Rememorar

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Rememorar
 
Lá vem Bernardo Sayão
                   – esse gigante no corpo
e na vontade indomável.
 
A chamado, deixa Ceres,
                   trinta mil agricultores
da vila agrícola aquela
                   por ele próprio fundada
nas entranhas de Goiás;

                   lá vem Bernardo, que deixa
sua vice-governança
                   no Estado onde fora eleito;
lá vem recrutando os homens
                   que vêm do Brasil inteiro
pra cortar o "inferno verde".
 
         (Adeus, companheira, adeus!
         "Despedida, despedida,
         Despedida rigorosa.
         A meu amor: despedida
         Como o cravo deu à rosa.")
 
Rumo ao Norte vai a marcha.
                   E são cinco mil valentes,
centenas de caminhões,
                   e de jipes, e tratores,
além das escavadeiras.
                   E vão também helicópteros,
e vão doze aviões pequenos.
Lá vão eles. E se embrenham
                   nas selvas que se iniciam
na outra margem do rio,
                   tocando pro Tocantins.
Lá vão. Segue a derrubada
                   no titânico combate
contra o meio, irracional,
                   de elementos naturais.
 
Meses advém. As mulheres
                   sem os seus homens, saudosas,
à selva se vão, buscando-os.
 
                      ("A sabiá lá no alto
                      Da ingazeira serena
                      Chorava como se fosse
                      Uma viola de pena.")
 
Surgem casas nas errâncias.
                       A caminho, novipousam
riso e lágrimas de crianças.
 
Hoje legiões de colonos
                       ali vivem vida nova
que essas glebas desbravadas
                       são habitadas agora.
 
                       (Vai, meu canto-de-trabalho!
 
                       Eu sou passarinho,
                       Eu sou sabiá,
                       Eu quero fazer meu ninho
                       No fundo do teu quintá.
                       No galinho da limeira,
                       Pra poder te namorá.")
 
 
Stella Leonardos, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Reproduzido do livro "Saga do Planalto"
"A sabiá lá no alto", etc – Versos de Catulo da Paixão Cearense.

 


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