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Solitária travessia

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Solitária travessia
Por Conceição Freitas

Quando o céu fica limpo de nuvens, é sinal de que chegou o tempo sertanejo na cidade derramada. Como o azul pode ser incandescente? Em Brasília, ele treme, faísca, corta, queima, cega, cansa, desprotege, faz de cada um de nós o único habitante de um planeta árido e indiferente. Junho nos prepara para agosto – céu claro com névoa seca e baixos índices de umidade relativa do ar, avisa a meteorologia. A previsão é de que o céu permaneça devasso pelo menos nos próximos três dias e, de agora em diante, em espaços cada vez largos de tempo até que todos nós sejamos condenados a agosto e setembro.

Os ventos ainda estão tímidos, entre fracos e moderados, mas logo vão tomar corpo e avançar em imensas labaredas de ar, levantando poeira e folhas secas, formando redemoinhos e nos afogando em excessos. Por enquanto, avisa o Inmet, teremos entre 75 e 20 por cento de umidade no ar. Cedinho e de noitinha, haverá vapor d’água em quantidade suficiente na atmosfera.

Na hora do sol empinado, o vapor está diminuindo aos desconfortantes 20 por cento.

Como só chove quando o ar atmosférico come todo o vapor d’água que encontra entre o céu e a Terra, não há sinal de que a chuva chegue tão cedo nesse pedaço de chão que um dia foi goiano. Há 28 dias sem chuva (a última gota d’água caiu em 26 de maio), o brasiliense já empresta o corpo para as maldades do clima.

Quando as nuvens vão embora, o brasiliense fica mais brasiliense. Somos nós e o universo, sem nenhum biombo pra nos proteger da solidão do infinito. Ninguém é mais solitário que o brasiliense no tempo da seca.

Sem sombra, sem ar, sem vapor d’água, acossados por um imensidão de vazios, voltamos todos para a aridez de um planeta indiferente ao homo brasiliensis.

Brasília não negocia com as estações do ano: se é seca, é seca. Se é chuva, é chuva. E quanto mais densa a ocupação urbana, mais a cidade se exaspera e reage. De uns tempos pra cá, tem aumentado a névoa seca que de certo modo transforma Brasília em São Paulo, por mais distante que uma esteja da outra. A bruma cinza e densa condensa o vapor d’água e toda a poluição do lugar. Névoa seca é o véu de tristeza das metrópoles.

Basta olhar para o horizonte mais próximo que se verá a cortina de sujeira seca flutuando na atmosfera.

Nesse junho de meu deus, os dias estão mais curtos, porém não menos cruéis. O Sol está nascendo às 6h37 e indo embora às 17h49. Os ventos estão vindo do leste e indo em direção ao nordeste, a temperatura tem variado dos 10º aos 28º, e os brasilienses começamos a nos preparar para a longa travessia da seca, que vai durar pelo menos 90 dias, até as primeiras chuvas de setembro ou outubro. Não será fácil, não tem sido fácil, mas há pelo menos uma boa notícia pra nos animar – Eurides Brito foi cassada!

Transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense – 23 de junho de 2010.

 

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EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA

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EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA
 
Em Brasília na rodoviária
Encosto-me à lanchonete sob a chuva tropical
Os homens e as mulheres
Ocupam lugares no ônibus
Cinzentos
Violáceos
E
Amarelos
E recuperam nos seus rostos cansados
A cor do seu transporte colectivo
 
Por entre ônibus putas e travestis
Movem-se como pássaros de aviário
Protegidos do dilúvio pelo viaduto dos eixinhos
Trespassado por velocíssimos automóveis
 
Há relâmpagos vindos de todas as direcções
Que se sobrepõem aos dos olhares dos transeuntes
Reflectidos nas imensas poças
Construídas com a água
Empurrada pelo vento
E pelos esgotos entupidos
Da via Monumental.
Todos aqueles caminhos levam a qualquer lugar
A tantos e todos os lugares que o sonho se torna
Desprezivelmente desnecessário
Ao meu lado uma mulher jovem bebe um guaraná
E um policial militar devora literalmente um
Bolinho de bacalhau junto ao ponto para Taguatinga
Abrandou a tempestade
A chuva cai agora lenta e oblíqua
Atravesso a Esplanada dos Ministérios
Vergado ao peso do silêncio
 
Acolho-me ao espaço anterior
À terra vermelha
Niemeyer cavalga um Pégaso
Ao longe sobre o lago
 
Ardem-me os olhos o braço tenso segura o estandarte
A terra move-se
Milhares de candangos avançam em malha
Compacta pela W3
Colocando nas palavras a estrutura da esperança
 
Inesperadamente uma superquadra nasce
No extremo da Asa Norte na direcção contrária
À chuva
Foi quando Lucio Costa
Encostado ao semáforo experimental
Do Parque da Cidade
Decidiu não haver nascido.
 
Rui Rasquilho
Poema transcrito do livro “25 Poemas brasileiros & Uma saga lusitana”
Editora Thesaurus, 1997

 

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POEMA MOLHADO

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POEMA MOLHADO
 
A chuva, que dádiva,
sugadora de ansiedades,
Lexotan meteorológico da existência humana.
Quando cai,
freia o ritmo frenético das pulsações
Pessoas repensam suas órbitas
 
Quem tá na chuva é pra melhorar
e molhar suas roupas novas
seus sonhos de valsa
seus calos de estimação
suas capas & galochas.
 
A chuva, além de encharcar,
desafia os quarda-chuvas
encolhe pressas e cabelos esticados
nos longos congestionamentos de volta ao lar.
 
A chuva é isso & também é quilo.
Ela é muito perigosa
pois anda fora dos trilhos,
a molhadinha,
fêmea que verte pingos
como se o céu fosse de rios
 
Luis Turiba, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
Reproduzido de "Tanta Palavras"
Correio Braziliense, 18/11/2008

 

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De todas, a mais formosa

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Os avarentos 2,7 milímetros cúbicos de chuva que caíram sábado, dia 30 de agosto, sobre a terra seca do quadradinho serviram pra muito pouco – pra matar a saudade, pra menino brincar de chuveiro, pra uma noite bem-dormida e um dia menos causticante. Um só e nada mais. (A metereologia prevê chuva mesmo, do tipo temporal, só na segunda quinzena do mês.)
A pouca chuva fez um estrago no coração dos morcegos e no meu. E pode de algum modo ter estragado os planos de boa safra de pequi na cidade. A chuva se esqueceu de perguntar aos pequizeiros se a hora era boa. No cerrado, chuva que se preza só cai depois que as flores do pequi foram fecundadas. Se cai antes, as formosas se desprendem da árvore antes da geração do fruto propriamente dito e adeus, pequi.
Formosas é pouco para dizer da estonteante e sofisticada beleza das flores do pequi. Para quem nunca viu ou não se lembra, antecipo que das flores, é uma das mais belas. Digo até que, no meu ranking particular, é a mais linda de todas. Tentarei reproduzir em palavras a beleza escrita pela natureza do jeito que só ela sabe escrever. De um prato de pétalas sólidas como folhas, nascidas de botões vermelho-vinho, emergem centenas de estames compridos – estame, diz a aula de biologia, é o órgão masculino da flor. São fios compridos e tesos, de um amarelo puxando pro branco, e que terminam numa bolinha amarela. A formosinha se chama antera e ela é estufada porque contém os grãos do pólen.
É uma flor grande, mais parece um buquê de fios de ovos esticados. É o sonho de consumo dos morcegos que dela tiram o néctar e retribuem fazendo a polinização – levam o grão de pólen até o órgão feminino da flor. E está feito o pequi. Mas também recebe a visita diurna e noturna de mais de uma dezena de aves.
A maioria das flores de alguns dos pequizeiros meus conhecidos caíram na chuva de sábado passado. O chão virou um tapete amarelo, tristemente bonito. Já chorava a ausência de pequi no próximo dezembro quando o Parque da Cidade me acalmou. Os pequizeiros de lá estão com as flores vivíssimas e, em alguns, elas ainda nem brotaram.
No sertão goiano e mineiro, se diz que quando as flores do pequi caem, naturalmente, é porque a chuva vem-vindo. Se a temporada for de muito aguaceiro, a produção do fruto será menor. Se a água for pouca, sinal de muito pequi. É um fruto singular mesmo, não só pelo formato, cheiro, cor, gosto, espinhos, mas pelas circunstâncias de onde brota. Pequi não gosta de chuva, é filho da seca, viceja na dificuldade. E a flor do pequi é quase intangível nos seus estames finos como linha de costura. E tão logo se desconecta do fio terra, morre. Singulares como tudo no cerrado, singular como Brasília.

Conceição Freitas.
Reproduzido do Correio Braziliense
"Crônica da Cidade", 07/09/2008

 

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Chuva para minha irmã

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Chuva para minha irmã

Choveu-nos juntos alguma vez a chuva?
Quando ? Onde ?
Minha memória é árida.
Estou com tanta vontade de nos bater novamente a
[chuva nos ombros
que te escrevo este quase-poema

Aqui a chuva derrete num instante o pó de tijolo e desnuda
[a terra vermelha.
O asfalto avermelha de riachos turvos, a calçada desaparece
[sob as poças
vermelhuscas, o cachorro negro teme sair por debaixo do
[beiral para não
ficar vermelho, as mulheres fecham as janelas para não
[irromper o cheiro
vermelho nas casas, os grilos calam para não se colorir rubra
[sua canção,
as gotas empurram furiosamente a parede pela sua ousadia
[branca, a erva
enverdece até o desfalecimento para reforçar esta onipresença
[vermelha. Aqui
a chuva é o júbilo vermelho da terra.

Rumen Stoyanov, poeta búlgaro.
"Poesia de Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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