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A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

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Tom Jobim e Vinicius de Moraes no Catetinho, em Brasília

O texto de Antônio Carlos Jobim

Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios. Horizonte: 360 graus. No fundo do “Catetinho” há um capão de árvores altas por onde passa um córrego de água boa e fria. Seguindo-se a água sai-se num campo onde fui muitas vezes escutar o pio das perdizes. Sillêncio nos campos claros, batidos de sol. De repente, de perto, como um grito, veio o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos. Aqueles dois pontos de som escondidos no capim se procuram, aproximam-se, encontram-se e cantam juntos. Uma nuvem passa e sua sombra corre pelos campos. O vento faz ondas nos penachos do capim: dourado, verde, dourado…

Neste ambiente foi composto “O Planalto Deserto”. A música começa com duas

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O texto de Vinicius de Moraes

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

A idéia de escrevermos uma sinfonia celebrando Brasília não é nova. Em fevereiro de 1958, eu, acidentado em um hospital de Petrópolis, conversei pela primeira vez com Antônio Carlos Jobim sobre o assunto. Ainda no correr deste mesmo ano, alguns dos temas musicais aqui constantes já haviam sido compostos pelo jovem maestro.

Houve logo, é claro, quem falasse em “obra encomendada” e outras tolices do gênero, o que feriu certas suscetibilidades de Jobim. E a tarefa ficou postergada para dias mais inteligentes. Até que, de volta de meu posto, em Montevidéu, em junho de 1960, recebi uma telefonada de Brasília. Induzido por esse querido amigo que é Oscar Niemeyer, o presidente Kubistchek, também um velho amigo, convidava-nos para criar, com os técnicos da firma francesa Clemançon, especializada na matéria, um espetáculo “son et lumièrie” para a Praça dos Três Poderes, à maneira dos que são feitos nos principais castelos franceses e em vários outros monumentos do mundo, como a acrópole, as pirâmides e tantos mais para fins de atração turística.

Era a oportunidade. Brasília já deixara de ser um sonho para transformar-se em uma realidade de âmbito mundial. A cidade empreendida por Kubistchek e criada por Niemeyer sobre o Plano Piloto de Lúcio Costa, outro grande caro amigo, erguia suas brancas e puras empenas nas antigas solidões do planalto central de Goiás, em extensões apas¬centadas pela vetustez da terra e pela proximidade do infinito, numa paisagem de oxigênio, silêncio e saudade das origens. O lugar mais antigo da terra, como gosta de dizer Jobim, povoava-se rapidamente; e malgrado as pragas de um grupo de ressentidos, os que preferem governar o país nas proximidades das boates, a cidade crescia em um ritmo alegre de trabalho e confiança, com turmas a se revezarem de sol a sol. De nada valia o pio das aves de mau agouro da imprensa e de alhures, contra o ímpeto maravilhoso do trabalhador brasileiro, que acorreu de todos os cantos do país, sobretudo do norte para erguer aquelas estruturas adiante do tempo e para coabitar pacificamente em uma “Cidade Livre” levantada do dia para a noite com restos de mate¬rial de construção: uma autêntica cidade de “farwest”, só que sem os tiros e bandidos de cinema.

Esboçado o plano da obra, partimos para Brasília afim de estruturar temas e poemas em contato humano com a cidade. Hóspedes do “Catetinho”, hoje tombado como monumento histórico, olhávamos de nossa mesa de trabalho – a mesma em que o Presidente Kubstchek assinou os seus primeiros atos na capital – a silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza. De madrugada, enquanto víamos congelar-se no ar frio o jato ascensional do Boeing 707, escutávamos também o piar das perdizes e dos jaós, entre as surdas rajadas intermitentes do vento do altiplano. Havia em nós esta tristeza que nasce da beleza e palmilhávamos os capões de mato com a sensação do irremediável do tempo. Jobim, caçador experimentado e velho piador de pássaros, arremetia mais longe do que eu. Eu voltava, a partir do lindo olho d`água do pequeno bosque para os meus intermináveis passeios no alpendrado do “Catetinho”, onde ficava a pensar o texto da sinfonia e a esperar a comida simples e gostosa que nos dava a “patroa” de Luciano, o caseiro: o mais antigo funcionário de Brasília. Apraz-me dizer que nunca ouvi, ao longo das horas em que Antonio Carlos Jobim mergulhava no mato, um só tiro perturbar o silêncio das velhas planuras. É minha impressão que o músico perdeu a coragem de chumbar seus coleguinhas alados, mesmo quando constituíam ótimo comestível, como é o caso das perdizes.

Dez dias ficamos assim no “Catetinho”, neste “dolce far niente” de fazer uma sinfonia, com sentinela à porta, pois a princípio os numerosos turistas punham sempre o nariz na vidraça para constatar como íamos de trabalho. De vez em quando dávamos um pulo à cidade para ver os amigos Oscar Niemeyer, José (Juca) Ferreira de Castro Chaves, João Milton Prates, os bravos pioneiros de Brasília, os homens que, com o Presidente Kubistchek, primeiro puseram os pés no planalto. João Milton Prates, herói da FAB, antigo piloto e amigo de JK, grande e bom amigo nosso, esse vinha sempre nos ver, com vitualhas e licores, e tomava pela obra em progresso um interesse quase criador. Um dia exibiu-nos, de sua carteira, a histórica promissória de quinhentos contos, firmada por ele e Niemeyer, com a qual puderam erguer em dez dias o incomparável “Catetinho”. Ao grande Presidente e a todos esses homens, que não têm frio nos olhos, mas cujos olhos se umedeceram ao ouvirem pela primeira vez ao piano os temas iniciais da “Sinfonia da Alvorada”, a nossa comovida gratidão, não só pela confiança que tiveram em nós, como pelo exemplo que nos deram de ânimo, modéstia e espírito de luta.

Falei em piano. É fato. João Milton Prates providenciou-nos o piano, que veio de Goiânia. Ajudados por Luciano e três capangas candangos, nós o subimos a braço para o “Catetinho”, com mais medo de que seus degraus cedessem ao peso do que de um infarte do miocárdio. Naturalmente, pois o “Catetinho” é hoje um monumento histórico, e a estátua do fundador de Brasília parecia apreensiva, sobre o seu pedestal no terreiro em frente, com os restos de nossa operação.

Temos um último e mais íntimo agradecimento a fazer: da parte de Antônio Carlos Jobim a Thereza Hermanny Jobim, sua mulher, e Celso Frota Pessoa, um padrasto que é mais que um pai e que deu mão forte a um jovem estudante de arquitetura cuja verdadeira vocação era a música; de minha parte, à minha mulher Maria Lúcia Proença de Moraes. À “torcida” dos três, sem embargo de uma constante vigilância crítica, nos foi sempre do maior estímulo nesse empreendimento em que dois sentimentos são determinantes: amor pela obra e confiança no futuro de Brasília e do Brasil.

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro de 1961
Transcrito do livro "Catetinho – O Palácio de Tábuas",  ITS Instituto Terceiro Setor.

 

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