Será o tombo do tombo?

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Será o tombo do tombo?
Por Alfredo Gastal

Brasília vai fazer 51 anos. Esse tempo corresponde a apenas alguns dias de vida de uma criança mas, no caso brasileiro, onde as coisas correm e ocorrem às vezes numa rapidez descontrolada, eu me permito imaginar que este neném já apresenta alguns sinais de adolescência.

Nasceu muito bonitinha, meio perneta, só tinha a Asa Sul, mas era muito simpática. Tinha políticos, muitos cassados; professores da UnB, também cassados, mas apesar disso não era triste. Era, sobretudo, terna, exatamente à imagem e semelhança de Lucio Costa; bucólica, arborizada, com quadras recheadas de arquitetura de boa qualidade. Afinal, tratava-se do grande e único experimento do movimento moderno de arquitetura em que a rigidez dos princípios da lógica e da setorialização urbana era amenizada pelas escalas de seu criador.

O impacto nacional e internacional do Plano Piloto como cidade única no mundo levou à garantia de sua preservação por decreto distrital, em 1987, e em 1992, pelo Iphan. A arquitetura da cidade, entretanto, por uma questão de tradição brasileira, não foi bafejada por essa sorte. Neste país, tombam-se as reminiscência do poder clerical, colonial, imperial. O poder republicano de verdade foi muito tênue. Assim, Brasília é uma exceção à regra.

O tombamento aqui é volumétrico, ou seja, pode-se demolir um edifício e colocar outro com o mesmo volume no mesmo lugar. Considerando outro hábito nacional, a fobia por espaços vazios de nossa cultura, Lucio criou o conceito de projeção: os edifícios da cidade não possuem direito de uso do andar térreo, que passou a ser público, exceto nas áreas das prumadas. Mas então surgiram os salões de festas, e…

Chegamos ao século 21: cidade protegida, crescendo, ocupando o que pode e o que não pode. A arquitetura, principalmente na Asa Sul, de inicio era muito boa e tradicional, no sentido de ser fiel ao dito modernismo. Acho que até por uma questão de respeito ao urbanismo de Lucio, tendeu a ser quase sempre discreta, mimetizando-se com o arvoredo.

Mas os anos passaram e eu, hoje septuagenário, visitando um amigo numa SQS outro dia, fui atacado por uma trombeta visual. Num prédio daqueles que estava acostumado a ver sereno, quiçá conservador, berravam um vermelho-abóbora cercado por um verde que me recordava os tempos em que corria pelos campos do sul e acabava pisando no que não devia; figuras herméticas no mesmo tom flutuavam sobre um bege sujo. Meus olhos desorbitaram. Na casa de meu amigo, um pacifista, ele comentou: estamos ultrapassados; é a nova geração. É o pós-pós-pós-modernismo. Suspirei e, reacionariamente, comentei com meus botões: é mediocridade, é o começo do fim da arquitetura. Talvez nesta cidade, onde a burguesia ainda vive em paz, em seus recantos acolhedores, este seja o prenúncio de uma merecida invasão de bárbaros. Quero minhas cinzas adubando as raízes de um pau-Brasil.

Alfredo Gastal, Ph.D, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Texto transcrito do Correio Braziliense, Caderno Cidades, 17/04/2011


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