Primeira geração

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Primeira geração
 
(continuação)
 
Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
madeira ferro aço acrílico e vidro
nasceu Brasília mineral e semáfora
como um mundana portadora de grande beleza
(objeto do assédio de homens poderosos)
rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva
 
Arrancada do agreste – não obstante – soberana
ave migratória – ave alva (branca) erva
(com gestos de heroína e mártir):
nasceu feminina em suas curvas e meneios
de flor se abrindo à luz do sol
– trevo de quatro folhas quatro estrelas –
vitórias-régias em doces giros navegando
sob o remo dos ventos
Assim nasceu Brasília
a cidade-candango
de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
em creches escolas parques de diversões
e era delas agora a cidade mais que de seus pais
que a fizeram explodir de suas mãos
com seus facões mais afiados que o vento
machados serras de dentes perfurantes
máquinas pesadas a remover entulhos:
o fogo a destruição total
até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
se entregasse como uma puta à violência dos homens
 
O corpo informe da mata jazia triturado
sob relinchos de cavalos encantados
assovios gritos uivos
a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
restou o que não restou como se jamais fora
os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
No aboio e no assovio do candango
mais do que nunca vivo e diligente
agora mais consciente de sua missão
o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
ia-se transformando em paredes de alvenaria
(em aldeias cidades-satélites)
sua comunidade crescendo diversificada e anômala
 
(continua amanhã)
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 


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