras/iam eles seguindo o exemplo dos pais/um mundo novo arrebentando de seus pés como um diluvio". O poeta acompanha o progresso, a formação, a composição que vai ocorrendo, irreversível: "Iam crescendo numa ordem rígida/buscando a forma ideal da cidade/(forma/modelo/estilo)/a ordem dos edificios nas linhas puras/(eixo central da cidade)/a Praça dos Três Poderes/o Palácio da Alvorada/a Catedral/o seriado das superquadras/a paisagem de vidro sob as transparentes persianas". O poema homenageia Juscelino, Lúcio Costa, Niemeyer, e enfatiza que "A cidade nascia da determinação de homens rebeldes", aplaude o candango, "agora mais consciente de sua missão", lembra (evocando Euclides) que nossos operários procediam "do norte e do sul do leste e do oeste/homens (antes de tudo) sertanejos/(antes de tudo) fortes-homens/na expressâo mais exata da palavra". E mais: "Ah! Foi no ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:/a mais típica de todas as cidades/a mais socialmente política/(…) que outro nome te dariam se nâo – Brasília ?"
 
Texto transcrito de "Esses poetas, esses poemas", da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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A paina

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A paina
 
A paina leve
plana
e breve dura
      
Por não ser
(inda que sendo)
empluma-se
em ave
ou vela
 
e paira.
 
A paina existe
porque insiste
pois, para ser,
desfaz-se
como quem
desiste.
 
Neve
ou névoa?
Pena
ou pluma?
 
Fina e errática
por um descuido da gramática
a paina,
substantiva inconcreta
nem por isso
é abstrata

Paulo José Cunha
Poema transcrito  da news-letter “Toda poesia é semente”, de Paulo José Cunha

 

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Sob o signo da poesia

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Sob o signo da poesia
Por Joanyr de Oliveira

Entre as primeiras frases que me vêm – ao iniciar este registro em atendimento a honroso convite do prof. Ronaldo Mousinho -, destaco esta, cunhada por Anderson Braga Horta, crítico literário e poeta pioneiro da Capital da República: “Brasília nasceu sob o signo da poesia.”

Em mais de uma ocasião, tenho enfatizado que desde os tempos da chamada Inconfidência Mineira, estava na alma de alguns poetas o impulso em direção ao coração geográfico do Brasil. Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto associavam independência política, soberania, com a região que temos o privilégio de habitar, como partícipes da “Marcha para o Oeste”.

Antes que se definisse a área em que os “insanos” de Juscelino viriam a concretizar uma das mais arrojadas obras de todos os tempos, os vates – reitero – já se voltavam para cá. (Lembremo-nos de que vate, além de quem verseja, é, também, quem vaticina, profetiza, advinha…) Suas almas e mentes anelavam por Brasília – “avant la lettre”, é bom ressalvar, para que nesta assertiva não se veja absurdo, clamoroso anacronismo. Anelavam pela Brasília cuja idealização em documento oficial; quando José Bonifácio, Hipólito José da Costa, Varnhagen e outros de igual quilate erguiam a voz em favor da transferência da capital litorânea para o interior rejeitado e esquecido.

Em 1923, ao que consta, Brasília finalmente se torna tema poético. É a pena de Osvaldo Orico que tem o privilégio de cantá-la pela primeira vez, o que dele fez o vanguardeiro do grande número de poetas que escrevem sobre Brasília. (E, de muitos, se tornam legião se considerarmos, antes, a condição de radicados na nova Capital). Porventura surpreendido com a palavra “legião”, não suponha o leitor tratar-se de força de expressão, de exagero: em pesquisa realizada durante mais de um ano para os livros “Poesia de Brasília e Literatura de Brasília”, a sair, pinçaram-se cerca de 1.000 (sim, mil) nomes de brasilienses que já escreveram e publicaram pelo menos um poema em livro, suplemento cultural, jornal ou revista…

Entre os poetas da cidade por Malraux cognominada “Capital do Século”, temos vários do mais alto conceito, consagrados pela crítica, como o já referido Anderson Braga Horta, José Santiago Naud, Fernando Mendes Vianna, José Godoy Garcia, Lina del Peloso, Oswaldino Marques, Hugo Mund Jr., Cassiano Nunes, Jesus Barros Boquadi, José Helder de Souza, para – sem desmerecer os novos e os outros – ficar apenas em alguns dos veteranos. Enfatiza-se que, de poetas nivelados aos melhores do Brasil, temos aqui mais de uma dezena, o que é deveras impressionante, sobretudo se levarmos em conta a idade desta ainda jovem Capital. Isto posto, não nos deveria surpreender o fato de ser quase incontável o número de brasilienses, (poetas e prosadores) laureados em importantes concursos nacionais e até internacionais.

As antologias editadas em Brasília, algumas delas colocadas entre as de mais alto nível no País, constituem mais uma eloqüente demonstração da importância da cidade que elegemos como nossa.

Com estas palavras, escritas às vésperas do encaminhamento ao prelo dos originais de “Brasília: Vida em Poesia”, associo-me ao querido idealista Ronaldo Mousinho, aos poetas – já bem conhecidos – Ézio Pires, Esmerino Magalhães Jr, Ronaldo Cagiano, Berecil Garay, Amargedon e Danilo Gomes (este também aplaudido cronista), e aos demais autores que nestas páginas se congregam para homenagear a “Capital da Esperança”, no transcurso de seu trigésimo sexto aniversário de fundação.

Transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”, organizado por Ronaldo Alves Mousinho.

 

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Ciro José Tavares

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Ciro José Tavares recorre à mitologia, terreno de sua predileção, em que transita com engenho e arte. Busca o herói tessálico, rei dos lápidas, lançado ao fogo por seu sogro Deioneu. Seria Brasília (ou o poeta) o pássaro vermelho e, como tal, teria, de algum modo, a ver com a personagem condenada por Zeus a permanecer amarrada, para sempre, a uma roda em chamas? O poeta se proclama “…preso ao eixo por centauros”, e completa: “…que diuturnos fiam ocasos com meu sangue.” Mas há o contraponto, os ares benfazejos, como que a anular todo o desconforto e o indesejável, as “…artérias frias”/desnudando ventres de ciclopes no concreto…” e “…o orvalho das manhãs”, a envolver o vate, generosamente, e a saciar-lhe a sede.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Aniversário de Brasília – Cinquentenário em debate

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Aniversário de Brasília
Cinquentenário em debate

A Comissão UnB 50 anos de Brasília reúne-se novamente no próximo dia 21 para retomar o planejamento das ações comemorativas do cinquentenário da cidade. Formado por professores, jornalistas, ex-alunos e decanos da Universidade de Brasília, o grupo vai criar um calendário de atividades para lembrar o aniversário da inauguração da capital federal. Integram a comissão o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Júnior, o chefe de gabinete do reitor, Nielsen de Paula Pires, o chefe da Secretaria de Comunicação, Luiz Gonzaga Motta, o vice-reitor, João Batista de Sousa, e os decanos da UnB Rachel Nunes da Cunha, Márcia Abrahão Moura, Wellington Lourenço de Almeida, Pedro Murrieta Santos Neto e Denise Bomtempo Birche de Carvalho. Ainda fazem parte do grupo os professores da UnB Aldo Paviani, Luís Humberto Miranda Martins Pereira, José Carlos Coutinho, Bárbara Freitag Roaunet, Vladimir Carvalho, Roberto Armando Ramos de Aguiar, Norberto Abreu e Silva Neto, João Antonio de Lima Esteves, Sylvia Ficher e Cristiano Otávio Paixão Araújo Pinto. Completam a lista o jornalista TT Catalão, o secretário Extraordinário de Ensino Integral do GDF; Marcelo Aguiar, a ex-aluna da UnB Ana Maria Lopes e o presidente da Associação de Alunos de Pós Graduação da universidade, James Lewis Gorman Júnior.

(transcrito do Correio Braziliense, 2 de maio de 2009)

 

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DUAS FLORES

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DUAS FLORES

 

Seguindo-se à tristíssima vigília,
         em nome dos candangos de Brasília
chegou José, duas flores na mão.
 
E era uma de um pálido amarelo
         e era a outra de um roxo compaixão:
se numa o sol chorava, doendo as pétalas,
         doía noutra um pisado coração.
 
Mas caindo na tumba as duas flores,
           à queda se quedou mais que intuição.
 
Que toda uma certeza florescia,
           que José se fez símbolo de todos
os josés de Brasília e do Brasil:
            todos josés das bandeirantes trilhas
da agora Estrada Bernardo Sayão.



Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Transcrito do livro "Saga do Planalto"

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