Sinfonia da alvorada

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Sinfonia da alvorada
Por Ana Miranda

 
Brasília fica no lugar mais antigo da terra, gostava de dizer Tom Jobim. Talvez por isso as alvoradas em Brasília sejam tão ricas de cores que foram se multiplicando e recriando ao longo dos bilhões de anos. Riam de mim os cientistas, não me importo, falo de anos poéticos e de alvoradas sonoras.

Brasília sempre foi sinônimo de alvorada, que me perdoem os gramáticos, e me perdoem os historiadores, mas tenho certeza de que JK fundou a filosofia de Brasília na ideia de alvorada. A prova é a “Sinfonia da alvorada”, que me perdoem os lógicos e os juízes. Uns dizem que em 1958 o pianista Bené Nunes levou a Tom Jobim um convite de JK para ele compor uma sinfonia celebrando Brasília. Vinicius faria o recitativo.

Vinicius contou a história diferente, disse que em fevereiro de 1958 estava num hospital em Petrópolis, depois de um acidente, e recebeu a visita de Tom, quando conversaram pela primeira vez sobre escreverem uma sinfonia celebrando Brasília, e nesse mesmo ano Tom compôs alguns dos temas musicais constantes da futura Brasília, Sinfonia da alvorada. Quando Vinicius voltou de seu posto em Montevidéu, em junho de 1960, e Brasília já tinha sido inaugurada dois meses antes, ele recebeu uma telefonada de Brasília. Era Oscar, introduzindo Juscelino. O presidente convidou Vinicius para criar um espetáculo son et lumière para ser apresentado na Praça dos Três Poderes, como se fazia nos castelos franceses, na acrópole, nas pirâmides e em tantos monumentos.

Tom e Vinicius esboçaram o plano da obra, partiram para Brasília e foram se hospedar no Catetinho. Queriam ter contato humano com a cidade. Vinicius contou que trabalhavam na mesa onde JK tinha assinado seus primeiros atos na capital. Chegou um piano de Goiânia, e os músicos, ajudados pelo caseiro Luciano e três “capangas” o subiram no braço, mortos de medo que as escadas cedessem ao peso. Ali os músicos ficaram uns dez dias, se inspirando e compondo. Contemplavam a “silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza”, disse o poeta. De madrugada ouviam o piar das perdizes e dos jaós, entre rajadas de vento do altiplano. Caminhavam pelos capões de mato, e Vinicius ia só até o olho d’água, voltava e ficava pensando nas palavras da sinfonia. No principio era o ermo, agreste, verde triste…antigas solidões…a penúria dos caminhos…a dolência dos desertos…olhava um mapa do Brasil escolhendo nomes. Tamboril, Passo Fundo, Amargosa, Taperoá!

Enquanto isso, Tom Jobim se aprofundava na mata munido de uma espingarda para caçar passarinhos, mas Vinicius se aprazia em dizer que jamais ouviu um tiro, Tom não tinha “coragem para chumbar seus coleguinhas alados”. E quando o músico voltava da caça, sem nenhum passarinho, almoçavam mesmo o feijão com arroz da “patroa” de Luciano, o funcionário número um de Brasília. De vez em quando iam visitar amigos, bravos pioneiros, ou recebiam visitas, como as do herói da FAB, João Milton Prates, que lhes levava “licores e vitualhas”.

A sinfonia ficou pronta, e arrancou lagrimas dos olhos desses pioneiros, quando a ouviram pela primeira vez, Tom Jobim tocando e Vinicius recitando, ali mesmo no Catetinho, num piano goiano, numa noite estrelada. Ah…Ah…Ah…Diem! Ô…ô…ô…ô. O concerto de som e luz na Praça dos Três Poderes não aconteceu, por falta de verba. A peça só foi levada à Praça dos Três Poderes em 1986, regida pelo maestro Alceu Bocchino, com Radamés Gnatalli ao piano e Tom e Suzana, filha de Vinicius, que me perdoem os materialistas, acompanhava do céu, batucando numa caixinha de fósforos.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 25/03/2012.

 


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