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BRASÍLIA

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BRASÍLIA
A Lúcio Costa

 
 
Amorosa e clara,
a cidade
                    voa
                             com as próprias
                             asas.
 
Alegorias em pluma,
estátuas no rosto das águas.
Arcos, trevos, o verde.
Eixos geram esperança
na fronte do homem.
O lago ama com os braços,
abarcando o equilíbrio.
 
A terra afina os tímpanos
e as perfeitas retinas
canta nas noites a fonte
Artérias humanas e urbanas
em suas vigílias: áureas
dádivas: o branco, as superquadras.
 
(O pretérito nos mausoléus,
longe de nossos cânticos.)
 
Amorosa e clara,
a cidade
                 voa
                            com as próprias
                            asas.
 
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
"Pluricanto – Trinta Anos de Poesia", 1996

 

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Lúcido Lúcio

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Esse brasileiríssimo e comedido carioca Lúcio Costa nasceu em Villa Dorothée Loiuse, na cidade portuária francesa de Toulon, em 1902. De mãe amazonense e pai baiano, um engenheiro naval que participou da construção de navios para a frota brasileira na Europa.

Para Lúcio, o fato de ter vivido muito tempo fora do país o fez ainda mais brasileiro. Esclarece: além de ser nacional, tornou-se também carioca, por morar no Rio, que conheceu de verdade aos quinze anos. Duas vezes brasileiro, Rubem Braga, na crônica ‘Lúcio Costa urbanista’, de 1954, descreve-o assim:

 

  Estudante diferente que começa a ganhar tudo que concurso que aparece, apesar de ser

  um desenhista altamente sensível e aquarelar com maestria desiste da pintura pela

  arquitetura e, quando reprovado em Composição, admite tranqüilamente que a nota foi

  justa.

 

Contam que relutou em participar do concurso para o projeto de Brasília.Tinha mil coisas para fazer e viagem marcada para a Europa. Quase em cima do encerramento das inscrições, decide disputar. Certamente pesou o entusiasmo do velho amigo Oscar Niemeyer, engajado de corpo de alma no sonho de JK. Afinal, os dois têm bela história juntos e admiração recíproca. O retraído e compenetrado Lúcio logo dá asas à imaginação. Vôo largo, acelerado, contra o relógio. Parecia que tinha tudo pronto na cabeça. O Plano Piloto sai ao apagar das luzes. Tudo muito criativo e ordenado. Mas quase nenhum detalhamento. Uma planta grande, croquis e um texto elegante, preciso, claro, enxuto. Seu corpo é alado. Um avião. Ou um grande pássaro em vôo. Termina em cima da hora, no finalzinho da tarde do último dia de inscrição, 11 de março de 1957.

Lúcio entra apressado no seu Hillmann. Junto, as duas filhas, a pequena Helena e a universitária Maria Elisa. Tem de protocolar o projeto. Toca rápido para o local da entrega, Ministério da Educação, Palácio Gustavo Capanema, sobreloja, centro do Rio de Janeiro. O prazo está acabando, faltam poucos minutos. Sorte: chove, mas o trânsito está solto. Logo chega. Faltam só dez minutos. Aflito, pára o carro exatamente em frente ao prédio. As meninas sobem correndo com a papelada. Um guarda implica com a posição do carro. Lúcio explica. Tudo bem. O guichê está quase fechando. Mas o protocolo sai. Maria Elisa recebe pequeno cartão, espécie de recibo, com o número do projeto no Concurso: 22 As duas voltam vitoriosas e felizes. Há razões de sobra. Mais do que sonham. Ganharam a corrida e salvaram a Brasília de Lúcio Costa.

E do outro lado do guichê? A Comissão Julgadora já tinha verificado preliminarmente alguns projetos. Até ali, numa primeira vista, nada empolgara. Não estavam se sentindo seguros e satisfeitos com nenhum deles. Isso aumentou a curiosidade e a expectativa com relação ao de Lúcio. Assim que chegou, examinaram avidamente. Perplexidade. Ninguém entendeu absolutamente nada. O desenho do avião, a simplicidade surpreendente, a apresentação singela. Difícil de compreender imediatamente antes da existência de Brasília. Preocuparam-se. Parecia que Lúcio Costa tinha pirado. O que fazer agora? O grupo saiu para almoçar. O inglês William Holford, que lia e falava espanhol, italiano e francês, aproveita e se isola num canto. Olha tudo de novo, lê o texto três vezes. De repente, seus olhos se iluminam, abre largo sorriso. Heureca! Mata a charada, compreende tudo. É simples, é claro. É um projeto urbano, não um plano genérico. Determina toda a volumetria da cidade. Por exemplo: o Palácio do Planalto é baixo, o Supremo é baixo, o Palácio do Congresso tem duas torres altas, os prédios tais e tais vão ficar ali, os ministérios são iguais, os blocos das superquadras têm seis andares e pilotis. Tudo isso e mais está determinado no projeto número 22, o Plano Piloto idealizado por Lúcio Costa. Fundamental: no texto, ele destaca que Brasília não vai ser mera decorrência do desenvolvimento regional, mas causa dele. Instrumento de inserção do país na modernidade, inclusive internacional. Capital marcante, inovadora. Cidade com o sentido de mudança, grandeza e modernidade, tradução arquitetônica do projeto transformador de Kubitschek. Holford dirá depois ao próprio Lúcio: "Li a primeira vez e não entendi. Li a segunda e entendi. Na terceira, I enjoyed [Gostei, tive prazer]." Quando os colegas voltam, explica tudo, despeja elogios no projeto. "É uma das contribuições mais interessantes ao urbanismo do século XX." Maravilha. Lúcio atribuirá grande peso em sua vitória à compreensão e papel de Holford.

Lúcio Costa sempre defendeu uma arquitetura com identidade brasileira. Desde o início da carreira, quando já se dedica ao estudo do período colonial. Formado pela Escola Nacional de Belas-Artes em 1922, ganhou na loteria em 1926 e passou um ano na Europa com o dinheiro. É autor de numerosos projetos de obras neocoloniais. Na direção da Escola Nacional de Belas-Artes, que assume em 1931, reformula o ensino da arquitetura. Torna-se papel essencial na renovação da linguagem e do pensamento arquitetônicos do país. Influencia diversas gerações de profissionais. É pioneiro e destaque da arquitetura moderna. Tem papel de liderança no revolucionário projeto do prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, com a participação do arquiteto suíço naturalizado francês Le Corbusier, de cuja obra é estudioso e grande conhecedor. Entra para o SPHAN em 1937. Ocupa mesa vizinha à de um burocrata franzino, discreto, de fala rápida, jeito tímido, poeta, mineiro de Itabira: Carlos Drummond de Andrade. Em março de 1954, uma tragédia que o abala pessoal e profissionalmente. A perda da mulher, Julieta. Num choque do carro da família com uma árvore, em viagem de fim de semana rumo ao distrito de Correias, na serra fluminense. Muito sensível, Lúcio, que dirigia, nunca se conformou. Deprimido, culpava-se injustamente, queixava-se da maldade do destino. Dor que nunca passou.

(…)

 
Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto

 

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O meu tio Bernardo

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O meu tio Bernardo
 
O meu tio Bernardo,
cruzando tais paragens há cem anos,
mais de cem anos, viu subitamente
transmudar-se o que era
ermo, somente o ermo,
e na valada
linda cidade branquejando.
"Aí murmurará a voz de um povo",
num verso registrou.
 
Estou a vê-lo daqui, de austeras barbas
e chapéu sertanejo, surpreendendo
nos rios
torres, palácios, coruchéus brilhantes.
E a tudo, a tais visões,
e à paisagem em que seus olhos tinham
a paz, total, do ermo, a tudo
envolvia
e especialíssima ternura bernardina,
a que nunca faltou sabor agreste
de algum suco de cana, e do ponteio
longínquo (dir-se-ia que inaudível
e tão longínquo)
de uma viola…
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, natural de Mariana.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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A conquista da cidade

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A conquista da cidade

na chegada:
eis-nos aqui outra vez,
outra vez, cansados, outra vez.

porque daqui a lua é a terra.

companheiros, a ânsia continua.

daqui fomos. Epopéia.
do mundo ao novo-mundo.
vamos. experientes jamais.

num minúsculo quarto, os mares
e os astros: percorridos.

não se parte. não partimos. Aqui
não é um lugar.

astros e mares pré-corridos:
a ilusão.

outro real nos falta.

andamos a viagem do não-caminho:

a outra-face-da-lua,
a sempre-outra…

ao novo, ó companheiros.

Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília: uma cidade em quatro movimentos

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Brasília: uma cidade em quatro movimentos
 
(final)
 
III
 
(e o palácio, onde fica?)
 
Lá longe, à beira do lago
fica o palácio de El-Rei.
Coração que agora trago,
por que porta eu entrarei?
 
             De outro encontro o salão,
             todo de espelhos forrado.
             Presente? Sonho? Passado?
             A quem El-Rei deu a mão?
 
No quarto a cama de linho,
límpido cheiro de outono.
Abri as asas anjinho,
anjinho, velai meu sono.
 
              Na pia lavo o cabelo,
              suado de puro luar.
              Quantas noites meu desvelo
              irá depois recordar!
 
Não bebas céu da Cidade,
nem sonhos mais destes ares,
em breve hão de ser saudade
as gotas que derramares.
Sob o pó vermelho e a nuvem crespa
aqui te encontro, Cidade,
alta, inacabada, mais viva.
 
Perdida a memória de todo o mal,
descanso o olhar em tuas colméias humanas,
bebo teu mel, ó Canaã de um Novo Mundo,
o teu leite adoça a terra prometida e conquistada.
Nos jardins, ainda as últimas crianças
empinam o papagaio do sol.
Quem me dera de branco esvoaçar nas alamedas,
pisar descalça nos átrios teus,
dando de comer aos pássaros mansos!
Acorda, vento norte, e tu, minuano,
sopra até aqui o teu clarim de inverno.
Cidade,
teus olhos espiam as noites veladas de outras cidades
enquanto tu não dormes nunca.
No dia noturno, teus operários trabalham, luar a pino.
Anoitece na garganta dos galos.
Anoitece na fulva pupila das onças.
Ora em caminho de cipó, ora em chão de areia e sal,
os galgos da distância aproximam-se.
Como onda, uma pergunta se arremete contra o meu peito:
regressarei ?
Em imaginários ecos me reparto
para te conhecer e possuir inteira,
Cidade,
Rosa de Sharon, Lírio do Vale,
que o povo irá perfumar.
 
Yone Rodrigues, poetisa mineira de Governador Valadares.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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A cidade do Planalto

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A cidade do Planalto
 
Oh! a Cidade que irá surgir
bela, sobre o planalto, além dos horizontes.
A que não foi preciso descobrir,
a que o olhar divisou pela encosta dos montes.
Cidade do porvir,
longe do mar, Cidade perto das estrelas…
 
Tu não terás o afago de ondas, a carícia
voluptuosa da espuma contra o cais;
nem um colar chorando luzes sobre as águas
numa circunferência, e ainda mais… ainda mais
a praia, a areia de ouro, a banhista, a delícia
da alameda que fica junto ao cais.
Mas eu te amo assim mesmo, em teu futuro,
amo o trabalho humano que há de levantar
sobre os teus montes, edifícios de ouro
e a igreja branca onde talvez eu vá rezar.
 
Amo a glória do teu futuro!
 
Mas quero muito mais a saudade que fica
desse arraial onde hoje dormem caravanas
de montanhas e de pobres cabanas
e tendas humildes e pequeninas.
 
Ficas longe do mar, mas ficas perto
do céu, de um claro céu que há de estar sempre aberto
às nossas mágoas e aos nossos cantos, ao vento.
 
Que o homem futuro possa ter um sentimento,
adorar as tuas paisagens belas,
e possa, pela coragem, merecê-las.
 
Cidade fugiu das ondas e das praias
para ficar vizinha das estrelas…
 
Osvaldo Orico, poeta paraense, nasceu em Belém.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Cidade non plus ultra

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Cidade non plus ultra*
 
Brasília, cidade-monumento, erguida sobre o chapadão do Planalto Central, cidade-Patrimônio Cultural da Humanidade, cidade clássica, aparentada, no pensamento idealizador, com a Cidade Ideal de Platão, com a Cidade de Deus, de Santo Agostinho, com a Cidade do Sol de Campanella, com a Utopia, de Thomas Morus, com a Cidade Contemporânea para Três Milhões de Habitantes e com a Cidade Radiosa, ambas de Le Corbusier e definidoras da Carta de Atenas, cidade-continuação e cidade-desejo dos Inconfidentes e mais tarde, de Hypólito José da Costa (daquele outro Correio Braziliense), de José Bonifácio de Andrada ("…um nova capital, no interior do Brasil, em uma das vertentes do rio São Francisco, que poderá chamar-se Petrópole ou Brasília…"), do historiador Varnhagen ("para a futura capital da União Brasílica o triângulo formado pelas lagoas Feia, Formosa e Mestre D’Armas, das quais manam águas para o Amazonas, para o São Francisco e para o Prata!" – depois definida pelo polígono Cruls), cidade-sonho da "grande civilização que surgirá entre os paralelos 15′ e 20’", na visão de Dom Bosco, cidade mística, ligada ao Egito antigo, cidade-irmã de Roma (ambas natas a 21 de abril) e da democracia da cidade grega, em luz suplantando a Cidade-Luz, cidade planejada, modernista, idealizada sob os três vértices de Lucio Costa, de Niemeyer, de JK, cidade cosmopolita, cidade universal, sob suas quatro escalas – monumental, bucólica, gregária e residencial -, mas também cidade-estado, totalitária e absolutista como Washington, cidade-berço da ditadura militar, força de atração humana e de segregação social, cidade sobreposta à cidade colonial, à casa-grande e às fazendas de gado, cidade infensa ao homem do Brasil interior, ao Goiás, ao cerrado e aos caminhos coloniais, cidade-espelho dos antagonismos mais fundos, dela emanando jardins de plantas, vias expressas, prédios-monumentos ordenados pelo homem, para um incerto novo espírito que irradiará novas memórias e ficções para o orbe, cidade-incógnita do terceiro milênio.
 
*não mais além, o mais alto ponto, apogeu.
 
Alex Cojorian
Texto em colaboração com Ataíde Mattos – Círculo de Estudos Clássicos de Brasília.
"Abstrata Brasília Concreta", de W. Hermuche.

 

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A cidade do Planalto

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A cidade do Planalto
 
Oh! a Cidade que irá surgir
bela, sobre o planalto, além dos horizontes.
A que não foi preciso descobrir,
a que o olhar divisou pela encosta dos montes.
Cidade sem o lenço azul das caravelas,
Cidade do porvir,
longe do mar, Cidade perto das estrelas…
 
Tu não terás o afago de ondas, a carícia
voluptuosa da espuma contra o cais;
nem o colar chorando luzes sobre as águas
numa circunferência, e ainda mais… ainda mais
a praia, a areia de ouro, a banhista, a delícia
da alameda que fica junto ao cais.
Mas eu te amo assim mesmo, em teu futuro,
amo o trabalho humano que há de levantar
sobre os teus montes, edifícios de ouro
e a igreja branca onde talvez eu vá rezar.
 
Amo a glória do teu futuro!
 
Mas quero muito mais a saudade que fica
desse arraial onde hoje dormem caravanas
de montanhas e de pobres cabanas
e tendas humildes e pequeninas.
 
Ficas longe do mar, mas ficas perto
do céu, de um claro céu que há de estar sempre aberto
às nossas mágoas e aos nossos cantos, ao vento.
 
Que o homem futuro possa ter um sentimento,
adorar as tuas paisagens belas,
e possa, pela coragem, merecê-las.
 
Cidade que fugiu das ondas e das praias
para ficar vizinha das estrelas…
 
Osvaldo Orico, poeta paraense, nasceu em Belém.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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