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CIDADE LIVRE (o homem e a construção)

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CIDADE LIVRE
(o homem e a construção)
 
Os braços erguidos
sob pedra e argamassa.
Exército insone,
flutuante em seu verde
imemorial.
Os braços secos:
oceanos de cactos?
Temperado em flagelos,
resistente o corpo
na estrada da insônia.
Os açudes da memória,
os extintos rios,
se engravidam e sabem
trêmulos e límpidos.
No útero das noites
nascituras casas.
Líquida disciplina,
troca simetria
reflorindo nos lábios.
O candango se afina
em cimentos e caibros.
 
Caminham os olhares
Retirantes
pelas réguas e prumos
e os desequilíbrios
de seus passos longos
se proclamam livres
dos roteiros do ontem.
 
Contraditória no nome
a Cidade Livre:
bandeirantes esquálidos
firme retempera
e aprisiona os braços
para novos meandros
novos labirintos
enganosas vozes
enganosos hinos
nas algemas do tempo.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, nasceu em Aimorés.
Reproduzido do livro "Tempo de Ceifar"

 

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Brasília (A criação)

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Brasília
 
(A criação)
 
 
 
Amava o homem, Seu filho,
Criou-o com sopro dançarino.
Mas amava também
Os círculos e semicírculos,
Esferas, retas, semi-retas,
Pentágonos, hexágonos,
Cubos, ângulos, retângulos
E o giro exato dos planetas
Junto a todas as leis da simetria.
 
Pelas mãos do homem então
Deixou que se fizesse a cidade
E quando veio a luz do dia,
Era tudo harmonia.
 
Cidade do vôo continente,
Cidade conteúdo em sua mente,
Cidade de leves arcos e portais,
O homem: chama em seus cristais.
 
E sendo perfeito Ele
Perfeito era seu filho homem
Que fez perfeita e boa a cidade.
 
E todos descansaram.
 
 
Maria da Glória Lima Barbosa, poetisa baiana, nasceu em Camaçari.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Ode a Oscar Niemeyer

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Ode a Oscar Niemeyer
 
A Athos Bulcão
 
 
A arquitetura extraordinária
de Oscar Niemeyer
(e admito as críticas
que se lhe fizeram
ou venham a fazer)
é apenas um minúsculo visor,
olho mágico de apartamento,
que nos permite
– a nós, leigos –
contemplar
numa perspectiva reduzida
mas global,
o espírito verídico,
o caráter inteiriço,
desse homem de ferro e cimento armado,
mas que não repele
as sinuosidades verdes das ondas,
as delicadezas do rococó,
estética graciosa,
mal compreendida
(como ele, às vezes),
homem múltiplo,
gênio inconteste,
como os seus mestres renascentistas,
milionário singelo,
comunista por compromisso com o fraterno,
que sentimos pródigo,
neste tempo de indigência,
neste deserto de colossos,
em que os únicos mitos
são os da propaganda e os da droga,
como coluna
sustentáculo,
pai, irmão, amante,
em Brasília,
no Brasil,
entre os nossos patrícios
desamparados,
enganados e
explorados,
e aguardando
aquela promessa de Brasil
do pão certo,
da terra possuída,
da casa construída,
e até do cemitério igualitário dos ancestrais
em que (oh!doçura!)
nos converteremos
em terra da nossa terra!
 
Cassiano Nunes, poeta natural de Santos (SP)
"Poemas para Brasília’, antologia de Joanyr de Oliveira

 

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LATE ILUSÃO

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LATE ILUSÃO
 
Em noite de lua cheia
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
Páginas da folhinha
o que era cheia de domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta-feira
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu ouvido
meu homem partiu da derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela
saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
 
Elisa Lucinda
Reproduzido de "Tantas Palavras"
Correio Braziliense, 19/08/2008

 

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Casas Populares:

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Casas Populares:
 
Diria, cogumelos como filas
ou um exército de casas rudes
onde luta o homem com seu garfo
e sexo na planície: cama e mesa.
 
Assim as paredes se dividem, se divi-
dem as vidas no limite tênue dos terreiros
e os mil vizinhos se entreolham e se devoram
em picuinhas, namoricos e agressões.
 
Affonso Romano de Sant’Anna, poeta mineiro, nasceu em Belo Horizonte.
Transcrito do poema Crônica de uma cidade quando nasce, Antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Canção da fábula inicial (Brasília)

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Só havia noites e manhãs.
Com o avançar dos dias
as máquinas chegando.
Não se podia saber
mas o certo é que elas
tinham uma importância
maior que os homens,
e também a madeira.
Havia sulcos já cortes na crosta
angustiada; cerrados, caminhos,
estradas, árvores partidas,
terra solta, animais fugindo.
As máquinas sempre chegando.
Os caminhões de madeira
e gente.
Com espaço de alguns dias
a terra na sua superfície
lembrava restos de tempestades.
Era chão batido, chão sulcado, chão ferido.
Mas ainda não era nada. As
máquinas devoravam o chão, cortavam riachos,
trituravam árvores.
Noites de negrumes estranho.
Os longes e as tardes coloridos,
mas ninguém olhava. As casas de madeira
apareciam. Parca, a vida que nelas começava
mas começava. A terra
podia estar aceitando o domínio do homem,
mas ninguém olhava. Nem a dor
de um e outros se pressentia.
Os homens, tanto como não se esperava,
chegavam; vinham, apareciam
mais do que as máquinas e utensílios,
não eram previstos.
Nem pensavam no velho e no muito velho
e novo corpo, nem
se avaliavam. Eram iguais
aos retorcidos troncos do cerrado.
As roupas iam-se desfigurando
e não percebiam, e as pequenas feridas
apareciam na pele e não eram vistas e cuidadas,
nem as mãos e os cabelos
eram lembrados.
Em tudo começavam um movimento,
fora ou dentro da hora,
porque tudo era lícito
tudo estava fora do lugar,
criava e recriava a vida.
As casas aumentando,
mas nelas ruídos não se ouviam,
só a vida no largo chão de sol e lua.
 
2
Uma primeira lua passou
e ainda tudo era o mesmo.
O que se modificava era
a terra com suas feridas.
Chão batido e chão claro.
Já um e outro tiveram fome,
e pegaram a lembrar de alguma
coisa que ficou para trás.
Chegava o momento em que o homem
redescobria-se. E assim ele podia olhar
em redor e fazer amizades,
porque tudo isso é de sua tradição.
Ele olhava a terra
e pôde com a fome olhar as estrelas
e pegar numa árvore, observar a água,
e amar sua aventura.
E, ao mesmo tempo que andava
para agir contra a fome,
também podia pensar.
E começava a miúda afeição
de um e de outro pelo sítio,
do homem pela máquina,
do povo pelas estrelas e caminhos.
 
3
Um dia a mulher chegou.
Alguns homens, velhos e novos,
tiveram logo a notícia.
Era a primeira que vinha
a terra. As máquinas, os
homens, depois ela.
(…)
 
4
A terra viu o crime.
Foi no acampamento da
"Pacheco Fernandes".
Os operários encurralados,
reclamavam direitos.
Eram dez horas no pla-
nalto.
        Foram metralhados.
        A madeira curtida
pelo sol
e pela chuva
foi feita em pedaços
(eles amoitavam-se
nas casas de tábuas),
feita em sangue.
No caso não mais se falou.
Havia-se iniciado a vida no ermo.
Tudo agora diluía-se
no emaranhado de humanidade
que despontava de esquinas
de matos e encostas.
Sinais humanos,
terra ferida.
 
5
Como se faz uma cidade?
Com vidas e argamassas?
Como se faz uma cidade?
Com operário se conta?
É a mão do homem quem sabe.
Como se faz uma cidade?
Com a mão se faz o sonho
(…)
 
José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Uma mineira em Brasília

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Uma mineira em Brasília
 
Aqui, as horizontais descampinadas
farão o que os alpendres sem ânsia,
dissolvendo no homem o agarrotamento
que trouxe consigo de cidades cãibra.
Mas ela já veio com o lhano que virá
ao homem daqui, hoje ainda crispado:
em seu estar-se tão fluente, de Minas,
onde os alpendres diluentes, de lago.
 
                          *
 
No cimento de Brasília se resguarda
maneiras de casa antiga de fazenda,
de copiar, de casa-grande de engenho,
enfim, das casaronas de alma fêmea.
Com os palácios daqui (casas-grandes)
por isso a presença dela assim combina:
dela, que guarda no jeito o feminino
e o envolvimento de alpendre de Minas.
 
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, nasceu no Recife.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília (A criação)

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Brasília
(A criação)

 
Amava o homem, Seu filho,
Criou-o com sopro dançarino.
Mas amava também
Os círculos e semicírculos,
Esferas, retas, semi-retas,
Pentágonos, hexágonos,
Cubos, ângulos, retângulos
E o giro exato dos planetas
Junto a todas as leis da simetria.
 
Pelas mãos do homem então
Deixou-se que se fizesse a cidade
E quando veio a luz do dia,
Era tudo harmonia.
 
Cidade do vôo continente,
Cidade conteúdo em sua mente,
Cidade de leves arcos e portais,
O homem: chama em seus cristais.
 
E sendo perfeito Ele
Perfeito era seu filho homem
Que fez perfeita e boa a cidade.
 
E todos descansaram.
 
Maria da Glória Lima Barbosa, poetisa baiana, natural de Camaçari.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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