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Alvorada de Espelhos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Leia também, Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Alvorada de Espelhos
Por Clemente Luz

Palácio da Alvorada - Por  Ichiro Guerra/PR.

O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava um lago”, a cidade foi inventada, porque não havia tempo para ser elaborada e edificada.

Do alto, em avião que sobrevoa, ou quando a gente caminha por certas áreas desabitadas e longínquas, a cidade se entrega à visão, na sua plenitude urbanística e arquitetônica. E a visão é magnífica, é grandiosa e toca o coração dos que estão chegando. Provoca lágrimas nos que aqui chegaram nos primeiros tempos e assistiram à invenção da Cidade, no milagre da criação das formas de cimento e aço.

O imenso louva-a-deus abre as asas de luz branca, norte-sul, ligadas ao corpo de luz branco-vermelho do Eixo Monumental. O que era traço no papel foi plantado na terra. E o que é plantado na terra tem os ciclos naturais de germinação, de crescimento…

A cidade está crescendo, talvez num ritmo muito além das previsões. Nasceu como semente lançada em boa terra, cresce como arbusto e toma corpo de árvore definitivamente enraizada no solo.

O amanhecer traz, cada dia, novas certezas e novos espantos para a menina-moça, que se  surpreende mais moça do que menina, ante a alvorada dos espelhos… No chão vermelho, as edificações crescem como macega que, depois de queimada, cobre de verde o chão de cascalho do Planalto, antes mesmo das primeiras chuvas.

A Asa Sul é um belo conjunto arquitetônico, quase concluído. Falta-lhe alguma coisa, na parte técnica e muita coisa, no lado humano. Mas os fogões domésticos marcam, com o cheiro dos temperos nas panelas, a presença do corpo e o coração dentro dos lares.

1959… A Cidade é inventada e se inventa, a cada instante, ante os olhos atônitos de homens e crianças. É a jovem futura cidade que, como uma jovem futura mulher, está desabrochando para a vida.

A gente não percebe direito o corpo da mulher sob as vestes simples de menina-moça. Ela própria, como que envergonhada, procura esconder, sob vestidos mal lançados sobre o corpo, as formas preciosas e precisas, os contornos quase perfeitos que se formam, a olhos vistos!

Já vistes uma menina-moça, metade flor, metade botão, procurando, em meio à luz do dia e ante olhos curiosos, esconder o afogueado da face, a semi-ostensiva exuberância dos seios, a forma roliça de todo o corpo? Já vistes o temor no andar de quem não é mais criança, mas que ainda não é bem moça?

Para quem sabe ou consegue captar esse mágico instante da existência, a sensação é a de que está vendo o mundo nascer, formar-se e precipitar-se na vida.

Nós, de Brasília, estamos assistindo a esse milagre, não num corpo de menina, mas no disforme corpo de uma cidade que nasce. Ela está deixando as vestes de menina, os folguedos de criança, para se transformar em cidade madura e exuberante, com contornos definidos, com edifícios sólidos, plantados sobre bases indestrutíveis.

Já não ficaremos mais extasiados com o amanhecer no Planalto, com o pôr-do-sol tranqüilo e magnífico ou com as paisagens poéticas, que nos fazem parar no meio de uma estrada, para gritar sem cerimônias:

- Que beleza!

Assim como a menina-moça, o que era promessa de forma e de contornos passou a ter contorno e forma definidos, deixando os traços subjetivos do desenho e dos planos, pela realidade do concreto e do vidro. Os horizontes não são mais os mesmos nem  o pôr-do-sol tem aquele mesmo encanto selvagem. A paisagem vai-se humanizando… Onde havia apenas o galho retorcido da árvore do cerrado, projetado contra o fim da tarde, surgiu a forma arquitetônica, de rara beleza, de grandeza humana e dimensão monumental.

A mão do homem, com sua força, sua técnica e sua habilidade, modificou a paisagem, deu-lhe vida nova, deu-lhe calor humano.

E hoje, embora possa parecer ridículo, eu vos digo: no coração do Planalto, neste vasto coração do Brasil, uma cidade germina. Uma cidade germina e cresce, com o vigor das plantas novas e dos seres novos. Uma cidade humana, perfeita, germina e cresce para a sua primeira floração, para o amanhã feminino da transformação orgânica, quando o corpo, antes livre e franzino, toma forma definidas e exuberantes. E na alma, que amanhece para a vida, nasce a alegria nova da realidade da promessa, misturada com o amargo do mistério e da incerteza…

Como um corpo de menina-moça, que se descobre cada manhã frente aos espelhos, a cidade que se forma, que se inventa a cada instante, com a grandeza de seu traçado, com o mistério de suas linhas arquitetônicas, se estenderá, ao sol, para a festa de sua beleza!

Reproduzido do livro “Invenção da Cidade”, de Clemente Luz

 

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