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Brasília

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Brasília
Cidade bela,
tão ampla em teus horizontes…
A tantos sonhos
erguestes pontes…
A tanta vida
foste alvorada…
Cidade alada,
braços alados, sempre tão abertos,
teus verdes espaços.
Tal liberdade dás aos que os seus sonhos
embalam em teus braços,
pois que tu mesma de um sonho nascestes.
Cidade celeste…(…)

Lúcia Helena Galvão, poeta brasiliense
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense 21/08/2012

NoturNeon

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NoturNeon

Noturno pela cidade
Meu coração fotografa
O Banco Central em chamas
Noturno pela cidade
Na certeza de quem ama
Meu coração fotografa
O Banco Central em chamas

Menezes y Morais, poeta brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”
Correio Braziliense, 20/06/2012

 

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APONTAMENTOS PARA UMA POÉTICA CANDANGA

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APONTAMENTOS PARA UMA POÉTICA CANDANGA

Esqueça o adjetivo brasiliense.
É algo mais inventado que a própria cidade.
Não considere nada que seja mais
artificial que Brasília. É parte do inexistente.

O céu em Brasília: o Corcovado no Rio.
O concreto de Brasília: o ferro de Itabira.

O avião não decola em seu próprio céu.
Tesourinhas: uma ideia, uma estética
apoética.

Bebe Behr. Planta Marx. Pensa nos ladrilhos de Bulcão,
somente então, rima. O apostolado de Athos.
Niemeyer não morreu.

(entrequadras nas entrelinhas)

Brasília só é possível de óculos escuros.
O branco ofuscante, o fogo invernal.

Há de se tomar cuidado com o nome
Brasília. É traiçoeiro: Sugere
coisas demais, a rima tosca, a ilha,
a agudeza de um acento, o feminino de um país.
Brasília é um homem que trocou de sexo.
Sem gênero, sui generis.

Post poeta Matheus Gregório Vinhal e Silva
Poema transcrito da coletânea “Concurso Nacional de Poesias”

 

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

Mais do que um protesto na cidade,
que se diga
Brasília-comércio.
                               Préstito,
mais do que
passeata na cidade,
Brasília-manifesto,
procissão,
é a notícia.

Quando ouvi os carros,
desumanos,
buzinarem
o diretas-já da mudança.

Escutei as máquinas
ressoarem
marcha inédita.

Ouvi-la
me trouxe à memória
motores novos de ônibus,
aeroplanos,
deixando o cais,
os desmedidos.

Lembrei-me então
e ainda mais
de máquinas
da mão humana,
operárias, musicais,
alargando o horizonte
emergente
do cais.
São máquinas, estas, de mãos
que produzem outras
mãos
que fabricam mãos,
máquinas
que engrenam motores,
clarins, trombetas.

E foi como
se àquela hora,
em cada buzina,
tocasse a mão do operário
que a produz
e afina.

Afinal entendi
que o arraial de Brasília
(diz-se
feito para carros)
pode também ser humano
– cada máquina, uma voz,
toda voz, o voto claro.

Ouvi os carros, acorde
sobre o tambor do DF.
Tal um balão
que alçasse voo,
ao grito, lírico,
de amarelo.

Eu vi a gente,
ação de carros,
refeita gente.

Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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POVO TRANSPLANTADO

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POVO TRANSPLANTADO
Eles vieram de longe:
dos andaimes de construtoras,
da poeira vermelha, da cidade livre, das invasões
do sertão quente e brabo
Eles vieram de longe:
das montanhas cortadas por trens,
do circuito das águas, das escavações dos minérios,
das históricas igrejas
Eles vieram de longe:
das matas fechadas, dos caudalosos rios,
das aldeias mais isoladas, das chuvas eternas e diárias
das terras ainda intocadas
Eles vieram de longe:
de um longe que é quase aqui, de um lugar encravado no centro,
de um recanto de peixe e pequi
Eles vieram de longe:
das fronteiras da América,
do gosto do chimarrão, os galopes nos pampas,
das chulas e dos lenços no pescoço
Eles vieram de longe:
de praias e morros,
do futebol, carnaval, muito samba,
da fala chiada e da ginga
Hoje eles,
sujos de barros e cheios de esperança,
são o povo daqui
 
Climério Ferreira, poeta piauiense
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense -(11/01/2012)

 

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O regresso

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O regresso
 
Mais uma vez te visito, cidade encantatória.
Foi longa a ausência, eu sei.
Mas como esquecer-te, se as chuvas
do Campo da Esperança ainda regam meu pai,
minha mãe, Cecília, Henrique e tantos amigos!
Voltei para rever-te.
Longe os dias antigos de risos e visitação,
é preciso, amigos, visitar o Palácio da Alvorada;
na capela, até os azulejos meditam.
É preciso, amigos, fotografar a Catedral;
conferir, passo a passo, a Esplanada dos Ministérios,
depois subir de novo até a Igrejinha de chapéu de freira
onde, tantas vezes, dialoguei com anjos;
assegurar-me que D. Bosco ainda zela por teus habitantes.
Muito, muito tenho caminhado, cigana andarilha e melancólica.
Ai, não sei se me reconhecerás.
Talvez  não seja eu a mesma e nem tu.
Crescente em espaço e sonho.
Asfalto, pedra, cimento, triunfam sobre a grama.
As cidades adjacentes, com seus tentáculos,
ameaçam sufocar-te.
Surpreendo tua nova ponte, emergindo do lago,
feita só de curvas, delírio e obstinação,
quase encostando no céu.
Mas permanece, intacto, o azul.
Abro uma janela imaginária,
como tantos anos atrás
e percebo que não prevalece a noite, ainda.
Ouro, sangue e púrpura consagram a paisagem:
uma nova hora se inaugura.
O vulto de meu pai volta do passado,
vem se unir a mim e extasiado, murmura:
– Esta cidade devia se chamar Belo-Horizonte.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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FAROESTE CABOCLO

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“Meu Deus, mas que cidade linda”
João de Santo Cristo


Imagem: Breno Fortes/CB/D.A Press/Reprodução

FAROESTE CABOCLO

Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido

Ouça a música:

mp3 file

“>Clique para ouvir

História do Rock – Brasília
Por Carlos Marcelo

 

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NA CIDADE DAS PIRÂMIDES

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NA CIDADE DAS PIRÂMIDES
 
Achei
que fosse a vida
um espécime de bebida
Embriaguei-me, pesou
a cabeça, a barriga
 
Desejava
morar numa ilha
Mudei-me, vim parar
(Oh, ins-piração!)
entre as pirâmides
de Brasiília
 
Virou compromisso
Adquiri um vício
Permanecer
 
aqui.
 
 
Ildefonso Sambaíba, poeta maranhense, natural de Grajaú.
Poema transcrito do livro “Brasília: vida em poesia”, antologia organizada por Ronaldo Alves Mousinho

 

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Vivendo no vazio

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Foto: Adonai Rocha

Vivendo no vazio
Por Conceição Freitas

Vivo numa cidade entremeada de vazios. É solitária e vagarosa a distância que separa dois pontos na cidade onde moro. O lugar que me acolhe embaralha os pontos cardeais e me deixa como uma criança perdida depois de rodopiar em torno do próprio eixo. Ela me acolhe, mas não facilita a minha vida. Meu olhar procura onde se apoiar, mas Brasília se esconde detrás do vazio e fico que nem menino brincando de cabra-cega.

 

 

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A cidade da paz

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A cidade da paz
Ao Poeta Eduardo Dalter

A cidade brotou de palmas iluminadas,
de dedos mágicos, translúcidos.

Das luzes de Lúcio e Oscar,
do febril sangue de candangos.

Ela mantém em eixos e quadras
antigas ressonâncias, enraizando-se

E a bailar resplendores
nos alpendres das nuvens.

Sonhos consumados cantam
no concreto e no abstrato.

Alguns séculos repercutem
em nossos ombros e frontes.

Viver no coração desta cidade
é estender a paz nas próprias artérias.

Viver no coração desta cidade
é flutuar na singularidade de um mundo.

Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “Mensagem no Outono” SCOR Editora TECCI

 

 

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Paisagem

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Paisagem

3h30 da manhã. No escuro, olham as luzes da
cidade. Calados.
Ela o abraça, acaricia seus cabelos. Tentativa
débil de explodir a bolha de sonho e abstração em
que estão inseridos:
– Aquela reta iluminada, que será?
Ele, olhos fixos na paisagem:
– Não sei… Talvez o Eixão.
Depois, tudo volta a ser silêncio. Submersos,
os dois, em escuridão e incertezas.
 
Maiesse Gramacho, poetisa brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense.

 

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar
 
Mais do que um protesto na cidade,
que se diga
Brasília-comércio.
                             Préstito,
mais do que
passeata na cidade,
Brasília-manifesto,
procissão,
é a notícia.
 
Quando ouvi os carros,
desumanos,
buzinarem
o diretas-já da mudança.
 
Escutei as máquinas
ressoarem
marcha inédita.
 
Ouvi-la
me trouxe à memória
motores novos de ônibus,
aeroplanos,
deixando o cais,
os desmedidos.
 
Lembrei-me então
e ainda mais
de máquinas
da mão humana,
operárias, musicais,
alargando o horizonte
emergente
do cais.
São máquinas, estas, de mãos
que produzem outras
mãos
que fabricam mãos,
máquinas
que engrenam motores,
clarins, trombetas.
 
E foi como
se àquela hora,
em cada buzina,
tocasse a mão do operário
que a produz
e afina.
 
Afinal entendi
que o arraial de Brasília
(diz-se
feito para os carros)
pode também ser humano
– cada máquina, uma voz,
toda voz, o voto claro.
 
Ouvi os carros, acorde
sobre o tambor do DF.
Tal um balão
que alçasse vôo,
ao grito, lírico,
de amarelo.
 
Eu vi a gente,
ação dos carros,
refeita gente.
 
Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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SONETO DA CIDADE SUBTERRÂNEA

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SONETO DA CIDADE SUBTERRÂNEA
 
Infensa a essa Brasília que se ufana
existe outra cidade, dissidente,
intensa, visceral, profunda, humana,
imensa, seminal, gentil, decente.
 
Ao pé dos monumentos, sob a grama,
lateja a outra cidade, descendente
de um movimento antigo, sem programa,
de universalidade transcendente,
 
que essa gente comum, sempre espontânea,
era após era, conduz e sustenta.
Avesso à cupidez contemporânea,
 
prefiro a lucidez que nada ostenta:
saúdo esta Brasília subterrânea,
com milhares de anos (não cinqüenta).
 
Wilson Roberto Theodoro
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”  

 

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CANTIGA DE AMOR PARA UMA CIDADE

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CANTIGA DE AMOR
PARA UMA CIDADE

 
Há que te veja nave de aço, avião
mas eu te vejo ave de pluma,
asas abertas sobre o chão.
 
Há quem te veja futurista e avançada
mas eu recolho em ti a paisagem rural
lá de onde eu vim:
fazenda iluminada.
 
E quem declara guerra a teu concreto armado
nunca sentiu a paz do teu concreto desarmado.
Há quem te veja exata, fria, diurna e burocrática
mas te conheço é gata noturna, quente, sensual – enigmática.
 
Há quem te gostaria só Plano Piloto, teu lado nobre,
mas eu também te encontro na periferia, teu lado pobre.
Há quem só te reconheça nos cartões postais
mas eu te vejo inteira, planaltina,
cercada de gamas, guarás e taguatingas.
 
Aos que só te querem grande – Patrimônio Mundial,
egoisticamente te declaro patrimônio meu, exclusivo:
                        Brasília minha
e, no meu bem-querer diminutivo, Brasilinha.
 
Marcus Vinícius Carvalho Garcia
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”  


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Brasília Nave-mãe

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Brasília Nave-mãe
 
Brasília é cidade futurista
É a nave mãe do Brasil
O lar dos urbanistas
O varonil do Brasil
Brasília é o lar da esperança
O paraíso da beleza
O lugar das mudanças
O complexo de grandeza
Brasília representa simplicidade
O respeito e a natureza
Mas ao mesmo tempo a qualidade
E a imensa beleza!

Théo Crisóstomo Nogueira, 10 anos, morador da Asa Norte, aluno da 4ª. série do ensino fundamental
Transcrito da coletânea “Projeto Novos Escritores”, Sindifraf.

 

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Em defesa dos buritis

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Em defesa dos buritis
Por Antonio Miranda
 
“Se algum dia a civilização ganhar essa paragem longínqua, talvez uma grande cidade se levante na campina extensa que te serve de sóco, velho Buriti Perdido”
Afonso Arinos

Um curioso livro foi lançado em 1958 sobre Brasília, a futura capital do Brasil. O livro, ao contrário de tantos outros que estavam sendo lançados nos anos que precederam à construção e à inauguração da Novacap, não versava sobre as suas origens históricas, tampouco sobre os homens que a idealizaram, nem sobre os seus atributos geofísicos e muito menos sobre sua arquitetura e urbanismo.

O livro em questão celebrava o buritizeiro!

Em edição aprimorada, em papel “cuchê” e com ilustrações primorosas, tinha o título um tanto paradoxal de “Brasília e o Buritiseiro”, com “s” mesmo. Paradoxal porque Brasília ainda era um vir-a-ser e o buritizeiro não constituía – e ainda não se constitui – em recurso econômico significativo para transformar-se em objeto de estudo e para merecer uma publicação até luxuosa como a que mereceu.

O autor – Francisco Manoel Brandão, revelou-se um apaixonado dessa singular palmeira nacional. Ele pesquisou a presença da palmeira (e do buritizeiro em particular) nas mais variadas disciplinas e atividades humanas, extraindo os seus aspectos etimológicos, botânicos, históricos, bíblicos, literários e o seu aproveitamento econômico, além de seu valor social e cultural.

De acordo com as pesquisas de Brandão, a origem da denominação dessa palmeira tão freqüente na paisagem primitiva dos cerrados brasilienses e, sobretudo, na região Norte do Brasil, é, inegavelmente, nheengatu ou tupi e o seu significado seria “palmeira de muita água” (cujo significado tanto vale por si mesmo quanto pelo meio que habita).

“Vários aspectos da vida dessa palmeira se relacionam efetivamente com a água, já porque do seu espique, bem como dos seus espádices, antes de desabrochar as flores, promane uma espécie de seiva ou líquido adocicado, já por habitar, de preferência, as aguadas, os lugares baixos, úmidos ou pantanosos, razão por que chamam-na também “palmeira do brejo”.

O buritizeiro é, destarte, enaltecido por suas virtudes alimentares, por sua utilidade na construção (principalmente na cobertura das moradias humildes), pelo uso no artesanato indígena e caboclo, por sua aparição na etnografia e no folclore.

“O buriti, como verificamos, tem uma grande vida a contar. Vida que começa na estória, na infra história dos povos, e termina na história, nos laboratórios, na terminologia técnica e cientifica da Botânica e da Ciência da Nutrição, transferindo-se ainda para os ambientes solenes e austeros dos Tribunais, da Justiça e do Direito”.

Caberia ressaltar o buritizeiro (Mauritia Vinifera de Martius) em território brasiliense. Brandão investiga a existência da palmeira do buriti em nossa geografia e em nossa história.

“Quando pisamos o território de Brasília, logo nos seus primeiros dias, tivemos as nossas vistas voltadas para os buritisais que aqui e ali vicejam como herança abençoada de que durante séculos vigiou as regiões do Planalto”.

Recorda, com prazer, a homenagem que se lhe fazia no Núcleo Bandeirante, ao denominar-se “Hotel Buriti” um dos primeiros alojamentos populares da então “cidade livre” em seu alvorecer.

“Decorridos 15 meses de nossa estada ali, tivemos conhecimento de séria contrariedade do Presidente Juscelino Kubitschek a propósito de uma ornamentação comemorativa que se fizera, em sua honra e louvor, com palmas de buriti.

É que no dia 26 de outubro de 1957 oferecera-se um lanche, no Palácio da Alvorada, em regozijo por mais um lance das obras, o qual se atingia naquela ocasião com a retirada das formas da estrutura de cimento armado do referido edifício.

Foi nessa oportunidade que o Presidente lavrou seu protesto contra aquela ornamentação que custara a mutilação de tão preciosa palmeira. E proibiu terminantemente a repetição do fato”.

O que vale realmente registrar é a revelação que Francisco Brandão faz da pendência em torno da Missão Cruls, por ele descoberta em conversa com o Dr. Carlos Alberto Quadros, Secretário-chefe do gabinete do Presidente da Novacap e cônsul geral honorário da República de El Salvador em Brasília.

Segundo o informante, tratava-se de uma demanda movida contra a Fazenda Nacional, ou melhor, de uma ação judicial contra danos causados à fazenda onde acamparam os integrantes da expedição comandada por Luís Cruls. Os proprietários entraram na justiça devido à ação presumivelmente predatória de elementos da citada Comissão.

“Nessa demanda pede-se e obtém-se indenização decorrente não só da turbação de posse e negócio, da cessão de lucros, como das perdas e danos ocasionados com a queima dos campos em época imprópria e a derribada de capões e dos Buritis”.

Tratar-se-ia, segundo o testemunho, de forma inconteste e até simbólica de que se reveste, do primeiro ato público de defesa da natureza no solo brasiliense, já em tempos tão remotos. O protesto fora inicialmente feito pela imprensa goiana (O Estado de Goyaz, 1897), logo através de cartório, na cidade de Formosa, subscrito por vários negociantes da cidade, proprietários da fazenda Bananal, localizada nos municípios de Mestre D’Armas e Santa Luzia, por onde andara os integrantes da Missão Cruls.

“Em dias do mez de Novembro do anno passado, entrando naquella fazenda a Comissão de Estudos da Nova Capital da União, alli foi por ella escolhido o local para o acampamento da mesma, o qual ficou estabelecido com a construcção de diversos ranchos, alguns com caráter de casa, indicando assim uma estada não provisória”, alegam os acusadores em documento reproduzido no livro de Brandão.

Os proprietários protestam contra a posse ilegal de suas terras, privando-lhes do uso das mesmas para a trata de gado e para aluguel a fazendeiros, assim como contra a depredação havida.

“Outrossim, essa fazenda, que é situada em uma chapada onde não existem mattas e sim pequenos capões, cabeceiras e vertentes servidas de burithys o estrago tornou-se conhecido, já quanto aos pequenos mattos e já quanto a essas palmeiras, devastadas em quazi sua totalidade, cuja utilidade não é ignorada por quem comprou e estima aquelles terrenos”.

Estimaram o prejuízo em dois contos de réis por cada mês que a Comissão permaneceu ilegalmente na propriedade. A União, decorrido um ano de ocupação das terras, não reconhecia qualquer direito de reclamação aos proprietários.

Uma certidão de 14 de janeiro de 1928, transcrevendo registros anteriores, foi elaborada pelo Cartório de Registros e Títulos e Documentos, da capital do Estado de São Paulo, e dá noticia do desenlace da questão, isto é, a condenação da União, obrigada a pagar uma quantia determinada por lei a Lobo & Irmão, demandantes, a título de “indenização por danos causados na fazenda Bananal, situada no município de Planaltina, pela Comissão Cruls”.

A carta de sentença, vinda do Supremo Tribunal Federal para execução, fora proferida pelo juiz federal de Goiás, em cuja documentação fica patente que os membros da Comissão Cruls se apropriaram das benfeitorias da fazenda, desmataram as poucas madeiras existentes, incluindo os “buritizaes, cujas folhas empregavam na cobertura de ranchos e que foram (…) na sua quase totalidade destruídas pelo pessoal encarregado de cortá-los e que para poupar trabalho abatiam os troncos de buriti, com grande danno para as vertentes d’água que elles protegiam e alimentavam”.

Estabelece ainda que, nos vinte e seis meses de acampamento, a Comissão efetuou queimadas em estações impróprias.

A Comissão julgou-se, inicialmente, inocente da invasão e da apropriação, seja invocando o dispositivo constitucional de reserva de 14.400km2 de terra para a nova Capital, seja alegando que os proprietários não apresentaram títulos de posse. A Comissão estaria executando um serviço de interesse geral, teria feito benfeitorias em vez de depredação, etc.

Impôs-se uma vistoria no local. Constatou-se o ocorrido. A União foi então, obrigada a pagar aos proprietários, pelo aluguel das propriedades e das benfeitorias, pela destruição dos pastos e buritizeiros, pelos juros devidos ao tempo decorrido, a quantia de 13 contos e setecentos mil réis, sendo dois contos relativos aos “dannos causados aos buritizais da fazenda Bananal pela Comissão de Estudo da Nova Capital da União”. A sentença foi proclamada em 5 de novembro de 1898, a intimação feita a 17 de agosto de 1899.

Mas a história se repete, na opinião de Francisco Manoel Brandão:

“Os fatos ocorridos ao tempo da Missão Luís Cruls tiveram como teatro a mesma zona onde agora, em nome não sabemos de que finalidade ou atividade agrícola ou industrial, vem sendo posto abaixo vários buritizais.

É o que está acontecendo e o que se pode ver nas proximidades da Fazenda do Torto e na lagoa do “Jaburu”, caminho do “Palácio da Alvorada”.

Próximo à sede daquela Fazenda vive ainda um Buriti, que, por se achar isolado dos demais, é chamado “Buriti Sozinho”.

Reconhece o autor da obra que a Novacap possui policia florestal mas apelava para que o mesmo espírito de defesa do meio-ambiente natural da região fosse encarnado então, como em tempos de Luís Cruls o fora, cujas autoridades foram obrigadas a responsabilizar-se pela obra devastadora de seus comandados…

“Uma coisa apenas desejamos que aconteça: quando a policia tiver, por esse fato, que responsabilizar alguém, que responsabilize o mandante desse atentado e não o desgraçado trabalhador que foi obrigado a cumprir uma ordem absurda dessa natureza”.
 

Transcrito do livro “Brasília: capital da utopia”, de Antonio Miranda – Editora Thesaurus.

 

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ASA NORTE

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ASA NORTE
(ANTIGA ASA MORTA)

Me envelheço pela cidade.
[E comigo as minhas sociedades.

Não havia este prédio.
Inexistia esta loja,
era outra que havia.

Não conheço ninguém nessas ruas.
Outros que havia se foram há tempos,
Embalsamados de ventos.

O bairro decaiu.
As pessoas mudaram,
nunca mais se viram, nem vi.

Me envelheço esparramado pela cidade.
E comigo minha perplexa contemporaneidade.

Paulo Bertran, poeta, historiador, natural de Anápolis.
Transcrito de “Sertão do Campo Aberto”
Verano Editora, 2007

 

 

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Prece em Brasília

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Prece em Brasília
 
– No plano desta cidade
                 pousa o traçado singelo
                         de um pássaro asas abertas.
 
 
                         – Deus lhe dê vôo.
 
– Na forma da catedral,
                  de todo ângulo, vislumbre
de alto cálice litúrgico
                  – Cristo a abençoe.
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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