“Ta’ wa’ tiga”

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“Ta’ wa’ tiga”

No começo era assim: todo mundo candango…
Candango e mais candango, aos caminhões, chegando,
Quanto candango houvesse, havia de barraco,
Mais barraco brotava e mais candango havia.
Barraco e mais barraco e mais barraco e rua…
E rua atrás de rua e surge Taguatinga.
E sorriu ao nascer e cresceu e cresceu,
E tanto mais crescia, ainda mais queria
Crescer como um gigante e se ver, num segundo,
Cidade-solução que mais cresceu no mundo!
A esperança feliz de todos os candangos!
A mistura maior das raças brasileiras!
 
Não te vi nascer e também não me viste:
Vi-te, pois, depois de teres sido “baby”,
Mas te vi pequena, tão pequena e triste
Que o primeiro impacto, que a mim causaste,
Foi de que serias um fatal desastre.
Nos dois mil e um do Planalto Central…
Porquanto tu estavas plantada e nascida
Nas grimpas suspensas, longínquas, desertas
Do imenso planalto cercado e ilhado
Por fora e por dentro, por cima e por baixo,
Por todos os lados: de sol e cerrado!
 
Felizmente por um minuto apenas
Assim pensei de ti e ainda hoje
Guardo remorsos de assim ter pensado,
Porque muito antes de querer julgar-te,
Eu deveria mesmo é ter lembrado
De que nasceste prematuramente,
Quando obrigada, em um aborto às pressas,
Tu te tornaste humildemente filha
Da mãe que não havia nem nascido!
Da mãe da qual devias ser a mãe!
 
Então eu pude logo entender-te…
Ver teu progresso de sul a norte…
Unir-me aos outros a construir-te
E construindo passei a amar-te
E, sendo amante, quis elevar-te…
Com toda a força, pra evoluir-te
Com a vontade de quem é forte,
De tua bandeira, pra defender-te,
Fiz-me um candango porta-estandarte!
 
Sol, chuva, trovão e goteira…
Barraco, buraco, poeira,
Moleque brincando no barro,
Seu pai trabalhando na obra,
Quer ser motorista de táxi
Pulando a roleta do ônibus,
Insiste jogando na cobra,
Persiste sonhando com o carro!
 
Hoje, Praça do Relógio,
Ontem, Praça do Balão,
Depois de ser Bar Estrela,
De ter sido embrião…
Como está moderna e bela
A praça, onde há poucos dias,
Era o terreno do circo!
 
Caixa-d’água é cultura:
É lembrança ao provir.
Caixa-d’água assistiu
Taguatinga surgir…
Caixa-d’água é do povo
E não pode cair!
 
Ceilândia chegando,
Cidade crescendo,
Cidade se unindo,
Cidade compondo
Um mesmo conjunto!
 
De leste a oeste,
De norte a sul,
Do barro branco
Ao céu azul!
 
Paira, altiva,
A Ave Branca
Do Planalto!
No moinho
Da paz!
Salve!
 
Antonio Garcia Muralha, poeta mineiro, natural de Monte Carmelo.
Reproduzido do livro “Taguatinga: História e Cultura”, de Ronaldo Alves Mousinho.
Homenagem aos 51 anos de Taguatinga.

 


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