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Galdino ou a morte por diferença

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Galdino ou a morte por diferença
 
I
O final precedido pelo descuido:
lesão corporal seguida de morte
 
Outro final: a morte por cálculo:
os litros de fogo e álcool
no corpo estirado na pedra
 
A morte em catálogo: quem escolhe?
a de outrem? A própria?
Dele, a morte mais violenta
por lapso, indiferença
 
II
Os termos são:
1.       o meio cruel: a cama industrializada
com acabamento em chama
2.       o motivo torpe: o cinema
de bairro da agonia
3.       a defesa impossível:
               na fuga sem pernas corre a lava
               Você, Galdino
               queimado por desporto
                inteiro morreu em cada parte
                morte tríplice
                três vezes qualificada
                III
                Pataxó Hã-Hã-Hãe eu também
                sem bordunas e veneno
                de outras flechas
                martelo as vozes
                do seu réquiem:
 
                como reconhecer um homem
                se só o ouvimos ao longe?
                como reconhecer um homem
                se o vemos remoto, distante?
                pelas vestes que cobrem o corpo?
                pelo corpo sem mais, desnudo?
                nos gritos como palavras?
 
                um homem, como ele é por perto?
                frente a si mesmo, cara a cara?
                como reconhecer um homem, a sua laia?
                pelo gênero ou espécie?
 
                Sem traços que o distingam
                (irremediável  longínquo)
                tem riscos que o igualam
                Não é pra se reconhecer:
                um homem
                é quem reconhece
 
                 IV
                 Um Galdino
                 é só o que tu vales
 
                 não chegas a João
                 Francisco, Tales
 
                 por escassa a diferença
                 és igual em demasia
 
                 não és um outro
                 pra ter direitos, vantagens
 
                 por isso o clarão?
                 os archotes, a fogueira?
                 a labareda na esteira?
 
                 O jaez
                  é que faz
                  a indiferença
                  Galdino
                   E dada a sentença
                   joga-se a pá
                   do homicídio por direfença
 
Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Menino presidenciável

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Menino presidenciável
(Fragmento)

 
Disseram-me: Homem não chora.
E eu, que queria ser herói, doutor, um grande aviador,
um famosíssimo escritor ou simples presidente,
perdi meu coração na aurora.
 
Eu ia ser presidente do Brasil
reeleito dez vezes
(depois, com a barba igual à do imperador
ia ser professor catedrático do colégio Pedro II
e ia construir uma catedral submersa
na Baía de Guanabara
onde só tocaria música de Bach, Haydn e Haendel
e uma estrada direta do Rio e Ubajara
só não sonhei Brasília, minha última namorada
e seus argentinos eucaliptos
e seus donos argentários
e seus espaços planetários
e suas sebes de ciprestes
separando esteticamente
os proprietários dos outros).
 
E como ainda seria pequeno
teria um carrinho do parque de diversões
como limusine presidencial
e em vez de moto, dois cavalos normandos
adestrados para trotar em ritmo de valsa
com penachos sobre as crinas
e uma baliza na frente, pernas de fora
fazendo acrobacias
pompa e elegância adequadas
a meu terno branco de primeira comunhão
com calças curtas e tênis de lona
alvejados com giz
(acho que, como presidente,
poderia comprar sapatos de verniz).
(…)
 
Esmerino Magalhães Jr, poeta natural do Rio de Janeiro
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

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Goiás

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Goiás

Goiás é terra de rios de águas verdes
E de mulheres vestidas de amarelo e de homens
Que riem mais alto que as mais altas montanhas. (…)
Goiás é de um homem seco
E de um menino molhado de morte
E de uma estrada de caminho de cruz antiga,
Uma doida fome que é como uma arara (que é como manada de bicho, que é como uma ventania, uma boiada)
Que põe   de bocas sem dente , séculos
De pedra na face macerada, séculos
De riso aberto.
Goiás é um rio calçado de botina vermelha,
É uma roupa verde na sujeira de terra do homem.”

Poema de José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí

Post Paulo Timm,  transcrito da Coluna do Timm (26/11/2010)

 

 

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BSB-DF

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BSB-DF
 
 
 
1
 
O poeta é homem
             &
      caminha
 
a cidade
pista de suicídio –
BSB

começa    aqui
do pó      &
do poema   agora

2
 
das satélites ao centro ( ?
das decisões
(da solidão
que cinde, mortal em geo
GRAFIAS
do homem que caminha
-secreto carregado de disparos
aos culhões da época-)
a distância é fato comum
espaço
que se avança
(constrói & cons
pira-se  )
:embora bloqueado:

3

o preço da passagem
caiba no caminhar
& no poema
– artefato arrevezo
arremessado
ante o presente
            (e o que não passa
a dor diária da cidade)
a cara a quem calado
:custe o trans
caro a quem trabalhe
cidadão&poeta&operário

4


 começa aqui
o caminhar
&
a cidade
até o limite em que desaba
seu napalm-esp
aço
(álgebra cartorial gráfica )
contra corpos que em febre
&
soco-salários
fundaram em púrpuro
sua est
ética:
raras

5

aqui
-fraudados-
onde o preço é lei
dita
dura
lógica de esp(I)a(na)das
começam o homem & seu poema
emaranhados

 
6

esta cidade: seus rumores
manhãs
sibilinas
(cigarras-galas
neblina seca
navalhando os lábios  )
quando o excesso é paz
-tragicalmas-
sob as cornetas da ordem
&
manobras diárias

7

tardes
( pseudo,
claras
alucinatórias
– horas inexatas –
névoa cósmica destilando lágrimas
sangue sal
picando
ante-salas

8

noites
desço
nexas
in
g(r)atas
quando ser & estar parte
o coração
oscila
não se sabe onde
em que lu
(g
ares

9

n’esta cidade
hã, hem ?
(cilada sibilábica)
cemitério alado
em que me encontro
vôo
(exíguo
zigzag)
a esmo exilado a mais

10

esta cidade língua iluminada
lambelambendo
meu sexo
(o néctar dos vocábulos)
palavras
-solidão rigor W-4-
trans
)traídas
tornadas
entre desejos
(aflição anexa ao sarro gozo igual)
e o f’ato incomum de amar
pate
ta/tica
mente
esta cidade (sendo a vida esbulho
atropelo & porão
ferida exposta
sin’
ais

11

sendo a vida merda
amarga turbulen-
ta
plural
&

na garganta
(grito dissonante)
contramão
cego punhal

12

sendo a vida
n’ave
à deriva
pesadelos perambulam plataformas
passarelas
pilotis
a vida a mas/
turbar-se em banheiros
calabouços
&
b’l’ares
entre gol’p’es neg(óci   atas
expedientes
(PÉS PFs?)
protocolares

 
13

masturbam a vida em bancos
&
autarquias
&
quartéis
(sonâmbulos & agramáticos)
no espaço público das taras
mater rodoviária
-puta baldia
reduto
anti-praça
diva escancarada
– canal –
a tudo extremo na cidade
SUb ‘URBA
n ‘ess’a
:barra:

14

esta cidade: descalça
– sem calçadas –
do que foi-infância & fábula
elaborada a contrario
brasilalvísceras !
inversa ao passado
esta cidade – pública ? – pluri (am
putada
equilibrada a pontapés
em contragolpes
esta cidade lâmina & lodal
danger dissimu disse
minada
em contra-ordens & sentenças & cláusulas

 
15

esta cidade
(alçapão)
côncova & concentrada
contra o câncer do que é luta
labuta
classe
abocanhada em lances & conchavos
esta cidad’ela in’civil
bandeiras
&
fa(r)das

16

esta CidaD
ELA
doi
di

na
– sutilinútil –
est    ILHA
i l h a ç a d a
esta cidade   mu
/sa
seu
C
( i  )
ALADA
– dita
inter –
bela & fera
enca(r)petada

17

esta cidade: aurora
adiada
hidra democéfala
esfingefada
(exu-xangrilá)
esta pací(f)vica cidade
d
a’r’ma(r)   a
g

18

esta diab
cidad
? hermét(r)ica?
avassala’
do(u)ra
da
lucífera
esta c’idade:cães patente
esfaimados
incivil
assombro
sonhada

19

que se passa (nos plenários
corredores
entrequadras
nos b/l
ares ?
do que passou se passa
– e há de vir ? –
nesta cidade – tudo
torta
em linhas ângulos reta
arquivistas
cortesãos
coronéis
? que se passa ?
(mortos rangem os eixos do presente)
outroragora
nesta
t
u
m
b
acidade
fantasmas afugentando alvoradas
m’ais ?

20

o sono dos senhores
da cidade
entre blocos
superquadras
o sono da cidade   (seus sonhares
se
con/
cretos
– alçamirados –
nesta paisagem azul-represa
( escafandristas zumbis surpreendente peixa )
o sonho da cidade: suas armas c’aladas

21

o sono da cidade
e seus senhores
(ruídos do nada
visões
sideral
nas águas do lago
iluminadas)
nesta cidade asas
de morcego cauda de
m
co   eta
r n
astronave
lunar
avariada

22

dormem
ana cristinas lídia
na paz ?
nesta cidade sem ruas
setores
WW
quadras
lar & lápide
em que me aqueço
(esquecido
nome
ao
léu
ninguémalguém
a caminho)
sereias bafejam
sibilam
( seu canto
-in
feliz-)
em meus ouvidos

23

dormem ana cristinas lídia
dormir desfaz
esta cidade
(charada polissílaba que desato)
sonho avesso
onde me vejo
em que em encontro
(embora não me caiba)
cabisbaixo enlouquescente
encalacrado.

24

nesta cidade sem
becos
sem saída
cap’b’ela
ana cristinas lídia
concreto eterno
(z’urro
confetes ferem-me a pele)
jazigo
a céu
aberto
onde lotar a dor
(o medo espalhado
a esmo)
n(d)esta cidade clara
&
secretíssima ?

25

esta cidade
com
CRETA
(seus pulsares ministáurios
p’f ‘avores)
contra a qual avanço
dançando
(blasfemo
musamausoléu
embalsamado)
poeira rubra laminando a alma

26

nesta cidadeelláasssttica
(a olho nu
inabitável)
transplante plástico
em que me deixo (acho ?
ir
vir
vendo perigo
a mil
(superfície fáustica
fundo-fátuo)
ao acaso
(medusado)
s’urdo
inclaro
esta meada sêmen anticanto
fio
umbilical
extraviário

27

instalado
– pirata –
em ângulos domados
(entre palácios
pilatos
vassalos)
sob os véus do presente
te(r)ço
excluso
exa
(us)
to –
elevo este salmo
autóp(oe
sia)
 disparo
ao coração
da
(r
dos
raros
lançados aos céus
incêndiovasto

28

assim
quando a cidade é inexata
re’pousando
núbil
nua
no planalto
(além-mapas)
o homem a caminho
cidadão imaginário
-emissário sem mensagem-
cruza a si mesmo numa via multi
intransviária
&
insustentável
em palavras (enfim que sempre cegam)
:aqui não bastem sigam
neguem
esta ci (la
da
de   imagens
&
– de nada.
 
Eclison  Tito

 
Bsb, 1979-81/BH, 1991-2003
Transcrito de “Abstrata Brasília Concreta”
De W. Hermuche

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Dizeres

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Dizeres

Antes que o corpo,
porque existiu,
não saiba,

e o homem
se torne prisioneiro
de um tempo

onde só os papéis
timbrados
sejam levados em conta,

e o espírito
seja apenas
um burocrata

servil à máquina,
tanto quanto
o funcionário assina o ponto,

surge um basta
com os dizeres
“respeitem o dia”!

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano.

 

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Casas Populares

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Casas Populares
Diria, cogumelos como filas
ou um exército de casas rudes
onde luta o homem com seu garfo
e sexo na planície: cama e mesa.
 
Assim as paredes se dividem,  se dividem
as  vidas no limite tênue dos terreiros
e os mil vizinhos se entreolham e se devoram
em  picuinhas, namoricos e agressões.
 
Affonso Romano de Sant’Anna, poeta mineiro, natural de Belo Horizonte.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira
.

 

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PARALELO 15: HOMEM DIANTE DO MAR

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Do alto do edifício de forma cilíndrica que desponta imponente do Setor de Autarquias Sul, um homem contempla a cidade. A capital do país construída no cerrado ainda desperta sua admiração, depois de cinco décadas – apesar do esbulho de seus políticos detratores, da mutilação dos administradores inescrupulosos e o adultério do projeto original, escultores criminosos das rugas urbanas, das estrias sociais, das celulites imorais, que o povo em si, guardião de sua alma, sabe exorcizar ou vencer.

Vejo-o, entre absorto e macambúzio, com os olhos fixos num ponto. O que veem seus olhos tão pressurosos quanto enigmáticos? Talvez, admire que às margens da usina de esgotos da Asa Sul, apesar do mau cheiro e do circunlóquio de urubus, ainda vicejam plantas ribeirinhas e as garças fazem pouso e se alimentam de detritos.

Ou será que o absolutismo de seu silêncio e a paralisia dos olhos vêm da sinuosidade de seus pensamentos quando contempla a Esplanada dos Ministérios? Aquela enorme via, corredor de invisíveis mistérios, onde papéis e decisões tomam rumos muitas vezes inesperados.

De onde estou, numa mesa (melhor dizendo, estação de trabalho, para não perder o bonde da história e estar em sintonia com a noção terminológica dos novos tempos e a semântica do mundo globalizado e competitivo), sim, nesse lugar em que me encontro compulsoriamente, como numa relação bovina com a realidade funcional, com computador, telefone e outros implementos, vejo-o, entre silêncios e fugas interiores, observando a marcha da vida e do tempo. Onde estarão seus olhos, seus pensamentos, sua vida, sua esperança – nesse espaço quase sem movimento que ele abriu no galope das horas?

Que cidade aquele homem vê? A cidade oficial, da mordomia e das aparências, burocrática, marmórea e sem alma – de políticos behavioristas, justiça enclausurada e sentimentos esquivos? Ou aquela em que as cigarras de agosto e os ipês em flor, conspurcando com suas belezas a palidez decretada pela estação seca, fazem um concerto simbiótico, plástico e melódico, anunciando a primavera? Ou a dos homens e mulheres que circulam pela W-3 Sul, entre passos apressados e o fluxo vertiginoso de animais metálicos, como na solene marcha das formigas em sua meticulosa faina?

Um homem qualquer? Não, um homem que vê e se vê diante da urbe que existe além do círculo do poder. Mas noto em sua quase intangibilidade, em seu estado de pessoalíssima solidão, a pressa em descobrir para que lado vão as coisas na polis enclausurada, para onde seu coração caminha, e por onde voam seus pensamentos (quais falenas em jardins suspensos).

Um ser que, sem sair do lugar, nada de braçadas no horizonte onde desponta um sol incendiário para fazer a mais luminosa das manhãs do mundo na metrópole balzaquiana. Diante da imensidão do altiplano tenta entender o deserto psicológico das vidas que passam, entrar no seu ritmo, carregar-se na sua energia, numa espécie de solidariedade anônima mas consciente.

O céu é azul e enorme. Maior é o seu comedimento diante da grande arquitetura que o rodeia.  E seus olhos passeiam, porque parece que ele compreende bem dentro de si o que Niemeyer um dia reconheceu: “Passear em Brasília é como passear num jardim. O céu é o mar de Brasília”.

Por isso eu vejo aquele homem como qualquer homem diante do mar. Deslumbramento e reverência ante a natureza indissolúvel, com seu poder de afeto e sedução.

Sim, ele vê um mar. Mas nesse trânsito onírico, ele não divisa navios ancorados nem cais ou despedidas, pois essa é a “única cidade onde não haverá saudade”, como disse um poeta. Mas vê os palácios da Praça dos Três Poderes que parece flutuar na planura sem fim do Planalto Central, território de babilônicos contrastes. E esse encantamento nasce da descoberta que se faz a cada dia, novos ângulos de visão que fluem dos ângulos retos da cidade que é arte em permanente estado de construção e beatificação.

Não, esse homem não quer ir embora pra Pasárgada, ele quer ficar em Brasília, a Capital da Esperança batizada por André Malraux. Eu não perguntei, mas sei que ele quer ficar aqui. É o que traduz seu jeito de observar o Plano Piloto que se abre em asas, de norte a sul, nos 180 graus em que se lança a vislumbrá-lo. É o que dizem os olhos desse homem (Severino? Antônio? Tomé? Nonato? José Raimundo? ou simplesmente João?)? Ele parado no décimo quinto andar do prédio público, de onde descortina tudo com discreta serenidade, sem perceber que o estamos vendo, admirando seus olhos que jamais se fatigam de deambular pelos espaços federais, ora compungido como a arquitetura da Catedral moderna, ora contornando as “tesourinhas” que bifurcam o Eixo Rodoviário e vão levá-lo às superquadras, com seus blocos sobre pilotis e seu comércio localizado, em que a vida também pulsa, apesar da falta de esquinas.

A cidade para ele é um mistério? Onde estão as pessoas, Brasília? Estão nas escolas, e daqui a pouco sairão como os pássaros, em revoada. Estão nos gabinetes, ó homem em transe. Estão por aí, nas Satélites, nas autarquias, na feira do Guará, no Parque da Cidade, no Conjunto Nacional. Por aí, ó homem, onde a vida se desvia em mil trajetos arteriais e pulsa e as pessoas vão de um lado ao outro, pelo grande Circular ou de Metrô, num permanente movimento  em que não há lugar para a melancolia ou o retrocesso.

Taciturno, o homem sobre o qual nada sei, vai se fazendo perguntas entre uma e outra baforada de fumaça de um cigarro que custa a desaparecer entre seus dedos. Assim como quero entendê-lo, ele quer compreender o jeito próprio dos candangos, essa gente vinda de todos os lados, atraída pelo eldorado juscelinista, confiantes que um valor novo se alevantava na doida marcha para despertar o gigante: a esperança.  Aquela mesma que Cassiano Ricardo cantou num madrigal “Vou-me embora pra Brasília, /Sol nascido em chão agreste. /Como quem vai para uma ilha. /A esperança mora a oeste.”  E que Drummond anteviu como alternativa ao marasmo e descontentamento do ser com velhos e vãos territórios: “Vou no rumo de Brasília,/não é aqui o meu lugar.”

Não, não é o Lago Paranoá que o faz navegar. É o céu de Brasília: mar absoluto. Esse céu-mar, essa cidade que nos espanta, porque uma das características essenciais de uma obra de arte é sua capacidade de provocar surpresa e espanto, como reconhece Baudelaire. Por isso, deter-me naquele homem ensimesmado, diante do desafio de entender a obsessiva saga de fazer surgir do nada, do agreste e da poeira uma cidade de corpo e alma, completa minha sensação sobre viver num lugar que representa a unidade na diversidade, o encontro de todos os brasis, a heterogeneidade consolidando o humanismo a que almejaram os idealizadores e os que amalgamaram cada tijolo na busca da concretude e do sonho.

A mesma e profunda lição de se perder nos sete mares que os antigos galeões provocavam nos desbravadores, é semelhante ao ensinamento de que, para viver em Brasília, que se abre todos os dias como uma alvorada, não é preciso ter somente cabeça, tronco e rodas. É preciso, antes de tudo, uma eternidade permanente no olhar.

Muito mais que isso, a humanidade e qualidade de vida de que tanto se ressentem os habitantes de outras metrópoles, é vivida e sentida aqui, cidade antevista no sonho de Dom Bosco, para quem, entre os paralelos 15 e 20 surgiria uma nova civilização, onde verteria leite e mel.  Mas sobre ela não preciso que me falem pitonisas ou adivinhos, pois fico com  a singela e poética constatação do saudoso escritor Esmerino Magalhães Júnior: “uma cidade é uma porção de coisas de onde emana o humano, e não os monumentos apenas”.

Por isso, aquele homem está ali, diante do mar, diante de nós, arquipélago invisível de ternuras e segredos, e  como uma câmara sem pressa registrando o mundo sob este céu: imensidão oceânica que tanto nos devora quanto nos alimenta. E isso me diz tudo. E é o que não nos faz sentir (n)uma ilha.

Por Ronaldo Cagiano

 

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CRETA: LUZ COSTA PEDRA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

CRETA: LUZ COSTA PEDRA

esse mundo quadrado
foi riscado por um homem
que tinha luz no nome
minha rua não tem nome
não tem rua a minha rua
mas todas as vidas ligadas
pelo mesmo fio desse homem
que unia uma via sem nome à outra
 
esse labirinto reto e exato
só pode ter sido riscado
pelo Minotauro metade homem
metade boi de luz no nome
andarilho e andante
o Minotauro procura nas placas
entre todos os nomes
entre todos os homens
                                        a saída
 
esse mundo quadrado cercado
de curvas por todos os lados
habitado por nuvens e lagos
foi arriscado pelo sonho
de um homem desenhado
metade boi metade urbanista
ele ainda procura uma saída…
 
Augusto Rodrigues, poeta goiano.
Poema transcrito do livro “Niemar”, Editora Vieira.

 

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O texto de Antônio Carlos Jobim

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios. Horizonte: 360 graus. No fundo do “Catetinho” há um capão de árvores altas por onde passa um córrego de água boa e fria. Seguindo-se a água sai-se num campo onde fui muitas vezes escutar o pio das perdizes. Sillêncio nos campos claros, batidos de sol. De repente, de perto, como um grito, veio o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos. Aqueles dois pontos de som escondidos no capim se procuram, aproximam-se, encontram-se e cantam juntos. Uma nuvem passa e sua sombra corre pelos campos. O vento faz ondas nos penachos do capim: dourado, verde, dourado…

Neste ambiente foi composto “O Planalto Deserto”. A música começa com duas trompas em quinta, que evocam as “antigas solidões sem mágoa”, de que nos fala Vinicius de Moraes e a majestade dos campos sem arestas, que a milênios se aquietaram. O espírito do lugar prevalece. Duas flautas comentam liricamente as infinitas cores das auroras e poentes, sobre um fundo harmônico de cordas em tremolo. O mistério das coisas, anteriores ao homem, é exposto numa luz clara e transparente: “onde se ouviam nos campos gerais do fim do dia o grito da perdiz, a que respondia o pio melancólico do jaó”. Às vezes, à beira d’àgua, surge a trama vegetal dos galhos e lianas. O timbre da orquestra escurece. O infinito horizonte se enche das cores do crespúsculo e se escuta mais uma vez o tema do planalto. A segunda parte aborda o homem: seu espírito de conquista, sua violência, sua força, seus desejos e seus sofrimentos para atingir o altiplano. Enquanto escrevia a música dessa parte, tomou-se em meu espírito a seguinte imagem: uma carroça vai penosamente se arrastando serra acima. O homem instiga os animais. A marcha acelera-se e surge o canto, a que responde a natureza calma e isenta de desejos. Mas o homem quer as coisas. Seu braço forte, riscado de grossas veias, ergue-se e uma lâmina afiada corta os ramos desta natureza imparticipante. O picadão se aprofunda sertão adentro. O homem haveria de plantar sua cruz no planalto.

Na terceira parte, os modernos pioneiros retomam o trabalho dos velhos bandeirantes. O projeto da nova capital é planificado e torna-se necessário, para levar a efeito “a gigantesca tarefa”, convocar “todas as forças vivas da nação”. “A chegada dos candangos” conta da vinda desses homens de olhos puxados e zigomas salientes; homens que em toda a sua pobreza ainda encontram um jeito de rir e cantar. Homens sem os quais Brasília não existiria.

Segue-se a quarta parte: “O Trabalho e a Construção”. Evitamos a música concreta para caracterizar o trabalho (ruídos de serras, estacas, etc) porque isso nos pareceu óbvio. O trabalho é visto de uma maneira mais subjetiva. A música começa com um fugato que retrata o início da ação. A sorte está lançada. A inexorabilidade da ação é posta em evidência. O fugato desenvolve-se de maneira matemática. A tônica é o centro de tudo: as tonalidades satélites vão e vêm mostrando suas cores puras, mas tudo reverte à ofuscante tônica central. Há um plano de construção e este plano é rigorosamente respeitado. Por vezes, o trabalho cessa para dar lugar à contemplação da obra já feita e três trompas aparecem sugerindo a graça e a leveza líricas do Palácio da Alvorada diante da “grande planície ensimesmada”, de que nos fala Vinicius. Mas o trabalho tem de prosseguir. Surge um ritmo marcato nas vozes masculinas e no piano, aqui usado como instrumento de percussão. Depois os arcos tomam a si o mesmo motivo, e, às vezes, eventualmente, se lamentam, como a dizer que nenhum trabalho é feito sem sofrimento. Os instrumentinos e logo os metais retomam o marcato, a sugerir o sol no zênite reverberando nas superfícies brancas, ferindo os olhos dos homens que trabalham. Novos temas arquitetônicos aparecem, cortados por uma frase de inusitado lirismo: pois o trabalho é também amor e poesia. Volta uma vez mais o tema do Palácio da Alvorada e tudo se encaminha para um desfecho inevitável. As tonalidades satélites mostram novamente suas cores, mas a tônica domina tudo. Os fatos se precipitam e o trabalho e a poesia dão-se as mãos. Algumas celebrações, alguma grandiosidade, e o trabalho se conclui, de repente, numa frase triste enunciada pela voz humana. Os homens voltam para as suas casas na melancolia do poente. Um cantochão diz de suas solidões, de suas tristezas, de suas mulheres ausentes. As cordas tomam a si o cantochão enquanto o texto fala dessa saudade dos homens por suas mulheres. Surgem pela primeira vez na Sinfonia vozes femininas que contrapontam intuitivamente com as vozes masculinas. Depois, em bocca chiusa volta o cantochão nas vozes masculinas retomando o tema da solidão. Um acorde de orquestra transporta ao tom menor e vem a treva total. Surge, independente do homem, o tema do “Planalto Deserto”, da primeira parte.

Segue-se, na quinta parte, o coral final, comemorativo da realização. Vinicius usou além da palavra-sentido, a palavra-som, o que causa muitas vezes um efeito surpreendente. O Brasil aparece em toda a sua nostalgia e grandeza. Uma nova civilização se esboça. Herdeiro de todas as culturas, de todas as raças, tem um sabor todo próprio.

Antônio Carlos Jobim, Rio de Janeiro de 1961

 

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A cidade que surge

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A cidade que surge
Por Ivna de Morais Duvivier
 
A mais cerrada oposição a Brasília parte do “homem cômodo”, o que se acostumou a viver cercado de falsas garantias, o homem dos hábitos, ou melhor, o homem mecanizado.

Nossa absurda civilização leva insensivelmente a grande maioria a tomar essa posição de comodismo e inércia, pela inutilidade de tentativas em atingir um tipo de vida mais humano.

Aquele que vive na dependência da máquina, vai aos poucos abdicando da espontaneidade e improvisação e se subjugando ao seu sistema. Passa então a se definir em itens e tudo o que possa fazer estará previsto dentro de uma chave. O que foi definido no ‘Diálogo das Carmelitas’ como atributo de nobreza, esse gosto pela ação heróica aliada à necessidade de poesia, esse à vontade para viver ou morrer sem fazer caso da vida, – tudo isso foi substituído pelo medo, de atitudes, traições, doenças, viagens, da própria ciência, que sabe e não explica.

Só assim se pode compreender o motivo da resistência que muitos habitantes do Rio de Janeiro vem fazendo a Brasília. Combatem Brasília porque sabem que cedo ou tarde terão de se definir: recuando ou tomando parte ativa na cidade onde tudo é novo, onde resta muita coisa a fazer. E eles tem medo, não se sentem preparados para enfrentar uma nova forma de vida, onde todo o automatismo e toda a rotina construída a custa de conformismos, cairão sem lógica.

Essa rigidez diante do novo apenas revela uma incapacidade de adaptação que não deixa de ser uma forma de velhice, pois, diz muito bem John
Dewey, que a plasticidade é uma característica da juventude por indicar um potencial de renovação. Hoje, os exemplos de heroísmo e ação já não contaminam ninguém, são mesmo incompreensíveis. O individuo inibido desde a infância em suas manifestações de força criadora, vive apenas e constantemente em função de um desfecho, dentro de um clima de insegurança que nunca se dissipa, e quanto mais se fortalece com as conquistas da civilização e se cinge com as precisões do conforto, numa grande cidade, maior é o seu isolamento. Procura então se absorver no ritmo da máquina, pois a máquina veio preencher a lacuna deixada pela falta de fé, e por uma forma de embriagues atinge um momentâneo esquecimento.

As consequências dessa atitude perante a vida, vem porém se agravando e exigindo u’a mudança radical, uma orientação nova que venha proporcionar vida melhor aos nossos filhos. Que eles possam usar a sua liberdade – a liberdade que no conceito de Hegel é a capacidade de ditar leis a si próprio. A solução para esse problema, cuja causa, todos os que se dedicam ao estudo das ciências sociais não divergem em apontar, está na criação de uma cidade em que a vida comunal se torne possível e na qual o homem não se sinta isolado da natureza.

Lewis Munford compara a nossa situação à do “Aprendiz de Feiticeiro” e observa que a “dissolução dos vínculos humanos e a estrutura das grandes cidades de hoje, são fenômenos que mutuamente se condicionam”. Analisando a mutilação que sofre o habitante da moderna cidade no que tem de espontâneo e pessoal, diz: “Muitas vezes a espontaneidade toma a forma de atos criminosos e a faculdade criadora encontra sua principal descarga na destruição”. Assim surgiu a “juventude transviada” cuja causa está na rebeldia da geração nova contra a geração desumanizada que pouco a pouco a absorverá.

Giedion, estudando as bases de um moderno urbanismo que possibilite a volta à comunidade, também conclui: “Se desejamos que se restabeleça a medida humana, se é preciso que voltem a surgir relações espontâneas entre os habitantes, o que devemos fazer é reduzir novamente as compactas aglomerações das cidades. É preciso se restabelecer o direito inato do homem: a relação com a natureza”.

Walter Gropius também reconhece que “a enfermidade de nosso caótico ambiente atual, sua fealdade e desordem a miúdo dignos de lástima, são resultado de nosso fracasso na tarefa de colocar as necessidades humanas básicas acima dos requisitos econômicos e industriais… No nível inferior da sociedade o ser humano se degradou ao ser empregado como ferramenta industrial. Esta é a verdadeira causa de luta entre capital e trabalho e da deturpação das relações comunitárias. Enfrentamos agora a difícil tarefa de voltar a equilibrar a vida da comunidade e humanizar o impacto da máquina”.

Aos que combatem Brasília, peço que considerem: a cidade que surge, ao ser traçada, não obedeceu apenas às imposições econômicas, militares, políticas ou a ideais de grandeza; decorreu de um motivo muito mais profundo, foi exigida como solução para um grande problema: o problema humano. Essa a razão do interesse que vem despertando foram do país, pois, sendo o problema comum aos que vivem debaixo do mesmo impacto, esse empreendimento poderá ser o ponto de partida para novas realizações cuja finalidade seja a melhoria das condições de vida do homem contemporâneo.

E apesar de toda a força contrária, de toda a oposição do “homem cômodo”, a cidade cresce dia a dia, e isso porque, para a sua realização, houve feliz reunião de indivíduos dotados das qualidades raras e necessárias e vemos na história, que sempre em tais situações surgem obras imperecíveis, cujo maior beneficio recai nas gerações seguintes, o que acontecerá também no nosso caso.

“Nascer de novo”, diz o Evangelho. Se nada podemos fazer para ajudar Brasília, depositemos ao menos a nossa confiança nessa realização que será decisiva para o destino de um povo.

Artigo reproduzido da revista “Brasília”, da Novacap, edição de maio de 1959, número 29.

 

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Canção da fábula inicial (Brasília)

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Canção da fábula inicial (Brasília)
 
Só havia noites e manhãs.
Com o avançar dos dias
as máquinas chegando.
Não se podia saber
mas o certo é que elas
tinham uma importância
maior que os homens,
e também a madeira.
Havia sulcos já cortes na crosta
angustiada; cerrados, caminhos,
estradas, árvores partidas,
terra solta, animais fugindo.
As máquinas sempre chegando.
Os caminhões de madeira
e gente.
Com espaço de alguns dias
a terra na sua superfície
lembrava restos de tempestade.
Era chão batido, chão sulcado, chão ferido.
Mas ainda não era nada. As
máquinas devoravam o chão, cortavam riachos,
trituravam árvores.
Noites de negrume estranho.
Os longes e as tardes coloridos,
mas ninguém olhava. As casas de madeira
apareciam. Parca, a vida que nelas começava;
mas começava. A terra
podia estar aceitando o domínio do homem,
mas ninguém olhava. Nem a dor
de um e outros se pressentia.
Os homens, tanto como não se esperava,
chegavam; vinham, apareciam
mais do que as máquinas e utensílios,
não eram previstos.
Nem pensavam no velho e no muito velho
e novo corpo, nem
se avaliavam. Eram iguais
aos retorcidos troncos do cerrado.
As roupas iam-se desfigurando
e não percebiam, e as pequenas feridas
apareciam na pele e não eram vistas e cuidadas,
nem as mãos e os cabelos
eram lembrados.
Em tudo começavam um movimento,
fora ou dentro da hora,
porque tudo era lícito
tudo estava fora do lugar,
criava e recriava a vida.
As casas aumentando,
mas nelas ruídos não se ouviam,
só a vida no largo chão de sol e lua.
 
2.
Uma primeira lua passou
e ainda  tudo era o mesmo.
O que se modificava era
a terra com suas feridas.
Chão batido e chão claro.
Já um e outro tiveram fome,
e pegaram a lembrar de alguma
coisa que ficou para trás.
Chegava o momento em que o homem
redescobria-se. E assim ele podia olhar
em redor e fazer amizades,
porque tudo isso é de sua tradição.
Ele olhava a terra
e pôde com a fome olhar as estrelas
e pegar numa árvore, observar a água,
e amar sua aventura.
E, ao mesmo tempo que andava
para agir contra a fome,
também podia pensar.
E começava a miúda afeição
de um e de outro pelo sítio,
do homem pela máquina,
do povo pelas estrelas e caminhos.
 
3.
Um dia a mulher chegou.
Alguns homens, velhos e novos,
tiveram logo a notícia.
Era a primeira que vinha
à terra. As máquinas, os
homens, depois ela.
(…)
 
4.
A terra viu o crime.
Foi no acampamento da
“Pacheco Fernandes”.
Os operários encurralados,
reclamavam direitos.
Eram dez horas no pla-
nalto.
        Foram metralhados.
        A madeira curtida
pelo sol
e pela chuva
foi feita em pedaços
(eles amoitavam-se
nas casas de tábuas),
feita em sangue.
No caso não mais se falou.
Havia-se iniciado a vida no ermo.
Tudo agora diluía-se
no emaranhado de humanidade
que despontava de esquinas
de matos e encostas.
Sinais humanos,
terra ferida.
 
5.
Como se faz uma cidade?
Com vidas e argamassas?
Como se faz uma cidade?
Com operário se conta?
É a mão do homem quem sabe.
Como se faz uma cidade?
Com a mão se faz o sonho.
(…)
 
José Godoy Garcia, poeta goiano, nasceu em Jataí.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Casas Populares

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Casas Populares:

Diria, cogumelos como filas
ou um exército de casas rudes
onde luta o homem com seu garfo
e sexo na planície: cama e mesa.

Assim as paredes se dividem, se dividem
as vidas no limite tênue dos terreiros
e os mil vizinhos se entreolham e se devoram
em picuinhas, namoricos e agressões.

Affonso Romano de Sant’Anna, poeta mineiro, nasceu em Belo Horizonte.
"Poemas para Brasília",  antologia de Joanyr de Oliveira

 

 

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JEITO RETRATO

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JEITO RETRATO

Em meio à mata
um homem forte
feito uma árvore.

Um belo rosto,
com se fosse
esculturado.

Olhos de mando.

Rústicos trajes:
botas de couro,
as calças de cáqui,
camisa branca.

Um bandeirante.

(Aqui indagamos:

e atrás do rosto
do homem de audácia?
Dentro da roupa
do hércules franco?

Alma de marcha
passo gigante.)

Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 

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Uma mineira em Brasília

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Uma mineira em Brasília

Aqui, as horizontais descampinadas
farão o que os alpendres sem ânsia,
dissolvendo no homem o agarrotamento
que trouxe consigo de cidades cãibra.
Mas ela já veio com o lhano que virá
ao homem daqui, hoje ainda crispado:
em seu estar-se tão fluente, de Minas,
onde os alpendres diluentes, de lago.
 
                          *
 
No cimento de Brasília se resguarda
maneiras de casa antiga de fazenda,
de copiar, de casa-grande de engenho,
enfim, das casaronas de alma fêmea.
Com os palácios daqui (casas-grandes)
por isso a presença dela assim combina:
dela, que guarda no jeito o feminino
e o envolvimento de alpendre de Minas.
 
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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O mais importante de todos

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O homem mais importante desta cidade tem 94 anos, mas não é o longo tempo já vivido que o faz digno de reverência. O homem mais importante de Brasília chegou aqui antes de todos os outros que aqui estão, salvo os que nasceram nesse pedaço de Goiás antes de 1955. E também não é esse seu grande mérito. Nem o de ter convivido com Juscelino, Israel, Sayão, Oscar, Lúcio e todos os demais. Nem o de acreditar em Brasília antes mesmo de JK tomar para si o sonho.

Ernesto Silva é o homem mais digno de mérito nesta cidade porque ele não se alimenta da glória do passado. Pelo contrário, não é fácil prendê-lo ao que já passou. Vira e mexe, ele volta ao presente e aos muitos males que têm degenerado Brasília, ano após ano. Se quisesse. Dr. Ernesto bem poderia viver só de medalhas no peito e diploma na parede – e ele os têm em bastante quantidade.

Mas o homem de andar miúdo e agenda lotada vive de defender a cidade que ajudou a construir. Dias atrás, por exemplo, convidou um advogado amigo para entrar com uma liminar na Justiça para impedir a criação do Setor Noroeste. Batalha que já tem vencedores e dr. Ernesto não está entre eles, mas nem por isso desistiu.

Também não faz muito dias que ele foi aplaudido de pé durante uma solenidade na qual disse que a Câmara Legislativa precisa de gente que entenda de urbanismo que é pra ver se assim pára de autorizar a mudança no uso de terrenos no Plano Piloto e com isso entregá-los a igrejas e congêneres.

O homem mais importante desta cidade é um ativista incansável das grandes causas desta cidade. E nem por isso é turrão ou mal-humorado. Sabe-se, por exemplo, que ele usa um recurso mnemônico para decorar o que é difícil de ser decorado. E é um truque mnemônico meio obsceno. Não, nem de longe o dr. Ernesto é um velhinho assanhado. Ele apenas faz uso de alguns palavrões ingênuos (o sinônimo da palavra cocô, por exemplo) para memorizar algo que precisa ser memorizado. E ri quando conta isso, riso quase de criança.

O mesmo dr. Ernesto conta que chorou ("faço tudo pra não chorar, podem rir de mim…"), mas chorou quando leu um texto escrito pela professora Glória Callafante, da Escola-Parque 308, em homenagem a Anísio Teixeira, o ideólogo do sistema integrado de ensino da rede pública do Distrito Federal, que foi interrompido no nascedouro.

Escola que tem esse nome, Parque, porque o professor Anísio a imaginava divertida, mágica, diferente, como escreveu a professora. "Com a Escola-Parque, o intelecto é amplificado, turbinado, potencializado e direcionado para as grandes transformações, através da arte, da cultura e do esporte", escreveu Glória Callafante. Dr. Ernesto lê o texto de novo e chora.

Há 53 anos que Ernesto Silva dedica todos os seus dias, todos, a Brasília. É ou não é o homem mais importante da cidade?
 
Conceição Freitas.
Reproduzido do Correio Braziliense, 21/10/2008
"Crônica da Cidade"

 

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Ode à cidade

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Ode à cidade
 
Abraço azul de céu tão baixo
em grossas nuvens cintilantes
abraça e solta abrasa e sopra.
Silvo de terras sem quiçás
alimentando teu presente
e deixando o passado atrás.
 
Nossa alma leve de perdiz
nessa rítmica simetria
sobre cimento fincará
espalhando nova raiz
ode-cidade cor de homem
onde homem tem novo matiz.
 
Tranqüilo até para sofrer
estende-se além do cerrado
o tempo despido em paisagem
paisagem despida de sal
que no lábio longo do lago
em paz descansa elemental.
 
Despejando passos e posses
enquanto cresce o teu afã
amadurecendo precoces
humildemente deslizamos
exaustos de êxtases de orvalho
no embalo de cada manhã.
 
Se uma pomba municipal
girar viva ou morta girar
– cifrando motores e cal –
vão alcançá-la ou bem ou mal
porque sem tempo para sofrer
domingo se pode morrer.
Entre buritis empinados
clamando do céu despojado
o marco azul de tua história
a cada amor a cada pranto
um anjo mantém no planalto
a vermelha cor da vitória.
 
Yolanda Jordão, poetisa natural de São Paulo.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira

 

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O QUE É O SOL?

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O QUE É O SOL?
 
(poema oral búlgaro do séc. V)
 
Quando Deus criou o mundo
bordou no céu as estrelas
Salpicou pelos caminhos
os rios e as montanhas
as plantas e os animais
 
Por último Deus fez o homem
E depois de descansar
 
então se pôs a pensar
no quanto o homem criado
iria amar e sofrer
 
Uma lágrima rugiu de seus olhos
Esta lágrima é o sol
 
Luis Turiba, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
Reproduzido do livro "Mais uns: coletivo de poeta

 

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Dizeres

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Dizeres

Antes que o corpo
porque existiu
não saiba

e o homem
se torne prisioneiro
de um tempo

onde só os papéis
timbrados
sejam levados em conta

e o espírito
seja apenas
um burocrata

servil à máquina
tanto quanto
o funcionário assina o ponto

surge um basta
com os dizeres:
respeitem o dia

Heitor Humberto de Andrade, poeta baiano, nasceu em Salvador.
Extraído do livro "A Matemática do Poema".

 

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O ritmo

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Certo dia, na festa que lhe foi oferecida pelos moradores da Cidade Livre, o Presidente JK perdeu, na face, os traços que a vida e as duras tarefas marcaram, através de anos de lutas. Cercado pelo carinho do povo humilde, sem ostentação ou artifícios, sentia-se à vontade até para atender a descontrolados e aborrecidos pedidos de autógrafos…
A festa era simples. Tão simples, que tinha até um espetáculo de Circo. Um tablado redondo, armado em frente ao palanque presidencial, deveria fazer vez de picadeiro. Redes desmontáveis, cordas, barras-móveis e outros aparelhos nômades, como o próprio circo, formavam o conjunto dos artistas pobres, mas fortes e sadios.
Variado e nada pobre, apesar do local e das circunstâncias, teve início o espetáculo. Nem bem o palhaço surgiu, com suas roupas bizarras e seus sapatões de metro-e-meio, desapareceu o homem, revestido de autoridade presidencial, para dar lugar, no corpo desgastado, ao menino pobre de Diamantina. O menino subiu do fundo da memória e tomou conta do homem… Brincou em seu coração, dançou em seus olhos, falou pela sua boca… O menino que disputava um direito à vida e ao trabalho, mas que queria divertir-se, enquanto era o tempo próprio. E foi como qualquer pessoa – grande ou pequena – que pagou entrada e tem direito ao espetáculo, que a voz, tão nossa conhecida, surgiu do meio do palanque, traduzindo a vontade do menino:
– Olhe a frente! Também quero ver…
Os jornalistas e fotógrafos, que se encontravam à frente, no palanque, tiveram de afastar-se, para abrir campo visual ao importante espectador. Alguns não tiveram outro recurso, senão sentar-se no chão empoeirado, ficando em plano inferior à linha de visão do Presidente.
O menino, que acabara de acordar do sono diamantinense, que durou mais de cinqüenta anos, brincava nos olhos alegres do homem de Brasília. E movimentavam suas mãos em aplausos quentes e contínuos ao palhaço, quando este, em marcha militar, tocava simultaneamente, como os palhaços de todas as idades, o bumbo e os pratos… E soprava a pobre gaita sem ritmo e melodia! Depois, surgiu Chita, o chimpanzé amestrado, que andou de triciclo, de bicicleta, de perna de pau e que, finalmente, como verdadeiro artista, se equilibrou, de todas as maneiras, na corda bamba. O Presidente aplaudiu com tanto ou maior entusiasmo do que suas filhas Márcia e Maristela que, em plena floração da juventude, estavam a seu lado, assistindo ao desabrochar de rasío da juventude, estavam a seu lado, assistindo ao desabrochar de Brasília, como grande flor de cimento e aço, modelada pela mão do artista.
O menino continuava brincando nos olhos de Juscelino, presidenciais olhos cinqüentenários. Não perdia um mínimo do espetáculo.
…aí, então, vieram um homem e uma mulher com vestimentas de ginastas, caminharam, graciosamente, em torno do picadeiro, fizeram mesuras ante o palanque presidencial e cumprimentaram os espectadores. Passaram, em seguida, a exibir-se nas barras-móveis, demonstrando preparo físico e perícia. Depois, passaram para o trapézio improvisado, numa exibição de verdadeiros mestres. Os aplausos, demorados e quentes, parece que esquentaram o sangue dos atletas… O homem se dependurou do trapézio, pelas pernas, e segurou a mulher pelos braços, num jeito de segurar total e tranqüilo.
Um fundo levantou a mulher até que os rostos se tocassem uma, duas, três vezes… sem tomar fôlego. Quatro, cinco, oito, nove… ainda sem qualquer descanso. Dez…
O esforço dos artistas fazia o cansaço descer sobre os corpos dos que assistiam à demonstração. Um velho arquejava, no palanque, e uma mulher, a pouca distância, suava abundantemente.
A contagem começava a tomar jeito de drama, forma de dor.
O Presidente, como que reconhecendo a enormidade do esforço, gritou repentinamente, contra a vontade do menino, que queria ver até o fim:
– Chega!
E repetia, a cada nova execução do número:
– Chega! Chega! Não é possível!…
Parece que a sua palavra serviu mais de incentivo do que de apelo ou ordem.
O atleta ergueu ainda dez vezes ou mais a sua "partenaire".
A platéia nem respirava direito.
Israel Pinheiro, que estava ao lado de Juscelino e das mocinhas, comentou, como quem quer dar explicações sobre o inexplicável:
– Eles trabalham em ritmo de Brasília! A culpa é sua, meu caro Presidente…
Juscelino ficou sério, mas o menino deu uma bruta gargalhada, que entrou pelo coração adentro do povo, repercutindo nas ruas da Cidade Livre e caminhou até os novos edifícios, que anunciavam, na luz da manhã, a realidade de Brasília.

Clemente Luz
Extraído do livro "Invenção da cidade"

 

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Ritmo de Brasília

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Ritmo de Brasília

Em 1957-58, JK costumava ir ao Planalto pelo menos duas vezes por semana. Verificar o andamento dos projetos, estimular a equipe, os empresários, os técnicos, os funcionários e operários. Motivar, transmitir entusiasmo. O avião entra no dia-a-dia presidencial como instrumento rotineiro de trabalho. Ele decolava do Rio depois do

Certo dia, na festa que lhe foi oferecida pelos moradores da Cidade Livre, o Presidente JK perdeu, na face, os traços que a vida e as duras tarefas marcaram, através de anos de lutas. Cercado pelo carinho do povo humilde, sem ostentação ou artifícios, sentia-se à vontade até para atender a descontrolados e aborrecidos pedidos de autógrafos…
A festa era simples. Tão simples, que tinha até um espetáculo de Circo. Um tablado redondo, armado em frente ao palanque presidencial, deveria fazer vez de picadeiro. Redes desmontáveis, cordas, barras-móveis e outros aparelhos nômades, como o próprio circo, formavam o conjunto dos artistas pobres, mas fortes e sadios.
Variado e nada pobre, apesar do local e das circunstâncias, teve início o espetáculo. Nem bem o palhaço surgiu, com suas roupas bizarras e seus sapatões de metro-e-meio, desapareceu o homem, revestido de autoridade presidencial, para dar lugar, no corpo desgastado, ao menino pobre de Diamantina. O menino subiu do fundo da memória e tomou conta do homem… Brincou em seu coração, dançou em seus olhos, falou pela sua boca… O menino que disputava um direito à vida e ao trabalho, mas que queria divertir-se, enquanto era o tempo próprio. E foi como qualquer pessoa – grande ou pequena – que pagou entrada e tem direito ao espetáculo, que a voz, tão nossa conhecida, surgiu do meio do palanque, traduzindo a vontade do menino:
– Olhe a frente! Também quero ver…
Os jornalistas e fotógrafos, que se encontravam à frente, no palanque, tiveram de afastar-se, para abrir campo visual ao importante espectador. Alguns não tiveram outro recurso, senão sentar-se no chão empoeirado, ficando em plano inferior à linha de visão do Presidente.
O menino, que acabara de acordar do sono diamantinense, que durou mais de cinqüenta anos, brincava nos olhos alegres do homem de Brasília. E movimentavam suas mãos em aplausos quentes e contínuos ao palhaço, quando este, em marcha militar, tocava simultaneamente, como os palhaços de todas as idades, o bumbo e os pratos… E soprava a pobre gaita sem ritmo e melodia! Depois, surgiu Chita, o chimpanzé amestrado, que andou de triciclo, de bicicleta, de perna de pau e que, finalmente, como verdadeiro artista, se equilibrou, de todas as maneiras, na corda bamba. O Presidente aplaudiu com tanto ou maior entusiasmo do que suas filhas Márcia e Maristela que, em plena floração da juventude, estavam a seu lado, assistindo ao desabrochar de Brasília, como grande flor de cimento e aço, modelada pela mão do artista.
O menino continuava brincando nos olhos de Juscelino, presidenciais olhos cinqüentenários. Não perdia um mínimo do espetáculo.
…aí, então, vieram um homem e uma mulher com vestimentas de ginastas, caminharam, graciosamente, em torno do picadeiro, fizeram mesuras ante o palanque presidencial e cumprimentaram os espectadores. Passaram, em seguida, a exibir-se nas barras-móveis, demonstrando preparo físico e perícia. Depois, passaram para o trapézio improvisado, numa exibição de verdadeiros mestres. Os aplausos, demorados e quentes, parece que esquentaram o sangue dos atletas… O homem se dependurou do trapézio, pelas pernas, e segurou a mulher pelos braços, num jeito de segurar total e tranqüilo.
Um fundo levantou a mulher até que os rostos se tocassem uma, duas, três vezes… sem tomar fôlego. Quatro, cinco, oito, nove… ainda sem qualquer descanso. Dez…
O esforço dos artistas fazia o cansaço descer sobre os corpos dos que assistiam à demonstração. Um velho arquejava, no palanque, e uma mulher, a pouca distância, suava abundantemente.
A contagem começava a tomar jeito de drama, forma de dor.
O Presidente, como que reconhecendo a enormidade do esforço, gritou repentinamente, contra a vontade do menino, que queria ver até o fim:
– Chega!
E repetia, a cada nova execução do número:
– Chega! Chega! Não é possível!…
Parece que a sua palavra serviu mais de incentivo do que de apelo ou ordem.
O atleta ergueu ainda dez vezes ou mais a sua "partenaire".
A platéia nem respirava direito.
Israel Pinheiro, que estava ao lado de Juscelino e das mocinhas, comentou, como quem quer dar explicações sobre o inexplicável:
– Eles trabalham em ritmo de Brasília! A culpa é sua, meu caro Presidente…
Juscelino ficou sério, mas o menino deu uma bruta gargalhada, que entrou pelo coração adentro do povo, repercutindo nas ruas da Cidade Livre e caminhou até os novos edifícios, que anunciavam, na luz da manhã, a realidade de Brasília.

Clemente Luz
Extraído do livro "Invenção da cidade"

 

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Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

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