Linha do Tempo

Quarta-feira, 20 de abril de 1960

Partida do Presidente Juscelino Kubitschek – O Presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de sua esposa e filhas, antes de embarcar para Brasília, visita pela manhã o Palácio do Catete, onde se despede de todos os funcionários que não foram transferidos para a nova Capital do país.
A cerimônia, embora simples, sem qualquer protocolo, apresenta aspecto tocante, visto que alguns servidores, não conseguindo conter a emoção, choram ao abraçar o Presidente da República.
O Chefe do Governo faz questão de reunir no seu antigo Gabinete de trabalho todos os servidores do Catete, independente de qualquer categoria funcional e, abraçando um a um, deseja a todos as maiores venturas.
Durante algum tempo de palestra com os representantes da imprensa, o Presidente Juscelino Kubitschek externa os seus agradecimentos a todos que, de qualquer forma, naquela casa presidencial, emprestaram colaboração ao seu Governo, considerando-os como cooperadores dos mais eficientes.
Falando em nome dos jornalistas credenciados no Palácio do Catete, o Sr. Valdemar Bandeira, decano da Sala de Imprensa, agradece as atenções com que o Presidente da República sempre os distinguiu.
Ao retirar-se do Palácio do Catete, o Presidente Juscelino Kubitschek é alvo de significamente manifestação de apreço e carinho por parte de alunos da Escola Rodrigues Alves contígua ao Palácio Presidencial, que, agitando lenços brancos, se despediam do Chefe do Governo. Nessa ocasião, a Sra. Sarah Kubitschek, visivelmente emocionada, não consegue esconder as lágrimas, o mesmo acontecendo com suas duas filhas.
Com esforço, o Presidente da República consegue entrar no automóvel, pois a massa popular que o aplaude dificulta sua locomoção, e somente a muito custo os batedores conseguem romper a aglomeração popular e rumar para o Aeroporto.
O Presidente da República, acompanhado da Sra. Sarah Kubitschek e de suas duas filhas Márcia e Maristela, chega ao Aeroporto Militar Santos Dumont pouco antes das 10 horas sendo aguardado por numerosas pessoas que vão apresentar as despedidas ao Chefe da Nação.
Após os cumprimentar a todos quantos se encontram no Aeroporto Militar Santo Dumont, o Presidente Juscelino Kubitschek, tendo ao lado a Senhora Sarah Kubitschek e suas duas filhas Márcia e Maristela, sobe as escadas do ‘Viscount’, volta-se para a multidão e dá um ‘Viva o Estado da Guanabara’.

 


Foto: Arquivo Público do DF

 

Chave de Brasília – A abertura das solenidades de inauguração de Brasília dá-se com a chegada do Presidente Juscelino Kubitschek à Praça dos Três Poderes, a fim de receber das mãos do Presidente da Novacap a chave simbólica da cidade. O Presidente da República é recebido por grande multidão e, após agradecer os aplausos populares, toma lugar na tribuna fronteira ao Palácio do Planalto, em companhia de sua esposa e filhas e do Senhor Israel Pinheiro. Este, entregando a chave de ouro da cidade, profere discurso em que exalta a construção de Brasília.

Após um orador popular, o Presidente Juscelino Kubitschek profere seu discurso de agradecimento.
Finda a oração presidencial, o Senhor Israel Pinheiro oferece ao Presidente Juscelino Kubitschek o Livro de Ouro onde se consignam os nomes de todos aqueles que construíram Brasília, do Catetinho à Praça dos Três Poderes.
A cerimônia encerra-se com a entrega ao Senhor Israel Pinheiro, pelo Presidente Juscelino Kubitschek, da Ordem Nacional do Mérito.

 

Cardeal Cerejeira – Viajando por via aérea, procedente do Rio de Janeiro, chega a Brasília Sua Eminência o Cardeal Cerejeira, Legado Pontifício, sendo recebido no Aeroporto Internacional de Brasília pelo Presidente da República, Ministros de Estado, Cardeais, parlamentares e autoridades civis e militares, congregações religiosas e grande massa popular.
Logo após descer do avião e ao receber os cumprimentos de boas-vindas do Presidente Juscelino Kubitschek e auxiliares do seu Governo, o Cardeal Manuel Cerejeira ouve a execução do Hino Pontifício e do Hino do Brasil, passando, a seguir, revista a um contingente misto do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, ocasião em que uma bateria do Exército dá as salvas de estilo.
Após essas cerimônias de estilo, o Legado Pontifício é apresentado pelo Chefe do Cerimonial do Ministério das Relações Exteriores às autoridades presentes, dentre elas o Vice-Presidente da República, Sr. João Goulart, o Presidente da Câmara dos Deputados, Sr. Ranieri Mazzilli, o Ministro Barros Barreto, Presidente do Supremo Tribunal Federal, aos Cardeais brasileiros, aos Ministros de Estado e autoridades dos três Poderes da República.
Logo após, o Legado Pontifício, em companhia do Presidente Juscelino Kubitschek e autoridades dirige-se para sua residência oficial durante a sua permanência nesta cidade, recebendo durante o trajeto as mais calorosas manifestações de carinho do povo de Brasília.

 

Missa Solene – Às 23h30m, coloca-se no altar armado na Praça dos Três Poderes, em frente ao edifício do Supremo Tribunal Federal, a Cruz histórica da frota de Pedro Álvares Cabral, trazida de Braga para a Missa da inauguração de Brasília.
A Missa solene em ação de graças, iniciada às 23h45m, é oficiada pelo Legado Pontifício, Cardeal Cerejeira, acolitado pelos Cardeais brasileiros – D. Augusto Álvaro da Silva, da Bahia; D. Jaime de Barros Câmara, do Rio de Janeiro; e D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, de São Paulo.

 


Foto: Arquivo Público do DF

 

A importante cerimônia ao ar livre é presenciada pelo Presidente Juscelino Kubitschek e sua esposa, colocados em local próximo e fronteiriço ao altar; pelas altas autoridades do país, dispostas em área à esquerda do Chefe do Governo; pelos numerosos representantes diplomáticos, colocados à direita, e pelo povo, operários, funcionários e milhares de visitantes.
Antes de ser iniciada a missa é lido um ‘breve’ pelo qual o Papa João XXIII nomeia o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, Patriarca de Lisboa, Legado ‘a-latere’ à inauguração de Brasília. O ‘breve’ é lido em latim e português, sendo, em seguida, o Cardeal Legado conduzido para o trono pontificial a fim de ser paramentado para a Missa.
Todo o cerimonial é descrito por D. Hélder Câmara. O Arcebispo-Auxiliar do Rio de Janeiro exorta o povo brasileiro a, unido, marchar para o progresso que despontava com aquele empreendimento do Governo de Juscelino Kubitschek, considerado no mundo inteiro como um marco glorioso na vida de um povo. As palavras de D. Hélder, pedindo ao povo que orasse pela glória de Deus e do Brasil, são ouvidas em silencio pela multidão que se encontra na Praça dos Três Poderes. O Coro Renascentista canta o “Kyrie Eleison” e, pouco depois, entoa outras peças sacras, acompanhado da Orquestra de Câmara de São Paulo.
No momento da elevação do Santíssimo, a banda do Corpo de Fuzileiros Navais executa o Hino Nacional e todo o logradouro é iluminado por dezenas de refletores.

 

Na imagem, pouco antes da meia-noite do dia 21 de abril de 1960, o Coro Renascentista e a banda do Corpo de Fuzileiros Navais celebram a inaguração da cidade em missa solene em frente ao Supremo Tribunal Federal (Foto: Arquivo Público do DF)

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Terça-feira, 19 de abril de 1960

Cardeal Cerejeira – Chega ao Rio de Janeiro Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal-Patriarca de Lisboa e Legado Pontifício para a inauguração de Brasília. Do "Vera Cruz", em que viaja, Sua Eminência passa para a lancha "Garça", do Ministério da Marinha. No Ministério, a "Garça" atraca junto ao mastro da Bandeira, desembarcando, em primeiro lugar o Cardeal Dom Manuel Gonçalves Cerejeira e o Sub-chefe do Cerimonial do Itamarati. Ao atingir o topo da escada, o Legado Pontifício, após ser saudado pelo comandante do 1º Distrito Naval, dirige-se, acompanhado do Sub-chefe do Cerimonial, para a esquerda do mastro da Bandeira. Os demais membros da comitiva colocam-se em linha, à esquerda e junto à escada em que desembarcaram, com a frente voltada para o edifício do Ministério. Em seguida, são executados os Hinos Pontifício e Nacional, ouvindo-se, simultaneamente, as salvas de estilo. Terminado o Hino Nacional, o Cardeal Cerejeira e o Presidente Juscelino Kubitschek trocam demorado aperto de mão. Findos os cumprimentos, o comandante da Guarda de Honra apresenta-se ao Legado Pontifício e convida-o a passar em revista a tropa. Ao deslocar-se o Legado Pontifício para a testa da Guarda de Honra, o Presidente Juscelino Kubitschek dirige-se para o local onde se encontram as altas autoridades civis, militares e eclesiásticas. Terminadas as apresentações, inicia-se o cortejo e, no momento em que o Cardeal Cerejeira e o Presidente Juscelino Kubitschek se dirigem para o carro presidencial, a Guarda de Honra apresenta continência e a Banda do Corpo de Fuzileiros Navais executa o "Cisne Branco". Tendo à frente o carro presidencial, o cortejo desloca-se em direção à Praça Barão de Ladário. Ao longo da Avenida Rio Branco e demais artérias do itinerário, estavam formados contingentes do Exército, Marinha e Aeronáutica, constituindo o Destacamento Misto, sob o comando de um Oficial-General do 1º. Exército. Na confluência da rua Visconde de Inhaúma com a Avenida Rio Branco, os Dragões da Independência passam a escoltar o cortejo presidencial, ao mesmo tempo em que uma chuva de flores e papéis picados desce do alto dos edifícios da Avenida Rio Branco. Durante todo o trajeto pela principal artéria da cidade enorme multidão aplaude o Cardeal Cerejeira, dando vivas a Portugal e Brasil.   Palácio Itamarati – O Presidente Juscelino Kubitschek preside, no Palácio Itamarati, a reunião da Comissão Brasileira da Operação Pan-Americana, despedindo-se, ao mesmo tempo, do funcionalismo do Ministério das Relações Exteriores. Após a reunião, o Presidente da República dirige-se ao salão em que se realiza o ato inaugural da Exposição de Antecedentes Históricos de Brasília, organizada em estreita colaboração entre o Serviço de Documentação da Presidência da República e a Divisão Cultural do Ministério das Relações Exteriores. Da referida mostra constam vários quadros e painéis, todos documentando a idéia da construção da Capital do Brasil no interior, desde o tempo em que Tomé de Sousa se instalou na Bahia como Primeiro Governador Geral do Brasil. Um dos ângulos mais interessantes da Exposição se situa na documentação referente aos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, em que a sentença de condenação dos acusados faz referencias ao fato de que os inconfidentes também estavam imbuídos da idéia de mudar a capital da Capitania de Minas Gerais, de Vila Rica para São João Del Rei. Enriquece ainda a Exposição uma coleção de mapas antigos, pertencentes à Mapoteca do Itamarati, onde se inclui o Planisfério de Jerônimo Marini, datado de 1518, original adquirido pelo Barão do Rio Branco. Também faz parte da mostra o famoso mapa de Tozzi Colombina, com que esse geógrafo instruiu, em 1750, o seu pedido de concessão para instalar uma linha de diligencias partindo do Rio de Janeiro para atingir os confins do Oeste. Vários objetos históricos que pertenceram a Tiradentes e José Bonifácio também constam da exposição, onde se vê o autografo da Constituição de 1891, em que pela primeira vez figura o dispositivo mudancista. Vê-se ainda na Exposição o original da emenda de Rui Barbosa à redação do mesmo dispositivo, além do farto material fotográfico relacionado com homens e fatos ligados à evolução da idéia da interiorização, desde o Marechal Floriano Peixoto até o Presidente Juscelino Kubitschek, focalizando também a criação da Novacap e a escolha do Plano Piloto de Lucio Costa.   Presidente Gronchi – A propósito da inauguração de Brasília, o Presidente da República Italiana dirige o seguinte telegrama ao Presidente Juscelino Kubitschek: "Ao ensejo da inauguração da nova Capital – Brasília – em dia fausto para a latinidade, quero fazer chegar ao povo brasileiro a saudação e os votos de felicidade do povo italiano e meus pessoais, votos por um futuro de prosperidade sempre crescente, através da constante consolidação das instituições democráticas e do progresso da vida econômica e social. O povo italiano não se sente alheio à intrépida valorização dos recursos inexauríveis da terra brasileira, à qual, sob a orientação válida e genial de Vossa Excelência, se dedica o povo brasileiro com o espírito de iniciativa e a capacidade de trabalho que lhe são peculiares, o que tive ensejo de admirar de perto. Como no passado, o povo italiano deseja contribuir com o trabalho e o pensamento – numa união de propósitos e de obras – não somente no interesse comum dos nossos dois países, como também no tocante a uma convivência mais segura e feliz de todos os povos num clima de liberdade, justiça e paz."   Rodovia Fortaleza-Brasília – Uma caravana de onze veículos, todos de fabricação nacional, parte de Barreiras, Bahia, rumo a Brasília, numa demonstração do adiantamento das obras da rodovia Fortaleza-Brasília. No primeiro dia, a caravana vai pernoitar em Goiás, na cidade de Posse, após percorrer uma grande reta de 215 km no vale que divide as águas do São Francisco das do Tocantins. A caravana dos operários construtores da grande artéria que está unindo o Nordeste à Capital do planalto tem por objetivo, além de dar por aberto ao tráfego o trecho que vai do interior do Estado da Bahia à nova Capital, levar uma mensagem cordial ao grande número de conterrâneos seus que ali trabalham nos serviços de construção civil ou nas vias de penetração que para lá se dirigem, como a Belém-Brasília, conforme se lê numa faixa colocada sobre o primeiro veiculo, saudando "os candangos que, com o espírito de Brasília, construíram a nova Capital". Sobre a rodovia, o Diretor Geral do DNOCS diz à imprensa: "Consideramos aberto ao tráfego o trecho da Nordeste-Brasília que vai de Barreiras à nova Capital com a cobertura do percurso pelos veículos do Departamento em tempo considerado normal para estradas não pavimentadas. A rodovia, naturalmente, carece de obras complementares até o seu asfaltamento, serviços que serão continuados sem interrompimentos. O trecho Fortaleza-Barreiras, cujo prazo de conclusão foi fixado pelo Presidente Juscelino Kubitschek, será entregue ao transito em setembro próximo pelo Chefe de Governo."   Mensagem presidencial – O Presidente Juscelino Kubitschek dirige ao povo carioca, através da Voz do Brasil, a seguinte mensagem de despedida: "A tranqüilidade de consciência pelo dever cumprido se reúne a tristeza do adeus a esta encantadora cidade do Rio de Janeiro que, com inexcedível generosidade, hospedou o governo durante quase dois séculos. A transferência não se faz sem o efeitos de natureza emocional. Confesso que me acho possuído, ao transmitir-vos esta mensagem de afeto e reconhecimento, pela sensação de estar perdendo alguma coisa – o privilegio de viver convosco, altivo, nobre e culto povo que, com o correr do tempo, vim a conhecer melhor e cada vez mais amar. Estou certo de que, embora de longe, o magnetismo da vossa cidade continuará a imprimir caráter particular a decisões fundamentais para os rumos do Brasil e que os vossos centros de cultura prosseguirão jorrando a luz que dirige a marcha do Brasil para o seu grande destino. Bem sabeis que, ao cumprir o preceito da Constituição que determina a mudança da Capital do país para o planalto central, atendemos a um imperativo de nossa formação republicana federativa. Com esse passo, remontamos às nossas raízes históricas e rendemos, aos varões ilustres que se constituíram patriarcas da Nação brasileira, homenagem das mais grandiosas de quantas lhes foram prestadas. Deixo a responsabilidade da administração do Estado da Guanabara a um dos meus mais dedicados auxiliares, Embaixador José Sette Câmara Filho, que demonstrou, em todos os momentos, firmeza de caráter, inteligência arguta e excepcional exação no cumprimento dos deveres. Será ele um digno sucessor dos eminentes prefeitos, Drs. Sá Lessa, Negrão de Lima e Sá Freire Alvim, que o precederam, aos quais, de público, manifesto o meu mais sincero e efusivo reconhecimento pelos inestimáveis serviços prestados à cidade do Rio de Janeiro, durante o meu Governo. Quero render, aqui, homenagem ao vosso último prefeito, Dr. Sá Freire Alvim, honrado homem público, administrador dos mais eficientes, realizador de inúmeras obras que em definitivo há de marcar a sua gestão à frente do executivo municipal. Ao despedir-me, asseguro que, enquanto eu for Presidente da República, há de dar-vos o Governo Federal inteira colaboração, a fim de que o Rio de Janeiro mantenha o titulo com que o mundo todo o consagra – Cidade Maravilhosa."   Indulto – Logo após a leitura de sua mensagem ao povo carioca, o Presidente Juscelino Kubitschek assina o decreto que indulta todos os sentenciados primários, condenados a penas que não ultrapassem três anos de prisão e que tenham cumprido, com boa conduta, um terço das mesmas. O decreto apresenta inicialmente os seguintes considerandos: "…considerando que a transferência da Capital da República para Brasília constitui acontecimento de singular relevância para a Nação brasileira; considerando que todos os brasileiros devem participar desse acontecimento, inclusive os que estão em cumprimento de penas…"  

O presidente Juscelino Kubitschek despede-se do Rio de Janeiro e o mundo inteiro tira os olhos da cidade maravilhosa para conhecer as modernas retas e tesourinhas esboçadas entre curvas árvores do cerrado. Faltam apenas dois dias para 21 de abril.  Uma caravana de onze veículos, todos de fabricação nacional, parte de Barreiras, Bahia, rumo à capital, numa demonstração do adiantamento das obras da rodovia Fortaleza-Brasília. A profecia que virou concreto agora aguarda para transforma-se em vida com a chegada de novos moradores (Foto: Arquivo Público do DF)

Quinta-feira, 21 de abril de 1960

Missa Solene – Ao final da Missa solene em ação de graças pela inauguração de Brasília, cuja celebração começara às 23h45m do dia 20 de abril, Sua Eminência o Legado Pontifício profere vibrante alocução em saudação a Brasília, procedendo em seguida a benção da nova Capital. O Patriarca de Lisboa, nesse ato, segue o ritual preparado pela Sagrada Congregação do Concílio. Após a leitura da benção papal ao povo brasileiro, o Cardeal Cerejeira abençoa a bandeira brasileira, que já ostentava a alteração concernente ao Estado da Guanabara.   Benção Papal – Aos 45 minutos do dia 21 de abril, através da Rádio do Vaticano, diretamente de Roma, Sua Santidade o Papa João XXIII dirige ao Brasil, com sua Benção Apostólica, a seguinte mensagem de saudação: "Aos queridos filhos do grande e nobre Brasil: É com o maior júbilo para o nosso coração de pai comum que aproveitamos a oportunidade da inauguração da nova Capital do Brasil para dirigirmos ao seu laborioso e generoso povo nossa palavra e nossa benção. Muito nos agrada saber que em tão solenes celebrações, em que tomamos parte na pessoa de nosso Legado, sobressaem as cerimônias de caráter religioso, para invocar a Deus novas bênçãos e favores sobre a Nação inteira. Da Bahia de Todos os Santos a Piratininga e ao Rio de Janeiro, sob o impulso do exemplo sempre vivo de Nóbrega e Anchieta, e encorajado pelas proezas heróicas das Bandeiras do Sul e das Jornadas do Norte, o Brasil, pelo arrojo do seu Presidente, assenta os arraiais da sua nova Capital no planalto central de seu imenso e rico território, qual vigil atalaia sobre os destinos da nação. Brasília há de se constituir, assim, um marco miliário na história já gloriosa da Terra de Santa Cruz, abrindo novos sulcos de amor, de esperança e de progresso entre as suas gentes, que, unidas na mesma fé e língua, se tornarão aptas aos maiores cometimentos. Pedimos a Deus que, continuando a derramar em abundância as Suas graças, faça do Brasil uma nação cada vez mais forte, grande e livre, à luz do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja, contra tudo aquilo que lhe possa minar a força, comprometer a grandeza e diminuir a liberdade. Com estes sentimentos e votos ao querido povo brasileiro, hoje espiritualmente reunido, com o seu Episcopado e Clero e, particularmente, ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República e a todas as autoridades, bem como aos técnicos e operários que contribuíram, com as suas canseiras, para a realização de tão grande obra, concedemos, de todo o coração, a nossa especial Benção Apostólica." Despachos presidenciais – Em Brasília, a despeito do intenso programa de festas da inauguração da nova Capital, o Presidente Juscelino Kubitschek despacha com seus auxiliares imediatos numerosos assuntos de interesse da administração pública, notadamente questões ligada à organização do novo Distrito Federal e à instalação dos serviços públicos em Brasília.    

Foto: Arquivo Público do DF

Alvorada – Às 8 horas da manhã, na Praça dos Três Poderes, com a presença do Presidente Juscelino Kubitschek, altas autoridades e grande massa popular, executa a Banda do Batalhão de Guardas o toque da Alvorada, após o que o Presidente da República hasteia o pavilhão nacional, ao som do Hino Nacional. Após o hasteamento da Bandeira, o Presidente Juscelino Kubitschek profere as seguintes palavras:

Foto: Arquivo Público do DF

"Cabe-me a honra de içar neste momento a Bandeira Nacional. Faço-o com emoção que dificilmente poderia exprimir. Esta e todas quantas agora se hasteiam, não importa em que sitio de nosso imenso território, ostentam uma estrela a mais. Porque o país cresceu, se animou do espírito criador, e este espírito criador produziu mais uma entidade na Federação. Ai está a estrela do Estado da Guanabara que se vem juntar aos vinte Estados que giram harmoniosamente em torno de Brasília, Capital Federal da pátria brasileira, centro das futuras decisões políticas, cidade da esperança, torre de comando da batalha pelo aproveitamento do deserto interior.

A bandeira que vai tremular nos céus do Brasil simbolizará um país que se tornou maior. Sinto agora a mesma vibração, o mesmo entusiasmo, o mesmo tremor que sentem todos aqueles que estão praticando o mesmo gesto nos quatro cantos da Pátria. Meu pensamento volta-se, neste instante, para as novas gerações que hão de recolher o fruto de nossos trabalhos e encontrar um Brasil diferente daquele que encontramos, um Brasil integrado no seu verdadeiro destino. Diante da Bandeira Nacional, com suas vinte e duas estrelas, saúdo os pioneiros, os que lutaram para que chegássemos ao que somos, e saúdo os filhos dos nossos filhos para os quais, sem medir esforços e sacrifícios, erguemos as bases da nossa grandeza futura."

Fotos: Arquivo Público do DF

Círculo Diplomático – Às 8h30m, os Embaixadores estrangeiros em Missão Especial à inauguração de Brasília comparecem ao Palácio do Planalto, a fim de apresentar cumprimentos ao Presidente Juscelino Kubitschek, com toda a solenidade prevista no protocolo. De cada um dos Chefes de Missão o Presidente Kubitschek ouve os mais calorosos elogios à nova Capital. O senhor John Moors Cabot, Embaixador dos Estados Unidos da América, entrega ao Presidente Juscelino Kubitschek a seguinte carta do Presidente Dwight D. Eisenhower: "Prezado Senhor Presidente: Vossa Excelência certamente se lembrará de quão grandemente fiquei impressionado durante o nosso encontro em Brasília, em fevereiro último, com o extraordinário empreendimento do Governo e do povo brasileiro construindo essa inspiradora nova Capital. Nesta festiva ocasião da inauguração de sua grande cidade do futuro desejo renovar minhas congratulações a Vossa Excelência pela sua visão e esforço e pelo esplendido espírito do povo livre do Brasil, com os meus calorosos cumprimentos. Sinceramente, Dwight Eisenhower."

Embaixador do Uruguai – Logo após a recepção dos Embaixadores em Missão Especial, o Presidente Juscelino Kubitschek recebe, no Palácio do Planalto, as credenciais do novo Embaixador do Uruguai, Senhor Salvador Ferrer Serra.   Poder Executivo – Após o Círculo Diplomático, o Presidente Juscelino Kubitschek reúne, no Palácio do Planalto, os Ministros de Estado, para instalação do Poder Executivo em Brasília, em presença também dos Embaixadores estrangeiros e de altas autoridades. Nessa reunião, declarando instalado o Executivo, o Presidente Juscelino Kubitschek profere discurso em que assinala a importância do momento histórico.   Congresso Nacional – Enquanto se processa no Palácio do Planalto a cerimônia de instalação do Poder Executivo, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados realizam, em suas respectivas salas, sessões preparatórias da reunião conjunta a celebrar-se mais tarde, presidido o Senado Federal pelo Senhor João Goulart, e a Câmara dos Deputados pelo Senhor Ranieri Mazzilli. Às 11h30m, as duas Câmaras reúnem-se no recinto da Câmara dos Deputados, para instalação solene do Congresso Nacional. Comparecem à solenidade o Presidente Juscelino Kubitschek, o Legado Pontifício, os Embaixadores em Missão Especial, Governadores e Ministros de Estado e altas autoridades civis, militares e eclesiásticas. Discursando, o Senhor João Goulart, Vice-Presidente da República, profere a oração em que declara instalado o Congresso Nacional na nova Capital. Falam, a seguir, o Senador Filinto Muller, Vice-Presidente do Senado Federal e o Deputado Ranieri Mazzilli, Presidente da Câmara dos Deputados.   Arquidiocese de Brasília – Ás 10h15m instala-se no local da futura Catedral de Brasília a Arquidiocese da nova Capital. A cerimônia, oficiada pelo Núncio Apostólico no Brasil, Monsenhor Armando Lombardi, conta com a presença do Legado Pontifício e de altas autoridades. É então empossado solenemente o Arcebispo de Brasília, Dom José Newton de Almeida Batista.   Supremo Tribunal Federal – Ás 9h30m instala-se em seu Palácio, o Supremo Tribunal Federal, em cerimônia a que todos os Ministros comparecem de toga e capelo. A sessão é presidida pelo Ministro Frederico de Barros Barreto, estando presentes nos Ministros Lafayette de Andrada, Vice-Presidente; Nelson Hungria, Villas Boas, Cândido Motta Filho, Gonçalves de Oliveira, Sampaio Costa e Vasco Henrique D’Ávila e ainda o Procurador Geral da República, Sr. Carlos Medeiros Silva. Por motivos justificados deixam de comparecer à solenidade os Ministros Luiz Gallotti, Ribeiro da Costa, Ary Franco, Hahnemann Guimarães e Rocha Lagoa. Iniciando os trabalhos, o Ministro-Presidente profere o seguinte discurso: "Cabe-me, neste momento, a honra excepcional de inaugurar a sede do Supremo Tribunal Federal na nova capital da República dos Estados Unidos do Brasil. Honra que sobremodo me distingue, como magistrado e como brasileiro. E, de fato, esta obra monumental parece simbolizar, na sua importância, a magnitude e importância de um dos Poderes da República, a Justiça, em sua cúpula. Evidencia-se em suas linhas arquitetônicas, em seu acabamento, a realização desse intento de seus idealizadores. E bem é que tão acertadamente se conceitue este Poder, pois, na palavra de Rui Barbosa, "a Justiça é a essência do Estado". Consolida-se, por sem dúvida, o Estado, quando se assegura à sua Justiça a força e o conceito que ela merece. Nesta Egrégia Corte, não é excessivo ressaltar, se julgam e amparam elevados interesses da nacionalidade. Eis o Pretório Excelso em lugar condigno, para cumprir a sua nobre e augusta missão, tão nobre e augusta quanto vital para a nossa instituição democrática, da qual, como poderia ser repetido pelo Mestre inesquecível, "o eixo é a Justiça, eixo não supositício, não meramente moral, mas de uma realidade profunda e tão seriamente implantado no mecanismo do regime, tão praticamente embebido através de todas as suas peças que, falseando ele ao seu mister, todo o sistema em paralisia, desordem e subversão." Como já disse, em outra oportunidade, a fim de conservar a coordenação dos órgãos da soberania nacional, por força do principio fundamental do regime republicano, fixado no art. 36 da Carta Maior, acerca da independência e harmonia dos poderes, sistema de freios e contrapesos, na União e nos Estados, é relevante a função do Supremo Tribunal Federal, guarda e interprete máximo da Constituição e das leis ordinárias, participando ele, destarte, na construção e preservação do regime. E, no uso de sua missão primacial, foram por ele corrigidos até preceitos das Cartas Estaduais. Releva afirmar, outrossim, que esta Corte Suprema, na grandeza de suas atitudes, mas, dentro da esfera traçada pelo Estatuto de 1946, continuará a manter, destemidamente, suas tradições e insuperáveis prerrogativas institucionais, defendendo a aplicação das leis e exigindo respeito ao direito e aos interesses magnos da Justiça. Neste planalto e nesta hora, em que, entre festejos e aplausos, se instala a Capital do País, espero venha a surgir uma nova era, a que tanto aspiramos, para os melhores destinos da nossa Pátria, era que se anuncia no arrojo e suntuosidade deste empreendimento de repercussão histórica, que é Brasília." O Senhor Carlos Medeiros Silva, Procurador Geral da República, profere as seguintes palavras: "Nesta histórica sessão, o Egrégio Supremo Tribunal Federal se congratula com a Nação brasileira no cumprimento de um dispositivo constitucional, sonho dos pioneiros de nossa independência política, promessa da República e hoje realidade. Se outros motivos de júbilo faltassem neste dia glorioso, somente o fato da complementação constitucional, preconizada em três assembléias constituintes, bastaria para que o guardião supremo das leis se regozijasse com os demais poderes do Estado pelo grandioso acontecimento. Mas não é possivel calar-se nesta hora e minguar os louvores ao Chefe do Poder Executivo, Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, e ao Congresso Nacional, que tão decididamente se empenharam para que a mudança da Capital da União para o Planalto Central se realizasse. É um privilégio de nossa geração, aqui reunidos, neste dia que lembra Tiradentes, celebrando Brasília, é honra insigne, para mim, como Chefe do Ministério Público Federal poder falar a Vossas Excelências nesta cátedra. Glória ao Pretório Excelso e a todos os seus membros pelo feliz acontecimento que ora celebramos." O Ministro Nelson Hungria profere a seguinte oração: "Senhor Presidente, estou certo de interpretar o sentimento e a vontade de todos os nossos ilustres companheiros nesta solenissima jornada, saudando em Vossa Excelência, o primeiro Presidente do Supremo Tribunal Federal, na sua nova sede, em Brasília, a nova Capital do Brasil. No mesmo passo, quero congratular-me com Vossa Excelência e com os nossos colegas por nos acharmos nesta nova metrópole, em pleno coração geográfico do Brasil, em que o Poder Judiciário se acha enquadrado neste digno e dignificante Palácio. É bem certo, Senhor Presidente, que aqui não vamos encontrar as comodidades que haviamos conquistado, através de dilatados anos, na velha Capital. Aqui vamos encontrar uma vida talvez cheia de dificuldades, de desajustes, de deficiências sob o ponto de vista material; mas, em compensação, estou certo de que aqui teremos mais tempo, mais vagar, para nossas meditações. Talvez a nossa Justiça seja ainda mais caprichosa em qualidade do que aquela que distribuimos na velha Capital. Aqui estaremos no eixo geográfico do Brasil e poderemos, por isso mesmo, realizar, na frase de Rui Barbosa, que Vossa Excelência acaba de relembrar, o ideal de Justiça como eixo do regime democrático-liberal que nos dirige. Estou certo, Senhor Presidente, de que aqui, longe dos rumores da babilônia carioca, longe daquela cidade tentacular, que nos absorvia até a medula, com o paroxismo do seu struggle for life, nós poderemos fazer uma justiça mais profunda, uma justiça mais refletida e, mais que tudo, revestida do mais puro cunho de brasilidade. Era o que tinha a dizer." Ao declarar encerrados os trabalhos, o Ministro Presidente agradece a presença das altas autoridades civis e militares e outras pessoas gradas.   Marco de Brasília - Às 13,00 horas, em solenidade a que comparece o Presidente Juscelino Kubitschek, inaugura-se o marco histórico da fundação de Brasília, situado na Praça dos Três Poderes, entre os Palácios do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. O marco inaugurado é constituído de um bloco de concreto, revestido de mármore e tendo em seu interior um modelo da cidade, contendo dados relativos à construção da Capital e ainda opiniões emitidas pelas mais diversas personalidades e entidades. O ato foi simples e constou da leitura da "Prece Natalícia de Brasília", escrita e lida, na ocasião pelo orador oficial da solenidade, poeta Guilherme de Almeida. Após a leitura do poema, Guilherme de Almeida oferece ao Presidente da República um exemplar do trabalho, gravado em pergaminho.

Foto: Arquivo Público do DF

Desfile militar e operário - Às 16,30 horas inicia-se no Eixo Rodoviário o desfile militar e operário, diante do Presidente Juscelino Kubitschek e altas autoridades, que passam em revista os destacamentos das escolas militares, que abriram a parada tendo à frente o esquadrão da Escola Naval, seguido da Escola de Aeronáutica, e, finalmente o esquadrão da Academia Militar das Agulhas Negras e o Batalhão da Guarda Presidencial. Seguem-se tropas que integraram as colunas militaress procedentes da Bahia e do Rio de Janeiro.

Foto: Arquivo Público do DF

Após a parada militar, desfilam os operários da NOVACAP, os contrutores de Brasília, engenheiros, técnicos e "candangos", bem como máquinas, tratores, caminhões, máquinas de terraplenagem e toda sorte de engenhos adotados em construções civis. Em último lugar, chegam atletas que conduzem o Fogo Simbólico, que partira da Cidade de Salvador no dia 29 de março e passara pelas mãos de cerca de três mil atletas em seu percurso até Brasília. Na ocasião de receber o fogo simbólico, o acadêmico Osvaldo Orico profere discurso alusivo ao ato. O Presidente Juscelino Kubitschek retira-se em seguida.

Foto: Arquivo Público do DF

Fogos de artificio - À noite, realiza-se um grande espetáculo de fogos de artificio, na Plataforma do Eixo Monumental.

Recepção – Encerrando o programa oficial do dia 21, realiza-se no Palácio do Planalto a recepção às altas autoridades e ao Corpo Diplomático, oferecida pelo Presidente da República e a Senhora Juscelino Kubitschek.