Quando eu era menina em Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias..., Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda

O meu amigo poeta disse que não gostava do hotel vermelho que fica perto do Palácio da Alvorada. Fiquei pensando nisso…Sempre fico pensando nas coisas que o poeta fala sobre Brasília, porque além de poeta ele é alguém que realmente conhece e ama a cidade. Mas ele não gosta do hotel porque é vermelho. E o que eu mais gosto naquele hotel é que ele é vermelho.

Claro, sei bem, de gustis ET coloribus non est disputand. Mas imagino aquele vermelho como o vermelho da terra de Brasília se levantando do chão, aquele vermelho das valas, das trilhas, dos rodamoinhos, vermelho da poeira, vermelho dos nossos lençóis e sobrancelhas, quando eu era menina em Brasília as minhas sobrancelhas e os travesseiros viviam vermelhos de poeira. Vermelho também das caliandras vermelhas que nascem absolutas no cerrado. Vermelho do sangue dos candangos derramado na construção da cidade e vermelho do coração do poeta que ama Brasília…vermelho da alvorada.

Mas ele também não gosta que o hotel fique tão perto do palácio, invadindo seus jardins e tirando a intimidade dos moradores. Bem, o palácio sempre foi aberto, já dizia o John dos Passos, “é um prédio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de águas claras. As divisões internas também são de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta”. Presidente não tem intimidade possível, a transparência e uns bons postos de observação serão sempre o olho do povo tomando conta de quem toma conta do povo.

O autor do projeto do hotel vermelho é Ruy Ohtake, arquiteto que tinha intimidade com Oscar Niemeyer, uma amizade grande e antiga. Eles se viam todos os anos, em data marcada. Punham os assuntos em dia. Oscar gostava das obras do Ruy, e deve ter aprovado de coração e ideologia a cor vermelha do hotel. Ruy é o arquiteto das cores, seus edifícios são azuis, verdes, roxos, róseos, palhas douradas…Ele tem mesmo um dos mais bonitos projetos de arquitetura que conheço, falando de arquitetura social. Um dia ele disse numa entrevista que Heliópolis era um lugar feio. E foi desafiado por líderes comunitários dali a tornar o lugar bonito. Heliópolis era um bairro pobre nos arredores de São Paulo, com todos aqueles problemas de bairros pobres e casas muito precárias, com fachadas sem reboco.

O arquiteto conversou com os moradores, e soube que queriam reboco e pintura nas fachadas das suas casas. Ruy desenhou a rua, casa a casa, num papel e apresentou uma cartela de tonalidades. Cada morador escolheu uma cor, ou várias cores. Com o patrocínio de uma fábrica de tintas, que também deu curso de pintura de parede a moradores desempregados, a pintura foi executada. E o resultado, surpreendente, alegre, maravilhoso, transformou a comunidade, mesmo interiormente.

Além disso, foi feito um projeto de arte e educação, construíram uma biblioteca, um cineminha, uma galeria de exposições, um centro de aperfeiçoamento profissional…Mas o que importa, agora, é a cor. Um morador disse: “Para mim o azul era azul e pronto, mas agora conheço tantos azuis diferentes…” O que leva a pensar, depois dessa disputa entre prosa e poesia, que continuamos sem saber a diferença entre vermelhos e vermelhos…”

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 06/94/2014, sob o título “Vermelho em Brasília”

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