Sem pista para aterrisar…

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1956. Juscelino quer conhecer logo a área. Vê-la, senti-la, caminhar sobre ela. Marca viagem para quinze dias depois, 2 de outubro de 1956. Uma aventura. Não há vias de acesso. E a Presidência da República não dispõe de helicóptero. Tem de ser de avião, mas não existe pista de pouso adequada. A solução é mesmo o veterano Douglas DC-3. Lento, barulhento, desconfortável, mas com capacidade para dezenas de passageiros, econômico e seguro. Um grande jipe alado. O mais recomendável é seguir via Goiânia, de teço-teco até Planaltina, pegar um jipe e seguir trilha aberta no cerrado até o destino. Mas JK resolve ir direto, aterrisar numa fita de terra desbastada no cerrado bruto pelo engenheiro Bernardo Sayão, na época vice-governador de Goiás. Uma pista com formigueiros e precariamente nivelada. O DC-3 decola do aeroporto Santos Dumont às 7:45 do dia 2 de outubro de 1956. Além do presidente, leva o general Teixeira Lott, ministro da Guerra; o almirante Lúcio Martins Meira, ministro da Viação e Obras Públicas; o governador Antonio Balbino, da Bahia; o general Nelson de Melo, chefe da Casa Militar; o brigadeiro Araripe Machado; Israel Pinheiro da Silva, presidente da Novacap; Oscar Niemeyer; Régis Bittencourt, direto do DNER; o coronel Dilermando Silva, o doutor Ernesto Silva, Octávio Dias Carneiro, técnicos do Conselho de Desenvolvimento – responsável pelo planejamento e metas do governo. Há um quê de moderna entrada ou bandeira no ar. Um sentimento bandeirante. Quatro horas de vôo.
Na chegada, Juscelino avalia o cenário. Conclui que é chato e amplo. Um descampado sem fim, com suaves ondulações, que não ultrapassam duzentos metros. Ele vê a cruz fincada pelo marechal José Pessoa no ponto mais alto e, pouco depois, a fita de terra vermelha improvisada por Bernardo Sayão (onde está hoje a Estação Rodoferroviária). Octávio Dias Carneiro, preocupado, pergunta ao presidente se é mesmo ali que vão pousar. Denso silêncio. O avião se posiciona, dá uma guinada e inicia os procedimentos de descida. Pancada dos pneus batendo no chão áspero, muita poeira, incontáveis solavancos, muitos corações disparados, parada, taxiamento e pronto. Alguns trêmulos, mas todos salvos, JK sorridente e entusiasmado. Descem e vêem pendurada num pau fincado ao lado da pista precária tabuleta em que algum brincalhão ou exagerado escreveu: "Aeroporto Vera Cruz". São 11:40 e o sol bate forte, fortíssimo. Calor de estalar mamona e luminosidade de apertar os olhos. O céu é indescritivelmente lindo.
O governador goiano José Ludovico de Almeida; Bernardo Sayão, diretor da Novacap; Altamiro Pacheco e outras autoridades levam a comitiva para um toldo de lona. Numa rústica mesa de madeira, o presidente assina o primeiro ato oficial de Brasília. A nomeação do novo ministro da Agricultura, Mário Meneghetti.
 
Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 


Trackback do seu site.

Tags:

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …