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O piloto e o pássaro

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

O piloto e o pássaro
 
                                à JK

E um pássaro
imenso, imponente,
ousado,
futurista, metálico,
pousou no cerrado.
Sentiu o cheiro do
chão,
bebeu águas do rio,
humanizou-se.
Batizou-se por Dom Bosco,
deu Graças a Deus,
e permaneceu em GOIÁS.
 
E o pequeno sabiá,
o joão-de-barro,
o bem-te-vi,
todos os passarinhos
ficaram assustados,
em suas histórias
humildes e sertanejas.
 
E as borboletas
fizeram reverência,
dançando cores,
sobre paus-terras,
pequizeiros e ipês.
 
Era abril.
As paineiras
viraram
damas de honra,
em seus
vestidos
cor-de-rosa.
 
             O piloto
                sorria
                no altar
                da poesia.
                Ousou,
                decidiu,
                transformou
                asas em
                Cidade,
                e proclamou
                a liberdade.
 
Quis
                que as
                vértebras
                do gigante
                alado
                fossem
                harmonia,
                equilíbrio,
                no processo de
                decisão.
 
A cabeça
do grande pássaro
pensava a justiça
pensava as leis
para a regência
da caminhada
dos Homens.
 
              O hemisfério direito,
              comungando o céu.
              O hemisfério esquerdo,
              comungando a terra.
 
O piloto cantava
vitória
no altar da história.
              – Foi plural:
              não sonhou
              sozinho,
              não realizou
              sozinho.
 
O peito do pássaro
pulsava forte,
carregando a emoção
das pessoas
(candangos,
trabalhadores,
operários
da construção)
poetando e
conquistando rumos
para o Centro-Oeste,
poetando e
conquistando
rumos para o Brasil.
E o piloto
apostava
no teste:
trazer
o desenvolvimento
para o Centro-Oeste.
 
Choveram
versos,
em páginas brancas.
Pingaram
cores,
em telas brancas.
Caíram notas,
melodiando
o silêncio.
Ritmaram
passos,
e o palco
não ficou
vazio.
 
O mundo extasiou-se.
Correu,
virou Avenida das Nações
no Planalto Central.
 
GOIÁS abriu o peito
e acolheu
o piloto e
o pássaro.
 
GOIÁS abriu o peito
e acolheu
Minas Gerais.
 
GOIÁS abriu o peito
e acolheu o Brasil,
e o Mundo.
 
E tudo
virou um hino
               ao novo Exupéry,
               o Grande Príncipe,
               o eterno Poeta
               Juscelino.
 
Post de Sonia Ferreira, poetisa goiana.

 

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Discurso de JK na inauguração do Palácio da Alvorada

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

“Entre os conselhos que me deu o venerando e antigo Arcebispo de Diamantina, Dom Serafim Gomes Jardim, no começo da jornada política que me conduziu à chefia do Governo, figurava o de cultivar a virtude da paciência. Vendo-me preparado para enfrentar tempestades, lutas e maldades em viagem tão perigosa, pediu-me o Santo Homem que me munisse de prudência e paciência, elementos indispensáveis e preciosos nessa longa caminhada. Posso, examinando-me detidamente, concluir que não dispensei o conselho amigo e que, se pude realizar alguma coisa de positivo do meu ambicioso programa, sem dúvida o devo a ter medido as minhas forças antes de cada passo, e ter exercido, até ao grau da mortificação, a paciência.

Brasília é um dos frutos da paciência que Deus me deu. Tenho-a mantido ao ouvir críticas e comentários os mais injustos e, mais do que injustos, repassados de incompreensão, esta acirrada inimiga da paciência. A injustiça tem sua origem quase sempre na paixão cega. A incompreensão, entretanto, porque uma forma de injustiça total, é o que mais fortemente acicata a paciência. É a incompreensão o mais escarpado de todos os óbices que devemos galgar, ainda que com as maiores dificuldades, para avançar e prosseguir na rota em que nos empenhamos.

A iniciativa de Brasília tem sido posta em dúvida por alguns setores da opinião pública. Sobre a operação da mudança de nossa Capital se fizeram ouvir, até agora, palavras vãs, erros de apreciação e, principalmente demonstrações que revelam desconhecimento da magnitude do efeito. Mas é preciso frisar que a idéia de Brasília já se enraizou no espírito dos homens de boa vontade, dos que não tem outro interesse e outro alvo senão o de querer arrancar da improdutividade uma imensa extensão territorial brasileira. Minha paciência em não discutir o que sei fruto da falta de visão, em suportar observações improcedentes, não me arrefeceu o ânimo e a resolução de levar avante a empresa que talvez pareça arrojada, mas que é medida inadiável e urgente para a transformação deste país.

Não podemos continuar indefinidamente a ser um território manchado de desertos, com uma população na sua maior parte colada ao litoral, com as mais ricas zonas do nosso território abandonadas e que servem apenas para referências literárias.

O nosso destino de ser grande nação é tão imperioso e forte, que é temeridade contrariá-lo, sufocá-lo. Nascemos com proporções continentais; nossa visão humana não pode ser menos ampla que a nossa realidade geográfica. Não teríamos proposto que se iniciasse um combate tenaz ao subdesenvolvimento em todo este hemisfério, sem que em nosso próprio território tivéssemos dado o exemplo dessa decisão. Esse combate, essa bandeira que acenamos aos países irmãos do Continente, a fim de que se revigore a unidade da América e não se perca o elevado ideal do pan-americanismo, está a exigir de todos os brasileiros decisão e firmeza.

Aproveito esta hora, de importância decisiva para o nosso destino de grande nação, em que lutamos e empreendemos urgentes esforços para assegurar ao Brasil a posição a que tem direito, e diante da responsabilidade que assumimos no campo internacional, desejosos de promover a harmonia e o fortalecimento de todo o Continente, aproveito esta hora para fazer um apelo a todos os brasileiros. O meu apelo é no sentido da paz e da união, não em torno de meu governo e da minha pessoa, que somos passageiros, mas em torno do Brasil, que desejamos eterno, do ideal que nos inspira, para que a nossa voz se faça ouvir forte e clara, acima dos ressentimentos e das dissenções momentâneas.

Mas a luta pelo desenvolvimento deve começar em nosso próprio país. E Brasília é um dos pontos básicos dessa luta de integrar o Brasil no seu território, de fortalecer a nação. Brasília não resulta apenas da obrigação de obedecer a um preceito constitucional: é um marco, é a bandeira de luta contra o subdesenvolvimento. E é mais que isso: é a conquista do que tem sido nosso apenas no mapa.

Não quero perder-me em palavras, nem com elas elevar torres de sonhos. A verdade e a justiça reclamam que o povo brasileiro seja informado e se dê conta de que estamos empreendendo a suspirada marcha para o Oeste, tão decantada e tão prometida, por anos e anos, à nossa gente.

Longe dos olhos citadinos, por entre dificuldades e tropeços de toda a sorte, vamos caminhando na conquista do Brasil. Enquanto nos distraímos e reclamamos nas cidades cheias de luz; enquanto nos empenhamos em debates políticos e outros, há um exército de vinte mil trabalhadores praticando feitos memoráveis no coração de nosso país, entre os quais a construção da estrada que em breve ligará diretamente a nova Capital da República à Região amazônica. É a Brasília-Belém, de dois mil e duzentos quilômetros, dos quais, já estão prontos 1.050. Trata-se, sem hipérbole, do desbravamento da grande selva. Quinhentos e cinqüenta quilômetros se abrem no meio de uma floresta densa, em que as árvores se perdem em alturas que custamos a crer, atingindo algumas até 70 metros. É um pedaço do Brasil que jamais, até hoje, nenhum homem da civilização trilhara. Reino de bichos selvagens, onde apenas alguns índios logram suportar o ambiente hostil.

Vinte mil seres, nossos irmãos, estabelecem a ligação entre a cidade que acaba de nascer e essa Amazônia que deixará de ser a misteriosa terra que Euclides da Cunha descreveu como mal despertando de um sono cósmico. Para se ter uma noção mais completa ainda de que tudo está por fazer nesse mundo de Deus, basta lembrar, aqui, que só agora um rio da importância do Tocantins vai ser atravessado por uma ponte de mil e duzentos metros.

Mas não é apenas essa obra ciclópica que está sendo tocada com rapidez inusitada. O plano de comunicações envolvendo Brasília e toda a região vai sendo executado com a perfeição e urgência possíveis. A rodovia Anápolis-Brasília acha-se concluída, com 130 quilometros asfaltados, estabelecendo assim a ligação indispensável da nova cidade com a Estrada de Ferro de Goiás. Já vai sendo também levada adiante a ligação São Paulo-Brasília. Até aqui só se faziam estradas de primeira qualidade para unir cidades importantes a sítios amenos, de prazer e veraneio. O Brasil oculto, pelo abandono e pelo esquecimento, não merecia grandes atenções. Em 1960 espero em Deus, com o esforço de nossos engenheiros e trabalhadores, que não só esta estrada, mas as outras projetadas também, como Rio-Belo Horizonte-Brasília, sejam entregues ao tráfego.

Vai fazer um ano e meio que desci aqui num campo de pouso provisório. Nada havia ainda. A mão do homem não erguera construção, nem cultivara terra. Era o campo bruto, a solidão, os horizontes rasgados do oeste. Aos pioneiros que deviam iniciar a ofensiva conquistadora cedeu o Exército barracas de campanha. Mas na primeira noite não foi possível a ninguém dormir. Uma onça rondava os pousos dos novos bandeirantes. Já vamos longe desse primeiro encontro que pertence ao dia de ontem, ainda quente, mas que em breve será uma hora na história de nossa civilização. Parece distante, pelo progresso que conquistamos, aquela primeira missa que aqui rezou Sua Eminência o Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, num altar armado no tempo, e cujas sábias e inspiradas palavras guardamos carinhosamente nas páginas iniciais da crônica de Brasília, que o futuro escreverá. O primeiro templo, dedicado à Senhora de Fátima, eleva-se na sua singeleza. O primeiro hotel, correto e moderno, se abre para atender aos que incessantemente procuram Brasília. O palácio do governo está concluído.

Experimento, meus senhores, uma sensação que se assemelha à da tranqüilidade. Vejo que o sonho adquire bases firmes de realidade; que tudo começa a concretizar-se.

Sei que não são pequenos os investimentos, mas sei também que são os mais mutáveis e certos que este país já fez até aqui em favor da unidade nacional e que libertarão o Brasil de muitas limitações. O país, forte e rico de amanhã, pagará facilmente o empréstimo que o país necessitado de hoje lhe faz. Chegou o momento de realizar-se a operação em benefício da saúde do Brasil.

As pequenas soluções não passam de paliativos que permitem apenas enfrentar as dificuldades de todo o dia. A mudança a que estamos procedendo, e que já procedemos, corresponde, pelos seus efeitos, a uma mudança do Brasil. É singular que se inquira de inoportuna e rentabilíssima operação que nos dará posse de nós mesmos, que nos trará possibilidades reais e a curto prazo, se medirmos os dias ao ritmo próprio das nações.

Alega-se que a geração atual está sendo sacrificada por uma idéia que só trará beneficio às gerações futuras. E se assim fosse? Haverá alguma coisa que mais eleve e justifique a vida humana do que essa oferenda de nós mesmos aos que nos sucederão no tempo? Condenar Brasília, porque não é para os nossos dias, e porque é um problema adiável, é atentar contra a verdade três vezes. O primeiro atentado vai contra a cidade mesma que já começa a erguer-se. Veremos, dentro em breve, em pleno funcionamento, a nova Capital dos Estados Unidos do Brasil. Ei-la jovem, mas presente. Outro atentado é alegar que poderíamos adiar a mudança, o que equivale, em termos exatos, a adiar a recuperação do Oeste brasileiro.

Digo e repito, e em dias futuros estas palavras serão mais bem compreendidas do que hoje – Brasília era inadiável. Mas apenas para argumentar – mesmo que não pudessem os homens de hoje ver viva a nova cidade, condená-la por esta razão – eis o terceiro atentado – seria condenar que se lançasse à terra a semente de uma árvore que fosse frutificar quando a mão do semeador se tivesse transformado em cinza. Ainda que esta árvore, que já surge aos nossos olhos com ramos promissores, levasse um século para crescer, não nos teríamos precipitado em plantá-la. Compreendo que alguns duvidem deste empreendimento. É que a razão de se estar mudando a capital para o centro do país é uma razão de fé, de confiança no Brasil. Quem tem confiança no Brasil crê em Brasília.

Tenho fé neste país. A fé que o Brasil me inspira é que me faz enfrentar lutas e cansaços e multiplicar a minha resistência. Não desconheço que as dificuldades que nos cercam são ponderáveis. Quem as conhece melhor do que eu? Mas como tenho fé, e estou apoiado em homens de fé, aí está a nova capital. Aí está Brasília que é, não o fim ou o objetivo de nossas lutas, mas o marco inicial desta dura e difícil jornada em demanda do grande Brasil.”

Discurso do Presidente Juscelino Kubitschek ao inaugurar o Palácio da Alvorada, em 30 de junho de 1958.

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Por que JK fez Brasília?

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Juscelino não tomou a decisão de fazer Brasília e inaugurá-la ainda em seu governo devido apenas à promessa resultante de pergunta inteligente e embaraçosa no comício de campanha da pequenina Jataí, Goiás. Político hábil, poderia ter se livrado facilmente do compromisso. Por exemplo, enviando o indispensável projeto de lei, como de fato fez em abril de 1956, e deixando a oposição inviabilizá-lo. Para isso, bastava cruzar os braços. Outro caminho: formar comissão técnica ou grupo de trabalho e esperar o tempo correr, como no passado. Manter a discussão ativa e a decisão em banho-maria. Ou ainda estimular a exumação da velha disputa política entre Minas e Goiás para sediar a nova capital. E assim por diante.
A decisão foi complexa e anunciada à última hora. Não integrava nem as diretrizes iniciais ditadas pelo presidente eleito à equipe responsável pelo célebre Plano de Metas. Por isso teve de virar meta especial, meta-síntese, atropelando o planejamento geral do governo e assustando para sempre técnicos da envergadura de Lucas Lopes e Roberto Campos.
O que terá acontecido? Por que a construção de Brasília, que parecia fora dos planos, de repente se torna a meta capital? Resposta provável: porque o instinto kubitschekiano disparou estridentemente. Era fundamental livra o governo da vulnerabilidade presente no Rio de Janeiro, da instabilidade política, dos evidentes indicadores de ingovernabilidade, fugir dali, sair o mais depressa possível. Felizmente, já havia meio caminho andado. A polêmica construção da nova capital não era invenção dele. Vinha da Inconfidência Mineira e já entrara em três Constituições, inclusive na que estava em vigor, a de 1946. e não menos importante: já existia legislação definindo o sítio, o local. Se conseguisse tirar a nova capital do papel, redefiniria a agenda política e deslocaria apreciavelmente
o eixo do debate político nacional para a questão da própria transferência. Até porque ela envolvia interesses fortíssimos e contraditórios dos próprios parlamentares, dos militares, da imprensa, das empresas de construção civil e outras, do funcionalismo, da cidade do Rio de Janeiro como um todo, palco e tambor do país. Sim, se conseguisse, alteraria a posição relativa do presidente até mesmo no poderoso e perigoso fogo cerrado político-militar local. Tão envenenado que levara Vargas ao suicídio com tiro no peito menos de dois anos antes (24 de agosto de 1954), fato que traumatizara o país. Sua carta-testemunho continuava influenciando profundamente a atividade política. Continuará pesando muito nos anos seguintes. Em tom patético, Vargas faz acusações aos adversários, denuncia a finança  internacional e seus agentes, pinta dramaticamente a própria tragédia. Fragmentos:
 
"Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue; (…) Mas esse povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém; (…) Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".
 
Forte referencial político. Juscelino e seu governo estão bem no coração de velho e intenso tiroteio.
Mais: no final de 1955, tinha acontecido o impedimento por alegada doença do presidente Café Filho e o afastamento de seu substituto legal, o presidente da Câmara, deputado Carlos Luz (novembro de 1955), no contexto da já mencionada tentativa de golpe contra a posse de JK (a Novembrada), eleito no mês anterior com 36% dos votos. O udenista Juarez Távora, general, teve 30% e Adhemar Pereira de Barros, do PSP, ex-governador de São Paulo, 26%. Os adversários de Juscelino argumentavam que a eleição tinha sido ilegítima, porque ele não obtivera maioria absoluta, o que a legislação da época, entretanto, não exigia. JK só não caiu porque o general Lott, ministro da Guerra, virou a mesa e o jogo: liderou contragolpe que alijou o presidente interino Carlos Luz. O afastamento do presidente Café Filho foi atribuído a distúrbio cardiovascular, desordem nas coronárias. Mas o Barão de Itararé, em nome do bom humor carioca, corrigiu para desordem nas "coronelárias". E depois, em relação ao contragolpe que barrou a posse do deputado Carlos Luz na Presidência da República e garantiu a eleição de Kubitschek, trocadilhou: "No Palácio do Catete, em 11 de novembro de 1955, faltava Café e Luz, mas tinha pão de Lott". A questão de fundo dos golpistas era outra: consideravam Kubitschek demasiadamente comprometido com o varguismo. Apesar de pessedista, todo mundo sabia que ele teria sido o candidato do petebista Vargas a presidente. Como governador de Minas, cultivara forte relacionamento político com ele, acompanhara e sofrera todo o seu drama. O amigo, conterrâneo e correligionário Tancredo Neves, ministro da Justiça de Vargas, com certeza lhe relatou a morte do presidente:
 
"Nesse momento, nós ouvimos o estampido de um tiro e de imediato entrou em nossa sala (no Palácio do Catete, Rio de Janeiro) o coronel Dornelles, Hélio Dornelles, que estava servindo de ajudante-de-ordens do presidente naquele dia, já dizendo: "O presidente suicidou-se." Então subimos imediatamente pelo elevador interno e chegamos ao quarto em que estava o presidente. Ele estava realmente com meio corpo para fora da cama, um borbulhão de sangue saindo pelo coração. Segurou ainda a minha mão, quando Alzira [Alzira Vargas, filha do presidente] e eu colocamos o seu corpo no leito. Procuramos acomodá-lo para lhe dar mais conforto e ele, ainda vivo, lançou um olhar assim… cincunvagante, procurando alguém, até que, em certo momento, ele identificou Alzira e nela se fixou e aí morreu."
 
O mesmo Tancredo dirá posteriormente:
 
"Dizem que a camisa ensangüentada de Lincoln fez sete presidentes da República nos Estados Unidos. O suicídio do Getúlio fez fatalmente o Juscelino. (…) Eu acho que o suicídio teve realmente como conseqüência a eleição do Juscelino. Mas o suicídio também adiou 64. Se não fosse o suicídio de Vargas, 54 já teria sido 64. Você verifica: as lideranças de 64 são as mesmas lideranças de 54. Com os mesmos objetivos. Sessenta e quatro foi uma revolução de direita, uma revolução conservadora, uma revolução nitidamente pró-americano, feita inclusive com a participação deles, americanos, que já tinham participado em 54."
 
Sim, emoldurado pela Guerra Fria, o golpe está latente há muito tempo. O clima político-militar do Rio de Janeiro é muito pesado, ameaçador. Ele é a capital, a caixa de ressonância do país, o centro de decisões, onde as principais coisas do poder acontecem. E também a maior, mais perigosa e poderosa concentração de opositores civis e militares a Kubitschek. O primo e confidente Carlos Murilo Felício dos Santos explica:
 
"Ele estava muito impressionado com os problemas do Rio de Janeiro. Qualquer coisa ali balançava o governo. Bastava jogar o povo na rua ali em frente ao Palácio do Catete. E tanques iam para a rua e era aquele negócio perigosíssimo. Ele já tinha essa preocupação antes de assumir o governo. A saída era trazer a capital. Não só para cumprir a Constituição. Mas porque estrategicamente era importante para o governo vir para o interior. E com isso lançaria uma plataforma para desenvolver a Amazônia e o Centro-Oeste. Daí ele ter incorporado Brasília como meta-síntese do governo."
 
Márcia Kubitschek contava que seu pai tomou a decisão de fazer Brasília instantaneamente, de estalo. Primeiro, porque ele queria mudar o Brasil, desenvolvê-lo economicamente, para que deixasse de ser um país basicamente agrícola e praticamente limitado ao litoral. Daí a virada para o interior. Em segundo lugar, para cumprir a Constituição, porque era um democrata. Ela viu a decisão assim:
 
"Acho que foi uma inspiração divina. Deu um clique na cabeça dele. Não somente ele estaria cumprindo a Constituição como cumprindo aquele que era o seu segundo sonho: integrar o país, fazer do Brasil uma totalidade, uma coisa completa, inteira. Foi uma inspiração divina e, após ter esse pensamento, ficou inteiramente dominado por ele. A partir daí começou a estudar melhor o assunto e viu as potencialidades e concluiu que Brasília seria um chamariz para que o Brasil ocupasse o Centro-Oeste, a Amazônia, o Pantanal. Um centro irradiador de desenvolvimento. Antes, essas regiões pareciam coisa de fantasia, contos de fada. Naquela época, quando a gente falava de Amazônia, parecia que falava da lua, de algo remoto. Ninguém conhecia o Brasil."
 
Márcia não tinha dúvida de que Juscelino de fato considerava o Brasil praticamente ingovernável do Rio de Janeiro. Contava que ele sempre deixou isso muito claro nas conversas em família:
 
"Essa sua análise é perfeita. Ele me dizia sempre o seguinte: "Uma greve de bonde no Rio de Janeiro pode derrubar um presidente da República. Você construindo Brasília – como ele a imaginava: a capital do terceiro milênio – estará protegendo a democracia, porque não terá mais as turbulências que o Rio de Janeiro, com sua superpopulação, gera." Ele sempre nos dizia que o Rio de Janeiro era um caldeirão em potencial de problemas para impedir de governar o Brasil."
 
Dizia e depois agiu e escreveu sobre o assunto. Pôs num dos livros de memórias capítulo com o seguinte título: "Contraste entre a situação no interior e no Rio". Nele, aponta a atmosfera de agitação e golpismo que se respirava no Rio. Observa que ali se usava e abusava do nome das Forças Armadas, inclusive para tentar intimidá-lo. Lembra que no réveillon de 1954, ainda governador de Minas, incluiu em mensagem ao povo brasileiro: "Invectivas e calúnias não me farão recuar. Poupou-me Deus o sentimento do medo". No interior, era o contrário. Mesmo os udenistas não se mostravam "envenenados". O ambiente era de paz, trabalho, expectativa de eleições tranqüilas. Juscelino conta que num discurso da campanha presidencial de 1955, em Belém do Pará, perdeu o controle e desafiou os adversários:
 
"Não é possível que cinqüenta cidadãos na capital da República estejam a inquietar e a ameaçar 50 milhões de brasileiros."
 
Claro que na decisão da mudança pesaram os antecedentes históricos, os méritos do projeto e o amadurecimento da idéia. Particularmente o preceito constitucional e a definição formal do sítio. Sem eles, seria politicamente impossível concluir Brasília no qüinqüênio de governo: Kubitschek era sinceramente simpático à causa. Principalmente pela visão e vivência que tinha do desenvolvimento do interior e da integração nacional. Homem nascido e criado no interior, governador de estado mediterrâneo, não se conformava em ver a população e a economia tão concentrados na faixa litorânea. Via no vazio interior gigantesco deserto fértil. Não era mudancista de ocasião. Na Constituinte de 1946, por exemplo, tinha lutado pela transferência para o Triângulo Mineiro. Juscelino era homem de grandes desafios e até de aventuras desenvolvimentistas. Provara isso na Prefeitura de Belo Horizonte – cidade planejada por comissão liderada pelo engenheiro Aarão Reis no final do século XIX para ser a nova capital mineira, substituindo Ouro Preto, antiga Vila Rica – e no governo de Minas. Tinha experiência urbanística arrojada, inovadora e vitoriosa: a Pampulha, então belíssima vitrine, com sua arquitetura precursora da brasiliense. Sabia que podia contar com Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro e outros aliados de gênio. Isto é, sabia que tinha equipe para concretizar cidade moderna, revolucionária, diferente, especial. Uma cidade do futuro, quase uma utopia, marca de sua grandeza de espírito. De sua dimensão de homem público.
Quanto a recursos, dizia que sairiam de sua cabeça. No fundo, como visto, achava que fazendo desenvolvimento tudo o mais, inclusive as finanças públicas, se acertaria naturalmente. Automaticamente. Também importante é a percepção do profundo significado político de um grande sucesso na construção da nova capital. Seria a glória. Pessoal e política. Apesar de envolver enorme risco, praticamente um salto no escuro, o projeto tinha muitos atrativos. E não fazê-lo significava perigo ainda maior: ingovernabilidade, conflito, risco de deposição.
Triunfos respeitáveis. Mas a correta percepção do quadro de ingovernabilidade instalado no Rio parece ter sido decisiva. Do seu governo constrangido, acossado, quase sitiado fisicamente. Agredido e por muito pouco não abatido antes mesmo de começar. Na Novembrada. No Rio, sujeitava-se a crises políticas provocadas por qualquer espirro político mais forte de algum general, almirante ou brigadeiro intervencionista. Inclusive do V Exército, o de pijama, muito presente e nada inativo politicamente. Aos jogos dos opositores com os quartéis, aos excessos oratórios e acusatórios das lideranças políticas, ao julgamento e sentença cotidianos da grande imprensa. Até a manifestações de rua dos estudantes contra preços de comida, bondes ou cinema.
Não, no Rio a vulnerabilidade da Presidência da República tinha se tornado excessiva, insuportável. Expunha-se perigosamente. Crises e ameaças de crise rondavam o Catete havia anos. Por terra, mar, ar, parlamento, imprensa e tudo o mais. Turbulências, intervenção militar sempre latente. Sensível, Kubitschek, eleito com apenas 36% dos votos, sabia que não podia governar direito de dentro de um campo política e militarmente minado. Ainda mais com vários paióis na cidade, todos abarrotados de explosivos, e a UDN e seus simpatizantes militares riscando fósforos tão perto, soltando busca-pés quase diariamente. E tantas feridas abertas, ódios, ressentimentos. O trauma da morte de Vargas ainda presente em tudo. Era urgente e inadiável abrir novos caminhos, romper o cerco, arejar, escapar do sufoco político. Não governar acuado, ameaçado até por trapalhadas e erros alheios, bombardeado por intrigas, denúncias, calúnias, difamações, mentiras, meias verdades, suspeitas et caterva. Era preciso quebrar aquele processo. Então, por que não incluir na agenda política a construção e a mudança da capital? Afinal, consta da Constituição, conta com razoável apoio político e é bem-vista por grande parte das Forças Armadas. Ocupação territorial, integração, interesse da segurança nacional. Trocar não apenas o cenário, mas o palco principal. E reescrever a peça, incorporando algo novo, polêmico. O tema é vigoroso, instigante. Pode contribuir para exorcizar o diabo danado do intervencionismo militar. Atrapalhar os jogos dos adversários com a imprensa e os quartéis. Dar ao presidente da República maior liberdade e amplitude de movimentos. Governar com um pé no Rio e outro no Planalto. Lance de mestre. No xadrez político e na guerra do desenvolvimento.
 Kubitschek analisa o que acontece depois da capital em Brasília:
 
"A mudança de cenário prejudicara, de fato, a UDN. Quando Adauto Lúcio Cardoso discursou na Câmara, exigindo o cumprimento da promessa, feita pela maioria, de que daria número para a constituição de uma CPI – logo após a inauguração de Brasília – contra a Novacap, sentiu que sua eloqüência se perdera no vazio. Onde o tumulto das memoráveis sessões no Palácio Tiradentes? Onde as "crises nacionais", provocadas pela Oposição, quando a imprensa contrária ao governo fazia coro com a Banda de Música udenista? A tranqüilidade da atmosfera do Planalto não era propícia aos arroubos tribunícios."
 
Mais:
 
"Sempre soube o que queria. Sempre soube querer. E isso explica Brasília. (…)
Não parei, não descansei, não ouvi os cépticos nem os temerosos. E o resultado aí está: Brasília – a Capital da Esperança, que já nos deu, em dias recentes e conturbados, uma prova da inestimável vantagem da transferência da capital para o centro do país. A democracia brasileira dificilmente poderia resistir a uma prova como essa a que foi submetida no segundo semestre de 1961 [renúncia de Jânio], se a sede do governo federal tivesse continuado no Rio de Janeiro. Foi Brasília fator preponderante na manutenção do clima de ordem e confiança que permitiu ao Congresso reunir-se com a necessária liberdade de movimentos e deliberar sem agitações e pressões de massa. Brasília só por isso já estaria justificada. Em seu primeiro embate, a nova capital restituiu ao Brasil, na manutenção do regime, muito mais do que tudo quanto os mais exasperados críticos possam ter calculado que custou aos cofres públicos".
 
Esse texto é do início de 1962, época do parlamentarismo com Tancredo Neves primeiro-ministro e João Goulart presidente, chefe de Estado. Ele sinaliza claramente que Juscelino tinha mesmo se convencido de que presidir do Rio de Janeiro se tornara temerário, quase suicida. Era expor-se à crise, ao golpe, à deposição. De outro ângulo, Roberto Campos considera Brasília a cidade anti-Richter. Ele se refere à escala logarítmica de Richter, usada para medir magnitude de terremotos. Seu máximo é nove. Ele vê Brasília distante de tudo:
 
"Um terremoto social de grau seis ou sete em São Paulo, quando chega ao Rio, com praia e mulheres e tal, já é grau quatro, e quando chega a Brasília já é grau um ou dois. Um pequeno tremor. Então a capacidade de percepção das angústias e das prioridades é muito rarefeita em Brasília. Seria muito mais intenso numa grande cidade. Havia uma idéia – não sei se foi o Juscelino quem vendeu aos militares ou o contrário – de que seria muito mais fácil defender um governo de revoluções se uma boa parte das Forças Armadas tivesse por base Brasília. Brasília seria difícil de atingir. No Rio, uma rebelião comum podia resultar em invasão de quartéis e bloqueio do governo. Em Brasília, a coisa é muito mais defensável. Se você põe um canhão no começo de uma avenida, uns tanques, toda a circulação fica bloqueada, não é? Mas isso eu acho que não foi assim uma preocupação fundamental do Juscelino, foi uma coisa ancilar. Defender o governo de motins".
 
Ainda segundo Campos, Kubitschek pode ter visto a mudança para Brasília como fator de redução do poder e influência da grande imprensa carioca e paulista de então:
 
"JK dizia, parece-me que era um chiste, que faria a nova capital para reduzir o poder de quatro senhores: Dantas, Roberto Marinho, Bittencourt e Mesquita. Eu o ouvi falar nisso uma vez, numa tarde talvez de depressão. Ele disse que o Brasil tinha quatro ditadores que mereciam ser reduzidos à proporção de tiranetes de província. E Brasília fa-los-ia diretores apenas de jornais de província. Citava o Roberto Marinho, com O Globo; Orlando Dantas (sic), com o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro; o Frias (sic), com a Folha de São Paulo; e o Júlio Mesquita, com o Estado de S. Paulo. Então, esse desejo de evitar o predomínio opressivo dos "tiranetes de imprensa" pode ter sido uma motivação, acredito que secundária".
 
José Sarney, na época deputado federal pela UDN do Maranhão, concorda: o presidente Kubitschek queria seu governo longe do Rio de Janeiro, fugir do Rio de Janeiro:
 
"Com o tempo, foi se consolidando a minha visão de que o Juscelino, se tivesse permanecido no Rio de Janeiro, teria sido deposto. Porque ele ganhou a eleição com margem de votos muito pequena. E tinha uma resistência política de grande magnitude; uma reação popular, no Rio de Janeiro, grande; uma resistência militar também de grande alcance, por causa das ligações com Vargas. Então, num gesto extremamente político, ele fez exatamente o que Dom João VI fez quando acossado pelas tropas de Napoleão: fugiu para o Brasil. O Juscelino fugiu para o Planalto Central. E aqui, com a imagem da construção de Brasília, com o símbolo de Brasília, conseguiu fugiu do fantasma da deposição que rondava o seu governo e das dificuldades maiores que o cercavam. Essa é uma síntese, a meu ver, do que ocorreu com a determinação de Juscelino de construir Brasília. Estou de acordo: não era só a construção de Brasília. Era um gesto político que significava muito mais: evitar que o Brasil tivesse um enfrentamento no processo democrático durante seu governo".
 
Mas, se é prioritário e urgente, por que não mudar para Goiânia, bela cidade planejada, de 1942? Afinal, ela pode ser preparada muito mais rapidamente e a custos incomparavelmente menores. Ou para o Triângulo Mineiro, como o próprio Juscelino tanto queria na Constituinte de 1946?
Simplesmente por ser inviável. Governo e aliados não tinham tempo nem condições de zerar a batalha da localização no Congresso, começar tudo de novo. Seria mergulhar na imprevisibilidade, estourar o prazo, engessar o projeto, matá-lo. Era indispensável aproveitar o que estava pronto e formalizado. Acelerar o projeto, arrancar os instrumentos do Congresso, começar rapidamente a execução. Homem de desafios, experimentado empreendedor e vocação para o grandioso, Kubitschek não se entusiasmava com a mudança para cidade existente. Queria fundar cidade moderna, símbolo de um novo Brasil, orgulho do povo. A capital de Juscelino.
(…)
Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

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Meu pai, JK e a foto

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Do Baú do Velho Ranja

Meu pai, JK e a foto

 


José Rangel e Márcia, filha de JK

Um certo dia, meu pai, Eustáquio Rangel de Farias, funcionário público, orgulhoso chefe do Escritório do IBGE, em Taperoá, na Paraíba, onde nascemos, escreveu uma carta para o presidente Juscelino Kubitschek. JK respondeu, em missiva escrita de próprio punho. Foi o suficiente para granjear a admiração do meu velho por toda sua vida, a qual expressou em vários gestos. Deu nome às minhas primeiras duas irmãs de Stella e Márcia, como gratidão pela atenção recebida do presidente sorridente.
Lembro de uma cena dos meus sete anos de idade, durante uma recepção à JK ocorrida na Praça da República, no centro de Campina Grande, pendurado na sua cacunda no afã de avistar o ilustre visitante em meio a multidão aglomerada no local. Meu pai repetia: "levanta o lenço, filho". E obedecendo, eu fazia coro com meu aceno a milhares de lenços brancos que ovacionavam JK naquela tarde luminosa e inesquecível.
Muito distante daquele dia memorável, corria o ano de 1986 e Brasília se preparava para realizar sua primeira eleição para escolha dos seus representantes – deputados e senadores – no Congresso Nacional. Apresentado pelo o amigo e veterano jornalista mineiro Sérvulo Tavares, acabei contratado por Ildeu de Oliveira, primo de JK e coordenador da campanha, para atuar como assessor de imprensa da candidata Márcia Kubitschek, eleita naquele pleito, deputada federal.
Na hora de combinarmos o salário para a tarefa, contei a ela a história e a admiração do meu pai por Juscelino. E fiz a seguinte proposta: caso fosse eleita, ao invés de receber em dinheiro, nós dois tiraríamos uma foto no Congresso, ela faria um autógrafo ao meu pai e esse seria o pagamento pelo meu trabalho na campanha. Assim se deu e esta é a história desta foto.

Velho Ranja, nasceu em Taperoá, poeta

 

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11 de novembro de 1956

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Sayão se muda para Brasília – No dia (10/11/1956) da inauguração do Catetinho, JK pede a Sayão que se mude para a área, onde não havia ainda moradias. "Que dia o senhor quer que eu esteja aqui?", perguntou Sayão. "Ontem", respondeu JK. Sayão despede-se e vai embora. No dia seguinte, 11 de novembro de 1956, às seis horas da manhã, um caminhão chega ao Catetinho. É Sayão com a mulher e duas filhas. Encontra-se com JK: "Pronto, chefe, aqui estou para cumprir suas ordens". JK pergunta aonde vai se instalar com a mulher e as duas meninas: "Primeiro, debaixo daquela árvore e, depois, armarei uma barraca". Uma de suas filhas – Lia Sayão conta: "Chegamos em novembro de 56. Foi a primeira família de engenheiro a vir. Meu pai era diretor-administrativo da Novacap. Chegamos no começo de tudo. Moramos numa casinha pré-fabricada, de eucatex. Em menos de mês fizeram a casa inteira. Mas quando a gente chegou, ainda não estava pronta. A nossa terminou com a família dentro. Era ali onde hoje é a Candangolândia, na rua do Sossego. Meu pai gostava muito de estrada, de construir estradas. Vocação, eu acho. Primeiro fez a ligação de Goiânia a Brasília. Foi a primeira obra. Os trechos que haviam eram de estrada de terra. Faltava muita coisa, inclusive as pontes. A do Rio Areias foi a que demorou mais. Depois asfaltou tudo, ficou ótimo. Ele achava que o material para Brasília precisava vir de mais perto. A comida, tudo. Mas ele também olhava Brasília inteira em 1957 e parte de 1958. Não parava. De manhã, tinha sempre muita gente lá em casa. No começo, mesmo com distribuição de lotes, ninguém queria vir. Meu pai trouxe muita gente que trabalhou com ele na criação da Colônia Agrícola de Ceres (Marcha para o Oeste, de Getúlio Vargas). E também de Anápolis e Goiânia. Era para Brasília funcionar"

 

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Em cima de um caminhão, JK promete cumprir a Constituição e transferir a capital para o Planalto Central

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Foto: Arquivo Público do DF

"A idéia que fora posta em movimento no comício de Jataí, já dispunha de velocidade própria"
Frase de JK

— Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão para que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.

Aplausos e mais aplausos daquele povo acostumado a ser esquecido pelos governos. O autor da pergunta, Antônio Soares Neto, o Toniquinho, se assustou com o repentino sucesso. Havia pouco anos, ele tinha estudado a Constituição para um curso de tabelião de cartório.

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12 de outubro de 1956

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Surge a idéia de construir uma casa (o Catetinho) para dar de presente a JK, no local onde seria construída a nova capital. Como foi: apartamento número 512, do Hotel Ambassador, no Rio de Janeiro, onde se hospedava César Prates, seresteiro mineiro. O grupo de amigos do presidente JK (João Milton Prates, José Ferreira (Juca) Chaves, Roberto Penna e César Prates) conclui que não ficaria bem o Presidente da República "pousar em barraca". Daí a sugestão de ser construída uma casa de madeira. Do apartamento, o grupo desce para o "Jucas Bar", no hall do hotel, onde Niemeyer e outros amigos (Dilermando Reis, Emydio Rocha e Vivaldo Lyrio) os aguardam. Apresentada e logo aprovada a idéia, Niemeyer pede papel ao garçom Osório Reis e ali mesmo esboça o croqui do que seria a "casa presidencial"; (Trecho extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto)

 

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02 de outubro de 1956

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JK em sua primeira viagem ao local onde seria erguida a nova capital
Foto: Arquivo Público do DF

Primeira viagem de JK ao local da futura capital: "Uma aventura. Não havia acesso ao local. E a Presidência não dispõe de helicóptero. A viagem tem que ser de avião, mas não existe pista de pouso. A solução é mesmo o veterano Douglas DC-3.

Lento, barulhento, desconfortável, mas com capacidade para dezenas de passageiros, econômico e seguro. Um grande jipe alado. O mais recomendável é seguir, via Goiânia, situada a cerca de duzentos quilômetros do local. Depois, voar de teco-teco até Planaltina, pegar um jipe e seguir trilha aberta no cerrado até o destino.

Mas JK resolve ir direto, aterrisar numa fita de terra desbastada no cerrado bruto pelo engenheiro Bernardo Sayão, na época vice-governador de Goiás. Uma pista com formigueiros e praticamente nivelada.

O DC-3 decola do aeroporto Santos Dumont às 07:45 do dia 02 de outubro de 1956. Além do presidente, leva o general Teixeira Lott, ministro da Guerra; o almirante Lucio Martins Meira, ministro da Viação e Obras Públicas; o governador Antonio Balbino, da Bahia; o general Nelson de Melo, chefe da Casa Militar; o brigadeiro Araripe Machado; Israel Pinheiro, presidente da Novacap; Oscar Niemeyer; Régis Bittencourt, diretor do DNER; o coronel Dilermando Silva; o doutor Ernesto Silva e Octávio Dias Carneiro. Quatro horas de vôo.

Na chegada, JK avalia o cenário. Conclui que é chato e amplo. Um descampado sem fim, com suaves ondulações, que não ultrapassam duzentos metros. Ele vê a cruz fincada pelo marechal José Pessoa no ponto mais alto e, pouco depois, a fita de terra vermelha improvisada por Bernardo Sayão (onde hoje está a Rodoferroviária).

Octávio Dias Carneiro preocupado, pergunta a JK se é mesmo ali que vão pousar. Denso silêncio. O avião se posiciona, dá uma guinada e inicia a descida. Pancada dos pneus batendo no chão àspero, muita poeira, corações disparados, taxiamento e pronto. Alguns trêmulos, mas todos salvos. JK sorridente e entusiasmado. Descem e vêem pendurada num pau fincado ao lado da pista precária, tabuleta em que algum brincalhão ou exagerado escreveu: Aeroporto Vera Cruz. São 11:40 e o sol bate forte, fortíssimo. Calor de estalar mamona e luminosidade de apertar os olhos. O céu é indescritivelmente lindo

O governador goiano José Ludovico de Almeida, Bernardo Sayão, Altamiro Pacheco e outras autoridades levam a comitiva para um toldo de lona. Numa rústica mesa de madeira, o presidente JK assina o primeiro ato oficial de Brasília: a nomeação do novo ministro da Agricultura, Mário Meneghetti"

(Depoimento extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", Ronaldo Costa Couto, 2006)

 

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