Se esta quadra fosse minha

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Theresa Negrão de Mello

Desatar os derradeiros nós daquela precoce e frustrante união implicava deixar o apartamento no qual provisoriamente me instalara para, enfim, com o que me coubera na partilha da casa em São Paulo, dar entrada em nova moradia por aqui.

Não obstante breve,  aquela etapa de primeiro contato com a cidade havia sido suficiente para consolidar a ideia de permanecer em Brasília, cuja hospitalidade se incumbira de descartar os estereótipos que davam suporte aos longos discursos norteados por uma retórica de dissuasão.

Das cartas, telefonemas e encontros eventuais afloravam, com frequência, as marcas de representações de uma cidade “sem alma”, “sem esquinas”, “sem gente nas ruas”. Na verdade, tais sintomas de uma “brasilite negativa” evidenciavam, em não poucas vezes, uma desconcertante contaminação, não associada a qualquer contato ou conhecimento mais efetivo, nutrindo-se do sopro eficiente de enunciados que, “legitimando-se” pela repetição, constituem o celeiro propício dos preconceitos.

Sem querer esmiuçar antigas polêmicas, e apenas visando a contextualizar vetores de representações engendradas em uma conjuntura especifica, cabem aqui as considerações de Holston, cuja pesquisa ressalta uma primeira geração de migrantes que cunhou a expressão “brasilite”, para sinalizar a um só tempo impactos positivos e negativos desencadeados pelo encontro com a cidade nova.

Os aspectos negativos da “brasilite” estão ligados a uma rejeição das intenções desfamiliarizadoras contidas na concepção de Brasília. Rejeitam a negação do Brasil urbano, tal como comumente expresso na organização e na arquitetura da cidade.

(…) Sem a agitação das ruas, Brasília lhes parecia “fria”, embora a separação especial entre as funções de trabalho, moradia, lazer e tráfego produzisse uma clareza na organização urbana (…)

(…) Desse ponto de vista, os migrantes usavam o termo “brasilite” para se referir a uma vida cotidiana destituída de prazeres – as distrações, as conversas, os flertes e os rituais da vida nas ruas em outras cidades brasileiras.

Tendo sido outras as condições, até porque minha vinda não se situa nas primeiras levas de migrantes e, ademais, nada teve de compulsória, a síndrome da “brasilite negativa” não prosperou como suporte das minhas representações sobre a cidade que escolhi para”começar de novo”.

Nesse sentido, a sempre alegada monotonia das superquadras não deu conta de obscurecer uma seleção que, na oportunidade da compra, desde o inicio, privilegiou a 205 Sul. Assim, não sem uma certa angustia, envidei esforços para que o meu, então recente, “trocando em miúdos” me possibilitassem arcar com a entrada, o ágio, o dilúvio de documentos e sei lá mais quantas providências lembradas por uma legião de corretores tagarelas.

Aliás, a todos eles parecia escapar tão peremptória preferência pela “205 Sul com vista para o lago”, e, de fato, meus argumentos não iam além de uma difusa simpatia pelo lugar como um todo, pois sequer os blocos residenciais eu conhecia. Enfim, tais motivações, não se confinando ao racional, são capazes, entretanto, ou bem por isso, de mobilizar-nos. Em tais casos, a mais trivial preferência ganha no representacional foros de aspirações insubstituíveis, daí o titulo desta pesquisa “Se esta quadra fosse minha”, fragmento do repertorio popular, pleno de significações.

Quando finalmente surgiu o esperado “imóvel”, como se esmerava em soletrar o corretor quase gordo, preenchi ali mesmo, durante a visita, o cheque referente ao sinal, com direito à vista belíssima para o lago e, de quebra, à grotesca visão de absurdas paredes rosa, literalmente “choque”, pedindo, quando menos, caiação urgente. Tudo bem, o corretor negociaria a pintura, o que me fez sair faceira, estalando com os saltos das sandálias as dezenas de tacos descolados. Em menos de duas semanas cá estava eu instalada, uns poucos móveis, os inseparáveis discos e livros, “começando de novo”, agora como membro da comunidade da 205 Sul.

Hoje percebo que a comunidade, não se confundindo com a ideia de superquadra enquanto concepção administrativa e urbanística, circunscreve um cenário ampliado que, ao incorporar espaços contíguos, multiplica lugares de comunicação e socialidade.

Assim, pessoas que cotidianamente se cruzam na quadra e suas imediações, não raro se conhecem e se relacionam, de modo a evidenciar um sentimento comum de pertença que extrapola, por exemplo, as práticas ritualizadas do simples cumprimento. Trata-se, como diria Maffesoli, de uma socialidade que se exprime também na partilha dos afetos, no lúdico, na emoção, enfim, no interacionismo simbólico perpassado de transfigurações imáginárias.

Tais elementos concorrem, sem dúvida, para a construção “…dessa identidade perceptível que se chama cidade, bairro, quadra, etc.

Ao considerar a comunidade no âmbito de um cenário ampliado, constato que se a ideia de quadra não a contém, a de bairro igualmente não a traduz. Entendo, ao final das contas, que a quadra em que moro e suas adjacências, este espaço do lado de baixo do Eixo Monumental até a L 2 Sul, muito se assemelha a uma espécie de quartier fincado no planalto Central. Dialogando com Bresciani, suas ideias fornecem-me interessantes pistas:

Há, porém, ainda uma outra percepção da rua que forma algo bastante pessoal, daí subjetivo, e ao mesmo tempo tecido num fio que permite algo  que se aproxima da comunidade perdida: o percurso diário para as compras e demais tarefas domésticas, um mesmo açougue, a mesma quitanda, sapateiro, jornaleiro, palavras trocadas entre pessoas para as quais a civilidade aprendida e um laivo de interesse pessoal se mesclam no bom-dia, como vai?

Exatamente aquilo que faz um francês e uma francesa se referirem ao lugar onde moram como mon quartier, não inteiramente traduzível por bairro. Um recanto que às vezes pouco lembra o recorte administrativo do bairro, mas é composto pelas ruas percorridas, pelos locais visitados, pelas pessoas encontradas.

E é bem o que aqui ocorre, sobretudo nas manhãs de sábado, nos bares, confeitarias, lojas, butiques, padarias e farmácias. Ali, o simples “bom dia” acaba emendando um dedo de prosa entre pessoas que geralmente se conhecem pelos nomes e mesmo apelidos. Ali se realizam as conversas sem consequência “sobre a saúde, o tempo que passa, a meteorologia, as emissões televisivas, o esporte e tudo o mais. Ali, “tudo se sabe”, e é naquela espacialidade que se ensejam “as varias ocasiões em que se vive, conjuntamente e sem brilho, o crucial problema do tempo que passa”.

Na verdade, o mesmo quadro parece reproduzir-se nos blocos residenciais na comunicação diária entre vizinhos. “Seu” Diamantino, meu vizinho de porta, desde a minha chegada jamais se limitou à glacial polidez do cumprimento. A ele devo a mediação com “seu” José, uma espécie de mestre-de-obras oficial da quadra, e o sindico, logo às primeiras semanas da minha instalação no sonhado “imóvel na 205 Sul com vista para o lago”.

Deixar o imóvel com a minha cara, até meio excessivamente personalizado, significou percorrer uma saga de mais de uma década, pontuada por três inesquecíveis reformas, com o mesmo modesto orçamento, fosse qual fosse o novo apelido da moeda da ocasião.

Tão inoportuna quanto inadiável, a primeira obra que se impôs envolveu também o condomínio, e mesmo com as despesas assim partilhadas, não consigo apagar da memória o discurso do entusiasmado corretor que, ciente ou não, me vendeu também, além da vista para o lago e do enfatizado sossego de um imóvel no último andar, uma inesperada goteira, apenas evidenciada com as fortes chuvas que fechavam o verão brasiliense. Com um balde de plantão logo à entrada, eu tentava poupar, em março, o carpete colocado em fevereiro.

Segundo meu solidário vizinho, em breve teríamos a seca e, com ela, a possibilidade de cuidar da imprescindível impermeabilização do teto. Se a propalada secura brasiliense jamais me incomodara, naquele momento, mesmo prevendo despesas, eu contava os dias para dar-lhe as boas-vindas.

Enfim, sempre vi, com o devido desconto ao exagero, os discursos que a cada estação elegem como “o pior dos últimos anos” o clima do nosso Saara federal, com seus baixos índices de umidade relativa do ar, sobretudo como um bom pretexto para os breves temas acionados na tentativa de vencer o secular silêncio que se segue ao cordial bom-dia do elevador.

Com a chegada da seca chegou também “seu” José, cuja historia de vida remonta aos tempos da construção da quadra da qual ele participou, como tantos nordestinos que aqui chegaram, compondo o exercito de candangos recrutados e seduzidos com o trabalho na cidade nova. Orgulhoso, “seu” José afirma ter na cabeça a planta dos antigos imóveis, e tem mesmo. Por ocasião das reformas, ele dá conta da localização de colunas e passagens de canos com a intimidade de quem teve a experiência da construção. Morando em uma cidade-satélite, “seu” José frequenta a quadra há décadas e, como “seu” Edmundo, o marceneiro, faz parte da nossa comunidade.

Além dos serviços que nos prestam, esses trabalhadores articulam suas historias pessoais à memória da quadra. Seus relatos desenham no quartier uma historia local, naquele entendimento que lhe confere Souza Martins:

“Nela o tempo e o espaço não podem ser separados. Por isso é uma historia local. A historia do cotidiano não tem sentido quando separada do cenário em que se desenrola. Por isso, é quase uma historia intimista, de vizinhanças e pequenos grupos”.

É sobre essa historia local e seu arquivo de memórias, sobre as representações que dela fazem seus atores, e sendo eu mesma uma das personagens, que direciono um dos meus trabalhos atuais.

Estudando o bairro de Copacabana, lugar onde passou grande parte de sua vida, o antropólogo Gilberto Velho lembra o desafio por ele enfrentado ao propor uma pesquisa que, deslocando-se dos convencionais estudos “dos outros”, se propunha a estudar o “nós”.

Também no caso da investigação aludida, reflito sobre um tema que, sem perder o compromisso com os sempre lembrados paradigmas científicos, trará ao final as marcas das minhas representações sobre o cenário ampliado da 205 Sul e, é claro, uma esparramada carga de subjetividade. Conforta entender com Morin que “o campo real do conhecimento não é o objeto puro, mas o objeto visto, percebido e co-produzido por nós”.

Nas providências preliminares dessa co-produção, venho elecando alguns atores da quadra. Seus depoimentos constituem uma exuberante fonte onde miríades de sentidos possíveis podem ser consideradas. Paulistas como eu, paraibanos como “seu” José, piauienses como “seu” Edmundo, baianos como o zelador, cariocas como “seu” Diamantino e tantos outros dos mais diversos lugares oferecem, na multiplicidade dos enredos sobre como aqui chegaram e que representações fazem do quartier, articulações que, pinçadas desse universo empírico, darão vida aos estudos teóricos enclausurados nas obras cujos autores se dedicam ao simbólico, ao imaginário e ao cotidiano que os engendra.

Pretendo ouvir moradores antigos e recentes dos diferentes blocos residenciais, trabalhadores tais como empregadas domésticas e funcionários dos blocos. Penso também no contingente constituído pelo pessoal ligado ao comercio das entrequadras, bem como nos trabalhadores do setor informal, protagonistas dessa prática tão brasiliense de chamar, para os mais variados pequenos serviços de casa, os fazedores e furos e colocadores de varais. Pacientemente, chova ou faça sol, eles estão ali em grupos ou isoladamente, disponíveis para atendimento imediato. São, enfim, atores nos quais a condição de não-residentes nas superquadras não lhes retira o status de membros da comunidade, em seu cenário ampliado. É o caso de Walter e Josafá, que nos prestam pequenos serviços como eletricistas, bombeiros e são, porém, identificados como os “rapazes do varal”. É também o caso de Manuel, o jornaleiro da 205  que vimos crescer, de “seu” Nicácio, o verdureiro da Kombi, e de “seu” Jáder, que, com Maria e Zé Baiano, compõem o “setor” dos sapateiros. “Seu” Jader, na verdade, mudou-se para a Asa Norte, mas frequenta a quadra comercial com a mesma intensidade de antes. Impossível chamá-los a todos neste breve painel, onde tento apenas ilustrar com alguns personagens conhecidos a animação do quartier que, em certo sentido, poderia também, numa versão mais “tapuia”, ser identificado como “o pedaço”.

É que, com as devidas compatibilizações, a noção de “pedaço” utilizada por Magnani ao trabalhar o universo de um bairro periférico da grande São Paulo harmoniza-se com a ideia de cenário ampliado da quadra, pelo menos quando se retém na noção de “pedaço” a sua condição de lugar “onde se tece a trama do cotidiano e espaço de mediação entre o lar e o resto do mundo”.

Girando o dedo indicador ao lado da fronte, no gesto que na identificação popular traduz “uma coisa de doidos”, o jovem estudante interpela-me no estacionamento da universidade, entre perplexo e curioso: “Professora, é você que trabalha com o imaginário ?” Afirmando que sou uma delas, tentei resumir o que andamos fazendo em nosso grupo de estudos. Talvez por sincronicidade, ao buscar um exemplo, lembrei-me de minhas reflexões sobre o cenário ampliado da 205 Sul e acabei sabendo que o interessado aluno é um ator do “pedaço”, pois mora na 405 Sul. Com uma breve troca de palavras, tentei esclarecer os contornos de uma noção que, mesmo presumidamente entendida, não logrou escapar do gestual reproduzido durante todo o tempo. De todo modo, como membros do quartier, partilhávamos representações gestadas no imaginário comum e vivenciávamos experiências cotidianas análogas.

De volta das férias, e contando ainda com o espaço fora da sala de aula, ocupei-me com o presente texto. Na mesma ocasião tomava algumas providências que, uma vez iniciado o semestre, acabam sendo sempre adiadas. Pequenos consertos, uma revisão nos armários e mais uma estante, pois novamente se repetia a situação – as novas aquisições sempre “imperdíveis” faziam pilhas sobre a mesa de estudos e disputavam com os CDs mais recentes, igualmente imperdíveis, um lugar ideal.

Enfim, era preciso chamar “seu” Edmundo, o nosso marceneiro. Nos dias em que trabalhamos juntos, eu neste ensaio e ele nas estantes, o incômodo barulho das ferramentas não deu conta de obscurecer aquela sociabilidade de base que saía dos livros para ganhar visibilidade na pratica cotidiana. Nos “recreios”, partilhávamos o cafezinho e conversávamos. Há mais de uma década com “ponto” na 205 Sul, o discurso de “seu” Edmundo traz as marcas que naturalmente respondem a indagações da minha pesquisa, como que traduzindo, de modo singelo, os nexos entre espaço e socialidade e a fecundidade da sinergia que as preside.

Se, como ensina Barbero, o imaginário “no es sólo aquello de que trata un discurso sino aquello de que está hecho”, a prosa de “seu” Edmundo, carregada ainda de um forte sotaque piauiense e eivada de provérbios populares, parece legitimar, apesar dos percalços de sua luta diária, aquele “gosto muito de estar aqui”, tão bem trabalhado por Certeau em suas reflexões sobre lugares, espaços e práticas cotidianas.

Partilhando a experiência comum da quadra, alternando nossos relatos pessoais, desdobro com”seu” Edmundo fragmentos de enredos “empilhados em um lugar” que outro não é senão a quadra, daí as mesmas ressonâncias. É ainda Certeau quem resume:

“O memorável é aquilo que se pode sonhar a respeito do lugar (…) nesse lugar (…) a subjetividade se articula sobre a ausência que a estrutura como existência e a faz “ser-aí” (…) este ser-aí só se exerce em práticas do espaço, ou seja, em maneiras de passar ao outro”.

Não me surpreendi com a compreensão que “seu” Edmundo demonstrou ao naturalizar a justeza dos meus estudos atuais e percebi que, de algum modo, consegui passar-lhe meus propósitos. Com um sorriso significativo, ele meneou a cabeça como que discordando do gesto adotado pelo estudante, e que eu reproduzia ludicamente, para falar sobre o imaginário da quadra. Segundo “seu” Edmundo, “há coisas que mesmo a gente não explicando muito bem, a gente sente. Acho que é o caso nosso com a quadra”.

Ou muito me engano ou pelo menos na primeira parte da fala meu amigo marceneiro entrou em perfeita sintonia com o antropólogo Durand, a quem parafraseou. Para ambos, o imaginário, antes de mais nada, manifesta-se. Percebo que “seu” Edmundo e eu, por diferentes vias, chegamos às mesmas representações sobre a quadra e seu cenário ampliado. Claro que entrevistarei “seu” Edmundo. Naquele final de tarde prosseguimos conversando, e nossas impressões, ao confluírem, revelavam um mesmo “processo de captação espacial”.

Na janela, a festa cotidiana do lago iluminado mais uma vez homenageava, cúmplice e ritualisticamente, a quadra onde moro e seu cenário ampliado, como que referendando a minha escolha.

Texto de especialização da autora, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAC/UnB, organizado pela Professora Cremilda Medina: “Narrativas a céu aberto: Modos de ver e viver Brasília”, 2007.

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