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Bernardo Sayão

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Leia também, Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza!
Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós
nenhuma surpresa.
Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato
que te faz surgir num descampado, o olhar firme,  o sorriso exato,
e verte-te aí é rever-te nos caminhos que só para teus pés é que
a vida abria
e nos quais eras todo certeza, a alumbrada certeza dos que só
vêem o dia.
Da morte emerges, e de súbito estremecemos a um insólito ruído.
Seria acaso grito de fera, ou mesmo de homem na floresta perdido?
Não, não é uma simples árvore que desaba na floresta,
não é apenas um galho que cai – é algo mais. É a noite talvez,
e que noite esta!
Dizei-me por acaso se esse ruído que não finda
é algo que cessa com o estertor do que parece vibrar ainda.
Dizei-me se é uma vida, uma tocha talvez, quem sabe se uma
fogueira,
esse ruído que punge, dizei-me se essa árvore caída na clareira
não é a escuridão que nos cerca, que vai aos poucos nos sufocando,
não é a noite que nas águas e nas raízes fica chorando.
És tu que cais? És tu, Sayão, que cais? De repente, a terrível
certeza:
para sempre o silêncio se fez, nunca mais estarás à mesa,
nunca mais estarás à mesa – o convívio ficou de súbito
interrompido,
só resta – ontem, hoje, amanhã – o duro e insólito ruído.

Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.


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