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Apaixonados por Brasília

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Apaixonados por Brasília
Por Leilane Menezes
 
 
As 36 horas de viagem do Rio de Janeiro a Brasília não foram suficientes para acabar com a empolgação dos 150 policiais militares que desembarcaram na então nova capital em 15 de fevereiro de 1966. Eles foram os primeiros PMs da cidade. Chegaram para formar a 1ª Companhia Independente de Brasília, a substituta da Guarda Especial de Brasília (GEB), responsável pela segurança pública no DF desde a inauguração da cidade. Na terça-feira passada, completaram-se 45 anos dessa história.
Os homens vieram em três ônibus velhos. Os veículos quebraram no meio do caminho diversas vezes. Sob o comando de Abenante de Mello e Souza (coronel da reserva remunerada já falecido), o grupo deixou, às 9h30, a rua Clarimundo de Melo, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro, rumo ao Planalto Central. Os termômetros marcavam 38º C. Na bagagem, os jovens policiais trouxeram somente o essencial: poucas mudas de roupa, escovas de dente, água e alguma comida. As famílias ficaram para trás.
Esses policiais foram transferidos para Brasília por meio do Decreto-Lei número 4.242, de 17 de julho de 1963, de autoria do senador Santiago Dantas. A medida ficou conhecida como Lei da Opção.
Houve concorrência para mudar-se para a capital. Mais de 3 mil homens ofereceram-se. Desses, a principio, somente 150 foram selecionados. Meses depois, outras centenas vieram. Eles ficaram conhecidos como “optantes”.
 
A chegada
 
Entre os primeiros escolhidos, estavam o capitão Jorge Mendes Maciel Eunack, hoje, aos 75 anos, aposentado. “A viagem foi difícil, acidentada, quebrou o para-brisa de um dos ônibus. Na maioria das paradas que fazíamos durante o trajeto éramos bem recebidos”, disse o capitão. Ao chegarem a Brasília, em uma terça-feira, desembarcaram em frente ao prédio feito especialmente para acolhe-los, o Forte Apache, onde hoje fica o Setor Militar Urbano. O local ganhou esse nome por se tratar de um barracão de madeira.
O primeiro a sentir o solo candango sob os pés  foi o comandante Abenante. “Ele, emocionado, comandou: “Atenção guarnição, desembarcar! Em forma! Por três!”, lembra Eunack. No sábado seguinte, os homens iniciaram o serviço. Brasília era uma cidade calma. “Tinha pouca ocorrência. Era mais policiamento de trânsito, essas coisas.
Saudades do tempo em que a cidade estava se fazendo ainda.”
As famílias dos oficiais não tinham onde ficar em Brasília. Somente alojamentos estavam disponíveis. Mesmo assim, a mulher e a filha de Eunack vieram, de surpresa, do Rio de Janeiro. “Quando eu ouvi a voz da minha filha chamando ‘papai’, me emocionei. As pessoas ao redor bateram palmas”, conta. Meses depois, a PMDF comprou um ônibus para levá-los e buscá-los no Rio de Janeiro, durante as férias.
A visão de Brasília, uma cidade recém-inaugurada à época, ficou gravada na memória de Eunack.
“Eu via mato em todo lugar e muita máquina trabalhando. Eu me apaixonei por essa cidade de um jeito difícil de explicar. Nunca mais fui embora”, disse. Capitão Gilson de Oliveira, 74 anos, outro policial pioneiro, viveu a mesma sensação. “Brasília tem um feitiço. Nunca olhei para trás pensando em ir embora”, resume.
 
Diversão
 
A polícia também trouxe sua arte. Manoel Nascimento Paixão, 74 anos, conhecido como Tenente Paixão, veio para fazer parte da já planejada Banda Marcial da Polícia Militar: “Eles escolheram dos músicos mais habilidosos. Daí fundamos a banda, em Taguatinga. Fazíamos espetáculos muito bonitos”, relata Paixão, que é maestro. Os colegas de longa data sentem orgulho de ter contribuído para a história da PM de Brasília.
Eunack é o criador do brasão da corporação, usado até hoje. É também um grande incentivador de programas sociais e educativos dentro da instituição policial, como a prática de escotismo. “Eu sempre preguei a ação preventiva. “Contra a violência, apenas a criatividade e a inteligência” – esse é meu bordão. Procuro motivar, ainda hoje, a ida da PM às escolas, levando educação, por exemplo, por meio do teatro de bonecos”, conta Eunack, que é escoteiro de alta graduação na ativa ainda hoje.
Os policiais fundaram até um bloco de carnaval, chamado Embalo do OPs (por conta da Lei da Opção), com uma marchinha cuja letra dizia: “Adeus, adeus, estado da Guanabara/Vou ficar em Brasília que é a capital jóia rara/Tudo aqui é resplendor, tudo aqui inspira amor/Por isso eu digo a vocês, em Brasília eu vou ficar”. Gilson e Eunack são cariocas. Paixão é pernambucano, mas foi criado no Rio. “Tenho uma cobertura na beira da praia. Estou aposentado. Mas não consigo ir embora daqui”, reforça Paixão, sobre o apego que a maioria deles desenvolveu por Brasília.
 
Encenação
 
Mas aquele distante 15 de fevereiro de 1966 não foi a data da primeira vinda a Brasília de Eunack e de outros colegas. O capitão relata uma história curiosa de 21 de abril de 1960. O então presidente Juscelino Kubitschek queria policiais treinados para reforçar a segurança da festa de inauguração. Mandou trazê-los do Rio de Janeiro. Para não causar alarde, pediu que viessem disfarçados.
Houve um espetáculo chamado Alegoria das três capitais, apresentado no evento, para celebrar o começo da nova cidade. Alguns atores estavam fantasiados de freis franciscanos. Em lugar das tradicionais sandálias usadas pelos religiosos dessa ordem, porém, eles usavam coturnos marrons.
A explicação para isso deixaria surpresa muita gente que participou da festa. Eles eram policiais escondidos, para não chamar a atenção, e atuaram como figurantes. Por baixo das roupas teatrais, todos estavam fardados, prontos para agir em caso de qualquer emergência. Capitão Eunack se encontrava entre eles. Orgulha-se de ter participado do momento histórico. Logo depois, os policiais retornaram ao Rio de Janeiro. Seis anos se passaram e muitos deles retornaram a Brasília para ficar.
Dessa vez, com outra fantasia: a de começar uma vida nova na capital, que começava a se formar.
 
Transcrito do Correio Braziliense, 19 de fevereiro de 2011, Cidades, pág. 42.

 

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Brasília

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Brasília

Nas águas de março do Rio de Janeiro aprendi a nadar
Nunca imaginei soletrar Brasília
Uma ilha rodeada de Brasil por todos os lados
Cidade asa
Em Brasília aprendi a voar
 
Brasília
Mergulhei nas asas de um avião
Tomei banho de cachoeira e lavei meu coração
Vislumbrei meu futuro ao longo dos eixos
 
Quando olhei pela primeira vez
Parecia um deserto,
uma Brasília amarela empalidecida pelo barro
Fiz do barro matéria bruta misturada ao meu sangue e suor
Aprendi a criar a minha Brasília
Um mar de gente começou a vir pra cá
Gente de todo Estado, de todo lugar
 
O mar se abriu no coração do país
 
Brasília!
Tu me destes um novo aniversário
Na cidade mítica e mística
Desabrochei atriz
 
Brasília!
Namorei nas suas árvores
Paquerei nas tesourinhas
Experimentei diversão e protesto na Esplanada
Eu até casei debaixo do teu céu!
 
Brasília, meu avião…
Continuo correndo na frente
Sempre a contemplar seu horizonte infinito
Aonde mais tu queres  me levar?

Cristiane Sobral, poetisa carioca, natural de Coqueiros, zona oeste do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “Não vou mais lavar os pratos”,  Coleção Oi Poema, 2010.

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Brasília em janeiro

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Brasília em janeiro
Árvores tortas
Decalcam o maior céu do mundo:
Penso nelas como gestos
de quem se afoga,
de quem dá adeus da plataforma.
O sol prateia nuvens musculosas.
Atravessando o Lago,
A vela persegue
Lembrança de baía.
Em algum lugar
Bem próximo
Do horizonte
A tempestade
Espreita o fim da tarde.
 
André Giusti, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema inédito

 

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Brasília em janeiro

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Brasília em janeiro
Árvores tortas
Decalcam o maior céu do mundo:
Penso nelas como gestos
de quem se afoga,
de quem dá adeus da plataforma.
O sol prateia nuvens musculosas.
Atravessando o Lago,
A vela persegue
Lembrança de baía.
Em algum lugar
Bem próximo
Do horizonte
A tempestade
Espreita o fim da tarde.
 
André Giusti, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema inédito

 

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17 de janeiro de 1959

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(foto)

Sayão é sepultado

Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão.
À beira do túmulo, JK faz discurso comovente:
"É o Brasil que está de luto. Perde-se um líder carismático, símbolo de força e coragem. Um ídolo da peonada, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades, estradas, sonhos…"

"Ele que dissera uma vez que o clima de Brasília era tão bom que precisavam um morto emprestado para inaugurar o cemitério, iria inaugurá-lo"

Frase da filha de Bernardo Sayão, Léa Araújo de Pina

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Morte na Mata

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Entranhas da mata amazônica, Pará, a trinta quilômetros da fronteira com o Maranhão, por volta de uma hora da tarde de 15 de janeiro de 1959. Ronco de tratores de esteira, estrondo de raízes grossas e profundas brutalmente arrancadas, gritos de trabalhadores, estalos de madeira rachando e quebrando. Força bruta. Cheiro de mato e de morte.
O ritmo de trabalho é alucinante. Onze construtoras e mais de três mil homens. Faltam apenas quinze dias para o encontro das frentes de desbravamento norte e sul, fechando a sonhada ligação da pista de Brasília a Belém, braço superior do cruzeiro rodoviário nacional. Kubitschek vai chegar em 1º. de fevereiro de 1959. Vem  com a família, ministros e outras autoridades. Vai ter missa campal e também grande churrasco em plena selva. Máquinas já trabalham na construção de tosca pista de pouso. Aceleração máxima: o ronco dos tratores é agora ensurdecedor. A árvore gigante finalmente cambaleia, enverga e tomba. Enorme galho das grimpas se desprende e despenca exatamente sobre a barraca em que está o legendário engenheiro Bernardo Sayão, de 57 anos, comandante da frente sul de desbravamento. Destino? Acaso? No dia anterior, ele tinha mandado mudar a barraca da margem do córrego para aquele local, mais próximo das turmas de serviço.
Crânio quebrado, fratura exposta na perna esquerda, braço esquerdo esmagado, tronco machucado pelos galhos e ramos. Esvai-se em sangue, arrasado pela fatalidade e pelo sofrimento. Mas não se entrega nem se descontrola. Não há ali nenhum socorro médico. Apenas analgésicos, impotentes contra a dor imensa. Susto, comoção, medo e pesada tristeza dos trabalhadores. Algumas horas depois, cerca de três da tarde, o piloto de um avião Cessna que atirava víveres na clareira próxima ao acampamento percebe cruz improvisada com dois enormes troncos de madeira estendidos no chão. está coberta com camisas dos trabalhadores para chamar-lhe a atenção. Conclui que algo estranho está acontecendo. Mas não tem onde pousar. Reduz a altura e nota os acenos desesperados de dezenas de homens. Vê o corpulento Sayão estirado sobre uma rede, inerte, a roupa encharcada de sangue. Compreende e parte em busco de socorro. Espera, tensão, medo, ansiedade. Angústia, muita angústia. Horas depois chega um helicóptero. Embarcam Sayão cuidadosamente. Vai deitado, a cabeça sobre o colo do companheiro Kelé, que viaja sentado no chão. em coma, não resiste. Morre a bordo, por volta de sete da noite, sobre o leito da tão sonhada estrada, pouco antes do pouso em Açailândia, no
oeste do Maranhão, povoado mais próximo. Hemorragia sem fim. Aí é velado toda a noite. No dia seguinte, 16 de janeiro de 1959, conseguem comunicação por rádio com Belém e Brasília. O corpo é levado de avião para Belém e depois para Brasília, onde vai ser sepultado. A notícia se propaga e comove o país.
O presidente Kubitschek, que estava no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, deixa tudo e voa para Brasília.Às oito da noite do dia 16 de janeiro de 1959, sexta-feira, o caixão chega ao aeroporto e é recebido por autoridades e multidão de trabalhadores. O presidente acompanha todos os passos, emociona-se, chora, reza. O velório é na capela Dom Bosco. Depois celebra-se missa de corpo presente no Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Todos querem ver o ídolo, despedir-se. Mas a família não permite a abertura do caixão. Muitos candangos concluem que o corpo não está ali. Tem é um tronco dentro ou então pedras. Estão escondendo a verdade para não assustar as pessoas: Sayão foi devorado por onça. Ou então capturado por índios. Alguns dão até o motivo: por seu tamanho, aparência e força, foi levado para ser reprodutor, cruzar com as índias. Outros falam em vingança da floresta. Das árvores. O mito nasce ali mesmo e cresce depressa. Da imortal Raquel de Queiroz:
 
"Fazia poucos dias que morrera Bernardo Sayão. O menino exigia histórias, a imaginação estava fraca, e então contamos para ele a vida do belo gigante que tinha o gosto de abrir estradas e criar cidades, que atravessara a nado um rio enorme, e saía no seu trator por dentro da mata, sem medo de onça, sem medo de índio, sem medo de nada, derrubando árvores, subindo serras."

Para Kubitschek, a amizade com Sayão tinha significado superior. Superava em muito as relações afetivas comuns, rotineiras. Ele via uma transcendência, um sentido mágico nesse relacionamento, assim sintetizado pelo jornalista e escritor Antonio Callado:

"Olhe-se como se olhar o plano de Brasília, é inegável que o encontro de Juscelino Kubitschek e Bernardo Sayão foi histórico para este país."

Callado e os também escritores Hernane Tavares de Sá e John Dos Passos, este norte-americano, tinham contribuído, anos antes, para projetar Sayão, divulgando seus feitos na implantação da Colônia
Agrícola Nacional, no Vale do São Patrício – hoje Ceres, Goiás -, na imprensa nacional e no exterior. Passos visitou as obras de Brasília em julho de 1958.
Eis como Kubitschek descreve a entrada de Sayão na peleja da estrada:

"Sayão estava pronto. Levou o trailer, em que habitualmente morava, para as imediações de Porangatu e o abrigou sob um majestoso pé de pequi. Armou o fogão ao ar livre. Semeou uns caixotes em torno, à guisa de sala de visitas. Ele mesmo, porém, ali pouco parava. Quem se aproximasse da mata, que começava perto, logo o via: alto; forte como uma árvore; rosto de linhas harmoniosas, como se fosse esculpido; olhos perscrutadores; trajando calça de brim cáqui e camisa branca, aberta ao peito. Estava ali na sua indumentária "de guerra", preparando-se para a grande arrancada."

Sábado, 17 de janeiro de 1959. Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão. É o primeiro do cemitério da cidade, mais tarde batizado Campo da Esperança. Ele mesmo o demarcara havia menos de dois anos. Cerrado virgem. Máquinas trabalharam a noite toda abrindo estrada de acesso. À beira do túmulo, Juscelino faz discurso comovente. Sabe que se vai muito mais que um grande amigo. "É o Brasil que está de luto. Perdeu um líder carismático, símbolo de força e aventura, coragem, trabalho e determinação. Um ídolo da peonada, homem-coragem, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades e sonhos."
Há um segundo enterro no mesmo dia. O do motorista Benedito Segundo, velho companheiro de andanças e aventuras de Sayão, morto por ataque cardíaco ao receber a notícia. É colocado ao lado do chefe.
Outra fatalidade: na semana seguinte, morre num choque de veículos, também em plena selva, o engenheiro Rui de Almeida, líder da frente de desbravamento vinda de Belém.
Em 31 de janeiro de 1959, dezesseis dias após a morte de Sayão, as frentes norte e sul finalmente se encontram, arrematando a trajetória de 2.240 quilômetros e uma epopéia verde-amarela pontilhada de perigos e dificuldades. Está pronta a tão esperada ligação. O nome oficial da estrada, inicialmente parte da Transbrasiliana – ligação de Santana do Livramento (RS) a Belém do Pará -, depois BR-14, foi alterado para Rodovia Bernardo Sayão. No exato local do acidente, os mateiros fincaram enorme e tosca cruz feita com a madeira do galho que o matou. Alguns anos depois, ela foi retirada. Ninguém sabe quem nem por quê.
Curioso: carioca da gema, nascido na Tijuca, em 18 de junho de 1901, remador do Botafogo de Futebol e Regatas, assíduo e admirado petequeiro no Posto 2 da praia de Copacabana, o engenheiro-agronônomo Bernardo Sayão Araújo Carvalho, graduado em Belo Horizonte, Minas, morreu goiano no imaginário popular. Talvez por ter aí comandado arrojado projeto de colonização do governo Vargas (origem da atual Ceres, Goiás), comprado fazenda e, em 1954, sido eleito vice-governador. Governou o estado de janeiro a março de 1955. Talvez já fosse mesmo também goiano. Talvez ainda seja. Agrônomo, plantou Ceres, ajudou a plantar Brasília, a estrada Brasília-Goiânia, a Belém-Brasília, plantou fé no Brasil. Ele não era apenas dinâmico e arrojado desbravador e tocador de obras. Sabia pensar grande e tinha preocupações políticas e sociais. Sonhava com reforma agrária e colonização. Com um mar de assentamentos agrícolas ao longo da Belém-Brasília, que o futuro presidente Jânio Quadros chamava de "caminho das onças". Para Sayão, a estrada era parte essencial da coluna vertebral do sistema viário do país. Tolerava os burocratas, porque inevitáveis. Mas tinha horror à burocracia, principalmente quando lenta ou excessiva. Não aceitava ter a vida presa a gabinetes, tediosas rotinas, horários rígidos, segurança de emprego, pequenas mordomias, qüinqüênios, averbações, licenças-prêmio, abonos, letras, previdência. Formalidades, cipoais legais, carreirismo, papelada. Às vezes desmanchava o maço de cigarros e no verso redigia requisição de materiais, datava e assinava. Se um operador de qualquer equipamento não entendia as ordens, vacilava ou demonstrava medo, subia na máquina, assumia o comando, mostrava o que e como queria e, muitas vezes, completava a tarefa. Uma coragem bruta, quase inconseqüente. Coisas como derrubar árvore grande em local perigoso, de grande risco. Perto de abismos e pântanos, em ribanceiras muito inclinadas, em beiradas de barranco de rio grande. Adorava desafios. Brincava com a sorte, confiava em si mesmo. Sabia que sabia operar sem erro. Uma força da natureza. Sim, grande Rosa, viver é perigoso. Muito!
Como Sayão via Juscelino? Lia Sayão de Sá, filha que levou adolescente para Brasília, em novembro de 1956, conta:
 
"Pelo que a gente tem conhecimento e sabe, via como um homem empreendedor, trabalhador. E também como quem conseguiu tornar possível o sonho do meu pai, que era fazer a Belém-Brasília. Foi o único que deu mesmo força, respaldo e suficiente verba para construir a estrada, concretizar o sonho dele. Meu pai enfrentou muitos problemas. Ninguém queria fazer a estrada, porque diziam que era o caminho da onças. Foi muito difícil conseguir verbas e tudo o mais. De vez em quando ele vinha a Brasília de teço-teco, porque a gente continuou morando aqui. No final, como tinha prometido fazer logo a ligação da estrada, ele estava trabalhando demais lá. Então ficava mais tempo lá. Era uma confusão, ele fazia tudo. Não sei como ele achava tempo para fazer tanta coisa! [risos]"
 
Transcrito do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

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10 de janeiro de 1959

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Lima Brayner
 
No dia 10, acompanhado de sua esposa e do capitão Dúlio M. Leite, chegou, para uma visita a Brasília, o general Floriano Lima Brayner, chefe do Estado Maior do Exército Nacional. No aeroporto, o ilustre militar foi recebido pelo Diretor Ernesto Silva, Cel. Osmar Soares Dutra e Dr. Carlos Alberto Quadros.
Ao regressar ao Rio de Janeiro, o bravo militar deu à publicidade, as seguintes impressões de Brasília:
"A visita a Brasília que me foi proporcionada pelo ilustre Diretor da Novacap, Dr. Ernesto Silva, foi para mim altamente significativa, porque permitiu se consolidasse no meu espírito, a certeza de que a nova Capital do Brasil é uma realidade, que se concretiza a passos agigantados.
O que já foi levantado em menos de um ano, não deixa dúvida sobre o que se poderá fazer até abril de 1960.
Sem dúvida é uma obra ciclópica, concebida, nos seu aspectos arquitetônicos e urbanísticos, pelo cérebro genial de Niemeyer, que a está construindo de forma surpreendente e empolgante.
As construções essenciais que abrigarão os Poderes Constitucionais, já se erguem sobranceiras.
Os grandiosos palácios, do Parlamento e da Justiça, estarão concluídos até dezembro do corrente ano.
Os edifícios dos Ministérios se erguem com incrível rapidez, o mesmo acontecendo com os conjuntos residenciais dos Institutos de Assistência.
Trabalha-se febrilmente.
Os nordestinos fugitivos do inferno da seca, constituem operosa mão-de-obra. O cenário é simplesmente estimulante e confortador, destacando-se, já completamente construído o Palácio da Alvorada. Não se pode louvá-lo suficientemente, nem compará-lo com alguma coisa. Simplesmente porque é diferente de tudo, e obedece a uma concepção distanciada da nossa imaginação normal.
É, realmente, o limiar de uma época, em que se partirá, por outros caminhos, em busca de um mundo diferente.
Há a preocupação de esquecer tudo que se presenciou em matéria de desgaste e sofrimento de várias gerações.
Alvorada…
Deus permita que assim seja.
São os nossos ardentes votos.
Milhares de peregrinos correm para a nova Meca do Coração do Brasil. Cerca de 60.000 habitantes já se aglutinam em torno de Brasília.
A cidade "Bandeirante", complemento da nova Capital, na fase de sua construção, já tem vitalidade espantosa. Possui cerca de trinta hotéis, alguns dois quais (segundo informações) já cobram Cr$ 600,00 de diária. Vários cinemas e 6 Bancos já estão instalados. Comércio variado e poderoso.
Enfim, Brasília é uma grande e deslumbrante realização de nossa geração.
O Brasil precisa se preparar para os complexos lances que estão iminentes, e que decorrerão desta indisfarçável realidade.
Impõem-se uma preparação, ao mesmo tempo, cívica, política e psicológica, que permita ao povo brasileiro compreender que encerrou um ciclo de 4 séculos de sua história.
Mais do que nunca se imporá o sentido sagrado da unidade nacional, em torno desse luzeiro que se erguerá no Planalto Central do Brasil, eqüidistante de todas as riquezas e misérias do panorama nacional. Nele não se ouvirá mais o ruído do mar, o maior amigo e precioso aliado da unidade pátria.
Que ele, sempre tão generoso em nos unir, continue a estreitar os laços que somam do Oiapoque ao Chuí. Do resto, Brasília se encarregará.
Ao nosso prezado camarada Dr. Ernesto Silva, Diretor infatigável que integra a Novacap com o espírito generoso e patriótico do Marechal José Pessoa, os nossos agradecimentos, pelas gentilezas que nos proporcionou, e as felicitações pelo trabalho ingente a que se entrega".
(Reproduzido da revista "Brasília", da Novacap, edição janeiro de 1959, número 25)

Foto: Arquivo Público do DF

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22 de outubro de 1957

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

"Na inauguração de Brasília irei de automóvel. Até lá, a ligação rodoviária da Nova Capital com o Rio de Janeiro e São Paulo estará concluída e todo o trecho pavimentado", diz o Presidente da República em entrevista aos jornalistas no Palácio do Catete.
"Com relação a Brasília", acrescenta ainda o Presidente, "os estudos procedidos pelo DASP concluíram pela necessidade de apenas trinta e cinco mil funcionários civis e militares na futura Capital, isto é, apenas 10 por cento dos funcionários do Rio de Janeiro".
Isenção – O Presidente Juscelino Kubitschek, por decreto, torna extensiva à Novacap a isenção de impostos federais de que goza a Petrobrás.
 
(Diário de Brasília)

 

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22 de outubro de 1957

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"Na inauguração de Brasília irei de automóvel. Até lá, a ligação rodoviária da Nova Capital com o Rio de Janeiro e São Paulo estará concluída e todo o trecho pavimentado", diz o Presidente da República em entrevista aos jornalistas no Palácio do Catete.
"Com relação a Brasília", acrescenta ainda o Presidente, "os estudos procedidos pelo DASP concluíram pela necessidade de apenas trinta e cinco mil funcionários civis e militares na futura Capital, isto é, apenas 10 por cento dos funcionários do Rio de Janeiro".
Isenção – O Presidente Juscelino Kubitschek, por decreto, torna extensiva à Novacap a isenção de impostos federais de que goza a Petrobrás.
 
(Diário de Brasília)

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14 de agosto de 1957

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Data da Mudança – No Rio de Janeiro, no Palácio Tiradentes, reúne-se a Comissão Especial que trata da mudança da Capital do país, relatando-se favoravelmente pelo deputado França Campos a emenda do deputado Emival Caiado, de Goiás, que fixa o dia 21 de abril de 1960 para a definitiva mudança da capital do Brasil para Brasília. A matéria é unanimemente aprovada pela Comissão.

(Diário de Brasília)

 

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01 de julho de 1957

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No Rio de Janeiro, realiza-se no Quartel do Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, durante a noite, original festa, inspirada na decisão que manda destacar, para a futura Capital do país, no próximo ano, uma de suas subunidades, para atender aos serviços iniciais da

guarnição do Palácio Presidencial, até que o futuro quartel a ser construído possa abrigar toda a Unidade.

Artistas profissionais, unidos a um grupo de soldados do Batalhão, fantasiados de índios Carajá, representam uma peça cujo enredo se passa em Brasília, logo depois que ai chega a 5ª. Cia. de Fuzileiros do Batalhão de Guardas.

(Diário de Brasília)

 

 

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