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Máscara de Pedra

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Máscara de Pedra
Por Israel Pinheiro


Foto: Arquivo Público do DF

Durante três longos anos minha preocupação única consistia em dedicar um esforço sem limites para entregar a cidade em condições de ser inaugurada na data marcada. Atingir esse objetivo exigia que trabalhássemos como se cada hora fosse a última hora concedida e a madrugada viesse iluminar o dia festivo da inauguração. Não nos foram permitidos o ócio, a pausa, a vacilação. Era condição de vitória que todos multiplicassem o esforço para cumprir o compromisso assumido com a Nação, levando, se preciso, seu entusiasmo pelo trabalho e sua identificação com a obra até o limite crucial do próprio sacrifício.


Para conseguir nível tão excepcional de rendimento no trabalho, era necessário que o Chefe encobrisse seus próprios sentimentos sob uma aparente armadura de insensibilidade. E assim sofri, durante três anos imensos, que o Presidente da Novacap fosse apontado como incapaz de premiar e de reconhecer, devorador insaciável de energias e dedicações.

Hoje, que o compromisso com a Nação foi pago no devido tempo, posso me despir daquela armadura que me sufocou por todo o período de construção da nova Capital e abrir minha alma aos amigos e companheiros de todas as horas.

Deliberadamente nunca tolerei que os meus mais íntimos sentimentos filtrassem através da austeridade que me impus e nunca fui pródigo em elogios e manifestações de agrado. Pretendia incutir-lhes a flama do incentivo apenas com o meu apoio e o meu exemplo. Temia que manifestações de regozijo por um bom resultado parcial pudessem levar, na valorização de um imediatismo efêmero, a uma enganadora euforia de vitória total. Mas minha maior alegria, nos momentos de recolhimento espiritual, sempre foi registrar, no meu foro interior, o valor de cada um dos meus companheiros de jornada, cercando-os de toda a força afetiva do meu coração. Por isso, sinto-me agora liberto e inteiramente à vontade para pedir-lhes que me perdoem ter usado, durante três anos infindáveis, a máscara de pedra do Presidente da Novacap.

Trecho do discurso de Israel, então Prefeito do Distrito Federal, por ocasião da homenagem que lhe prestaram amigos e funcionários na data de seu natalício
(4-1-1961)

Fonte: “Brasília: Memória da Construção”, de L.Fernando Tamanini

 

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O que disse JK…

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O que disse JK…
 
A primeira portaria que Israel Pinheiro assinou, ao assumir a presidência da Novacap (Portaria número1), foi a que designava Pery Rocha França assistente da Presidência.
Dos que privaram com Israel, talvez tenha sido Pery um dos amigos mais chegados. Engenheiro de profissão, Pery se tornara, entretanto, conhecido e amado na capital mineira por um dom que Deus concede a poucos: a beleza da voz. Consagrado cantor de ópera, sua escolha viria a provocar, no seio da Oposição, comentários maldosos. Mas a inegável competência profissional o levaria, logo depois, ao cargo de chefe do Departamento de Edificações da Novacap e, posteriormente, à própria presidência da Companhia.
Dentre os compromissos de Pery em Belo Horizonte, à época em que Israel o convocou, um lhe era particularmente grato: o de Diretor da Universidade Mineira de Arte. E foi a Universidade que o fez portador de um álbum, para ser entregue a Israel.
Na primeira página do álbum, emolduradas por vinheta verde-amarela, estavam escritas as seguintes palavras:
 
         "Este livro é oferecido ao Excelentíssimo Senhor Doutor Israel Pinheiro da Silva,
         Presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, pela
         Universidade Mineira de Arte, para que nele se registrem os nomes de pessoas
         ilustres que visitem Brasília durante sua construção"
 
O álbum, luxuosamente encadernado em couro marrom, trazia em sua capa, gravado em finos traços dourados, o quadrilátero do futuro Distrito Federal, com o sítio da nova capital assinalado. À esquerda, um pouco abaixo, também em dourado, havia um desenho representando a Ermida Dom Bosco, cuja sombra, projetando-se para a direita e para cima, invadia a área do quadrilátero, terminando com a pequena cruz do vértice da Ermida exatamente sobre o minúsculo círculo que assinalava a cidade de Brasília.
 
Por algum tempo Pery ficou encarregado, ele próprio, da guarda do álbum e de apanhar as assinaturas dos visitantes ilustres. Mas teve o cuidado de reservar as primeiras páginas para algumas palavras de Juscelino.
 
Cada vez que JK visitava as obras, Pery lhe "cobrava" a mensagem para o álbum. O Presidente prometia, mas na viagem seguinte se desculpava, explicando que "se esquecera". Até que um dia, ao descer do avião e avistar Pery entre os que estavam à sua espera, foi logo enfiando a mão no bolso e dizendo: ‘aqui está o que você pediu". E entregou a Pery a mensagem datilografada, com sua assinatura. Pery ficou com o papel, mas posteriormente pediu a Juscelino que transcrevesse a mensagem no álbum e o Presidente o fez de próprio punho:
 
"Parecendo um sonho, a construção de Brasília é uma obra realista. Com ela realizamos um programa antigo: o dos Constituintes de 1891. É um ideal histórico: o dos Bandeirantes dos séculos XVII e XVIII. Brasília significará uma revolução econômica. Estamos erguendo-a com aquele espírito de pioneiros – antigo nos homens que desbravaram os sertões, moderno em nossas almas ansiosas por fundar uma civilização no coração do Brasil. Do ponto de vista econômico, Brasília resolverá situações não esgotadas, porque vai criar um novo centro de gravidade para maior equilíbrio, melhor circulação e mais perfeita comunicação entre o Norte e o Sul."
 
"Politicamente, Brasília significa a instalação do Governo Federal no coração mesmo da nacionalidade, permitindo aos homens de Estado uma visão mais ampla do Brasil como um todo  e a solução dos problemas nacionais com independência, serenidade e paz interior."
 
"Na 1ª. História do Brasil que se escreveu, a de Frei Vicente do Salvador, nos primórdios do século XVII, já  observava o seu autor que a colonização se fazia como a de caranguejos, agarrados ao litoral. Euclides da Cunha acrescentava, profeticamente, no limiar do século XX, que o drama político e sociológico do Brasil continuava a ser a separação, com  a disparidade de estilos de vida, entre o litoral e o interior, como se fôssemos duas nações dentro de uma mesma nação."
 
"Agradeço a Deus o privilégio que me concedeu de encarnar, como Presidente da República, o espírito pioneiro e o sentimento nacional que me deram inspiração e força para erguer Brasília no coração do Brasil, com o sentido de transformação e transfiguração do meu país."
 
"Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta Alvorada com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino."
 
Na hora de datar e assinar, Juscelino, como já o fizera n folha datilografada, registrou não a data do dia em que estavam, distante da sua primeira visita ao local, mas exatamente a data da visita:
 
                                                          Brasília, 02 de outubro de 1956
                                                                Juscelino Kubitschek
 
 
Reproduzido do livro "Brasília: memória da construção", de L.Fernando Tamanini

 

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Sem tempo a perder

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Ocorreu, nesse período, que a publicação do Edital do Concurso do Plano-Piloto provocou enorme interesse entre os arquitetos, engenheiros e urbanistas brasileiros e estes começaram a levantar diversas dúvidas quanto ao sentido exato de alguns itens do Edital. Julgou Israel Pinheiro necessário esclarecer logo os pontos controversos e convocou os interessados a um debate, que foi muito proveitoso, conforme se relata no Capítulo que fala sobre o Concurso.
A melhoria das estradas para Anápolis e Goiânia; a abertura de vias de comunicação entre os futuros canteiros de obras; a instalação de olarias e serrarias para as necessidades iniciais, também foram objeto de decisão naquele final de outubro.
No último dia do mês voltou Israel ao sítio da nova Capital, acompanhado de engenheiros e técnicos da Novacap e diretores de algumas das principais firmas construtoras que iriam participar do empreendimento. Pousaram no campo menor, ao lado da Fazenda do Gama. À margem desse campo a Panair instalara, numa barraca de lona, um serviço de radiotelegrafia, radiofonia e radiofarol, que não só atendia à segurança de vôo, mas às comunicações da Novacap com o Rio, o que fez durante meses, até que fosse criado o serviço próprio da Empresa em 22 de janeiro de 1957.
Essa estação da Panair chegara a Brasília (28-10-56) a bordo de um DC-3 daquela empresa (prefixo PP-PCL) comandado por Paulo Novais de Souza Gomes, que trazia também os técnicos incumbidos de instalar o equipamento. Trabalharam, ativamente, durante os dias 29 e 30 e finalmente no dia 31 a estação transmitiu sua primeira mensagem, exatamente para solicitar à receptora da Panair no Rio que entrasse em contato telefônico com o Palácio do Catete afim de se estabelecer um enlace permanente com Brasília, nos horários que marcassem, informando, para escolha do Catete, as freqüências de que dispunha a nova estação. Nesse mesmo dia, 31 de outubro, visitou Israel Pinheiro a equipe da Panair para estimular aqueles pioneiros. Visitou também quatro acampamentos de barracas de lonas, cedidas pelo Exército, onde se abrigavam já 232 operários.
No dia seguinte, 1º. de novembro, Israel, Niemeyer e o Engenheiro Marco Paulo Rabelo, escolheram os locais exatos para edificar o Palácio Residencial (mais tarde chamado de Alvorada), o Hotel de Turismo (que viria a receber o nome de Brasília Pálace Hotel) e aproveitaram para confirmar a localização do futuro aeroporto, definido anteriormente pelo Ministério da Aeronáutica.
Ocorreu nesse 1º. de novembro um fato que merece registro: mais de 300 pessoas, vindas de Minas, Goiás e Bahia, visitaram a área da futura Capital, algumas buscando emprego, a maioria por curiosidade.
Nos dias 2 e 3 outras providências foram tomadas: a escolha do local em que se ergueriam o edifício provisório da Administração
da Companhia e o acampamento da Novacap; a limpeza das áreas das primeiras construções; a abertura de estradas de serviço.
Em Luziânia já funcionava pequeno escritório da Novacap. Israel obtiver, também, a cessão de locais, em Anápolis, para armazenamento dos materiais que começariam a chegar pela Estrada de Ferro de Goiás.
 
L.Fernando Tamanini
Reproduzido de "Brasília: Memória da Construção"

 

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Esperando a cidade

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(Algum fundo de verdade havia: no ano de 1957 foram apreendidas, vivas, 117 cobras – coral, cascavel, jararaca).
A partir de março de 1958, os jornalistas estrangeiros foram chegando aos magotes. No dia 10 de março, desceram do DC-4, do Lloyd Aéreo Brasileiro, o jornalista do The Observer, semanário de Londres, e o correspondente no Brasil do Daily Express. No dia 14, chegou o jornalista de uma revista sueca. No dia seguinte, do Al-Hamishmar, diário israelense que fechou em 1995.
Mas a grande estrela do jornalismo a trazer sua caderneta de anotações a Brasília foi a jornalista Helen Firsbrook Hector, da Reader’s Digest, a Seleções. Naquela época, a revista vendia 20 milhões de exemplares no planeta. A jornalista veio acompanhada do marido, um engenheiro eletrônico.
Juscelino e Israel Pinheiro dava aos repórteres tratamento de autoridades. Fossem estrangeiros, hospedavam-se no Catetinho 2, a réplica do Catetinho 1, destinada aos visitantes ilustres.
Também em março de 1958, o embaixador do Japão visitou a cidade em construção. Encontrou aqui 50 famílias japonesas, 30 delas trabalhando na agricultura. Consta que a essa altura os japoneses já produziam couve, repolho, cebola, tomate, chuchu, berinjela, pimentão, nabo, batata e hortaliças mil. Variedade e número suficientes, segundo registros oficiais, para alimentar as 20 mil pessoas que aqui já estavam. Para atrair os nipônicos, a Novacap oferecia a eles o uso da terra por 50 anos, renováveis para a linha de sucessão.
Os japoneses ofereceram um jantar ao embaixador na Churrascaria Presidente, na Cidade Livre, ‘quando foi servido aos presentes um excelente saquê’, como ficou devidamente registrado no Diário de Brasília, espécie de agenda oficial da construção da cidade.
Em março de 58, Brasília já brotava do chão vermelho numa velocidade de explosão vulcânica. O Eixo Monumental já havia sido aberto, o Eixão também. A Praça dos Três Poderes e a Esplanada já eram um esboço na terra quente. As casas populares da W-3 Sul, idem. O Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel eram as obras mais adiantadas. Os primeiros blocos residenciais das 108 Sul já alcançavam a sexta lage.
Levado por Israel Pinheiro para ver a cidade de seu ponto mais alto, a Praça do Cruzeiro, o presidente do Banco Francês-Italiano para a América do Sul, Henri Burnier, rodopiou em torno dos próprios pés para apreciar a topografia em forma de anfiteatro que dali se desdobrava, tanto para leste quanto para oeste. E comentou: "Il parait qu’elle atendait la ville" ("Parece que ela estava esperando a cidade").
Lindo, não ?
 
Conceição Freitas escreve a "Crônica da Cidade", do Correio Braziliense.
15/03/2008

 

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A CIDADE PROVISÓRIA

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Dinheiro não tinham, é certo, nem para comprar a lona de uma pequena barraca. Mas Deus haveria de prover a tudo. O chão de mato ralo foi ampliado às pressas, que a noite vinha caindo. E o pano de mescla armado à moda de um abrigo. Aí se instalaram para dormir. Para dormir e para viver a vida.
 
Na manhã seguinte, antes de sair à procura de trabalho, Benedito, com seu facão de mato, ampliou a limpeza em volta da barraca. O lugar era aprazível, suave encosta entre dois pequenos rios que mais tarde veio a saber se chamavam Riacho Fundo e Ribeirão Vicente Pires.
 
A barraca de mescla do caboclo foi a primeira "habitação" no local que a Novacap haveria de escolher, logo depois, para a instalação de uma cidade provisória onde se abrigariam os operários e se estabeleceriam o comércio de apoio, oficinas, pequenas indústrias. Três largas avenidas foram rasgadas e algumas ruas transversais abertas. As construções teriam que ser de madeira pois, inaugurada Brasília, a cidade provisória se extinguiria. Todos os que ali buscavam se estabelecer sabiam disso. A distribuição de lotes era feita pela Novacap através de documento claro e explícito a esse respeito. O ‘núcleo bandeirante’ ou ‘núcleo pioneiro’, como passou a ser conhecido aquele aglomerado de toscas construções, teria que desaparecer tão logo a capital  oferecesse condições para a instalação definitiva da população prevista no programa do seu desenvolvimento.
 
Na verdade ninguém, desses pioneiros, acreditava na demolição da Cidade Provisória. Que foi crescendo. No início, devagar. Depois, de forma acelerada. Em 15 de fevereiro de 1957 funcionavam já duas pequenas padarias, um açougue, dois modestos hotéis, um bar, duas lojas-armazéns. Era "o comércio" da nova Capital, cujo funcionamento se processava livre de qualquer alvará, sem pagamento de tributos e sem limitação de horário. Nasceu daí a denominação, que mais pegou, de "Cidade Livre".
 
À medida que as obras de construção da nova capital tomavam corpo e se definiam não como um sonho impossível mas como realidade que trazia em si mesma a semente do sucesso, as mais importantes firmas do país passaram a instalar na Cidade Livre sucursais, juntando-se às carpintarias, farmácias, pensões, agências bancárias, empresas de transporte, cinemas, lojas de roupas, mercearias e restaurantes que brotavam, como por milagre, da noite para o dia.
 
No começo de 1958 aquele núcleo pioneiro, que nascera com a barraca do caboclo Benedito e um ano antes se restringia a um incipiente "comércio" de sete ou oito ‘negócios’, lembrava bem uma cidade do faroeste americano dos tempos da corrida do ouro, "modernizada", com milhares de moradores fervilhando febrilmente, um comércio ativíssimo de todo gênero e que praticamente não fechava, centenas de caminhões, jipes e utilitários circulando por suas ruas poeirentas, de cujos postes pendiam estridentes alto-falantes jorrando música nordestina, anúncios, notícias do Brasil e do mundo e os últimos sucessos dos cantores populares.
 
Num dia quente de março daquele ano, Israel Pinheiro resolveu dar um giro por lá. Descendo do Catetinho pela estrada velha que ia sair na ponte do Riacho Fundo, limite oeste da Cidade Livre, atravessou o córrego. À direita notava-se o aterro da estrada de ferro, que se levantava. Na margem do riacho uma indústria de blocos de concreto. Logo adiante, à esquerda, numa posição dominante, o "Hotel Brasília", primeiro da nova capital. Seu proprietário o construíra ali certo de que estava na "entrada do alçapão" e apanharia todos que chegassem vindos de Anápolis, de Minas, de qualquer direção. Não contava que a pista de pouso definitiva ficasse pronta tão depressa e que os aviões concentrassem logo o transporte de quase totalidade dos visitantes que chegavam e que alcançavam a Cidade Provisória pela extremidade oposta, utilizando uma estrada especialmente aberta para isso, muito melhor que a antiga. Por outro lado, a rodovia nova de Anápolis fora jogada mais para leste, passando pelo outro lado da cidade, bem distante do "Hotel Brasília" que ficou, assim, perdido, isolado na velha ponte. E outros hotéis surgiram, mais centrais e melhores. O ‘copacabana pálace’ era o "Santos Dumont", de três pavimentos, que custou à época uma pequena fortuna. O jipe parou diante desse hotel e Israel Pinheiro entrou no seu restaurante. Sentadas no saguão, viu algumas senhoras imaculadamente limpas. Não estranhem a observação, pois durante os anos de construção de Brasília uma poeira fina, sépia, cobria permanentemente tudo, entrava pelas narinas das pessoas, ressecava a pele do rosto, crestava os lábios, sujava todas as roupas, invadia todas as casas. Não era a poeira da inércia, da falta de vassoura e de cuidados. Ao contrário, era o pó resultante do excesso de máquinas e do trabalho diuturno de centenas de caminhões. Quem não fosse operário de obra usava banhar-se e trocar de camisa até três vezes ao dia. A poeira tornou-se, inclusive, objeto de curioso comércio: enchiam-se com ela miniaturas de garrafas de vidro, apunham-se lhe rótulos coloridos onde se lia "Souvenir: Poeira de Brasília" e vendiam-se as garrafinhas aos milhares. Certamente a poeira de Brasília estará hoje guardada por colecionadores nos quatro cantos do mundo.
 
O restaurante do "Hotel Santos Dumont", muito bem montado, acolhia em suas mesas, naquela tarde de soalheira, senhores bem postos e bem barbeados, vestindo camisa esporte branca, a desfrutar da sombra acolhedora do salão. Falavam de negócios. Na verdade, em todos os lugares da cidade o clima era de trabalho e uma única preocupação dominava todas as consciências: o andamento das obras da nova capital, que se alteavam em aço e concreto na paisagem do planalto. Mesmo ali, na tranqüilidade do salão povoado de música em surdina, oásis de sombra e recolhimento na tarde quente, onde ninguém falava alto nem se excedia em gestos e reclamações, a conversa era só de negócios. Ocorreu a Israel Pinheiro de repente que aqueles cavalheiros pareciam estar apenas aguardando que o sol abrandasse para se alçarem às corcovas oscilantes dos camelos, no giro vespertino de inspeção… O calor da tarde, as roupas claras dos homens, sua postura "britânica", provavelmente foram os responsáveis por aquele despropositado pensamento, que logo se desfez ante a realidade do pequeno jornaleiro apregoando, na janela, jornais do Rio. Era a notícia que chegava ali, na terra onde só se trabalhava.
 
Saindo do "Hotel Santos Dumont", Israel de novo se viu na avenida central, três quilômetros de casas de madeira, comércio na frente, moradia nos fundos. Em filas duplas de cada lado da avenida, centenas de caminhões, de aluguel e particulares. Ao longo de toda a avenida de 40 metros de largura, milhares de pessoas se agitavam, se moviam. Na maioria eram homens, poucas mulheres. Todos vestidos com os trajes simples de brim que caracterizavam o candango, construtor de Brasília. Se alguém aparecia com roupa melhor, logo se sabia que era um novato. O candango, queimado do sol, transpirando saúde e força, molhado de suor e tisnado de poeira, não parava e estava sempre alegre. Curioso é que havia poucos negros, pouquíssimos. O negro não é mesmo aventureiro.
 
Todo mundo trabalhava. Das seis e meia da manhã às dez da noite, inclusive aos domingos, feriados e dias santificados. Em algumas circunstâncias muitos trabalhavam a noite toda. Quase não chegavam, as 24 horas do dia, para tudo que tinha que ser feito. Ler despreocupadamente um jornal, ouvir rádio, era praticamente impossível, não sobrava tempo. As notícias chegavam através do serviço de alto-falantes "Voz de Brasília", ‘emissora oficial’, por assim dizer, do Núcleo Bandeirante, na nova capital. E que deu origem ao semanário "A Hora de Brasília", primeiro jornal da cidade.
 
O jipe alcançou o setor em que os Bancos haviam se agrupado. Eram já cinco agências. Todas cheíssimas. O Banco de Crédito Real de Minas Gerais ostentava na fachada, orgulhosamente, sua tabuleta: "Primeira Agência Bancária da Nova Capital". E havia ainda o Banco do Brasil, o Banco da Lavoura de Minas Gerais, o Banco Real Brasileiro e o Banco Nacional de Minas Gerais. Com um movimento colossal de depósitos, cobranças e empréstimos. Na realidade em apenas um ano a Cidade Livre se transformara na mais forte praça bancária de Goiás.
 
A Cidade Provisória nascera de um impasse. Ao iniciar os trabalhos no Planalto, construindo seus acampamentos em novembro de 1956, defrontou-se a Novacap com um sério problema: montar e explorar ela própria grandes armazéns sortidos de tudo, onde pudessem se abastecer os empreiteiros de obras e os candangos que vinham chegando aos milhares, ou deixar à iniciativa particular a tarefa de criar o comércio de apoio à nova capital. Foi preferida a segunda alternativa. E a afluência de comerciantes, de hoteleiros e pequenos industriais, alcançou tal volume que em maio de 1957, quatro meses após a entrega dos primeiros lotes no local, já a Novacap proibia novas construções, deixando de atender a 1.200 requerimentos de pessoas e firmas que ainda queriam lá se estabelecer.
 
Deixando para trás o setor de Bancos o jipe alcançou a ‘rodoviária’. Dezenas de ônibus chegavam e partiam a todo momento, ligando Brasília não apenas às localidades vizinhas mas aos pontos mais distantes do país. Era um formigueiro humano. E havia também os ônibus ‘circulares’, que percorriam constantemente as três longas avenidas da Cidade Livre, movimentadíssimas e ocupadas, em toda sua extensão, por casas comerciais, churrascarias, agências de Companhias de Aviação, postos dos vários institutos de Previdência, etc. Alguns ônibus faziam a linha do Aeroporto, indo e vindo.
 
Israel retornou pela Terceira Avenida, onde a agitação era um pouco menor. Estava impressionado com o que vira e revigorado em sua fé no êxito da colossal tarefa. À direita avistou a igreja de D. Bosco, padroeiro da Cidade Livre. Ao lado da fabulosa ação material que ali no Núcleo se desenvolvia, caminhava em paralelo a ação espiritual. No início Brasília subordinava-se, canonicamente, à Arquidiocese de Goiânia. O primeiro sacerdote a chegar para o trabalho pastoral fora Pe. Primo Scussolino, nascido na Itália, da congregação Estigmatina. Era vigário, então, de Luziânia, já encanecido no santo ministério, grandes olhos azuis numa face marcada mas sempre sorridente, a batina surrada e cheia de poeira. Levava sua palavra de alento e de estímulo a todos os candangos, levantando n cidade dos homens a cidade de Deus. Em sua vida de pobreza e de bondade, alegrava-se com as realizações daqueles rudes obreiros, invasores das paragens tranqüilas do vasto sertão, casa sua. Não viveu para ver a cidade pronta. Dois anos após iniciada a luta, Pe. Primo morreu.
 
Quando o trabalho pastoral cresceu acima de suas forças, Pe. Primo pediu ao Arcebispo que mandasse mais gente. E vieram os Salesianos. Ficaram com a Paróquia do Núcleo Bandeirante, entregue a um capixaba destemido e trabalhador, Pe. Roque (Roque Vagliati Baptista). Incumbiu-se Padre Primo da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, localizada no Plano Piloto.
 
Aquela pequena igreja de madeira, por cuja frente o jipe passava agora, fora construída com a ajuda da Novacap. Mas a energia e a determinação de Pe. Roque é que realmente a levantaram. Era ele um sacerdote talhado para levar a palavra de Deus àquela cidade que nascia às pressas. Muitas vezes foi o carpinteiro, o pedreiro, o pintor da igreja paroquial. Ele foi tudo. Até mesmo, no devido tempo, o organista das missas dominicais. Logo os candangos se entusiasmaram com o novo Padre. Gostavam do seu jeito descontraído e simples, dos seus sermões na linguagem deles, fácil de entender. E da sua disposição para o trabalho, com qualquer tempo, a qualquer hora. Enquanto construía sua igreja Pe. Roque dizia suas missas no cinema… Aos domingos, pela manhã, ocupava o grande galpão e celebrava três missas, em horários espaçados. Depois que a igreja ficou pronta, Pe. Roque fundou ao lado uma Escola Paroquial, a que deu o nome de Nossa Senhora de Fátima.
 
Também os protestantes construíram seus templos na Cidade Livre, em número de quatro, grandes e relativamente suntuosos.
 
Antes de encerrar seu giro, Israel pôde ver os Grupos Escolares repletos, o Colégio D. Bosco, dos salesianos, que funcionava em dois turnos, com o 1º e 2º ciclos, e o Ginásio Fundação Brasília, também em pleno funcionamento.
 
Interessante é que embora a Novacap desestimulasse a vinda das famílias dos operários, em razão da precariedade das acomodações em que viviam, no Natal de 1957 Dona Coracy, mulher de Israel, ao distribuir brinquedos às crianças pobres com menos de 12 anos, numa iniciativa das Pioneiras Sociais, que ela presidia em Brasília, atendeu a 1.680 crianças.
 
À noite a Cidade Livre assumia o aspecto dos grandes centros. Não havia iluminação pública, é verdade, mas todos possuíam seus geradores próprios e as casas se iluminavam, luzindo na noite escura as cores vivas do néon de seus letreiros.
 
Juscelino visitou a Cidade Provisória pela primeira vez no dia 4 de abril de 1957 e pôde constatar que ali nascia e se formava um poderoso núcleo de apoio às obras da nova capital, que apenas começavam.
 
Em dezembro de 1957, no dia 14, Brasília e a Cidade Livre enfrentaram uma tempestade arrasadora, a primeira assim desde que se iniciara a construção da nova capital. Tudo começou no final da tarde, por volta da cinco horas. Duas cortinas d’água, pesadas, escuras, cortadas de relâmpagos e precedidas de trovões e vento forte, caminhando de pontos opostos do horizonte, encontraram-se exatamente sobre a região de Brasília. O céu escureceu de repente e um dilúvio, como nunca se vira antes, desabou. Durante duas horas foi o fim do mundo. Quando tudo finalmente serenou, os danos, aos poucos, puderam ser levantados. Todo o serviço parara. As águas do Vicente Pires cobriam a ponte que ligava a Cidade Livre ao Plano Piloto; as estradas tornaram-se intransitáveis, plenos lamaçais; imobilizaram-se todas as máquinas e caminhões; as escavações para os alicerces e garagens dos edifícios viraram lagoas profundas; rodou a barragem do Ipê, afluente do Riacho Fundo; e foi destruído o Castelo d’água da Usina Piloto de Saia Velha, que se construía para fornecer energia elétrica ao Catetinho, ao Aeroporto e às instalações da Novacap – escritórios, oficinas, serraria, olaria, residências.
 
O temporal deixou a advertência de que um novo obstáculo devia se superado na corrida contra o tempo: a estação das chuvas, que no Planalto começa em outubro, atinge sua maior intensidade nos meses de dezembro e janeiro e se prolonga até março. Seis meses durante os quais os trabalhos de construção perdem seu ritmo, retardam seu andamento, as olarias diminuem de produção, tirar areia dos rios fica difícil, o transporte de materiais se delonga, os resultados não condizem com a luta para alcançá-los.
 
A tempestade de dezembro passara. Outra maior desabaria algum tempo depois: a dos  moradores do Núcleo Bandeirante quando a hora chegou de demolir sua  cidade, conforme estava previsto e eles sabiam.
 
Mas esta é outra história. Que mais adiante haveremos de contar.
 
Por L. Fernando Tamanini, a partir de anotações de Israel Pinheiro.
"Brasília: Memória da Construção"

 

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Conheça a história de como JK atraiu Israel Pinheiro para comandar a construção de Brasília

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Já alcançara Israel os sessenta anos e embora se encontrasse em plena forma, não era mais um jovem, convenhamos. Juscelino lutava assim, com os seus escrúpulos. Mais um dia, numa viagem de avião, sentado lado a lado com Israel, tomou coragem:
  – "Israel, estou pensando em convidar você para um trabalho importante". (Fez uma pausa). "Mas não sei se…"

  Israel interrompeu o Presidente, facilitando as coisas:
 
   – Ô Juscelino, já sei o que é, e aceito!
 
   E foi desta forma que se viu definitivamente ligado à construção da nova Capital.
 
   Assinada em 19 de setembro de 1956 a Lei 2.874, que dispunha sobre a mudança da Capital e criava a Novacap, foi esta constituída em solene sessão pública a 22 de setembro e seus atos constitutivos aprovados por decreto do dia 24. No dia 25 Juscelino nomeou Israel presidente da Empresa.
 
   Mesmo antes de tomar posse, Israel cuidou de liberar a publicação de Edital de Concurso para a escolha do Plano Piloto da futura cidade. Os principais jornais do país publicaram o Edital em 30 de setembro. Em 20 de setembro o "Diário Oficial" da União já havia publicado, mas a divulgação do edital pelos principais jornais fora sobrestada até que os atos constitutivos da Novacap fossem aprovados.
 
   No dia 2 de outubro Israel acompanhou Juscelino em sua primeira visita ao sítio onde se ergueria a nova Capital. Já sobrevoara a área algumas vezes, a partir do momento em que recebera o tal convite, antes da nomeação. Queria ir tomando pé nas coisas, para depois não perder tempo.
 
   Voltando daquela viagem na tarde do dia 2, compareceu Israel à Câmara no dia 4 para as despedidas. Nesse último discurso naquela Casa, que não foi tão só de renúncia ao mandato parlamentar mas sobretudo de reafirmação de sua confiança no futuro do país, disse que seguia para uma luta maior a serviço de um ideal. Tinha nítida consciência de que não ia apenas lançar no interior despovoado os lineamentos de uma nova cidade, mas principalmente os sólidos fundamentos de uma obra de civilização e de conquista. Salientou que a participação de representantes da Oposição na Administração da Novacap, a despeito das duras lutas partidárias que então se travavam, caracterizava bem o sentido superior do empreendimento, o plano incomparavelmente elevado em que se colocava o problema da interiorização da capital, aspiração de todos que teria repercussão externa e interna na vida nacional.
 
   Recebeu, na oportunidade, palavras e apoio, de estímulo e votos de sucesso na missão, de deputados de todos os partidos. Entretanto, embora Afonso Arinos, com sua acuidade costumeira, declarasse da tribuna: "quem tem o sentido da posteridade, quem tem a intuição do futuro, faria com prazer isto que Vossa Excelência está fazendo, abandonar o mandato parlamentar para assumir uma missão desta importância e desta significação histórica", não foram poucos os que mostraram surpresa e até espanto diante da decisão de Israel de trocar o mandato de deputado federal pela Presidência da Companhia Urbanizadora. Muitos consideraram a troca uma loucura. Estavam equivocados, como o futuro se encarregaria de provar.
 
Extraído do livro "Brasília – Memória da Construção", de Tamanini

 

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01 de novembro de 1956

Escrito por Brasília Poética em . Postado em O dia-a-dia da Construção Sem Comentários

O presidente da Novacap, Israel Pinheiro, e Oscar Niemeyer estudam os locais para construção dos primeiros prédios: o Palácio Residencial (Alvorada) e o Hotel (Palace);
Nesta data, haviam 232 operários em toda a área onde Brasília seria construída. A construção do Catetinho está praticamente concluída. Um pequeno oásis no meio do cerradão. Um orgulho. Os engenheiros e operários comemoram com churrasco, costume que depois vai se incorporar aos hábitos dos brasilienses. O Catetinho, um palácio tosco em forma retangular, de tábuas, sustentado por grossos troncos de madeira de lei. Ainda não haviam tijolos nem pedras no local. Já dispunha de água corrente, luz elétrica, mobiliário rústico no térreo, cozinha e sala de jantar. No primeiro piso, sala, quartos, banheiros e ampla varanda.

 

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Os goianos tramam contra os mineiros. E Goías vence a disputa pelo local da construção de Brasília.

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

- Ô moço, podia me emprestar esse livro ?Venerando Borges ofereceu o livro a Israel:- Doutor Israel, eu tenho outro exemplar, pode ficar com este.Selava-se naquele momento, com a entrega do livro, a rendição do último baluarte de resistência, e os goianos puderam respirar aliviados e voltar para casa.

Planalto Goiano ou Triângulo Mineiro ?

A escolha, no interior do país, do local onde se construiria a nova capital, processou-se através do trabalho de várias comissões técnicas e estendeu-se por muitos anos. O ponto de partida foi, naturalmente, o art. 3o. da Constituição de 1891, que fixara claramente onde seria o futuro Distrito Federal: no “Planalto Central da República”.

A expressão “Planalto Central” permitiu acirrada disputa entre goianos e mineiros, entendendo os ùltimos que boa parte do oeste de Minas situava-se no Planalto Central e seria muito melhor construir a nova cidade no Triângulo Mineiro, de terra férteis e dispondo já de excelente rede ferroviária (Estradas de Ferro Mogiana e Oeste de Minas), do que fazê-lo no planalto goiano, de terras pobres de cerrado, sem nenhuma estrada de acesso e distante mil quilômetros dos fornecedores de materiais de construção.

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