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BRASÍLIA

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BRASÍLIA

A letra trêmula
na carta da mãe
marca outro mês
neste calendário estóico.
A cidade continua,
ilustríssima desconhecida,
como todas as cidades são.
Em maior ou menor
grau de integridade,.
Mas é diferente:
aqui desaprendi a chorar.
A sensação de não ter casa
faz a gente criar casulo dentro de si.
Ver beija-flor onde só tem solidão.
Beija-flor lembra a mãe
A mãe é a tradução da saudade.
Antes de dormir,
penso em voltar mais uma vez.
Avalio perdas e danos.
Fico.
Com ambos.

Post poetisa Paola Daniella da Fonseca Rodrigues
Poema transcrito da coletânea “Concurso Nacional de Poesias”

 

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

As conchas dos olhos
recolhem a cidade recém-vinda
das réguas, das pranchetas.
Em cantos translúcidos,
o sangue inaugural de suas ruas.
 
O olhar se inebria no mistério
que encanta luas
habitadas  por feras e Anhangüeras,
abrindo-se em vôos
aos astros mais remotos e esquecidos.
 
O útero azul desta comuna
concebida em cios seculares
armados por duendes.
O útero azul desta comuna
que num átimo se forma
das carnes das auroras.
(Ah, urbe alada, há bem pouco
matéria de miragens
geradas entre insânias e insônias.)
 
As mãos dos pioneiros desabrocham
esplanadas e verdes
por entre calos duros e selvagens.
Despojadas de plumas,
as palmas – espetadas por bichos e pequis -,
a trotar sobre praça imaginária.
Nos cumes de pirâmides de vento.
Nos eixos com seus trevos
a girar no invisível.
 
As mãos indóceis estrangulam noites,
a acender miríades de sóis
pelos andaimes,
triunfantes sobre o escuro.
 
As mãos, armadas
da aspereza dos cactos e dos mares,
rasgam sangram os nervos do cerrado,
esmagam os troncos retorcidos,
que choram o diluído predomínio,
o augusto império
sobre a nação do Oeste.
 
Plantas de ferro (indômitos calcâneos)
dos pés adventícios
marcham nas madrugadas planaltinas.
As marchas, que promanam
dos quadrantes das praias,
das garras litorâneas,
das engrenagens das ruas e dos óxidos,
desaguam um ritmo de guerra
contra o sono do Oeste.
 
Candangos pés, em binário compasso,
nos campos do silencio
desvirginam veredas
a enfatizar sua cor – candente e rubra.
Tecem pautas de luz
hasteadas nos píncaros do tempo
e em estuários de contos e de lendas.
 
Cidade submersa na memória,
nos sonhos, mas concreta
no útero de luz que a acaricia.
Eu canto as suas linhas irmanadas
em arcanos de pedra,
de ouro e prata
(mares de sol, lunares oceanos),
onde efusões do ser colho e equilibro.
 
Navegam no ar as mãos pesadas e ósseas
a florir superquadras
e o perfeito embalar de seus meandros.
(Estas mãos de cartola
informes, tecidas pelos ventos,
haurindo de metáforas
palácios e luas e esplanadas.)
 
Canto os trevos. E neles canto o verde
dos burocratas exatos,
deferidos,
cronômetros nos punhos e nas frontes,
essas férreas formigas quotidianas.
 
As águas, as águas dos milênios,
no lago de finos tributários,
de peixes, de magias,
de rios natais sorvidos (sequestrados)
para as doces vertigens
do altiplano.
 
Sim, claros domicílios
do silêncio – esta urbe, esta ave –
onde alforriados de mares e fuligens,
de salsugens e becos,
em voejos difusos, coloridos,
desintegram raízes de veneno.
 
Amoldado à aridez da atmosfera,
eu canto esta comuna
em seu milagre, em seu murmúrios.
Por mais que a concha azul e luminosa
me complete em loucuras.
Por mais que a secura da aragem
em suas cordas me sangre.
Por mais que as vibrações
indecifráveis do azul
dardejem-me a garganta.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “Casulos do Silêncio”, 1988.

 

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REEDIFICO A CIDADE

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REEDIFICO A CIDADE
 
Reedifico a cidade.
Suas artérias, suas sinfonias
subterrâneas,
seus mares extintos
na memória.
O milagre de suas mãos
aquáticas.
Suas tímidas cantigas
como fontes, no chão.
 
Tributários do espanto
roem as horas, as praias
as multidões, as raízes,
os muros antigos.
Os olhos da insônia,
criativos e límpidos,
amoldando a cidade,
no ar.
 
Assim, reedifico-a.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “O Grito Submerso”, 1980.

 

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O CENÁRIO INFINITO BANIU A MULTIDÃO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

O CENÁRIO INFINITO BANIU A MULTIDÃO
Por Augusto Nunes
 
A cidade que nasceu sem habitantes e estava pronta quando foi fundada nunca viu a multidão por ter espaços demais. Brasília viu muita gente duas vezes: em agosto de 1976, na partida de Juscelino Kubitschek, e em junho de 1980, na chegada do papa João Paulo II, quando dezenas de milhares de brasileiros se juntaram num mesmo ponto do Plano Piloto. Mas muita gente só vira multidão quando se acotovela em lugares com limites definidos, faz o chão desaparecer e ameaça derramar-se pelas bordas das fotografias. Isso Brasília não sabe o que é. Nem saberá, por falta de cenário com fundo. Cenários infinitos engolem até multidões chinesas.

Se o corpo de JK fosse velado na Cinelândia, no Rio, por exemplo, uma multidão teria protagonizado o que hoje se chamaria de O Adeus dos Trezentos Mil. Recortado contras as imensidões do cerrado, o cortejo em Brasília não pareceu mais impressionante que qualquer comício estrelado pelo presidente morto numa cidade de tamanho médio. Se os que recepcionaram o papa na Praça dos Três Poderes fossem dar-lhe boas-vindas no Rio, a multidão transbordaria da Sapucaí e não caberia no Maracanã. Mas não existe nada em Brasília parecido com o templo dos deuses da bola ou com a passarela do samba.

A capital do  País do Futebol não tem campo nem time de futebol. (Os estádios onde jogam o Brasiliense e o Gama ficam fora do Plano Piloto.) E a capital do País do Carnaval não tem carnaval de rua. (As aparições anuais de alguns blocos apenas realçam a inexistência de escolas de samba.) O esporte preferido e a festa mais popular dão sinais de vida nas cidades-satélites, que não tem parentesco com Brasília. Nasceram juntas, mas não são gêmeas em nada. São extremos que, por se completarem, até agora tem convivido sem conflitos.

Esses aglomerados urbanos que Lucio Costa não planejou e Oscar Niemeyer não decorou com monumentos tão belos quanto inabitáveis contrastam pedagogicamente com o espanto futurista da metrópole que rodeiam. A contemplação do conjunto informa que Brasília não tem povo – como se referem os políticos à massa informe e anônima de viventes com pouquíssimas chances de algum dia perguntarem a alguém se sabe com quem está falando. Esses são vistos no Plano Piloto durante o dia. No começo da noite, terminada a jornada de trabalho, voltam para a babel periférica e dormem em casa. Vivem em ruas comuns, com nomes comuns e carências comuns. Nada a ver com a vizinha também cinquentona mas proibida de envelhecer. Brasília terá sempre a cara que tinha ao nascer. Chegou ao berço com tudo o que não há nos arredores. Só faltava gente morando lá.

Em 1970, a escritora Clarice Lispector impressionou-se com a supremacia da cidade sobre seus habitantes. “Brasília é tão artificial quanto devia ter sido o mundo quando foi criado”, escreveu numa crônica. Como acontece a onze em cada dez visitantes na primeira viagem, Clarice estranhou a troca de ruas e praças por superquadras, tesourinhas, eixinhos e eixos. Ficou insone com o silencio ensurdecedor, descobriu que a infinitude da paisagem torna a solidão mais aflitiva e, sobretudo, desconcertou-se por não encontrar alguém que reproduzisse a cara do lugar.

“Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo”, lembrou. “Nós todos somos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar; e depois o mundo deformado às nossas cidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília”. Inaugurada dez anos antes, a cidade descrita por Clarice era a reprodução miniaturizada do mosaico brasileiro, formado por migrantes que tinham acabado de chegar.

Dez anos depois da fundação, os cearenses continuavam cearenses, os gaúchos continuavam gaúchos, todas as peças escancaravam na estampa e no sotaque o local de fabricação. A identidade não sofrera mudanças por falta de tempo e, sobretudo, de referencia:  como o brasiliense nasceu depois da cidade, os que chegaram não dispunham de um modelo a copiar. Quando a crônica foi publicada, a primeira geração de nativos nem atingira os 10 anos de idade. O homem de Brasília não existia. Pode ainda estar em gestação.

Talvez seja um quarentão de classe média, diplomou-se pela UnB, é funcionário público, combina ternos cinza ou azul-escuro com gravatas de desenho sóbrio, mora em apartamento, conhece meio mundo ma convive estreitamente com poucos.  Ao contrário dos deputados, dos senadores, dos ministros e do presidente da República, não viaja para longe da capital nos fins de semana. Freqüenta com assiduidade o clube de que é sócio, circula todo o tempo de carro e caminha bastante, mas nunca anda à toa. Sair por aí exige as ruas e as esquinas que não há. Porque não existem cruzamentos, os brasilienses se cruzam nos restaurantes e nos bares. Que nunca ficam na esquina. Que nunca fez falta ao Homo brasiliensis, juram todos os nativos do lugar.

Tampouco lhes fazem falta ruas e praças semelhantes às do resto do país. Basta  Praça dos Três Poderes e sua extraordinária polivalência, que lhe permite hospedar manifestantes que cobram por hora ou circos cuja única atração é a chance de zombar do Congresso. Não há casas com quintal antigo e numeração convencional nem outro sinal de parentesco arquitetônico com as demais cidades brasileiras. Os nascidos e criados em Brasília não vêem nada de errado nas singularidades e inovações com as quais convivem desde o berço. Da mesma forma que um inglês recém-chegado ao continente considera pura esquisitice trafegar pela mão direita, aos olhos dos brasilienses o que parece espantoso é a existência de ruas batizadas como se fossem pessoas, que mudam de identidade sem mudar de rumo. Não compreendem por que tantos brasileiros passam parte da vida imobilizados em congestionamentos de trânsito, embora isso também já ocorra na capital federal.

Forasteiros se perdem regularmente na selva de prédios indistintos, consoantes misteriosas e palavras que, em brasiliês, têm outro sentido. “Vou até a pequena zona de comércio de uma superquadra para comprar cigarro e na volta me perco numa floresta de edifícios absolutamente iguais uns aos outros”, escreveu o cronista Fernando Sabino, mineiro e ipanemense honorário. “Não hei de conseguir achar nunca mais o apartamento de meu amigo onde estou hospedado. SQS – 307 – Bloco F – apto 502, leio na minha caderneta.”

“Vó! Olha lá o Jornal Nacional!” No livro ainda inédito “Brasília e Eu – Uma Reportagem”, Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, comprova a reciprocidade da estranheza com exemplos ligeiros e divertidos. Num deles, a neta de 3 anos que levou para conhecer Brasília descobriu que já tinha visto em algum lugar a paisagem formada pela Esplanada dos Ministérios, com o prédio do Congresso ao fundo: “Vó! Olha lá o Jornal Nacional!”, exclamou a carioquinha. Que não reconheceu no restante da incursão nada parecido com o que já viu. Em outro episódio, uma sobrinha de 8 anos hospedada no apartamento de cobertura em frente à Praia de Ipanema olhou do terraço para a Avenida Delfim Moreira e quis saber da tia: “Como é o nome desse eixo?”.

Outra menina ficou intrigada ao descobrir que as ruas do Rio têm nome e sobrenome. “Como é que a gente pode saber onde é que fica?”, perguntou a Maria Elisa. “Em Brasília a gente sabe.” A filha de Lucio Costa conta que as marcas de nascença que assustaram Fernando Sabino foram concebidas “para impedir que a nova capital, mesmo em seus primórdios, tivesse qualquer conotação de cidade do interior”. A imaginação do pai urbanista acabou tornando a criatura muito diferente também de qualquer capital. “As superquadras, com seus blocos de seis andares, os pilotis abertos, a entrada única para os carros, cercadas por uma faixa arborizada em todo o perímetro, introduziram um novo modo de convívio urbano”, diz Maria Elisa na abertura do capitulo “206-Sul”. Fernando Sabino chamaria um tradutor ao ler esse título. Qualquer brasiliense adivinha o que lerá.

Testemunha privilegiada da gestação apaixonante, a carioca Maria Elisa pertence a uma espécie rara: o anfíbio que se sente à vontade e feliz em ambas as cidades. A tribo parece à beira da extinção se confrontada com a composta de nativos que defendem Brasília apaixonadamente ou com a formada por forasteiros que perdem o humor e o eixo quando topam com o Eixo Monumental. Num Planalto Central ainda deserto e desprovido de âncoras naturais como o Corcovado ou o Pão de Açúcar, conta Maria Elisa, a arquiteta teve de inventar referências. Há a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, são dezenas os cartões-postais sinalizadores. Mas há sobretudo o Eixo Monumental, que está para Brasília como Viaduto do Chá está para São Paulo.

Seria temerário evocar o paralelo perto de inimigos juramentados da capital – o presidente Jânio Quadros, por exemplo. “Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito”, exagerou na resposta ao neto Jânio John, também interessado em descobrir as razões reais da deserção. O instável presidente repetia que “Brasília não tem gente”. Sempre teve. Foi por causa de gente inimiga, aliás, que Jânio decidiu sair para voltar com poderes superlativos. O que não tem é multidão – e sem multidão à vista não havia Jânio. “Se eu ficar cinco minutos batendo lata no Viaduto do Chá, junto mais de 5 000 pessoas”, gabava-se o grande palanqueiro. Nunca  se arriscou a estrelar um comício em Brasília.

Jânio passou sete meses queixando-se da ausência de platéias que os políticos federais preferem ver pelas costas. A capital dos escândalos nunca viu um vigoroso protesto dos escandalizados. De terça a sexta-feira, tanto os delinqüentes da semana como os veteranos pecadores circulam sem perigo pelos mesmos restaurantes. Os parlamentares sabem mais do que dizem, os jornalistas sabem mais do que publicam, os brasilienses sabem mais do que comentam. Nelson Rodrigues achava que, se todos conhecessem a vida sexual de todos, ninguém cumprimentaria ninguém. Os que freqüentam a Praça dos Três  Poderes conhecem o que se passa nas alcovas alheias e o que se passa além delas. Todos  se cumprimentam. Os nativos rechaçam com veemência o codinome Ilha da Fantasia. O complemento talvez seja incorreto: os pais da pátria que andam fazendo coisas que parecem ficção sabem o que fazem, e sabem também que os homens de bem sabem disso. Mas a soma de coisas que só existem em Brasília confirma que o Plano Piloto é uma ilha, sim. Cercada de outro Brasil por todos os lados.

Texto transcrito da revista Veja, edição Especial “Brasília 50 anos”.

 

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Cidade Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Cidade Brasília
A cidade corre
louca emotiva
nas asas do avião
 
As pessoas andam
desatentas
aos prédios da solidão
 
Os edifícios néons
neoletreiros
das imagens de televisão
 
A cidade futurista
fruto guerreiro
aos dramas da União
 
Os pássaros
deltas estrelas
no céu anil
 
A cidade cinza
transmuta
na verde cidade
 
A cidade
Brasília
 
Jorge Amâncio , poeta e escritor
Poema transcrito do livro “Fincapé”, Coletivo de Poetas – Thesaurus Editora

 

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Henriqueta Lisboa

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Henriqueta Lisboa homenageia a cidade a falar do sol, da lua, da galáxia de Brasília. É que, embora radicada em Minas, teve a oportunidade de vê-la “à hora do nascer do sol”, transmudada de chofre em “bloco de topázio em prismas/alçado pelo azul do céu”, e à noite, “aquário escuro” sob uma lua de muitas originalidades: “Nenhuma lua vi maior/nem mais límpida em longitude/nem mais redonda em corola”. Também a Via Láctea? Sim, porque “Foi numa noite de mistério”. “Os astros formavam códigos/senhas algarismos e siglas”. Henriqueta Lisboa testifica porque viu “…a galáxia de Brasília/pairando sobre a flor de pedra”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

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Geraldo Pinto Rodrigues

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Geraldo Pinto Rodrigues visitou os canteiros de obras da então futura Capital em 1957. As grandes asas em que a cidade se equilibra eram ainda um projeto. Naquele tempo, o pó vermelho se erguia do chão rasgado pelas máquinas e bem alto se levantava, no vento, nos rodamoinhos.
G.P.R. consignou-o com destaque, a enfatizar em um de seus versos: “E pó, e pó, e pó…” Não podia manter-se indiferente ao “Sol de clarabóia”, e, como outros autores, observou: “Os ossos sob a canícula/ardem no desconforto da carne ressequida”. Apresenta seu preito a “estes peões candangos de sete fôlegos,/a cada sete dias renascidos”. E conclui enfático: “E aqui se planta uma cidade./E uma esperança”.
Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

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A cidade da paz

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

A cidade da paz
Ao Poeta Eduardo Dalter

A cidade brotou de palmas iluminadas,
de dedos mágicos, translúcidos.

Das luzes de Lúcio e Oscar,
do febril sangue de candangos.

Ela mantém em eixos e quadras
antigas ressonâncias, enraizando-se

E a bailar resplendores
nos alpendres das nuvens.

Sonhos consumados cantam
no concreto e no abstrato.

Alguns séculos repercutem
em nossos ombros e frontes.

Viver no coração desta cidade
é estender a paz nas próprias artérias.

Viver no coração desta cidade
é flutuar na singularidade de um mundo.

Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “Mensagem no Outono” SCOR Editora TECCI

 

 

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BSB-DF

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

BSB-DF
 
 
 
1
 
O poeta é homem
             &
      caminha
 
a cidade
pista de suicídio –
BSB

começa    aqui
do pó      &
do poema   agora

2
 
das satélites ao centro ( ?
das decisões
(da solidão
que cinde, mortal em geo
GRAFIAS
do homem que caminha
-secreto carregado de disparos
aos culhões da época-)
a distância é fato comum
espaço
que se avança
(constrói & cons
pira-se  )
:embora bloqueado:

3

o preço da passagem
caiba no caminhar
& no poema
– artefato arrevezo
arremessado
ante o presente
            (e o que não passa
a dor diária da cidade)
a cara a quem calado
:custe o trans
caro a quem trabalhe
cidadão&poeta&operário

4


 começa aqui
o caminhar
&
a cidade
até o limite em que desaba
seu napalm-esp
aço
(álgebra cartorial gráfica )
contra corpos que em febre
&
soco-salários
fundaram em púrpuro
sua est
ética:
raras

5

aqui
-fraudados-
onde o preço é lei
dita
dura
lógica de esp(I)a(na)das
começam o homem & seu poema
emaranhados

 
6

esta cidade: seus rumores
manhãs
sibilinas
(cigarras-galas
neblina seca
navalhando os lábios  )
quando o excesso é paz
-tragicalmas-
sob as cornetas da ordem
&
manobras diárias

7

tardes
( pseudo,
claras
alucinatórias
– horas inexatas –
névoa cósmica destilando lágrimas
sangue sal
picando
ante-salas

8

noites
desço
nexas
in
g(r)atas
quando ser & estar parte
o coração
oscila
não se sabe onde
em que lu
(g
ares

9

n’esta cidade
hã, hem ?
(cilada sibilábica)
cemitério alado
em que me encontro
vôo
(exíguo
zigzag)
a esmo exilado a mais

10

esta cidade língua iluminada
lambelambendo
meu sexo
(o néctar dos vocábulos)
palavras
-solidão rigor W-4-
trans
)traídas
tornadas
entre desejos
(aflição anexa ao sarro gozo igual)
e o f’ato incomum de amar
pate
ta/tica
mente
esta cidade (sendo a vida esbulho
atropelo & porão
ferida exposta
sin’
ais

11

sendo a vida merda
amarga turbulen-
ta
plural
&

na garganta
(grito dissonante)
contramão
cego punhal

12

sendo a vida
n’ave
à deriva
pesadelos perambulam plataformas
passarelas
pilotis
a vida a mas/
turbar-se em banheiros
calabouços
&
b’l’ares
entre gol’p’es neg(óci   atas
expedientes
(PÉS PFs?)
protocolares

 
13

masturbam a vida em bancos
&
autarquias
&
quartéis
(sonâmbulos & agramáticos)
no espaço público das taras
mater rodoviária
-puta baldia
reduto
anti-praça
diva escancarada
– canal –
a tudo extremo na cidade
SUb ‘URBA
n ‘ess’a
:barra:

14

esta cidade: descalça
– sem calçadas –
do que foi-infância & fábula
elaborada a contrario
brasilalvísceras !
inversa ao passado
esta cidade – pública ? – pluri (am
putada
equilibrada a pontapés
em contragolpes
esta cidade lâmina & lodal
danger dissimu disse
minada
em contra-ordens & sentenças & cláusulas

 
15

esta cidade
(alçapão)
côncova & concentrada
contra o câncer do que é luta
labuta
classe
abocanhada em lances & conchavos
esta cidad’ela in’civil
bandeiras
&
fa(r)das

16

esta CidaD
ELA
doi
di

na
– sutilinútil –
est    ILHA
i l h a ç a d a
esta cidade   mu
/sa
seu
C
( i  )
ALADA
– dita
inter –
bela & fera
enca(r)petada

17

esta cidade: aurora
adiada
hidra democéfala
esfingefada
(exu-xangrilá)
esta pací(f)vica cidade
d
a’r’ma(r)   a
g

18

esta diab
cidad
? hermét(r)ica?
avassala’
do(u)ra
da
lucífera
esta c’idade:cães patente
esfaimados
incivil
assombro
sonhada

19

que se passa (nos plenários
corredores
entrequadras
nos b/l
ares ?
do que passou se passa
– e há de vir ? –
nesta cidade – tudo
torta
em linhas ângulos reta
arquivistas
cortesãos
coronéis
? que se passa ?
(mortos rangem os eixos do presente)
outroragora
nesta
t
u
m
b
acidade
fantasmas afugentando alvoradas
m’ais ?

20

o sono dos senhores
da cidade
entre blocos
superquadras
o sono da cidade   (seus sonhares
se
con/
cretos
– alçamirados –
nesta paisagem azul-represa
( escafandristas zumbis surpreendente peixa )
o sonho da cidade: suas armas c’aladas

21

o sono da cidade
e seus senhores
(ruídos do nada
visões
sideral
nas águas do lago
iluminadas)
nesta cidade asas
de morcego cauda de
m
co   eta
r n
astronave
lunar
avariada

22

dormem
ana cristinas lídia
na paz ?
nesta cidade sem ruas
setores
WW
quadras
lar & lápide
em que me aqueço
(esquecido
nome
ao
léu
ninguémalguém
a caminho)
sereias bafejam
sibilam
( seu canto
-in
feliz-)
em meus ouvidos

23

dormem ana cristinas lídia
dormir desfaz
esta cidade
(charada polissílaba que desato)
sonho avesso
onde me vejo
em que em encontro
(embora não me caiba)
cabisbaixo enlouquescente
encalacrado.

24

nesta cidade sem
becos
sem saída
cap’b’ela
ana cristinas lídia
concreto eterno
(z’urro
confetes ferem-me a pele)
jazigo
a céu
aberto
onde lotar a dor
(o medo espalhado
a esmo)
n(d)esta cidade clara
&
secretíssima ?

25

esta cidade
com
CRETA
(seus pulsares ministáurios
p’f ‘avores)
contra a qual avanço
dançando
(blasfemo
musamausoléu
embalsamado)
poeira rubra laminando a alma

26

nesta cidadeelláasssttica
(a olho nu
inabitável)
transplante plástico
em que me deixo (acho ?
ir
vir
vendo perigo
a mil
(superfície fáustica
fundo-fátuo)
ao acaso
(medusado)
s’urdo
inclaro
esta meada sêmen anticanto
fio
umbilical
extraviário

27

instalado
– pirata –
em ângulos domados
(entre palácios
pilatos
vassalos)
sob os véus do presente
te(r)ço
excluso
exa
(us)
to –
elevo este salmo
autóp(oe
sia)
 disparo
ao coração
da
(r
dos
raros
lançados aos céus
incêndiovasto

28

assim
quando a cidade é inexata
re’pousando
núbil
nua
no planalto
(além-mapas)
o homem a caminho
cidadão imaginário
-emissário sem mensagem-
cruza a si mesmo numa via multi
intransviária
&
insustentável
em palavras (enfim que sempre cegam)
:aqui não bastem sigam
neguem
esta ci (la
da
de   imagens
&
– de nada.
 
Eclison  Tito

 
Bsb, 1979-81/BH, 1991-2003
Transcrito de “Abstrata Brasília Concreta”
De W. Hermuche

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Das fontes noturnas

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Das fontes noturnas
 
a noite possui a cidade
em leve meio tom
a cidade possui a noite
em cinco marchas
 
ambas possuem o encanto das fontes
desesperadamente cálidas
 
é quando a fome de lâminas afiadas
se apossa das bicas arfantes
que os cães fuçam raízes de begônias
(se é que existem begônias
na cidade e na noite)
para babar loucuras e mistérios
 
os mistérios da cidade rifados na noite
 
a cidade dança na noite
coreografias esfaimadas
correntes e punhais de felicidade
celebram paz
e esticam fraldas de dor nos varais
 
a noite é falsidade de anzóis
pós-do-sol que oferece tépido
assovio de enigmas a cada esquina
um fio invisível a costurar nós e sina
um silêncio de procissão nébula a praça.
 
Carlos Barbosa, poeta baiano, natural de Oliveira dos Brejinhos.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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PARALELO 15: HOMEM DIANTE DO MAR

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Do alto do edifício de forma cilíndrica que desponta imponente do Setor de Autarquias Sul, um homem contempla a cidade. A capital do país construída no cerrado ainda desperta sua admiração, depois de cinco décadas – apesar do esbulho de seus políticos detratores, da mutilação dos administradores inescrupulosos e o adultério do projeto original, escultores criminosos das rugas urbanas, das estrias sociais, das celulites imorais, que o povo em si, guardião de sua alma, sabe exorcizar ou vencer.

Vejo-o, entre absorto e macambúzio, com os olhos fixos num ponto. O que veem seus olhos tão pressurosos quanto enigmáticos? Talvez, admire que às margens da usina de esgotos da Asa Sul, apesar do mau cheiro e do circunlóquio de urubus, ainda vicejam plantas ribeirinhas e as garças fazem pouso e se alimentam de detritos.

Ou será que o absolutismo de seu silêncio e a paralisia dos olhos vêm da sinuosidade de seus pensamentos quando contempla a Esplanada dos Ministérios? Aquela enorme via, corredor de invisíveis mistérios, onde papéis e decisões tomam rumos muitas vezes inesperados.

De onde estou, numa mesa (melhor dizendo, estação de trabalho, para não perder o bonde da história e estar em sintonia com a noção terminológica dos novos tempos e a semântica do mundo globalizado e competitivo), sim, nesse lugar em que me encontro compulsoriamente, como numa relação bovina com a realidade funcional, com computador, telefone e outros implementos, vejo-o, entre silêncios e fugas interiores, observando a marcha da vida e do tempo. Onde estarão seus olhos, seus pensamentos, sua vida, sua esperança – nesse espaço quase sem movimento que ele abriu no galope das horas?

Que cidade aquele homem vê? A cidade oficial, da mordomia e das aparências, burocrática, marmórea e sem alma – de políticos behavioristas, justiça enclausurada e sentimentos esquivos? Ou aquela em que as cigarras de agosto e os ipês em flor, conspurcando com suas belezas a palidez decretada pela estação seca, fazem um concerto simbiótico, plástico e melódico, anunciando a primavera? Ou a dos homens e mulheres que circulam pela W-3 Sul, entre passos apressados e o fluxo vertiginoso de animais metálicos, como na solene marcha das formigas em sua meticulosa faina?

Um homem qualquer? Não, um homem que vê e se vê diante da urbe que existe além do círculo do poder. Mas noto em sua quase intangibilidade, em seu estado de pessoalíssima solidão, a pressa em descobrir para que lado vão as coisas na polis enclausurada, para onde seu coração caminha, e por onde voam seus pensamentos (quais falenas em jardins suspensos).

Um ser que, sem sair do lugar, nada de braçadas no horizonte onde desponta um sol incendiário para fazer a mais luminosa das manhãs do mundo na metrópole balzaquiana. Diante da imensidão do altiplano tenta entender o deserto psicológico das vidas que passam, entrar no seu ritmo, carregar-se na sua energia, numa espécie de solidariedade anônima mas consciente.

O céu é azul e enorme. Maior é o seu comedimento diante da grande arquitetura que o rodeia.  E seus olhos passeiam, porque parece que ele compreende bem dentro de si o que Niemeyer um dia reconheceu: “Passear em Brasília é como passear num jardim. O céu é o mar de Brasília”.

Por isso eu vejo aquele homem como qualquer homem diante do mar. Deslumbramento e reverência ante a natureza indissolúvel, com seu poder de afeto e sedução.

Sim, ele vê um mar. Mas nesse trânsito onírico, ele não divisa navios ancorados nem cais ou despedidas, pois essa é a “única cidade onde não haverá saudade”, como disse um poeta. Mas vê os palácios da Praça dos Três Poderes que parece flutuar na planura sem fim do Planalto Central, território de babilônicos contrastes. E esse encantamento nasce da descoberta que se faz a cada dia, novos ângulos de visão que fluem dos ângulos retos da cidade que é arte em permanente estado de construção e beatificação.

Não, esse homem não quer ir embora pra Pasárgada, ele quer ficar em Brasília, a Capital da Esperança batizada por André Malraux. Eu não perguntei, mas sei que ele quer ficar aqui. É o que traduz seu jeito de observar o Plano Piloto que se abre em asas, de norte a sul, nos 180 graus em que se lança a vislumbrá-lo. É o que dizem os olhos desse homem (Severino? Antônio? Tomé? Nonato? José Raimundo? ou simplesmente João?)? Ele parado no décimo quinto andar do prédio público, de onde descortina tudo com discreta serenidade, sem perceber que o estamos vendo, admirando seus olhos que jamais se fatigam de deambular pelos espaços federais, ora compungido como a arquitetura da Catedral moderna, ora contornando as “tesourinhas” que bifurcam o Eixo Rodoviário e vão levá-lo às superquadras, com seus blocos sobre pilotis e seu comércio localizado, em que a vida também pulsa, apesar da falta de esquinas.

A cidade para ele é um mistério? Onde estão as pessoas, Brasília? Estão nas escolas, e daqui a pouco sairão como os pássaros, em revoada. Estão nos gabinetes, ó homem em transe. Estão por aí, nas Satélites, nas autarquias, na feira do Guará, no Parque da Cidade, no Conjunto Nacional. Por aí, ó homem, onde a vida se desvia em mil trajetos arteriais e pulsa e as pessoas vão de um lado ao outro, pelo grande Circular ou de Metrô, num permanente movimento  em que não há lugar para a melancolia ou o retrocesso.

Taciturno, o homem sobre o qual nada sei, vai se fazendo perguntas entre uma e outra baforada de fumaça de um cigarro que custa a desaparecer entre seus dedos. Assim como quero entendê-lo, ele quer compreender o jeito próprio dos candangos, essa gente vinda de todos os lados, atraída pelo eldorado juscelinista, confiantes que um valor novo se alevantava na doida marcha para despertar o gigante: a esperança.  Aquela mesma que Cassiano Ricardo cantou num madrigal “Vou-me embora pra Brasília, /Sol nascido em chão agreste. /Como quem vai para uma ilha. /A esperança mora a oeste.”  E que Drummond anteviu como alternativa ao marasmo e descontentamento do ser com velhos e vãos territórios: “Vou no rumo de Brasília,/não é aqui o meu lugar.”

Não, não é o Lago Paranoá que o faz navegar. É o céu de Brasília: mar absoluto. Esse céu-mar, essa cidade que nos espanta, porque uma das características essenciais de uma obra de arte é sua capacidade de provocar surpresa e espanto, como reconhece Baudelaire. Por isso, deter-me naquele homem ensimesmado, diante do desafio de entender a obsessiva saga de fazer surgir do nada, do agreste e da poeira uma cidade de corpo e alma, completa minha sensação sobre viver num lugar que representa a unidade na diversidade, o encontro de todos os brasis, a heterogeneidade consolidando o humanismo a que almejaram os idealizadores e os que amalgamaram cada tijolo na busca da concretude e do sonho.

A mesma e profunda lição de se perder nos sete mares que os antigos galeões provocavam nos desbravadores, é semelhante ao ensinamento de que, para viver em Brasília, que se abre todos os dias como uma alvorada, não é preciso ter somente cabeça, tronco e rodas. É preciso, antes de tudo, uma eternidade permanente no olhar.

Muito mais que isso, a humanidade e qualidade de vida de que tanto se ressentem os habitantes de outras metrópoles, é vivida e sentida aqui, cidade antevista no sonho de Dom Bosco, para quem, entre os paralelos 15 e 20 surgiria uma nova civilização, onde verteria leite e mel.  Mas sobre ela não preciso que me falem pitonisas ou adivinhos, pois fico com  a singela e poética constatação do saudoso escritor Esmerino Magalhães Júnior: “uma cidade é uma porção de coisas de onde emana o humano, e não os monumentos apenas”.

Por isso, aquele homem está ali, diante do mar, diante de nós, arquipélago invisível de ternuras e segredos, e  como uma câmara sem pressa registrando o mundo sob este céu: imensidão oceânica que tanto nos devora quanto nos alimenta. E isso me diz tudo. E é o que não nos faz sentir (n)uma ilha.

Por Ronaldo Cagiano

 

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A CIDADE

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A CIDADE

a cidade me distrai quando eu
passo
como o vento
ora rápido ora lento,
a serviço do acaso.
o caminho
faço ele todo de peito aberto.
olhos de espinhos e de espanto,
a cidade me destrói, eu penso
em prantos
e levo à queima-roupa
saraivadas roucas de acalantos
e lenços encharcados.


Fernanda Barreto, poetisa gaúcha, reside em Brasília desde 2003.
http://transitivadireta.blogspot.com
poema transcrito do livro “50 anos em seis”, Teixeira : gráfica e editora

 

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A esfinge do cerrado

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A esfinge do cerrado
Por Paulo José Cunha
 
        A cidade é de vidro e de luz, de régua e de compasso, mas sobretudo, de amplidão e espaço. Em Brasília o olhar nunca chega ao fim, e quando parece que chega, outro horizonte se abre, e depois dele mais outro, e assim a cidade de mil horizontes, em todos os sentidos, vai misteriosamente multiplicando seus espaços. Para onde se olha, a cidade não acaba. Marcada pelos horizontes sem fim, a cidade é um convite permanente à reflexão. Talvez por isso todo mundo é meio filósofo em Brasília, porque todo mundo é obrigado a parar de vez em quando, diante da ousadia dos traços do arquiteto, diante da ousadia do por do sol, diante da ousadia dos homens que um dia arrancaram da imaginação uma cidade que dormia no centro do Brasil profundo. Aqui, o que se conhece como modernidade, começou. Aqui, o Brasil entendeu que futuro é apenas o que ainda não foi tentado. Aqui, o espaço é uma interrogação permanente, testando os limites da liberdade e do sonho.
 
        Dizem que a cidade é fria. Dizem que a cidade é exata. Dizem que a cidade é burocrática. Dizem que a cidade é atrevida. Dizem que a cidade é monótona. Dizem que a cidade não tem alma. Dizem isso. E dizem mais. E vão continuar a dizer, porque Brasília é principalmente um enigma em permanente busca de tradução.  Vão continuar a dizer coisas de Brasília. E nunca conseguirão traduzi-la.  Brasília,  a esfinge plantada no meio do Planalto Central, foi criada para  provocar o espanto dos filósofos. Porque a cidade dos espaços, do vidro e da luz, da amplidão que o olhar não consegue abarcar, foi condenada em sua origem a ser eterna, e mesmo que um dia se transforme em ruínas, provavelmente serão as mais belas ruínas da história do homem. Ruínas de curvas e retas e horizontes, esfinge de concreto e aço propondo e repropondo um enigma que ninguém sabe qual é, embora saiba que existe. O que atordoa os críticos e os estudiosos é que daqui a alguns milênios, mesmo se ela tomar a forma das ruínas, permanecerá moderna. E assim, por dentro dos milênios, entre seus planos de vidro e de luz, a cidade feita de régua e compasso descobre, espantada, que guarda o mistério de uma esfinge, entre seus espaços infinitos, que os olhos não conseguem abarcar.

 

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bem, o sr.

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bem, o sr.
já nos mostrou
os blocos, as quadras,
os palácios, os eixos,
os monumentos…
 
será que dava pro sr.
nos mostrar a cidade
propriamente dita?
 
Nicolas Behr, poeta mato-grossense, nasceu em Cuiabá.
Poema transcrito do livro “Poesília, poesia pau-brasília”

 

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A cidade do Planalto

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Oh! a Cidade que irá surgir
bela, sobre o planalto, além dos horizontes.
A que não foi preciso descobrir,
a que o olhar divisou pela encosta dos montes. 
Cidade do porvir,
longe do mar, Cidade perto das estrelas…

Tu não terás o afago de ondas, a carícia
voluptuosa da espuma contra o cais;
nem um colar chorando luzes sobre
as águas
numa circunferência,
e ainda mais…ainda mais
a praia, a areia de ouro, a banhista,
a delícia 
da alameda que fica junto ao cais.

Mas eu te amo assim mesmo,
em teu futuro, 
amo o trabalho humano que há de levantar
sobre os teus montes, edifícios de ouro
e a igreja branca onde talvez eu vá rezar.
 
Amo a glória do teu futuro!
 
Mas quero muito mais a saudade que fica
desse arraial onde hoje dormem caravanas
de montanhas e de pobres cabanas
e tendas humildes e pequeninas.
 
Ficas longe do mar, mas ficas perto
do céu, de um claro céu que há de estar sempre aberto
às nossas mágoas e aos nossos cantos, ao vento.
 
Que o homem futuro possa ter um sentimento,
adorar as tuas paisagens belas,
e possa, pela coragem, merecê-las.
 
Cidade que fugiu das ondas e das praias
para ficar vizinha das estrelas…
 
Osvaldo Orico, poeta paraense, nasceu em Belém.
“Poemas para Brasília”, antologia de Joanyr de Oliveira.

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O começo

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Contra as gretas da paisagem
e sobre a tristeza dos galhos tortos do cerrado,
nasceu a cidade,
abrindo-se feito asas de anjo
           a partir do gesto primário na prancheta.
 
Sobre os campos desidratados,
os de fé e gestos largos
entre o suor e a liturgia da esperança
mergulharam na nova Capital
           rasgando o planalto calcinado
           na marcha sem fim de outra descoberta.
 
Os homens que aqui chegaram
largaram sementes na noite
apesar da voragem insensata
dos inimigos do amanhã.
 
   Hoje continua a brotar a cidade que nunca acaba de nascer…
 
Um homem a desejou,
retirando-a dos estatutos
sob a intimação da modernidade
arrancou-nos do litoral
porque a esperança conclamava a Oeste.
 
A cidade que celebramos
cumpre seu destino,
apesar de outro dado aos palácios,
com suas estátuas de sal,
suas rugas
        que já lhe denunciam cansaço
        e
        estatísticas de fel e sangue.
 
Mas o altiplano abriga
doidos vassalos da esperança
que adestram a geografia agônica
e enxertaram nos campos desidratados
o futuro sem tréguas.
 
Mas a cidade não se fez
                 nem a desfizeram
                 os primeiros ciúmes litorâneos
                 nem as hodiernas nos balcões
 
porque é fêmea a ternura que mantém
o contínuo artesanato da construção
além dos escaninhos oficiais,
da frialdade marmórea da burocracia.
 
Faz-se a cidade
em silenciosa escultura
 
          entre os novos suores e outros sacrifícios
          de outras gentes
                 com sua saudade de longes caminhos
                 desmembrada em ausência tristeza lembranças.
 
cidade cujo mar é o céu aberto sobre nós
e a noite um colar de perólas
reverberando pequenos sóis em nossas almas.
 
Poema de Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, nasceu em Cataguases.
Extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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A Cidade da Paz

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A Cidade da Paz
 
A cidade brotou de palmas iluminadas,
de dedos mágicos, translúcidos.
 
Das luzes de Lúcio e Oscar,
do febril sangue de candangos.
 
Ela mantém em eixos e quadras
antigas ressonâncias, enraizando-se
 
e a bailar resplendores
nos alpendres das nuvens.
 
Sonhos consumados cantam
no concreto e no abstrato.
 
Alguns séculos repercutem
em nossos ombros e frontes.
 
Viver no coração desta cidade
é estender a paz nas próprias artérias.
 
Viver no coração desta cidade
é flutuar na singularidade de um mundo.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, nasceu em Aimorés.
Reproduzido da antologia "Deste Planalto Central: Poetas de Brasília", de Salomão Sousa.

 

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A cidade perdida

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A cidade perdida
 
Tecemos a transparente cidade
(nós, dez mil loucos benfazejos).
Meu verdor juvenil a germinou
sobre a velha sequidão do Oeste.
 
Calendários na terra amoldaram
frontispícios de casas e pessoas
onde em sombras deixei tédios
e a imensidão de minhas fugas.
 
Acolitaram-me no Oeste um sorriso
inaugural e singular de primogênito
e as navegações de outros rostos
no ventre enaltecido da amada.
 
A vida me floresceu esta cidade
e edificou descendentes e poemas.
Minhas mãos porém me diluíram
e voaram no dorso dos ventos.
 
Os filhos se evolaram a outras terras
empós do amplo fulgor do Altiplano.
Ressonâncias nas veias e nos ermos,
nas artérias este anseio de mundos.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
"Poemas para Brasília", antologia

 

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OS ÓCULOS ESCUROS

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OS ÓCULOS ESCUROS

Pra não fechar os olhos de vez
Pra conseguir ver a cidade
Veracidade:
Ponha os óculos escuros
No horizonte retilíneo
A vida é torta
Clara e ambígua
 
Stela Maris Rezende, poetisa mineira, nasceu em Dores do Indaiá.
"Poetas Mineiros em Brasília", antologia de Ronaldo Cagiano.

 

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