Posts com a Tag ‘Bernardo’

EVOCAÇÃO

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EVOCAÇÃO

(Aqui retoma palavra
         a evocação de um amigo
bem vazada em prosa honesta,
         esta que em verso gravamos
pra melhor timbrar a gesta.)
 
 
 
– "Inigual era Bernardo,
         Bernardo Sayão, vos digo:
o que em contínuas andanças
         pelo interior do Brasil,
– tão grato a seu coração, -
           obras sem par realizou
prodigando gestos dignos.
 
 
Até que a floresta irada
            ante os golpes de machado
do lenhador implacável
            findou por ceifar-lhe a vida.
 
 
Interrompeu dessa forma
            a intrépida trajetória
do grande desbravador.
Não conseguindo, contudo,
            destruir o maravilhoso
legado que nos deixou
            sua insólita figura,
de conquista memorável."
 
 
 
                          (Bernardo Sayão. Pra sempre.
 
                           O da vida quase fábula.
 
                           O do perfil quase lenda.)



Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Transcrito do livro "Saga do Planalto"

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SONETO

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SONETO

(Ante o túmulo de Bernardo Sayão)

 
Cismo e sonho, absorto, ante a lápide singela…
E o teu nome repito… Aos poucos, lento, brando,
ante a imaginação, se vai delineando
o teu perfil de bravo; e a tua vida bela,
 
entre rasgos de audácia, heróica, se revela…
Na hora imprecisa e vaga em que o sol se põe, quando
assim teu nome invoco, eis que, no azul brilhando
– num símbolo por certo, – aparece uma estrela.
 
Descansa na Cidade entressonhada um dia.
Repousa, Bandeirante, que teu rincão amado,
(sob o vasto céu, entre árvores de Cerrado).
 
que eu, ao ler o teu nome em a lápide fria,
a glória te adivinho ao calor da emoção:
– Ó Sertanista audaz, ó Bernardo Sayão!


Geraldo Costa Alves, poeta natural de Alegre, Espírito Santo.
Transcrito da antologia "Poetas de Brasília", de Joanyr de Oliveira (1962)

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Bernardo Sayão

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Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza!
Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós
nenhuma surpresa.
Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato
que te faz surgir num descampado, o olhar firme,  o sorriso exato,
e verte-te aí é rever-te nos caminhos que só para teus pés é que
a vida abria
e nos quais eras todo certeza, a alumbrada certeza dos que só
vêem o dia.
Da morte emerges, e de súbito estremecemos a um insólito ruído.
Seria acaso grito de fera, ou mesmo de homem na floresta perdido?
Não, não é uma simples árvore que desaba na floresta,
não é apenas um galho que cai – é algo mais. É a noite talvez,
e que noite esta!
Dizei-me por acaso se esse ruído que não finda
é algo que cessa com o estertor do que parece vibrar ainda.
Dizei-me se é uma vida, uma tocha talvez, quem sabe se uma
fogueira,
esse ruído que punge, dizei-me se essa árvore caída na clareira
não é a escuridão que nos cerca, que vai aos poucos nos sufocando,
não é a noite que nas águas e nas raízes fica chorando.
És tu que cais? És tu, Sayão, que cais? De repente, a terrível
certeza:
para sempre o silêncio se fez, nunca mais estarás à mesa,
nunca mais estarás à mesa – o convívio ficou de súbito
interrompido,
só resta – ontem, hoje, amanhã – o duro e insólito ruído.

Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

É QUANDO SE DÁ A TRAGÉDIA

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É quando se dá a tragédia,
                   Bernardo, meu Bandeirante.
 
É quando se dá a tragédia.
                   Lá do alto de uma das árvores,
daquelas, ai! gigantescas,
                   o galho de impacto imenso,
 
o galho mortal. Despenca,
                   te atinge a cabeça e as pernas.
 
É quando o maldito instante.
 
Por que? Por que – grito à vida –
                   a sorte má, desferida
nesse golpe revoltante?
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 

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É QUANDO SE DÁ A TRAGÉDIA

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É quando se dá a tragédia,
                   Bernardo, meu Bandeirante.
 
É quando se dá a tragédia.
                   Lá do alto de uma das árvores,
daquelas, ai! gigantescas,
                   o galho de impacto imenso,
 
o galho mortal. Despenca,
                   te atinge a cabeça e as pernas.
 
É quando o maldito instante.
 
Por que? Por que – grito à vida –
                   a sorte má, desferida
nesse golpe revoltante?
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 

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Rememorar

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Rememorar
 
Lá vem Bernardo Sayão
                   – esse gigante no corpo
e na vontade indomável.
 
A chamado, deixa Ceres,
                   trinta mil agricultores
da vila agrícola aquela
                   por ele próprio fundada
nas entranhas de Goiás;

                   lá vem Bernardo, que deixa
sua vice-governança
                   no Estado onde fora eleito;
lá vem recrutando os homens
                   que vêm do Brasil inteiro
pra cortar o "inferno verde".
 
         (Adeus, companheira, adeus!
         "Despedida, despedida,
         Despedida rigorosa.
         A meu amor: despedida
         Como o cravo deu à rosa.")
 
Rumo ao Norte vai a marcha.
                   E são cinco mil valentes,
centenas de caminhões,
                   e de jipes, e tratores,
além das escavadeiras.
                   E vão também helicópteros,
e vão doze aviões pequenos.
Lá vão eles. E se embrenham
                   nas selvas que se iniciam
na outra margem do rio,
                   tocando pro Tocantins.
Lá vão. Segue a derrubada
                   no titânico combate
contra o meio, irracional,
                   de elementos naturais.
 
Meses advém. As mulheres
                   sem os seus homens, saudosas,
à selva se vão, buscando-os.
 
                      ("A sabiá lá no alto
                      Da ingazeira serena
                      Chorava como se fosse
                      Uma viola de pena.")
 
Surgem casas nas errâncias.
                       A caminho, novipousam
riso e lágrimas de crianças.
 
Hoje legiões de colonos
                       ali vivem vida nova
que essas glebas desbravadas
                       são habitadas agora.
 
                       (Vai, meu canto-de-trabalho!
 
                       Eu sou passarinho,
                       Eu sou sabiá,
                       Eu quero fazer meu ninho
                       No fundo do teu quintá.
                       No galinho da limeira,
                       Pra poder te namorá.")
 
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"
"A sabiá lá no alto", etc – Versos de Catulo da Paixão Cearense.

 

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NA VASTA MATA OS CASSACOS

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NA VASTA MATA OS CASSACOS
 
 
                                                (Da obra do pai nos fala
                                                          Léa, filha de Bernardo.
                                                 À quisa de depoimento)

 
 
 
 
Na vasta mata os cassacos
                   com seu facões e machados.
Abrem pistas de aterragem
                   – pouso pras asas da FAB;
aviões de abastecimento.
 
E aqui lembramos que à turma
                   votada ao desmatamento
chamam de grupo suicida:
                   a que mais arrisca a vida.
Basta lembrar cada árvore:
                   quarenta, sessenta metros
de altura na selva densa.
 
O que virá pela frente?
 
Companheiros de trabalho
                    de meu pai, antigos, vários,
aqui vieram procurá-lo;
                    outros foram convidados
a trabalhar ombro a ombro.
                    São centenas de quilômetros
de mata bruta, chamada
                    de "inferno verde". Atualmente
dois mil duzentos quilômetros
                    vão se construindo, de estrada,
essa que une três Estados:
                    Goiás, Maranhão, Pará.
Mais ou menos se desmata
                    por dia meio quilômetro.
A lida começa às 7
                    indo até às 6 da tarde.
 
Que dizer de nossos homens?
                    Trabalhadores. Audazes.
 
Na mata eles se alimentam
                     de feijão, farinha e carne,
da verde. Bem farta, a caça:
                     em antas, e pacas, veados
tatus, cutias, etc.
 
E há frutas de muita espécie,
                     como o açaí, e a juçara
– que lembra jabuticaba,
                     que se esquenta e que se rala.
 
À noite muitos preferem
                     esperar que venha a caça.
Ficam na beira do rio
                     horas a fio na espera.
E quando uma flor cai n’água
                     e vem comê-la um veadinho
então caçam-no. Por perto
                     escutam onças rosnando.
Quanto mais a estrada avança
                     mais surgem novos povoados
e as cidades existentes
                     progridem mais. Quanto aos víveres
são vindos de Imperatriz,
                     cidade esta bem antiga,
e que tanto progrediu
                     mercê desta rodovia.
 
Bastantes vezes meu pai
                     transportava mantimentos
– medicamentos também –
                     pra que seus trabalhadores
não ficassem sem cuidados.
 
Sim, meu pai se preocupava.
                     E os tratava como amigos,
sempre de igual para igual.
 
Comia junto a seus homens,
                     e dava-lhes apelidos,
estímulo no serviço.
 
Em plena mata dormia:
                     a casa era uma casinha,
e de tocos de madeira.
 
Mas tão feliz se sentia!
 
Poema extraído de um trecho em prosa de Léa de Araújo Pina

 

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E PELOS ÍNVIOS CAMINHOS

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E PELOS ÍNVIOS CAMINHOS
 
– Pra frente! Vamos, candangos!
                  Quero a estrada que sonhamos,
a que o Brasil quer. Adiante!
 
Bate tronco, tronco tombe.
                  Bate tronco, tronco tombe.
Vêm tratores. Vão tratores.
 
– Machados machos: cortando!
                  – Escavadeiras: cavando!
 
– Jipes, cordas, caminhões:
                  rodem, lacem, limpem, vamos!
 
E pelos ínvios espantos
                  a gesta que se agiganta.
 
Que vai Bernardo sonhando,
                  que vai Bernardo – gigante
sem nem sonhar seu tamanho.
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"

 

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Ombro a ombro, sonho a sonho

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Ombro a ombro, sonho a sonho
 
– Bernardo Sayão, confessa:
                 que luz essa a que vislumbra
teu passo de ritmo cego?
 
– Bernardo Sayão, me escuta:
                 que música tom de cântico
na tua ousadia surda?
 
– Bernardo Sayão de andantes:
                que força rege teus gestos
que apontam, convocam, mandam?
 
– Bernardo Sayão das gestas:
                 que pretendes, Bandeirante
deste século vigésimo?
 
                 – Rasgar nossa estrada, homens.
                                     Da Brasília sonho novo
                 a Belém de novo sonho.
 
                 Tirar a estrada da luta.
 
                 Da terra. Do suor. Do sangue.
                 Dos dias de sol. Da lama.
                 Ombro a ombro. Sonho a sonho.
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 

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Triálogo

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Triálogo

                                  Quem sou? Quantos sou?
                                                   Bernardo Soares
 
 
Inda hei eu d’encontrar
No bairro Alto, Lisboa
Fingidor que dirá, pá
– Não sou Fernando Pessoa!
 
El’é aquele aquel’outrem
Quem sabe tu não o sejas
Eu não o sou. El’é a noite
Que triste, o Tejo corteja
 
Estas pessoas d’enigmas
Estes Pessoas dilemas
Barcos bares arcas-vivas
Pessoas de um só poema
 
(Agora que diplomei-me’m
Fugidio Álgido e siso
Bateu-me a mestria zen
Que: navegar-me é preciso.)
 
Neste viver perecível
Outros que vivo em nimbos
Múltiplos! Andantes! Mísseis!
São vácuos! Ditos divinos!
 
Luis Turiba, poeta pernambucano, nasceu em Recife.
"Poesia de Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira

 

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O meu tio Bernardo

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O meu tio Bernardo
 
O meu tio Bernardo,
cruzando tais paragens há cem anos,
mais de cem anos, viu subitamente
transmudar-se o que era
ermo, somente o ermo,
e na valada
linda cidade branquejando.
"Aí murmurará a voz de um povo",
num verso registrou.
 
Estou a vê-lo daqui, de austeras barbas
e chapéu sertanejo, surpreendendo
nos rios
torres, palácios, coruchéus brilhantes.
E a tudo, a tais visões,
e à paisagem em que seus olhos tinham
a paz, total, do ermo, a tudo
envolvia
e especialíssima ternura bernardina,
a que nunca faltou sabor agreste
de algum suco de cana, e do ponteio
longínquo (dir-se-ia que inaudível
e tão longínquo)
de uma viola…
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, natural de Mariana.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 

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No Catetinho

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No Catetinho
 
I
Ali no Catetinho há olhos d’água,
bosque em que a sombra como que reluz.
 
Do Catetinho foi que Juscelino,
como o terno Bernardo, imaginou
 
ao longe uma cidade se espraiando.
Qual não teria sido o sentimento
 
que o dominou na solidão completa
deste planalto? Pois que ontem, agora,
 
ao longe se ergue a que ofegante alma
adivinhou, no grande descampado
 
fluindo em brisa e luz, transluminosa
e docemente branquejando como
 
bando de garças. (Foi assim que um dia,
pitando o seu cigarro do mais puro
fumo goiano, o meu avô Bernardo
dentro do coração te adivinhou.)
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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O meu tio Bernardo

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"O meu tio Bernardo
 
O meu tio Bernardo,
cruzando tais paragens há cem anos,
mais de cem anos, viu subitamente
transmudar-se o que era
ermo, somente o ermo,
e na valada
linda cidade branquejando.
"Aí murmurará a voz de um povo",
num verso registrou.
 
Estou a vê-lo daqui, de austeras barbas
e chapéu sertanejo, surpreendendo
nos rios
torres, palácios, coruchéus brilhantes.
E a tudo, a tais visões,
e à paisagem em que seus olhos tinham
a paz, total, do ermo, a tudo
envolvia
e especialíssima ternura bernardina,
a que nunca faltou sabor agreste
de algum suco de cana, e do ponteio
longínquo (dir-se-ia que inaudível
e tão longínquo)
de uma viola…"
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro,
nascido em Mariana.
Antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.

 

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Bernardo Sayão

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