Prometeu de concreto

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Prometeu de concreto
 
Vida atada ao monte da memória,
Sinto no peito o fogo da angústia
Das profecias que em vão cumpri,
Lume de estrelas que um dia perdi.
 
A gênese do homem, estacionada
Na terra tépida, reflexo vítreo,
Lembra a ambição longínqua, corroída
Pela insídia do Olimpo, vil arbítrio.
 
A ânsia dos restos envilecidos
No cimento do sonho, combalida
Nos versos, sim, e vertendo verdades
 
Que cobrem, nuas, o chão do cerrado,
Erguendo equívocas realidades,
E, ainda assim, fecundando a vida.
 
Ah, a utopia entalhando, moldando
Puras visões na argila da vontade,
Ditando o silêncio no vazio
Do mundo povoado pela cidade.
 
Oh! tais são os meus prantos combatidos
No fogo, ardor do riso reduzido
À certeza de mil dúvidas, vida
De degredado, cárcere da carne.
Mas a espera é o predestino,
E o presente dos deuses, falácia
De todos os dons: onde Pandora fica
 
Sobrevive, lúgubre, a audácia.
Breve o tempo destila o acintoso
Sonho e ao meu ventre logrado bica.
 
Paulo Porto, poeta brasiliense.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 


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